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terça-feira, outubro 13, 2015

De como a direita radical também quer ter o seu próprio PBX "(Partido Berdadeiramente Xuxialista")

Sou do tempo, logo após o 25 de Abril e durante o PREC, em que a esquerda radical e o PCP, face à resistência do PS em aderir a concepções não democráticas do regime, tentavam, por todos os meios, criar aquilo que ficou conhecido na História (talvez com mais propriedade na "petite histoire"), com algum humor à mistura, como o PBX, sigla do "Partido Berdadeiramente Xuxialista". Isto é, aquele que, sem qualquer independência ideológica e/ou programática, aderisse acriticamente a uma espécie de frente de esquerda liderada pelo PCP e destinada, tal como aconteceu em alguns países do leste europeu no pós-WWII, a tomar o poder.

Se como dizia Marx, a História se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa, temos agora a direita radical a tentar criar o seu próprio PBX, isto é, um Partido Socialista sem qualquer tipo de autonomia ideológica e programática que alinhe, mesmo que com suaves críticas, mais ou menos inconsequentes, nas teses actualmente dominantes na direita europeia. 

Os resultados, em ambos os casos, não deixariam de ter algumas semelhanças entre si. No primeiro, para além da perda total da democracia, teríamos o PS reduzido a uma espécie de partido satélite do PCP, um género de Demokratische Bauernpartei Deutschlands da antiga RDA; no segundo, uma castração da democracia, com a marginalização de 20% do eleitorado, o fim do enquadramento institucional da contestação e do movimento sindical, assegurados pelo PCP, e a "pasokização" do PS.

Como sempre aconteceu desde o 25 de Abril, independentemente dos compromissos a assumir poderem ser concluídos à esquerda ou à direita, e independentemente também das opções ideológicas de cada um (eu incluído), um Partido Socialista forte e independente é condição essencial para uma sobrevivência saudável do regime. O resto é miopia política.

segunda-feira, outubro 12, 2015

A direita, o primado da política e a essência do PCP

Tenho estado fora do país estes dias, acompanhando o que se passa apenas via internet. Mas já deu para perceber que esta direita radical que nos tem governado, escudada na inevitabilidade das soluções económicas, no "there is no alternative", revela enorme dificuldade em entender a essência da democracia liberal, o seu funcionamento e o primado da política. Quando tudo tende a inclinar-se para esse lado, o seu incómodo para lidar com a situação é por demais evidente.

Independentemente do que vier a acontecer, de qualquer que venha a ser o novo governo e concorde eu ou não com os acordos que se vierem a estabelecer (quaisquer que sejam), o que António Costa está a fazer, qualquer que seja o resultado das negociações em que se envolveu, é a dar uma lição de como se actua num regime democrático, de que em democracia não se podem excluir partidos e soluções, de que cada voto é individual e tem uma intenção própria, apenas conhecida por quem o decidiu, de que não existem votos nem cidadãos de primeira e de segunda. No fundo, de que, em caso de necessidade e de poder resultar daí algo de positivo, até com o Diabo se podem fazer compromissos. Como um dia disse Churchill, que Paulo Portas e a direita gostam tanto de citar, "If Hitler invaded hell I would make at least a favourable refererence to the devil in the House of Commons"). Aprendam!

Nota final - já agora: quem disse e afirmou repetidamente que o PCP era um "partido de protesto"? Com certeza, alguém sem qualquer formação política ou desconhecedor da História. O PCP é e sempre foi (e até o provou com a sua atitude cautelosa no 25 de Novembro de 1975), um partido de poder, como também sempre o foram os partidos comunistas que se inseriam na mesma linha política, o PCE de Carrillo, o PCI de Berlinguer ou o PCP de Marchais, entre outros. 

terça-feira, julho 14, 2015

A Grécia em "rewind": referendo ou eleições?

