Desde o primeiro momento, António Costa declarou que o PS só avançaria com uma moção de rejeição ao governo PàF se tivesse uma alternativa maioritária. Fez bem: apresentou essa alternativa maioritária, aprovou uma moção de rejeição e formou governo. Agora, PSD e CDS apresentam uma moção de rejeição ao governo PS sem apresentarem, como alternativa, uma maioria de suporte governativo, o que levará ao seu "chumbo" na AR. É perfeitamente legítimo, mas pergunto: afinal quem é radical, quem é?
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
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terça-feira, dezembro 01, 2015
segunda-feira, novembro 30, 2015
A principal tarefa de António Costa
Não pode existir uma democracia estável e saudável onde as desigualdades sociais e de rendimentos sejam demasiado elevadas. Onde não exista uma vasta classe média com aspirações e poder de compra. Onde não sejam assegurados suficientes mecanismos de ascensão económica e social. Por alguma razão, ou seja, por todas estas razões, foram o desenvolvimento e a criação de uma classe média fortalecida, que no tempo da ditadura era apenas embrionária, as grandes preocupações do regime saído do 25 de Abril. Umas vezes tal correu bem; outras menos bem. Mas ninguém poderá, de boa fé, negar que os objectivos foram alcançados: com a opção europeia o país desenvolveu-se e conseguiu fazer crescer e fortalecer a sua classe média, assegurando as necessárias possibilidades de ascensão social e a estabilidade democrática ao centro (esquerda e direita).
Foi este "status quo" que as políticas dos últimos quatro anos puseram em causa, enfraquecendo e empobrecendo a classe média e substituindo as possibilidades reais de ascensão social, para muitos, mesmo os mais "remediados", pelo aconselhamento à emigração, enfraquecendo assim as estruturas económicas e sociais garantes da democracia e do bem -estar. Com elas gerou-se o radicalismo e a desertificação de um centro político que até aí tinha assegurado a governabilidade.
Ora, é pois a recuperação desses valores perdidos, que foram sempre os que asseguraram a estabilidade democrática, a principal tarefa do actual governo. António Costa e o PS parecem tê-lo compreendido, optando por pôr de parte os radicalismos, por definir um programa social-democrata moderado e por construir um governo composto por nomes sem grandes cedências à sua esquerda. Que PCP e BE tenham aceitado juntar-se à tarefa e que PSD e CDS, nas suas críticas, não consigam ultrapassar a "vulgata" é bem sinal do grau de destruição e de radicalismo em que uma direita, que nem sequer consegue compreender os mecanismos que asseguram a democracia, fez cair o país.
terça-feira, novembro 24, 2015
António Costa merece uma enorme chapelada
Simpatize-se ou não com o homem (eu simpatizo), goste-se ou não do político e da solução de governo encontrada (gosto só "assim, assim" e o programa de governo envolve riscos sérios), tenham-se ou não todas as legítimas dúvidas sobre a solidez do acordo alcançado (tenho as de muita gente e só um louco não as tem) e tudo o mais o que se quiser chamar à discussão, um António Costa derrotado a 4 de Outubro e para muitos destinado à demissão do cargo de secretário-geral do PS consegue quebrar um tabu de 40 anos com um acordo à esquerda, submete Cavaco Silva a um enorme vexame (Cavaco pôs-se a jeito) e acaba primeiro-ministro indigitado. Para quem ainda tinha dúvidas, convenhamos que estamos perante um político que deve ser levado a sério e alguém que merece uma enorme chapelada. Está dada.
segunda-feira, novembro 23, 2015
As "exigências" de Cavaco Silva
Independentemente da minha concordância ou discordância com as questões levantadas pelo Presidente da República a António Costa - nas quais reconheço alguma relevância - fica a minha pergunta: tendo algumas delas conteúdo programático, tem o PR poderes constitucionais para exigir o seu cumprimento? Se amanhã existir na Assembleia da República uma maioria que, por exemplo, advogue a saída da UE, da zona euro ou se recuse a cumprir o Tratado Orçamental, pode o Presidente da República, do qual os governos não dependem, recusar-se a dar-lhe posse?
