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quinta-feira, dezembro 12, 2013

Da notoriedade mediática de Alexandre Soares dos Santos


Infelizmente, e apesar do desassombro - que saúdo - do artigo de Daniel Oliveira, a questão da enorme exposição mediática de alguém que, sendo um excelente empresário, é também um iletrado político, acumulando nesta área afirmações disparatadas, não se restringe ao crescimento dos extratos bancários dos jornalistas ou às oportunidades de carreira que um empresário como Soares dos Santos pode oferecer. Aliás, seria bem mais simples se assim fosse, embora saiba e admita tal terá o seu peso, não sendo, como o não são, os jornalistas "virgens vestais". O problema é mais vasto e tem a ver com o modo como a ideologia ultraliberal impregnou todo o pensamento político (?) e sobre a política - desvalorizando-os bem como ao papel do Estado - e fazendo, em sua substituição, das empresas e da sua gestão exemplos e modelos que apenas se tornaria necessário copiar e ampliar para a escala de um país e/ou de uma sociedade para que ambos pudessem ser tão bem sucedidos quanto um grupo empresarial. Assim sendo, nada como, sob a capa de um saber baseado no sucesso competitivo, dar voz política (repito: política) a empresários, apresentado-os e às suas propostas e soluções, credibilizadas por esse sucesso empresarial, como modelos que os países deveriam seguir e adoptar para que igual êxito lhes batesse à porta. O que dizem pode ser um "chorrilho" de disparates? Na maior parte dos casos é isso que acontece, mas como as afirmações servem  ou estão próximas do "pensamento dominante", lá estão jornalista e "meio" para lhe concederem a credibilidade necessária. Aliás, as analogias não se ficam por aqui e é frequente também assistirmos, principalmente quando se fala do chamado "ajustamento", à comparação entre as opções de natureza económica a tomar pelo Estado e pelas "famílias", em situações que nos são apresentadas como semelhantes, no que constitui mais um exemplo do pensamento redutor. Onde estão, neste e noutros casos, os arautos tão anti-igualitários" do "tratar de modo diferente o que é diferente? 

Concordando ou discordando do que escrevem e/ou do posicionamento político e ideológico de cada um deles, é o combate a esta "ideologia dominante", ao "pensamento único" de desvalorização e da autonomia da política, que se deve saudar em gente tão díspar nas suas ideias como o são, entre os comentadores, Daniel Oliveira, Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes e poucos mais; e, entre os políticos, retirados ou no activo, nomes como Mário Soares, Pacheco Pereira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite e Adriano Moreira, que lá vão fazendo um esforço para tornar o espaço mediático num lugar um pouco mais recomendável. Valha-nos isso e , no momento actual, convenhamos que já não é pouco.

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Soares dos Santos, os partidos e as eleições


Ora vamos lá ver... O objectivo dos partidos políticos é conquistarem o poder. Numa democracia liberal é conquistarem-no através do voto. Por isso mesmo, pretender que os partidos políticos deixem de se preocupar com as eleições é pretender que abdiquem de si próprios, do seu objectivo e da finalidade para o qual existem e foram criados. No fundo, seria o mesmo que pedir à Jerónimo Martins e aos seus dirigentes que deixassem de se preocupar com os seus lucros, com a sua rentabilidade, com a sua facturação, a sua quota de mercado e os seus clientes, nos quais me incluo por reconhecer as empresas do grupo JM me prestam um bom serviço. Acho que Alexandre Soares dos Santos, que tem tanto de bem sucedido empresário como, aparentemente, de mau intérprete do fenómeno político, para além disso demonstrando uma vontade doentia de dar nas vistas, nunca teria pretendido tal coisa acontecesse nas suas empresas, e o seu sucesso empresarial é prova eloquente de quais terão sido as opções que orientaram a sua vida nessa área. 

