Muitos comentadores têm aproveitado a eleição de Barack Obama, um afro-americano (embora um afro-americano muito particular, não um descendente da escravatura mas um filho de um emigrante queniano), para presidente dos USA para realçarem o facto de algo de semelhante ser remoto na Europa, deste modo partindo para uma conclusão fácil sobre a superioridade da sociedade americana e dos seus valores. Penso que semelhante conclusão é injusta para a Europa – comparando o incomparável - sendo apenas justificada por opções e preconceitos ideológicos apriorísticos. Senão vejamos.
Admiro os USA e a sua sociedade aberta, principalmente as suas facetas descomprometidas e despreconceituosas que fazem com que sempre nos tratem como iguais seja na loja, no restaurante ou na rua em que nos abordam e “metem conversa” apenas porque algo em nós lhes despertou curiosidade. Gosto de muito do seu sentido prático de vida, da forma como tornam simples o que, à partida, teria todas as condições para ser a sua antítese, algo que só alguns poderiam dominar. Sou sempre o primeiro a afirmar que, com excepção do Maio de 68, tudo o que fez realmente avançar o mundo de um ponto de vista social nos últimos 60 anos (direitos cívicos, luta contra a guerra do Vietnam, movimento hippie, rock and roll, queda do Muro de Berlim e fim da guerra fria, pop art, beat generation, etc, etc e estou com certeza a esquecer-me de algo) se passou nos USA ou aí, de uma forma ou outra, teve origem ou incitamento. Mas grande parte disso só é possível porque, ao contrário da Europa, os USA foram uma sociedade constituída e moldada pela imigração, por vagas sucessivas de gente com tradições, línguas e religiões diferentes num território sem escassez de terra e onde não pré-existiam formas de organização social e económica consistentes. É isso que, apesar da escravatura e da discriminação - que ainda hoje se reflectem no nível cultural e socio-económico da maioria da sociedade negra descendente de escravos – tornou a sociedade americana extraordinariamente aberta ao empreendorismo, à inovação tecnológica, a novas ideias e expressões artísticas e culturais que fazem a sua riqueza. A um certo ambiente de descontracção que muito a caracteriza. Por último, formaram-se enquanto colónia e por oposição a um império colonial, o que penso fez toda a diferença no modo como se encararam nos seus valores originais.
Tudo foi diferente do lado de cá do Atlântico, onde a sociedade industrial e burguesa - e com ela a democracia - se edificou na sucessão mais ou menos conflitual da antiga sociedade aristocrática, definida pelo nascimento e baseada na posse da terra – bem escasso, cuja influência e valores, que não renego e contêm em si uma herança com muito de positivo que faz parte do nosso património e ajuda a formar a nossa personalidade enquanto europeus, se estende até aos dias de hoje, criando sistemas próprios de organização política, moldando hábitos e formas de estar e proceder, comportamentos e uma amálgama de valores que ainda hoje prevalece. Acresce que, com poucas excepções até aos anos do pós-guerra, nunca foram a Europa ou cada uma das nações que a compõem sociedades de imigração massificada, antes terra de origem de emigrantes. Nunca foram colónias, mas impérios coloniais impondo a sua dominação. Tudo isso torna a sociedade europeia mais fechada, mais classista e menos aberta à mudança e ao empreendorismo, menos individual e mais colectiva. Também menos desigual e mais solidária. E, ao contrário dos USA onde, pela distância e pelo facto de ser uma nação em construção, o estado estava tantas vezes ausente, uma sociedade mais dele dependente e que nele, em última instância, se habituou a confiar. São esses os nossos valores; o “heritage” que molda uma personalidade europeia formada por séculos de História comum hoje em dia cada vez mais enriquecida e diversificada pela influência trazida pela emigração dos últimos decénios. È sobre eles e deles evoluindo que a Europa deve edificar o seu futuro. Qualquer imitação da América ou do que quer que seja, que não tenha em conta uma herança histórica e valores que nos são próprios, será sempre bem pior - sabemos - do que a versão original que admiramos.