quarta-feira, outubro 31, 2007

O 11 de Março, o "caso Camarate", a ETA e as teorias da conspiração

Nota do “Público” on-line, sobre a leitura da setença relativa aos atentados terroristas de 11 de Março:

“Antes de ler a sentença, o juiz Javier Gómez Bermúdez fez um resumo dos pontos altos do processo, descartando as “teorias da conspiração” e o envolvimento da ETA, afirmando, de forma inequívoca, que os ataques foram perpetrados por uma célula islamista.”

Por mim, acho que neste caso vai suceder um pouco mais do mesmo do já acontecido com o “caso Camarate”: por muito que nada se tivesse conseguido provar nesse sentido, e tudo em sentido contrário, para alguns - parte do PP, Associação das Vítimas do Terrorismo e, por cá, Helena Matos (os bons espíritos...) -, porque politicamente “dá jeito”, o 11 de Março terá sido sempre, directa ou indirectamente, material ou espiritualmente, obra da ETA, como Camarate terá sido forçosamente atentado. Com uma diferença: no 11 de Março a autoria está agora judicialmente provada, enquanto no “caso Camarate”, à boa maneira portuguesa, parece que persistirão sempre algumas dúvidas.

Pacheco Pereira, o tratado e o PSD

José Pacheco Pereira até poderá ter razão nas críticas dirigidas ao projecto político de Luís Filipe Menezes; em minha opinião até tem, maioritariamente. Não pode – ou melhor, pode mas não lhe fica muito bem – é fazer essas críticas, fundamentais e demasiado directas para as tradicionais águas turvas nacionais, e, simultaneamente, oferecer-se como convidado para estar presente no Conselho Nacional saído do último congresso - isto é, apoiante maioritário do projecto e da direcção de Menezes - para prestar esclarecimentos sobre a questão do tratado europeu. Penso que os estatutos permitem esse tipo de convites – e acho que bem -, mas existem questões de ética e bom senso que deveriam sobrelevar todas as outras; e ao fazer essas críticas - justas, acrescento - JPP colocou-se completamente à margem do actual PSD. Infelizmente, existem alguns assuntos perante os quais JPP parece perder um pouco essas suas normais qualidades de inteligência e bom senso. Mais uma vez: é pena!

segunda-feira, outubro 29, 2007

"Arte popular" no "Estado Novo" (7)

Capa de Bernardo Marques para a revista "Panorama" do SNI (1942)

O "estatuto do aluno" e as rasteiras da demagogia

O actual sistema centralizado e “estalinista” de gestão do sistema escolar público - com professores colocados nas escolas por via de um computador central do ministério, que chegam às escolas sem as conhecerem ou saberem algo sobre o meio onde vão ser inseridos, sem que antes alguma vez tenham visto o seu presidente do conselho directivo, em que este é eleito pelos seus pares sem se saber muito bem a quem reporta e junto de quem é responsável, em que as escolas pouca ou nenhuma autonomia possuem na escolha e rejeição dos seus professores e na autonomia da sua organização, em que, enfim, tudo funciona perfeitamente ao contrário de como, em termos lógicos, deveria funcionar, em que os professores não são avaliados e progridem na carreira com créditos conquistados em cursos e cursilhos sobre o modelagem do barro de Estremoz ou o sexo das andorinhas - obviamente que não funciona com eficácia, nem nunca poderia funcionar. É uma aberração. Nada disto é novidade, contudo, e as tentativas de mudar este estado de coisas, que com esta ministra têm existido, pecam por demasiada tibieza. Se haverá ou não força e capacidade políticas para que seja de outro modo, já é outra conversa que, por agora, fica por conversar.

Tendo dito isto, isto é, tendo marcado o meu território, já me parece que querer deixar totalmente ás escolas e aos professores, como o pretende José Manuel Fernandes (ver "Público" de ontem), ao seu “bom senso e autoridade natural” (coisa que não me parece existir com abundância nos actuais professores, quer por desgaste de enfrentar a indisciplina anos a fio, quer por incapacidade e/ou falta de preparação profissional – a maioria dos professores são maus, há que dizê-lo sem medo), as decisões de carácter disciplinar, sem que isso decorra também de um enquadramento geral e abstracto, por muito flexível e adaptável que o seja e deve sê-lo, me parece de uma total falta de senso nas actuais circunstâncias. De tanto falta de senso como querer impor, estritamente, as mesmas regras ou nomear indifrentemente professores para uma escola pública da Cova da Moura, das Avenidas Novas ou de “Alguidares de Baixo”. Por muito autonomia que as escolas da rede pública tenham (o meu território está, como comecei por dizê-lo, bem marcado), elas são isso mesmo – uma rede estruturada – e pretender substituir o actual sistema centralizado e absurdo, “estalinista”, por uma “atomização” completa parece-me um risco a não correr e um disparate sem sentido.

Mas esta questão do “estatuto do aluno” tem sido terreno fértil para a demagogia mais grosseira. Marco, mais uma vez, o meu território: com a actual indisciplina reinante nas escolas e sem que se exija esforço semelhante ao que se exige “cá fora”, uma vez acabada a escola, nada de essencial poderá mudar. Mais ainda, não li o “estatuto do aluno” e receio bem seja “mais do mesmo” no sentido do facilitismo. Mas, devo também dizer, por si só a questão da “reprovação ou não por faltas” pouco diz ou esclarece, e por isso mesmo não me pronuncio sobre ela no sentido mais restrito. Mas afirmar, como o fez ontem Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1, que o sistema (reprovação por faltas) deveria ter tratamento idêntico na escola pública e privada, ajudando esse tratamento desigual a marcar a diferença de qualidade entre os dois sectores, é demagogia da mais rasteira, que não tem em conta os diferentes enquadramentos sociais. Nas escolas privadas os alunos são oriundos, maioritariamente, de uma classe média instruída, com famílias estruturadas que seguem, com pelo menos algum interesse, o percurso escolar dos filhos, que pagam quantias elevadas pela sua frequência e onde, por isso mesmo, a reprovação por faltas, sem mais, poderá mesmo ter um carácter pedagógico, e não significa a possibilidade de atirar o aluno para a marginalidade ou a exclusão, perante o desinteresse da família ou até a criação de uma conflitualidade desta para com a escola. Tratar diferente o que é diferente faz, pois, parte da cultura democrática e, se quisermos, da inteligência política. Era bom que isto fosse tido em conta por quem tem na sociedade um papel de “opinion leader”.

domingo, outubro 28, 2007

Clássicos do Cinema (43)


"Duel in the Sun" de King Vidor (1946)
“Duelo ao Sol” (revisto hoje, para aí pela quinta vez, no Hollywood) foi realizado em 1946, ainda eu não existia. Continua a ser um filme admirável, operático a que não falta uma liebestod Wagneriana, em que todos os elementos e impulsos básicos e mais primitivos da vida se conjugam e repelem: o sol, a terra, a vida e a morte, a paixão, a sedução, a vontade e o ódio, o perdão e o fratricídio. É um filme sobre os impulsos, sobre o como as aparências e as palavras servem apenas para mentir sobre o que é mais fundo e emerge como incontrolável. É um filme contra o bom-senso. Também sobre o progresso e o conservadorismo. É isso, essa tanta coisa – e uma Jennifer Jones capaz de transportar um octogenário de volta à sua mais pujante juventude -, que me faz sempre voltar.

Domingo é dia de "bola"

O Marítimo, terceiro classificado "ex-aequo" do campeonato português apenas a um ponto de segundo (V. de Guimarães) e com menos um jogo do que este, veio jogar ao Estádio da Luz contra uma equipa do Benfica que se tem revelado pouco acima da mediania e uma das piores dos últimos anos. Em caso de vitória ficaria isolado no segundo lugar. Começou a ganhar, sofreu o empate e jogou cerca de uma hora com mais um jogador. Estranhamente, e felizmente para o "meu" Benfica, em vez de tentar ganhar o jogo, resolveu entretê-lo esperando que o empate se mantivesse, sabe-se lá porquê, como se o considerasse uma grande conquista. Acabou por perder, claro, como seria de esperar. Foi bem feito! É assim o futebol em Portugal: provinciano como o país.

sábado, outubro 27, 2007

No país dos sovietes (1)

"Proletários de todos os países, uni-vos" - cartaz de Dimitry Moor (1919)
"Soldier, farmer and worker: the new rulers. The text at the top, 'Proletarians of all countries, unite', is taken from the Communist Manifesto by Karl Marx and Friedrich Engels (1848). The emblem of a hammer and a plough, in the red star at the centre above, is soon replaced by the familiar hammer and sickle."

