O PS de António José Seguro deveria, a seu tempo, ter negociado com o actual governo a reforma dos tribunais (novo mapa judiciário); este era um daqueles pontos em que seria indispensável um compromisso e o PS/Seguro poderia desse modo ter feito valer alguns dos seus pontos de vista sobre a matéria (se é que os tinha). Preferiu António José Seguro jogar a cartada populista para obter mais uns votos, prometendo tudo voltaria à "primeira forma" logo fosse governo. Agora, e muito bem, independentemente dos pontos positivos e negativos da actual reforma, António Costa assume a herança, evitando o "faz e desfaz" tão frequente e, eventualmente, também as habituais e inerentes confusões. Da parte de António Costa é um bom princípio, de quem sabe o que é governar, sendo pena que não assuma também o erro que seria baixar o IVA da restauração para 13%. Mas para já estamos perante um bom sinal. Esperemos tenha continuidade.
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
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quinta-feira, novembro 06, 2014
quinta-feira, setembro 18, 2014
Seguro, Costa e a redução do número de deputados
Aos que, normalmente situados na área dos defensores do actual governo, costumam afirmar não existir uma clara diferenciação entre as propostas políticas dos dois candidatos do PS a primeiro-ministro, António José Seguro e o seu desenfreado populismo acabam de oferecer, em bandeja de prata, um desmentido. É que, se mais não houvesse, bastaria a proposta de Seguro para uma redução no número de deputados para estabelecer uma fronteira ideológica clara entre ambos os candidatos. Pena que António Costa não se tenha também demarcado da bizarra ideia dos círculos uninominais, mesmo que "temperada" por uma outra qualquer metodologia que permita uma representação proporcional adequada.
Para além de questões políticas e ideológicas de fundo que a proposta de Seguro contém, acresce que mesmo não sendo possíveis ou desejáveis coligações ou acordos de incidência governativa "à esquerda" (e não o são), compromissos sobre matérias específicas são sempre possíveis e, nesse sentido, uma declaração de guerra a PCP e BE, empurrando estes partidos para fora do sistema, é tudo o que o país não precisa.
terça-feira, setembro 16, 2014
A cada eleitor o "seu" deputado?
"Garantir a cada eleitor a escolha do seu deputado", é um logro, é coisa que não existe nas democracias liberais e representativas. Mesmo nos casos de círculos uninominais, e já não falando de todas as distorções de representatividade a que eles dão origem, o deputado eleito por cada círculo não representa apenas cada um dos eleitores, individualmente considerado, ou o conjunto de cidadãos que nele votaram, mas a circunscrição que o elegeu, com todos os seus interesses convergentes ou contraditórios, e, em última análise, o país e todos os seus cidadãos, eleitores ou não. Pretender que cada eleitor escolha o seu deputado, estabelecendo assim uma ligação directa entre cada eleitor e o seu eleito, arrisca-se, além do mais, despartidarizar a representação política, transformando a Assembleia da República numa amálgama de deputados independentes ou num conjunto de deputados "limianos" com todos os perigos para a democracia e estabilidade política que daí advêm. Que seja o secretário-geral de um partido histórico e fundador da democracia portuguesa, como é o PS, a vir propor tal coisa é apenas mais um sinal da degradação a que chegou o partido e, por extensão, a vida política portuguesa. Digamos que é uma proposta mais próxima de um qualquer participante em um qualquer "Plano Inclinado" ou "Olhos nos Olhos" do que de um dirigente de um partido responsável.
