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sexta-feira, maio 02, 2014

O DEO, a estratégia e as eleições.

  1. É verdade que o governo mentiu ao dizer que não aumentaria impostos para depois agravar o IVA e a TSU (aqui a funcionar como um autêntico imposto) em 0.25 pontos percentuais; embora não seja daqueles que dizem qualquer governo deve sempre dizer a verdade, abdicando de gerir a informação, penso, neste caso, apenas perdeu com o modo como a geriu.
  2. É verdade que continuamos na ignorância do que se irá passar com a chamada "tabela única" da função pública e dos reflexos que ela irá ter nas respectivas remunerações, tudo levando a crer será, globalmente, num sentido da redução de salários.
  3. É também verdade que o governo, ou mais propriamente alguns ministros do CDS, brincaram com a vida dos portugueses ao mencionarem a possibilidade da redução do IRS em 2015, o que ficámos a saber não acontecerá.
  4. É verdade, como veremos mais adiante, que com esta decisão o governo parece trocar estratégia por votos, mas também é verdade que os partidos se fizeram para ganhar eleições e ainda bem que estas permitem aos governos enfrentar a decisão popular sobre as suas políticas.
Tudo isto é verdade e é bem provável ainda me tenha esquecido de mencionar mais alguma coisa - num sentido negativo, claro. Mas o que é um facto é que o governo consegue, deste modo, substituir alguns cortes salariais - que, na realidade mais não são do que impostos - efectuados sobre dois grupos específicos de cidadãos (funcionários públicos e pensionistas), por um pequeno e quase imperceptível agravamento de impostos (€2.5 por cada mil euros de salário ou despesa) sobre todo um conjunto de portugueses (caso da taxa máxima do IVA) ou dos trabalhadores no activo (TSU, pese o facto negativo de esta ser uma "flat tax"), o que significa, apesar de tudo e de não ter tido a coragem de mexer nos impostos sobre o rendimento, o que é sempre a forma mais justa de distribuir sacrifícios, um muito pequenino passo na direcção de uma maior justiça nessa mesma redistribuição e no afastamento da ortodoxia ultra-liberal. Aliás, basta ver a forma como reagiram alguns dos comentadores mais ortodoxos, na imprensa e na "blogosfera", para perceber a desilusão que estas medidas provocaram nos sectores mais radicais de apoiantes do actual governo. Enfim, e ao contrário do que disse Passos Coelho, estamos perante um pensamento do tipo "que se lixe um pouco da estratégia se com isso puder ganhar alguns votos".

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Da notoriedade mediática de Alexandre Soares dos Santos


Infelizmente, e apesar do desassombro - que saúdo - do artigo de Daniel Oliveira, a questão da enorme exposição mediática de alguém que, sendo um excelente empresário, é também um iletrado político, acumulando nesta área afirmações disparatadas, não se restringe ao crescimento dos extratos bancários dos jornalistas ou às oportunidades de carreira que um empresário como Soares dos Santos pode oferecer. Aliás, seria bem mais simples se assim fosse, embora saiba e admita tal terá o seu peso, não sendo, como o não são, os jornalistas "virgens vestais". O problema é mais vasto e tem a ver com o modo como a ideologia ultraliberal impregnou todo o pensamento político (?) e sobre a política - desvalorizando-os bem como ao papel do Estado - e fazendo, em sua substituição, das empresas e da sua gestão exemplos e modelos que apenas se tornaria necessário copiar e ampliar para a escala de um país e/ou de uma sociedade para que ambos pudessem ser tão bem sucedidos quanto um grupo empresarial. Assim sendo, nada como, sob a capa de um saber baseado no sucesso competitivo, dar voz política (repito: política) a empresários, apresentado-os e às suas propostas e soluções, credibilizadas por esse sucesso empresarial, como modelos que os países deveriam seguir e adoptar para que igual êxito lhes batesse à porta. O que dizem pode ser um "chorrilho" de disparates? Na maior parte dos casos é isso que acontece, mas como as afirmações servem  ou estão próximas do "pensamento dominante", lá estão jornalista e "meio" para lhe concederem a credibilidade necessária. Aliás, as analogias não se ficam por aqui e é frequente também assistirmos, principalmente quando se fala do chamado "ajustamento", à comparação entre as opções de natureza económica a tomar pelo Estado e pelas "famílias", em situações que nos são apresentadas como semelhantes, no que constitui mais um exemplo do pensamento redutor. Onde estão, neste e noutros casos, os arautos tão anti-igualitários" do "tratar de modo diferente o que é diferente? 

