quinta-feira, novembro 29, 2007

História(s) da Música Popular (67)

The Animals - "We've Gotta Get Out Of This Place" (Barry Mann - Cynthia Weil)
The Brill Building (XVII)
Pois continuemos com Barry Mann e Cynthia Weil e agora com o tema "We’ve Gotta Get Out Of This Place" (#13 em 1965 nos USA e #2 no UK) dos britânicos Animals (Newcastle, 1963), de Alan Price e Eric Burdon, talvez o grupo mais importante da British Invasion depois dos intocáveis Beatles e Rolling Stones. Pelo menos, o único que eu vi ao vivo, numa primeira fila do antigo Teatro Monumental sob a vigilância apertada da polícia para que ninguém saísse da linha – era proibido ir dançar para as coxias – que isso era coisa a que a ditadura não se poderia permitir.

Bom, mas sobre os Animals falaremos depois com mais pormenor, quando falarmos da British Invasion, pois o grupo bem merece alguns posts e parágrafos bem extensos. Sobre “We’ve Gotta Get Out of This Place” podemos dizer que ele é um dos melhores exemplos das preocupações sociais presentes em muitos temas de Mann e Weil. Embora isso hoje pareça difícil de entender, foi inicialmente composto para os Righteous Brothers, mas acabou por ir parar ás mãos de Mickie Most, produtor do grupo de Newcastle, segundo consta com ligeiras alterações na letra original. Claro que foi rapidamente adoptada pelo exército americano no Vietnam... ou não fosse o refrão inteiramente apropriado.

Bom, mas musicalmente, para além da voz de Burdon – embora eu seja um admirador de Alan Price, o fundador e mentor do grupo que em Maio de 1965 o abandonou para formar o Alan Price Set e, mais tarde, interpretar um célebre (?) dueto (“Rosetta”) com Georgie Fame – é de salientar o papel do baixo de Chas Chandler na introdução. Ficamos por aqui e, pela 1ª vez, resolvemos incluir a “letra” para melhor ilustrar aquilo que aqui se disse sobre as suas preocupações sociais.
"In this dirty old part of the city where the sun refuse to shine
People tell me there ain't no use in trying
Now, my girl, you're so young and pretty
And one thing I know is true,
You'll be dead before your time is due, (I know)
Watch my daddy in bed and dying
Watch his hair been turning grey
He's been working and slaving his life away, (Oh yes I know)
He's been working so hard
I've been working too baby, (every night and day)
(Chorus)We've gotta get out of this placeif it's the last thing we ever do
We've gotta get out of this place
Girl there's a better life for me and you

Now my girl you're so young and pretty
And one thing I know is true
You'll be dead before your time is due, (I know it)
Watch my daddy in bed and dying
Watch his hair been turning grey
He's been working and slaving his life away (I know)
He's been working so hardI've been working too baby,
(Chorus)
Somewhere baby
Somehow I know it baby
(Chorus)
Believe me baby
I know it baby
You know it too

The Hammer Collection (8)

" Frankenstein Created Woman" de Terence Fisher (1967)

quarta-feira, novembro 28, 2007

Quatro "posts" de actualidade - 4. Novos investimentos na Autoeuropa

A decisão positiva sobre a produção do novo VW Polo na Autoeuropa e os novos investimentos que irão aí ser efectuados é, claro, uma excelente notícia. E não só pelo volume de negócios acrescido, pelo seu efeito multiplicador, o reflexo nas exportações e no número de postos de trabalho, directos e indirectos, qualificados, mantidos e/ou criados. É que a Autoeuropa é um exemplo a vários níveis, da gestão ao sindicalismo, que tem um efeito indutor; e no qual o país precisa de se rever e do qual necessita para progredir.

Quatro "posts" de actualidade - 3. A entrevista de Ana Lourenço a Miguel Sousa Tavares

Tenho respeito pelo percurso profissional de Ana Lourenço (AL) e Miguel Sousa Tavares (MST). Sou mesmo habitual leito deste último. Mas a entrevista de ontem, na SIC Notícias, de AL a MST não foi mais do que uma acção promocional, em prime time, integrada no lançamento do novo livro (“Rio das Flores”) de MST, da qual, aliás, não me parece nem MST nem a sua editora necessitarem. Ou tratou-se apenas de irritar o "Público" e "roubar", por momentos, a vedeta da concorrente TVI? Bom, no fim, depois de tanto charme despejado sobre MST, só faltou AL convidar este para jantar em “directo e ao vivo”. Senhora jornalista...

Quatro "posts" de actualidade - 2. O novo aeroporto e a ACP

A opção Portela +1 defendida pela Associação Comercial do Porto (e que este blog também tem defendido por razões que se não confundem e foram por aqui devidamente expressas e fundamentadas) não é, claro está, politicamente neutra: ela tem na sua base um modelo de desenvolvimento que, em poucas palavras, tenta evitar a polarização na área centro-sul, em torno de Lisboa, e valoriza uma maior autonomia do norte centrada na região galaico-duriense, transnacional. Claro que, vindo de onde vem, as suas conclusões são como a pescada: antes de o ser... Não é por isso inocente o destaque que o jornal “Público” e o seu director José Manuel Fernandes hoje lhe concedem. Não se poderá neste caso dizer “cherchez la femme”, mas nem sequer será preciso ser inteligente para procurar o “homem”. Enfim, embora seja a “minha” opção (sem TGV Lisboa-Porto, acrescento, o que certamente já não será defendido pela ACP) não será assim que se credibiliza a decisão a tomar.