Em minha opinião, as chamadas "exigências" da Cavaco Silva destinam-se apenas se não a salvar-lhe a face", o que neste momento já é impossível, mas a limpá-la um pouco perante o povo de direita.
quarta-feira, novembro 11, 2015
Uma direita histérica e um acordo frágil
- Alguma direita portuguesa, incluindo nela alguns ministros da PàF, abriu as portas ao disparate e entrou em pânico e histeria por o país poder vir a ter um governo do PS - com um programa social-democrata mais do que moderado e do qual, se excluirmos as questões de costumes, a democracia-cristã tradicional nem sequer se sentiria demasiado afastada - apoiado no parlamento por PCP e BE, partidos que nem sequer assumirão quaisquer pastas governativas. Sobre o radicalismo dessa direita e a a sua falta de convicções democráticas, estamos conversados. Uma vergonha.
- Para que conste, tenho reservas em relação à natureza e aparente fragilidade do actual acordo PS/PCP/BE e, embora na generalidade esteja ideologicamente bem mais perto deste programa do que do da PàF, não só constato os riscos existentes, como existem medidas, como a redução do IVA da restauração e a questão da TAP, com as quais estou em desacordo. Nada disto me impede, no entanto, de lhe dar o benefício da dúvida e até o meu apoio de princípio e, sobretudo, de não alinhar nos disparates e alarvidades que sobre o assunto tenho ouvido e lido, frutos da má-fé e da ignorância política e histórica.
- Se a direita acha o acordo PS/PCP/BE frágil, ou até muito menos do que isso, que razões tem para entrar em histeria, se prevê a um futuro governo vida tumultuosa e breve? Parece-me que, no fundo, tem apenas medo o futuro não lhe dê razão.
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segunda-feira, outubro 19, 2015
O momento político: resumindo e concluindo
Resumindo e concluindo:
- O Presidente da República deve convidar o líder da PAF para formar governo, devendo este apresentar o seu programa na Assembleia da República excepto se decidir à partida declarar não ter sequer condições para dar tal passo.
- Se o governo passar na AR, mesmo que apenas por abstenção do PS, deve governar nessas condições, se assim o decidir fazer.
- Caso isso não aconteça, isto é, se o governo não conseguir fazer passar o seu programa na AR, o que significa, segundo declaração do seu líder, ter o PS uma solução estável e duradoura, o Presidente da República deve convidar o segundo partido mais votado (PS) para formar governo e este apresentar-se e à solução maioritária encontrada ao julgamento dos deputados eleitos.
- Será esta uma situação ilegal e/ou ilegítima? Não vejo porquê: será apenas uma solução mais frágil por não integrar o parido ou coligação mais votados. Mas será a possível.
O resto é "achismo", futurologia, subjectividade pura ou, pior ainda, especulação e ruído para ocupar o espaço mediático. Será isto assim tão difícil de entender ou Portugal não quer mesmo ser uma democracia liberal de um país civilizado?
sexta-feira, outubro 16, 2015
Podem dois partidos antagónicos coligar-se?
Podem dois partidos com programas diferentes e até antagónicos apoiarem o governo de um deles e até coligarem-se? Mais concretamente: pode um partido que defende a democracia liberal, a participação na NATO, na UE e no Euro (para que não restem dúvidas, defendo todas elas) , formar governo com o apoio de quem defende o contrário e, no limite, é partidário da instauração da ditadura do proletariado e de um regime comunista, de "democracia popular"? Claro que, em certas circunstâncias históricas, tal é perfeitamente possível, aconteceu várias vezes no passado (até entre grupos beligerantes no terreno) e só uma total má fé ou ignorância da História pode afirmar essa impossibilidade. Aliás, basta recuar uns anos, até 1936 e para um país aqui bem perto, e ver como os partidos e as burguesias independentistas ou autonomistas das direitas catalã e basca (já para não falar no republicanismo moderado castelhano) apoiaram e se aliaram à República "vermelha" na guerra contra a direita franquista. E este é apenas um exemplo. É que uma coisa são objectivos estratégicos, de longo prazo, outra, bem diferente, as circunstâncias conjunturais que ditam as alianças tácticas, e talvez não fosse má ideia para muita gente, em vez de andar por aí a dizer disparates demonstrando uma ignorância de arrepiar, perder algum tempo com a leitura dos livros de História ou até mesmo, em última análise, dos clássicos do marxismo. Caramba, a maioria até tem uma licenciatura.
