Mostrar mensagens com a etiqueta "dress codes". Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta "dress codes". Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (8). "Blazer"

Vá lá saber-se porquê, em Portugal o "blazer" fez durante muito tempo figura de traje formal, "chique", ou bem perto disso. Nos últimos tempos, com os portugueses mais viajados e país mais cosmopolita, as coisas têm vindo a mudar, mas ainda é relativamente comum ver um membro do governo em funções vestindo um "blazer" ou alguém que se pretende educado envergando um num enterro, fazendo luzir os botões dourados numa ocasição que, para além de formal (que raio, só se morre uma vez!), se pretende de sobriedade e recolhimento. Um disparate.

É que pelas suas origens náuticas (o tradicional, de "jaquetão"), que acabaram por evoluir para casaco de "clube" com a adopção do modelo "paletó", com ou sem o respectivo emblema bordado no bolso da frente, o "blazer" é um casaco dos tempos livres, um pouco a meio-caminho entre o casaco de "tweed" e o fato mais formal. E é exactamente esse meio-caminho que o torna atractivo, permitindo o seu uso em ocasiões muito diversas, de menor ou (relativamente) maior formalidade, consoante o que com ele se veste: um pouco mais formal com calças de flanela, gravata, camisa lisa com colarinho "cutaway" e sapatos pretos; ou menos informal com uma camisa "oxford" ou "tattersall", colarinho "button-down" sem gravata, "jeans", sapatos de camurça ou botas e até, no Verão, quando se usa um "blazer" de tecido mais ligeiro, "docksides" ou "loafers" sem meias. Digamos que vale quase tudo, desde que não se pretenda transformá-lo em traje formal ou "oficial" para o escritório.

Algumas notas, contudo:
  1. Como casaco de clube, as gravatas mais adequadas são as "regimentais" e de "clube".
  2. Com "blazer" de "jaquetão" e gravata é aconselhável camisa com punhos duplos, devendo evitar-se o uso de botões de punho demasiado formais (de ouro, por exemplo). Os chamados "silk knots" são a opção mais correcta.
  3. Quem não quiser manter os botões de origem (caso o tenha comprado no "pronto a vestir") ou queira escolher os botões, tem duas opções: comprar um conjunto da London Badge & Button ou da Holland & Sherry (com grande variedade de escolha, mas que são caros embora durem toda uma vida) ou ir à Rua das Portas de Santo Antão (e arredores) ou Feira da Ladra comprar avulso das antigas fardas do exército (há com vários "motivos"). Devo dizer que, pelo preço e disponibilidade permanente, estas últimas são opções a ter em conta, e no caso da Feira da Ladra os botões até já vêm com "patine".
  4. Sapatos pretos ("loafers", "monkstraps" ou "brogues") são só admissiveis com calças de flanela, embora castanhos - de pele ou camurça - e "bordeaux" fiquem por vezes melhor. Mas são menos formais. Com "jeans" (neste caso sempre sem gravata), "chinos" ou calças de bombazina, castanhos ou "bordeaux" são indispensáveis.
  5. "Navy Blue" (traduz-se por azul "da marinha" ou simplesmente "azul-escuro", e não por "azul-marinho", á a cor normal. Existem de outras cores (o vencedor do "masters" de Augusta, em "golf", enverga por direito um verde) ou até os chamados "boating blazers". Os de cores fantasiosas é melhor reservá-los para "farda" ou traje oficial de alguns clubes, como o Agusta National Golf Club; quanto aos "boating blazers", enfim, quem se sentir com coragem ou quiser ir para as margens do Tamisa assistir à Henley Royal Regatta trajado a rigor...