"When I woke up this morning" - original blues classics (15)


Reverend "Blind" Gary Davis (1896 - 1972) - "You Got To Go Down"

sexta-feira, outubro 26, 2007

Berardo e a SIC

Aparentemente, o “comendador” Berardo – o verdadeiro e único empresário “antifascista e patriota” - está transformado em comentador oficial da SIC Notícias para “fusões e aquisições” e “mercado de capitais”. É parte interessada? Não importa; pois se também muitos dos comentadores e analistas políticos o são, alguns mesmo acumulando essa função com a de dirigentes partidários!

Cinema e Rock & Roll (12)


"Surf Party" de Maury Dexter (1964)

O filme é suficientemente mau, mas serve para ilustrar que também a "surf music" e os "beach parties" chegaram ao cinema. Aqui "Firewater" dos Astronauts, mas o filme conta também com nomes da música popular de fora do "género", como Bobby Vinton, Jackie DeShannon, o que é algo de mais sério (para quem não sabe compôs e interpretou "When You Walk In The Room", sucesso num cover dos Searchers - continuo a preferir a versão de Jackie), e, surpresa das surpresas, Scott Walker.

"Opus Dei" e "ranking" das escolas

Nada que cause espanto, o facto dos colégios ligados ao "Opus Dei" ocuparem sistematicamente alguns dos primeiros lugares do ranking escolar. O objectivo fundamental destes é a reprodução da ideologia e dos quadros da organização, normalmente pertencentes a uma elite intelectual e económica que assim se tenta perpetuar, daí que maioritariamente os seus alunos sejam os filhos dessa mesma elite e tendam a recrutar também os melhores professores, enquadrando-os na metodologia de ensino que serve os mesmos princípios que também já estão presentes no meio familiar. É essa lógica, esse sistema onde não há lugar a disfuncionalidades - de um certo totalitarismo, digamos -, que gera os resultados anunciados. Daí a separação de sexos, que, contrariamente ao anunciado, não tem nada a ver com quaisquer questões pedagógicas strictu senso, mas, isso sim, se limita a reproduzir, também ela, alguns dos valores próprios da organização, integrando-se na lógica acima apresentada.

Funciona? Parece que sim, mas dentro das premissas indicadas, tudo dependendo do que se entende por educação e de quais os seus objectivos, já que esta não é politica nem socialmente neutra. Mas sejamos claros: quando a esquerda e a República colocaram a educação como prioridade fizeram-no apenas com objectivos filantrópicos e altruístas ou também tendo como objectivo a reprodução dos seus quadros e o crescimento da sua base eleitoral, ou seja, a sua perpetuação no poder?

quinta-feira, outubro 25, 2007

Três pequenos comentários sobre futebol...

Três pequenos comentários sobre futebol que não seria muito fácil encontrar nos jornais desportivos:

  1. Simão está a fazer uma época sofrível no Atlético de Madrid, tal como já tinha acontecido quando da sua passagem pelo Barcelona. Como sabemos, também na selecção teve alguma dificuldade em afirmar-se e nunca atingiu o nível do jogo alcançado ao serviço de Sporting e Benfica. Dificuldade em impor-se quando o nível competitivo aumenta? Aguardemos, pois a época ainda vai no seu início.
  2. Mourinho saiu do Chelsea, mas parece que, pelo menos até ao momento, a sua saída não teve repercussões no rendimento da equipa, num sentido negativo. Lidera o seu grupo na "Champions League", apesar do empate em casa com o Rosenborg ainda na era Mourinho, e tem vencido na "Premiership" depois dos resultados menos positivos que se estenderam aos jogos imediatamente a seguir à saída do treinador português. Vamos ver o que se seguirá.
  3. O Braga tem uma equipa macia, de fraca capacidade fisíco-atlética, pouco competitiva que joga lento e de forma previsível, dificilmente suportando ritmos e intensidades de jogo elevadas. Apesar do empate em Bolton, contra um sub-Wanderers, vai ter dificuldades em impor-se na Europa e em qualificar-se para a fase seguinte da Taça UEFA. E mesmo em Portugal...

A Guerra Aqui (mesmo) Ao Lado (27)

Cartaz nacionalista anónimo

"El Bandol Nacional fa del cristianisme la seva bandera i es mostren com a defensors de la religió.
Hi ha molts cartells que es fan ressò d’aquest cristianisme situant imatges sagrades sobre una bandera i relacionant-ho amb Espanya i
Franco. Aquests cartells són molt abundants però de escassa vàlua artística per la seva senzillesa."

Aa propostas da Associação Textil e de Vestuário de Portugal, o ministro Pinho e o ex-ministro Bessa - e, já agora, Carvalho da Silva e a CGTP

Segundo o "Publico" de ontem,

"Os patrões do sector têxtil e do vestuário português querem que o Governo ponha travão às expectativas de aumentos salariais para os próximos anos e que suprima alguns feriados do calendário nacional. É a única forma, segundo Paulo Nunes de Almeida, o presidente da Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP), de "garantir a competitividade das empresas de mão-de-obra intensiva, em particular as confecções". Falando na abertura do 9.º Fórum da Indústria Têxtil, que decorreu ontem no Citeve, em Vila Nova de Famalicão, e de olhos voltados para o ministro da Economia, Manuel Pinho, o presidente da ATP argumentou que o objectivo de o Governo chegar a 2011 com um salário mínimo de 500 euros mensais - o que implica uma actualização anual de 5,5 por cento - coloca "uma boa parte das empresas numa situação de não poder continuar a laborar, pois é-lhes impossível acomodar o aumento de custos, os quais jamais se poderão repercutir nos preços praticados aos clientes, em especial nos mercados internacionais".... ...Mas as reivindicações não se ficaram por aqui. Além de preconizar a redução do número de feriados, e como forma de contrabalançar a subida do salário mínimo, a ATP reclamou a isenção dos descontos para a Segurança Social das horas suplementares, a limitação dos montantes globais das indemnizações por despedimento, bem como a alteração do pagamento do total do rendimento anual dos trabalhadores de 14 para 12 meses, ou seja, o fim dos subsídios de Natal e de férias.

Quase me apetece dizer, à laia de comentário, que, já agora, para evitar quebras de produtividade, os trabalhadores passem a trabalhar algaliados, evitando "nefastas" perdas de tempo com idas à casa de banho, e almocem no posto de trabalho utilizando aquela maquineta inventada para o efeito nos "Tempos Modernos" de Chaplin.

Mais a sério - se é que, com estas propostas, a ATP ainda merece que a tratem com alguma seriedade - será esta desvalorização permanente do factor trabalho a alternativa que algumas associações empresariais têm a propor face à rigidez contratual e à falta de flexibilidade sindical? Pessoalmente, e conhecendo um ou outro dirigente de algumas delas, acho que não, e penso não estar enganado, mas não seria mau que aproveitassem para se demarcar de tais disparates. É que, por este caminho, ainda acabamos por dar razão a Carvalho da Silva e à CGTP, o que não me parece ser lá muito boa ideia. O problema é que estas afirmações foram feitas perante o ministro Pinho que, parece, segundo o "Público", "não tugiu nem mugiu" e com a concordância de Daniel Bessa, ex-ministro do governo de Guterres. Caso para perguntar: "choque tecnológico"? Finlândia? Afinal em que ficamos?

quarta-feira, outubro 24, 2007

História(s) da Música Popular (62)

The Paris Sisters - "I Love How You Love Me" (Barry Mann - Larry Kobler)

The Brill Building (XII)

Ainda antes de conhecer, casar e trabalhar com Cynthia Weil, em 1961, Barry Mann iniciou a sua colaboração, que viria a revelar-se bem profícua, com Phil Spector com este “I Love How You Love Me” escrito em colaboração com Larry Kobler para as Paris Sisters (Priscilla, Sherell e Albeth), um terceto vocal feminino com origem em San Francisco, Ca. e que apenas teve como digno de nota, para além deste tema, um outro também produzido por Spector “He Knows I Love Him Too Much", de uma outra dupla famosa do Brill Building, Gerry Goffin e Carole King. O tema de Mann e Kobler, curiosamente, faz lembrar, e não apenas pelo título, o célebre “To Know Him Is To Love Him”, escrito por Phil Spector e interpretado pelos Teddy Bears, grupo do qual o mesmo Phil Spector fazia parte. Existe também um cover, entre vários, de Bobby Vinton (o mesmo de “Blue Velvet”), mas nada de especial o recomenda.