Significa isto a defesa de uma qualquer aliança à esquerda do PS? Nada disso - nem mesmo o seu contrário. Apenas a demonstração de que não será por antagonismo programático e de objectivos estratégicos, mas mais por não integrar o partido vencedor das eleições e enfrentar uma comunicação social adversa, que essa eventual solução governativa apresentará as suas maiores fragilidades.
Nota final: é um triste espectáculo assistir aos jornalistas/"pivots" das televisões debitando nas suas entrevistas, num género de PREC ao contrário, a mais arrepiante "vulgata" da narrativa da direita. Lamentável.
quinta-feira, outubro 15, 2015
António Costa traz a política de volta. Ainda bem.
Ao optar pela negociação à esquerda, tentando alcançar uma maioria por si liderada da Assembleia da República, António Costa, derrotado nas eleições, está também a lutar pela sua sobrevivência política? Óbvio que sim, e, sendo a natural vocação dos partidos e dos seus líderes ascenderem ao poder, ninguém poderá considerar tal coisa ilegal, ilegítima ou ainda menos uma subversão das regras democráticas. Mas ao fazê-lo, convém também que se diga que António Costa está simultâneamente a lutar pela sobrevivência do PS enquanto grande partido com aspirações de governo e, quiçá mesmo, pela manutenção e alargamento do sistema partidário herdado da revolução de Abril.
Se ao trazer o PCP e o BE para a mesa das negociações (veremos com que sucesso - ou insucesso), Costa está a aprofundar a integração dos dois partidos no jogo institucional e democrático, onde, em certa medida, principalmente o PCP já se podia considerar incluído, ao colocar enormes reticências a um qualquer tipo de acordo à direita, ou mesmo a viabilizar um governo PÁF, o actual secretário-geral do PS tenta evitar aquilo que pareceria muito provável, a prazo, com um acordo deste tipo: com a possível conivência de um Presidente da República oriundo da direita, mesmo de um sempre imprevisível e não demasiado dado a alinhamentos Marcelo Rebelo de Sousa, ter de enfrentar, sob a "velha e relha" alegação das "forças de bloqueio", eleições no prazo de um ano, eleições essas onde o risco da direita alcançar uma maioria absoluta e PCP e BE melhorarem as suas votações, em prejuízo do PS, seria tudo menos negligenciável, podendo, no limite, levar os socialista a uma espécie de "pasokização".
Ok, certo, estamos conversados sobre os perigos do acordo à direita. Mas à esquerda eles não existem, incluído a fragilidade de um governo sem a presença ou o apoio do partido vencedor das eleições? Claro que sim, enormes, e escuso de enumerá-los, embora, no caso de acordo à esquerda, o PCP ofereça sempre garantias que me parece nenhum outro partido do espectro político, de esquerda ou de direita, pode conseguir reunir. Mas neste caso, isto é, no caso de PCP ou BE forçarem uma ruptura, interrompendo a legislatura e obrigando a eleições antecipadas, será António Costa, e não a direita, a poder responsabilizar as forças à sua esquerda, reclamando que só uma maioria absoluta do PS poderá impedir a direita de governar, o que levará a uma concentração dos votos da esquerda no partido, fortalecendo-o.
Digamos que numa posição difícil, politicamente quase insustentável, António Costa, um político experiente, escolhe a que lhe poderá render, a si e ao seu partido (mas também, em certa medida, à sobrevivência do regime tal como o conhecemos), maiores dividendos. Isto, meus senhores, principalmente para os que andavam esquecidos ou nunca souberam o que isso era, é a política. Seja bem-vinda.
terça-feira, outubro 13, 2015
De como a direita radical também quer ter o seu próprio PBX "(Partido Berdadeiramente Xuxialista")
Sou do tempo, logo após o 25 de Abril e durante o PREC, em que a esquerda radical e o PCP, face à resistência do PS em aderir a concepções não democráticas do regime, tentavam, por todos os meios, criar aquilo que ficou conhecido na História (talvez com mais propriedade na "petite histoire"), com algum humor à mistura, como o PBX, sigla do "Partido Berdadeiramente Xuxialista". Isto é, aquele que, sem qualquer independência ideológica e/ou programática, aderisse acriticamente a uma espécie de frente de esquerda liderada pelo PCP e destinada, tal como aconteceu em alguns países do leste europeu no pós-WWII, a tomar o poder.
