quinta-feira, janeiro 10, 2008

As Capas de Cândido Costa Pinto (38)

Capa de CCP para "Sua Excelência A Morte" de S. A. Steeman, nº 94 da "Colecção Vampiro"

Marques Mendes e Alcochete

O seu a seu dono. Alguém, convém lembrar, averbou uma indiscutível vitória com a decisão do governo de construir o novo aeroporto de Lisboa em Alcochete: Luís Marques Mendes, que foi quem, como líder partidário, primeiro e mais significativa e veementemente se opôs à opção Ota. É justo que isso seja hoje aqui lembrado.

As decisões do governo numa antevisão do "Gato Maltês"*

"Existem duas decisões políticas de fundo a serem tomadas pelo governo nos próximos meses que irão ajudar a definir muito do seu futuro político, e do PS, nas legislativas de 2009: a questão do referendo sobre o Tratado Reformador Europeu e o futuro do aeroporto de Lisboa.
Sou, por princípio e em termos gerais e abstractos, contrário às “democracias” plebiscitárias e/ou referendárias (e não vem aqui ao caso a minha posição favorável ao federalismo europeu), com possível excepção para questões simples e concretas de âmbito local, mas reconheço que, no primeiro caso, uma decisão favorável ao referendo, até pelo contraste que estabeleceria com a decisão já tomada pelo PSD, iria, disso não tenho dúvidas, contribuir para um aumento da popularidade do governo, mais a mais quando se lhe apontam vícios vários de autismo e arrogância. Se este assim o decidir, será uma decisão irresponsável, ditada pela demagogia e o eleitoralismo fácil, arriscando-se a comprar um conflito com os seus parceiros europeus e, eventualmente, com o Presidente da República e a contribuir para hipotecar o futuro do aprofundamento político da União em troca de uma cedência aos vários eurocepticismos e basismos, por princípio seus adversários políticos, à esquerda e à direita. Mais ainda, arrisca-se a uma participação ridícula (não será pessimismo prever uma afluência na casa dos 30%) e, no caso de derrota (será de prever que apenas os partidários do “NÂO” serão susceptíveis de uma mobilização significativa), a actuar tal qual qualquer aprendiz de feiticeiro, criando um problema cuja necessária solução futura, por burocrática ou de gabinete mas sempre obnóxia, o colocaria numa situação de fragilidade política extrema, interna e externamente, e o afastaria ainda mais de qualquer pretensão de popularidade futura.

Quanto à nova estrutura aeroportuária, sabida da oposição da maioria dos portugueses, tem aqui o governo uma oportunidade de se tornar mais popular tomando uma decisão baseada na razoabilidade e num consenso alargado, definindo um corte, se não radical pelo menos significativo, com o modelo de desenvolvimento adoptado nos últimos decénios. Desconheço qual o grau dos compromissos já assumidos, mas, estando de fora, não me parece que, aqui, a decisão mais popular fosse coincidente com a decisão de risco ou com a decisão errada, antes pelo contrário. Enquanto adversário do projecto “grande cidade aeroportuária” e também enquanto cidadão e eleitor desconfiado da credibilidade das alternativas ao actual governo, espero bem que o governo tome uma decisão sensata. Terá tudo a ganhar, ele e nós."
*Escrito e publicado por mim em "O Gato Maltês" a 2 de Novembro de 2007.

Ota vs Alcochete?

Muito mais importante do que a aprovação do local onde será construído o novo aeroporto de Lisboa será a definição do tipo de estrutura aeroportuária a construir e a manutenção ou não em funcionamento do aeroporto da Portela, bem como as opções em termos de TGV. Será isso, fundamentalmente, que irá definir o modelo de desenvolvimento assumido para os próximos anos. Lamentavelmente, o assunto tem sido tratado com a ligeireza e simplificação habituais pelos “media”, como se de um qualquer jogo de futebol regional Ota-Alcochete se tratasse. Um mau serviço prestado ao país. Mais um.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Don't make promises you can't keep...

