segunda-feira, janeiro 07, 2008

A nova lei do tabaco e os "opinion makers"

Quando vejo o nível de argumentação(?) utilizado por alguns comentadores e opinion makers na sua cruzada contra a lei do tabaco, isto é, na defesa intransigente dos seus privilégios de fumadores e da sua liberdade de obrigarem os outros a inalar o fumo dos seus cigarros, pergunto-me como nos podemos admirar que algumas pessoas humildes e praticamente iletradas protestem contra o facto dos seus filhos irem nascer a Badajoz ou do SNS fechar a urgência(?) lá da terra. No fundo, numa versão moderna da Maria da Fonte oitocentista ou dos protestos um pouco mais recentes contra a mudança do prior lá da paróquia.

O “smoke ban” tem, de facto, ajudado a mostrar um pouco daquilo que existe de pior em Portugal: um país de gente provinciana e ignorante - mesmo quando quer aparentar ter “mundo” e gosta de passar por “estrangeirada” -, por vezes mesmo boçal, ciosa dos seus pequenos privilégios de “casta”, individualista mas desprezando a liberdade, de um conservadorismo feroz, sob a capa de um verniz de progresso mas que estala à primeira investida mais consistente. Mais perto de todos os tropicalismos caóticos do que da estruturada civilização europeia. No fundo, tudo se resume a uma frase por mim ouvida em tempos no “Oporto Golf Club”, em Espinho, a alguém de uma tradicional família do Porto: “gosto imenso de viajar, de ir a Paris e a Londres, mas, a mim, quem me tira a Granja tira-me tudo”. Lapidar...

sábado, janeiro 05, 2008

Jornalismo de referência?

O “Público” de hoje ocupa as suas quatro principais páginas (2, 3, 4 e 5) com o cancelamento de “Dakar” e a seguinte (6) com a nova lei do tabaco, neste caso dando voz á sua contestação (Associação de Bares do Porto e Shoppings). Problemas fulcrais na sociedade portuguesa ou apenas faits divers? Jornalismo de referência?

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Cinema e Rock & Roll (15)

Cliff Richard - "When The Girl In Your Arms Is The Girl In Your Heart" ("The Young Ones" de Sidney J. Furie- 1961)

The Shadows - "The Savage" ("The Young Ones" de Sidney J. Furie- 1961)
Do filme não rezará muito a história (em que o enredo é apenas um pretexto, um pouco acima de idiota ,para justificar um filme para toda a família e entreter adolescentes e jovens adultos fans de Cliff e dos Shadows), mas foi a terceira (se não estou em erro) aparição de Cliff Richard no cinema, depois de um pequeno papel em “Serious Charge” e de uma bem mais importante participação em “Expresso Bongo”, que por aqui já passámos. Foi também o primeiro filme de Cliff + Shadows a ser exibido em Portugal, penso que no cinema Império, talvez por, em tempo de ditadura e ao contrário dos anteriores com temas mais sérios dedicados à “juventude rebelde”, se tratar de uma comédiazinha sem pretensões, já na fase de conversão de Richard ao show business e abandonada a fase pretensamente wild rebel, qual émulo britânico do Elvis dos tempos da Sun..

Como curiosidade o facto de vermos Hank Marvin a dedilhar uma guitarra acústica (saudades do tempo do skiffle?) e também os Shadows na sua formação inicial, com Jet Harris (o seu verdadeiro líder) e Tony Meehan, que pouco depois abandonariam o grupo para nos darem dois dos temas mais conseguidos do rock instrumental britânico: “Scarlett O’ Hara” e “Diamonds”.

Ah!, a “pikena” a piscar olhos de gata e olhar embevecido (“possidoneira” máxima) chama-se Carole Gray e nunca mais ninguém ouviu falar dela!

Lsboa, Portugal e o "Dakar"

O cancelamento da edição deste ano do “Dakar” poderá corresponder ao seu “canto do cisne”, pelo menos no formato e dimensão actuais. É uma prova que, por demasiado cara e perigosa, depois de ultrapassado o impacto inicial de há alguns anos, dificilmente se justifica e encontrará investimento compatível nos países do primeiro mundo, onde as empresas fazem contas e avaliam o retorno deste tipo de investimentos. Aliás, não querendo minimizar o profissionalismo e empreendorismo da Lagos Sports, com provas dadas na organização e capacidade para “pôr de pé” acontecimentos desportivos de importância internacional, foi por isso mesmo que a prova veio para Portugal, onde ainda se embasbaca com este tipo de eventos e as empresas e instituições fazem poucas contas ao retorno dos seus investimentos em sponsorship. Assim, lá se encontrou na associação Estado/Santa Casa da Misericórdia o suporte necessário para o financiamento de mais este devaneio. Será que, face ao cancelamento da prova, poderemos finalmente dizer que "há males que vêm por bem"?

quinta-feira, janeiro 03, 2008

"Que floresçam mil flores"... (16)

Designer unknown, ca. 1949
"The central people's government constitutes the only legitimate government of all the people of the People's Republic of China.
Publisher: Political Department of the East China Military Region, Third Field Army(78.5x54.5 cm., inv.nr. BG E11/968)
Parade on the Square of Heavenly Peace in Beijing on the occasion of the proclamation of the People's Republic of China on October 1, 1949. Above Mao Zedong, sixth from the left, with members of his first government."