 O problema não está, portanto, no facto dos partidos políticos se preocuparem com as eleições (ainda bem que assim é: não existir essa preocupação significaria ditadura), mas sim no facto dos eleitores não os penalizarem suficientemente com o seu voto sempre que vendem "gato por lebre", isto é, quando fazem promessas manifestamente incumpriveis e/ou não cumprem, no essencial, com os seus programas políticos. O problema está, pois, e fundamentalmente, no lado do "comprador"/cidadão (vamos designá-lo assim) e não do lado do partido/"vendedor". O que aconteceria, por exemplo, se Alexandre Soares dos Santos vendesse produtos de má qualidade, a preços não concorrenciais e recorresse a publicidade enganosa? Os consumidores, certamente, optariam por efectuar as suas compras em qualquer outro lado, o grupo Jerónimo Martins acabaria na falência e quiçá Soares dos Santos beneficiário do RSI. Compete pois aos eleitores terem atitude semelhante em relação aos partidos políticos: se em algum ou alguns deles se não reconhecem, penalizem-no(s) votando noutro, abstenham-se, organizem novos partidos ou associações políticas para concorrerem a eleições e por aí fora. As derrotas eleitorais conduzirão necessariamente o(s) partido(s) penalizado(s) a reverem os seus métodos, com o perigo de se tornarem residuais se o não fizerem. O mundo está disso cheio de exemplos e - já que é oportuno - a implosão do sistema partidário italiano do pós-guerra e a ameaça presente de nova implosão aí estão para o provar.

Quanto a Alexandre Soares dos Santos, estamos uma vez mais perante um dos actuais péssimos exemplos de bons empresários que acham é apenas necessário exportar essa sua experiência para a realidade do país para, qual varinha mágica, transformarem o mundo na terra do leite e do mel. Fazer compras no Pingo Doce e não ler nem ouvir o que diz será a melhor resposta.

terça-feira, agosto 21, 2012

O Pingo Doce e o "dinheiro de plástico"

Ao deixar de aceitar dinheiro de plástico nas compras inferiores a €20, o Pingo Doce está a assumir um risco? Bom, digamos que esta decisão, nada "consumer friendly", parece contraditória com a imagem ("Pingo Doce venha cá" ou "se lhe dá jeito, o Pingo Doce faz") que o grupo de lojas tem vindo a tentar consolidar nos últimos tempos, podendo vir a gerar alguma "má vontade" junto dos clientes. Mas, por outro lado, acentua a sua imagem como um "promotional discount store", o que parece estar em linha com o seu reposicionamento recente e tenderá a melhorar o tempo de espera no "check out", o que também significa maior eficácia no serviço prestado.

Quanto ao risco efectivo de perda de clientes. tal já me parece bem mais distante: no segmento "supermercados de vizinhança", de "compra por conveniência", o Pingo Doce é quase monopolista e a nas chamadas "grandes compras", ou "compras do mês", onde o risco de perda de clientes para a Sonae poderia ser maior, o dinheiro de plástico continuará a vigorar. 

Digamos, no entanto, que estamos perante uma decisão "antipática", que corre o risco de reavivar a controvérsia sobre as acções recentes da cadeia e a imagem pouco consensual e conflituosa do seu patriarca, tendo-se ambas transformado, simultaneamente, em imagem de marca e modelo de intervenção política da família. O Pingo Doce e o grupo Jerónimo Martins parecem dar-se bem com o estilo e conteúdo, mas convém ter algum cuidado quando na promiscuidade entre negócio e intervenção política esta tende a tornar-se dominante e, principalmente, demasiado visceral. Acresce que Alexandre Soares dos Santos e a Jerónimo Martins não são banqueiros. Nem sequer grandes industriais ligados à metalurgia ou à indústria química, por exemplo. Ou jovens empresários de um qualquer Silicon Valley: são merceeiros. Bons merceeiros. Têm-se mesmo revelado excelentes merceeiros, o que se saúda e tem todo o mérito. Mas merceeiros e isso, nada tendo de negativo, faz contudo toda a diferença.  