Se algo de positivo se deve procurar tirar desta história do referendo (e é sempre possível fazê-lo de todos os acontecimentos) é, de futuro, os partidos e políticos candidatos a eleições passarem a ter mais algum cuidado na enunciação das chamadas “promessas eleitorais”, cingindo-se apenas àquelas que dependem directamente da sua capacidade política e acção governativa e pelas quais possam ser, por isso mesmo, responzabilizados, e não alargando o seu âmbito a outras que, por demasiado conjunturais ou muito dependentes de factores externos à actividade do governo (como, por exemplo, a questão da criação dos tais 150.000 empregos), correm o risco de tornar-se efémeras ou de cumprimento incontrolável. Neste caso, mais cedo ou mais tarde poderá ter de pagar por essa leviandade – de colocar nas mãos de terceiros cumprimento de promessa sua - talvez um preço demasiado caro.

Vamos ser claros. O PS e o governo poderiam prometer referendar uma nova lei sobre a IVG: depois do faux pas que tinha sido o referendo anterior - só mesmo ao PCP lembraria alterar o seu resultado por votação parlamentar, mesmo não tendo os resultados sido vinculativos - a iniciativa de convocação de nova consulta popular não só dependeria de si como a questão do aborto era estrutural na sociedade portuguesa. Claro que a consulta poderia ser chumbada na AR caso o PS não obtivesse maioria absoluta, ou pelo PR se este assim o decidisse, mas isso não invalidaria o cumprimento da promessa (a iniciativa da sua convocação). Já em relação ao referendo sobre o então Tratado Constitucional do qual o Tratado Reformador é herdeiro, a questão é mais complexa. Independentemente das posições de princípio de cada um sobre o instituto do referendo (as minhas já por aqui foram expressas por várias vezes), como se veio a verificar a questão era não só demasiado conjuntural (bastaram dois “chumbos” para tudo ser reformulado e isso deveria ter sido previsto), como dependia demasiado de factores não controláveis internamente, sejam, o que aconteceria com os outros estados-membros e quais as subsequentes decisões conjuntas da UE formais ou apenas tácitas. Ao decidir prometer o referendo sobre o Tratado Constitucional o PS esqueceu estes princípios básicos da política e, pior, sacrificou a estratégia (o aprofundamento da construção europeia) à táctica: o PSD era, na altura, favorável ao referendo e é sempre popular dizer que se consultam as “massas” mesmo quando estas resolvem ficar em casa afirmando “estarem-se nas tintas” para a consulta. Assim, meteu-se num “molho de bróculos” de onde dificilmente escapará ileso.

The Classic Era of American Pulp Magazines (43)

Capa de H. W. Wesso para "Wolves of Darkness", de Jack Williamson, publicado por "Strange Tales" (Junho de 1932)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Referendo???

"Sou, por princípio e em termos gerais e abstractos, contrário às “democracias” plebiscitárias e/ou referendárias (e não vem aqui ao caso a minha posição favorável ao federalismo europeu), com possível excepção para questões simples e concretas de âmbito local, mas reconheço que, no primeiro caso, uma decisão favorável ao referendo, até pelo contraste que estabeleceria com a decisão já tomada pelo PSD, iria, disso não tenho dúvidas, contribuir para um aumento da popularidade do governo, mais a mais quando se lhe apontam vícios vários de autismo e arrogância. Se este assim o decidir, será uma decisão irresponsável, ditada pela demagogia e o eleitoralismo fácil, arriscando-se a comprar um conflito com os seus parceiros europeus e, eventualmente, com o Presidente da República e a contribuir para hipotecar o futuro do aprofundamento político da União em troca de uma cedência aos vários eurocepticismos e basismos, por princípio seus adversários políticos, à esquerda e à direita. Mais ainda, arrisca-se a uma participação ridícula (não será pessimismo prever uma afluência na casa dos 30%) e, no caso de derrota (será de prever que apenas os partidários do “NÂO” serão susceptíveis de uma mobilização significativa), a actuar tal qual qualquer aprendiz de feiticeiro, criando um problema cuja necessária solução futura, por burocrática ou de gabinete mas sempre obnóxia, o colocaria numa situação de fragilidade política extrema, interna e externamente, e o afastaria ainda mais de qualquer pretensão de popularidade futura."