Um "NÃO" transformado em "SIM" e os problemas agora enfrentados por Tsipras no seu próprio partido são prova provada daquilo que em tempos aqui afirmei: não conseguindo negociar um acordo com as instituições da UE que lhe permitisse implementar, no essencial, o programa com que foi eleito, o governo grego, em vez de convocar um referendo com uma pergunta "abstrusa" e cujo resultado se viu obrigado a não cumprir, deveria, em devido tempo, ter apresentado a sua demissão e convocado eleições, dando a palavra aos cidadãos. A vontade do povo, com o actual ou um novo governo, poderia assim sair reforçada. Valeria de muito? Provavelmente não, já que a democracia pode ser que continue dentro de alguns anos nos países do Eurogrupo. Mas, no mínimo, tal seria mais consentâneo com as regras da democracia representativa e o resultado eleitoral poderia colocar a UE em maiores dificuldades.

segunda-feira, junho 29, 2015

Mas isto é pergunta que se faça?

Embora seja de opinião que face à impossibilidade do governo grego implementar uma parte significativa do programa com o qual foi eleito teria sempre de efectuar uma consulta popular, agora ou no passado recente, esta pergunta é uma das razões pela qual preferiria o recurso a eleições e temia (e sempre temo) os referendos sobre questões que não sejam muito concretas e de simples formulação e entendimento. Face a esta pergunta, se fosse cidadão grego só poderia concluir estavam a gozar comigo.

quarta-feira, março 25, 2015

Os subscritores do BES e a democracia liberal

Acharia positivo que este ou o próximo governo encontrassem uma solução que permitisse ressarcir parcialmente os clientes lesados pela subscrição de papel comercial do BES. Mandam o bom senso e a confiança no sistema financeiro, a estabilidade política e também o modo como tudo se processou, bem a situação actual de muitos subscritores, que tal aconteça. Mas tendo dito isto, já acharia bem menos positivo, ou até negativo, que tal fosse efectuado a 100%, desresponsabilizando os subscritores, financeiramente letrados ou não, pela sua livre decisão, mesmo que em certa medida mal aconselhados ou até mesmo ludribiados pela informação que lhes terá sido prestada pelo Banco ou até caucionada pelas entidades reguladoras. Estamos numa democracia liberal e não numa qualquer sociedade totalitária, e a liberdade pressupõe que os cidadãos devam assumir alguma responsabilidade pelos seus actos, livremente praticados. Caberá aos tribunais e à Justiça apurar eventuais responsabilidades civis e criminais, incluindo o estabelecimento de indemnizações aos lesados. 

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Grécia: governo, acordo e democracia

Caso o governo grego não consiga alcançar um acordo com a UE que salvaguarde  minimamente algumas das propostas consideradas mais importantes do programa com que o Syriza, seu principal partido constitutivo, se apresentou a eleições, deverá apresentar uma moção de confiança ao parlamento ou até mesmo demitir-se e convocar eleições, das quais até poderia vir a sair reforçado. De qualquer modo, qualquer que seja o acordo que eventualmente venha a ser alcançado (e espero que isso aconteça), este deverá sempre ser sujeito a ratificação parlamentar. É assim que as coisas devem funcionar em democracia. 

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Manuel Valls por maus caminhos

Numa democracia digna de si própria, se alguém fizer em público ou difundir, de algum modo, comentários racistas, segregacionista, anti-semitas ou quaisquer outros do mesmo género contra um povo ou uma religião, estamos apenas, em minha opinião, perante um cretino, um energúmeno, desde que essas suas atitudes, na prática, não violem as leis da igualdade, isto é, não discriminem ninguém em função da raça, sexo ou nacionalidade, leis essas estruturantes de qualquer democracia. Se o fizerem, estará a violar a lei e terá então, mas só então, de responder por tal acto. Enquanto tal não acontecer, deverá ter todo o direito a exprimir a sua opinião, por mais abjecta que seja: confiemos a sociedade saberá julgar tais atitudes. Aliás, recorrendo à irreverência extrema e a um tipo de humor iconoclasta que torna sempre mais integrável e até mesmo bem vindo algum radicalismo, no limite, alguns mais susceptíveis podem mesmo considerar que o "Charlie Hebdo" não terá andado demasiado longe de algumas das categorias acima mencionadas.

