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sábado, setembro 03, 2011

A privatização da RTP

  • A esquerda (PS) acha que as televisões privadas tenderão sempre a ser favoráveis à direita política e, por isso, um canal de televisão público será sempre indispensável para quando for governo. A esquerda radical, essa, é por definição contra tudo o que seja privado e não se enquadre no seu conceito de micro e pequenas empresas (v.g. a barbearia do bairro e o lugar da hortaliça do sr. António).
  • A direita concorda que as televisões privadas tenderão a ser-lhe favoráveis, por isso defendendo a privatização da RTP. De qualquer forma, por via de dúvidas e porque nunca se conhece o dia de amanhã, conservar um canal de notícias (leia-se, propaganda) em poder do Estado pode sempre acabar por dar um certo jeito.
No fundo, é isto... Digamos que para pobreza de espírito, não está mal.

segunda-feira, julho 04, 2011

A comunicação social em versão "copycat"

Em Portugal (pelo menos, em Portugal) nos últimos anos os "media" têm funcionado utilizando a metodologia "copycat": um deles publica uma notícia, normalmente oriunda de uma agência ou gabinete de comunicação, e, de seguida e de forma imediata, todos se apressam a publicar a mesma, não cuidando de verificar da respectiva credibilidade ou do rigor do seu conteúdo. Na última semana, foi assim com a - "soit disant" - derrapagem do "déficit" (que ainda estou para saber se existe ou não), comparando o valor real do primeiro trimestre com o estimado para o total do ano e tirando daí conclusões absurdas; com o corte no subsídio de Natal, interpretando mal as palavras do primeiro-ministro (o que vai ser lançado é um imposto sobre os rendimentos deste ano sujeitos a IRS que, para os trabalhadores por conta de outrem cuja remuneração provenha apenas do salário (e apenas para esses), será equivalente aos tais 50% do subsídio de Natal - ou de um mês de ordenado - subtraídos do valor do salário mínimo); e ontem com o milhão de euros de poupança com a extinção do cargo de director-adjunto distrital da segurança social, cujas contas até admito estejam certas mas ainda não vi provadas e comprovadas em parte alguma. Digamos que nenhum destes casos é excessivamente grave, embora tenham o condão de me irritar. Mas são suficientemente preocupantes para pensarmos que um dia destes tal metodologia poderá vir a dar mau resultado.

sábado, junho 18, 2011

O novo governo e a cena mediática

Não será novidade constatar a clara dessintonia existente nos últimos anos entre aquele que era o pensamento dominante na comunicação social (jornalistas, comentadores políticos e, principalmente, económicos, politólogos, etc) e a área ideológica de onde provinham os dois governos de José Sócrates, pese embora a pouca ortodoxia deste último neste aspecto. Se seria difícil a um governo maioritário resistir, chego a espantar-me como, perante uma cena mediática claramente hostil e numa conjuntura tão difícil, o último governo, minoritário, o conseguiu fazer quase dois anos. Não admira, pois, que pelo menos dois ministros e um secretário de Estado (para já) sejam oriundos da crítica mediática (Nuno Crato, Álvaro Santos Pereira e Francisco José Viegas). Têm a seu crédito a coragem assumida de passarem das palavras aos actos. Mas também, todos nós conhecendo o seu pensamento de ruptura, não só se aguarda com expectativa saber qual o seu grau de coerência enquanto governantes, como ter prova da sua, até agora desconhecida, capacidade política.

domingo, maio 15, 2011

Dominique Strauss-Kahn e uma notícia abjecta


Confesso não entender muito bem o que se quer dizer, ou pior, insinuar, com este texto que o "Público" on line hoje publica. Deixo duas sugestões:
  1.  A primeira que os "ricos" são todos uns devassos, uns imorais e uns criminosos sexuais em potência, e por isso não admira que um deles ande aí pelo mundo a tentar violar empregadas de hotel.
  2. A segunda que um director do FMI não pode andar de Porsche (ou será apenas de Porsche Panamera?) e, ao contrário do presidente dos USA, comprar fatos no Georges ou qualquer outro local onde tenha de despender um valor acima de $7 000.
Mas o que entendo muito bem é que esta é uma notícia abjecta, que um jornal como o "Público", pelo menos no contexto existente, não deveria publicar.

domingo, abril 24, 2011

PSD: mais uma oportunidade perdida?

