sexta-feira, novembro 08, 2013

Os "pequenos e médios clubes" portugueses e as competições europeias.

Vejo mais uma vez os "media" carpirem mágoas pela fraca prestação das equipas portuguesas na Liga Europa. A questão não é de agora e se espelha bem o desnível entre FCP, SLB, em menor conta, também SCP e SCB e os restantes, é também demonstrativa da distância que separa as PME (pequenas e médias equipas) portuguesas e igual categoria da maior parte dos outros países europeus. E a explicação até é bem simples.

Ora tendo o futebol origem no operariado das cidades industriais do século XX e aí se tendo desenvolvido, Portugal foi, até quase ao final desse século, um país rural, fruto de uma incipiente e tardia industrialização, sem cidades de média dimensão dignas desse nome que pudessem constituir a "massa crítica" necessária ao crescimento dos clubes "da terra". Mesmo a maior parte das indústrias que estavam na base de alguns clubes populares nos anos 40 e 50 do século passado, como o Leixões, VFC (Setúbal), Sp.Covilhã e poucos mais (não falo dos "urbanos" Atlético CP e Clube Oriental de Lisboa, nascidos na então cintura industrial de Lisboa) soçobraram na segunda metade do século, tendo apenas resistido o VSC (Guimarães), numa cidade que, ao contrário de uma Setúbal "assaltada" por migrações internas que a descaracterizaram no período áureo da sua industrialização (anos 60 e 70 do século XX), conseguiu manter alguma identidade social e cultural. Não é pois de admirar que SLB e SCP se tenham tornado clubes nacionais (uma espécie de "catch all parties" do desporto) e o FCP, mais tarde, clube de toda uma região. Com a terciarização da sociedade portuguesa, nos finais do século passado, muitos desses clubes foram, com o apoio autárquico, substituídos por outros em aglomerados urbanos onde o futebol tinha menor ou nenhuma tradição; um caso emblemático é a substituição do Varzim SC pelo Rio Ave FC, um clube sem grande apoio popular e quase totalmente dependente e sustentado pela respectiva câmara municipal. Em certa medida, alguma subalternização do VSC face ao seu rival de Braga também se insere neste processo. Ora é esta falta de dimensão e apoio popular, com raízes históricas bem definidas, que torna essas PME portuguesas incapazes de competirem "de igual para igual" com a maioria das suas congéneres europeias, salvo um fogacho "aqui e ali". Exemplo? Bastava olhar ontem para a bancada da Amoreira e ver umas largas centenas, ou até mais de um milhar, de adeptos do SC Freiburg apoiando a sua equipa. Simples: a cidade tem 230 000 habitantes (mais ou menos a população do Porto) e o Estoril-Praia não passa de um clube artificial, fundado pela Sociedade Estoril-Plage, sem qualquer suporte popular na região.

É este o quadro e, para ser honesto, em tempos de crise que está para durar e limita o apoio financeiro autárquico, não me parece tal quadro possa vir a sofrer modificações substantivas. Até porque a substituição desse mesmo apoio autárquico pela dependência dos chamados agentes FIFA (vulgo, empresários), como o prova a história recente do FC Paços de Ferreira, não está também isenta de riscos. 

quarta-feira, novembro 06, 2013

O "Guião" para o golpe de Estado revolucionário

Para termos confirmação plena do que o governo e os seus apoiantes pretendem quando falam da reforma do Estado, basta estar atento às afirmações de hoje de Aguiar Branco e António Barreto: o que se pretende não é uma qualquer reforma ou conjunto de reformas que possa melhorar a eficácia do funcionamento do Estado e dos serviços que presta aos cidadãos; o que se pretende pôr em marcha é um verdadeiro golpe de Estado revolucionário que, como tal, mude radicalmente a natureza e funções do Estado e com elas os actuais equilíbrios da sociedade portuguesa. E como é habitual em situações revolucionárias, vemos pessoas que até aqui tínhamos como moderadas e sensatas perderem completamente a noção da realidade e radicalizarem o seu discurso até extremos julgados impensáveis. De um outro modo, já assisti a isto no pós-25 de Abril.

4ªs feiras, 18.15h (54) - "Noir" (VIII)


"The Big Heat", de Fritz Lang (1953)
Filme completo c/ legendas em castelhano

Ainda "Downton Abbey"

No mais recente episódio de "Downton Abbey", exibido na passada segunda-feira, existe um diálogo muito curioso entre Tom Branson, o ex-motorista agora viúvo de Lady Sybil, e a "condessa viúva" (Violet Crawley) que exprime bem os códigos de comportamento da aristocracia britânica e, em certa medida, aqueles que são igualmente vigentes nas classes altas em outros países, mormente em Portugal. Transcrevo:

 "Dinner is a grand affair with everyone dressed to the nines. Afterwards, Tom’s cornered by the same old lady, who actually turns out to be the Duchess of Yeovil. Violet is standing nearby and listening to their exchange (something about barley beer!). As soon as she leaves, Violet approaches Tom and gives him a little lesson in addressing the nobility at a social gathering.
Violet: “Don’t call her ‘Your Grace.’”
Tom: “I thought it was correct.”
Violet: “For a servant, or an official at a ceremony. But in a social situation, call her ‘Duchess.’”
Tom: “But why? I don’t call you Countess!”
Violet: “Certainly not!”
Tom: “There’s no logic in it.”
Violet: “Oh no. If I were to search for logic, I should not look for it among the English upperclass!”
De facto, se formos procurar também nas "classes altas" portuguesas (que nada têm a ver com os "ricos e famosos" das revistas") -  nos seus comportamentos, nas normas e formas de tratamento vigentes, no léxico utilizado, nas pronúncias aceites, etc, etc - uma lógica, um fio condutor, fácil é chegar à conclusão que eles são inexistentes e até, no limite, chegam mesmo, por vezes, a desafiar e perverter algumas daquelas ridículas regras condensadas nos chamados livros de "etiqueta e boas maneiras". No fundo, essas normas, na sua aparência ilógicas, são assim definidas propositadamente, com o único fim de se constituírem em códigos de identificação e de valores, de reconhecimento mútuo, apenas acessíveis aos já iniciados e aos que pertencem ao "círculo". 

Enfim, apesar de estar longe de ser um entusiasta da série, são pequenos diálogos como este (quase diria "achados"), normalmente protagonizados por Violet Crawley/Maggie Smith, que me "obrigam" ainda a estar atento a "Downton Abbey".

SLB: a Champions League e a SAD

A confirmar-se a sua quase certa eliminação este ano, em quatro participações na Champions League com Jorge Jesus como treinador o SLB apenas conseguiu o apuramento para os 1/8 de final uma vez, na época 2011/2012, tendo então sido eliminado nos 1/4 de final pelo Chelsea, eliminação que considero normal. E isto tendo como adversários directos (excluo dos "adversários directos" equipas que, como o Barça e o Man. United, considero quase inacessíveis) clubes como o Olympique Lyonnais, o Celtic, o Hapoel Tel Aviv, o Shalke 04, o Spartak Moskva ou o Olympiacos. Digamos que é muito pouco para o investimento realizado e para as necessidades financeiras e ambições do clube, e é este "muito pouco" que deve levar obrigatoriamente a administração da SAD a repensar toda a gestão do futebol profissional do clube.

terça-feira, novembro 05, 2013

SLB depois do Olympiacos: os imponderáveis e as decisões de risco

Roberto fez uma grande exibição? O SLB foi nulo de eficácia? A equipa defende muito mal nas bolas paradas? Tudo isso e muito mais, sendo que esse muito mais foram duas exibições deprimentes em Paris e na Luz, contra este mesmo Olympiacos. Mas a minha conclusão fundamental, digamos que a "moral da história", é que um clube cujo sucesso financeiro se baseia num modelo de negócio que depende essencialmente da realização de receitas extraordinárias com a valorização e venda de activos (jogadores), e cujo apuramento para os 1/8 de final da Champions League estará sempre dependente de pequenos pormenores, não pode tomar a decisão de alto risco não vender jogadores pensando que os guarda-redes adversários não realizam grandes exibições, que a equipa, aqui e ali, não possa cometer erros comprometedores e ser menos eficaz na área contrária, que algumas lesões não diminuam a capacidade competitiva da equipa, os árbitros não cometam erros, bem como não aconteçam outros imponderáveis - ou nem tanto como isso - que influenciem os resultados de cada jogo. Na prática, estamos a falar de um jogo, um desporto em que os imponderáveis (ou quase) ditam muitas vezes os resultados quando a superioridade de uma equipa não é esmagadora, o que significa que esses mesmos imponderáveis têm de ser levados em linha de conta quando os clubes tomam decisões que, em função deles, podem tornar os riscos avassaladores. Ora o SLB arriscou onde não podia (ou pelo menos não devia) e agora, na prática fora da Champions League, terá de enfrentar as respectivas consequências desportivas e financeiras.

Blindness (17)

"Blind" Boy Fuller - "Somebody's Been Playing With That Thing"

segunda-feira, novembro 04, 2013

Henrique Monteiro não acerta uma!



Infelizmente, Henrique Monteiro não acerta uma e, como quase sempre, fala por falar - ou porque gosta de se ouvir (ou ler). Existe, de facto, uma direita conservadora em Portugal, tal como existe uma esquerda conservadora ligada ao PCP e, em algumas questões, também ao Bloco de Esquerda. Mas não só têm existido um centro-esquerda e até um centro-direita reformistas, embora com ritmos diferentes desde a estabilização democrática (o primeiro governo de José Sócrates foi o executivo mais reformista da democracia e só não o foi mais porque acabou por soçobrar às mãos de alguns grupos profissionais, como os professores, por exemplo), que foram capazes de desenvolver e fazer evoluir Portugal no sentido de uma aproximação aos valores e modo de vida dos países europeus mais civilizados (Monteiro deve estar esquecido do que era o país há 30 ou 20 anos), como o drama actual nada tem a ver com o conservadorismo, da esquerda ou da direita, mas exactamente com o seu contrário: com o facto do poder ter sido ocupado por uma "clique", uma "vanguarda iluminada", que pretende substituir o reformismo que até aqui tem vigorado - embora com ritmos e estados de espírito diferenciados, concedo -  pelo voluntarismo e experimentalismo revolucionários, tomando como centro fundamental da sua actuação a natureza e as funções do Estado. O drama não é pois o conservadorismo impedir a continuação de uma desejada atitude reformadora, mas o facto desta estar a ser posta em causa pela natureza revolucionária da facção da direita actualmente no poder.