terça-feira, maio 08, 2012

Pingo Doce: a participação dos fornecedores

O jornalismo português, e até mesmo o "económico", descobriu agora que o "Pingo Doce" vai repercutir, total ou parcialmente, em alguns dos seus fornecedores os custos da sua promoção do 1º de Maio. Acordaram tarde, pois desde sempre tal acontece em todas as promoções da "grande distribuição", quer se tratem de localizações especiais nas lojas, descontos nos preços, inserção em folhetos, acções de promotoras ou menções em campanhas publicitárias (e por aí fora). Aliás, até já o tinha afirmado neste "blog" em comentário de resposta a algumas questões pertinentes levantadas por um leitor. No entanto, esquece-se a comunicação social de acrescentar que os próprios fornecedores também beneficiam com tais promoções, por via do acréscimo de vendas assim gerado. Compete-lhes fazer contas (e fazem-no) para verificarem se o acréscimo de vendas obtido compensa ou não o investimento que realizam ao participarem nessas acções. Claro que o que aqui digo não obsta a que não exista um desequilíbrio evidente entre a "grande distribuição" e os fornecedores, por via da situação oligopolista do lado da oferta, deixando aos fornecedores uma reduzida margem de manobra. E também, como por aqui já tenho repetido, é esse o grande problema, e não os tais "dumping", "margens de lucro escandalosas" e outros disparates que se tornaram comuns nos últimos dias e aos quais nem a impreparada ministra Assunção Cristas escapou.

Já agora... Durante todo este processo os sindicatos tiveram um comportamento patético, começando com os apelos a uma greve e um boicote que sabiam nunca seriam cumpridos e acabando agora numa queixa à Autoridade para as Condições de Trabalho por "discriminação". Ainda não devem ter percebido que este é o modo mais fácil e directo para descredibilizarem e conduzirem ao isolamento o movimento sindical, num momento em que o fortalecimento de um sindicalismo reformista seria desejável.  

domingo, maio 06, 2012

Ainda o "Pingo Doce". "Dumping"?

Vamos lá ver se a gente se entende e sabe do que fala. No caso "Pingo Doce" (começo a estar cansado de tanta demagogia e ignorância e de um assunto que não merecia tanta discussão) de modo nenhum se pode falar de "dumping", que é um termo que se aplica ao comércio internacional e se utiliza quando um exportador (repito: exportador) decide vender determinada mercadoria a um comprador de um país estrangeiro a um preço abaixo do custo ou do praticado no seu próprio mercado. Nada isto aconteceu no passado dia 1 de Maio.

Do que podemos estar a falar é do conceito de "predatory pricing" (a distinção de conceitos não é pormenor de somenos pois a legislação aplicável pode ser, e normalmente é, muito diferente), que consiste em vender um produto a um preço muito baixo, até por vezes inferior ao seu custo, para obter uma posição dominante no mercado, afastando concorrentes existentes e dificultando a entrada de novos. No caso da promoção "Pingo Doce", poderemos estar perante uma situação deste tipo, mas mesmo assim terei as minhas dúvidas por duas ordens de razões:
  1. Não existiu venda a um preço inferior: os preços mantiveram-se e quem comprasse um conjunto de produtos de valor inferior a €100 não teria qualquer desconto. Isto significa também que o valor global do desconto foi muito provavelmente financiado com as verbas de promoção e publicidade, mantendo-se as "margens brutas" dos produtos inalteráveis.
  2. Vamos no entanto partir do princípio (errado e absurdo, quanto a mim) de que existiu mesmo uma redução de preços e, portanto, as "margens brutas" dos produtos foram também elas reduzidas nesse dia. Nunca trabalhei na "grande distribuição", mas, conhecendo "de fora" o negócio, duvido tenham sido reduzidas ao ponto de se terem praticado preços abaixo do respectivo custo. Porquê? Bom, porque, como aqui expliquei, das respectivas "margens brutas", do seu "operating profit", a empresa tem ainda de pagar todos os seus custos (e não são poucos) de funcionamento (ver aqui), pelo que duvido, mesmo tendo em conta a natureza também financeira do negócio, possa ser rentável praticando, a não ser "aqui e ali", "margens brutas" iguais ou inferiores aos tais 50%. Veremos o que conclui a Autoridade da Concorrência.
Nota: nada disto, já o disse e repito-o, significa que não exista uma situação oligopolista da parte da oferta e que deveria ser objecto de atenção governamental. Mas isso é outra conversa, e espero esta promoção do "Pingo Doce" sirva para que se comece a pensar seriamente em tentar resolver tal distorção.

sexta-feira, maio 04, 2012

Grande distribuição: "margem de lucro", confusão de conceitos ou demagogia à solta.