O agravamento do "déficit" de 2010, de 8.6 para 9.1%, foi talvez a única boa notícia para o PSD nas últimas semanas. Independentemente de ter sido provocado pela alteração dos critérios contabilísticos (a grande maioria dos eleitores é pouco dada a compreender essas "minudências" financeiras), depois de uma série de decisões desastrosas da direcção de Pedro Passos Coelho aqui estava finalmente algo que poderia ser utilizado como arma convincente contra a gestão do governo PS. Mais ainda: o facto de tal agravamento estar relacionado com as Parcerias Público-Privadas, olhadas de soslaio, embora por motivos diferentes, por toda a oposição e objecto de desconfiança por um conjunto significativo dos eleitores, concedia ao facto, enquanto arma política potencial, um indiscutível valor acrescentado. No entanto, parece-me estaremos na presença, mais uma vez, de uma~oportunidade quase perdida pela direcção do PSD. Porquê? Vejamos...
  1. Em primeiro lugar porque, propositadamente ou não, a notícia saiu durante um fim-de-semana prolongado, com as pessoas bem menos atentas aos "media". Pior: a umas escassas horas da final da Taça da Liga, o acontecimento mediático do dia.
  2. Em segundo lugar, quis-me parecer ter o PSD reagido, através de Miguel Macedo, um pouco em "piloto automático", sem quebra das rotinas com as quais o partido costuma reagir ao anúncio de actos falhados do governo ou do PS. Penso o potencial da notícia como arma política exigiria do PSD um outro tratamento e fazê-lo, eventualmente, após as mini-férias já não terá o mesmo impacto.
  3. Por fim, a própria notícia acaba por ver o seu impacto diluído pelo artigo de Luciano Alvarez no "Público" de hoje, quase em jeito de contra-ataque, glosando uma ridícula reportagem da imprensa cor-de-rosa sobre a vida familiar de Pedro Passos Coelho nada condizente com a imagem que o líder do PSD deveria projectar como homem de Estado em momento de grave crise. De facto, quer-me parecer que o que os portugueses menos desejariam ver no momento presente, com FMI, BCE e CE por cá, é a imagem de um possível futuro primeiro-ministro, mais a mais tido como inexperiente, ligada à futilidade da imprensa del corázon.
Parece-me, pois, que se o PSD quer ainda manter  altas as expectativas de vir a conseguir um bom resultado no próximo dia 5 de Junho terá de inverter rapidamente o amadorismo que tem vindo a demonstrar na sua política de comunicação, área onde governo e PS têm demonstrado um enorme grau de profissionalismo.

sábado, março 12, 2011

Reflexões de sábado à tarde: 1. As televisões e a "manif."

José Pacheco Pereira já o disse bem melhor do que eu o poderei alguma fez fazer. Mas as televisões escreveram hoje uma das mais negras páginas do jornalismo e da democracia portuguesa. De repente, senti-me de volta aos tempos de Manoel Caetano e das transmissões do 10 de Junho da ditadura ou das “manifestações da mais veemente repulsa pelo cobarde ataque efectuado pelas forças da União Indiana aos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu”. Se “media” significa “mediatismo” (que é o contrário de “imediatismo”), a função de alguém que age como “mediador”, foi exactamente disso que as televisões abdicaram na manifestação de hoje da “geração à rasca”, colocando de lado qualquer distanciamento, qualquer capacidade crítica e funcionando apenas como um gigantesco megafone propagandístico das intenções e objectivos da “manif”. Só faltou mesmo o apelo explícito dos repórteres à participação – ou se calhar nem mesmo isso esteve em falta.