Se como dizia Marx, a História se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa, temos agora a direita radical a tentar criar o seu próprio PBX, isto é, um Partido Socialista sem qualquer tipo de autonomia ideológica e programática que alinhe, mesmo que com suaves críticas, mais ou menos inconsequentes, nas teses actualmente dominantes na direita europeia.
Os resultados, em ambos os casos, não deixariam de ter algumas semelhanças entre si. No primeiro, para além da perda total da democracia, teríamos o PS reduzido a uma espécie de partido satélite do PCP, um género de Demokratische Bauernpartei Deutschlands da antiga RDA; no segundo, uma castração da democracia, com a marginalização de 20% do eleitorado, o fim do enquadramento institucional da contestação e do movimento sindical, assegurados pelo PCP, e a "pasokização" do PS.
Como sempre aconteceu desde o 25 de Abril, independentemente dos compromissos a assumir poderem ser concluídos à esquerda ou à direita, e independentemente também das opções ideológicas de cada um (eu incluído), um Partido Socialista forte e independente é condição essencial para uma sobrevivência saudável do regime. O resto é miopia política.
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quarta-feira, setembro 30, 2015
O PS vai perder as eleições? A direita já tem a uma "narrativa".
A actual direita que nos governa, dominada pela teoria do "pensamento único" e acolhendo-se sob a sigla TINA (there is no alternative), já criou a narrativa que mais lhe convém para o caso de uma cada vez mais provável derrota eleitoral do Partido Socialista e de António Costa: "o PS perde porque alienou o centro político e se aproximou dos partidos situados à sua esquerda". Demasiado simplista (como o prova aqui, e muito bem, Pedro Magalhães), errado (basta ler o programa eleitoral do partido), mas sem dúvida eficaz, como o são também, nesse seu simplismo, as narrativas e explicações vindas dos sectores mais extremistas: ela permite, desde já, começar a tornar dominante um discurso político que abra caminho no PS a uma personalidade como Francisco Assis que reconduza o partido ao redil do pensamento único e a um compromisso com um governo minoritário PSD/CDS e que, como parece claro, outro resultado não terá senão tornar o PS politicamente irrelevante e conduzir a prazo a uma maioria absoluta da actual coligação. Que esta narrativa, com o apoio maioritário dos "media" e a inépcia do PS, possa vir a fazer o seu caminho é coisa que já não me surpreenderá demasiado.
quinta-feira, setembro 17, 2015
Um Passos Coelho em crescendo
Três notas:
- Fiquei com a sensação de que Passos Coelho tinha conseguido colocar António Costa demasiado na defensiva e que, com isso, conseguiu assumir a liderança do debate e colocar algumas dificuldades a António Costa.
- A questão da condição de recurso das prestações não contributivas, a que António Costa não soube dar a resposta directa que se impunha, vai acabar por marcar o debate. Uma coisa é ter razão - e o PS, na sua essência, tem-na - outra, bem diferente, é conseguir demonstrá-la, e António Costa não o conseguiu. Estejamos atentos ao modo como os "media", na sua maioria favoráveis à coligação, e as redes sociais o vão explorar, mas António Costa não sai bem na fotografia.
- Ter um programa estruturado, em certa media complexo e valorizado é um ponto positivo para o Partido Socialista e inovador em eleições legislativas. Mas a complexidade de algumas das suas propostas acaba por ser um problema para as explicações simples e claras que um debate entre candidatos normalmente exige.
quinta-feira, setembro 10, 2015
Um debate clarificador
- Talvez mal aconselhado pelos seus "spin doctors" - uma espécie de "jovens turcos" voluntaristas e radicais -, talvez também influenciado pelas redes sociais onde esse radicalismo, a par do primarismo ideológico e do raciocínio imediatista, dominam, Pedro Passos Coelho ainda não percebeu as limitações do "efeito Sócrates", isto é, que ao invocar os "medos sócratistas" está a falar quase exclusivamente para o núcleo duro dos seus votantes, já que a maioria dos eleitores já percebeu que não só o perfil pessoal de António Costa está nos antípodas do de Sócrates, como não existe semelhança alguma entre o voluntarismo e até irascibilidade política do ex-primeiro- ministro e as cautelas e contenção, por vezes até em excesso, do actual líder do Partido Socialista, expressas de forma clara no programa eleitoral apresentado. Que Pedro Passos Coelho continue a insistir no "efeito Sócrates" é tudo o que o PS e Costa podem desejar.
