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sexta-feira, setembro 13, 2013

Canavilhas, o PS e o "apartheid" de género

Se António José Seguro e a direcção do PS quiserem saber porque não sobem nem, muito menos, conseguem descolar nas sondagens, não precisam ir muito longe. Uma dessas razões será com certeza esta política sem princípios, onde vale tudo o que sirva para se opor (ou fingir que se opõe) ao governo e angariar uns "votozitos". O efeito, contudo, parece-me ser exactamente o contrário: apenas gera desconfiança e não confere ao partido o acréscimo de credibilidade necessário para quem quer vir a ser governo. Ver uma mulher, socialista e ex-ministra da cultura (da cultura, ouviram?) alinhar pelas teses segregacionistas de género dos que contestam a reforma dos estabelecimentos militares de ensino é no mínimo chocante e no máximo repugnante. Muitas mulheres de direita terão com certeza sobre o assunto posição bem mais aberta e menos conservadora. Shame on you, Grabiela Canavilhas. Já agora: o PS, enquanto partido, tem sobre este assunto posição semelhante? 

segunda-feira, setembro 09, 2013

O "lobby" do Colégio Militar

Os ex-alunos do Colégio Militar querem mesmo preservar a tradição, o que seria louvável enquanto simbolismo se a soubessem adaptar a novos tempos e tal servisse de referência histórica para as novas gerações, ou manter um reaccionário regime de "apartheid" do tipo "rapazes para um lado, raparigas para o outro" ou "elite para o ensino liceal do "Colégio" e "ralé" para o ensino técnico dos "Pupilos"? Nada de "misturas", não é? Bom, conhecendo gente do "núcleo duro" ligado a tal campanha, não me espanta um pouco dessa ideologia reaccionária (bem mais do que apenas conservadora, quero fazer justiça aos conservadores) possa estar presente em alguns, não todos, desses espíritos. Mas faço justiça de pensar que, nem todos partilhando dessa visão da sociedade e do mundo, a fusão dos institutos militares de ensino é bem mais o pretexto e a ocasião ideal para possibilitar uma maior afirmação, fortalecimento e capacidade de actuação de um "network", um lobby" na sociedade portuguesa cuja influência, com as mudanças na estrutura classista da instituição militar e no actual perfil dos alunos do "Colégio", estaria destinada ao declínio ou apenas à exibição sem consequências da "barretina" na lapela dos casacos. No fundo, parece-me ser esta a única explicação lógica que justifica ver alguma gente inteligente a colaborar em tal campanha.

quarta-feira, outubro 21, 2009

O Colégio Militar

Sou descendente, pelo lado materno, de uma família com alguma tradição militar, alguns deles, e outros que acabaram por não seguir a chamada “carreira das armas”, ex-alunos do Colégio Militar. Apesar disso, nunca o frequentei, pelo que o que direi a seguir é apenas fruto da opinião de observador distanciado.

Não me parece que estes últimos acontecimentos constituam algo de novo. Antes pelo contrário: penso que, em maior ou menor grau, assumindo maior ou menor gravidade, eles terão constituído, ao longo dos anos, prática relativamente comum e tolerada na instituição. O que terá mudado , isso sim, é a sua percepção e avaliação pela sociedade, fruto do distanciamento crescente entre os valores e práticas socialmente dominantes e toleráveis e aquelas inerentes a este tipo de instituições militarizadas de ensino para crianças e adolescentes. Hoje em dia, não só o castigo físico é cada vez menos socialmente admitido, sendo mesmo, genericamente - e bem - considerado condenável, como alguma tendência para valorização do indivíduo em detrimento do grupo, o fim da segregação de género ou de orientação sexual, o crescente domínio da sensibilidade e da inteligência sobre a força bruta, a disseminação dos valores pacifistas e o modo diferente como se olha a educação de crianças e jovens e a valorização destes, nessa mesma sociedade, tornam dificilmente toleráveis, aos olhos desta, a manutenção de “ilhas” onde se admita a existência dominante de outros valores, principalmente se considerados como um resquício de um passado condenável, colocando essas instituições sobre cerrado escrutínio público, mais ainda quando financiadas em grande parte pelos impostos de todos. Acresce que, fruto da evolução das ideias a que a diminuição da estratificação social e a globalização, com a relativização da noção de “pátria”, não são alheias, a instituição militar viu grandemente diminuído o seu prestígio nos últimos anos, o que se tem também reflectido no downgrade da origem social maioritária dos alunos do Colégio Militar, concedendo menor poder à instituição e, logo, menor capacidade de conter intra-muros casos como os que agora são relatados.

Aquilo sobre o qual a sociedade deve reflectir, aproveitando este caso, é, pois, em que medida faz sentido, no século XXI, a continuidade de instituições como o Colégio Militar (peço desculpa aos meus amigos e familiares que por lá andaram), pelo menos com as suas características actuais. Dado o peso da instituição, da corporação que representa e do fortíssimo lobby a que está associada, tenho poucas ou nenhumas esperanças. É pena que assim seja.