quinta-feira, setembro 11, 2014
Costa, Seguro e os debates
Talvez o problema principal dos debates Seguro/Costa tenha sido a sua má condução. Esclareço. Hoje em dia, o jornalismo vive do "soundbite", do sensacionalismo, de frases que dão grandes títulos e são de fácil e imediata percepção e isso é incompatível com o aprofundamento das questões, com qualquer raciocínio ou proposta mais elaborada. Ora foi nesse sentido que os debates foram conduzidos por Judite e Clara Sousa, mais, muito mais, no sentido de um "talk show" do que no de um debate político na verdadeira acepção do termo. É isto que explica, por exemplo, o sucesso de políticos/comentadores como Marcelo Rebelo de Sousa ou Luís Marques Mendes e a dificuldade de popularidade televisiva de quem, como Pacheco Pereira, por exemplo, lhes está nos antípodas. Ora este "formato" favorece claramente António José Seguro - daí o desconforto e hesitações de António Costa sobre os debates -, o seu populismo e as suas propostas "pronto a consumir, basta juntar-lhe água", mesmo que prometer não aumentar a "carga fiscal" (que não é o mesmo do que não aumentar os impostos, note-se) à distância de um ano, demitir-se se tiver de o fazer e referendar coligações caso não alcance uma maioria absoluta (mesmo que com maioria absoluta um governo PS vai ter sempre de negociar entendimentos) sejam dos maiores disparates que politicamente já me foi dado ouvir.
Mas António Costa parece ter dificuldade em entender que não está na "Quadratura do Círculo", entre os seus "pares" (mesmo quando discordam, o "way of thinking" de Costa, Lobo Xavier e Pacheco Pereira é muito semelhante), num debate académico entre intelectuais que se estimam e que pretendem esclarecer a "causa das coisas". O debate político eleitoral é um duelo e António Costa, mais inteligente do que Seguro mas infinitamente menos "esperto", sente-se desconfortável num ambiente que não é o seu, transmitindo a ideia de estar mal preparado, estar ali a contra-gosto e de vestir um fato que não está à sua medida ou não quadra com o "seu gosto". Por outro lado, por com elas concordar, falta de coragem política ou recear a perda de votos (todas elas más razões, note-se), Costa tem-se mostrado incapaz de desmontar algumas das propostas mais populistas e controversas de Seguro (excepção feita, que me lembre, à questão da "carga fiscal"), como, por exemplo, os "círculos uninominais", a diminuição do número de deputados (e nesta área Costa não está condicionado pelo Tratado Orçamental ou pelo "Memorando de Entendimento") e a afirmação irresponsável de Seguro sobre a reabertura dos tribunais encerrados pelo actual governo. Ora este será (ou deveria ser, em minha opinião) um dos campos que melhor demarca as duas candidaturas.
Mas enfim... Contrariamente ao que jornalistas e comentadores gostam de afirmar, penso que a eleição se irá decidir mais pelo "perfil" dos candidatos, por aquilo que cada um representa ("stands for"), do que pelas propostas concretas - para além de questões internas inerentes ao funcionamento do partido, acrescente-se. Além disso, quer-me também parecer (e isto de "parecenças" vale o que vale) que o número de indecisos será diminuto, pelo que a influência dos debates na votação também o será. Aguardemos.
terça-feira, setembro 09, 2014
O "Gato Maltês", Seguro e Costa
Não existem diferenças significativas entre as propostas políticas de António José Seguro e António Costa para o país? Digamos que não, pelo menos de modo significativo, mas também é verdade que na actual situação da Europa e do país dificilmente elas poderiam existir sem o seu proponente cair na utopia, no irrealismo ou numa atitude voluntarista e aventureira. Mas se quisermos ir um pouco mais fundo, fácil é concluir que as diferenças entre o modo de olhar o mundo, a crise e a política, também entre o "posicionamento" de cada candidato - aquilo que cada um representa ("stands for") - essas já são profundas e marcam territórios. Digamos que para além de António Costa assumir a herança do Partido Socialista histórico, com tudo o que esse legado representa na vida da democracia portuguesa, o actual presidente da CML consegue, até pelo peso dessa representação histórica e dos seus valores familiares, mas também pelos cargos políticos que ocupa e ocupou e por uma imagem de cosmopolitismo e de homem de cultura que gosta de apresentar, projectar uma imagem de "espessura" e "confiança" que está nos antípodas do modo como o eleitorado vê Seguro e do provincianismo e populismo dos quais este se fez porta-voz.