E se não existe democracia, tal como a conhecemos, sem “mediatização”, o que hoje aconteceu foi um passo muito perigoso no caminho de uma sociedade totalitária. Tenham medo; tenham muito medo!

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Ora não querem lá ver que até vou falar do "processo Casa Pia"?!

Ora expliquem-me lá como se eu fosse muito loiro e muito estúpido.

Carlos Silvino, um dos arguidos do chamado "processo Casa Pia” e já condenado em 1ª instância, aguardando decisão de recurso, dá uma entrevista à revista “Focus”, na pessoa de um jornalista autor de um livro escrito em defesa de um outro arguido no mesmo processo e em igual situação(Carlos Cruz), em que desdiz tudo o que afirmou em tribunal durante o julgamento e quando se encontrava sob juramento. Que credibilidade tem tal entrevista para ser elevada à categoria de grande”furo” jornalístico e ter direito (ao que dizem – não vi) a difusão em “prime time” na SIC e a ocupar lugar de destaque nos noticiários da manhã da TSF, sendo também tema de discussão no respectivo “Fórum”? Se não tem credibilidade, qual a razão para tal?

Sei as respostas; mas não digo!

Nota:
Mais uma vez: não tenho lado da “barricada” no “processo Casa Pia” e considero os tribunais, funcionando bem, mal ou “assim-assim”, a única instância legítima para julgar, absolver ou condenar, por muitas certezas ou dúvidas que existam sobre a justiça das sentenças deles emanadas... Mais ainda: neste como em todos os processos, todos os arguidos são inocentes até trânsito em julgado da respectivas sentenças.

terça-feira, novembro 30, 2010

Péssimo jornalismo!

Título do “Expresso” on-line: “Será que a zona euro se vai fragmentar”? Esta afirmação, catastrófica e alarmista, deixa antever o pior, seja, uma forte possibilidade de desagregação da moeda única com todas as dramáticas consequências, de ordem política e económica, que se poderiam imaginar. Depois, vamos ler a entrevista com Iain Begg, professor da London School of Economics, e Friedrich Heinemann, do Centro de investigação Económica Europeia, e concluímos da muito pouca probabilidade de tal cenário, praticamente afastado por ambos os especialistas.

Não são necessários mais comentários sobre este tipo de jornalismo...

sexta-feira, novembro 05, 2010

Da perda de hegemonia da esquerda na cena mediática

No seu “Causa Nossa”, Vital Moreira tem por hábito chamar a atenção para casos nos quais, em termos mediáticos, considera o governo de José Sócrates ter sido tratado injustamente ou, até, para deturpação de notícias, em si mesmas positivas, “manipuladas” em prejuízo desse mesmo governo. Devo dizer que um bom número de vezes tem razão.

Mas, mais do que ter ou não ter razão, melhor do que assinalar esses casos, seria interessante saber porque a esquerda, ou quem das suas ideias se reclama, perdeu, nas últimas décadas, alguma da relativa hegemonia que durante muitos anos deteve na comunicação social. Permito-me adiantar três dessas razões:
  1. No campo das ideias políticas, da luta e afirmação ideológicas, o que de novo surgiu (de positivo ou negativo, não interessa aqui discutir a questão), nos últimos tempos, principalmente após a queda do “muro de Berlim e da derrota do comunismo enquanto ideologia e prática política, veio da direita neo e ultraliberal e do movimento-conservador. Exceptuando nas questões de “sociedade”, ou impropriamente chamadas “fracturantes”, das quais alguns dos novos partidos da esquerda pós-moderna se fizeram vanguarda, as ideias à esquerda estiolam e a sua ideologia e práticas políticas passaram, aos olhos das novas gerações, a ser consideradas como demasiado conservadoras. Se a geração que tem hoje 60 anos era maoista por contestação, a geração que tem hoje 30 ou 40 anos é liberal por idênticas razões. Ora são essas novas gerações que ocupam hoje em dia, maioritariamente, as redacções dos principais “media”.