- Situação idêntica funciona (ou não funciona, para Pedro Passos Coelho) no caso Syriza. Se a eleição do Syriza significou alguma esperança, saudada por todos os que, à esquerda e à direita, se opõem ao actual e "quase único" pensamento dominante, cedo ficou também claro para todos, incluindo para o PS e até mesmo, por outros motivos, para a esquerda radical do "Bloco", que a estratégia estaria condenada ao fracasso. E isso mesmo se reflecte no programa eleitoral do PS, que vai tão longe quanto o actual "estado da arte" da UE o permite, sem pôr frontalmente em causa, ao estilo "derrubar o muro à cabeçada", os seus fundamentos. Na realidade, estamos perante uma estratégia cautelosa, claramente oposta à do Syriza, e muito fácil será para António Costa, que tem fama de tudo menos de ser um temível radical, explicá-la aos eleitores.
- O debate de ontem provou que basta a António Costa, que tem "lastro" enquanto pessoa, cidadão e político, ser um pouco mais autêntico e menos defensivo, pondo de lado as demasiadas cautelas, o estilo quase evangélico de quem pede desculpa por estar ali, o medo de ser visto como"radical" e optando por uma atitude mais pro-activa e por afirmações mais claras, para colher dividendos políticos. Espero o tenha percebido e aprendido a lição.
- Devo dizer que não entendo a opinião dos que afirmam o debate não terá sido esclarecedor. Pelo contrário, desde o PREC e do célebre debate Soares/Cunhal que não me lembro de estarem "frente a frente" duas propostas tão claras e antagónicas. De um lado, o de António Costa, aquela de todos os que se reconhecem nos valores tradicionais da social-democracia, da democracia-cristã e do liberalismo social que criaram a UE e construíram as modernas sociedades e democracias europeias do século XX e do pós-guerra; do outro, o de Pedro Passos Coelho, o lado onde se acolhem todos o que perfilham o conservadorismo mais retrógrado e as emergentes ideologias neo-conservadoras e ultra-liberais, incluindo as suas franjas mais radicais. Depois do debate de ontem, ninguém se pode queixar de não poder escolher com clareza o seu lado.
quinta-feira, agosto 20, 2015
O PS e António Costa no "labirinto" da sua linguagem
"O PS não "promete criar 207 mil empregos"! Apresentou sim o estudo técnico que estima impactos económicos do seu programa" - António Costa no Twitter.
Por muito que António Costa possa ter razão - e acredito o modelo esteja correcto, embora não deixe de ser aquilo que de facto é: um "modelo" - como 99.9% dos portugueses, nem sequer a maioria dos jornalistas fora da área económica irão entender a "nuance", o PS arrisca-se a uma de duas coisas (ou ambas):
- Uma esmagadora maioria dos portugueses irá entender esta afirmação como mais uma promessa eleitoral sem qualquer valor, encolhendo os ombros e, escaldados com as mentiras grosseiras de Pedro Passos Coelho na campanha anterior, irão concluir que "os políticos são todos iguais", tal em nada contribuindo para um acréscimo de credibilidade de Costa, do PS e até do regime.
- Caso venha a ser governo, e por muito que tente esclarecer o seu conteúdo, o PS irá ser permanentemente confrontado, principalmente nas redes sociais, onde o imediatismo e o primitivismo de raciocínio são lei, com esta "promessa", de nada valendo o impacto negativo nos seus resultados que possa advir de quaisquer variações nos outros parâmetros mesmo que fora do âmbito e da possibilidade de controle governamental.
António Costa tanto se preocupa - e bem - com a credibilidade e com o crescimento da votação no partido que essa preocupação acaba, por vezes, por ter um efeito ridículo (caso dos cartazes "evangélicos") e, por outras, o que é bem mais grave, por ter mesmo um resultado político contraproducente.
quarta-feira, agosto 12, 2015
Incompetência
- Incompetência do PS ao desenvolver uma campanha com cartazes que bem poderiam ser da IURD ou da Igreja Maná em vez de potenciarem o seu principal activo: o secretário-geral António Costa que aparece em todas as sondagens com valores muito positivos, superiores aos do partido que dirige, e contrastantes com os dos líderes da coligação.