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (8). "Jaquetão"

Quando, em criança, acompanhava o meu pai ao alfaiate, ali para os lados da Rua de Santa Justa, o "mestre" começava por perguntar ao cliente se queria o fato com um casaco "paletó" ou "jaquetão". Com o andar dos tempos e, principalmente, o domínio do "pronto a vestir", o "jaquetão", que era minoritário, começou a cair em desuso, excepção aos "blazers" onde continuou a ter o seu lugar de eleição: fabricar e vender fatos de "jaquetão"significava mais um modelo a produzir e a "stockar" com o agravamento de custos inerente. No entanto, continua a ter os seus seguidores e talvez o Príncipe Carlos seja o seu maior propagandista. Por mim, em alguns fatos não dispenso o "jaquetão", principalmente nos considerados mais formais, onde acho o modelo indispensável.

Mas atenção: existem várias restrições e outras tantas obrigações. Em primeiro lugar o "jaquetão" não fica bem a pessoas baixas. Esta é a regra fundamental que me ensinaram desde pequeno. De seguida, deve ter seis botões, dos quais os dois de cima e todos os do lado esquerdo são "falsos", isto é, não têm "casa" correspondente (existem apenas com quatro botões, mas não são "como deve de ser"). Duas "rachas" (é mesmo assim que se diz) são também obrigatórias, para se poder enfiar as mãos nos bolsos das calças sem amarrotar o casaco. E quanto ao resto? Bom, um fato de "jaquetão" obriga a camisa com punhos duplos e impede (quanto a mim) o uso de um colarinho "button down", demasiado informal. A excepção é o "blazer", onde punhos simples e camisa "button down" são admissíveis desde que se prescinda do uso de gravata. Ah, e quanto a sapatos, "loafers" são para esquecer, sendo melhor optar por "brogues", lisos ou picotados consoante o maior ou menor formalismo do fato. E os "monkstraps" vão também a matar, de camurça se falarmos apenas de um "blazer". Por fim, se um casaco desapertado é sempre sinal de desleixo, no caso do "jaquetão" nem sentado tal é admissível: existe um botão interior que permite mantê-lo fechado com os restantes botões desapertados.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (6). "Fraque" e camisa

Nos meus tempos de final de adolescência e início de idade adulta, a maioria dos casamentos "era de fraque" (para os homens, claro). Problema grave, pois acontecendo tal coisa, por norma, no Verão e sendo o fraque uma indumentária quente e pesadona (ainda não existiam estes fraques de agora, feitos de materiais mais "leves"), "rapava-se" um calor de morte. Lembro-me de ir uma vez, com os meus pais e restante família, a um casamento em Coimbra, num mês de Junho ou Julho e aí pelo início dos anos 70, quando os carros não tinham ar condicionado e auto-estrada chegava até... Vila Franca. Pois como estava um dos tais "calores de ananases", para não chegarmos em estado calamitoso lá tivemos, à entrada de Coimbra, de arranjar um sítio para vestirmos os fraques e nos apresentarmos, frescos que nem "alfacinhas", ao dito cujo enlace... Depois, com o 25 de Abril e a liberalização dos costume, o "dress code" dos casamentos aligeirou e, hoje em dia, apenas a pais dos noivos e padrinhos é requerida normalmente tal indumentária. E como há muito o "fraque" deixou de ser obrigatório nos enterros e em Portugal (apesar de alguns monárquicos "patuscos") não há rei nem o "royal enclosure" de Ascot, as coisas ficam-se por aí.

Não, mas não vou dizer como e com quê se deve usar "fraque": qualquer manual barato de etiqueta e boas maneiras refere tal coisa. Há no entanto um erro, ou omissão habitual, quanto a tal coisa: contrariamente ao que se pode ler em tais manuais, não é absolutamente necessário usar uma camisa branca. Uma camisa de cor clara (azul-clara ou cor de rosa, por exemplo), ou até de riscas leves com essas mesmas cores, desde que com colarinho e punhos brancos, é muito mais "catita" do que uma simples camisa branca. E marca, claro, bem a diferença.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (4). Meias Argyle