  2. Nada de novo se disser que com as novas tecnologias de informação e as plataformas e suportes diversos que geraram, com a globalização de difusão de conteúdos a que também deram origem e com o subsequente nascimento do “infotainment”, o mundo da comunicação social assumiu uma lógica claramente empresarial, ligando-se ao mundo dos negócios e afastando-se da concepção tradicional do jornalismo, o que também não favorece qualquer seu posicionamento “à esquerda”.

  3. Por último, a prevalência da vertente “negócio” e a lógica de luta pelas audiências que dela decorre “forçou” à opção pelo espectáculo e pelo imediato e superficial em detrimento de qualquer aprofundamento das ideias ou, muito menos, dos aspectos formativos; fez alastrar o antes restrito tablóidismo e tornar algumas das suas características dominantes na chamada “imprensa de referência”, esbatendo fronteiras ainda há pouco bem definidas. Ora estes aspectos, tal como seria de prever, bem como os “media” interactivos dos fóruns de opinião, das caixas de comentários e das “sondagens” a €0,60 + IVA, abriram caminho aos mais desbragados populismo e demagogia, que tenderam a tornar-se dominantes e impregnar toda e qualquer discussão ideológica mais séria. Um caldo de cultura, claro, que não só não me parece ser nada favorável a uma esquerda – aquela a que Vital Moreira pertence - que não se limite a afirmar-se e agir como contestatária do “sistema”, como também tende a promover a contestação sistemática a alguns dos aspectos mais evidentes e menos populares da actividade governamental e da política em geral. Ora, no caso específico de Portugal, convém lembrar que o PS foi governo durante cerca de doze dos últimos quinze anos, o que expôs demasiado o partido a esta infeliz lógica mediática.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Jornalismo de taxista

A demagógica campanha anti-regime conduzida pela comunicação social - mascarada de campanha anti-governo - está a atingir os limites do intolerável. Agora, a propósito do Orçamento de Estado, somos literalmente “apedrejados” (é o termo) pelos “media” com a despesa dos gabinetes ministeriais. Para além de generalidades (X para gasolina, Y para comunicações, etc), que nada revelam para além dos respectivos valores globais, nada de substancial também nos é dito sobre o modo como são utilizadas essas verbas, sobre a sua necessidade ou inutilidade para o normal funcionamento dos gabinetes ministeriais e do governo (deste ou de qualquer outro no passado), sobre a existência ou não de desperdícios, etc, etc. Nada, enfim, que nos permita ajuizar sobre a proficiência na utilização dos dinheiros públicos, como se governos e orgãos de soberania devessem e pudessem ser financiados pelo ar que respiramos. Mas como as verbas são da ordem dos milhões, o que sempre impressiona, atiram-se para títulos de jornal ou frase de abertura de noticiário televisivo esperando que o efeito resulte.

Claro que, mais tarde, esta autêntica “intinfada” de atiçamento da opinião pública contra a política e os políticos é devolvida a esses mesmos “media”, com juros, pelo “povo da SIC” nos fóruns de opinião e nas caixas de comentários dos jornais electrónicos, contribuindo assim para o aumento das audiências, mas também fazendo jus àquilo de que realmente se trata: do mais baixo e reles jornalismo de taxista, pois claro.

segunda-feira, setembro 20, 2010

A "Conversa em Família" de Isabel Alçada e o comportamento dos "media"

Exemplo elucidativo de um certo comportamento da comunicação social, em Portugal, é o tratamento dado à “Conversa em Família” da ministra Isabel Alçada. Trata-se, claro está, de uma peça que demonstra uma total inépcia política e comunicacional por parte da ministra e do ministério, que chega mesmo a ser ridícula, mas, simultaneamente, não passa de um “fait divers” que pouco mais teria direito a merecer do que uma notícia no dia seguinte àquele em que foi emitida e ½ página de galhofa no “Inimigo Público” ou no “Eixo do Mal”, os locais apropriados a tal tratamento.