Concordando ou discordando do que escrevem e/ou do posicionamento político e ideológico de cada um deles, é o combate a esta "ideologia dominante", ao "pensamento único" de desvalorização e da autonomia da política, que se deve saudar em gente tão díspar nas suas ideias como o são, entre os comentadores, Daniel Oliveira, Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes e poucos mais; e, entre os políticos, retirados ou no activo, nomes como Mário Soares, Pacheco Pereira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite e Adriano Moreira, que lá vão fazendo um esforço para tornar o espaço mediático num lugar um pouco mais recomendável. Valha-nos isso e , no momento actual, convenhamos que já não é pouco.

segunda-feira, junho 03, 2013

João César das Neves propõe o regresso ao século XIX


Deixemos de lado o apelo implícito de César das Neves para que voltemos ao século XIX e à despesa pública correspondendo a cerca de 5% do PIB, isto é, a um país sem Estado Social, saúde e ensino públicos, segurança social ausente, hospitais entregues às instituições religiosas e à caridade e as comunicações reduzidas a estradas de terra batida e comboio de Lisboa ao Carregado. Convém não se dê demasiada importância aos "tontinhos da aldeia" ou aos "bobos da corte". Mas segue César das Neves dizendo que, como estamos a falar de uma despesa pública de cerca de 50% do PIB, "existe muita gente a viver do dinheiro alheio". Como disse? Que eu saiba, esse dinheiro não é alheio a ninguém, não nasceu nas árvores plantadas por alguns proprietários: é de todos e é exactamente por isso que é ao Estado, eleito por todos os cidadãos, que compete a respectiva gestão. E é também por esse mesmo motivo que compete a esses mesmos cidadãos pedir contas ao Estado sobre o destino dado a esse dinheiro - que é de todos - o que fazem usando a sua liberdade de expressão, manifestação e capacidade eleitoral. Em última análise, e sempre que tal se justifique, também com o recurso aos tribunais, ou seja, recorrendo a todos os mecanismos que o Estado Democrático põe à sua disposição.

Mas continua César da Neves com o seu chorrilho populista de mentiras: "um padeiro sabe que depende daquilo que produz". Não é verdade. Depende disso, claro, mas o que produz depende também da capacidade da sociedade para comprar o pão que esse padeiro fabrica; da possibilidade de ter serviços de saúde que assegurem o seu bem-estar, para que possa trabalhar mais dias com maior eficácia; do Estado que lhe assegurou a formação escolar e profissional (talvez mesmo o ajudou a recorrer a financiamento com condições mais favoráveis) e, por último, da existência de caminhos públicos que lhe permitam distribuir o pão que produz ou aos compradores deslocarem-se até à sua padaria. É nisto - e em muito mais - que se traduz a complexidade dos estados e das sociedades contemporâneas civilizadas e que, pretendendo voltar ao século XIX, César das Neves não quer, quanto a mim de forma pouco honesta, compreender.

Mais à frente afirma ainda o professor (pobres alunos...) da Universidade Católica: "Um médico de um grande hospital, mesmo privado, receita exames e tratamentos que omitiria se ele ou o doente tivessem que pagar a conta". Eu, por mim, diria que ainda bem que assim é. Claro que existem demasiadas vezes exageros das prescrições médicas. Sem dúvida. Mas deixando de lado o facto do doente em causa ter contribuído para o custo desses tratamentos com o pagamento dos impostos que o Estado em devido tempo lhe exigiu, aqui está todo um programa político: tem direito a aceder à saúde quem, no momento em que se realiza o acto médico, tiver dinheiro para o pagar. Assim mesmo, de forma nua e crua. 

No fundo, estas afirmações de João César das Neves, ás quais muitos responderão com o encolher de ombros destinado a quem não se pode levar muito a sério, acabam por sintetizar na perfeição o pensamento da direita ultraliberal actualmente dominante na Europa e no país. É bom que se levem mesmo a sério e tenhamos bem consciência do perigo que representam.

segunda-feira, novembro 12, 2012

"Tonta", Isabel Jonet?

