sábado, janeiro 04, 2014

A propósito da morte de Phil Everly (1939 - 2014)

The Everly Brothers - "Cathy's Clown"

Os Conchas - "Fantoche do Amor"

Bom, que dizer sobre Phil Everly para além das trivialidades que vou lendo e ouvindo por aí nos "media" do costume? Para além do já dito sobre a importância dos Everly Brothers na música popular americana e, por extensão, mundial no final dos anos 50 e início dos 60, salientar que tal período, entre o declínio do rock original e do abalo provocado por nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Chuck Berry e mais alguns outros e o início, em 1964, da chamada "British Invasion", foi um período de refluxo na música popular e nas mudanças sociais e comportamentais a que o "rock and roll" tinha dado origem. nos USA e em alguns países europeus, com o UK à cabeça. Vencidos por escândalos próprios e pelo conservadorismo da sociedade branca americana, aos mais arrojados pioneiros do "rock and roll" sucederam, apoiados por uma indústria do espectáculo que percebeu o potencial de negócio que a nova cultura adolescente poderia conter, uma série de rapazes "clean cut" que, expurgados das características mais radicais, violentas e anti-sistema do rock original, poderiam constituir exemplo para a sociedade americana. É neste grupo de "teenage idols" que se incluem nomes como Phil e Don Everly, Ricky Nelson, Fabian e os cultores da "dance craze" (twist, etc), ao qual virá também a aderir um Elvis Presley depois de devidamente domesticado pelo serviço militar e pelo seu agente "colonel" Parker. Será a "British Invasion" e nomes como os Beatles e os Rolling Stones que irão por fim dar o piparote definitivo neste estado de coisas, não sem que isto faça esquecer a qualidade musical e a harmonia vocal dos irmãos Everly, que vieram a influenciar decisivamente muitos dos nomes do rock e da música popular anglo-saxónica de ambos os lados do Atlântico, inclusivamente do chamado "mersey sound".

Num país provinciano, conservador e dominado por uma ditadura retrógrada, não admira que seja na área dos "teenage idols", dos rockers "clean cut", e não nos bem mais contestatários, irreverentes e anti-sistema criadores originais do "rock and roll", que vamos encontrar os pioneiros do rock português, os que vieram a gravar, com a pouca qualidade possível ditada pelos fracos meios disponíveis na altura, aquele que é unanimemente considerado o primeiro disco comercial do "yé-yé" (chamava-se assim o "rock and roll" em Portugal e em França): Daniel Bacelar, um seguidor e fã de Ricky Nelson, e o duo Os Conchas, versão portuguesa dos Everly Brothers de quem gravaram pelo menos quatro "covers" em português: "Should We Tell Him" ("Quero O Teu Amor"), "Let It Be Me" ("Serás Tu Para Mim"), "Cathy's Clown" ("Fantoche Do Amor") e "Poor Jenny" ("Oh, Jenny"). Deste "blog" fica um testemunho, sendo que o triste acontecimento que é a morte de Phil Everly acaba por se tornar um pretexto adequado para recordar outras coisas, directa e indirectamente a ela ligadas e que, de outro modo, talvez se arriscassem a ficar esquecidas.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Do alargamento da CES

No fundo, é isto: com a proposta de alargamento da base de tributação da Contribuição Especial de Solidariedade, atingindo as pensões abaixo do "estratosférico" valor bruto de €1350, o que o governo pretende é voltar os pensionistas do regime geral contra o Tribunal Constitucional e contra os beneficiários da CGA, culpando-os por mais um corte nos seus rendimentos. Estamos portanto perante um governo que usa a Constituição da República e as decisões de um orgão de soberania como o Tribunal Constitucional como pretextos para dividir os portugueses. E ainda há quem tenha a "lata" de falar em "consensos"... "My ass"!

Billboard #1s by British Artists - 1962/70 (13)

The Beatles - "Eight Days A Week" (13-03-1965)

Sobre a entrevista de Luís Filipe Vieira

Se o SLB precisava de vender o passe de algum ou alguns dos seus jogadores esta época - e precisava - melhor seria tê-lo feito em devido tempo, no chamado mercado de Verão, dando hipótese à equipa técnica de preparar a época com um plantel o mais próximo possível daquele de que iria dispor durante a maior parte dessa mesma época e não desfalcando a equipa nem quebrando sua empatia com os adeptos quando, agora, a fase das decisões se aproxima. Luís Filipe Vieira não o fez pensando no apuramento para os 1/8 ou 1/4 de final da Champions League, o máximo a que qualquer equipa portuguesa pode aspirar nas condições actuais? Bom, com as aquisições realizadas, não me parece a venda do passe de um ou dois jogadores pudesse, em condições normais, colocar esse objectivo em elevado risco de incumprimento e, além de tudo o mais, o encaixe financeiro realizado com a venda desses passes seria sempre bastante superior ao conseguido com o apuramento para a fase a eliminar da CL, podendo mesmo o clube vir a conseguir atingir ambos os objectivos. Assim, falhou os dois e, perdido o apuramento para os 1/8 de final da CL, arrisca-se, desfalcando agora a equipa, a aumentar a probabilidade de vir a falhar outros importantes objectivos desta época, principalmente o Campeonato Nacional.

O que me parece é que Vieira "embarcou" - mais uma vez - naquele género de euforia populista (o "sonho", como lhe chamaram) que achava o SLB teria francas ou mesmo algumas hipóteses de vir a jogar a final da Champions League no seu estádio, e assim agiu em conformidade. Fez mal, já que o rigor da gestão e da condução de uma equipa de futebol profissional se dão mal com este género de devaneios. Agora, tenta emendar a mão. Digamos que emenda um erro com outro erro. Como benfiquista, espero e torço para que dê certo.  

Cavaco Silva: sempre igual a si próprio

  1. Desde que, no caso das "escutas", optou conspirar contra o governo legítimo da República e, depois, aceitou dar posse, nas circunstâncias de então, que o desaconselhavam, a um governo minoritário, passando de seguida a atacá-lo em cada uma das suas intervenções e assim contribuindo para a sua queda, que Cavaco Silva hipotecou quaisquer hipóteses, se alguma vez as teve, de desempenhar um papel de moderação, arbitragem e conciliação na cena política. Se qualquer sorriso na face de Cavaco Silva se assemelha sempre a um esgar, a partir daí qualquer apelo a um consenso, seja lá em que termos for, transformou-se num convite de Lobo Mau travestido de Capuchinho.
  2. Na sua mensagem de Ano Novo Cavaco Silva colou-se à "narrativa" do governo? Sim, mas muito pior do que isso: colou-se, mais uma vez, ao discurso anti-políticos e anti-partidos, optando por considerar um tal "interesse nacional", supostamente supra-partidário mas identificado com a estratégia da maioria, como elemento virtuoso e oposto à "mesquinhez" dos interesses partidários. Ora Cavaco Silva sabe que com este discurso, em vez de exercer a acção pedagógica que deveria ser apanágio do Presidente da República, está a ir ao encontro das ideias populistas e anti-democráticas dominantes em largos sectores da população.Mas como ninguém pode ser quem não é, Cavaco Silva não resistiu à tentação de tentar uma espécie de "dois em um": defender o "seu" governo e melhorar a sua imagem. Nada de novo.
  3.  Se ao considerar que existe acima dos interesses legítimos e muitas vezes contraditórios dos partidos, instituições, cidadãos, etc, um chamado "interesse nacional", Cavaco Silva está a negar a própria essência da democracia, que dizer da sua afirmação considerando "a liberdade e os direitos de cidadania não foram postos em causa"? Será que com elevados níveis de emigração, empobrecimento e desemprego, com diminuição de direitos e cortes de salários e pensões, aumento das desigualdades, a liberdade, os direitos de cidadania e a própria iniciativa empresarial não estão a ser, no mínimo, gravemente mitigados? Pois... temos aqui mais uma confirmação, se necessário fosse, das convicções democráticas e liberais de Cavaco Silva. Também nada de novo, infelizmente.