Desde ontem que oiço e leio repetidamente que a grande distribuição e, em particular, a cadeia "Pingo Doce" praticam "margens de lucro" superiores a 50%. Não é preciso nunca ter trabalhado na grande distribuição, ou mesmo na pequena, como acontece comigo, para concluir que se trata de um enorme disparate, fruto de uma total ignorância geradora de ainda maior confusão de conceitos. Quando vejo referidas tais "margens de lucro", aquilo que está em causa é bem outra coisa: a chamada "margem bruta" ou, em inglês, "gross profit". Vou explicar:

Se uma empresa (qualquer uma) compra um produto por 50, por exemplo, e o vende por 100 a sua "margem bruta" é calculada subtraindo ao preço de venda o preço de compra e dividindo o resultado apurado por aquele. Ou seja, no exemplo apresentado: 100-50=50:100=0.5 (50%). Portanto, neste caso a sua margem bruta será de 50%. Se comprou 100 unidades, isso significa que despendeu 5 000 (€, por exemplo) e arrecadou 10 000 com a venda, gerando um "lucro bruto" ("operating profit") de 5 000.

Ora acontece que estamos apenas a falar de "margem bruta" e "lucro bruto" (acho o termo "operating profit" mais rigoroso) já que, com os meios assim gerados, a empresa irá ter ainda que pagar todos os seus custos fixos e variáveis, como, por exemplo, custos com pessoal (salário - incluindo segurança social -, subsídios, bónus e outros), despesas de promoção e publicidade, transportes, manutenção, rendas, energia e comunicações, quebras e perdas de produtos, seguros, juros e amortizações e por aí fora até chegarmos, por fim, aos inevitáveis impostos. Isto significa que de uma "margem bruta" de 50%, ou mais, se pode facilmente chegar a um "lucro liquido", antes ou depois de impostos, que nem de perto nem de longe se aproxime dos tais 50% de "margem bruta". Aliás, e aqui falo da minha própria experiência, é relativamente comum também empresas fabricantes e produtoras trabalharem com "margens brutas" que, em alguns produtos, podem mesmo chegar aos 70 ou 80% (até mais), sem que isso se reflicta directa e necessariamente nos respectivos lucros antes ou depois de impostos. Aliás, tal resultado depende ainda da forma como são "alocados" os "custos fixos" da empresa a cada um dos produtos vendidos, mas não vale a pena entrar em questões mais complexas. Não conhecendo "por dentro" a grande distribuição, estou quase certo o caso não será muito diferente, até porque parte relevante do seu negócio é financeiro, recebendo dos clientes "a pronto" e pagando a fornecedores a 90 ou mais dias.

Tendo dito isto, resta um problema importante: estamos num sector pouco concorrencial, onde existe um claro oligopólio do lado da oferta, com Sonae o Jerónimo Martins, conjuntamente, a ultrapassarem largamente os 50% de quota de mercado. Mas isso são já "outros quinhentos", a que os governos e Autoridade da Concorrência deveriam estar bem mais atentos.

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda o 1º de Maio do "Pingo Doce"

Ora vamos lá ver...

