terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma "história de caserna" a propósito de Telmo Correia

Quando estive na “tropa” (há muito, muito tempo), para aí de dez em dez dias, mais ou menos, tinha de prestar serviço de “oficial de dia” ou de “oficial de prevenção”. A “coisa” já por si era bem “chata” pois obrigava a passar a noite no quartel, de pistola à cinta, a provar do “rancho” da soldadesca e a fazer a ronda das sentinelas, aí para as três da manhã chovesse ou fizesse um frio de rachar, para ver se as encontrava “despertas e vigilantes”, prontas a repelir qualquer ataque dos gatos vadios das vizinhanças ou de uma ou outra “pikena” mais ousada com a noite ainda por fazer. Mas pior do que tudo isso – pelo menos para esta história dá jeito que assim seja – era ter de assinar as dispensas de recolher das “praças” (era assim que eram denominados os soldados e cabos no léxico oficial da instituição castrense), o que, como estávamos paredes meias com Lisboa e as solicitações eram muitas, correspondia, em dias “fracos” a umas quinhentas assinaturas, subindo este número quando os bolsos dos “nossos” garbosos militares se achavam mais recheados. Como devem calcular, não dava mesmo jeito nenhum, exigindo um esforço físico concentrado na mão e pulsos direitos muito acima do esforço exigido aos ditos soldados nessas saídas nocturnas, quer elas fossem para ir visitar namoradas ou jogar animadas partidas de matraquilhos.

Mas como nestas situações surge sempre uma ideia salvadora, um desses velhos sargentos para quem a tropa é o mundo e o mundo se reduz à tropa, rapidamente sugeriu mandasse fazer um carimbo, que ele, sargento, se encarregaria de o guardar no cofre da secretaria fora das “vistas e alcance do inimigo”, isto é, ao abrigo de qualquer uso indevido por militar mais “trafulha”. Mais ainda, além do carimbo exigir um esforço menor do que uma assinatura, com posto e tudo – fulano de tal, alferes miliciano de infantaria dá uma trabalheira dos diabos – o “sargento da guarda” ou o “sargento de dia” sempre me poderiam dar uma ajuda - perante a minha supervisão, claro. Depois disso, lá voltaria o abençoado carimbo para o cofre, até que de novo as ditas dispensas o chamassem à sua nobre função.

Pois lembrei-me desta história de caserna a propósito de Telmo Correia e dos seus trezentos e tal despachos, que bem o devem ter deixado exausto! Um carimbo, meu caro Telmo, um carimbo! Sim, eu sei que em época de tecnologias digitais isso já deve ter caído em desuso, e possivelmente a uma hora tão tardia não estaria lá no Ministério um contínuo para lhe dar tal sugestão, mas, se algum dia voltar a ser ministro dos despachos ou tiver que enfrentar situação semelhante, aqui fica, para já, o meu conselho. Vai ver que resulta, e até pode pedir a um dos seus assessores ou secretários de estado que lhe dê uma ajuda lá nas carimbadelas! Quem é amigo, quem é?

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

"Arte popular" no "Estado Novo" (10)

Capa de Manuel Ribeiro de Pavia para a revista "Panorama" do SNI (1946)

Novamente Moita Flores e o caso McCann

No “Causa Nossa”, Ana Gomes interroga-se, e bem, se face ás últimas declarações do Director Nacional da PJ sobre o caso McCann e o impasse a que aparentemente a investigação chegou Moita Flores continuaria a ser convidado pela SIC para comentar este e outros casos de justiça. Há, no entanto, que ir um pouco mais longe, já que o caso Moita Flores apresenta algumas especificidades que bem o individualizam face a outros comentaristas e outras estações de televisão onde o desvario também andou tanto ou mais à rédea solta, tendo mesmo chegado a ser invocada a alegada condição de “swingers” dos McCann para tentar provar sabe-se lá o quê.

O problema fundamental com Moita Flores é que não sabemos bem se, ao ser convidado para comentar esse tipo de casos, a SIC o está a fazer em função da sua expertise na matéria ou, em última análise, apenas para promover uma das estrelas da estação e os programas de que é autor, comportando-se Moita Flores, nos seus comentários, fundamentalmente em função desse mesmo objectivo. Mais ainda, se o “pacote promocional” não incluirá também o autarca Moita Flores, presidente da Câmara Municipal de Santarém à qual concorreu pelo partido do qual Francisco Pinto Balsemão – e apesar da reconhecida independência deste - é militante número um.

Uma “confusão”, não é?

Portrait of a Marriage (16)

"Portrait of a Marriage" de Stephen Whittaker (1990). 3ª parte, clip nº4

domingo, fevereiro 03, 2008

D. Manuel II e Gaby Deslys - ou como nunca é tarde para aprender




Marie-Elise Gabrielle Caire (aka Gaby Deslys). (1881 - 1920)

Como o fim de semana é dado a estas curiosidades magazinescas e muito se tem falado da monarquia e do casamento Sarkozy/Bruni nestes últimos dias – e também como, parafraseando José Pacheco Pereira, nunca é tarde para aprender – esta é Gaby Deslys, actriz e bailarina que foi amante de D. Manuel II, relacionamento começado em 1909 ainda este era rei de Portugal, solteiro e outros dirão se bom rapaz. Para quem não sabe, D. Manuel foi casado de 1913 até à sua morte em 1932 com Augusta Vitória Hohenzollern-Sigmaringen, sua prima em 2º grau e ela própria familiar de Estefânia Hohenzollern-Sigmaringen, mulher de D. Pedro V, tio avô de D. Manuel II. O relacionamento entre rei e bailarina chegou a causar algum escândalo, talvez não por ele, pela razão de existir o que era bem comum na época (vidé Eduardo VIII e Alice Keppel), mas pelos presentes extravagantes que um rei em dificuldades para manter o trono e depois exilado lhe terá oferecido, entre os quais se conta, ao que dizem e não sei se será apenas propaganda republicana, um colar de pérolas então avaliado em US$ 70 000. Gaby era considerada na época um fenómeno mediático e uma das mulheres europeias mais elegantes, tendo vivido rodeada de alguns mistérios e escândalos (durante algum tempo existiram dúvidas quanto às suas origens) e feito uma considerável fortuna, claro. Morreu em 1920, em Paris, vitimada pela epidemia de gripe espanhola e deixou a sua fortuna aos pobres de Marselha e a sua casa na Corniche (Côte d’Azur) a uma instituição de caridade.