Quatro "posts" de actualidade - 1. A deputada Luísa Mesquita

Ao contrário do que ela própria e outros afirmam (Jorge Coelho, por exemplo) a expulsão do PCP da deputada Luísa Mesquita está longe de se restringir a uma questão puramente administrativa: ela é, isso sim, política e ideologicamente determinada. Nos partidos comunistas, a subordinação do individual ao colectivo, e o primado deste, são parte integrante e fundamental (que está nos seus fundamentos e sem a qual não existem tal como os conhecemos) da sua ideologia, forjada na primeira e segunda vagas industriais, nas lutas pelos grandes contratos colectivos no tempo em que a organização industrial pressupunha enormes e pesadas estruturas hiper hierarquizadas e onde predominavam, a nível do operariado, as funções indiferenciadas, pouco qualificadas, repetitivas e, por isso, com salários idênticos. Onde a luta era muitas vezes desigual e difícil e efectuada em condições de risco elevado. É isto que está na base da matriz ideologica “colectivista” e anti-liberal (onde as liberdades individuais valem o que valem: pouco) dos partidos comunistas. Afastado este quadro - que apenas vai subsistindo com algumas dificuldades em alguns sectores da função pública - varrido pela globalização, pelas novas tecnologias e subsequentes novas formas organizativas empresariais, o PCP, tal como o conhecemos, tem dificuldade em subsistir, embora essa continue a ser esta a ideologia que lhe dá forma. Um pouco como acontece nas revoluções como a de Outubro, ex-libris do PCP: mesmo depois de destruído o aparelho de estado "burguês” “a mentalidade e comportamentos da antiga classe dominante continuarão a subsistir durante longos anos sendo necessário lutar contra ela de forma permanente para que não destrua a revolução”. Ironia, pois claro!

terça-feira, novembro 27, 2007

"Arte popular" no "Estado Novo" (8)

Capa de Almada Negreiros para a revista "Panorama" do SNI (1941)

O IGAI e o OSCOT - ou Clemente Lima vs Garcia Leandro

As afirmações do general Garcia Leandro, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, sobre a entrevista concedida ao “Expresso” pelo Inspector Geral da Administração Interna (uff!, denominações complicadas!), por alguma razão pondo em confronto um militar responsável pela segurança “pura e dura” e um civil, juiz, vêm mais uma vez pôr em evidência duas concepções diferentes, mesmo antagónicas e até inconciliáveis de país, de estado e de nação. Poderia dar-se o caso de reflectirem nada mais do que as funções conjunturais de cada um, mas são muito mais do que isso. De um lado, o de Clemente Lima (IGAI), vemos a ansiedade por um país mais europeu, uma sociedade mais aberta, mais plural e tolerante, mais cosmopolita, com níveis de educação em progresso, mais responsável e confiante na capacidade de iniciativa dos seus cidadãos, tanto a nível social como económico. Um país mais culto e confiante, que não hesita em olhar os seus problemas de frente, discuti-los com abertura e resolvê-los, porque os cidadão se querem menos dependentes da “segurança” do estado e das suas instituições. Que tenta ver ao longe. No outro, no de Garcia Leandro, revemos um pouco do Portugal do passado, autoritário q.b., provinciano e fechado sobre si próprio, pouco confiante na capacidade e espírito de iniciativa dos seus. Uma sociedade que gosta de ser ver tutelada e militarizada, de súbditos, de cultura retrógrada, governada pelas corporações para quem tudo está sempre bem excepto os meios sempre insuficientes que lhe são concedidos para que se calem e tudo fique na mesma.

No fundo, nada disto constitui novidade de maior e, mesmo que sobredeterminado por conflitos conjunturais, é algo que nos tem acompanhado durante, pelo menos, os últimos 200 anos. Também algo sobre o qual partidos e governo não deveriam ficar mudos e indiferentes. Ou apenas aproveitar a situação para chicana de oportunidade. É que é a isto que chamam política, sabiam?

segunda-feira, novembro 26, 2007

Cinema e Rock & Roll (14)

Adriano Celentano - "Ready Teddy" (in "La Dolce Vita" de Frederico Fellini - 1960)

Little Tony - "Che Tipo Rock" (in "I Teddy Boy Della Canzone" de Domenico Paolella- 1960)
Pois aqui, nesta ligação entre o cinema e o rock n’ roll nunca tinha a Itália passado. A explicação é bem simples: se em França o chamado movimento yé-yé ainda teve alguma importância e influência - questões de qualidade à parte, já se vê – e uma boa dose de imitadores aqui pelo “rectângulo”, em Itália a importância do rock terá sido bem mais diminuta, tanto quanto eu saiba, cedo silenciada pela proeminência internacional que o Festival de San Remo, com os seus Domenico Modugno, Gianni Morandi, Bobby Solo, Cinquetti e tutti quanti, conseguiu alcançar. Lembro-me, embora muito por influência de primos mais velhos, de duas excepções: Little Tony, que até era de S. Marino, e Adriano Celentano, ambos assim um pouco de Johnny Hallidays com um traço da comédia italiana dos anos sessenta de Sordi e Gassman.

Pois aqui ficam então dois exemplos: Celentano interpretando “Ready Teddy”, de Blackwell – Marascalco, no filme de... adivinhem lá, Frederico Fellini “La Dolce Vita” e Little Tony no filme de um tal Domenico Paolella chamado "I Teddy Boy Della Canzone" ambos de 1960. O ano de produção deve ser mesmo a única coincidência...