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quarta-feira, janeiro 14, 2015

Manuel Valls por maus caminhos

Numa democracia digna de si própria, se alguém fizer em público ou difundir, de algum modo, comentários racistas, segregacionista, anti-semitas ou quaisquer outros do mesmo género contra um povo ou uma religião, estamos apenas, em minha opinião, perante um cretino, um energúmeno, desde que essas suas atitudes, na prática, não violem as leis da igualdade, isto é, não discriminem ninguém em função da raça, sexo ou nacionalidade, leis essas estruturantes de qualquer democracia. Se o fizerem, estará a violar a lei e terá então, mas só então, de responder por tal acto. Enquanto tal não acontecer, deverá ter todo o direito a exprimir a sua opinião, por mais abjecta que seja: confiemos a sociedade saberá julgar tais atitudes. Aliás, recorrendo à irreverência extrema e a um tipo de humor iconoclasta que torna sempre mais integrável e até mesmo bem vindo algum radicalismo, no limite, alguns mais susceptíveis podem mesmo considerar que o "Charlie Hebdo" não terá andado demasiado longe de algumas das categorias acima mencionadas.

O mesmo deve acontecer com quem difunde ideologias contrárias ao Estado Democrático, quaisquer que elas sejam, incluindo o nazismo e o apelo ao terrorismo, desde que não utilizem a violência na sua acção política. Se estivermos perante alguém que defenda o negacionismo, para além das características acima elencadas estamos também na presença de um ignorante, pelo menos em termos históricos, mas que tem pleno direito a ser cretino, enegúmeno e a fazer gala da sua ignorância. É isto que justifica a superioridade da democracia sobre todos os outros sistemas políticos.

Por isso mesmo, vejo com especial preocupação acontecimentos como este, e afirmações como a de Manuel Valls referindo que "é preciso não confundir a liberdade de opinião e o anti-semitismo, o racismo e o negacionismo”. Perante reacções deste tipo - que infelizmente não me espantam - o único comentário que posso fazer é que estamos (ou a França está) a ir por muito mau caminho.

quarta-feira, abril 02, 2014

Manuel Valls ou a distância entre França e Portugal

Em França, Manuel Valls, filho de um catalão e de uma italiana e que apenas adquiriu a nacionalidade francesa em 1982, é agora primeiro-ministro e, ao que se diz, será futuro candidato à Presidência da República. Por sua vez, Anne (Ana) Hidalgo, filha de imigrantes espanhóis, nascida em 1959 e que adquiriu a nacionalidade francesa em 1973, ocupa agora a Presidência da Câmara Municipal de Paris. Em Portugal,  um qualquer cidadão que não tenha tido sempre a nacionalidade portuguesa nunca poderia candidatar-se à Presidência da República, por lhe ser constitucionalmente vedado, e, pelo contrário, chega-se ao ridículo de discutir se jogadores de futebol naturalizados devem ou não representar a selecção do seu novo país. 

A diferença? França convive há mais de cem anos com forte imigração e por isso, apesar do chauvinismo que lhe é tradicionalmente atribuído, muitas vezes com razão, tornou-se, até pela sua situação geográfica, mais cosmopolita e soube perceber o que de positivo poderia absorver dessa mesma imigração. Com Portugal passou-se exactamente o contrário: periférico e país de emigração, só no último decénio do século XX, e apenas por um relance, se abriu de facto à diferença. O importante e significativo não é pois saber quando um luso descendente ocupará um cargo político de primeira linha em França ou na Alemanha, por exemplo, mas quando um cidadão português nascido brasileiro, ucraniano, moldavo (etc) poderá vir a ocupar cargo idêntico em Portugal.

sexta-feira, outubro 26, 2012

Chansons historiques de France (1)

"Chanson contre la Poisson" (1750)