O mesmo deve acontecer com quem difunde ideologias contrárias ao Estado Democrático, quaisquer que elas sejam, incluindo o nazismo e o apelo ao terrorismo, desde que não utilizem a violência na sua acção política. Se estivermos perante alguém que defenda o negacionismo, para além das características acima elencadas estamos também na presença de um ignorante, pelo menos em termos históricos, mas que tem pleno direito a ser cretino, enegúmeno e a fazer gala da sua ignorância. É isto que justifica a superioridade da democracia sobre todos os outros sistemas políticos.

Por isso mesmo, vejo com especial preocupação acontecimentos como este, e afirmações como a de Manuel Valls referindo que "é preciso não confundir a liberdade de opinião e o anti-semitismo, o racismo e o negacionismo”. Perante reacções deste tipo - que infelizmente não me espantam - o único comentário que posso fazer é que estamos (ou a França está) a ir por muito mau caminho.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Nem tudo começa e acaba em Paris

Independentemente do nojo, do repúdio, da revolta que sentimos e da concordância no facto dos assassinos de Paris deverem ser julgados como quaisquer outros criminosos de delito comum, "serial killers", que sem dúvida o são (inclusivamente com todos os direitos destes, é importante dizê-lo), nem sequer, nos nossos piores sonhos, pensando em lhes conceder o estatuto de "combatentes", "resistentes" ou lá o que quer que seja, convém, do ponto de vista político e para termos a noção de como devemos agir no médio-longo prazo, lembrar onde e como tudo começa. E para isso temos de voltar às velhas questões políticas, ao "eterno" conflito israelo-palestiniano, à declaração Balfour, ao acordo Sykes-Picot e a uma questão que, com Arafat e sem Arafat, com o Hamas e eventualmente sem este, parece irresolúvel.  Mas também à queda da URSS, que abriu caminho ao fim das ditaduras nacionalistas árabes e criou o vazio onde o islamismo radical viu a sua oportunidade, se infiltrou e tem vindo a ocupar. E nestas duas importantes áreas da política internacional e da geo-estratégia convém reconhecer que aqueles que nós, ocidentais, que nos revemos na democracia, na tolerância e nas liberdades, temos vindo a eleger e mandatámos nem sempre terão estado à altura e agido com as necessárias prudência e sabedoria políticas. Essa é também uma nossa responsabilidade, mas, infelizmente, tenho pouca ou nenhuma esperança as coisas venham significativamente a mudar.

sábado, junho 14, 2014

O Grupo Espírito Santo e a democracia liberal

Sou dos que pensam não existe liberdade nem democracia liberal sem uma economia baseada na livre iniciativa empresarial - regulada e regulamentada e salvaguardando os chamados interesses estratégicos de cada país, acrescente-se. E também sei que não existe livre iniciativa sem grupos económicos fortes e saudáveis, só composta pelas tais micro, pequenas e médias empresas. É por isso, depois do descrédito em que caíram os políticos e também do caso de polícia que foi e é o BPN, que leio com especial preocupação as notícias sobre as alegadas irregularidades atribuídas ao Grupo Espírito Santo, que acabam por afectar não só o grupo económico e a família, mas também a Banca, todo o mundo empresarial e dos negócios e, por acréscimo, o regime. É que, ao contrário do que acontece com o BPN, já não estamos aqui perante um grupo de arrivistas sem escrúpulos - pelo menos em teoria, facilmente isoláveis - mas perante gente com outro tipo de "background" político e social e cuja actividade bancária, empresarial e até cultural atravessou séculos e regimes, apoiando e apoiando-se em todos eles e identificando-se com a História do país desde o século XIX. Muitos regimes, democráticos ou não, já caíram perante este "caldo de cultura". Preocupante, pois claro. 