Foi transmitida durante o fim de semana por alguns comentadores e um "animador televisivo" habitué das noites de domingo a ideia de que Isabel Jonet, enfim, não seria mais do que uma "tonta", sendo que o que verdadeiramente importava era a acção positiva do Banco Alimentar Contra a Fome, por si dirigido. Não negando a acção positiva, até mesmo importante, da instituição Banco Alimentar, nada mais errado.

Em primeiro lugar, porque, a não ser que esteja afectada por grave e acelerada decadência das suas faculdades intelectuais, quem se licenciou em economia por uma universidade prestigiada e valorizada, como o é a Universidade Católica de Lisboa, não pode ser uma completa "tonta", ao ponto de, por muitas dificuldades de comunicação que possa evidenciar, não ter a noção do que diz. Acresce que é reincidente e, entre duas entrevistas, teve  mais de um ano para pensar e corrigir o que achasse conveniente. Em segundo lugar, as afirmações de Isabel Jonet, principalmente aquelas, bem mais graves, que atacam directa e expressamente os fundamentos do Estado Social e que constam duma sua entrevista à TSF, não fazem mais do que exprimir a ideologia e valores dominantes nos sectores ultra-liberais mais radicalizados, de uma espécie de "tea party" saloio de ascendência marxista-leninista cujos arautos mais destacados serão os jornalistas José Manuel Fernandes e Helena Matos e que tem aconchego preferencial no "blog" Blasfémias. Por alguma razão veio dessa espécie de "vanguarda" a defesa mais acalorada e ideologicamente estruturada de Isabel Jonet. Por último, e conforme aqui afirmei, o Banco Alimentar Contra a Fome, nascido como ideia e prática meritórias e de utilidade indiscutível mas apenas aceitável como complemento a um Estado Social tão abrangente e eficaz quanto possível, acaba assim por transformar a instituição num bastião onde se alicerça o poder mediático, político e ideológico de Isabel Jonet e do ultra-liberalismo mais reaccionário, com risco e prejuízo evidente do fortalecimento daquela que deveria constituir, e tem constituído, a actividade principal do Banco Alimentar. 

"Tonta", Isabel Jonet? Não estaremos antes, alicerçado e ao abrigo de uma actividade meritória que a resguarda, na presença de mais um ataque ao Estado Social e ao que ele representa de conquista civilizacional? A resposta está implícita.

quinta-feira, junho 14, 2012

Liberais de pacotilha

Que a Direcção Geral de Saúde pretenda certificar-se das condições de salubridade e segurança em que vivem as crianças mais jovens e aconselhar nos cuidados a tomar deveria ser considerado como sintoma de civilização: em muitos países mais desenvolvidos, e penso também em Portugal, pelo menos em alguns casos, a Segurança Social visita periodicamente as casas onde vivem crianças e jovens para se assegurarem do modo como são tratadas e cuidadas. Mas, infelizmente, em Portugal não é assim que pensam alguns liberais de pacotilha, muitos deles vindos directamente do totalitarismo marxista-leninista "sem passarem pela casa da partida e sem receberem os dois contos", assustados com o que chamam "o abuso a interferência do Estado na vida dos cidadãos". Devem achar assim afastam e exorcizam um passado que parece teimar em ensombrar as suas vidas. Mas sugiro um "shrink", mezinha individual, talvez fosse remédio bem mais adequado a tanto liberalismo mal assimilado, em vez de continuarem a tentar impor à sociedade a sua visão totalitária de sempre.

terça-feira, abril 03, 2012

O liberalismo e a "lei do funil"

O função fundamental do Estado e do governo que o dirige é fazer política - embora ainda exista muita gente que ache tal coisa um sacrilégio. Por isso, se um qualquer governo decide manter participações significativas ou exclusivas em alguma ou algumas empresas ou sectores da economia, tal significa que vê nessa sua presença interesse político. Não sendo um ultra-liberal, devo acrescentar que não tenho grande coisa a opor a tal presença, desde que restrito a algumas empresas ou sectores considerados estratégicos (e eles têm variado ao longo do tempo) e mantendo sempre o primado da livre iniciativa, devidamente regulamentada e regulada, no conjunto da sociedade. É assim que funcionam, e em regra geral bem, as democracias e sociedades mais prósperas e menos desiguais do mundo. 