Não sou militante, nem sequer me inscrevi como simpatizante (que não sou, até porque nunca votarei num PS dirigido por Seguro) do Partido Socialista, embora, no geral, me reveja em muitos dos valores da social-democracia e do liberalismo-social europeus. Reconheço-me em algumas das propostas e valores que António Costa apresenta e representa e discordo de outras. Critico as suas demasiadas omissões. Mas não posso deixar de considerar que no actual "estado da arte" a última coisa que o país, a democracia e o regime que defendo precisam é de um PS frágil, errático, populista e incapaz de gerar confiança entre os portugueses. Pois é, ele há momentos na vida em que é preciso tomar partido de forma clara, mesmo mantendo o distanciamento necessário e a independência possível. Tentarei.
quarta-feira, agosto 27, 2014
Seguro, Costa e os debates.
Dei por mim há pouco a pensar (deve ser do calor) sobre qual será a actual percentagem de indecisos entre os militantes e "simpatizantes" inscritos do PS em relação à disputa entre António Costa e António José Seguro. Claro que não tenho dados, mas sim um pressentimento (sim, eu sei que isto de pressentimentos vale o que vale) que essa percentagem será muito baixa, principalmente entre os "simpatizantes", pois quem se inscreveu ou irá inscrever nessa condição terá já e à partida uma opção tomada independentemente desta ter na sua base motivações ideológicas ou de qualquer outro tipo.
Assim sendo, os debates e entrevistas agendados terão mais como objectivo o "pós eleições" internas e o posicionamento do candidato do vencedor às legislativas do próximo ano do que o esclarecimento e conquista dos potenciais votantes socialistas. Aliás, e já prevendo o que se irá passar nos painéis de discussão televisivos que se lhes seguirão, também me parece jornalistas e comentadores ocuparão sem grandes preocupações de independência e distanciamento o lugar de defensores de um e outro lado, até porque sabemos que da vitória de Seguro ou de António Costa irá em grande parte depender o resultado das próximas eleições legislativas, o futuro do PSD e, talvez, também o que virá a ser o país a médio-prazo.
quinta-feira, agosto 14, 2014
A fúria referendária de António José Seguro
Tanto quanto sei, um partido político concorre a eleições com base num programa político. E caso, nessas eleições, não consiga alcançar uma maioria absoluta de deputados no parlamento, será ainda tendo como base o programa apresentado que negociará com outros partidos, num processo que implica compromissos e cedências entre os negociadores, a formação de um governo com apoio maioritário. Parece-me que com esta proposta Seguro está:
- A fazer tábua rasa desse programa. Ou seja, pouco importa o que se apresenta aos eleitores, já que depois se perguntará aos militantes como querem que governe, tendo em conta que o programa de uma coligação "à esquerda" será com certeza muito diferente de uma outra, "à direita".
- A colocar nas mãos de um universo mais reduzido de cidadãos (os militantes) uma decisão para a qual terá sido mandatado, através de um programa político sufragado em eleições, por um universo bem mais amplo de cidadãos (os eleitores). Não sei o que os potenciais votantes do PS poderão pensar do seu voto ser assim desprezado.
Por outro lado, a pergunta que Seguro pretende referendar (coligação "à esquerda" ou "à direita") poderá ter em conta a vontade do PS, mas onde entra nela a vontade de eventuais parceiros de uma futura coligação? Ou seja, se a resposta maioritária ao referendo for favorável a uma coligação "à esquerda" (por exemplo) e essa se revelar impossível face ao comportamento de dois partidos "incoligáveis" (PCP e BE), que faz Seguro? Consulta novamente os militantes ou decide contra a sua vontade expressa no tal referendo?