terça-feira, abril 15, 2014

O governo e os "cortes" em 2014/15

Independentemente de podermos considerar (e eu considero) que é bem mais justo diminuir a despesa pública através de reorganizações e fusões dos serviços, bem como de despedimentos (qualquer que seja a denominação escolhida) de funcionários, desde que estas acções sejam baseadas na legalidade e em critérios racionais e avaliações credíveis, em vez de realizadas através de "cortes" indiscriminados, como até aqui tem sido feito, vamos assistir durante este ano e em 2015 a uma tentativa do governo para reduzir ao mínimo o universo dos atingidos pelas medidas de austeridade. Motivo? "One man, one vote", ou seja, estamos em dois anos eleitorais e o governo está longe de se estar a "lixar" para as eleições, como aliás é lógico e salutar não o esteja. Enfim, talvez isto leve alguns saudosos dos tempos da ditadura a pensar duas vezes sobre as vantagens e desvantagens da democracia.  

quarta-feira, março 12, 2014

Da "inoportunidade"

Felizmente vivemos numa democracia, numa sociedade livre e aberta e por isso não compete aos governos nem aos orgãos de soberania decidir quando é ou não oportuno discutir um qualquer assunto político ou da governação. Tal acontece, isso sim, nos regimes ditatoriais e totalitários. Numa democracia liberal e não estando decretado qualquer estado de excepção, os cidadãos são, nos limites da lei, donos e senhores das suas iniciativas, podendo, em função disso, decidir, a cada momento, o que muito bem acharem pertinente debater e discutir no espaço público. Inclusivamente, enviar propostas para debate pelos seus representantes eleitos. Se o governo não considera algum desses debates ou alguma dessas propostas oportunas a sua opinião poderá - e será - por certo relevante, mas não passará de isso mesmo: uma opinião com o peso específico que lhe é atribuído por ter origem no executivo.  Será que este primeiro-ministro e o seu governo são capazes de entender este simples princípio? 

terça-feira, março 11, 2014

O "manifesto", o governo e Belém

O que o manifesto pedindo a reestruturação da dívida vem provar (independentemente da opinião sobre o assunto que cada um possa ter) é que, não sendo possível (nem desejável, acrescento) o tal "amplo consenso" sobre a actual governação, o que, a acontecer, transformaria a democracia numa caricatura ou numa ditadura mal disfarçada, são possíveis compromissos (a palavra parece-me menos "pantanosa" do que consensos) amplos, a cada momento, sobre questões políticas e de governação específicas e muito bem definidas. Aliás, como sempre foram durante a democracia. Claro que essa possibilidade prova também duas coisas: 
  1. Que é o governo, com o seu radicalismo ideológico e enquanto representante de facto dos credores (um género de governo de Vichy adaptado aos tempos e às circunstâncias), o principal responsável pela inviabilização de tais compromissos. 
  2. Que o Presidente da República, em vez de procurar o tal "amplo consenso", aparentemente em termos gerais e abstractos mas que significaria de facto uma caução à actual governação, deveria, isso sim, pôr o seu foco, a cada momento, na obtenção de compromissos sobre questões mais concretas e bem definidas. Mas para isso, claro, os portugueses teriam que ter na Presidência da República alguém com muito maior saber, sensibilidade e tacto políticos. Terem eleito Cavaco Silva faz parte do seu drama.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Gaspar e os "interesses instalados"

O ex-ministro Vítor Gaspar afirma, a dado passo, no seu livro/entrevista a Maria João Avillez que "os interesses instalados são extremamente poderosos", o que teria inviabilizado a reforma do Estado (nota minha: seja lá o que isso for) começasse mais cedo. Uma pergunta: mas não compete aos governos, em democracia, regimes que se baseiam em equilíbrios necessariamente frágeis e nos célebres "checks and balances", gerir a sua intervenção política de modo a conseguir ir  ultrapassando os constrangimentos colocados por esses interesses instalados, aliás legítimos e muitas vezes conseguidos com a colaboração do próprio Estado e dos governos? Ou da sua substituição por outros que se queiram "instalar"? Ao fazer este tipo de declarações, o que Vítor Gaspar está a afirmar não é, nem mais nem menos, do que a sua incapacidade política para ser ministro de um governo num regime democrático? 