No entanto, o assunto tem servido para demonstrar aquilo a que chamaria o comportamento “copycat” da comunicação social - “blogs” incluídos - e que se exprime, simultaneamente, em três planos: uma permanência, em termos de tempo, muito para além do justificável para um “fait divers” em praticamente todos os meios; um tratamento idêntico em todos eles em termos de opinião expressa, tratamento este muito influenciado pelas caixas de comentários de “blogs” e “media” electrónicos o que demonstra o “efeito totalitário” perverso que a democracia mediática pode, por vezes, trazer consigo; e um efeito de apagamento da memória, omitindo sistematicamente esses mesmos “media” o papel por si desempenhado no passado e a contribuição negativa, influência e responsabilidade que essas análises e opiniões terão tido para a situação que agora criticam.

Este último efeito – de apagamento de memória – é mesmo extremamente evidente no caso da tal “conversa em família” da ministra Isabel Alçada, omitindo os “media”, nas suas análises, o papel por si próprios desempenhado, e que muito terá contribuído para o actual estado de coisas, no afastamento de uma ministra (Mª de Lurdes Rodrigues) que, mesmo cometendo alguns erros, era portadora de uma ideia política para a educação e a sua substituição por uma outra (Isabel Alçada) que pouco mais será do que uma profissional de relações públicas colocada no cargo para “pacificar” o sector, ou seja, para ceder, no essencial, aos interesses instalados.

Talvez seja tempo, pois, de, a esses mesmos "media", lhes reavivar a memória....

terça-feira, agosto 31, 2010

Ainda duas perguntas a propósito de Queiroz...

  1. Ofender gravemente em público, numa entrevista ao “Expresso”, um superior hierárquico (Amândio de Carvalho) e, com ele, a sua entidade patronal (FPF) não será motivo mais do que suficiente para despedimento com justa causa? Ou para uma entidade patronal invocar tal motivo, será mesmo preciso um assassinato com transmissão televisiva, em directo e “ao vivo”?
  2. Pergunta aos comentadores que afirmam deveria a FPF, se quer despedir Queiroz, pagar a indemnização prevista contratualmente: que fariam se o dinheiro fosse vosso ou estivessem a gerir a empresa pela qual eram responsáveis perante os accionistas?

sexta-feira, agosto 13, 2010

Incêndios: "media" e demagogia

Um bom exemplo do aproveitamento demagógico de alguns acontecimentos com características catastróficas feito pela comunicação social, através da extrema simplificação de uma realidade bem mais complexa, é a pergunta que o “Público” “on line” faz hoje aos seus leitores: “Acha que as Forças Armadas deveriam integrar a estrutura de prevenção e combate aos incêndios florestais?”

Claro que perante a tragédia, e num reflexo quase “pavloviano”, as respostas são esmagadoramente em favor do “sim”. Mas pergunta-se, mais a mais sabendo que, hoje em dia, as FA são constituídas por profissionais especializados e não mais por um enorme contingente de mancebos obrigatoriamente arregimentados: para fazer o quê? Integradas em que estrutura e obedecendo a que cadeia hierárquica? As FA têm algum corpo especializado que possa verdadeiramente ser útil nestas situações (prevenção e combate)? É possível e rentável treinar algum com esse fim? Por fim: é às FA que deve competir essa função ou, como parece já ter acontecido, só estariam lá para ver ou atrapalhar?

Haverá, com certeza, outras perguntas e questões associadas (estou longe de ser especialista no assunto), mas penso estas serão mais do que suficientes para provar a tese apresentada.

sábado, julho 31, 2010

Chumbos...