Portanto, se o governo tomou a decisão de não privatizar a Caixa Geral de Depósitos (e, na conjuntura actual, tal decisão tem o meu acordo), tal significa viu nisso interesse político, não sendo caso para estranhar ou sequer criticar que tenha utilizado o Banco como (digamos assim) seu braço armado para prosseguir, na OPA da Camargo Corrêa sobre a CIMPOR, aqueles que são, de momento, os seus interesses políticos fundamentais: realizar o valor dos activos que ainda dispõe em algumas empresas. A crítica que, neste caso, se pode fazer ao actual governo é, isso sim, bem outra: se não deveria ter levado às últimas consequências o seu tão apregoado liberalismo e, consequente e coerentemente, ter privatizado a CGD. Pois é, mas, com mais ou menos apelos ao liberalismo, a tentação é sempre demasiado grande e ao tal ulta-liberalismo aplica-se quase sempre a chamada lei do funil: larga para umas coisas, mas estreita para outras.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Os liberais e as privatizações

Desde os tempos do Estado Novo que antigos governantes são nomeados para as administrações de empresas privadas, principalmente, mas não de modo exclusivo, daquelas que correspondiam, tradicionalmente, a monopólios naturais ou de outras, durante a ditadura e a vigência do "chamado condicionamento industrial", em que o Estado, directa ou indirectamente, tinha assumido papel determinante na sua génese e desenvolvimento. Conheci vários casos, muitos deles de pessoas a quem não era reconhecida qualquer formação, capacidade ou experiência para o lugar que ocupavam, excepto o facto de serem íntimos do regime. O objectivo era, e é, apenas um: permitir uma relação bem "oleada", nos dois sentidos, entre o Estado e essas empresas, pouco importando se, desse modo, é o "Estado a mandar nas empresas" ou "as empresas a querer mandar no Estado", como agora alguns sectores afectos ao governo inventaram para "dourar a pílula" das nomeações para o Conselho Geral da EDP. Digamos antes que, em vez do primarismo de raciocínio que esses dois casos extremos expressam, estamos perante situações em que Estado e empresas não funcionam um sem o outro, numa relação umbilical, biunívoca, que expressa bem a fraqueza do empreendorismo e a sua falta de autonomia.

Prova-se, também, que se a privatização de algumas empresas pode ser condição necessária à sua autonomização, ela está frequentemente longe de ser suficiente, principalmente em casos nos quais se pode considerar não estarmos perante uma verdadeira e genuína privatização, mas apenas perante a venda dos direitos que o Estado português exercia numa empresa a uma sociedade de um país estrangeiro, só em teoria privada, onde não existe nem se prevê venha a existir, nos tempos mais próximos, qualquer autonomia empresarial. Que muitos "soi-disant" liberais exultem, já não é caso para estranhar: o seu liberalismo dura o exactamente o mesmo tempo em que o(s) seu(s) partido(s) está(ão) na oposição.   

sexta-feira, junho 17, 2011

1ªs notas muito breves sobre a constituição do governo

  1. Ao contrário do que parecia ser a intenção anunciada, o governo não consegue abrir-se a alguns independentes da área do centro-esquerda. Pelo contrário, parece-me inclusivamente um governo ideologicamente bastante homogéneo e, adepto como sou de uma separação clara das águas quando exista uma maioria parlamentar suficiente para governar, não vejo nada de negativo nessa homogeneidade, até porque o PS se encontra vinculado ao MoU que constituirá parte relevante do programa governativo.
  2. Notei uma certa semi-desilusão nas pessoas da área mais liberal com as quem troquei uma ou outra opinião, necessariamente apressada. Faltará, talvez, um nome "de peso" nas Finanças, como Vítor Bento, por exemplo, que constituiria um sinal. Para mim, a questão não será essa, mas sim alguma falta de peso e experiência políticas em áreas fundamentais como a Educação, Saúde (ser director-geral bem sucedido nos Impostos é uma coisa e ministro é outra bem diferente), Economia e até mesmo Finanças, apesar do respaldo do P.R..
  3. Por outro lado, na Agricultura a experiência política será suficiente e existe o respaldo de Paulo Portas, mas numa área tão técnica Assunção Cristas parece um erro de "casting".
  4. Experiência política e competência técnica parecem coexistir na Justiça. Mas terá uma Paula Teixeira da Cruz tão "cortante", muitas vezes tão pouco "política", o perfil exigido para romper com o passado numa área onde as corporações impõem a sua lei ?
Enfim... Uma coisa fica desde já certa: podendo vir a ser bem ou mal sucedido, trata-se de um governo ideologicamente consistente e que não pretende subsistam quaisquer dúvidas sobre o seu alinhamento ultra- liberal. 

quarta-feira, abril 06, 2011

Apresentará o programa eleitoral do PSD medidas muito concretas? Não me parece...