Aliás, e falando dos tais "interesses instalados", muitos deles, sejam sindicatos, associações patronais e profissionais, organizações empresariais e financeiras, regionais, partidos políticos, etc, etc, foram mesmo promovidos - e bem - pelo próprio regime por absolutamente indispensáveis à institucionalização e consolidação da democracia, num país herdeiro de estruturas económicas e sociais demasiado frágeis para a suportarem. Claro que, com isso, se terão herdado também algumas perversões que tornam mais complexa do que o desejável a gestão política, mas parece-me que aquilo de que Gaspar se queixa é tão só de não conseguir à altura da tarefa. Por isso, e como se vai tornando habitual, aqui e ali lá vem um indisfarçável e saudosista "suspirozinho" pela ditadura...  

terça-feira, outubro 22, 2013

Eufemismos e ditadura

Já muita gente o disse, mas vamos lá repeti-lo. Em Portugal, as palavras perderam o seu significado, principalmente na política. "Mentira" passou a "inverdade"; "despedimento" na Função Pública a "requalificação"; "cortes" na despesa pública a "reforma do Estado"; "cortes", puros e simples, nas pensões a sujeição a "condição de recurso", "transitório" a "prazo indefinido", "segundo resgate" a "programa cautelar"etc, etc. Agora, asseguradas que estão uma maioria parlamentar e um Presidente da República colaborante ("um governo, uma maioria, um presidente")  parece que "ditadura" se prepara também para ser transformada em "acordo a longo prazo entre os dois principais "partidos", demissão do Tribunal Constitucional das funções para as quais existe e foi criado e "eleições" transformadas numa farsa que permitiria aos portugueses escolher o partido que entendessem desde que - como a cor do Ford T - fossem rigorosamente iguais. Digamos que à tal "uma maioria, um governo, um presidente", se juntaria "uma "oposição fantoche", um Tribunal Constitucional "colaborante" e umas eleições sem propósito. Depois não digam que eu não avisei.

Nota final: confesso que me custa ouvir um bem sucedido empresário, que, com todo o mérito, transformou o grupo empresarial que dirige num enorme caso de sucesso, dizer tantos disparates políticos em tão pouco tempo. Digamos que nem os sempre tão solícitos e subservientes "media" conseguem transformar um excelente merceeiro num apenas razoável comentador da cena política.

segunda-feira, setembro 16, 2013

"Media", equidade democrática e audiências

Claro que não nego a Comissão Nacional de Eleições terá levado demasiado à letra a lei que estabelece o tratamento igualitário das várias candidaturas eleitorais pelos media"; que em 1976 o panorama destes era completamente diferente, com televisões, rádios e alguns jornais nas mãos do Estado; que o cumprimento à risca da lei poderia pôr em causa critérios jornalísticos e editoriais, da exclusiva responsabilidade dos operadores e das redacções, e a nu alguma escassez de meios, etc, etc.. Mas o que rádios e televisões não dizem - e não podem dizer sem se exporem demasiado - é que a má vontade manifestada e algumas das alegações apresentadas constituem apenas uma cortina de fumo destinada a esconder algo de mais fundo: alguma incompatibilidade existente entre o cumprimento, mesmo que assumido de modo inteligente, de uma lei da República - bem ou mal feita, realista ou não, actual ou ultrapassada - destinada, no seu espírito, a proteger a democracia e a chamada "igualdade das candidaturas", e a conquista ou manutenção de audiências, no caso dos operadores privados algo perfeitamente legítimo, mas que poderia ser posto em causa com a obrigatoriedade da existência de debates, pouco ou nada mediáticos, entre quase desconhecidos ou de notícias e reportagens pouco atractivas com as Carmelindas Pereira deste mundo. Digamos existissem dez ou quinze candidaturas com forte interesse mediático e o assunto seria bem mais facilmente resolvido. Ou não seria assim?