Por isso, aqui ficam as Paris Sisters.

terça-feira, outubro 23, 2007

Boavista Futebol Clube - um caso exemplar

Se nada se alterar nos próximos dias, e no futebol isso não constituiria qualquer surpresa pois “o que é verdade hoje é mentira amanhã” (ou inversamente, já que vice-versa aprendi com um ex-professor de análise matemática que apenas se usava nos horários de caminho de ferro), o ciclo da família Loureiro à frente do Boavista Futebol Clube irá chegar ao seu fim. Não se trata de mais um caso paradigmático, do pós 25 de Abril, de personalidades de passado duvidoso (neste caso poucas dúvidas existem) que se serviram do futebol para lavar a sua imagem num contexto de confusão ou vazio político, social e económico, por essa via acedendo ao mundo da política e dos negócios (a sagrada trilogia). Este é um caso exemplar e ímpar de um projecto de poder pessoal e familiar - alicerçado no poder económico e político que o Porto-cidade adquiriu num contexto de crise nacional - porque não aconteceu num obscuro clube de província; porque o Boavista F. C. chegou a campeão nacional, a uma meia-final da taça UEFA e a uma segunda fase da "Champions League"; porque Valentim Loureiro foi presidente e homem forte da Liga e porque ocupou cargos de responsabilidade nacional num dos partidos do chamado “arco governamental”. Também porque chegou a presidente de câmara de uma das mais importantes autarquias do país.

Contrariamente ao que aconteceu com o seu vizinho FCP, que cresceu e se afirmou num contexto semelhante, o B.F.C. não foi bandeira de um projecto político e de poder – hoje em dia em recessão - de uma região, exercido através de “testas de ferro” como Fernando Gomes, Luís Filipe Menezes, Nuno Cardoso, Adrianos Pinto e Pôncios Monteiros. Não tinha, na sua base, uma ideologia de suporte mas apenas uma voz tonitruante. Foi apenas e só um projecto de poder pessoal e familiar que, por mais fraco, teve de se afirmar através da ocupação directa de cargos por parte do seu principal intérprete. Por isso mesmo, pela sua natureza familiar, teve também direito a herdeiro-filho varão. Foi uma bolha que cresceu e rebentou à medida das necessidades desse projecto de poder pessoal e familiar, para o qual a entrada no “clube” dos estádios do Euro 2004 era condição essencial de afirmação, o que terá levado à ruína o clube que lhe serviu de veículo e suporte. Teve a condescendência, senão mesmo a conivência e o apoio generalizado, dos “media”, que o apresentavam com um exemplar caso de gestão. Exemplar, sim, mas por outras razões bem diversas das que usaram para nos tentar convencer.

Absolut ads (12)

Anniversary

segunda-feira, outubro 22, 2007

"Lucy in the Sky with Diamonds" (13)

Poster de Martin Sharp para Sunshine Superman de Donovan Philips Leitch (1967)

Daniel Oliveira e os mitos da esquerda

Diz Daniel Oliveira no seu “Arrastão”: “E porque sei a porrada que levo de cada vez que resolvo malhar em Chavez, Fidel ou (crime dos crimes) em Che Guevara”... Pois é, meu caro Daniel Oliveira, sem querer (?) parece que acertou, esse é de facto um dos dramas da esquerda actual, da era global, pós segunda vaga industrial e pós queda do “muro”: a incapacidade para grande parte dela enfrentar e derrubar os seus mitos, o que se reflecte na sua estratégia e prática políticas, claro. Se acrescentar aos que cita, os actuais sindicatos, agarrados à velha estratégia de “classe contra classe” e saudosos das grandes contratações colectivas ligadas a uma estruturação e organização empresariais que não voltam, e o endeusamento do público versus a demonização do privado (verdade seja dita que a direita faz o contrário...), por questões que nada têm que ver com o serviço público e os cidadãos, o ramalhete e a mitologia ficam quase completos. É pena, porque alguma direita ultra-liberal da "blogosfera", tão contentinha de si própria ao estilo ”vejam como eu sou irreverente e digo coisas tão engraçadas” às vezes bem merecia uma boa “coça”. Dada com inteligência, claro!

domingo, outubro 21, 2007

Grandes Séries (22)


"Foyle's War" (início em 2002)

A RTP tem destas coisas na sua (des)programação. Quando menos se espera e a horas impróprias, acaba por passar algo de bem interessante e sem que nada para isso nos chame a atenção. Está neste caso esta "Foyle's War", aos sábados atirada lá para a uma e meia da manhã. Consegui ver dois episódios, não mais do que por acaso e penso a RTP não está a seguir a ordem original, e já me tornei intímo do Detective Chief Superintendent Cristopher Foyle, tão discreto, tímido e contido como a série (o que não é defeito neste caso) e da sua atrapalhada motorista Samantha Stewart. Também da Inglaterra de 1940, da guerra na home front onde também há lugar para crimes e homicídios, espiões falsos ou verdadeiros e criminosos sem castigo por isso ser contrário ao esforço de guerra. E a vida que continua, no sul de Inglaterra.

Se não for noctívago, grave ou então recorra à Amazon. E a pensar que nos tentam convencer com "CSI's" "Donas de Casa" mais ou menos em desespero e "Anatomias" de não sei quem... Uma pequena pérola...

Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente

Há qualquer coisa de insuportavelmente pedante por egocêntrico e démodée, provinciano porque demasiado periférico e subalterno embora pretendendo aspirar ao cosmopolitismo, socialmente bem nascido mas hoje em dia decadente a tendendo para a irrelevância, convenhamos, com algum toque de uma aristocracia saudosa e melancólica, por isso mesmo com algum charme para cativar os incautos ou até os que, assumidamente, suspiram por alguma “patine”, na polémica entre Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente (ver "Público" de hoje). Glorious decadence...

As Capas de Cândido Costa Pinto (35)

Capa de CCP para"O Mistério da Arca de Noé", de Ellery Queen, nº 80 da "Colecção Vampiro"

sábado, outubro 20, 2007

Pergunta sobre o eventual referendo do Tratado Reformador numa "lazy sarturday evening" com a final do mundial de rugby em fundo

Pergunta para aqueles que, como Alberto João Jardim, acham que a não submissão do novo Tratado Reformador Europeu a referendo iria contribuir para um maior descrédito da classe política: se no caso do referendo da IVG, um assunto discutido até à exaustão, com posições radicalizadas e ampla participação dos cidadãos e suas organizações, entre as quais a Igreja Católica, com posições radicalizadas e opiniões apaixonadas, a participação não chegou aos 50%, o que aconteceria, à própria classe política, se o Tratado fosse referendado e aprovado ou rejeitado com uma participação de 20 ou 25% dos eleitores? Mais, que aconteceria se, com uma participação dessa ordem, a diferença entre “SIMS” e “NÃOS” fosse de 1 ou 2%?

sexta-feira, outubro 19, 2007

Grandes Séries (21)

"Two Fat Ladies" (1997)
Não é uma série de ficção, mas também está longe de ser um programa de culinária. Como programa de culinária está nos antípodas dos “grandes criadores” contemporâneos ou do refinement a que associamos a cultura gastronómica, o requinte “gourmet”. Como série de humor, que também o é, é demasiado subtle, subdued para ser de fácil conquista e agrado massificado, mas também por isso mesmo se arrisca a ser de paixão incontrolável e para a vida. E há também as paisagens, a velha moto com "side-car", o verde e o castanho do campo, os fogões AGA e as grandes cozinhas vitorianas, como se de uma recolha da “Country Life” se tratasse. É portanto algo dificilmente classificável, ou melhor, “categorizável” num género. Acima de tudo, é algo endemicamente english, de uma englishness susceptível de gerar incontroláveis declarações de amor ao primeiro "frame" ou uma addiction para a vida. Para outros, os "infiéis", no mínimo um gesto de enfado, quando não de intolerância face ao que consideram um "snobismo" insuportável, bocejo de desprezo ou vómito de nojo.

