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quinta-feira, abril 03, 2008

Juizes

Em Portugal, qualquer acontecimento, qualquer afirmação ou decisão, mesmo quando, segundo o bom senso mais evidente, aparentaria ser de aceitação tácita e consensual, serve de pretexto para infindáveis discussões sobre si próprias e o seu contrário ou, até, no limite, sobre o mais profundo sentido de toda a vida.

Como prova, hoje de manhã o Fórum TSF resolveu questionar os portugueses sobre a decisão do Conselho Superior da Magistratura de não permitir aos juizes comentários públicos sobre as decisões e acordãos dos seus pares, algo que, perante o que se passou nos últimos casos mais mediáticos (Mc Cann, Casa Pia, etc), deveria ser de um linear entendimento, evitando que dos juizes florescessem, repentinamente, uma plêiade de Moitas Flores de toga. É que, para memória futura, já me bastou um juiz de T-shirt e ténis saltitando no passeio, alegremente, a caminho do ginásio na sua hora de almoço. Mesmo que à hora de almoço, mas num dia de trabalho, terá ele ouvido alguma vez falar em dress code?

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Novamente Moita Flores e o caso McCann

No “Causa Nossa”, Ana Gomes interroga-se, e bem, se face ás últimas declarações do Director Nacional da PJ sobre o caso McCann e o impasse a que aparentemente a investigação chegou Moita Flores continuaria a ser convidado pela SIC para comentar este e outros casos de justiça. Há, no entanto, que ir um pouco mais longe, já que o caso Moita Flores apresenta algumas especificidades que bem o individualizam face a outros comentaristas e outras estações de televisão onde o desvario também andou tanto ou mais à rédea solta, tendo mesmo chegado a ser invocada a alegada condição de “swingers” dos McCann para tentar provar sabe-se lá o quê.

O problema fundamental com Moita Flores é que não sabemos bem se, ao ser convidado para comentar esse tipo de casos, a SIC o está a fazer em função da sua expertise na matéria ou, em última análise, apenas para promover uma das estrelas da estação e os programas de que é autor, comportando-se Moita Flores, nos seus comentários, fundamentalmente em função desse mesmo objectivo. Mais ainda, se o “pacote promocional” não incluirá também o autarca Moita Flores, presidente da Câmara Municipal de Santarém à qual concorreu pelo partido do qual Francisco Pinto Balsemão – e apesar da reconhecida independência deste - é militante número um.

Uma “confusão”, não é?

sexta-feira, outubro 05, 2007

"Madeleine McCann e o Caso do Polícia Falador"

  1. Infelizmente para todos, e por via do chamado “caso Joana”, os antecedentes recentes da PJ de Portimão e do inspector Gonçalo Amaral estão longe da reputação inatacável.
  2. Desde o seu início, desde a própria noite do desaparecimento de Madeleine McCann (não será necessário adiantar as razões: são de todos bem conhecidas) que o caso continha em si todos os ingredientes para se tornar de resolução difícil, mediático (pior, feito à medida dos tablóides ingleses) e com repercussões internacionais. Requereria, pois, o maior bom senso, sobriedade e rigor no seu tratamento por parte da PJ, seja, colaboração imediata da polícia britânica, com meios mais sofisticados e actualizados e larga experiência em casos semelhantes (basta ver com regularidade a Sky News e acompanhar algumas séries policiais inglesas que, ficção à parte, acabam por reflectir o que se passa na sociedade), preservação do local do crime, não subalternização de nenhuma hipótese ou potencial suspeito credíveis e, uma vez que estamos a falar de cidadãos de um outro país, com hábitos e cultura diferentes, e de um caso que envolve algo de sentimentalmente doloroso como o desaparecimento de uma criança, algum pudor nos comportamentos do “dia a dia” que, por exemplo, evitasse o triste espectáculo dos prolongados almoços com vinho e whisky que caíram como “sopa no mel” na voracidade dos tablóides ingleses - e não só.
  3. Como se sabe, a PJ de Portimão não só não actuou neste registo como, desde o princípio e através de comentadores ex-inspectores e outros Flores, nos tentou vender a tese da “cabala” e da conspiração, das pressões neste ou naquele sentido (não será tempo de os portugueses se convencerem, de uma vez por todas, que as ditas pressões fazem parte da nossa vida e saber trabalhar e decidir sob pressão é normalmente o que distingue os muito bons dos restantes?) que, normalmente, existam ou não, não são mais do que manifestação de impotência e capitulação face à resolução do projecto que se tem pela frente. A entrevista de Gonçalo Amaral foi apenas o último episódio dessa impotência.
  4. Também foi visível, durante todo o processo e com maior evidência quando elas pareciam tornar-se mais necessárias, a avareza com que governo, director da PJ e quem de direito prodigalizaram declarações de confiança e apoio à PJ de Portimão, seja por falta de confiança no seu trabalho ou por quaisquer outras razões. Para a opinião pública, a partir de determinado momento isso passou a ser um dado do problema; os operacionais da PJ ter-se-ão apercebido disso, por certo, bem mais cedo. Não me parece que tenham tido isso em atenção, e se o tiveram actuaram como não deviam.
  5. Independentemente da natureza do crime e de quem o cometeu, o que não vem agora ao caso, para a PJ de Portimão e para o inspector Amaral, por culpa própria, o caso só poderia acabar assim: uma vergonha e um enxovalho. Um atestado de incompetência.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Breaking News: Moita Flores "resolve" o "Caso McCann"

