Vá lá saber-se porquê, em Portugal o "blazer" fez durante muito tempo figura de traje formal, "chique", ou bem perto disso. Nos últimos tempos, com os portugueses mais viajados e país mais cosmopolita, as coisas têm vindo a mudar, mas ainda é relativamente comum ver um membro do governo em funções vestindo um "blazer" ou alguém que se pretende educado envergando um num enterro, fazendo luzir os botões dourados numa ocasição que, para além de formal (que raio, só se morre uma vez!), se pretende de sobriedade e recolhimento. Um disparate.
É que pelas suas origens náuticas (o tradicional, de "jaquetão"), que acabaram por evoluir para casaco de "clube" com a adopção do modelo "paletó", com ou sem o respectivo emblema bordado no bolso da frente, o "blazer" é um casaco dos tempos livres, um pouco a meio-caminho entre o casaco de "tweed" e o fato mais formal. E é exactamente esse meio-caminho que o torna atractivo, permitindo o seu uso em ocasiões muito diversas, de menor ou (relativamente) maior formalidade, consoante o que com ele se veste: um pouco mais formal com calças de flanela, gravata, camisa lisa com colarinho "cutaway" e sapatos pretos; ou menos informal com uma camisa "oxford" ou "tattersall", colarinho "button-down" sem gravata, "jeans", sapatos de camurça ou botas e até, no Verão, quando se usa um "blazer" de tecido mais ligeiro, "docksides" ou "loafers" sem meias. Digamos que vale quase tudo, desde que não se pretenda transformá-lo em traje formal ou "oficial" para o escritório.
Algumas notas, contudo:
- Como casaco de clube, as gravatas mais adequadas são as "regimentais" e de "clube".
- Com "blazer" de "jaquetão" e gravata é aconselhável camisa com punhos duplos, devendo evitar-se o uso de botões de punho demasiado formais (de ouro, por exemplo). Os chamados "silk knots" são a opção mais correcta.
- Quem não quiser manter os botões de origem (caso o tenha comprado no "pronto a vestir") ou queira escolher os botões, tem duas opções: comprar um conjunto da London Badge & Button ou da Holland & Sherry (com grande variedade de escolha, mas que são caros embora durem toda uma vida) ou ir à Rua das Portas de Santo Antão (e arredores) ou Feira da Ladra comprar avulso das antigas fardas do exército (há com vários "motivos"). Devo dizer que, pelo preço e disponibilidade permanente, estas últimas são opções a ter em conta, e no caso da Feira da Ladra os botões até já vêm com "patine".
- Sapatos pretos ("loafers", "monkstraps" ou "brogues") são só admissiveis com calças de flanela, embora castanhos - de pele ou camurça - e "bordeaux" fiquem por vezes melhor. Mas são menos formais. Com "jeans" (neste caso sempre sem gravata), "chinos" ou calças de bombazina, castanhos ou "bordeaux" são indispensáveis.
- "Navy Blue" (traduz-se por azul "da marinha" ou simplesmente "azul-escuro", e não por "azul-marinho", á a cor normal. Existem de outras cores (o vencedor do "masters" de Augusta, em "golf", enverga por direito um verde) ou até os chamados "boating blazers". Os de cores fantasiosas é melhor reservá-los para "farda" ou traje oficial de alguns clubes, como o Agusta National Golf Club; quanto aos "boating blazers", enfim, quem se sentir com coragem ou quiser ir para as margens do Tamisa assistir à Henley Royal Regatta trajado a rigor...