O presidente da ASAE e a sua cigarrilha

O episódio do presidente da ASAE a fumar uma cigarrilha no Casino Estoril após o início do “smoke ban” remete para uma doença profunda na sociedade portuguesa a que a tradicional fragilidade da sociedade civil e um longo período de ditadura, ou seja, o atraso dessa mesma sociedade portuguesa, não são de todo alheios: a impunidade a que o Estado e seus agentes se acham com direito face à lei e perante os seus cidadãos pela simples razão de existirem e desempenharem as funções para as quais foram, por esses mesmos cidadãos, empossados. Terceiro-mundista.

Ferro Rodrigues, a "arrogância", o PS e o governo

Confesso não deixar de me sentir perplexo quando assisto a apreciações à actuação dos políticos e dos governos centradas nas manifestações de “arrogância” ou “humildade”, com as quais se define a “bondade” ou não da sua actuação, como se esses mesmos políticos e governos devessem ser julgados pelas suas características comportamentais e não pelas suas opções políticas estratégicas e capacidade para as implementar. Sim, eu também sei que essa perplexidade não deveria ter razão para existir, pois tendo nascido e vivendo neste país de “brandos costumes” (às vezes) sei bem da hipocrisia que está implícita nessas apreciações e o que verdadeiramente elas representam: são apenas um efeito de uma causa mais escondida: da falta de frontalidade e do horror ao confronto que caracteriza Portugal enquanto país dependente e periférico, onde todos dependem demasiado de todos e de tudo. É que "nunca se sabe o dia de amanhã", não é assim?

Por isso, em vez de se afirmar uma discordância fundamental e demonstrar as razões dessa discordância, ou apresentar os resultados da eventual ineficiência das medidas aplicadas (quando isso é possível), fala-se do acessório, principalmente quando as críticas vêm da mesma área de quem se critica, não vá o diabo tecê-las. Principalmente, falar da arrogância fica sempre bem num país em que, pelos motivos já citados, as convicções e quem as tem são sempre olhadas com desconfiança e a “humildade”, tantas vezes disfarce da incapacidade e da dependência, da insegurança, é tão frequentemente incensada como qualidade dos cidadãos da mãe-pátria, numa repescagem, também ela tímida e pouco assumida, da cegarrega salazarista dos “pobrezinhos mas honrados”. É ver o caso de José Mourinho, por exemplo, a quem, fruto da impossibilidade de se contestarem resultados, é sempre assacado o ónus, o “mas”, da sua atribuída arrogância, como se essa autoconfiança assumida não fizesse parte integrante e não fosse factor importante dos resultados obtidos.

Claro que isto vem a propósito das afirmações de Ferro Rodrigues, mas não só, tanto mais de criticar quanto ele nos habituou (fui seu contemporâneo de faculdade e considero-o pessoa estimável) ao risco e à frontalidade (mas aí não seriam de esperar benesses do regime, pois não?). Mais do que falar em “arrogância” ou em “humildade” (se o governo está convicto da razão das suas opções políticas deve implementá-las com convicção e isso contribuirá, por sua vez, para o fortalecimento da sua capacidade política), o que se esperaria de Ferro Rodrigues, político experiente e com ideias próprias, era uma crítica fundamentada a alguma, ou algumas, das opções do governo e do PS, de que eventualmente discordasse (e haverá algumas, certamente – nenhum deles lhes está imune), e não o “mais do mesmo” já escutado vindo de outros, oriundos da mesma área e de quem, ao contrário de Ferro Rodrigues, não seria de esperar muito mais. Desse modo contribuiria melhor, estou certo, para minimizar um dos problemas que foca e tudo me leva a crer seja verdadeiro: a falta de debate político no seio do partido e a sua redução a uma espécie de corpo moribundo nas ideias e na alma.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Anglophilia (43)




Tattersall Check

A CIP e o "smoke ban"

Ouvi há pouco no noticiário das oito da noite, na TSF, Francisco Van Zeller, presidente da CIP, preocupado com a possibilidade da proibição de fumar nas empresas ter reflexos na diminuição da produtividade, uma vez que os trabalhadores-fumadores terão que se deslocar para os locais onde isso é permitido. Gostaria de lembrar Francisco Van Zeller que há já alguns anos que a proibição de fumar é norma em muitas empresas em Portugal, principalmente nas subsidiárias de grupos internacionais e por iniciativa das respectivas administrações e equipas de gestão, sem que isso tenha constituído problema - ou se o foi, terá sido resolvido com bom senso e capacidade de gestão, como deve acontecer sempre. Assim se espera que aconteça na esmagadora maioria das empresas associadas da CIP, com a colaboração do seu presidente e orgãos de direcção se e quando isso se revelar necessário. Também para isso terão sido eleitos.