Peço muita desculpa, mas devo ser o único português que não tem uma opinião formada sobre a questão dos “chumbos” no ensino: nunca fui professor e os meus conhecimentos pedagógicos julgo não serem suficientes para formar juízo abalizado. No entanto, diz-me o bom senso, essa coisa tão importante para o vulgar cidadão como o são as “little grey cells” para o belga Hercule Poirot, que talvez seja avisada e asisada a rejeição de duas posições radicais: aquela que defende, à semelhança do que acontecia nos meus já muito longínquos tempos de aluno do liceu nos tempos do ditador Salazar, que aluno com dificuldades é deixado a elas entregue e se não sabe “chumba” e acabou-se; e uma outra, que, de tão absurda, acredito nunca verdadeiramente tenha existido fora do arremesso político e da exploração mediática, que pretende “passa tudo minha gente”, ignorante ou não.

E se - perguntar-me-ão - para além da recusa destas posições radicais admito não ter opinião formada sobre o assunto, porque venho para aqui “mandar palpites” em vez de me remeter a um prudente e avisado silêncio? Por uma razão muito simples: espanta-me o populismo e a demagogia, a ligeireza de raciocínio e a ignorância com que um assunto tão sensível e complexo, que afecta directamente o presente e o futuro de milhões de portugueses e do próprio país, é tratado entre partidos políticos e cena mediática. Mais ainda: é que ao ler e ouvir a pobreza de raciocínio e argumentação, o primarismo dos defensores do “têm dificuldades, não sabem, chumbam”, o tal bom senso que acima invoquei quase me leva a concluir que as ministras Mª de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada até são bem capazes de ter razão...

terça-feira, junho 08, 2010

A "dessintonia" entre governantes e governados e papel dos "media"

Afirma Paulo Ferreira, no JN, que "nunca como agora foi tão tensa a relação entre governantes e governados. Numa altura em que os problemas são gigantes, esta dessintonia é, no mínimo, perigosa".

Não sei que elementos terá Paulo Ferreira para chegar a essa conclusão tão absoluta, ou se o termo “nunca” é apenas aqui utilizado para tentar exprimir, de forma clara, quão grande é essa dissontonia. Mas o que é um facto é que se tal dissontonia é grande (afirmação inquestionável), e apesar de muitos políticos terem para tal situação contribuído de forma notória, tal situação deve-se também, em vasta escala, a uma comunicação social que todos os dias a fomenta e lhe serve de câmara de amplificação, dando demasiado ênfase a notícias que para tal contribuem, distorcendo, alterando e interpretando outras no mesmo sentido e recorrendo até à exaustão a comentadores e fóruns de opinião onde a demagogia campeia e cujo principal e único objectivo parece ser esse mesmo: criar uma situação política de ruptura. Assim, deste modo, se ajuda a criar o caldo de cultura do qual Paulo Ferreira, quero crer que honestamente e qual aprendiz de feiticeiro, parece depois vir queixar-se. Ou será que a afirmação de Paulo Ferreira não é uma queixa, um lamento, mas, isso sim, apenas mais algum ruído saído desse gigantesco amplificador populista em que se transformaram os “media”?

quarta-feira, maio 19, 2010

Judite Sousa, José Alberto Carvalho e "a" entrevista

E pronto! Os meus mais fundos receios tornaram-se realidade e, em vez de se colocar o primeiro-ministro perante o futuro que pode esperar os portugueses – estes ou os vindouros – depois das actuais medidas de austeridade - em nome de quê elas são indispensáveis - preferiu-se remexer na petite politique, na política politiqueira, na pequenez de, em tom inquisitorial que faria corar de vergonha qualquer aprendiz de Torquemada, tentar apanhar José Sócrates em contradição ou forçá-lo a confessar que se tinha enganado ou tinha mentido deliberadamente, que tinha na manga mais “medidas” (todos sabemos que as haverá se e quando Berlim achar necessário), que tinha recuado, talvez que fosse arrogante por não ter sentido a necessidade de pedir desculpa. Bullshit, desculpem lá!