- Incompetência do mesmo partido ao não se assegurar da concordância dos fotografados para integrarem a campanha de "outdoors" e confirmarem que o seu perfil real se coadunava com a mensagem transmitida.
- Incompetência da coligação Portugal à Frente por não ter verificado o passado publicitário dos modelos utilizados na sua campanha e por, provavelmente (mas quase de certeza), não se ter assegurado de que não iram participar num futuro próximo (dois ou três anos, pelo menos) em acções incompatíveis ou de algum modo conflituantes com a actual campanha política (podem ainda vir a ter desgostos por isso).
Embora estejamos a falar de planos diferentes, como podem deste modo convencer os cidadãos que têm as qualidades necessárias para a tarefa bem mais complexa que é dirigir o país?
quinta-feira, julho 23, 2015
De como o apelo de Cavaco Silva até pode ajudar o PS
Com certeza inadvertidamente, pois não há memória de alguma vez se ter aproximado do PS, Cavaco Silva, ao colocar enorme ênfase na formação de um governo com apoio maioritário no parlamento, acabou por dar uma preciosa ajuda para que António Costa reforçasse o seu pedido de uma maioria absoluta aos portugueses. Porquê? Em primeiro lugar porque, liderando as sondagens, é quem, pelo menos teoricamente - repito, "teoricamente" -, se encontrará mais perto de a atingir. Em segundo lugar porque, pese embora o PCP fixar bem o seu eleitorado e o BE ser já um partido com um núcleo duro de votantes de certo modo definido, credibiliza os apelos dos socialistas para o voto útil à esquerda, sendo o PS o partido que parece estar em melhor posição para poder crescer nas intenções de voto.
Embora - repito - penso não fosse essa a sua intenção, este apelo de Cavaco Silva para uma maioria absoluta pode acabar, portanto, por contribuir para uma polarização no PS do voto contra o actual governo. Isto se, para além das palavras de circunstância, alguém, antes e decidir do seu voto, possa ainda levar em consideração o que diz o actual Presidente da República, coisa de que duvido.
terça-feira, junho 30, 2015
Uma pergunta a António Costa sobre o "caso" José Sócrates
É óbvio que ninguém pode esperar de António Costa outra resposta ao "caso Sócrates" senão o habitual "à justiça o que é da justiça, à política o que é da política". Com o seu ex-líder detido preventivamente, os graves problemas que afectam a social-democracia europeia e o drama grego, António Costa e o Partido Socialista já têm problemas de sobra com que se debaterem e Costa, com razão ou sem ela nesta sua habitual resposta, é um homem sensato e não tem vocação suicidária.
Mas se "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política", alguém já deveria ter perguntado ao líder do PS o que acha de um ex-primeiro ministro e líder partidário ter aceite dinheiro emprestado, favores ou benesses de um accionista (ou dono, se quiserem) de uma empresa grande fornecedora do Estado. Estamos aqui no âmbito estrito da política e não perante qualquer tipo de especulação ou afirmação retirada cirurgicamente do processo, mas perante algo José Sócrates já declarou ter efectivamente acontecido. Claro que seria uma pergunta de certo modo embaraçosa para António Costa (ou até talvez o não fosse), mas para isso existe o jornalismo e não para fazer fretes ou propaganda política repetindo "ad nauseam" a "vulgata" da direita sobre a origem da crise e a situação na Grécia e na UE.
terça-feira, junho 16, 2015
O PS e a privatização da TAP: exigia-se bem melhor
O PS tem gerido de forma desastrosa, no mínimo da pior forma, a sua intervenção política no processo de privatização da TAP.
- Em primeiro lugar, dificilmente terá convencido alguém, fora da esfera dos adversários mais radicais da privatização, que a sua mudança de opinião, desde o governo de António Guterres, com Jorge Coelho como ministro responsável, para actualidade, se deveu não a diferentes circunstâncias políticas e económicas, o que seria lógico e legítimo, mas sim a puro e simples oportunismo partidário, seja, da sua passagem do governo para a oposição. Acresce que as dúvidas que recaem sobre a compra da empresa de manutenção e engenharia no Brasil, negócio ruinoso decidido durante um governo PS, enfraquecem a posição actual do partido dirigido por António Costa, situação que me parece ter sido negligenciada na gestão do actual processo.
