Há uma coisa que Francisco Assis ainda não percebeu, ou não lhe interessa perceber: para estar em situação de efectuar compromissos sobre matéria concreta com os partidos situados à sua direita, mantendo alguma capacidade de negociação e autonomia e sem correr o risco de ser por ela "engolido", o PS precisa absolutamente de um grande resultado eleitoral, com ou perto da maioria absoluta, o que até poderia contribuir para a queda da actual direcção do PSD, facilitando esses compromissos. Para tal, não pode nem deve anunciar desde já qualquer vontade explicita de fazer as chamadas "alianças à direita", o que apenas contribuiria para enfraquecer a sua atractividade eleitoral. A ser obrigado, quer por resultado eleitoral insuficiente, quer por necessidade de maior abrangência social e política, a negociar esses acordos (o que me parece muito provável), tal deve ser apenas apresentado a posteriori e não como vontade do partido mas como necessidade ditada pelas circunstâncias. No fundo, o que Assis está a fazer com este tipo de actuação é agir dentro do seu partido como um verdadeiro "infiltrado" do PSD actual.
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
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sábado, novembro 29, 2014
quinta-feira, novembro 20, 2014
O que move Francisco Assis
Devo dizer, antipatizo solenemente com Francisco Assis (o do PS, não o santo), e esta minha antipatia pouco ou nada tem a ver com razões ideológicas. Tal acontece desde aquela sua ida a Felgueiras, na qual - e não nutrindo eu qualquer simpatia por aquilo que a ex-autarca Fátima representa - Assis mais parecia um "chefe de turma" ressabiado, tentando repor a ordem que o senhor reitor lhe tinha encomendado, do que um político lutando pelas suas ideias e ideais; alguém que viu na situação a oportunidade para os seus cinco minutos de fama e para uma espécie de vingança dos fracos que, num país de vistas curtas e ideias vagas, haveriam de o catapultar para a ribalta. Depois, a partir daí, sempre me pareceu bem mais um género de aspirante a António Vitorino de província: sempre sem uma ideia clara e com um pé no PS e outro no PSD, mas sem o à-vontade, a bagagem cultural, o cosmopolitismo e a tarimba política do "autêntico". Uma espécie de "copycat" em versão "low cost".
Tendo dito isto, reconheço Assis terá sem dúvida razão em alguns dos pontos que enuncia na sua entrevista ao "Observador", mas como não é a razão que faz mover o mundo e essa mesma razão não basta para caucionar uma atitude, as suas afirmações "nesta altura do campeonato", o "timing" escolhido, o interlocutor (Maria João Avillez) e o "media" ("Observador") seleccionados são tudo menos ingénuos e constituem uma autêntica punhalada cravada à traição na liderança de António Costa e na estratégia do partido. Uma punhalada que poderá custar alguns pontos percentuais nas próximas sondagens e talvez mesmo uns milhares de votos nas próximas legislativas. Mas, no fundo, é esse o verdadeiro objectivo de Assis: dificultar a obtenção de uma maioria clara ou até absoluta pelo PS forçando um quase inevitável governo do "Bloco Central" mas em condições bem mais desvantajosas para o seu partido. Porquê? Porque é nesse terreno, um pouco pantanoso e indistinto, sem fronteiras muito claras entre os dois partidos, que Assis encontra o seu terreno de eleição, aquele de onde sempre esperou retirar vantagens. É isso que sempre verdadeiramente o moveu.
domingo, fevereiro 23, 2014
quarta-feira, fevereiro 20, 2013
Francisco Assis: enfrentar a turba em Felgueiras não chega para fazer um bom político
Por vezes, espanto-me ao ver políticos experientes cometerem erros demasiado primários. Claro que separam PS de PCP e BE comportamentos e concepções de Estado e sociedade que inviabilizam qualquer hipótese de coligação "à esquerda". Que tornam bem mais do que improvável, e quanto a mim até mesmo indesejável, um acordo de governo nessa área. Por outro lado, é sabido falta ao PS um partido-muleta, de centro ou de esquerda, talvez ecologista à boa maneira do "Die Grünen", que permita ao PS governar em coligação. Mas tendo dito isto, não percebo qual a necessidade de Francisco Assis, a mais de dois anos de um acto eleitoral e com o governo mais impopular de sempre em funções, vir, pressuroso, e em vez de agir no sentido do partido se tentar fortalecer tendo como objectivo uma maioria absoluta, tecer considerações sobre possíveis alianças de um qualquer hipotético futuro governo liderado pelo PS. Ao dizer o que disse, Assis está precisamente a fazer o contrário: enfraquece o partido, dando sinais a uma sociedade radicalizada de que o voto no PS significará porventura a manutenção no governo de um dos actuais partidos da coligação, mesmo que expurgado (como, não se sabe) de alguns dos seus excessos "neo-liberais" (a expressão é de Assis). É que ter razão e falar verdade nem sempre é o melhor caminho para o sucesso.
Igual resultado têm as suas críticas "aos que têm apupado o governo" e os pedidos ao parlamento para utilização de "uma linguagem menos extremista". Não me revejo em alguma linguagem, aqui e ali, usada na Assembleia da República, como não partilho do radicalismo dos que se acolhem sob o "slogan" "que se lixe a troika". Mas o que estas afirmações de Assis revelam é não só uma enorme falta de cultura parlamentar (o radicalismo de linguagem, mesmo o extremar de posições, fazem parte, historicamente, da luta política e dos debates parlamentares), como um desconhecimento do modo como funcionam as sociedades abertas e democráticas, onde as manifestações de rua, os "lobbies", as acções de desobediência civil, a circulação de informação e a livre crítica, muitas vezes sob a forma de um humor iconoclasta, sempre exerceram um papel fundamental. No fundo, o que me parece é que Francisco Assis não percebe o país nem o mundo em que vive, provando que não basta dar o "peito às balas" perante uma turba enfurecida em Felgueiras para que de tal acto nasça um bom político.
quinta-feira, dezembro 20, 2012
O PS e o Presidente
Continuo a achar patético o constante apelo de dirigentes do PS ao Presidente da República para que este assuma um papel interventor mais activo na actual situação política - para fazer o quê, não se percebe lá muito bem. Um Presidente da República que, note-se, conspirou abertamente contra o partido, teve responsabilidades relevantes na demissão de José Sócrates e na eleição da actual maioria e, para além de palavras de circunstância, nunca se demarcou consistentemente nem da política do actual governo nem sequer das ofensas à democracia protagonizadas por Alberto João Jardim. Hoje cabe a vez a Francisco Assis, no "Público", personalidade pela qual, aliás, não nutro qualquer empatia e que como político não me parece ultrapasse uma confrangedora mediania (a política é bem mais do que enfrentar os arruaceiros de Fátima Felgueiras).
Para lá de questões de dignidade (sim, eu sei que a moral pouco ou nada tem a ver com a política, mas também aí me parece existirem alguns limites que convém não ultrapassar), a imagem de fragilidade e impotência que o partido transmite aos cidadãos e eleitores é a todos os título confrangedora, o que, aliás, e numa conjuntura extremamente favorável, se reflecte na incapacidade para cavar um fosso em relação ao PSD nas intenções de voto dos portugueses. Em vez de tais apelos patéticos, seria bem melhor a direcção do PS tratasse de demonstrar aos portugueses poder constituir-se como alternativa credível ao actual "estado de coisas". Estou certo o país lhe agradeceria.
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