Foi, mais do que um sucesso, um culto, mas não sei se em Portugal, onde a série passou graças ao “People & Arts”. Pelo menos, tenho tido dificuldade em encontrar entusiastas, ou sequer quem tenha visto. Nada que me espante demasiado ou cause admiração. As “Fat Ladies” são Clarissa Dickson-Wright e Jennifer Paterson, que viveu algum tempo no Porto, morreu em 1999 (era um fumadora incontrolável) e parece falava português. O inglês, esse, é claramente “received”.

Mesmo que gordura não mais seja formosura, ame-as ou deixe-as, as “Two Fat Ladies”. Mas de preferência veja.

Do Tratado e do Referendo ("recall")

Escrevi isto em de Junho deste ano:

"A experiência referendária em Portugal diz-me que os entusiastas do referendo são historicamente aqueles que pensam ver o voto popular referendário decidir a seu favor e de modo diferente daquela que julgam ser, no momento, a opção maioritária da Assembleia da República, também ela eleita pelo voto dos portugueses e por si mandatada para legislar. Foi assim no caso do aborto (votei “SIM”) e foi assim no caso da regionalização (votei “NÃO”). É assim no caso da actual discussão sobre o novo tratado europeu.Vejamos. Quem são os mais acérrimos defensores do referendo ao novo tratado europeu? Fundamentalmente os que, pura e simplesmente, recusam qualquer ideia de uma Europa democrática e capitalista (o PCP e, em certa medida, o BE – que parece ainda andar às “voltas” com a “Europa dos trabalhadores”, que não se sabe muito bem o que seja), os eurocépticos, categoria virtualmente inexistente ou sem expressão mediática antes do 11 de Setembro e da presidência de George W. Bush (imagine-se lá porquê...) e que, sem renegarem a construção europeia, recusam qualquer caminho que possa conduzir a uma Europa mais aprofundada e autónoma, “aliada crítica dos USA”, e, por fim, aqueles, incluídos ou não nas categorias mencionadas, que menos nobres e mais tácticos nos seus objectivos apenas querem aproveitar a oportunidade para criarem dificuldades ao governo mantendo-o sob o fogo de uma guerrilha permanente. Estou a falar de quem tem expressão e voz política, evidentemente. Por alguma razão, uma das vozes mais audíveis em favor do referendo tem sido José Pacheco Pereira, um defensor do “NÃO” ao anterior tratado, um dos maiores críticos do modo como se tem processado a construção europeia e, simultaneamente, defensor das posições da administração Bush, da guerra do Iraque e de algumas (nem todas) posições dos "neo-con". Fácil pois imaginar como um eventual “NÃO” ao tratado, em referendo, colocaria Portugal, o governo e a UE numa situação de dificuldade extrema, sendo que nunca os seus defensores se depararam com uma situação tão favorável a um voto negativo, dada a situação económica do país, as dificuldades levantadas pelos “NÃO” holandês e francês e as mudanças e fragilidades originadas pela abertura a leste. Se quisermos acrescentar algumas resistências, mesmo que marginais, ao desaparecimento do escudo e o fantasma, sempre tão dado a populismos, da partilha da soberania, o “ramalhete” está completo.Pondo de parte a questão da guerrilha institucional (inútil não existindo uma alternativa credível, devendo, isso sim, ser substituída por uma vigilância atenta, obrigando o governo a cumprir com o seu papel reformador e a centrar-se na resolução das questões-chave), devem os partidários do aprofundamento da União e defensores do seu fortalecimento e autonomia - no limite, os federalistas - negarem o referendo? Confesso que a democracia referendária nunca me entusiasmou, com as doses maciças de populismo e demagogia fácil que fatalmente gera. Nunca o defenderei, pois. Mas sempre me parece bem melhor optar por ele – em conjunto com um forte e confiante movimento, sem complexos, de “SIM” ao tratado “por Portugal e pela Europa" – do que por uma fuga envergonhada ao debate e ao esclarecimento, ele sim fortalecedor dos "atlantismos" e "tropicalismos" “do costume”, responsáveis por conduzirem o país durante séculos a uma situação pouco brilhante."

quinta-feira, outubro 18, 2007

Clássicos do Cinema (42) - Deborah Kerr (30.09.21 - 16.10.07)


"From Here To Eternity" de Fred Zinnemann (1953)

A "Guerra" de Joaquim Furtado

Do que gostei mais e menos na “Guerra” de Joaquim Furtado:

+ Um certo despojamento como “mood & tone” da série. Será assim que imaginamos a guerra, crua, sem lugar a artifícios, directa e brutal. Sem footage para “preencher” tempo. Os depoimentos são directos, tanto quanto possível, apresentando os depoentes contra um fundo neutro, indiferente, que acentua e enfatiza apenas o que é dito.

+ Talvez pela primeira vez, de forma bem explícita foi focada a interferência directa dos USA no levantamento da UPA, o que era bem conhecido mas pouco mencionado. Penso igual enfoque irá ser dado ao relacionamento MPLA/URSS.

+ A grande preocupação de rigor e neutralidade, que o referido despojamento acentua, embora por vezes essa preocupação acabe, ironia, por se revelar parcial: por muito que nos custe admitir, não são iguais, para a maioria dos espectadores portugueses, depoimentos de angolanos pretos, ligados aos movimentos de libertação, expressos num português menos perfeito aos nossos ouvidos, e de portugueses ou angolanos brancos, perfeitamente perceptíveis num português sem sotaque. Também os mortos não serão todos iguais...

? Estranho, uma vez que se escolheu a apresentação dos acontecimentos através da cronologia, a ausência de referências ao 4 de Fevereiro (ataque às prisões de Luanda por militantes do MPLA, para libertação dos presos políticos). É um acontecimento de importância relevante, que acaba por impor à UPA a necessidade de agir rapidamente para não ser ultrapassada no terreno pelo MPLA, ligado à URSS e dirigido pela elite política e cultural angolana, negra, formada em Portugal e pelo PCP. O assunto pode vir a ser eventualmente focado quando a série se debruçar sobre o início da actividade de guerrilha deste movimento, não sei.

- A preocupação de restringir os depoimentos aos intervenientes na guerra, de um e outro lado, deixa de fora a oposição portuguesa, republicana e comunista, que no regime ditatorial de então não poderia ter qualquer intervenção directa nas operações e na diplomacia, abdicando assim de um ponto de vista relevante. Não sei se será assim em próximos episódios, e também se, enquanto directamente intervenientes na guerra, se dará voz a desertores e prisioneiros de ambos os lados.

- Mesmo deixando de fora, por motivos lógicos, as chamadas “guerras de pacificação”, travadas em Moçambique e na Guiné nos finais do século XIX e início do século XX (que provam que Portugal não impôs o seu domínio de forma pacífica), a guerra colonial começa, de facto, com os movimentos “satyagrahis” no “Estado da Índia” nos anos cinquenta do século XX, prenunciando a invasão de Dezembro de 1961. Teria sido interessante uma referência, até porque a questão é premonitória do que espera Portugal nas suas colónias - o que põe a nú a incúria do regime -, e não pode ser separada do enquadramento político internacional da época, que é referido na série.

- No primeiro episódio faltou enquadramento social e histórico que permita melhor explicar os contornos da revolta e da violência dos massacres, bem como o facto das diferentes etnias terem nele participado de forma desigual. Como viviam (e conviviam) as várias etnias angolanas e os colonos? Como era a estrutura colonial? Qual o estatuto de cada uma? No fundo, percebemos contra quem se revoltaram alguns angolanos, mas porquê esses e não outros, e o que justificava tanta violência?

Aguardemos, com expectativa, os próximos episódios... mas saudemos desde já o primeiro. Em conjunto com a série de António Barreto e Joana Pontes "Portugal - um retrato social", é, desde já, um dos "momentos" de televisão dos últimos anos.

A propósito do Cazaquistão-Portugal ou de como o futebol até pode ensinar geografia a quem não sabe (e quererá aprender?)

Convém esclarecer os ilustres (mas parece que pouco informados) comentadores desportivos que põe em causa a natureza do Cazaquistão enquanto país europeu que, de facto, uma parte, embora relativamente pequena, deste país (o território ente o rio Ural e a fronteira russa) se situa geograficamente na Europa. O Cazaquistão é, portanto, tão europeu como a Turquia, o que não acontece, por exemplo, com Israel, também membro da UEFA.

terça-feira, outubro 16, 2007

A "guerra" do "Prós & Contras"

Ana Gomes tem razão. O programa “Prós e Contras” de ontem, sobre a guerra colonial, foi um péssimo serviço prestado pela RTP ao país. Ana Gomes aponta alguns erros, incluído a não participação activa das mulheres, independentemente de as ter havido, guerrilheiras de um lado e enfermeiras pára-quedistas do outro. O problema é mais vasto e radica, para além das más escolhas que Ana Gomes também menciona e do subsequente ridículo de muitas intervenções (mas as más escolhas são recorrentes no programa da “Drª Fátima”), na opção pela participação quase exclusiva de militares, combatentes, com a excepção (que me lembre) de Jaime Nogueira Pinto, pessoa estimável mas na altura elemento da ala mais radical do regime e confesso salazarista, e de antigos colonos “retornados” (caso para dizer: “mas que escolhas!...”), pese embora o esforço de um militar mais lúcido como Carlos Matos Gomes para dar um toque mais abrangente ao debate. Sejamos claros, a guerra (qualquer uma) é uma questão política, tanto como o é a paz, e restringir o programa aos militares, combatentes, alienando a participação dos políticos e, tratando-se de uma guerra iniciada há 45 anos e terminada há 33, dos historiadores, só poderia ter resultado naquele que se viu: uma análise parcial, pessoalista, distorcida, demasiadas vezes sem nexo e, por vezes, nas margens da reivindicação ou da psicoterapia e do “shrink” reservados às relações mal resolvidas. Portugal combateu uma guerra nas suas colónias porque a manutenção do império era indispensável à manutenção do regime. Eram indissociáveis. Sem império a única alternativa era a Europa, como o foi, e essa opção seria incompatível com a manutenção da ditadura. Por isso caíram os dois, a ditadura e o império, no mesmo dia. Ainda bem!

História(s) da Música Popular (61)

Barry Mann e Cynthia Weil


The Diamonds - "She Say (Oom Dooby Doom)" (Barry Mann - Michael Anthony)

Barry Mann - "Who Put The Bomp" (Barry Mann - Gerry Goffin)

The Brill Building (XI)
Pois voltemos ao Brill Building e, uma vez encerrado o capítulo dedicado a Gerry Goffin e Carole King, abramos um outro desta vez para a dupla Barry Mann (NY, 1939)-Cynthia Weil (não se diz a idade das senhoras), marido e mulher, também, mas estes parece que para todo o sempre (ou até que a morte os separe).

Antes de conhecer Cynthia, em 1961, e irem ambos trabalhar para Don Kirshner e para a Aldon Music no Brill Building, já Barry Mann tinha alcançado algum sucesso com a sua actividade enquanto escritor de canções, por vezes em parceria com outros nomes mais tarde famosos (Gerry Goffin, por exemplo). O seu primeiro êxito foi escrito para os Diamonds, mais conhecidos pelo seu cover do original dos Gladiolas “Little Darling”, em 1959 e chamou-se “She Say (Oom Dooby Doom), tendo chegado a #18 do hit parade. Mas o seu primeiro sucesso mais sério, ainda sem Cynthia Weil, teve-o como compositor (em parceria com Gerry Goffin) e intérprete (tentou a quase todos, no Brill Building) e chamou-se “Who Put The Bomp”, que entrou no top ten em 1961. Pois aqui ficam ambos, não deixando de lembrar, no entanto, que a maior contribuição de Mann & Weil para a música popular se chamou “You’ve Lost That Loving Feeling” na voz dos Righteous Brothers e graças à colaboração daquele que (controvérsias recentes e longínquas à parte) é o maior produtor de sempre da música popular e a personalidade dominante do Brill Building: Phil Spector. Mas estas já são outras histórias... Lá iremos!

segunda-feira, outubro 15, 2007

Pacheco Pereira e o referendo ao Tratado Europeu

Pacheco Pereira afirma no "Abrupto" a propósito do novo tratado europeu: "Houve tempo em que o referendo não era decisivo, hoje é. Hoje é, por que, todas as vezes que se leva um documento aprovado pelos governos a voto referendário, ele ou passa à tangente, ou é recusado." Não poderia, pois, ser mais claro, Pacheco Pereira, embora isso já se revelasse completamente desnecessário: para ele, como para os restantes partidários do referendo europeu, não existe uma posição política de fundo, em termos gerais e abstractos, sobre o instituto do referendo, e referendar o novo tratado só é decisivo porque acham que, assim, ele poderia esperançadamente vir a ser recusado.
É pena, mas Pacheco Pereira - cujo modelo de comentários me habituei a apreciar em contraponto áquele que é aceite como padrão em Portugal, o de Marcelo Rebelo de Sousa - está a tornar-se, cada vez mais, um analista (ou comentarista) político de causas, normalmente perdidas. Foi assim com Savimbi, foi assim com Bush, é assim no seu combate contra o aprofundamento político da União. É pena, é demasiado inteligente para isso - e também para a servidão a tão ruins causas.

Série "B" (9)

" Curucu, Beast Of The Amazon", de Curt Siodmak (1956)

domingo, outubro 14, 2007

The History Of British Rock (11 - Final)

O PSD e as suas "estrelas"

Confesso que existe algo no PSD que me faz uma especial confusão e me causa estranheza: a especial predilecção do partido pela promoção a figuras de referência de “falhados” politicamente; daqueles que, na sua actividade enquanto governantes e independentemente das suas qualidades pessoais e profissionais, revelaram especial falta de sentido político ou falharam na consecução dos seus objectivos ou na obtenção de quaisquer resultados considerados relevantes. Querem exemplos?

Tenho a maior consideração profissional por Manuela Ferreira Leite, enquanto economista. Penso, também, ser uma pessoa com qualidades pessoais acima de qualquer suspeita. No entanto, politicamente, não deixou marca enquanto ministra da educação e falhou rotundamente enquanto responsável pelas finanças, com certeza não por incompetência técnica, mas por inabilidade política dela própria ou do governo a que pertencia.

Há ainda o caso de Pedro Santana Lopes, elevado à categoria de estrela (ou pop star?) do partido e do congresso de Torres Vedras, abstendo-me eu, por pudor e por se revelarem desnecessários, de quaisquer comentários sobre os resultados políticos da sua gestão no governo de que foi primeiro-ministro e na câmara de Lisboa.

E se quiser ser politicamente incorrecto, não estando em causa o seu perfil enquanto cidadão (antes pelo contrário), podemos ainda falar de Francisco Sá Carneiro, fundador do partido e sua principal referência, ao lado do estrondoso falhanço da “ala liberal”, promotor (ou apoiante entusiasta) daquilo que ficou conhecido para a História como o “golpe” Palma Carlos (cuja derrota acabou por levar ao poder Vasco Gonçalves com os resultados que todos conhecemos) e promotor da iniciativa falhada de apresentar como candidato à Presidência da República, contra a reeleição de Eanes, um desconhecido general com perfil e imagem demasiado “à direita”.