Bom, acabo de “ouver” o autarca, escritor de telenovelas e ex-inspector da PJ Moita Flores, na SIC, afirmar que se os resultados das análises enviadas para Birmingham, relativas ao rapto/homicídio/ acidente de Madeleine McCann, ainda não chegaram a Portugal isso se pode dever a uma tenebrosa conspiração que envolve o casal McCann, o Vaticano, o governo de Gordon Brown, os meios diplomáticos, "Fleet Street" e... peço desculpa mas estas falhas de memória... Objectivo, óbvio, deste insondável “polvo”: tramar a PJ e a mãe-pátria de Moita Flores (autarca/escritor de telenovelas e ex-inspector da PJ que tinha telefonado para o "Allgarve" e mais não sei o quê) e “safar” a imagem dos pérfidos ingleses (britânicos, porque Brown é escocês). Envolver o Vaticano (esqueceu-se da Maçonaria e do “Opus Dei”) resulta sempre nestas coisas e contribui para dar credibilidade acrescida à conspiração junto dos mais empedernidos “mata-frades”.

Conclusão (como nas telenovelas, à escolha dos prezados leitores):
  1. A PJ não sabe o que fazer e o que concluir (isto é, não tem solução para o caso e não pode bater na Srª McCann, nem como uma flor, para obter uma “confissão”, pois ela queixar-se-ia ao Vaticano, ao governo de Gordon Brown, aos meios diplomáticos e ao lobby gay, quer dizer, ao “Opus Dei”, quer dizer... ai esta memória!) e encarregou Moita Flores (autarca/escritor de telenovelas e ex-inspector da dita), a bem do corporativismo, de começar a arranjar uma desculpa qualquer para safar a “judite” e vendê-la (a desculpa) “urbi et orbi”, como a benção papal. Gosta desta? É que há outra.
  2. Moita Flores (autarca/escritor de telenovelas e ex-inspector da PJ) está a escrever o guião da nova telenovela da SIC, um policial baseado no caso McCann, mas com uma vaga inspiração no código Da Vinci porque é muito moderno, e a teoria de Moita Flores (autarca/escritor de telenovelas e ex-inspector da PJ), assim exposta em horário nobre da SIC, é apenas um teaser para “aguçar” o apetite dos telespectadores, fixar audiências e "pré-emptar" idêntico projecto da RTP, escrito por José Rodrigues dos Santos e com a filha da Srª Felgueiras “estrelando” no papel de Kate McCann. Boa? É que ainda há outra.
  3. Moita Flores (autarca/escritor de telenovelas e ex-inspector da PJ) nunca contribui, enquanto polícia, para deslindar caso nenhum (tal como o Inspector Varatojo, mas este era simpático e nunca foi inspector, mas sim contabilista, advogado e apresentador de programas da RTP), dedicando-se, enquanto polícia, a dissertar sobre mirabolantes teorias da conspiração em que mais ninguém acreditava e, invariavelmente, conduziam as investigações ao fracasso. Agora vinga-se, pois, finalmente, isso permitiu-lhe descobrir a sua verdadeira vocação - a de escritor de telenovelas, quando não é autarca ou ex-inspector da PJ - e, assim, conseguir as audiências que sempre lhe faltaram. E como as telenovelas são ficção... pela primeira vez na sua vida é levado a sério e descobre o criminoso! Gostou?