sexta-feira, agosto 16, 2013

Egipto e o dilema do Ocidente

Entre eleições que correm o risco de entregar o poder aos islamitas, mais ou menos moderados, mais ou menos radicais, não garantem a prazo a democracia e podem fazer mergulhar o país na convulsão e a segurança que uma ditadura militar, solução já bem conhecida e que dá garantias numa região-chave do ponto de vista geo-estratégico, o Ocidente tem no Egipto um belo bico de obra para resolver. Para já, o pior que podia ter acontecido às democracias ocidentais, que parece jogarem numa ditadura "soft" ou numa democracia "vigiada" e "militarizada" como a menos má das soluções (e se calhar têm razão), foi a falta de moderação no uso da força demonstrada pelos militares na dispersão das manifestações dos apoiantes de Morsi e será essa, para já, a principal preocupação do Ocidente para que o seu objectivo possa ser exequível. Já agora: quem falava de uma tal "Primavera Árabe" vivia em que mundo?

quarta-feira, julho 17, 2013

A "estratégia da aranha" presidencial e os partidos políticos

  1. Cercados por um Presidente da República com tendências "cesaristas", sem formação de democrática e para quem a democracia tem um carácter puramente instrumental (do tipo "chewing gum": mastiga enquanto tem sabor e depois deita fora); uma chamada " sociedade civil" fraca, sem tradições democráticas ou participativas  e onde o populismo encontra solo fértil para se desenvolver; uma crise económica e financeira internacional que, como é habito, atingiu preferencialmente os mais fracos (cidadãos e países); e pelos seus enormes e inúmeros erros, os partidos políticos sairão desta semana de negociações, com ou sem acordo final, ainda mais fragilizados. Até pode acontecer que, no caso de acordo, pensem o contrário, mas perderão a sua autonomia, num regime sob tutela presidencial, e ficaram à disposição de quaisquer outras exigências futuras, quer do populismo, quer deste ou qualquer outro "cesarismo" mais ou menos suave: amanhã, um dia, alguém lhes exigirá a cabeça. Esta semana - repito, quer haja ou não acordo - a democracia e o caminho de Portugal no sentido de aproximação às nações civilizadas sofrerá pesada derrota.
  2. Não sou constitucionalista, nem sequer jurista e aceito por isso a unanimidade dos constitucionalistas que afirmam estar a actual situação conforme a Constituição. Mas falando puramente em termos políticos, o que está em curso é uma espécie de tentativa de "golpe de Estado" constitucional, em versão soft core, que acentuará a vertente presidencialista do regime e esvaziará, pelo menos parcialmente e com o consentimento dos chamados "partidos do arco da governação", o papel da Assembleia da República e dos partidos. Percebe-se agora melhor a acção de Cavaco Silva - em conluio com Carlos Costa - desde o primeiro governo de José Sócrates, tentando enfraquecer e afastar o único líder partidário forte e também único obstáculo sério a estas suas intenções. A seu tempo (aqui e aqui) o fiz notar.
  3. Haverá acordo? Bem, não tenho dons de pitonisa, embora ache, e ao contrário do que muito gente afirma, que a racionalidade não anda assim tão ausente dos acontecimentos em curso (basta ler os dois primeiros pontos deste "post"). Arrisco dizendo que o mais provável será um certo acordo de "fachada", sem grande conteúdo, ou pelo menos muito parcial. Colocando-me no lugar dos partidos em causa e no modo como pensam a política, parece-me ser a solução que acham estará mais perto de lhes salvar a face e de minimizar as perdas eleitorais. Enfim, será a vitória dos fracos, mas a partir do momento em que se deixaram enredar na teia pacientemente tecida por Belém, nada de muito diferente será de esperar. Eu é que espero bem estar enganado.   

sexta-feira, julho 05, 2013

Reféns dos mercados?