Mas o problema, o maior problema, é que este tipo de entrevista, a que se seguem intermináveis análises em tom psicanalítico por parte de comentadores e “ofícios correlativos”, acaba por definir os padrões do modo de pensar e fazer política em Portugal, reproduzindo-se e entranhando-se entre cidadãos, comentadores, politólogos e os próprios políticos. Vá lá que, felizmente, quase não houve tempo suficiente para a novela PT/TVI (uff!...).

Mas querem um exemplo concreto do modo como se confrontou (mal) José Sócrates com um assunto incómodo para si e para o seu partido? Em vez dos entrevistadores terem perguntado como poderia estar o PS a equacionar o seu apoio a um candidato presidencial (Manuel Alegre) já apoiado por um partido (o BE) que vai votar favoravelmente uma moção de censura ao governo apresentada pelo PCP e cujos dirigentes e militantes irão apoiar e por certo desfilar na próxima manifestação da CGTP contra a política governamental (o que seria a pergunta política “de fundo, digamos assim), partidos que não perdem oportunidade de manifestarem a sua oposição à UE em período tão sensível para a existência e aprofundamento desta, preferiram centrar a sua pergunta numa, politicamente quase irrelevante, questão de “timing”. É esta a comunicação social que temos – infelizmente – avessa ao aprofundamento político, mas que não hesita a vir para jornais e telejornais agitar demagogicamennte os fantasmas mais caros ao “povo da SIC”.

É que, infelizmente, uma desgraça (maus políticos) nunca vem só (ainda pior comunicação social).

segunda-feira, abril 19, 2010

"i": a morte anunciada

Escrito e publicado neste "blog" a 7 de Maio do ano passado a propósito do primeiro número do "i"

"Lançar um jornal em papel num mercado em forte recessão estrutural, em que a quota de mercado só poderia ser conseguida à custa de uma concorrência com anos de fidelização, parecia ser algo contra-natura. Se nos lembrarmos da crise e de um mercado publicitário que já viu melhores dias a “coisa” parece projecto de loucos. Mas Martim Avillez Figueiredo parecia-me jornalista competente – apesar dos verdes anos – e o segmento de mercado (tiny, tiny...) era algo que poderia existir para um produto com um "posicionamento" claro: um jornal de referência menos enfeudado politicamente a um alinhamento governamental (DN) ou a um ultra-liberalismo e anti-socratismo militantes e quase tão ortodoxos como o estalinismo original de muitos dos seus fautores (“Público”). E no entanto...

A primeira coisa que parece faltar, após uma primeira e rápida leitura, é um "posicionamento" claro e consistente: faltam profundidade e artigos de opinião de gente com “peso” (excepção, talvez, para Jaime Nogueira Pinto) para ser um jornal de referência e sensacionalismo q. b. para um tablóide. Resultado: parece ser coisa nenhuma. Melhor: talvez algo que se assemelha mais a um gratuito para ler no “metro”, em cinco minutos, tipo chewing gum, mastiga e deita fora. Francamente: tive dificuldade em vislumbrar algo que me interessasse ler.

Claro que há aquela coisa de ser mais pequeno e agrafado, sem dúvida uma boa ideia. Mas é um erro de principiante vender um produto baseado em um ou mais "features" que podem ser facilmente copiados pela concorrência e não naquilo que define a sua “uniqueness”.

Desilusão!"

sábado, março 13, 2010

Comentadores-militantes

O que terá levado a RTP 1 a escolher a jornalista Maria João Avillez, militante do PSD, como comentadora do congresso do partido no Telejornal de hoje? Fará algum sentido? Ou será que em futuro congresso do PS o escolhido poderá ser, por exemplo, Emídio Rangel?