Se declarei a minha condição de fanático por gravatas de lã, confesso sê-lo também por meias Argyle, ou "de losangos". Hoje em dia, as verdadeiras - de lã com reforço de fibra apenas no calcanhar e ponta - não são fáceis de comprar em Portugal, principalmente as "altas", pelo joelho ("knee high"), que são as "como deve de ser". De fibra existem por aí "aos pontapés", da Burlington, mas são de má qualidade e ficam feias ao fim de umas poucas lavagens (acho já são feias "à nascença"). Contudo, procurando bem, pelo menos no "velho" Lourenço & Santos e também na Camisa de Ouro, é possível encontrar qualquer coisa decente, e a própria Burlington também tem uma versão de lã.  Mas atenção: com origem na Escócia, baseado o seu desenho no tradicional "tartan" escocês, é coisa só para Inverno, pelo que são de evitar aquelas versões de algodão que é suposto serem para usar no Verão. E, claro, nada de fatos: falamos de coisa rústica e, como tal, casaco de "tweed", "pullover" ou camisola de lã e calças de bombazina com "brogues", de camurça, "nobuck" ou até mesmo pele, com sola de borracha, são o acompanhamento ideal. Ou então "jeans", de "denim" ou bombazina, com botins ou "chukka boots".

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (4). Gravatas de lã

Sou um fanático por gravatas de lã, quer sejam as de malha - direitas, sem aquele formato de "bacalhau" característico - quer regimentais ou de padrão "paisley" ou similar. São gravatas de Outono/Inverno, claro, que ficam especialmente bem com camisas de tecido "oxford", com ou sem colarinho "button down", e com um casaco de "tweed" ou "blazer" de sarja de lã. Já quanto ao seu uso com camisas "tattersall", exceptuando no caso das de malha lisas, é preciso ter alguns cuidados quanto à combinação de padrões, já que se torna bem mais fácil fazê-lo com as regimentais. As gravatas de lã vão igualmente bem com um fato cinzento de flanela, por tradição menos formal, e "brogues" picotados, mas, em minha opinião, esse é o limite quanto ao seu uso com fato no continente, já que no Reino Unido, com os fatos de "tweed", a história é bem outra.

Em Portugal não são actualmente fáceis de encontrar, principalmente as regimentais, mas a Wesley costuma tê-las, de padrão "paisley", do excelente fabricante inglês Drakes.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (3). Em louvor do "loden"

Aí por meados dos anos oitenta do século passado (isto de dizer o "século passado" acaba por dar uma certa "patine"), Portugal foi invadido por uma epidemia de sobretudos verdes que a campanha presidencial de Freitas do Amaral ajudou a popularizar. De repente, como acontece com todas as modas, os tais sobretudos verdes sumiram-se tão rapidamente como tinham surgido e não me consta a derrota de Freitas do Amaral para tal tenha contribuído.

E, no entanto, o "loden" (e é disso que estamos a falar) está muito longe de ser uma peça de vestuário "de moda", constituindo, antes pelo contrário, um clássico mais ou menos intemporal. Trata-se, originalmente, de um casaco de caça austríaco de textura relativamente grosseira e fabricado com uma mistura de lãs virgens de carneiro a alpaca (grande número dos que se viram em Portugal eram imitações mais baratas), bastante quente, com alguma resistência à água e que pelo seu "corte" largo permite grande liberdade de movimentos, característica necessária aos caçadores mas que dá muito jeito a todos. Face a este conjunto de características que o tornam tão prático, admiro-me como desapareceu do mapa em Portugal, sendo, hoje em dia, raro cruzar-me com alguém com um vestido. No que me diz respeito, mantenho o meu, velhinho de uns vinte e cinco anos, ainda em uso, com todos os cuidados de manutenção para ficar para a eternidade. Nos dias mais frios como o de hoje, é de utilidade a toda a prova. Tem o "loden" contudo (opinião pessoal) um "contra": Pelo seu peso, volume e comprimento, é pouco prático para o "veste/despe quando se anda de carro.