Madame de Pompadour (Jeanne-Antoinette Czernichovscki Poisson) uma mulher de origens humildes e paternidade duvidosa, foi a amante mais famosa de Luís XIV e, por via disso, uma das mulheres mais poderosas e também odiadas do seu tempo. O que talvez muita gente não saiba é quando falamos em "peixeirada" não nos estamos só a referir, pelo menos originalmente, às bem conhecidas discussões que por vezes ouvimos no mercado entre simpáticas e de "pelo na venta" vendedoras de peixe. É que o termo, se pode ter sido adaptado posteriormente para definir tais discussões, terá a sua origem nas "poissonades", versos, textos, canções e poemas satíricos, por vezes mesmo injuriosos, dedicados a escarnecer Madame de Pompadour, née "Poisson" (peixe), o seu poder e as suas humildes e duvidosas origens. Pois esta canção histórica, cujo autor terá sido o dramaturgo Antoine de Ferriol de Pont-de-Veyle, é mais uma dessas famosas "poissonades", direi mesmo que das mais "soft".

quarta-feira, junho 13, 2012

A mulher de César (ou de Hollande)

A propósito deste "post", acho que a Ana Matos Pires tem razão num ponto e está fora dela em dois. Tem razão quando diz que não percebe como o "twitter de Valerie Trierweiler não pode ser entendido apenas como "duas cabeças (ela e a de Hollande) que pensam de modo diferente". Seria normal e desejável que assim fosse e em condições normais assim deveria ser. Mas... Não tem razão, primeiro, quando diz, criticando, que "gaja que é gaja defende ou fica calada quando o namorado tem determinada posição". E não o tem porque a questão de género não é para aqui chamada, isto é, se fosse ao contrário, "gaja" político e "gajo" cônjuge (ou gaja/gaja ou gajo/gajo, tanto faz), nada leva a crer a questão também não fosse levantada de modo semelhante. Em segundo lugar, também não tem razão porque sendo Ségolène Royal a anterior mulher de Hollande e Valerie a seguinte, o caso não pode deixar de dar lugar a interpretações que não terão muito a ver com a política. Correcta ou incorrectamente é o que menos importa, pois trata-se de uma mera questão de facto. E é exactamente por isso, e não por qualquer outra razão de género ou de autonomia intelectual, que mandaria o bom senso Valérie Trierweiler tivesse sido bem mais discreta no legítimo apoio político concedido ao adversário da ex-mulher de Hollande.

terça-feira, maio 08, 2012

Atenção aos "cristão novos"

A ideia do "crescimento", como alternativa ou complemento à "austeridade", tem vindo paulatinamente a fazer o seu caminho e ganhou agora novo fôlego com e eleição de Hollande. Veremos no que dá e como se materializa o que para já é apenas uma ideia demasiado difusa, mas entretanto não será grande surpresa ver a tentar saltar para o comboio do "crescimento" aqueles que sempre se mantiveram irredutíveis na defesa das políticas recessivas. Para melhor travarem o seu andamento? É possível, e até mesmo muito provável. Mas também porque para muitos é sempre bem melhor apanharem aquela que pensam a cada momento ser a boa onda. Ou o comboio certo. Bem vindos a bordo? Hum...

Nota: em Portugal, o ministro Vítor Gaspar é o grande derrotado com a eleição de Hollande. Estejamos atentos ao que se possa vir a passar.

segunda-feira, maio 07, 2012

O PS francês, a V República e os seus presidentes

Tenho ouvido e lido por aí que Hollande é apenas o segundo socialista a ser eleito Presidente durante a V República, tendo François Mitterand sido o primeiro. Não deixa de ser verdade, mas para compreender tal coisa num país onde sempre existiu uma esquerda forte (e até um governo de Frente Popular entre 1936 e 1938) não deixa de ser importante acrescentar o seguinte:
  1. O Partido Socialista Francês, na sua actual forma, foi apenas fundado em 1969 (a fundação da V República data de 1958). Antes disso, a esquerda socialista francesa dividia-se numa confusão de pequenos partidos e organizações, entre revolucionárias e reformistas ou até, por vezes, colaborantes com ideias e políticas conservadoras (a SFIO apoiou a guerra da Argélia), frequentemente conflituais e defendendo ideias e políticas antagónicas entre si. Para além disso, a V República e a sua Constituição foram desenhadas à imagem e semelhança de De Gaulle, que abandona o poder, na sequência de um referendo sobre a reforma do Senado, exactamente no ano da fundação (ou refundação) do PS.
  2. Até 1978 o Partido Comunista foi o maior partido da esquerda francesa. Só nesse ano o PS conseguiu melhores resultados do que o PCF nas eleições legislativas. Três anos depois François Mitterand seria finalmente eleito presidente com 51.75% dos votos e tendo como base o Programa Comum da Esquerda.