  1. Um governo eleito pelos portugueses (acho que um dos anteriores) permitiu que as grandes superfícies comerciais passassem a estar abertas no 1º de Maio, tal como acontece em todos os outros feriados e domingos com excepção do Natal e Ano Novo - onde, diga-se, não teriam quase clientes. Podemos, claro, contestar e estar em desacordo com a lei, mas as organizações dos trabalhadores, partidos que se lhe opuseram e outras organizações que advogavam em contrário, como algumas associações de pequenos comerciantes, não tiveram até agora força suficiente para se lhe opor.
  2. Em função dessa disposição legal, os supermercados "Pingo Doce" decidiram abrir hoje com uma promoção especial que atraiu milhares de clientes. Uma vez legal, é uma decisão legítima que só ao "Pingo Doce" compete, podendo qualquer de nós estar de acordo ou criticá-la. E se existiu alguma ilegalidade deve partir de quem se sentiu lesado (sindicatos, concorrência, clientes, etc) denunciá-la a às autoridades competentes (Inspecção do Trabalho, Autoridade da Concorrência, ASAE, etc), que obrigatoriamente terão de investigar.
  3. Os sindicatos do sector terão convocado uma greve, que não foi obedecida. Porque uma maioria dos trabalhadores do "Pingo Doce" está numa situação de precariedade? É provável, mas tal era um dado do problema que desaconselhava a greve fosse declarada.Também um boicote, com idêntico resultado. Felizmente, não existem notícias de piquetes terem sido impedidos de actuar e esclarecer quem quer que fosse, trabalhadores ou clientes.
  4. Há relatos de pequenos e ligeiros incidentes sem consequências que a PSP rapidamente sanou, sem queixas. Nada que não aconteça nos grandes saldos do Harrods (é só um exemplo), em que as pessoas passam a noite na rua à espera da abertura dos armazéns. Ou das "bichas" para comprar bilhetes para alguns concertos. 
  5. Para espanto meu, ouvi há pouco a jornalista São José Almeida ("Público"), acho que na TVI e a propósito deste assunto, falar em "atentado à dignidade humana". Como disse? Os consumidores foram obrigados a ir comprar ao "Pingo Doce"? Os produtos estavam fora de prazo? Eram por acaso restos de qualidade deficiente? Tinham os clientes de apresentar "atestado de pobreza", declaração de rendimentos ou passar por testes como aqueles a que se sujeitam alguns concorrentes de "reality shows"? Haja algum decoro, se fazem favor...

O 1º de Maio do Pingo Doce

Podemos simpatizar ou não de Alexandre Soares dos Santos (e eu declaro já não apreciar muito o género de algumas das suas intervenções públicas), achar ou não que se está a pôr em causa o Dia do Trabalhador, mas a operação de "marketing" montada para hoje pelas lojas Pingo Doce (50% de desconto nas compras acima de €100) é brilhante e merece uma enorme chapelada. As lojas estão a abarrotar, permitindo assim desenvolver o negócio, atrair novos clientes e, por via disso, compensar melhor os seus trabalhadores. Para além disso, concorde-se ou não com os pressupostos e objectivos, ao oferecer grandes descontos aos cidadãos em conjuntura de crise, exerce também uma função ideológica, justificando a abertura no 1º de Maio e funcionando como contraponto às manifestações essencialmente reivindicativas das centrais sindicais, que insistem em repetir as mesmas acções de sempre sem grandes resultados em termos de eficácia. Para o movimento sindical e para o mundo do trabalho, seria bom que os seus dirigentes aprendessem um pouco com esta ideia e pensassem, também eles, um pouco em inovar.

Nota pelas 17.35: O sucesso da operação de "marketing" de hoje na cadeia Pingo Doce, depois dos sindicatos terem apelado à greve e ao boicote, está a transformar-se no acontecimento do dia, suplantando as tradicionais manifestações de UGT e CGTP. De certo modo, isto reflecte o isolamento a que as direcções das centrais estão a conduzir os trabalhadores e o mundo sindical, num período de refluxo dos seus direitos. Um aviso muito sério e razão acrescida para uma reflexão.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Alexandre Soares dos Santos, a iniciativa privada e os "ataques pessoais"


Pois eu devo dizer a Soares dos Santos que até gosto da iniciativa privada, pois só uma economia nela baseada permite a existência de sociedades mais livres, abertas e prósperas. Mais progressivas e justas. Por isso me manifestei aqui contra a incoerência daqueles que clamam por empresas portuguesas mais competitivas internacionalmente mas, simultânea e demagogicamente, tomaram uma atitude crítica populista no caso da transferência das acções da Francisco Manuel dos Santos para a Holanda. Mas devo também acrescentar que tal não me impede de afirmar que não gosto da personalidade de Alexandre Soares dos Santos, pois, por norma, abomino empresários populistas que se sujeitam a transformar em armas de arremesso político/partidário; que insultam em público o primeiro-ministro democraticamente eleito pelos portugueses (qualquer que ele seja); que venham arengar para a praça pública como se transportassem às costas o peso da moral do mundo. Tento, portanto (não sei se o consigo), sempre que possível, não confundir  e separar os factos em concreto das pessoas que lhes dão origem ou estão neles envolvidos. Mas tendo dito isto, Alexandre Soares dos Santos conhece bem o país onde vive, e se agora se manifesta contra ataques pessoais sabe bem que se pôs a jeito. Por isso, e em função disso, talvez seja agora altura (já o devia ter sido...) de adoptar uma atitude mais "low profile". Ficaríamos - acho - todos a ganhar e o país um pouco mais respirável.