Perdeu-se a noção...

quarta-feira, março 10, 2010

Os "fiscalistas" comentadores

Um “fiscalista” é um especialista em direito fiscal (o senhor de La Palice não diria melhor). Trocando a coisa por miúdos e tentando simplificar, é alguém conhecedor de todos os meandros da legislação tributária e cujo objectivo será, dentro da legalidade, reduzir ao mínimo possível o valor pago por uma entidade ou indivíduo em contribuições e impostos. Como disse, de modo muito genérico e simplificado é isto mesmo.

Acontece que, dada a maior complexidade das organizações e da legislação que as enquadra nesta área, também o maior volume de taxas e impostos a pagar e, consequentemente, das poupanças que o trabalho de um fiscalista aí pode gerar, a grande maioria dos seus clientes são empresas e instituições. Nada a obstar, claro, quer quanto ao seu legítimo trabalho, quer quanto à legalidade da sua actuação e bondade dos objectivos, seus e de quem os contrata.

Mas, tendo dito isto, o que já me parece mais questionável é a sua actual disseminação televisiva - e não só - como “comentadores”, “analistas” e “ofícios correlativos” sempre que se trata de analisar documentos que tenham que ver com as contas nacionais, como sejam orçamento de estado, PEC, etc. Sejamos claros... Em primeiro lugar, OE e PEC são documentos políticos e não puramente técnicos ou, muito menos, contabilísticos. Isto significa que na sua génese, elaboração e estabelecimento de objectivos estão presentes (e ainda bem) pressupostos políticos e ideológicos e na execução respectiva é essencial ter em conta as condições políticas, sociais e económicas da conjuntura e, pelo menos, do médio prazo. Em segundo lugar que, dado o objecto do seu negócio, os fins prosseguidos e a natureza dos seus clientes, muito dificilmente pode um fiscalista, principalmente os que nos “impigem” como comentadores, na sua maioria pertencentes aos grandes escritórios do ramo e tendo como clientes as grandes empresas, estar de acordo com algo que se não consubstancie numa simplificação tributária e numa diminuição da carga fiscal para essas mesmas empresas e respectivos empresários ou gestores. Estarão, pois, utilizando o jargão empresarial, biassed.

Quem me leia ou oiça até vai já achar estar na presença de um empedernido “comunista” ou “bloquista”, inimigo feroz da livre iniciativa e das grandes corporações. Nada disso; nada me move contra especialistas em direito fiscal, seu negócio e respectivos clientes. Que prosperem e façam prosperar os seus clientes e o país, são os desejos deste que se assina. Só que, em função do que acima expliquei, tê-los como comentadores e analistas será mais ou menos o mesmo do que perguntar à “Siemens” (por exemplo) sobre a justeza do TGV ou à peixeira se o peixe é fresco: fresquíssimo, não se está mesmo a ver! “Pescadinho” ali na praia há menos de uma hora!

quinta-feira, março 04, 2010

Os deméritos das audições da "Comissão de Ética"

Ao contrário do que é voz corrente, as audições da Comissão de Ética da Assembleia da República sobre a tão propalada “liberdade de expressão" tiveram pelo menos dois méritos (talvez fosse de maior rigor chamar-lhes deméritos):
  1. Demonstrar má preparação dos deputados para o papel que lhes competia nessas mesmas audições, embora parte da responsabilidade possa também ser atribuída ao autêntico disparate que constitui o próprio objecto de investigação (é difícil alguém, mesmo que bem preparado, conseguir escapar incólume a tal cretinice).
  2. Pelo triste espectáculo protagonizado por Mário Crespo, Felícia Cabrita e Manuela Moura Guedes - embora, pelo seu percurso enquanto jornalista, eu ainda insista em fazer alguma distinção entre Mário Crespo e as duas jornalistas citadas - confirmar o perfil daqueles a quem tem estado entregue o papel dinamizador da agit-prop (é disso mesmo que se trata) da acção política da oposição, principalmente do seu maior partido, nos tempos mais recentes.

Como se pode concluir, nada disto contribui para o prestígio das instituições e da democracia. Também, claro está, do jornalismo, se é que tal coisa ainda existe e resiste.