Claro que António José Seguro não está nada preocupado com este tipo de questões, pois esta sua fúria referendária e populista, para além de expor dramaticamente as limitações pós-eleitorais do partido quando não consegue alcançar uma maioria absoluta, tem apenas um objectivo de curto-prazo: piscar o olho a militantes e "simpatizantes", apelando a um "basismo" que costuma "cair bem", para ganhar votos nas eleições internas do partido. O resto? A política a sério? Oh, isso logo se verá.
quarta-feira, agosto 06, 2014
Perguntas a Seguro
António José Seguro concorda ou não com a solução adoptada pelo governo, via governador do Banco de Portugal, para o BES? Se não concorda, quais as razões dessa sua discordância e qual a sua proposta alternativa? Se concorda, na generalidade, que perguntas tem a fazer ao governo, quais os pontos que gostaria de ver esclarecidos, que propostas tem a fazer para minimizar riscos, corrigir erros, evitar a repetição de situações semelhantes, antecipar problemas e melhorar a eficácia da solução adoptada? Por último, que pensa da actuação do governador Carlos Costa?
É que limitar-se a fazer afirmações tão genéricas como estas, ao estilo de uma concorrente a um concurso de "misses" que deseja a "paz no mundo", até pode ser que ganhe direito a uma boa "manchete" do Correio da Manhã, mas é pouco, muito pouco, para o líder do principal partido da oposição.
domingo, julho 27, 2014
Seguro e a TAP
António José Seguro opõe-se à privatização da TAP e propõe como alternativa a venda de 50% da transportadora a capitais oriundos dos países da lusofonia, citando especificamente Angola, Moçambique e o Brasil (ter-se-à esquecido da Guiné Equatorial). O que se esqueceu de explicar foram:
- As razões que tornariam interessante para esses capitais a compra de 50% da TAP e por que razão o Estado português deveria optar por essa solução e não por quaisquer outros eventuais interessados ou pela alienação da totalidade do capital da companhia aérea.
- Se considera que em Angola e Moçambique existem capitais privados. Por exemplo, se considera os investimentos angolanos, e, já agora, também chineses, em Portugal investimentos privados. Caso os não considere, e como, segundo a sua proposta, 50% do capital continuaria na posse do Estado, deveria esclarecer se preferia subordinar os interesses da TAP e do Estado português aos interesses dos governos de Angola e Moçambique em vez de abrir o seu capital a privados.
- Por último, se acha que mesmo com 50% do capital (partindo o princípio que alguém aceitaria um partilha deste tipo) mas com parceiros com o poder de Angola e Brasil o Estado português teria peso suficiente na parceria para decidir fosse o que fosse. Parece que ainda não percebeu o que se passa na CPLP.
Claro que António José Seguro não pensou em nada disto e se limitou a dizer uns disparates que acha serem populares e pensa lhe poderão angariar alguma simpatia na batalha que trava contra António Costa. Mas parece que os jornalista não perceberam isso e se esqueceram de lhe fazer algumas perguntas. Foi pena.
sexta-feira, junho 27, 2014
António Costa e o velho dilema da oposição democrática
Parece cada vez mais evidente que as eleições primárias do PS serão aquilo que tiverem de ser para António José Seguro ganhar. Aliás, a opção por "primárias" em vez da convocação de um congresso e de "directas" presidiu desde início a esse objectivo e duvido o actual secretário-geral aceite perder em campo o que ganhou na secretaria. Por enquanto estamos apenas no campo "soft" das questões organizativas e dos regulamentos "custom made", com uma ou outra incursão pelo campo já mais duvidoso dos procedimentos (o "caso" farmácias), mas parece existirem poucas dúvidas de que, caso necessário, se assistirá a uma deriva que não deixará de desembocar no "hard core" das "chapeladas" e outras "trafulhices" mais ou menos congéneres.