Não, até por formação profissional não nego a importância dada aos mercados na situação que Portugal atravessa. Mas tal é diferente, muito diferente, de considerar os mercados como únicos ou quase únicos destinatários dos actos políticos e/ou da governação, reduzindo os portugueses a meros figurantes e a democracia a uma grotesca caricatura. Quando oiço muitos políticos e comentadores, também eles reféns  voluntários dos mercados, reduzirem tudo ao "regresso aos mercados", à "hipótese" de um segundo resgate", à evolução das taxas de juro da dívida, ao "pós-troika" e "ofícios correlativos", chego mesmo à conclusão que então talvez seja melhor pôr um ponto final na hipocrisia e pensar se não seria mais honesto suspender a democracia e dispensar as eleições.

quarta-feira, maio 01, 2013

"Eu não fui eleito coisíssima nenhuma"

A desrespeitosa resposta  (para  com a deputada Ana Drago e para com a Assembleia da República) de Vítor Gaspar ("eu não fui eleito coisíssima nenhuma") sobre um dos maiores escândalos do regime (talvez mesmo o maior depois do caso BPN) põe a nu um problema fundamental da democracia portuguesa: o facto de, ao contrário do que acontece no Reino Unido (por exemplo), poderem ocupar lugares no governo personalidades não eleitas, que assim se eximem ao escrutínio democrático dos cidadãos. Só isso explica e permite a resposta arrogante de Vítor Gaspar, alguém para quem a democracia é um empecilho que fragiliza a actuação ministerial em vez de a fortalecer por via do mandato obtido.

"Abrir os partidos à sociedade", aos não-militantes (embora qualquer cidadão possa livremente aderir e ser militante do partido do qual se sente mais próximo e assim participar activamente na sua vida interna e externa) , pode ter a sua importância política, não o nego, mas acontece muitas vezes parte importante da solução estar bem mais próxima do que à primeira vista pode parecer. Talvez não fosse mau começar por aí, colocando como condição prévia à ocupação de um lugar no governo o ter sido eleito deputado pelos cidadãos-eleitores deste país.  

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Nuno Santos, a RTP, a árvore e a floresta

Não sei se Nuno Santos é ou não responsável por ter autorizado o visionamento e/ou cedência de imagens não editadas da manifestação junto da Assembleia da República, e duvido alguém, para lá dos intervenientes directos neste imbróglio, o saiba. Se o fez, incorreu num crime, já que apenas o poderia ter feito em cumprimento de mandado judicial. Se o não fez e foi afastado por motivos políticos, é grave, embora tal não seja caso virgem nem tipo de comportamento ao qual não estejamos, infelizmente, demasiado habituados.

Mas mesmo assumindo que terá sido vitima de uma cilada, o que torna o seu afastamento ainda mais grave, estamos perante um problema conjuntural, isto é, nada que não possa vir a ser corrigido facilmente num futuro mais ou menos próximo por este ou qualquer outro governo. Já a eventualidade do Estado ceder uma parte significativa do capital da RTP a uma entidade privada, coisa que, teoricamente ou em termos puramente abstractos, não me chocaria demasiado, é uma modificação de natureza estrutural, querendo isto significar que modifica a estrutura accionista da empresa, o seu modelo de gestão, a sua relação com os "stakeholders" e pode mesmo ter implicações decisivas na democracia e na presente e futura liberdade de informar, devendo por esse motivo ser objecto de escrutínio rigoroso pela Assembleia da República e por todos os cidadãos. Se essa cedência tiver como destinatário um grupo económico onde o poder é partilhado pela Cofina, detentora do Correio da Manhã com a sua filosofia jornalística(?) e o seu triste registo de conteúdos, aliado a capital de um país onde não existe liberdade de expressão, de informar ou sequer liberdade empresarial, e no qual nada se faz sem ou muito menos contra a elite corrupta no poder, o assunto excede em muito, na sua gravidade, o caso Nuno Santos ou, não querendo com isto aligeirar a sua gravidade (longe disso), quaisquer outros casos conjunturais do mesmo teor. É por isso que, embora se conheça demasiado bem a estratégia do governo em "atirar o barro à parede a ver se pega" e o sem número de opções que já anunciou para o grupo RTP, vejo com alguma estranheza um assunto que é estrutural ser claramente preterido, no seu tratamento político e mediático, em favor de uma questão que pode ser grave, sem dúvida, mas de natureza meramente conjuntural, vendo a árvore mas ignorando ostensivamente a floresta. "Business as usual", compete perguntar?