Mas atenção: ao contrário do que vejo muitas vezes, nada de o usar com fatos mais formais ou até com "blazer", que é um casaco de clube. Pelas suas origens campestres e alpinas, o "loden" é para usar com um casaco de "tweed", com calças de bombazina ou flanela, ou então, pura e simplesmente, por cima de um "pullover" ou de uma daquelas camisolas grossas de lã "shetland".  

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (2)

Ora continuemos com a bombazina...

  • Se em vez de calças clássicas falarmos de "jeans", existe uma semelhança entre os "jeans" de bombazina e os tradicionais de "denim" (penso que o termo deriva da proveniência do tecido original, "de Nîmes"): ambos, se relativamente justos ás pernas, podem ser usados com botas de vários tipos  (pessoalmente, prefiro os modelos "Chukka", em camurça, ou os tradicionais botins de pele). Também com "monkstraps" ou outros sapatos de camurça e, se as raias do veludo forem bastante finas (e só nesse caso), "loafers" do tradicional modelo da Sebago, desta ou de outra marca, sempre em castanho ou "bordeaux" e nunca em preto. Pessoalmente, nunca uso "jeans" de bombazina com "loafers", mas admito o contrário, especialmente naqueles dias de Outono ou Primavera que não são "carne nem peixe".
  • Mas existe também uma diferença fundamental entre os "jeans" de bombazina e os de "denim": os primeiros nunca devem ser usados com ténis ou com os tradicionais "docksides" (sapatos de vela), já que não são calças de Verão ou de veraneio. Muito menos, e por isso mesmo, devem ser usados sem meias.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (1)

  • Nunca se devem usar sapatos pretos com calças de bombazina, mesmo quando se possa achar que as cores combinam. As calças de bombazina, ou veludo "cotelê" ("pana" em castelhano e "corduroy" em inglês), são uma peça de roupa informal, mesmo quando usada com casaco de "tweed" ou "blazer" e gravata, e os sapatos pretos são sempre para usar com roupa mais formal, mesmo quando falamos de "loafers" (a  que os portugueses chamam genericamente "mocassins" ou sapatos sem atacadores).
  • De igual modo, e em termos genéricos, calças de bombazina e "loafers", mesmo quando castanhos ou "bordeaux", combinam mal. Tanto pior quanto mais grossas aquelas forem. Porquê? Bombazina é um tecido normalmente grosso, invernoso, "heavy duty" nas suas origens, que evoca a vida no campo mesmo que hoje seja frequentemente utilizado - e bem - na cidade, em ocasiões de lazer e informalidade. Pelo contrário, "loafers" são sapatos leves, mais próprios para a Primavera/Verão citadinos e inapropriados para o campo. Digamos que são uma combinação espúria. Por isso mesmo, "brogues" de camurça, "nobuck" ou pele, com ou sem sola de borracha, em vários tons de castanho, são os sapatos adequados.  

terça-feira, julho 19, 2011

Ainda o "dress code" da UC

Tal como disse, não gosto de me repetir, e, por isso, não me vou debruçar sobre a questão das normas de vestuário da Universidade Católica. Quem tiver paciência para ler o que escrevi e "linkei" no "post" anterior entenderá facilmente a minha opinião genérica sobre a questão dos "dress codes", assunto que em Portugal insiste em levantar tanta desnecessária celeuma.

Mas, tendo dito isto, talvez seja interessante irmos um pouco mais longe e interrogar-mo-nos sobre quais as motivações e objectivos últimos da "Católica" ao estabelecer tais normas - aliás, bastante flexíveis e aligeiradas - para os seus alunos e professores. O que a UC, que alcançou merecido prestígio numa época pós-revolução em que as universidades do Estado viviam período de alguma agitação, pretenderá não é mais do que acentuar algum carácter elitista (a palavra é aqui usada sem qualquer sentido pejorativo, note-se) da instituição, tentando assim marcar a diferença e assumir um "posicionamento"que lhe permita aumentar a sua quota de mercado face à cada vez maior concorrência e prestígio de algumas universidades do Estado, principalmente a Clássica e a Nova.