sábado, maio 21, 2011

Frivolidades: as vieiras gratinadas do "Pingo Doce"

O "Gato Maltês" não acha Alexandre Soares dos Santos especialmente bem educado nem concorda com muita coisa do que ele diz, mas como, salvo crime ou ofensa grave, fornecedor de "vinhos e petiscos" serve para isso mesmo, para lá comprarmos o que gostamos a preços convenientes, vem elogiar as vieiras gratinadas que se vendem congeladas nos supermercados "Pingo Doce". É só chegar a casa, pôr no forno e servir como entrada ou prato principal, neste último caso com acompanhamento a condizer (costumo fazê-lo com pequenas e adocicadas ervilhas cozidas). Ah, e com um bom vinho branco (que tal um "encruzado" do Dão?) a acompanhar. Prático e saboroso.

Pena, pena mesmo é ser quase impossível encontrar as ditas vieiras frescas neste desgraçado país. Bom, mas bem vistas as coisas, nesse caso talvez Angela Merkel se lembrasse de vir dizer tal seria injusto e teríamos de nos abster...

domingo, fevereiro 27, 2011

Soares dos Santos e Ricardo Salgado: o contraste

Interessante assinalar o diferente entusiasmo com com que foram acolhidas nos “media” e em alguma “blogosfera” as declarações bombásticas e mal-educadas, aspirando ao protagonismo fácil, de Alexandre Soares dos Santos (será que ousaria referir-se em público ao primeiro-ministro polaco como o fez em relação ao português?) e a sensatez política da entrevista do banqueiro Ricardo Salgado ao “Expresso”, revelando, com o “low profile” que é a sua “imagem de marca”, inteligência e um conhecimento aprofundado das matérias sobre as quais opina. Reveladora, essa diferença de entusiasmo da opinião publicada, de algumas pulsões dominantes na sociedade portuguesa.

Estamos aqui, nestas duas intervenções públicas, claramente perante duas metodologias de afirmação de poder e de defesa dos respectivos interesses, talvez estabelecidas pelas diferentes origens de cada um dos grupos (comercial e posteriormente também industrial, no caso da JM, e financeira, no caso do GES): uma, mais burguesa, que se pretende afirmar pelo “soundbite”, confrontação e arruaça, fazendo apelo às pulsões sociais populistas; outra, de raiz aristocrática, que joga na influência discreta, na cooperação com o poder político, na rede estabelecida de relacionamentos sociais e no desenvolvimento de negócios em parceria com o Estado, tendo sabido, de modo inteligente, percorrer o longo caminho entre a prosperidade à sombra da ditadura colonial de Salazar e Caetano e a reafirmação no Estado Democrático membro de pleno direito da UE. Em função disto, não será surpresa que, dos grandes grupos económicos anteriores ao 25 de Abril, tenha sido o GES aquele que melhor se adaptou à mudança e mais influente se tornou no Portugal democrático e europeu do século XXI.

Independentemente da opinião de cada um – e elas existirão para todos os gostos, favoráveis e desfavoráveis – um verdadeiro “case study” ao cuidado dos historiadores.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Ainda as afirmações de Alexandre Soares dos Santos: uma reflexão política

As afirmações de Alexandre Soares dos Santos, chamando mentiroso ao primeiro-ministro e tratando-o em público por “o Sócrates, bem como o tom desabrido em que foram feitas, transcendem em muito uma questão de “boa educação” (embora também o sejam). Elas reflectem, antes de mais, uma tentativa de afirmação de poder e de, através dele, retirar daí benefícios próprios. Por um lado, e de modo mais restrito, o poder e a afirmação de superioridade de um grupo económico que é capaz de gerar excedentes e se propõe beneficiar os seus funcionários em contraponto com um Estado em “deficit” e que se vê obrigado a cortar vencimentos e benefícios sociais. Por outro, de modo mais alargado, a superioridade do mundo empresarial (do privado), pelo rigor e transparência com que as empresas são geridas (“não há truques”), perante o público (o Estado). Por último, ao enquadrar estas afirmações num contexto mais vasto de louvor ao papel do Estado polaco em comparação com o português nos apoios concedidos ao grupo Jerónimo Martins, uma tentativa de inverter essa situação, esperando daí retirar benefícios futuros.