Posso estar enganado - e admito-o - mas não me parece o tão propalado e aguardado programa eleitoral do PSD, prometido lá para o início de Maio, venha a explicitar medidas muito concretas e detalhadas. Pelo menos tanto quanto se pensa.

Para além de um vago tom mais ou menos liberal, dado por alguns chavões importados do léxico ultra-liberal mas sem grande conteúdo concreto, destinados a satisfazer a sua vanguarda ideológica dominante na opinião publicada, talvez apenas em áreas relativamente secundárias da governação, com pouco impacto mediático, tal venha acontecer. Porquê? Assim de repente, cinco ordens de razões (podem existir mais):
  1. A necessidade de recorrer a "ajuda externa", com todo o conjunto de medidas a que o governo se vai obrigar, recomenda, à cautela, alguma contenção programática para que não exista contradição demasiado evidente (ou dramática...) entre intenção e realidade.
  2. O PSD terá necessidade de "angariar" o voto de um conjunto significativo e heterogéneo de portugueses, muitos deles agindo apenas em torno de um único denominador comum chamado "ódio a José Sócrates". Medidas demasiado ideológicas arriscam-se a alienar, talvez para o voto de protesto do BE, muitos desses votantes. 
  3. Um futuro governo liderado pelo PSD irá querer justificar algumas das suas medidas mais penalizadoras com "o estado calamitoso em que encontrou o país" - que obviamente desconhecia, dirão... Como é óbvio, tal exige que essas medidas não constem de qualquer programa eleitoral. Pelo menos de modo explícito.
  4. O PS já demonstrou que, estrategicamente, vai marcar o PSD "homem a homem", ou seja, "medida a medida" e proposta a proposta". Por isso mesmo, talvez seja preferível para o PSD "esvaziar" um pouco essa estratégia.
  5. Por último, e talvez mais importante e entroncando no ponto 3, num contexto de grave crise, que gera demasiada insegurança entre os cidadãos, mudanças demasiado radicais, neste caso num sentido ultra-liberal relativamente desconhecido para uma sociedade civil fraca e tradicionalmente dependente do Estado, arriscam-se a gerar ainda mais insegurança, gerando medo e alienando votos.
Bom, como disse posso estar enganado, já que não tenho dons de pitonisa... Mas é o que se me oferece.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Ainda as afirmações de Alexandre Soares dos Santos: uma reflexão política

As afirmações de Alexandre Soares dos Santos, chamando mentiroso ao primeiro-ministro e tratando-o em público por “o Sócrates, bem como o tom desabrido em que foram feitas, transcendem em muito uma questão de “boa educação” (embora também o sejam). Elas reflectem, antes de mais, uma tentativa de afirmação de poder e de, através dele, retirar daí benefícios próprios. Por um lado, e de modo mais restrito, o poder e a afirmação de superioridade de um grupo económico que é capaz de gerar excedentes e se propõe beneficiar os seus funcionários em contraponto com um Estado em “deficit” e que se vê obrigado a cortar vencimentos e benefícios sociais. Por outro, de modo mais alargado, a superioridade do mundo empresarial (do privado), pelo rigor e transparência com que as empresas são geridas (“não há truques”), perante o público (o Estado). Por último, ao enquadrar estas afirmações num contexto mais vasto de louvor ao papel do Estado polaco em comparação com o português nos apoios concedidos ao grupo Jerónimo Martins, uma tentativa de inverter essa situação, esperando daí retirar benefícios futuros.

Mas é ainda algo mais: tal como aconteceu no já longínquo episódio da ida de Belmiro de Azevedo à Assembleia da República, aberta de propósito para que pudesse estar presente, estamos perante mais um episódio de ataque aos políticos e à política, neste caso, curiosamente, protagonizado por quem, independentemente dos méritos demonstrados e da sua capacidade empreendedora, que certamente terá, viu o seu “core business” beneficiado por um modelo de desenvolvimento que privilegiou a grande distribuição e o mercado interno em prejuízo dos (agora tão em voga) bens transacionáveis e da exportação.