Dir-me-ão, talvez, que o que interessa fundamentalmente para estabelecer um "ranking" universitário é a qualidade de ensino e o modo como isso se reflecte no mercado de trabalho. Claro. Mas não existindo, pelo menos nas áreas de Economia e Gestão, as que conheço melhor, uma diferença significativa que justifique o custo acrescido, um pequeno empurrão em termos de "imagem" não deixará de dar um bom contributo e, para além de tudo o mais, talvez não seja assim tão mau que também aqui, na questão das indumentárias, os alunos ganhem alguma experiência que lhes será com certeza muito útil para o resto das suas vidas.

A "Católica" e os "dress codes"


A propósito da recente polémica sobre as normas de "vestuário" da Universidade Católica, e porque não gosto de me repetir, tudo o que tenho escrito neste "blog" sobre "dress codes" (e é bastante: o tema interessa-me) está aqui.

terça-feira, agosto 25, 2009

Da ideologia das cores: das bandeiras aos "dress codes"

Todos, os da minha geração do baby boom do pós-guerra, crescemos aprendendo a ideologia das cores, nos símbolos e bandeiras, do encarnado proletário ao negro da luta contra a fome. Em Portugal, do azul da monarquia ao verde e encarnado republicanos. Por mim, por via de algumas origens hexagonais, também do significado da tricolor, da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que me ensinaram desde sempre ter sido o acontecimento histórico mais importante da marcha da humanidade. Se o foi ou não pouco importa, já que o que se quer ilustrar com estes exemplos nada mais é do que essa ideologia colorida presente nos símbolos pelos quais lutamos e com os quais nos identificamos.

Que as cores do vestuário tenham também esse significado, ou mesmo uma conotação de classe, era algo que desconhecia. Aqui há uns tempos, e a propósito de “dress-codes”, escrevi por aqui que achava curioso os homens do Bloco de Esquerda o assumissem (ao “”dress-code) de modo muito estrito: na permanente ausência de gravata; naquele segundo botão da camisa tão inesteticamente apertado. Mas, concluí, também naquela horrível paleta de cores oscilando entre o “beige” e o castanho, o cinzento e o verde azeitona, tudo muito pouco contrastante e a tresandar àquilo que a minha mãe denominaria de “encardido”. Percebi então que no PCP a paleta de cores pouco diferia, com excepção – honra lhe seja feita - daquela gravata berrante, de um encarnado bem proletário, ostentada orgulhosamente por um Jerónimo de Sousa com quem, divergências à parte, apetece ir ver o “glorioso”, beber umas imperiais” e petiscar uns carapaus de escabeche. Confesso, nunca percebi a razão para tais cores “encardidas”, até porque, durante muito tempo, mais propriamente até aos anos 60 do século XX, os burgueses da cidade e os operários das fábricas pouco variavam e se distinguiam na cor taciturna dos trajes (as distinções de vestuário eram outras), pertencendo aos camponeses ricos em festa o colorido dos cromos das “Raças Humanas” da minha infância.

Finalmente fez-se luz ao ler, em um dos últimos exemplares do “Público”, que algo que muito atraía os cidadãos da extinta RDA no ocidente, mais propriamente na RFA, era, para além dos sacrossantos jeans Levi’s, a variedade de cores vivas disponibilizadas no vestuário, algo inexistente do lado de lá do muro onde o colorido se limitava á tal paleta entre os “beige” e os castanhos, o “terra-sena” e o verde tropa. A questão, claro, nada tinha a ver com a ideologia, mas, isso sim, concluí utilizando uma linha de pensamento bem marxista, com questões económicas e de produção: na fabricação em série de uma economia planificada, seria bem mais económico produzir apenas meia dúzia de cores de cada peça e, por isso, tal como a comida dos aviões não é boa nem má mas apenas desenxabida para poder ser tragável por todos, o ideal era que as cores também o fossem, dando origem àqueles tons mais ou menos “encardidos”, como se toda a roupa fosse lavada em conjunto na máquina de debotasse, o que, last but not least, também serviria às mil maravilhas para acentuar o carácter igualitário das gentes e do regime.