Mas é ainda algo mais: tal como aconteceu no já longínquo episódio da ida de Belmiro de Azevedo à Assembleia da República, aberta de propósito para que pudesse estar presente, estamos perante mais um episódio de ataque aos políticos e à política, neste caso, curiosamente, protagonizado por quem, independentemente dos méritos demonstrados e da sua capacidade empreendedora, que certamente terá, viu o seu “core business” beneficiado por um modelo de desenvolvimento que privilegiou a grande distribuição e o mercado interno em prejuízo dos (agora tão em voga) bens transacionáveis e da exportação.

Não será portanto estranho o entusiasmo e louvor, explícito ou implícito, com que o episódio foi recebido pelos arautos do ultra-liberalismo – através de “blogues” e “media” respectivos, principalmente os dedicados às questões de carácter económico -, partidários de um estado minimalista - reduzido às suas funções essenciais - da desregulação dos mercados e de uma diluição do Estado Social, substituídas grande parte das suas funções por um modelo assistencialista fundamentalmente assegurado por instituições de carácter privado. Mais: deste modo defensores, “à outrance”, do domínio quase absoluto de um poder empresarial não eleito em detrimento de um poder político democrático regulador da livre iniciativa e com um papel activo na igualdade de oportunidades e na correcção das desigualdades sociais.

Mais difícil de entender será o silencio conivente de muitos outros, que na esquerda radical ou no centro-direita democrata-cristão, bem como no primado do político e do Estado-Social, se reconhecem. Desse silêncio apenas se deve tirar uma conclusão: o que para eles é, acima de tudo, fundamental é “bater no Sócrates”, mesmo que para tal seja necessário recorrer ao mais profundo desrespeito pelos princípios orientadores da democracia, pelos valores ideológicos que defendem, pela ética e pelo debate político civilizado (já agora, pela boa educação). Assim sendo, depois, quando lhes tocar pela porta, espero não venham por aí queixar-se.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

A Alexandre Soares dos Santos recomenda-se contenção na linguagem.

Pode gostar-se muito, pouco ou nada de José Sócrates e do seu governo. Pode mesmo odiar-se o primeiro-ministro e estar com ele em profundo desacordo político. Detestá-lo enquanto personalidade; às suas atitudes e comportamentos. Às políticas que o seu governo prossegue. Mas quando oiço o presidente do grupo Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos, referir-se em público, através da televisão e em reunião formal, ao primeiro-ministro como “o Sócrates” (há pouco no Telejornal – RTP), utilizando tom e linguagem mais próprios das caixas de comentários e dos “fóruns de opinião”, pergunto-me que imagem está a projectar de si próprio, do grupo de empresas que dirige e do empreendorismo em geral. Mais: que exemplo está a dar aos seus accionistas, funcionários, “stakeholders” e público em geral, e se permitirá que estes também a ele, Soares dos Santos, se refiram em público e em reuniões formais como “o Alexandre”.

O que me parece é que este comportamento de Soares dos Santos, enquadrando as já habituais queixas ouvidas sobre a falta de apoio do governo português aos empresários, em contraste com o que – segundo ele – se passa na Polónia, onde o grupo JM tem actividade relevante, só demonstra, uma vez mais, a razão dos que assinalam a falta de preparação e profissionalismo tantas vezes atribuída aos empresários portugueses, bem como a sua tradicional dependência estatal. Também uma enorme ausência de cultura democrática. Melhor serviço prestado a PCP e BE seria difícil imaginar.

Tudo isto é lamentável e, de facto, retrato, não de uma geração "rasca", mas de um país demasiado rasca.