- Para além disso, conhecida a ligação emocional dos portugueses com a TAP, parece-me o PS ter explorado bem mais essa vertente do que a apresentação de um racional convincente que justificasse a manutenção do carácter público da empresa.
- Acresce que aquele argumento demagógico e facilmente rebatível relacionando o valor da venda da empresa com o salário de Jorge Jesus é um pouco como a "cereja em cima do bolo" de uma gestão errada do processo, cobrindo de ridículo o deputado Rui Paulo Figueiredo e afectando gravemente a sua credibilidade presente e futura como representante ou porta-voz do partido.
- Por último, custa compreender como o Partido Socialista foi bem menos combativo em processos de venda de activos estratégicos, como a REN, a estados ditatoriais estrangeiros - onde não existe verdadeira liberdade empresarial, de grandes empresas, como a EDP, ao estado chinês, se mantém estranhamente silencioso face ao domínio da Banca portuguesa pelos estados angolano e chinês e guarda para a privatização da TAP, apesar de todas as legítimas dúvidas que ainda possam existir sobre as condições da operação e o seu êxito futuro, uma energia combativa que raramente se lhe tem visto. Exigia-se ao PS, como única alternativa viável a este governo, uma bem melhor gestão do processo.
quarta-feira, maio 06, 2015
A "roupa suja" Coelho/Portas, a política e a oposição
A primeira consequência da discordância entre Passos Coelho e Paulo Portas sobre o modo como se processou a demissão "irrevogável" deste último é, claro, mais uma humilhação infligida a este último. Mas é também claro que este autêntico "lavar de roupa suja", não afectando a solidez da coligação governamental (os casamentos duram para sempre quando, mesmo apesar de um eventual ódio, não existe melhor opção do que partilhar a casa comum), não deixa de causar algum embaraço entre PSD e CDS e, pior, de transmitir ao respectivo eleitorado potencial uma imagem negativa, de alguma fragilidade, o que se pode revelar decisivo para o resultado das legislativas. Digamos que até aqui tudo é demasiado óbvio. O pior, o pior ainda, é que é preciso ir um pouco mais longe e constatar que tudo isto não deixa de se reflectir na imagem que a chamada "classe política" e a própria política, no seu conjunto, projectam nos cidadãos, infantilizando-as e reduzindo a política, não a um confronto de ideologias e conceitos de vida, que se materializam nas propostas de governação, mas a uma actividade onde o que está essencialmente em causa são "tricas", "casos", desaguisados pessoais, vinganças mesquinhas, zangas de comadres e "tutti quanti". Digamos que é demasiado mau e com atitudes deste tipo a coligação até pode estar a prestar, no curto-prazo e para quem tem vistas curtas, um excelente serviço ao PS - e Passos Coelho, para gáudio dos seus apaniguados, um bom serviço ao PSD. Mas o que acontece, acima de tudo e na realidade, é que PSD e CDS estão, com este tipo de atitudes perigosamente perto do grau zero da política, a prestar um péssimo serviço ao país, do qual, da direita à esquerda, ninguém sai ileso. E por isso mesmo é bom que a oposição, antes de não resistir a entrar no jogo do "maledicência", perca alguns minutos a pensar no assunto .
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quinta-feira, abril 23, 2015
6 notas 6 sobre a "Estratégia para a Década" do PS
- Primeira constatação: "Uma Década para Portugal", estudo apresentado por um grupo de economistas a pedido do Partido Socialista, é um documento sério, bem estruturado e coerente na sua relação entre as medidas propostas e os resultados que espera obter. Digamos que o que consta do documento, o seu conteúdo em termos genéricos, "faz sentido". Se aos estímulos propostos corresponderão, nas proporções anunciadas, os resultados mencionados, convenhamos que me parece estar aí o PS a assumir algum risco, mas, nas actuais circunstâncias, é impossível assumir qualquer estratégia alternativa, mesmo que "soft", sem a assumpção de alguns riscos inerentes.