Escrito e publicado por mim no "Gato Maltês" a 2 de Novembro de 2007

História(s) da Música Popular (71)

Darlene Love - ("Today I'll Met) The Boy I'm Gonna Marry" (Ellie Greenwich - Phil Spector - Tony Powers). 1962. (nota: o vídeo é do filme "Fly Boys")


Bob B Soxx and The Blue Jeans - "Why Do Lovers Break Each Others' Hearts" (Ellie Greenwich - Phil Spector - Tony Powers). 1962

The Brill Building (XX)

Ora deixemos Jeff Barry no “limbo” por mais uns tempos, por ter escrito aquela “xaropada” do “Tell Laura I Love Her”, e vamos directamente (“sem passar pela casa da partida e sem receber os dois contos”) até aos dois primeiros temas de Ellie Greenwich (a propósito: lê-se “Grinitch” e não “Grinwitch”, isto porque tenho andado nervoso o dia inteiro por, a propósito das primárias americanas, ouvir chamar “New Hampshaiare” a “New Hampshare”) com Phil Spector: (“Today I Met) The Boy I’m Gonna Marry”, para Darlene Love, e “Why Do Lovers Break Each Others’ Heart” (uff!...) para Bob B. Soxx and the Blue Jeans com Darlene Love como lead singer. Ambas têm também a assinatura de Tony Powers, mas é a última vez que isso acontece já que Ellie e Jeff casam em Outubro desse ano e passam a escrita de canções a regime de exclusividade familiar (et pour cause...). Duas curiosidades: “Why Do Lovers...” é um tributo a Frankie Lymon (de Frankie Lymon and The Teenagers, um grupo "Doo Wop" conhecido pelo tema “Why Do Fools Fall In Love”) e “...The Boy I’m Gonna Marry” o primeiro tema a solo de Darlene Love, uma das protégées de Spector que “dobrava” as Crystals quando isso era preciso ou Spector lhe dava na gana (e, veremos, deu mais do que uma vez).

Bom, mas no próximo “episódio” lá repescarei Jeff Barry também como intérprete (ou mais ou menos), que também o foi com Ellie formando os Raindrops.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

"Arte popular" no "Estado Novo" (9)

Capa de Bernardo Marques para a revista "Panorama", do SNI (1941)

O Benfica e o populismo

O Sport Lisboa e Benfica terá sido o primeiro clube português, entre os chamados “grandes”, a dotar-se de uma estrutura profissional (de acordo com os conceitos da época, claro), nos anos cinquenta pela mão de Otto Glória. Isso contribuiu decisivamente para a sua afirmação europeia dos anos sessenta e, subsequentemente, para o seu crescimento enquanto clube, em número de adeptos e simpatizantes numa época de boom económico do país e, principalmente, da zona da grande Lisboa e Setúbal. Estávamos numa época em que o financiamento dos clubes era assegurado fundamentalmente pelas receitas de quotização, bilheteira e pelos mecenas e, assim, o Benfica fez crescer o seu estádio até se tornar o maior do país (75.000/80.000 pessoas) e foi pródigo na atracção de personalidades ávidas de notoriedade e poder (os Vieira de Brito, por exemplo). Sendo um clube de raiz mais popular do que o Sporting, por exemplo, a sua gestão e intensa vida associativa, principalmente nos períodos eleitorais, reflectiam isso mesmo, numa época em que esse era o modelo organizacional típico dos grandes clubes ainda muito perto das sociedades recreativas e culturais que tinham estado na base do seu nascimento e lhe eram afins.

Foi este seu perfil e modelo de crescimento que permitiram o seu sucesso, mas que também estiveram na base da sua decadência por inadaptação clara, a partir dos anos setenta, a um novo modelo emergente numa época em que o poder económico e político “viram” conjunturalmente a norte e em que a televisão, patrocínios e merchandising, com a subsequente internacionalização dos clubes/marca, ocupam um lugar cada vez mais importante como fontes de financiamento. É esta sua cultura enquanto instituição, esta sua filosofia de vida qual marca de origem que se lhe cola como se de uma fatalidade se tratasse, que o torna no “grande” que mais dificuldades veio a ter para se adaptar a este “mundo novo”. A capacidade para assim atrair o populismo, com o ror de decisões erráticas e erradas que normalmente lhe estão associadas (e a ampliação do estádio para 120.000 lugares numa época em que a tendência era já a inversa talvez tenha sido apenas a primeira), aparece quase como uma inevitabilidade.