Perante isto, António Costa debater-se-à com o velho dilema da oposição democrática no tempo do Estado Novo: ir até às urnas, caucionando um processo que, de ou ou outro modo, parece viciado à partida, ou desistir alegando falta de condições e a viciação do processo, podendo ser assim acusado, pela actual direcção do partido, de cobardia política? Tendo em atenção a sua anterior candidatura falhada a secretário-geral e o estilo de actuação de que a actual direcção tem vindo a dar provas, ao estilo "disposta a tudo", salvo se algo de excepcionalmente grave se passar não restará a António Costa outra opção senão ir até ao fim, talvez caminhando, corajosa mas inutilmente, para o cadafalso que desde o início lhe está destinado. Se o sacrifício será ou não inútil é coisa que depois veremos.
sexta-feira, junho 06, 2014
António Costa e a "armadilha" das "primárias"
Que mais haverá a dizer, neste momento, sobre a crise no Partido Socialista? Para já, que António Costa se deixou aprisionar - sem grandes protestos, diga-se - em duas armadilhas bem urdidas por António José Seguro.
- Em primeiro lugar, as tais "primárias"; que não fazem qualquer sentido - muito menos pela ordem "primárias", "directas", congresso" - e das quais, na base da apresentação de um programa populista e no facto dos seus homens dominarem uma boa parte das estruturas e direcção do partido, Seguro espera vir a tirar alguma vantagem. Mas, dir-me-ão, não é Costa que ganha vantagem se "simpatizantes", "votantes" e "amigos" do PS forem chamados a votos? Teoricamente, isso é verdade; e, aliás, se Seguro e a direcção do partido quisessem mesmo saber quem estaria em melhor posição para ganhar as próximas eleições legislativas bastaria para tal encomendarem uma sondagem onde poderiam apresentar à consideração dos inquiridos (militantes, votantes, simpatizantes das tais "primárias e cidadãos em geral) uma meia-dúzia de nomes. Mas não se iludam os apoiantes de António Costa, nem, muito menos, menosprezem o adversário: aguardemos pela proposta de regulamentação das tais "primárias" e respectivos procedimentos para tirar conclusões. Quer-me parecer que muita tempestade pode estar ainda a formar-se no horizonte.
- Em segundo lugar, a "armadilha do tempo": quanto mais tarde se realizarem as "primárias" em pior e mais frágil posição se encontrará o partido, o que para Seguro é indiferente (endossará sempre as responsabilidades a Costa), mas não o será para Costa, que terá de legitimar a sua actuação presente com um resultado eleitoral inquestionável nas legislativas. Para além disso, com mais tempo, Seguro e a máquina partidária terão mais possibilidades de "desenharem" e adaptarem as tais "primárias" aos seus desejos e PSD e CDS para desgastarem e moverem guerra aberta a Costa na gestão da CML (o que aliás já começou), tentando favorecer Seguro.
Duas notas finais:
- Concordo ser muito difícil para António Costa contestar a efectivação das tais "primárias", dada a imagem "popular" e "democrática" que estas projectam. Mas de um líder e de um político com convicções seria isso que se deveria esperar.
- Não me venham, em defesa das "primárias", com o exemplo dos USA: a estrutura, organização, modo de funcionamento e realidade que enfrentam os grandes partidos americanos nada têm a ver com as que existem na Europa.
quinta-feira, junho 05, 2014
Seguro e "o rabo a abanar o cão"
António José Seguro diz que se demitirá do cargo de secretário-geral do PS se não ganhar as eleições primárias para candidato a primeiro-ministro. Ou seja, sujeita a sua continuidade na chefia do Partido Socialista aos resultados de uma votação para um outro cargo e onde, segundo tudo leva a crer, participará um largo número de não-militantes. Digamos que isto não tem pés nem cabeça, é uma espécie de rabo a abanar o cão.
A estratégia de Seguro e os "simpatizantes" do PS.