Se sempre tinha dado uma boa quota-parte de razão a Marx quando este afirmava que o económico é determinante em última instância, esta constatação veio corroborar dessa minha quase certeza: eis senão quando, algo que tinha apenas que ver, na sua origem, com questões de racionalização da produção - um pouco como uma lição tardia aprendida da corriqueira história do modelo “T” de Henry Ford - se tinha rapidamente transformado em bandeira ideológica e de agitada pertença de classe. Por mim, se o BE se quisesse mesmo afirmar na sua essência como pós-moderno, bem mais gostaria de ver Louçã e companheiros de cores e trajes bem garridos, multicolores e até um pouco ousados, bem ao espírito gay pride ou do saudoso flower power. Caso contrário, isto é, caso insistam nas suas actuais cores insípidas, não me parece a sua conversão ideológica possa ser levada demasiado “à séria”. Haverá, no "Bloco", sempre uma RDA de má memória que espera por nós...

quinta-feira, maio 21, 2009

O "Bloco" e os "dress codes".

De cada vez que se fala na adopção de um qualquer “dress code” o “Bloco de Esquerda” reage como vampiro que viu alhos, ou como qualquer cura de aldeia perante criança “possessa”, t‘arrenego Satanás. Ele foi na Loja do Cidadão de Faro e, no caso último de uma qualquer escola, o assunto chegou mesmo a assumir foros políticos que o levaram a ser debatido na Assembleia da República, tal como crime de lesa-pátria se tratasse e uma escola, dentro dos limites da legalidade, do bom senso e dos usos e costumes da época, não pudesse ter autonomia para determinar que alunas e alunos não se poderiam apresentar-se vestidos como quem vai para a praia, para um "rave-party", para um jogo de futebol ou curtir uma de sexo na boa. A escola não pode mesmo ser o lugar sisudo das minhas infância e adolescência, mas é um lugar de estudo e aprendizagem (também de aprendizagem dos códigos e valores da sociedade) que se deve querer ver reflectido num ambiente geral de descontração, sim, mas também de sobriedade e seriedade que favoreça, e não contribua para fazer esquecer, a prossecução do seu objectivo último. Também de convívio e socialização, mas este enquadrado, claro está, naqueles que são os seus valores básicos de preparação para uma vida que consagra direitos, mas também impõe regras e deveres. Códigos!

O mais estranho disto tudo é que se olharmos para a bancada no Bloco de Esquerda na Assembleia da República, e também para outros dos seus dirigentes excepção feita a alguns do sexo feminino, deparamos com aquilo que parece ser um “dress code” estrito e monocórdico: na ausência de gravata em qualquer situação; nas cores do vestuário sempre oscilando entre uns “beije” que parecem ter sido indevidamente adquiridos na máquina de lavar, uns verdes do tipo camuflado militar e uns castanhos e cinzentos um pouco desbotados que tingem uns fatos que parecem ter pertencido ao irmão mais gordo; naquele 2º botãozinho da camisa sempre apertado a sentir saudades do primeiro e da gravata que nunca usam. Daqui que se depreende facilmente que o problema do “Bloco” poderá não ser com os “dress codes”, com algumas práticas sociais que teimam em ser pouco libertárias, mas com a adopção de comportamentos diversos daquele que determinaram como sendo o seu estilo e gosto. Oficial, pois claro!