sábado, fevereiro 02, 2008

Sarkozy s'est marié

Houve tempos ("there was a time") em que príncipes (normalmente de principados perdidos) e playboys de segunda ou sabe-se lá de que escolha, latinos ou não quanto baste, protegidos de ditadores, gentlemen drivers de ocasião, casavam ou mantinham affaires, quando não apenas de cama, de diamantes e pérolas, com artistas de cinema e coristas, pin ups e aspirantes a divas, caça fortunas de ocasião. Parece que a moda passou para presidentes eleitos, mas também agora as coristas, travestidas de “modelos”, passaram a ter algum pedigree.

Não sei muito bem – ainda - o que isto quer dizer, e o fim de semana não é lá muito propício a elucubrações filosóficas. Mas há algo aqui de que não gosto, que me cheira a pechisbeque de ocasião, a demasiada futilidade assumida, muito Dom Perignon borbulhante por quem assumiu o lugar por uma escolha, nossa, e não por sucessão de uma qualquer dinastia, ou designação caudilhista. Por quem governa a França e não uma qualquer Bordúria ignota, representa um pouco da Europa e não uma qualquer San Théodorus.

Pois, há algo aqui que me escapa... e não será certamente o amor.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O regicídio 100 anos depois

Hoje, o mais feroz radicalismo republicano e jacobino e o tradicionalmente trauliteiro reaccionarismo monárquico, acolitados por um representante da família real que o bom gosto aconselharia a não abrir a boca em público, coligaram-se para impedir que o país prestasse homenagem a um homem que, como rei constitucional, teve defeitos e virtudes, pessoais e políticas, mas era seguramente muito mais interessante, moderno, culto e preparado (e até talvez liberal) do que a maioria dos que, a favor ou contra, hoje se manifestaram na Assembleia da República ou fora dela. A ironia, ou a tragédia, é que foi isto mesmo que há 100 anos o matou. O espectáculo de hoje, esse, foi simplesmente lamentável.

Série "B" (12)

"I Was a Teenage Werewolf" de Gene Fowler Jr. (1957)

Portrait of a Marriage (15)

"Portrait of a Marriage" de Stephen Whittaker (1990). 3ª parte, clip nº 3

Eu o Serviço Nacional de Saúde

Nos últimos anos tive de recorrer algumas vezes ao Serviço Nacional de Saúde (que defendo) e devo dizer sem grandes motivos para reparo, se considerarmos que uma ou duas horas de espera não ultrapassa o razoável (esperava bem mais no consultório do pediatra particular quando os meus filhos eram crianças e pagava a consulta ao preço do caviar beluga) e o facto de um médico me ter proposto continuação de tratamento através do seu consultório particular (já não se pode usar gravata e ter um bom relógio sem se dar ar de rico!), apesar de desagradável, não é susceptível de generalização. Aliás, até já pensei mandar publicar no jornal um daqueles anúncios a dizer que agradeço, aos Drs, tais e tais a graça concedida, desculpem, o tratamento recebido. Acresce, pelo que vejo e oiço, devo ser, entre os portugueses, o único que não se queixa das “bestas negras” preferenciais dos ditos: a TAP (já fui passageiro frequente com direito a muitas milhas e tudo) e o SNS, pois claro. Como costumo dizer aos meus amigos que gostam de Mahler, compositor que não é dos meus favoritos, provavelmente eles têm razão e o defeito deve ser meu.

Mais ainda, em duas vezes que tive de recorrer à urgência hospitalar, por motivo de problemas oftálmicos de alguma gravidade (“rasgaduras” de retina), fui pronta e eficazmente assistido, tendo mesmo, na vez em que a intervenção a “laser” só poderia ser feita no dia seguinte, de prometer e jurar, por alma dos antepassados, que vinha para casa e ficava mudo e quedo, qual urso em hibernação. Isto para não ser obrigado a ficar uma noite internado, coisa que não estava propriamente nos meus planos imediatos e projectos para o futuro.

Bom, mas, pensando bem há algo que poderia ser evitado, se calhar com alguma facilidade, embora as hipóteses de sucesso se me pareçam revelar escassas. É que, quando vou ao Centro de Saúde aqui da área para obter as chamadas “credenciais” para análises de rotina (o que, para mim, é raridade e nada mesmo rotina), enquanto espero, não tenho nada que ficar a conhecer a vida profissional, familiar, pessoal e sexual das simpáticas senhoras da recepção, suas famílias gatos e periquitos, discutida ali mesmo, em voz suficientemente alta para que todos as oiçam. Ah, e já agora – pedir custa, mas assim por escrito custa menos - será possível que não falem com os utentes, novos e velhos, como se fôssemos todos octogenários, moucos e iletrados? Como dizia o Raúl Solnado nas suas conversas ao telefone: “agradecido”. Se o fizerem, se a minha prece” for bem sucedida, então é que talvez chegue mesmo a minha altura de mandar pôr um anúncio no jornal!