Faltava a entrevista de ontem à SIC Notícias para fechar o "ramalhete" e tornar tudo definitivamente claro na estratégia de António José Seguro: não estamos apenas na presença de uma manobra dilatória, mas perante o privilegiar da convocação de "primárias" com base num programa populista (redução do número de deputados, reforma do sistema eleitoral, incluindo círculos uninominais, etc) que nada tem a ver com a ideologia e prática política do PS, ou de qualquer versão da social-democracia europeia, das mais tradicionais às mais recentes, mas lhe permita alargar a base de apoio depois de ter verificado que o "aparelho", atraído pelo maior potencial eleitoral de António Costa, lhe começava a "trocar as voltas".
Quais as consequências? Em primeiro lugar, ficamos desde já a saber que Seguro tentará que a definição e recenseamento dos chamados "simpatizantes" (ou outros votantes nas tais "primárias") se venha a subordinar a este objectivo e programa político, veremos como e de que modo. Em segundo lugar que a efectivação das primárias, pelo menos nestas condições e mais ainda na eventualidade de uma vitória de Seguro (mas também António Costa dificilmente poderá voltar atrás e prescindir delas no futuro), arrisca-se a pôr fim ao PS tal como o conhecemos, transformando-o numa organização sem quaisquer princípios políticos ou ideologia definida, ou pior, num grupo ao sabor do que a cada momento permita mais facilmente alcançar o poder. Exactamente o contrário do que deveria ser feito para repor alguma da confiança perdida entre cidadãos e política.
Como dizia José Eduardo Martins no "Sem Moderação" de ontem (cito de cor): estamos perante alguém que vendo-se na contingência de ter de entregar o "brinquedo" o prefere destruir. E com ele o regime, acrescento.
Nota final: o que é um simpatizante do PS? Alguém, como acontece comigo, que por vezes e consoante as circunstâncias já tenha votado no partido ou em algum dos seus candidatos? Alguém que declare fidelidade à declaração de princípios e programa do partido, valha isso o que possa valer? E, neste caso, porque não se inscreve esse alguém como militante? Alguém que se defina como social-democrata? Com que base? No de um programa mais reformista e liberal, como o do primeiro governo de José Sócrates, ou mais perto da social-democracia "tradicional" e da "unidade de esquerda", como, por exemplo, pode ser o caso de Manuel Alegre? Ou, já agora, alguém que se reveja nas propostas populistas de Seguro? Não me lixem!
sexta-feira, maio 30, 2014
O que têm a ver o PS, a "moção de censura" e Ricardo Araújo Pereira?
Alguém entende a posição do PS face à moção de censura do PCP? Primeiro, as eleições europeias indiciaram que nenhuma maioria estável e com forte liderança de um partido (PS ou PSD) deverá sair de próximas eleições legislativas. Depois, Seguro afirma que a moção de censura é "um frete ao governo" mas decide que o seu partido iria votar a favor, mesmo sem conhecer os respectivos considerandos e fundamentação. Mais tarde, perante esses mesmos considerandos e a decisão prévia de voto a favor, o deputado José Junqueiro faz um péssimo discurso na Assembleia da República, encostado à direita e de forte contestação ao PCP, e em resposta leva uma "abada" de Jerónimo Sousa. Por fim, António José Seguro decide não estar presente na discussão da moção, sofrendo justas críticas de deputados da sua bancada e sujeitando-se a algumas críticas de oportunidade vindas da maioria. Que raio, em vez de se auto-flagelarem com consecutivos tiros nos pés e mãos, teria sido muito difícil, face aos resultados eleitorais, à correcta opinião inicial do secretário-geral ("um frete ao governo"), aos considerandos da moção, à situação actual do PS e à própria actuação política do PCP e tendo em conta a conjuntura política, optarem pela abstenção, a decisão mais lógica e consentânea com a que deveria ser a posição do partido? É de deitar as mãos à cabeça e, para me fazer soltar uma boa gargalhada, só fico à espera de um "gag" de Ricardo Araújo Pereira em conformidade. Já tarda.