O socialismo democrático e as várias eleições de ontem

Penso que foi ao Pedro Adão e Silva que ouvi em tempos a seguinte e certeira constatação: "se, na Europa, a austeridade vai varrendo do poder os partidos que a ela aderem, isso acontece de modo mais gravoso com o socialismo democrático e a social-democracia" (cito de cor). Nada de admirar, claro, se nos lembrarmos que, uma vez vencida a direita europeia democrata-cristã e substituída esta por uma espécie de versão serôdia dos "neo-cons" americanos, a política de austeridade, se pouco ou nada tem a ver com os partidos que estiveram na génese da Europa do pós-guerra, tem-no, de entre estes, ainda menos com os que se reclamam da herança reformista da Internacional Socialista. Lembrei-me disto ontem ao ver os resultados das eleições na Grécia e em França, não deixando de deitar um olho para o que se passou no Estado federado alemão de  Schleswig-Holstein. É que, de facto, depois do PS português e do PSOE terem sofrido profundas e históricas derrotas nas eleições legislativas dos respectivos países e do PASOK grego ter passado a terceira força política, a Nova Democracia grega e a CDU de Fraü Merkel, apesar das perdas, conseguem mesmo assim ganhar as eleições a que concorreram ontem. Digamos que, em medidas diferentes, se aguentaram. Ah!, dir-me-ão, e Hollande? Pois... mas o facto é que, apesar de conjugar em si a austeridade, uma personalidade antipática e um seguidismo em relação ao governo de um país contra o qual a França disputou as suas últimas três guerras, nos últimos 150 anos, (franco-prussiana e WWI e II), Sarkozy consegue ainda assim o "feito" de uma derrota "à justa". Digamos que mais do que saudar a, mesmo assim importante, vitória de Hollande, é nisto que a social-democracia e o socialismo democrático - e, por maioria de razões, António José Seguro - devem pensar. Olhando para França? Sim, não direi que não, mas muito principalmente para a Grécia do Syriza e de uma tal "Aurora (muito pouco) Dourada".

segunda-feira, abril 23, 2012

As eleições francesas e algum desconforto dos "media" portugueses

Pareceu-me sentir algum desconforto da maioria da cena mediática portuguesa face ao resultado de Sarkozy na primeira-volta das eleições francesas. Não por Sarkozy, lui-même, mas porque, de facto, Sarkozy é o candidato do governo português, aquele cuja vitória mais convém à ideologia e prática políticas actualmente dominantes na direita cá do sítio. Por isso, prefere-se colocar em destaque o resultado de Marine Le Pen, como se não se soubesse que nele está contido muito voto de protesto, anti-sistema e típico de uma primeira volta, voto esse criado exactamente pelas opções da política europeia dos últimos anos e da qual Merkel e Sarkozy são expoentes. E depois fazem-se contas estúpidas, somando os votos de esquerda, de um lado, e direita, do outro, como se a segunda volta, a dois, não se traduzisse em mais do que uma soma aritmética dos votos da primeira, e assim se concluir de imediato que Sarkozy sairá na frente. Se assim fosse, não seria necessária uma segunda-volta, bastando tal exercício matemático para se eleger o presidente, poupando-se tempo e dinheiro. Bem melhor fizeram os "media" franceses, realizando sondagens para determinar quais seriam as transferências de intenções de voto na eleição do próximo dia 6 de Maio.