Bom, posto isso que mais posso dizer em jeito de moral da história, que todas elas a devem ter mesmo que não em jeito de fábula? Apenas isto: no dia em que eu vir na bancada do “Bloco” alguém vestido com o bom gosto inglês e aristocrático de um Paulo Portas, o “panache” europeu continental de José Sócrates, a sóbria elegância de executiva de Manuela Ferreira Leite ou o alegre contraste de gravata encarnada e fato azul escuro de Jerónimo de Sousa, ostentado com o orgulho da classe operária a que pertence, acho poderei finalmente acreditar que o “Bloco” optou pela pluralidade e não pelo monocromatismo, pelo campo libertário em vez do da moral repressiva e, para o partido, a questão dos “dress codes” passou finalmente do campo da religiosidade a algo tão mais comezinho como os usos e costumes de cada um. A acontecer, não deixarei de saudar tal evento, está bem de ver.

sexta-feira, abril 10, 2009

Ainda os "dress codes": o bom exemplo da Loja do Cidadão

Na maioria das grandes organizações – quando não exista a obrigatoriedade de uso de farda - existem “dress codes”, escritos ou não, explícitos ou tácitos, que tentam normalizar a imagem da organização internamente e para o exterior e dependem da sua “cultura” e tradições, da área de negócio ou actuação, do local onde se encontram as suas instalações (neste ponto, esse “dress code” pode mesmo variar dentro de uma mesma organização), do tipo de funções (por exemplo, ter ou não contacto com o público e/ou clientes), do acontecimento (pode não ser o mesmo para o trabalho interno e para quando exista necessidade de reuniões com o exterior), até do clima e dos dias da semana... Mais ainda, existe frequentemente, para além desse “dress code”, um código de conduta que, como o próprio nome indica, define os comportamentos que os colaboradores, sejam eles o director-geral ou o porteiro, devem assumir nas diversas situações, desde o modo de atender do telefone ao modo de se apresentarem em público.

Inclusivamente, naquelas organizações cujas instalações são múltiplas e se distribuem geograficamente por um ou vários países e onde existe o hábito de se efectuarem reuniões periódicas com todos esses colaboradores, é habitual, com o programa de viagem, de trabalho e social, indicar-se o “dress code” aconselhado para cada ocasião, desde o “smoking”, “fato escuro” e “fato e gravata”, até ao informal e informal elegante (“smart casual”), passando pelo intermédio “casaco e gravata”. Tudo isto tem por função conferir uma certa “unidade” ao grupo, evitar que quem não conheça tão bem as regras de etiqueta ou venha de uma região onde elas sejam diferentes se sinta deslocado, contribuir para que se gerem menos equívocos e embaraços. Também, claro, algumas indicações sobre os hábitos mais comuns do país onde se efectua a reunião, com o objectivo de se evitarem mal entendidos ou atitudes consideradas ofensivas para a cultura e hábitos locais.

No caso de funcionários que tenham contacto com o público, o “dress code”, normalmente sóbrio e tanto quanto possível elegante ou normalizado com recurso a farda, acentua uma imagem de seriedade e evita que se possam ferir susceptibilidades naqueles com quem se contacta: brancos, pretos e mestiços; portugueses ou estrangeiros; católicos, hindus ou muçulmanos; ricos ou pobres; bem ou mal nascidos; cultos ou analfabetos; da cidade ou da província. Um pouco como a tão mal afamada comida dos aviões, normalmente pouco condimentada e sensaborona para que, independentemente de existirem opções vegetarianas ou kosher, seja “tragável” pela grande maioria, evitando reclamações e problemas.

Que algo deste tipo, que se pretende implementar numa loja destinada a servir os cidadãos, visitantes e imigrantes que acolhemos e que sempre tem sido apontada – e bem – como um caso de sucesso, possa ser considerado como notícia relevante para os “media”, objecto de comentários chocarreiros para certos comentadores, apenas revela o provincianismo e atraso civilizacional ainda característicos da sociedade portuguesa e o estado deprimente, direi mesmo alarve, a que terá chegado a cena mediática.