quinta-feira, maio 29, 2014
Seguro, Costa e as suas diferenças políticas
Existem diferenças programáticas claras entre António José Seguro e António Costa que possam levar os militantes do PS a preferir um a outro? Estando de fora - isto é, não sendo militante do partido mas apenas um observador interessado - confesso não sei, mas se a candidatura de Costa se efectivar será então esse o tempo de tirarmos conclusões mediante o que cada um deles tiver para dizer a todos os cidadãos. No entanto, convém enfatizar desde já que a questão não se esgota em eventuais diferenças ou coincidências programáticas. Na política, mesmo perante eventuais semelhanças ideológicas e programáticas, há sempre que considerar também quem, entre vários candidatos - pelo seu perfil político e pessoal, personalidade, experiência política e governativa, imagem, etc -, inspira mais confiança e se encontra melhor preparado para implementar e levar por diante um mesmo, ou semelhante, programa.
Não vale portanto a pena os defensores do "não há alternativa" (à actual política dominante na UE, entenda-se) "esfalfarem-se" a tentar demonstrar desde já não existirem diferenças políticas significativas entre Seguro e Costa, pelo que, depreende-se, tudo não passará de uma quiçá mesquinha luta pelo poder. Nunca menorizando a importância dos programas políticos, o assunto, pelo menos enquanto a política fizer parte da actividade humana e não se limitar a textos em Word ou programas de Excel, é bem mais vasto e complexo do que apenas uma questão programática. Felizmente.
quarta-feira, maio 28, 2014
PS: um partido refém
Se fosse efectuada uma sondagem junto dos habituais votantes no PS e dos cidadãos em geral perguntando qual a personalidade preferida para dirigir o partido e um eventual futuro governo por ele liderado, estou certo António Costa ganharia de forma destacada. E no entanto... No entanto Costa terá sérias dificuldades, já não digo para se fazer eleger internamente, mas para conseguir sequer disputar a liderança. Este é o retrato exacto do modo como os grandes partidos estão reféns das suas lógicas internas de funcionamento, dos pequenos poderes locais, dos "sindicatos de voto", da mesquinha troca de favores e do tráfico de influências nas distritais e concelhias. No fundo, dos "gauleiters" de ocasião. Esta é, aliás, uma das razões porque se recusam a discutir o chamado voto preferencial nas listas para eleições legislativas e autárquicas (não tendo posição definida, sou dos que acham o assunto merece discussão), não fossem os cidadãos alterar, por sua iniciativa, os laboriosos acordos conseguidos no interior do aparelho.
E quando falo de "gauleiters" não o faço levianamente. Basta perder (ou ganhar) algumas horas a ler o livro de Ian Kershaw sobre os últimos meses da Alemanha hitleriana ("The End" - "Até ao Fim") para se perceber como esses poderes, essas "lealdades pessoais", esses pactos "thick and thin" muitas vezes sem qualquer conteúdo político ou programático, essa inércia de funcionamento é capaz de se manter e até intensificar mesmo quando tudo se desmorona sua volta, para esse desmoronamento inclusivamente contribuindo. Qual a alternativa a este modelo de funcionamento? Francamente, não sei, embora seja urgente procurá-lo antes que este "way of doing things" acabe por subverter a própria democracia.
Nota: Basta ter ouvido hoje os apoiantes de António José Seguro no "Fórum TSF" para se perceber que não é só à direita que o fantasma de José Sócrates ainda ensombra. No fundo, conclui-se que o algum silêncio último da direcção de Seguro sobre o legado do ex-secretário geral e ex-primeiro-ministro não passa de manobra táctica, uma espécie de "rabo escondido com o resto do gato de fora".
terça-feira, maio 27, 2014
O que mudou no PS?