Com a ressalva de que o rigor de sondagens para aferir as intenções de voto numa segunda-volta realizadas antes de uma primeira-volta e, principalmente, no dia dessa mesma primeira-volta deixará algo a desejar, o que é facto que até hoje nenhuma sondagem dá Sarkozy à frente, variando a vantagem de François Hollande entre 4 e 6 pontos percentuais. São pois estas - as sondagens sobre o resultado de dia 6 e sobre as possíveis transferências de voto - as únicas contas válidas para aferir como partem os candidatos para mais quinze dias de campanha e são elas que irão condicionar o seu comportamento. Hollande gostaria a segunda-volta fosse já amanhã, e tentará conservar a vantagem jogando na defensiva, isto é, ao centro, tendo garantidos à partida quase o pleno dos votos da esquerda (são as sondagens que o dizem). Sarkozy terá de recuperar o terreno perdido jogando à sua direita, onde, também segundo as sondagens, a transferência de voto não é tão avassaladora (na casa dos 60%). Mas ao fazê-lo poderá também perder alguns ao centro, terreno dos eleitores de Bayrou. Digamos que a posição de Hollande é bem mais confortável (só tem de não cometer erros), mas jogar ao ataque e à direita é o terreno de eleição de Sarkozy. Prognósticos? Esses só mesmo no fim do jogo.  

quarta-feira, julho 21, 2010

O semi-presidencialismo francês e a sua génese

Para aqueles que acham ser a constituição francesa - semi-presidencialista - um exemplo a seguir (é o caso de António Capucho), lembro, uma vez mais, que a sua génese radica nos antípodas daquilo que deve ser uma democracia moderna e tem sido a tradição parlamentar europeia. A constituição francesa de 1958 (V República) nasce de um apelo messiânico a um caudilhismo “gaullista” numa França em crise política profunda motivada pelo conflito colonial argelino, em perigo de golpe de estado e à beira de uma guerra civil. Acham existe alguma semelhança?

terça-feira, junho 22, 2010

Aux larmes, citoyens!

Eu, os meus 25% de sangue francês (se é que o sangue tem nacionalidade, coisa da qual duvido) e a minha cultura originalmente francófona, confesso se sentiram amarrotados e amarfanhados... Nem sequer foram capazes de aproveitar a oportunidade de uma qualificação, no mínimo, duvidosa. Mil vezes pior do que Saltillo!
Em já muitos Mundiais e Europeus, não me lembro de ter assistido a semelhante coisa. Uma vergonha!

segunda-feira, junho 09, 2008

"Bleu, blanc et rouge"

Quando era criança e me comecei a interessar por estas coisas do futebol, uma das primeiras perguntas que fiz, como todas as crianças, foi sobre as cores do equipamento de cada uma das selecções ou clubes. Quando chegou a vez da França, certamente uma das primeiras, lembro-me o meu pai me ter respondido de imediato: “bleu, blanc et rouge”. Como na bandeira herdada da revolução cada cor ocupa exactamente um terço, mais tarde concluí, já passado mais de um século, a liberdade (azul da camisola) começava a levar bem vantagem sobre a igualdade dos calções brancos ou a fraternidade das meias encarnadas. Há pouco, ao ver a selecção francesa toda equipada de azul, apenas com os “toques” de encarnado e branco aqui e acolá, concluí finalmente a liberdade dominava sobre a igualdade e a fraternidade, o que não deixa claramente de estar “au goût du jour”.

sábado, fevereiro 02, 2008

Sarkozy s'est marié

Houve tempos ("there was a time") em que príncipes (normalmente de principados perdidos) e playboys de segunda ou sabe-se lá de que escolha, latinos ou não quanto baste, protegidos de ditadores, gentlemen drivers de ocasião, casavam ou mantinham affaires, quando não apenas de cama, de diamantes e pérolas, com artistas de cinema e coristas, pin ups e aspirantes a divas, caça fortunas de ocasião. Parece que a moda passou para presidentes eleitos, mas também agora as coristas, travestidas de “modelos”, passaram a ter algum pedigree.

Não sei muito bem – ainda - o que isto quer dizer, e o fim de semana não é lá muito propício a elucubrações filosóficas. Mas há algo aqui de que não gosto, que me cheira a pechisbeque de ocasião, a demasiada futilidade assumida, muito Dom Perignon borbulhante por quem assumiu o lugar por uma escolha, nossa, e não por sucessão de uma qualquer dinastia, ou designação caudilhista. Por quem governa a França e não uma qualquer Bordúria ignota, representa um pouco da Europa e não uma qualquer San Théodorus.

Pois, há algo aqui que me escapa... e não será certamente o amor.