Poupem-nos!

"Dress codes", uma vez mais

A propósito desta notícia, algo que aqui escrevi a 12 de Maio de 2008:
"Os dress codes estão, hoje em dia, bastante aligeirados, mas independentemente de questões práticas (não dá jeito nenhum ir para a praia de fato e gravata ou jogar ténis de sobretudo), eles têm permitido, ao longo dos anos, marcar a importância e solenidade dos acontecimentos.
Vestimo-nos de modo mais formal para um casamento ou um enterro, por exemplo, porque são considerados, cada um de seu modo, acontecimentos únicos e solenes, e o próprio traje utilizado contribui para essa solenidade, conferindo-lhe, inclusivamente, um mood and tone adequado. Vestimos fato e gravata para trabalhar em certas profissões, porque estamos num terreno de relações formais, mas se essa profissão se exercer numa área onde o relacionamento é mais informal (nas áreas “criativas”, por exemplo) o nosso dress code acompanha essa maior informalidade, dispensando o fato completo e gravata. Do mesmo modo, o dress code é mais conservador e formal na banca e na advocacia, porque estamos em terrenos tradicionalmente considerados mais “sérios”, onde os negócios têm a ver com o dinheiro e a liberdade (ou a sua restrição) e onde, por isso mesmo, devemos inspirar confiança e “solidez” e não “ir com a moda do momento”.
Noutra vertente, é um valor assumido que a solenidade dos acontecimentos aumenta com o decorrer do dia. Por isso, em termos gerais, é comum um dress code mais formal para um jantar do que para um almoço, o mesmo acontecendo para uma festa à noite se comparada com um cocktail ao fim da tarde.

Tendo dito isto, e mesmo correndo o risco de me chamarem conservador ou elitista, até talvez arrogante que é o pior insulto que pode vitimizar um português, alguém me explica porque fui hoje atendido na Repartição de Finanças aqui do bairro por um funcionário de jeans? Eficiente, até mesmo simpático e colaborante, mas envergando uma muito proletária camisa aos quadrados e um algo coçado par de jeans? Será assim tão difícil, já não digo exigir fato e gravata, um casaquito de tweed, vá lá, que os há a preço bem módico, pedir aos senhores das Finanças que, se não se importarem, deixem os jeans para os seus fins de semana em família, com sogra, canário e cão?
Pois é, eu sei, sou isso tudo que disse e ainda por cima um empedernido reaccionário. Um careta, claro! Mas, humilde contribuinte, quer queiram quer não, não vou tratar de assuntos com o fisco vestindo um par... de jeans! Dignidade e respeito por quem me cobra e representa: o Estado... Importam-se de retribuir?"

quarta-feira, setembro 03, 2008

Juizes, jornalistas, rituais e normas

Por alguma razão os julgamentos adoptam um certo ritual e não se realizam, por exemplo, sentando todos os intervenientes à volta de uma mesa redonda, cada um pedindo a palavra quando lhe aprouver. A disposição da sala está sujeita a um planeamento pré-definido, concedendo aos juizes, que administram a justiça em nome do Estado, única entidade que o pode fazer, um lugar de proeminência face a todos os outros intervenientes; sujeitando estes e advogados a um dress code específico (“toga” e “”beca”); todos os presentes a um grau elevado de decoro e respeito, que vai desde as formas de tratamento à ocasião própria para usar da palavra passando pela atitude de respeito, levantando-se, quando se inicia e encerra a sessão com a entrada e saída dos juizes, etc, etc. Tudo isto não acontece por acaso ou meramente por tradição, mas no sentido de conceder solenidade a um acto em que o Estado administra justiça em nome de todos os cidadãos, podendo dispor, em nome desses mesmos cidadãos, de todos nós, do indivíduo, da sua liberdade, do seu património, julgando da licitude ou ilicitude dos actos praticados.

Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.

Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?

Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham.