sexta-feira, novembro 07, 2008

David Justino e o "clima de crispação"

Enquanto se assiste, passivamente, à subversão na Madeira do regime democrático e do normal funcionamento das suas instituições; enquanto os militares e as suas associações (com razão ou sem ela, pouco importa) se dedicam a chantagear o governo eleito (bom, medíocre ou mau também não interessa para o caso) e as suas hierarquias, o Presidente da República não encontrou nada mais interessante e urgente, no momento, para fazer do que pronunciar-se, por via de um seu assessor para as questões sociais, antigo titular da pasta da Educação, sobre a “crispação” que se vive no sector, afirmando que “enquanto transformarmos a educação num campo de batalha, será difícil encontrarmos soluções e um rumo que possa unir as pessoas no sentido de tornar a educação uma educação de excelência”. Gostava que David Justino me dissesse duas coisas:

  1. Que propostas tem para pôr fim a esse tal clima de “crispação”; a esse “campo de batalha”, tornando a educação uma “educação de excelência”.
  2. Como quererá implementar essas propostas não passando por esse tal período de crispação e pela derrota das principais reivindicações da ultra-conservadora FENPROF.

quinta-feira, novembro 06, 2008

BPN: cobardia política

A questão BPN tem também um nome: cobardia política. Apenas tardiamente, perante o ambiente – também do ponto de vista ideológico – altamente favorável criado pela crise financeira mundial, o estado e o governo tiveram coragem para actuar sobre uma situação que já era por demais conhecida de todos. Perderam os contribuintes, a confiança dos cidadãos no sistema bancário e na respectiva regulação e a credibilidade do governo.

"PSD-Madeira suspende Parlamento até decisão judicial sobre deputado do PND"

Algo não muito distante disto chamava-se no século XIX governar em ditadura. A de João Franco custou a vida ao rei D. Carlos e ao Príncipe Herdeiro Luís Filipe, tendo assim conduzido à implantação da República.

Deputado do PND impedido de entrar no parlamento(?) madeirense!

Então, em que ficamos? Sr. Silva ou Presidente de todos os portugueses?

A propósito de Obama: América e Europa

Muitos comentadores têm aproveitado a eleição de Barack Obama, um afro-americano (embora um afro-americano muito particular, não um descendente da escravatura mas um filho de um emigrante queniano), para presidente dos USA para realçarem o facto de algo de semelhante ser remoto na Europa, deste modo partindo para uma conclusão fácil sobre a superioridade da sociedade americana e dos seus valores. Penso que semelhante conclusão é injusta para a Europa – comparando o incomparável - sendo apenas justificada por opções e preconceitos ideológicos apriorísticos. Senão vejamos.

Admiro os USA e a sua sociedade aberta, principalmente as suas facetas descomprometidas e despreconceituosas que fazem com que sempre nos tratem como iguais seja na loja, no restaurante ou na rua em que nos abordam e “metem conversa” apenas porque algo em nós lhes despertou curiosidade. Gosto de muito do seu sentido prático de vida, da forma como tornam simples o que, à partida, teria todas as condições para ser a sua antítese, algo que só alguns poderiam dominar. Sou sempre o primeiro a afirmar que, com excepção do Maio de 68, tudo o que fez realmente avançar o mundo de um ponto de vista social nos últimos 60 anos (direitos cívicos, luta contra a guerra do Vietnam, movimento hippie, rock and roll, queda do Muro de Berlim e fim da guerra fria, pop art, beat generation, etc, etc e estou com certeza a esquecer-me de algo) se passou nos USA ou aí, de uma forma ou outra, teve origem ou incitamento. Mas grande parte disso só é possível porque, ao contrário da Europa, os USA foram uma sociedade constituída e moldada pela imigração, por vagas sucessivas de gente com tradições, línguas e religiões diferentes num território sem escassez de terra e onde não pré-existiam formas de organização social e económica consistentes. É isso que, apesar da escravatura e da discriminação - que ainda hoje se reflectem no nível cultural e socio-económico da maioria da sociedade negra descendente de escravos – tornou a sociedade americana extraordinariamente aberta ao empreendorismo, à inovação tecnológica, a novas ideias e expressões artísticas e culturais que fazem a sua riqueza. A um certo ambiente de descontracção que muito a caracteriza. Por último, formaram-se enquanto colónia e por oposição a um império colonial, o que penso fez toda a diferença no modo como se encararam nos seus valores originais.

Tudo foi diferente do lado de cá do Atlântico, onde a sociedade industrial e burguesa - e com ela a democracia - se edificou na sucessão mais ou menos conflitual da antiga sociedade aristocrática, definida pelo nascimento e baseada na posse da terra – bem escasso, cuja influência e valores, que não renego e contêm em si uma herança com muito de positivo que faz parte do nosso património e ajuda a formar a nossa personalidade enquanto europeus, se estende até aos dias de hoje, criando sistemas próprios de organização política, moldando hábitos e formas de estar e proceder, comportamentos e uma amálgama de valores que ainda hoje prevalece. Acresce que, com poucas excepções até aos anos do pós-guerra, nunca foram a Europa ou cada uma das nações que a compõem sociedades de imigração massificada, antes terra de origem de emigrantes. Nunca foram colónias, mas impérios coloniais impondo a sua dominação. Tudo isso torna a sociedade europeia mais fechada, mais classista e menos aberta à mudança e ao empreendorismo, menos individual e mais colectiva. Também menos desigual e mais solidária. E, ao contrário dos USA onde, pela distância e pelo facto de ser uma nação em construção, o estado estava tantas vezes ausente, uma sociedade mais dele dependente e que nele, em última instância, se habituou a confiar. São esses os nossos valores; o “heritage” que molda uma personalidade europeia formada por séculos de História comum hoje em dia cada vez mais enriquecida e diversificada pela influência trazida pela emigração dos últimos decénios. È sobre eles e deles evoluindo que a Europa deve edificar o seu futuro. Qualquer imitação da América ou do que quer que seja, que não tenha em conta uma herança histórica e valores que nos são próprios, será sempre bem pior - sabemos - do que a versão original que admiramos.

Roger Corman classics (31)

"The Intruder" (1962)

quarta-feira, novembro 05, 2008

Brown vs Board of Education

Rosa Parks

No dia da eleição de Barack Obama, aqui se recorda o dia em que tudo começou

Arthur "Big Boy" Crudup - "That's All Right" (gravado em Chicago a 6 de Setembro de 1946)

Elvis Presley - "That's All Right" (gravado em Memphis a 5 de Julho de 1954)
Texto e temas incluídos por este blog no seu post nº 1 de "História(s) da Música Popular" , em Setembro de 2006
"Este foi o dia em que "tudo" começou. Estávamos em Memphis, 5 de Julho de 1954, e, neste dia, depois de algumas tentativas frustradas de gravação de outros temas, Elvis Presley gravava finalmente no Memphis Recording Service", de Sam Phillips, o disco "Sun nº209", um "blues" de Arthur "Big Boy" Crudup ("That's All Right"), tendo como "B" side "Blue Moon of Kentucky" de Bill Monroe, um tema "branco" dos hillbillies, camponeses do sul. Philips procurava há algum tempo um "branco que conseguisse cantar como um negro" e encontrou Presley, oriundo do chamado white trash dos estados do sul, vivendo paredes-meias com a sociedade e a cultura negras. Dois dias depois, o disk jockey Dewey Phillips, da estação de rádio WHBQ, tocou o disco e, a partir daí, nunca mais nada tornou a ser como dantes. Se antes disso havia música para negros e música para brancos, hit-parades, editoras e etiquetas de discos (os chamados race records) e estações de rádio diferentes para uns e para outros, Elvis iria vencer a segregação, apesar de ser considerado pelos mais conservadores como "obsceno" e a sua música "uma música de negros, animalesca e vulgar". Presley gravou (salvo erro) 18 temas para a "Sun" e mudou-se para a "RCA" (uma das majors) pelas mãos do "Coronel" Parker. Foi o início do fim, mas isso é já outra história."
Passaram 54 anos e os USA têm finalmente um afro-americano como seu presidente

As televisões portuguesas e a noite eleitoral: deprimente!

Deprimente, é o que de melhor se pode dizer da cobertura das televisões portuguesas da noite eleitoral americana – confesso que me focalizei na CNN e na SKY, com passagens frequentes pela BBC, RTP N e SIC N. Sim, eu sei que a desproporção de meios para com as grandes cadeias americanas e internacionais era enorme - os meios tecnológicos e cenários utilizados pareciam uma comparação grosseira entre um foguete de aldeia e a cela de um frade capuchinho, de um lado, e o “Minority Report” e o hall do Ritz, do outro - e a RTP e a SIC não tinham acesso a sondagens próprias, restando-lhes o papel de “go-between” entre essas mesmas grandes cadeias e o telespectador português. Mas, que raio!, até esse papel de “go-between” poderia ter sido bem feito, o que não aconteceu. Confundiram-se projecções com votos reais, deu-se relevância a resultados correspondentes a uma minoria de votos contados em alguns estados, em muitos casos, em percentagens inferiores a 10% do total de votantes efectivos, concedeu-se importância desproporcionada ao resultado de estados à partida atribuídos a um ou outro candidato, não assumindo, portanto, esses resultados qualquer importância enquanto elemento indiciador do resultado final da eleição e, por último, não se comparavam “condado a condado” os resultados efectivos, que iam saindo, com idênticos valores da eleição Bush/Kerry de 2004, o que permitia, desde muito cedo a quem sintonizava a CNN, concluir que só um cataclismo retiraria a vitória a Obama. No meio desta confusão, na RTP N assistiu-se à pior performance que me lembro de ver a um Rodrigues dos Santos completamente atarantado, à “nora”, viu-se um “rapazinho” cuja função era coligir dados da net (uma redundância, pois isso era algo que todos podíamos fazer em casa) sem sequer saber interpretar os dados que coligia e “aturámos” ligações sem qualquer sentido ou interesse aos enviados-especiais nos USA, que nada tinham, de facto, a acrescentar pois tinham acesso às mesmíssimas fontes que eu sem sair de casa. Salvou-se Pedro Magalhães - como sempre - o único que sabia o que estava ali a fazer e ao que ia e, por isso, nos mandou para a cama logo que, com cerca de ¼ de hora de atraso, foram anunciadas as projecções do Ohio, favoráveis a Obama, pois o novo presidente dos USA estava encontrado. Foi o que fiz pouco depois das 3 e 1/2. Ah, claro, e a SIC N lá nos foi brindando com umas ligações ao “Hard Rock Café”, num género de “Caras” Notícias da noite eleitoral.

Um conselho: numa noite eleitoral como esta o essencial é conhecer as projecções e votações que, do modo mais exaustivo possível, nos permitam ter uma ideia sobre o resultado final, devendo os comentários incidir sobre essa evolução. Repetir, à exaustão, o que já fora dito sobre Obama, McCain ou a Srª Palin nos últimos meses está ali perfeitamente deslocado.