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segunda-feira, julho 20, 2015

A proposta Hollande/Valls

Esta proposta de François Hollande significa que, no fundo, não existe uma diferença fundamental entre o que a França e a Alemanha propõem para os países menos ricos do euro, desde que a França possa partilhar o poder e não deixar a Alemanha à rédea solta. É o regresso, depois da unificação alemã e para os que têm a memória curta, da velha rivalidade franco-germânica (ou melhor, franco-prussiana) de domínio sobre o continente europeu. Talvez também ao isolacionismo britânico e ao reforço das suas ligações aos USA.

A Portugal e a outros países periféricos restaria a subserviência (ou a servidão) ou saírem da zona euro para salvaguardarem o que ainda possa restar de democracia. António Costa que se modere, pois, nos elogios a Hollande, já que se prova, caso tal ainda fosse necessário, que a grande divisão europeia é nacional, isto é, entre "ricos e menos ricos" e não entre o PPE e a social-democracia.

terça-feira, julho 14, 2015

A Grécia em "rewind": referendo ou eleições?

Um "NÃO" transformado em "SIM" e os problemas agora enfrentados por Tsipras no seu próprio partido são prova provada daquilo que em tempos aqui afirmei: não conseguindo negociar um acordo com as instituições da UE que lhe permitisse implementar, no essencial, o programa com que foi eleito, o governo grego, em vez de convocar um referendo com uma pergunta "abstrusa" e cujo resultado se viu obrigado a não cumprir, deveria, em devido tempo, ter apresentado a sua demissão e convocado eleições, dando a palavra aos cidadãos. A vontade do povo, com o actual ou um novo governo, poderia assim sair reforçada. Valeria de muito? Provavelmente não, já que a democracia pode ser que continue dentro de alguns anos nos países do Eurogrupo. Mas, no mínimo, tal seria mais consentâneo com as regras da democracia representativa e o resultado eleitoral poderia colocar a UE em maiores dificuldades.

quarta-feira, julho 01, 2015

O governo grego no seu labirinto

Claro que na perspectiva de um quase certa vitória do "SIM" no referendo do próximo domingo, o Eurogrupo e a Alemanha não têm qualquer incentivo para negociar com a Grécia antes da sua realização, jogando tudo numa derrota do "NÃO" e do governo do Syriza que lhes permita, numa situação de força, impor à Grècia a "sua" solução e, eventualmente, levar o governo grego à demissão. Enquanto isso, o governo grego faz tudo para evitar essa derrota. 

Talvez até a "nega" alemã seja uma solução de "vistas curtas", mas o problema é que já ninguém espera dos actuais líderes europeus mais do que isso. Assim sendo, o governo do Syriza meteu-se num labirinto do qual vai ter dificuldade em sair.

segunda-feira, junho 29, 2015

Mas isto é pergunta que se faça?

Embora seja de opinião que face à impossibilidade do governo grego implementar uma parte significativa do programa com o qual foi eleito teria sempre de efectuar uma consulta popular, agora ou no passado recente, esta pergunta é uma das razões pela qual preferiria o recurso a eleições e temia (e sempre temo) os referendos sobre questões que não sejam muito concretas e de simples formulação e entendimento. Face a esta pergunta, se fosse cidadão grego só poderia concluir estavam a gozar comigo.

sábado, junho 27, 2015

O referendo

Não sou por princípio favorável a democracias referendárias e plebiscitárias, excepto em casos muito especiais e de natureza simples e concreta, por exemplo, de nível local ou  regional. Teria por esse motivo preferido o governo grego recorresse a eleições antecipadas em vez de a um referendo, sempre com ressonâncias populistas, com pouco tempo para ser preparado e cuja pergunta aos cidadãos me parece difícil de ser sintetizada e concretizada. Mas de uma coisa não me restam dúvidas e já em devido tempo o tinha afirmado: na impossibilidade de aplicar minimamente o programa com o qual foi eleito, uma consulta popular, sob a forma referendária ou de eleições legislativas, parece-me essencial e inultrapassável. Tudo o resto são raciocínios enviesados, secundários, mesmo que muitas vezes importantes, mas que ignoram ou pretendem passar por cima desta questão fundamental.

terça-feira, junho 23, 2015

A União Europeia (Reconstruída) de José Manuel Fernandes

Este artigo de José Manuel Fernandes, no "Observador", é bem sintomático de qual a posição da direita radical portuguesa sobre a crise grega e que membros do governo como Passos Coelho e Maria Luís não têm coragem para publicamente assumirem: para eles, a solução é mesmo a segregação e expulsão da Grécia do euro, independentemente das consequências negativas que tal pudesse vir a gerar para a UE e para os próprios gregos, pois estes, representados pelo Syriza, partido ao qual deram maioritariamente o seu voto, "não comungam dos valores que presidem à União Europeia". No fundo, quem recupera em proveito próprio o velho conceito marxista de "luta de classes" é José Manuel Fernandes, adaptado-o às circunstâncias e acrescentando-lhe o conceito leninista da eterna luta, dentro do "partido" (neste caso as instâncias da União Europeia), entre a "linha vermelha" (a "justa" e "pura", representada pelos que querem a Grécia fora do euro) e a "linha negra", "capitulacionista"  ou "revisionista". Aguardemos, pois, que José Manuel Fernandes, à semelhança do que defendeu nos seus tempos de dirigente da UDP e o do PC(R), venha um destes dias propor a criação de uma UE(R), ou seja, uma União Europeia (Reconstruída), expurgada dos seus elementos mais vacilantes e favoráveis a uma conciliação com os seus "inimigos de classe": os gregos do Syriza. Já terá faltado menos...

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

O que nos ensinou a Grécia nos últimos dias

Duas coisas (pelo menos) vieram as negociações entre o Eurogrupo e o novo governo grego provar:
  1. Não existem alterações súbitas ou profundas na política de cada Estado decididas de forma unilateral, num só país,  nem a politica actualmente dominante na UE é susceptível de ser alterada numa base puramente nacional, ganhe quem ganhar as eleições em cada Estado, o que coloca problemas graves às democracias locais. Como o provam os planos Draghi e Juncker, em conjunto com as recentes declarações deste último, e o sucesso limitado do governo grego, qualquer evolução tende a ser lenta, numa política de "pequenos passos" e tenderá a ser gerada no interior das forças que constituem aquilo a que poderíamos chamar o próprio "sistema" da UE. Significa isto que o resultado das eleições nacionais é totalmente indiferente à evolução europeia? Claro que não, é mesmo fundamental para influenciar a política europeia e aceitar passivamente o "austeritarismo" seria a pior das soluções. Mas o que não poderemos esperar é que a eleição nacional de forças anti-austeritárias, radicais ou moderadas, se traduza em mudanças bruscas e imediatas na política dominante.
  2. Para além da contradição entre países do "norte e do sul", "devedores e credores", "excedentários e deficitários", "periféricos e centrais" ou o que se lhes queira chamar, existe na UE e no Eurogrupo um sistema de contradições e interesses, mesmo que puramente conjunturais e que se podem ir modificando mais ou menos rapidamente, muito mais complexo e que coloca limites e gera dificuldades à criação de qualquer possível "frente de entendimento e de combate" entre os países em dificuldade, independentemente dos partidos que constituem os respectivos governos. Isto também não significa que esteja correcta (muito longe disso) a atitude do governo de Passos Coelho de "colagem" aos interesses alemães e repúdio da posição grega, mas sim que há que afastar o simplismo e estar atento à complexa teia de interesses e contradições que se vão gerando no seio da UE tirando dela, a cada momento, o melhor partido.   

quinta-feira, janeiro 29, 2015

E entretanto a Grécia?

E entretanto a Grécia? Bom, o Syriza e a Alemanha marcam cada um o seu território: de um lado, numa estratégia de "front loading", Tsipras aprova uma série de medidas desafiadoras e "pisca o olho" a Putin, colocando a política e a geo-estratégia no centro do problema e, do outro, a Alemanha, por ela própria ou através de terceiros que lhe são fiéis, vai avisando um pouco ao estilo "ou se portam bem ou vou-me a eles". Diria, sem ofensa para nenhum dos citados, estarmos perante um processo de negociação clássico, embora um pouco ao estilo regateiro (ou" marroquino", se quisermos), cada um jogando as armas que tem e não hesitando no "bluff". 

Para o PS e para António Costa é que me parece uma situação desconfortável: devem e têm de se distanciar do Syriza, pelas suas diferenças ideológicas, estatuto enquanto partidos e prevendo as coisas na Grécia possam correr mal e marcar as habituais distâncias face ao actual governo luso/germânico de Passos Coelho e à estratégia europeia que conduziu a social democracia a uma crise. De qualquer modo, ao PS (e, já agora, também aos europeus que ainda não perderam completamente o juízo) só convém mesmo tudo se vá resolvendo na Grécia com compromissos e uma solução negociada e equilibrada: com quaisquer outras, mais drásticas ou extremadas, vitórias retumbantes de um ou outro dos lados (Syriza e Alemanha), o PS só pode perder o seu espaço e a Europa seguir por maus caminhos.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Paris e o "aftermath"

Como sou optimista, talvez até ingénuo, acho que a nível oficial nada de essencial irá mudar em questões como as liberdades e o controlo de fronteiras após os atentados de Paris, isto depois de alguns desabafos mais ou menos securitários e de alguma retórica de circunstância destinados a satisfazer as emoções de momento e minimizar a capacidade de atracção dos diversos populismos e da extrema direita europeia. Em minha opinião (sou optimista, repito), tudo se irá limitar - e ainda bem - a uma melhoria da eficácia e colaboração entre os vários serviços de informação - que falharam redondamente neste caso - e a algumas medidas acrescidas de controlo que não afectarão no essencial a liberdade de circulação no espaço Schengen.  Por grande apego das actuais lideranças europeias à tolerância e às liberdades? Por crença profunda das mesmas na necessidade de mudanças na atitude e atenção dos governos face às minorias étnicas? Por concluírem da necessidade de moderação ou mesmo de mudança nas políticas económicas actualmente dominantes? Infelizmente (e vamos lá temperar o optimismo com algum realismo) não me parece. Mais porque a liberdade e facilidade de circulação são hoje em dia um pilar importante no funcionamento da economia europeia (e ainda bem que assim é) e as políticas securitárias custam o muito dinheiro que, para além da mais do que duvidosa relação custo/benefício, ninguém está verdadeiramente disposto a pagar. Antes assim.

segunda-feira, julho 07, 2014

"Back in business" ou 5 notas políticas sobre uma visita a Berlim.

  1. Para os que, como eu, já conheciam algumas cidades e zonas da antiga RFA (Colónia, Munique, Düsseldorf, Frankfurt, etc), mas nunca tinham ido a Berlim, um aviso: nada tem a ver. Estamos a falar da capital do antigo e poderoso reino da Prússia, que unificou a Alemanha manu militari, da capital dos segundo e terceiro Reich, ou seja, da cidade imperial símbolo do poder alemão.
  2. Isto significa que quando o parlamento de Bona, depois da reunificação, tomou (por maioria relativamente escassa, diga-se) a decisão de se transferir para as antigas instalações do Reichtag e tornar Berlim a capital da nova Alemanha, não o fez por acaso e isso teve um significado político inequívoco: reconstituir, sob novas formas, o poderia alemão da Europa. E é exactamente esse processo que está em curso.
  3. Aliás, é bem interessante, para não dizer indispensável para quem vem de um país onde a História da Europa Central é quase completamente ignorada no ensino secundário, efectuar uma visita ao Deutsches Historisches Museum, onde nada se esconde e tudo parece dirigir-se a um objectivo fundamental: para o bem e para o mal, nas várias áreas da actividade humana, da política ao conhecimento, da filosofia à indústria, e não tentando sequer escamotear ou desculpar o nazismo, a ditadura da DDR ou até a carnificina da Grande Guerra, em tudo o que se passou na Europa que vai de Paris a Moscovo (Catarina da Rússia era alemã de nascimento e o seu pai serviu no exército prussiano), a Alemanha e, antes dela, os estados alemães com a Prússia à cabeça tiveram um papel fundamental ou pelo menos importante. E, efectuada a reunificação, a Alemanha não irá abdicar desse seu passado e desse seu futuro.
  4. Vinte e cinco anos após a queda da RDA e a reunificação, uma visita a Berlim permite ter uma ideia mais directa do esforço da reconstrução e da quantidade astronómica de dinheiro que tal está ainda a custar. Permite-nos deste modo também compreender (o que não significa aceitar passivamente) a resistência alemã a quaisquer soluções para o problema da dívida dos países periféricos que impliquem um esforço financeiro adicional para o estado alemão. Por isso, e como justificação, inventaram a narrativa dos "preguiçosos" do sul" e do "viveram acima das suas possibilidades". Triste é que tal seja repetido (eu diria, acriticamente "papagueado") por muitos responsáveis políticos do sul da Europa.
  5. Ninguém se iluda: não existirá uma UE sem hegemonia alemã. Ensina-nos a História que a Alemanha do século XXI tenderá a reconstituir a sua tradicional zona de influência (Polónia, Áustria, República Checa, Eslováquia, uma parte dos Balcãs, etc) perante um França enfraquecida e sem voz própria e um UK que se entrincheirá  na sua ilha - em colaboração com a sua antiga colónia americana - e não "alinhará neste filme". Para os povos periféricos, onde Portugal se inclui, será fomentada a emigração para trabalhar nas tarefas menos qualificadas (apesar de tudo, "bem melhor" que o trabalho escravo na Organização Todt dos tempos do Terceiro Reich) ou, para uma minoria instruída, a possibilidade de colaborarem no estrangeiro em tarefas de de grau técnico elevado ou de investigação e desenvolvimento. Ou então abandonarem a UE e procurarem uma alternativa. Será possível e vantajoso? Pois, se não alinharmos pelas certezas de BE, PCP e MRPP e acreditarmos na democracia e na liberdade, é exactamente esse o problema  que temos de resolver.   

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Uma nova "Idade das Trevas"?

Em Espanha aprova-se uma das leis mais restritivas de que tenho memória sobre a IVG. Em Portugal aprova-se o recurso ao referendo sobre um direito de uma minoria que viola grosseiramente o bem-estar e o futuro de muitas crianças e adultos. Em França, Hollande dá uma de "Pétainzinho" e adere às teses alemãs sobre a economia e a Europa. Decididamente, a Europa e a UE aceleram o seu caminho para uma nova Idade das Trevas. Que desilusão.

terça-feira, maio 28, 2013

A suspensão da democracia


Ou seja, a suspensão da democracia ou de uma parte dela, em todo o seu esplendor. Claro que já o sabíamos, mas tal nunca nos tinha sido dito de modo tão directo, com tanta crueza e por quem de direito. Um murro no estômago de António José Seguro, pois claro. Mas se é que já não o sabia, fica agora com uma certeza.

terça-feira, março 19, 2013

Chipre ou o pensamento do dia

Uma parte significativa dos depósitos nos bancos cipriotas é oriunda das máfias russas? Dizem que sim e a afirmação parece ser verdadeira. Mas uma parte não menos significativa pertencerá a empresas e cidadãos da UE, incluindo cipriotas, mas essas origens pouco vejo discriminas. No fundo, a repetida menção às máfias russas tem aqui uma função ideológica bem definida: tornar o confisco de uma percentagem dos depósitos existentes nos bancos de Chipre política e moralmente mais aceitável; apetece-me dizer, mais "tragável". Felizmente, parece não o estão a conseguir.   

domingo, março 17, 2013

E a loucura espalha-se como mancha de óleo que impregna tudo à sua passagem

  1. Agora imagine lá que, de repente, lhe diziam que a sua conta bancária - grande, média ou pequena, não importa -já não era de x euros mas, por decisão de terceiros - governo, UE, FMI e por aí fora -, passaria a ser de x menos y (ou menos z, se o montante dos seus depósitos fosse superior a um dado valor). Não, leu bem, não estou a falar dos juros gerados por esses seus depósitos, ou dos impostos a que se obrigaria por os ter, mas do dinheiro que você tem no banco, à guarda deste. Vão-se a ele e...zás, dá cá uma parte. Assim a modos que um género de BPP, mas em grande, e sem que você pudesse sequer suspeitar de nada ou ter escolhido entre a concorrência disponível. E você não tem tempo para "tugir nem mugir", pois quando chega ao Banco para levantar "o seu"... não há nada para ninguém até lhe "raparem" a fatia em causa, que  será de 9.9% se você tiver mais de 100 000 euros ou 6.7% se o valor for inferior (ora faça lá as continhas...). Pois, acredite ou não, é isto que está a acontecer em Chipre, país da União Europeia e da zona Euro, para o caso de estar esquecido. O sistema bancário cipriota estava "inchado" e era sede de lavagem de dinheiro das máfias russas? Pois, dizem que sim, mas que culpa tem o cidadão disso, que, na sua boa fé, lá depositou as suas economias e os seus rendimentos? Ou as empresas, que lá têm os seus fundos para pagamentos e investimento? Vai tudo raso, "o bom, o mau e o vilão". Imagina a raiva dos nossos concidadãos cipriotas, não imagina? Pois...
  2. Não é só a credibilidade bancária na UE que está em causa, principalmente nos países sob intervenção ou perigo dela, o que levará à fuga de capitais para os países "sólidos", pelos que o podem fazer, e para dentro do colchão, pelos outros. Não é apenas o carácter recessivo da medida que está em causa e a falta de confiança que irá gerar, é toda a credibilidade das instituições, políticas e financeiras, a partir deste momento arvoradas num género de Irmãos Metralha legalizados, que está em causa, sejam a Banca, os governos, a Comissão Europeia, o BCE, o Eurogrupo, o FMI e tutti quanti. E sabe você onde isso nos pode levar? Olhe, a Grande Guerra começou, em 1914, numa pequena cidade (Sarajevo) do então Império Austro-Húngaro. Espero o fim da Zona Euro e da UE não tenha começado numa pequena ilha do Mediterrâneo de menos de um milhão de habitantes.  

sexta-feira, março 15, 2013

Uma sociedade bloqueada

Segundo a última sondagem da "Católica" (CESAP), que ainda só vi de relance, 77% dos inquiridos consideram o governo "mau" ou "muito mau", mas apesar disso 61% acham nenhum partido da oposição faria melhor. 60% opinam a actual estratégia não vai desenvolver o país ou torná-lo mais competitivo e o PSD sobe mesmo quatro pontos percentuais nas intenções de voto, enquanto o PS se mantém nos 31% e CDS, PCP e BE descem. Claro que em função destes números não existe uma opinião francamente favorável à demissão do governo, sendo que apenas 45% (contra 46%) a defendem. Nem sequer o Presidente da República, que a si próprio se define como "provedor dos portugueses" e instituição muitas vezes vista como uma espécie de válvula de escape do sistema político, escapa a uma avaliação negativa.

Comentário. É a uma situação de bloqueio que a ideologia e estrutura políticas actualmente dominantes no seio UE estão a conduzir o país - e muitos outros Estados europeus, acrescente-se: uma sociedade sem esperança, descrente e um sistema político bloqueado, sem alternativas, situação que aliena todos os valores positivos das sociedades abertas e democráticas, as suas capacidades para se regenerarem e reformarem. E todos sabemos o que acontece aos recipientes sob pressão que não encontram a sua válvula de escape: tendem a encontrar uma saída à força, de forma violenta, explodindo ou gerando o caos.

domingo, novembro 04, 2012

É isso mesmo, Drª Ferreira Leite!

"O projecto europeu não tinha isto subjacente, da ajuda aos pobrezinhos. Tinha subjacente a ideia de que todos em conjunto desenvolviam políticas de desenvolvimento, em que cada um passaria a ter acesso a aspectos básicos como a saúde, a educação, a habitação. Esse é o projecto europeu, é esse projecto que se ruir põe, com certeza, questões graves à democracia", sustentou Manuela Ferreira Leite. 

Ora nem mais, dizia um dos meus avôs quando concordava com alguma coisa que um dos netos dizia. E é esse mesmo tipo de concordância que agora expresso para com Ferreira Leite e que há dois dias, neste "post", já tinha tentado explicar quando afirmava, referindo-me aos governos, que me "estava nas tintas" para que tivessem ou não a chamada "sensibilidade social" e que o que queria era "um Estado e governos que, por ideologia e convicção, assumam e implementem políticas que tornem o país mais desenvolvido e mais igualitário, mais culto e instruído, mais solidário sem perda do individualismo e da livre iniciativa de cada um, que elimine a pobreza, que dê oportunidades aos cidadãos - mesmo àqueles que têm problemas graves - para desenvolverem todas as suas potencialidades e capacidades, que premeie os melhores sem deixar de permitir que todos progridam".

Digamos que foi uma plataforma deste tipo que esteve na base do desenvolvimento da nossa democracia e da integração europeia que a consolidou, congregando à sua volta pelo menos 80% dos portugueses. Fez bem Ferreira Leite em a ter recordado, tão esquecido ela anda e tão posta em causa tem vindo a ser pelas "vanguardas iluminadas" do ultra-liberalismo.

quinta-feira, julho 26, 2012

Do "manicómio em auto-gestão" ao laboratório do Dr. Frankenstein

Lembro-me, no chamado Verão Quente de 75, quando em Portugal tudo mudava diariamente ao sabor de mais uma manifestação ou de uma qualquer afirmação, mais ou menos radical, de um também qualquer pensador, escritor ou filósofo de visita, normalmente ligado à chamada "esquerda festiva", de se afirmar que o país se tinha transformado num manicómio em auto-gestão. Era o tempo da "via portuguesa para o socialismo", da "experiência portuguesa", dos SUV, das "armas em boas mãos", da "sociedade sem classes" (proposta também pelo CDS, em que todos seriam proprietários) do "socialismo sim, ditadura não", do "último a sair que apague a luz" e lembro-me eu sei lá mais do quê. Mas, no fundo, existia em tudo isso uma naiveté que, se acabava por nos envolver e se tornar entusiasmante, acabava também, por via disso, por definir os próprios limites da sua validade temporal e da sua exequibilidade: sabíamos que, mais mês menos mês, para um lado ou para outro, da democracia ou de uma qualquer ditadura, tudo acabaria por se resolver e a normalidade regressaria.

Lembrei-me disto hoje a propósito das inúmeras propostas, muitas delas a roçar o delirante e até incompatíveis entre si ou com os objectivos propostos, agora já não de filósofos, pensadores ou ensaístas políticos sonhadores, mas de organizações tidas por social e cientificamente responsáveis como o FMI, UE, OCDE e BCE, para a economia portuguesa. Não direi que estejamos de volta ao "manicómio em auto-gestão" do ano de 1975, até porque a apatia, quase uma paz de "zombieland", substituiu o frenesim e a actividade fervilhante de então. Mas direi que Portugal mais parece um daqueles laboratórios onde, em inesquecíveis filmes "série B" dos fifties, cientistas loucos efectuavam estranhas experiências que, uma vez falhadas, davam origem a monstros e criaturas bizarras que acabavam por se voltar contra o seu criador e, até, ameaçavam pôr em perigo toda a humanidade. O problema, o problema mesmo, é que desta vez, ao contrário do que acontecia em 74/75, não sabemos quando ou como regressará a normalidade, ou mesmo  qual será o seu aspecto e se tal coisa ainda existe no nosso horizonte.

terça-feira, junho 26, 2012

Seguro põe o dedo na ferida

Embrenhados em questões de natureza económico-financeira tais como taxas de juro, crescimentos do PIB, "déficit" público, dívida, financiamento dos Bancos e "ofícios correlativos", esta afirmação de António José Seguro corre o risco de ter notoriedade efémera e até de parecer deslocada, mas ela é chave para a resolução da crise política (é bem disso que se trata, como Seguro afirma) da UE e é sobre ela que deveríamos centrar a nossa atenção. Se a indispensável e inadiável democratização das estruturas de poder e governo da União Europeia, de que fala Seguro, passa pela eleição directa do Presidente da Comissão, se ele e o seu governo devem sair de um Parlamento Europeu com poderes alargados e efectivos de controle ou se a eleição de uma segunda câmara paritária deve ser também considerada, serão por certo questões a discutir. Mas continuar a entregar a direcção dos destinos da União, com poderes cada vez mais alargados, como agora Van Rompuy vem propor, a gente que não mandatámos, ao bom e velho estilo "despotismo iluminado", só pode dar mau resultado. Como deu até aqui.   

segunda-feira, junho 18, 2012

A Grécia do Syriza e a "vingança punitiva"

Reconheço para os gregos a tentação seria grande, tal como também para muitos de nós, cidadãos europeus, que nos angustiamos dia a dia por duvidarmos a actual estratégia política possa levar a União a bom porto. Mas temos de concluir que uma vitória do Syriza conteria em si algo de infantil vingança punitiva sobre a Alemanha e a actual direcção política europeia, aquela punição que tanto criticamos por parecer estar incluída nos planos de austeridade impostos aos países sob resgate, um pouco ao estilo "impõem-nos a pobreza, a destruição da economia e da coesão social, do futuro - pelo menos o próximo - mas não caímos sozinhos, arrastaremos todos e a União connosco para a incerteza e o possível caos". Digamos que a política tem de ser um pouco mais do que uma luta entre concepções morais do mundo e da vida, embora tal, desde George W. Bush, pareça estar cada vez mais a servir de pretexto para encobrir e fazer passar mensagens ideológicas extremadas.  

Nas eleições gregas, enfim, prevaleceu algum bom-senso, claro, mas - e digo-o sem demasiada esperança -  seria bom que a Alemanha e a actual direcção da UE entendem-se o recado e não recusassem a mão salvadora que os gregos lhe estenderam. E, claro, esperando tal não fosse para nos enviarem, agora a todos, para o abismo de onde os nossos concidadãos gregos, para já, nos parecem ter posto a salvo.