- Segunda constatação: Estamos perante um documento cuidadoso, que pretende ir tão longe quanto possível enquanto alternativa mas dentro do actual quadro das políticas europeias. Estamos, portanto, muito longe de uma qualquer estratégia de afrontamento ou de ruptura, o que significa os erros do Syriza foram aprendidos e assimilados. É pois, uma estratégia "no fio da navalha", com os riscos inerentes à situação, que vai tão longe quanto possível para ser vista como alternativa mas fica suficientemente perto do "mainstream" europeu para conseguir ser implementada nas suas linhas gerais. Também para permitir compromissos abrangentes.
- Terceira constatação: Em termos globais, opõe uma estratégia de "front loading" de crescimento dos rendimentos e do investimento, em teoria potenciadores do crescimento, à estratégia adoptada "in illo tempore" pela coligação "Troika/Passos/Gaspar" de ajustamento via "front loading" das reduções dos rendimentos (directamente ou por via dos cortes profundos na despesa) e do investimento. Podemos dizer - e com alguma razão - que a estratégia agora adoptada pelo PS só é possível em função das opções iniciais da coligação e de alguns resultados entretanto obtidos, mas isso vale também para o actual governo que, apesar disso, insiste no DEO, e apesar de algumas "nuances", nas suas opções de sempre.
- Quarta constatação: desde sempre tenho sérias dúvidas sobre os resultados e objectivos da redução do IVA da restauração para 13%. Em primeiro lugar por uma questão de fundo em relação ao IVA: discordo da existência de várias taxas, consoante os sectores, preferindo se financie quem mais precisa por via das transferências sociais. Em segundo lugar, e no caso concreto, tenho sérias dúvidas a redução do IVA da restauração para a taxa inicial de 13% tenha como resultado uma dinamização significativa do sector, a criação de emprego e/ou a redução do ritmo da perda de postos de trabalho. Mas enfim... estamos - acho - perante uma opção política, já que o sector vale muitos milhares de votos.
- Quinta constatação: mexer na TSU ou no financiamento da Segurança Social é politicamente demasiado sensível e afecta uma boa parte do eleitorado de um país envelhecido e dos potenciais votantes no PS. Mesmo no interior do partido, parece-me irá gerar controvérsia. Quer-me parecer que o PS vai ter que reequacionar a questão, tenha ou não razão nas suas actuais propostas. É a política, estúpido!
- Sexta constatação: perante uma comunicação social maioritariamente adversa e demasiado viciada no "soundbite" (mas será que o PS não contou com isso? Parece-me falha imperdoável), falta ao documento, digamos, uma "ideia-choque" impactuante junto da opinião pública, que o sintetize e chegue com facilidade aos títulos dos jornais e abertura das televisões. Digamos que lhe falta o "obviamente, demito-o" que lançou a campanha de Humberto Delgado, a fagulha que então incendiou o país. Acho que a oposição (à esquerda e à direita) já percebeu isso e tem respondido, maioritariamente, com "slogans" e "soundbites", muitas vezes roçando a indigência intelectual mas que funcionam mediaticamente. E o PS e o impacto do documento estão já a sofrer disso as respectivas consequências.
sexta-feira, abril 10, 2015
Passos Coelho, os custos do trabalho e a não-resposta do PS
Estas afirmações e propostas de Pedro Passos Coelho sobre a redução dos custos do trabalho para as empresas constituem, por si sós, todo um programa político que a actual coligação, com o apoio do pensamento político e económico actualmente dominante na UE, deseja levar por diante caso vença as próximas eleições legislativas. Em face delas e do programa político que encerram, nos antípodas da ideologia e da herança social-democrata europeia, seria de esperar uma reacção crítica violenta (no bom sentido, claro), directa e bem vincada, por parte da direcção do PS, eventualmente tendo como porta-voz o próprio secretário-geral e com ampla difusão mediática. Estranhamente, e embora tenha estado atento aos "media", nada disso aconteceu e o PS perdeu assim mais uma excelente oportunidade de marcar a sua diferença em relação ao seu adversário político. É que não basta afirmar, em abstracto, que o seu projecto político é outro, baseado na qualificação e valorização do trabalho: é preciso estar atento às questões concretas, às oportunidades, e responder de imediato e em conformidade. Não sendo assim...
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