O que é que mudou no PS desde há um ano e pode levar agora António Costa à liderança do partido? A forte possibilidade do PS poder não ganhar as legislativas ou vir a fazê-lo por uma pequena margem, o que fez acender uma luz de perigo no aparelho do partido avisando os que levaram António José Seguro à liderança - o tal "aparelho" - de que pode não haver "benesses" suficientes para distribuir ou que elas podem ser bem muito escasso. Se até agora existia uma clara dessintonia no partido entre o tal "aparelho" que Seguro, no seu silêncio, foi pacientemente mobilizando em seu redor nos tempos dos governos Sócrates e muitos dos ex-dirigentes, militantes e potenciais votantes no partido, o actual secretário-geral arrisca-se agora, em função do perigo de derrota, a ver muito desse aparelho transferir-se de armas e bagagens para quem lhe possa prometer um futuro mais risonho. Tem muito disto, infelizmente, a vida partidária, circunstância agravada pelas chamadas "directas", o que não impede António Costa, Pedro Silva Pereira, Augusto Santos Silva e mais um punhado de dirigentes e ex-dirigentes do partido de serem bem melhor opção do que os Seguro, Brilhante Dias, Zorrinho e Assis deste mundo. Aguardemos os próximos capítulos.
segunda-feira, maio 26, 2014
O pós-eleições de Seguro
A reacção de António José Seguro no pós-eleições é a típica de alguém inseguro (e não estou a jogar com o trocadilho fácil do seu apelido), que tem consciência do seu falhanço e, perante um resultado que desmente os seus desejos ou quase-certezas, opta por não enfrentar os problemas, tenta auto-convencer-se, e a todos os que estão à sua volta, de que tudo está bem e resolve ensaiar uma "fuga para a frente" que normalmente é meio caminho andado para uma posterior e bem mais grave derrota. Pedir ao Presidente da República para convocar eleições antecipadas que substituiriam uma maioria absoluta em crescendo de coesão (mesmo que por via do quase desaparecimento de um dos partidos que a compõem e governando mal - não é isso que está aqui em causa) por não se sabe bem o quê e optar por votar favoravelmente uma moção de censura do PCP - atrelando-se ao carro de vencedor - depois de afirmar que a sua apresentação é "um frete ao governo" (cito de cor), só pode mesmo vir de alguém de cabeça perdida e à procura desesperadamente de algo a que se agarrar. Junto dos eleitores, arrisca-se a perder a réstea de credibilidade que ainda possa ter e quanto ao partido "queria ser mosca" para assistir por dentro à intriga que se vai seguir.
Para já, é ele, e não os comentadores, que, com estas atitudes, está a transformar a esmagadora derrota da direita numa quase-vitória do governo.
segunda-feira, maio 05, 2014
Seguro e a "manchete" assassina
Conforme aqui então disse (14 de Janeiro deste ano), ao colocar o acento tónico nas condições de saída do resgate e não nas condições do país para se tornar mais competitivo e, pelo menos num futuro próximo, mais "amigo" dos seus cidadãos no final dos três anos de resgate, António José Seguro sujeitou-se a uma derrota previsível, não percebendo o que efectivamente estava em causa e que a aliança entre o governo e a "troika" construiria a solução que melhor se adaptasse aos interesses em jogo. Pior, sujeitou-se a "manchetes" assassinas como esta, certamente com origem num bom trabalho da agência de comunicação do governo, capaz, numa só penada, de colocar em causa muito do trabalho (bom ou mau, não é isso que de momento interessa) do partido enquanto oposição. Se fosse militante ou dirigente do PS (não sou) não hesitaria em em accionar todos os mecanismos existentes no partido (certamente os haverá) para obrigar Seguro a explicar-se junto dos respectivos orgãos dirigentes.
domingo, abril 27, 2014
E Seguro insiste...
E António José Seguro insiste, e assim os resultados dificilmente poderão ser diferentes. Mais parece uma criança a reclamar lhe roubaram a "boa ideia" e a queixar-se de que "aquele menino é mentiroso". Desastroso não é só o país ter este primeiro-ministro e este governo em tempos tão difíceis; é ter também este líder da oposição.
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