Não tenho uma explicação (talvez um dia pense no assunto), mas acho que os militantes do PSD têm aqui matéria para aturada reflexão - se é que isso lhes interessa.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A "autarcização" do PSD

Parece estar a assistir-se no PSD a uma “autarcização” (não sei se a palavra existia no momento anterior a este) do partido, entregando-o à província, às suas estruturas locais, ao arbítrio dos seus pequenos gauleiters, à lógica da concelhia e da secção, das quotas e das lealdades, das fidelidades traficadas. Sob a capa do poder das bases, da crítica aos barões, do “ouvir os militantes” prepara-se o nepotismo, o discricionarismo porque legitimado pela “vontade do povo” tornada estrutura orgânica, a “desidiologização” em nome dessa razão única, última e indiscutível, onde o apego às ideias, à política e aos conceitos se tornará numa incomodidade, e os seus defensores em personagens de um qualquer Farenheit 451 destinados a ler livros no degredo das florestas. Não vale sequer a pena pensar e especular sobre os nomes escolhidos para os orgãos do partido, porque, em última análise, esta será a lógica, e os nomes – pormenor de somenos - serão os que a ela se submeterem, apenas e enquanto o fizerem. Tenham medo; tenham muito medo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

The History Of British Rock (8)

"Quem tramou Roger Rabbit"? (desculpem, o governo)

Uma pergunta que apetece imenso fazer a propósito da actuação da PSP e GNR na manifestação de Montemor-O-Velho e no Sindicato de Professores da Covilhã: será que alguém ainda é suficientemente ingénuo para pensar, em tempo em que organismos, instituições e empresas do estado se transformaram em campo preferencial de luta política e partidária (com a conivência, ao longo dos tempos, dos partidos políticos, entre os quais o que apoia o actual governo, note-se), que a actuação da GNR em Montemor e da PSP no Sindicato dos Professores da Covilhã, de politicamente tão estúpida para o governo e aproveitando a todos menos a este (e independentemente de questões de excesso de zelo e de ambiente geral incentivador a considerar - mas Sócrates fez bem em confrontar os sindicatos), é alheia a essa mesma luta? Principalmente, quando as associações e organizações profissionais das forças de segurança têm sido parte activa e interessada nesse mesmo processo? Penso ainda vamos acabar por concluir que a principal acusação que se pode fazer ao governo, neste caso, é a de falta de comando e controle da hierarquia dessas mesmas forças de segurança...

O "Gato Maltês" contra a pena de morte

terça-feira, outubro 09, 2007

The History Of British Rock (7)

"Que floresçam mil flores"... (15)

José Rodrigues dos Santos

Neste país parece que os funcionários do Estado e das empresas públicas decidiram, motu proprio, substituir as suas lealdades e responsabilidades a que se obrigam perante as respectivas hierarquias e empregadores por igual (?) relação para com uma entidade abstracta chamada “opinião pública”, usando, para isso, os “media” e fazendo dos seus empregos plataformas de luta política e ideológica. Exemplos? Os dois últimos chamam-se Dalila Rodrigues e José Rodrigues dos Santos, para além de exemplos anteriores, menores, de médicos de Centros de Saúde e etc. Pergunta: será que JRS alguma vez discutiu o assunto internamente, com a sua hierarquia, ou, em última análise, apresentou queixa ao seu Sindicato e respectiva comissão deontológica, o que seriam os normais procedimentos?

Nota: não está em causa o profissionalismo de Dalila Rodrigues ou a veracidade das afirmações de JRS: tudo leva a crer este esteja a descrever a realidade do dia a dia das televisões, e não só da pública (lembram-se da TVI e dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa?). O que está em causa, isso sim, é um determinado tipo de comportamentos e procedimentos que subvertem completamente os modelos organizacionais pelos quais se tem de reger uma empresa, seja ela pública ou privada. Apenas isto e nada mais. O resto – e não faltará agora aí quem venha falar de democracia em risco e restrições à liberdade - é poeira atirada para os olhos.

Da "Segurança" a propósito do "Prós e Contras"

Sendo Portugal, comprovadamente, um dos países da Europa e do Mundo mais seguros – falando de criminalidade e potencial actividade terrorista” - não vou ao extremo de dizer que o tema “segurança” é um "não-tema”, mas ocupa seguramente mais espaço e tempo (também recursos?) do que seria desejável em função dessa mesma importância real na vida e resolução dos principais problemas do país. Por exemplo, a questão da hipotética célula, ou existência de actividades da ETA em Portugal atingiu as raias do ridículo. E essa sobre-importância só acontece por um conjunto de razões, algumas das quais são mais ou menos óbvias:

  1. É um assunto que “lida” com aquilo que é considerado ”de mais sagrado” na vida das pessoas, seja, o património e a vida, em relação aos quais tudo tem tendência para ser exacerbado, criando mitos, ansiedades e fantasmas onde, se a racionalidade “mandasse”, isso não se justificaria. Acresce que o atraso da sociedade portuguesa, a pouca educação da maioria dos seus habitantes e a sua ainda demasiada ligação a um meio rural – a sociedade cosmopolita e urbana é ainda algo que funciona um pouco como uma “agressão” - favorecem a criação desse mesmo clima, facilitam a emergência desse sentimento tal como acontece com o temor reverencial face à morte e à doença, esta, muitas vezes, referida através de eufemismos (não se tem uma neoplasia ou um cancro, mas “uma doença má” e morre-se de “doença prolongada”.
  2. Por outro lado, tudo isso torna a questão da “segurança” facilmente “mediatizável” e, pior, “tabloidizável”, algo “simples” em que o povo se vê reflectido e que “faz ouvir a sua voz”. Uma parte significativa da criminalidade mais violenta tem ainda que ver com dramas passionais, traições, amores e desamores resolvidos em vinganças ou, então, questões relacionadas com o tráfico ou roubo por via de questões de droga, um inimigo recente que está na “porta do lado” e com o qual ainda não se aprendeu suficientemente a conviver ou eficazmente a combater, o que aumenta o medo, o tal temor reverencial.
  3. Last but not least, demasiada gente e corporações poderosas, de algum modo, vivem ou estão dependentes, directa ou indirectamente, da “segurança”, desde o aparelho judicial às polícias, da advocacia aos “media”, o que funciona como um elemento catalizador do tema.

Junte-se a tudo isto, mesmo sem ser preciso agitar demasiado, os ultra-securitários de “última hora”, isto é, os do pós 11 de Setembro (não estou a minimizar a questão, mas, neste caso, estamos a falar de uma faceta da "segurança" ininteligível para 99% da população portuguesa), mais a gritaria habitual de PCP e “Bloco” contra a ridícula extrema-direita do PNR e aí está o resultado esperado: “much ado about (almost) nothing”.

segunda-feira, outubro 08, 2007

The History Of British Rock (6)

A Polónia e José Manuel Fernandes

Pois estava eu deprimido, triste e macambúzio sem saber que destino dar hoje ao “Gato Maltês”, quando, de repente e graças ao “Público”, companheiro fiel que nunca me deixa ficar mal, dou com este suculento naco de prosa assinada por, nem mais nem menos, o seu director, José Manuel Fernandes (JMF), e sobre uma sua visita à Polónia. Como se dizia em tempos, passo a citar:

“Mais: o crescimento económico e a emigração quase acabaram com o desemprego e, para construir as auto-estradas que a UE financia, há empresas a recorrer a imigrantes asiáticos. Como é isto possível? Talvez porque poucos povos sofreram como os polacos nos últimos dois séculos, e nenhum sofreu tanto na II Guerra, que dizimou um quinto da população. Só que também poucos se reergueram tantas vezes, e nenhum o fez de forma a abrir a brecha que faria ruir o mundo comunista. Terem atravessado tantos "vales de lágrimas" e de novo estarem a mostrar que estão vivos, inquietos e determinados, fazendo com que vozes tão distintas os vejam como exemplo a seguir, permite aos polacos terem, pelo menos, direito a que lhes concedamos o direito de tratar dos seus problemas políticos, sem pressões externas.”

Bom, passemos ao lado da prosa estilo “fazer chorar as pedras da calçada” e da análise sobre a história polaca capaz de ter sido escrita, ou dita, referência à queda do comunismo à parte, como é óbvio - a não ser que tivesse dons de pitonisa -, por qualquer dona de casa burguesa dos anos cinquenta ou sessenta, versada em piano e em francês, depois de uma leitura rápida do "Paris Match" e no intervalo do chá e da canasta com as amigas. Passemos, pois.