Não será portanto estranho o entusiasmo e louvor, explícito ou implícito, com que o episódio foi recebido pelos arautos do ultra-liberalismo – através de “blogues” e “media” respectivos, principalmente os dedicados às questões de carácter económico -, partidários de um estado minimalista - reduzido às suas funções essenciais - da desregulação dos mercados e de uma diluição do Estado Social, substituídas grande parte das suas funções por um modelo assistencialista fundamentalmente assegurado por instituições de carácter privado. Mais: deste modo defensores, “à outrance”, do domínio quase absoluto de um poder empresarial não eleito em detrimento de um poder político democrático regulador da livre iniciativa e com um papel activo na igualdade de oportunidades e na correcção das desigualdades sociais.

Mais difícil de entender será o silencio conivente de muitos outros, que na esquerda radical ou no centro-direita democrata-cristão, bem como no primado do político e do Estado-Social, se reconhecem. Desse silêncio apenas se deve tirar uma conclusão: o que para eles é, acima de tudo, fundamental é “bater no Sócrates”, mesmo que para tal seja necessário recorrer ao mais profundo desrespeito pelos princípios orientadores da democracia, pelos valores ideológicos que defendem, pela ética e pelo debate político civilizado (já agora, pela boa educação). Assim sendo, depois, quando lhes tocar pela porta, espero não venham por aí queixar-se.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

"Livre escolha"?

Uma pergunta aos defensores da “livre escolha” do estabelecimento de ensino: reportando-me apenas a Lisboa, como exemplo (é a cidade onde vivo e onde vive a maioria das pessoas das minhas relações), quantas famílias com rendimento suficiente para pagar um estabelecimento de ensino particular para os filhos conseguem efectivamente escolhê-lo? Já alguém que não tenha frequentado algum dos colégios mais emblemáticos de Lisboa ou não tenha uma “valente cunha” (“valente”, mesmo) conseguiu que os filhos fossem neles admitidos? Ou que não tenha ascendentes da nacionalidade ou venha do ensino estrangeiro conseguiu ser admitido no Liceu Francês, Colégio Alemão, Instituto Espanhol, etc, etc?

Pois...

segunda-feira, abril 05, 2010

Os escândalos de pedofilia e o combate político

Curioso na discussão que se tem gerado nos “media”, com especial incidência na "blogosfera", sobre os casos de pedofilia que envolvem a igreja católica é o facto de as suas duas vanguardas ideológicas opostas (vamos chamar-lhes assim) tenderem a ser constituídas fundamentalmente por não crentes: de um lado, a esquerda laica mais radical, muito polarizada em torno do “Bloco de Esquerda”, e, do outro, a direita ultra-liberal, ex-estalinista, neo-fascinada por Ratzinger e, na era de e pós W. Bush, pelo papel das religiões - neste último caso, o artigo de José Manuel Fernandes no “Público” de 6ª feira constitui peça relevante. Nada que possa constituir objecto de estranheza: estes são os sectores (ambos emergentes) que mais têm animado e quase monopolizado o combate político e ideológico nos últimos anos, encontrando aqui apenas mais um pretexto e um novo campo de batalha.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Ortodoxia ultra-liberal e as próximas eleições

Quando os ortodoxos ultra-liberais reafirmam as suas convicções, contrariando as evidências, estamos a entrar no campo do mais puro e intransigente domínio da fé, algo a que alguns deles, cá do “rectângulo”, não se têm mostrado de todo hostis na sua já longa vida política, desde que a fé era bem outra e os deuses tinham nomes da longínqua China ou da mais próxima Albânia. Não admira, portanto, que em alguns países como os USA ortodoxia ultra-liberal e radicalismo religioso andem frequentemente de mãos dadas, partilhando até “tickets” presidenciais. Por cá, mais modestos e humildes nas consequências, aposto apenas que haverá alguns temas que não serão discutidos nas próximas eleições legislativas, a saber:

  • A privatização da Caixa Geral de Depósitos.
  • A alteração do modelo da Segurança Social, substituindo-o ou complementando-o por um outro baseado em fundos de pensões privados.
  • A eventual reformulação (o que é diferente da sua reforma) progressiva do Serviço Nacional de Saúde, substituindo-o por um sistema privado de seguros.

Ainda bem: mais tempo e espaço fica para o que efectivamente importa! A fé ultra-liberal, essa, por certo continuará, pois, tal como também o PCP, pertence ao domínio do sagrado. Os outros – liberais, sociais-democratas, conservadores – não terão outro remédio senão entender-se ou divergir no governo do profano.