Mas mais difícil será passar ao lado de outras duas afirmações de JMF. Em primeiro lugar, quando afirma que “o crescimento e a emigração quase acabaram com o desemprego”. Pois é, isto de crescimento económico por via da construção de auto-estradas (e outras obras públicas) também já tivemos por cá e, a mim, leitor atento de JMF, não me consta que nos tenha conduzido muito longe nem que JMF esteja muito satisfeito com o resultado. É que já o li, e bem, a contestar o novo aeroporto de Lisboa e o modelo de desenvolvimento que está na sua base... Mais ainda, solucionar o problema do desemprego com recurso à exportação de cidadãos também não só não me parece ser lá grande ideia (os ditos cidadãos talvez não gostem lá muito) como também já se viu por cá, nos anos sessenta, acrescentando-lhe ainda a guerra colonial para dar uma ajuda a essa mesma exportação (os que iam para a guerra e os que não queriam ir). Ah, e também já se viu na Irlanda, no século XIX, e por aí fora. Qual a perspectiva histórica de JMF sobre o assunto?

Mas pior, pior ainda, é quando JMF pede que se atribua aos polacos o direito de tratarem dos seus problemas políticos sem pressões externas, leia-se, serem estado-membro da União sem “Tratado Constitucional Europeu”, sem” Dia Europeu contra a Pena de Morte” e com o seu ultra atlântismo militante – e tudo o mais. Sabemos bem das posições políticas de JMF face à UE, e por aí fora, mas será que JMF conhece algum estado, algum mesmo (não vale dizer St. Kitts and Nevins – e mesmo assim...), que tenha direito a tratar dos seus problemas políticos sem pressões externas? Ainda por cima, quando se é membro de uma instituição como a UE – ou a NATO, ou a OCDE, ou, ou... Mas digam lá, não era isso mesmo que pediam os comunistas, cá do burgo e de outros burgos, quando bramavam contra as “interferências do imperialismo” durante o PREC? Ou será que JMF também não quer sujeitar a pressões os presidentes Hugo Chavez, Fidel Castro e etc? Ou o Estado de Israel, que até é uma democracia, para que reconheça os direitos dos palestinianos? Mau exemplo este último: é que, em face das suas posições, se calhar não quer mesmo!

domingo, outubro 07, 2007

The History Of British Rock (5)

Algumas recomendações sobre "Planet Terror"

Recomenda-se vivamente “Planet Terror” a “parte” de Robert Rodriguez do díptico “Grindhouse”. Até se recomenda mais do que a “parte” de Tarantino, eu acho. Mas também se recomenda o seguinte: se é muito impressionável – ou apenas impressionável “assim-assim” - recomenda-se fique em casa; mesmo não o sendo, condição indispensável para ousar ir vê-lo, recomenda-se vá longe da noite e, principalmente, bem longe da hora de jantar, evitando molhos e massas nesse mesmo jantar; ir acompanhado dá algum jeito, também se recomenda. Eu confesso sou “alguma coisa” impressionável e fechei várias vezes os olhos. Fui ver às duas da tarde e tento agora ganhar coragem para jantar lá para as nove, depois do “glorioso”. Estavam umas seis ou sete pessoas na sala, no Monumental, e resistimos três até ao fim – bem contadas. Confesso, várias vezes hesitei e pensei desistir. Fiz um esforço – o filme e eu merecemo-lo. Vá ver, recomendo, mas escolha bem a quem diz que a recomendação é minha.

sexta-feira, outubro 05, 2007

The History Of British Rock (3)

"Madeleine McCann e o Caso do Polícia Falador"

  1. Infelizmente para todos, e por via do chamado “caso Joana”, os antecedentes recentes da PJ de Portimão e do inspector Gonçalo Amaral estão longe da reputação inatacável.
  2. Desde o seu início, desde a própria noite do desaparecimento de Madeleine McCann (não será necessário adiantar as razões: são de todos bem conhecidas) que o caso continha em si todos os ingredientes para se tornar de resolução difícil, mediático (pior, feito à medida dos tablóides ingleses) e com repercussões internacionais. Requereria, pois, o maior bom senso, sobriedade e rigor no seu tratamento por parte da PJ, seja, colaboração imediata da polícia britânica, com meios mais sofisticados e actualizados e larga experiência em casos semelhantes (basta ver com regularidade a Sky News e acompanhar algumas séries policiais inglesas que, ficção à parte, acabam por reflectir o que se passa na sociedade), preservação do local do crime, não subalternização de nenhuma hipótese ou potencial suspeito credíveis e, uma vez que estamos a falar de cidadãos de um outro país, com hábitos e cultura diferentes, e de um caso que envolve algo de sentimentalmente doloroso como o desaparecimento de uma criança, algum pudor nos comportamentos do “dia a dia” que, por exemplo, evitasse o triste espectáculo dos prolongados almoços com vinho e whisky que caíram como “sopa no mel” na voracidade dos tablóides ingleses - e não só.
  3. Como se sabe, a PJ de Portimão não só não actuou neste registo como, desde o princípio e através de comentadores ex-inspectores e outros Flores, nos tentou vender a tese da “cabala” e da conspiração, das pressões neste ou naquele sentido (não será tempo de os portugueses se convencerem, de uma vez por todas, que as ditas pressões fazem parte da nossa vida e saber trabalhar e decidir sob pressão é normalmente o que distingue os muito bons dos restantes?) que, normalmente, existam ou não, não são mais do que manifestação de impotência e capitulação face à resolução do projecto que se tem pela frente. A entrevista de Gonçalo Amaral foi apenas o último episódio dessa impotência.
  4. Também foi visível, durante todo o processo e com maior evidência quando elas pareciam tornar-se mais necessárias, a avareza com que governo, director da PJ e quem de direito prodigalizaram declarações de confiança e apoio à PJ de Portimão, seja por falta de confiança no seu trabalho ou por quaisquer outras razões. Para a opinião pública, a partir de determinado momento isso passou a ser um dado do problema; os operacionais da PJ ter-se-ão apercebido disso, por certo, bem mais cedo. Não me parece que tenham tido isso em atenção, e se o tiveram actuaram como não deviam.
  5. Independentemente da natureza do crime e de quem o cometeu, o que não vem agora ao caso, para a PJ de Portimão e para o inspector Amaral, por culpa própria, o caso só poderia acabar assim: uma vergonha e um enxovalho. Um atestado de incompetência.

O discurso do PR e o "Público"

O “Público” on-line titula a propósito do discurso do 5 de Outubro do Presidente das República o seguinte: “Cavaco Silva propõe “novo olhar sobre a escola”, com figura do professor prestigiada”, o que, tendo em atenção o habitual discurso das estruturas sindicais da classe, pode, de imediato, suscitar uma leitura crítica à actuação do governo e do ministério da educação e uma defesa das posições mais radicais dos sindicatos dos professores e da FENPROF. Se verificarmos com mais atenção, o que Cavaco Silva efectivamente também disse foi o seguinte: “em larga medida, a dignidade da função docente assenta no respeito e na admiração que os professores são capazes de suscitar na comunidade educativa junto dos colegas, pais e alunos”, o que dá ao seu discurso um significado completamente diferente e pode ser interpretado como uma crítica a algumas dessas posições corporativas assumidas pelo respectivos sindicatos.
Assim se (des) faz uma notícia...

quinta-feira, outubro 04, 2007

The History Of British Rock (2)

As "reformas" de Luís Filipe Menezes

Segundo o RCP (Rádio Clube Português), Luís Filipe Menezes irá apresentar ao congresso do PSD algumas propostas de alteração constitucional. Independentemente da opinião que possamos ter sobre essas mesmas propostas, e a minha é diversa - por exemplo, estou de acordo com que sejam expurgadas da constituição algumas referências ideológicas sem qualquer aplicabilidade actual, tenho muitas e sérias dúvidas sobre a redução do número de deputados e os círculos uninominais, sou frontalmente contra a regionalização e a eleição directa dos presidentes de câmara, neste caso um “frete” à base de apoio de LFM (deve seguir-se um sistema semelhante ao da eleição da AR sendo o leader do partido mais votado eleito presidente com a obrigatoriedade dos vereadores serem deputados municipais) bem como em relação ao reforço dos poderes presidenciais (acho que o regime se deve tornar tendencialmente parlamentar depois de cumprido o mandato e o período de reeleição do actual PR) e, embora favorável em teoria ao aprofundamento das autonomias insulares, não tenho opinião formada sobre este caso concreto -, repito, independentemente da opinião que possamos ter sobre essas mesmas propostas, elas têm um denominador comum: são populistas (basta ouvir nos diversos fóruns a opinião sobre os políticos e o papel dos deputados, a descentralização, a imagem – sempre positiva – da instituição presidencial, etc) e nenhuma delas é relevante para a resolução dos principais problemas da sociedade portuguesa, sejam, a sustentada estabilização orçamental, a redução da despesa corrente e a definição do papel do estado, a reforma da administração pública, a melhoria de competitividade e aproveitamento no sistema de ensino, as condições oferecidas ao investimento estrangeiro, a definição e implementação de um modelo de desenvolvimento que ponha fim ao ciclo do betão e das obras públicas, a mudança progressiva do padrão das nossas exportações no sentido de uma maior incorporação tecnológica e valor acrescentado e, por fim, a justiça. “Much ado about nothing” ou – vamos lá falar português em época de vindimas – “muita parra para muito pouca uva”. Porque será? Respondeu que o objectivo é mesmo este? E se tivesse razão?...

Oscar Cardozo e o "meu" Benfica


Oscar Cardozo, o nº7 ponta de lança do “meu” Benfica, é demasiado lento. Pronto, não é por aí: com aquele perfil morfológico é normal que o seja e se não o fosse talvez valesse trinta milhões e não jogasse no Benfica. Ainda compro essa. Tem, salvo erro, 1,93 mas é medíocre no jogo de cabeça. Tem boa compleição fisico-atlética mas não tem poder de choque, dificilmente ganhando um despique na luta “corpo a corpo”. Certo, tem boa técnica de remate com o pé esquerdo, mas precisa de tempo e espaço para a aplicar, coisas que aqui pela Europa, por rarearem, se vendem ao preço do caviar “Beluga” ou do oiro em pó. Ah, e também não tem demonstrado ter poder de desmarcação para aplicar o esse seu remate. Pergunta: alguém o viu jogar – “com olhos de ver” – antes de se a resolverem contratá-lo por 9 milhões? É que, ou muda muito ou arrisca-se a ser um dos maiores flops do Benfica no últimos anos, e sabe deus que lá pelas bandas da Norton de Matos, nesses últimos anos, isso tem sido bem menos raro do que o espaço e o tempo para chutar - ou que o caviar “Beluga”!

* agradeço a José Pacheco Pereira, que até nem gosta de futebol, e ao seu "Abrupto" a ideia do símbolo "de pernas para o ar"

terça-feira, outubro 02, 2007

"Gato Maltês" no "Público" de hoje

Este blog viu um excerto deste seu post transcrito no "Público" de hoje. Aqui fica a menção com os meus agradecimentos.

Aristocratas da política

Gostei de ouvir ontem Mário Soares, na SIC Notícias, afirmar a Mário Crespo que tinha com o dinheiro uma relação puritana, algo que só é possível acontecer a quem já nasceu com o suficiente para nisso sequer não pensar. É uma afirmação que remete para uma relação aristocrática com a vida e com a política, esta vista como actividade lúdica mas também como um “dever de classe”, nunca como um “trabalho” ou “profissão” – muito menos um sacrifício – categorias destinadas a quem, fora do círculo restrito dos “cavalheiros”, tem necessidade de ganhar a vida, o que os afasta, à partida, de qualquer desígnio de grandeza. Foi como se, de repente, tivessem passado por mim homens como Churchill, De Gaulle, Franklin D. Roosevelt, John Kennedy ou, em Portugal, Sá Carneiro e o próprio Mário Soares (para não falar do próprio Álvaro Cunhal, com a especificidade da sua vinculação ideológica). Por alguma razão, concordâncias e discordâncias à parte, deles se fez a História.

Pois, chamem-me o que quiserem...mas gostei de ouvir...

segunda-feira, outubro 01, 2007

As Capas de Cândido Costa Pinto (35)

Capa de CCP para "O Príncipe Joga e Ganha", de John Creasey, nº 77 da "Colecção Vampiro"

PSD, debate político e liberalismo

Marcelo Rebelo de Sousa, na sua “charla” de ontem na RTP1, pôs em causa as directas do PSD com a argumentação de que quando o leader era eleito em congresso se discutia política e nas directas isso não acontece. Duas questões prévias antes de ir ao âmago do problema. A primeira que é “feio” e pouco democrático este tipo de reacção à posteriori, pós-eleições, na fronteira do “se o povo não vota em nós, então muda-se o povo”. A segunda, uma lição para o futuro, que a demagogia e o populismo sempre favorecem quem neles melhor se movimenta (o senhor de La Palisse não diria melhor) e, assim, Marques Mendes ao correr a convocar as directas sentindo a sua liderança em crise, como se uma vitória nessas directas a pudesse fortalecer, limitou-se a actuar como qualquer aprendiz de feiticeiro ainda mal iniciado nas práticas.

Mas vamos ao cerne do assunto. MRS tem alguma razão de base naquilo que diz: em teoria, é mais fácil falar de política num Congresso com 1 000 delegados eleitos, portanto “subindo na pirâmide”, melhor preparados do que os 60 000 militantes que neles delegaram, do que em directas. O problema é que MRS sabe que na prática nem sempre isso acontece, sendo os delegados demasiado frequentemente eleitos por mor de outras “razões” que não as do seu saber político ou capacidade para o debate. É pena, mas é assim. Portanto, a simples eleição do leader em Congresso não assegura, por si só, uma prioridade ao debate das ideias, assim como a inversa não é verdadeira: as directas não significam obrigatoriamente a menorização desse debate e, ao cair na esparrela lançada por Luís Filipe Menezes de afastar os temas políticos da primeira linha da discussão, Marques Mendes começou aí mesmo a perder as “directas”. O que me parece ser o problema de fundo é, no entanto, bem outro.

Já aqui o disse, o espaço em aberto para ser ocupado pelo PSD, enquanto partido e oposição, é o que se situa no campo liberal, à direita, muito na linha das propostas do “Compromisso Portugal” e do “Forum para a Liberdade de Educação”: aquilo que na gíria se chama de propostas neo-liberais, embora a denominação tenda a vulgarizar-se e seja, por PCP e “Bloco”, hoje em dia abusivamente utilizada para nomear quaisquer propostas políticas menos estatizantes. O problema é que Portugal não é o norte da Europa ou os USA, países influenciado pelas religiões da “reforma” - é um país católico, conservador, estatista, de pouca e incipiente iniciativa individual, com uma classe média ainda pouco preparada e de criação recente e, o que não é de somenos, sem instituições efectivamente independentes que possibilitem um funcionamento claro e justo da liberdade individual – daí a distância que vai entre a simples enunciação dessas propostas por parte de quem não tem responsabilidades políticas e a capacidade e possibilidade efectiva de as pôr em prática, por parte de um partido e de um governo, arcando com todas as suas consequências políticas, sociais e económicas. É isto, quanto a mim – o medo em encarar de frente uma reforma de fundo na sua linha política, o medo do desconhecido e a apreensão face aos resultados que a sua simples enunciação e aplicação podiam gerar (com alguma razão, note-se) - que tem gerado a timidez e tibieza com que o debate político sério tem sido encarado no seio do PSD e de si mesmo para o exterior. Com certeza que existem “gradações” e que quase todas as pessoas bem intencionadas e com bom senso qb não se excluem de algumas medidas liberalizantes (só para dar um exemplo, é possível dar maior liberdade de escolha ao aluno e capacidade de competição às escolas sem chegar ao limite da adopção de “cheque-ensino”), mas o problema de fundo é que qualquer avanço neste sentido choca não só com a realidade-país como também com a lógica de funcionamento das bases do PSD, ou não se auto-denomine este “o partido mais português de Portugal”. Exactamente por isso, se com Marques Mendes ainda se vislumbraram alguns pequenos passos nesse sentido, pelo menos ao nível da reformulação programática - e sabemos o que valem os programas -, com Menezes eles estarão, claro está, ausentes e qualquer discussão política, com ou sem directas, tenderá a ficar bloqueada. É que uma coisa é “desestatizar”, tal como foi feito nos anos oitenta e noventa e em período de generosa distribuição de fundos europeus e política de obras públicas; outra, bem diferente, é “liberalizar”, ainda por cima em período de “vacas magras”, de aperto orçamental e quando se questiona, e bem, a "bondade" do investimento público.