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quinta-feira, janeiro 20, 2011

A morte de Don Kirshner e a ignorância jornalística do "Expresso"

De facto, a ignorância jornalística não tem limites. A propósito da morte de Don Kirshner (ver "post" neste "blog") o "Expresso" não só lhe chama "compositor de Elvis Presley" (não tenho ideia que Kirshner alguma vez tenha composto o que quer que fosse, muito menos nada de relevante ou para Presley) como, para justificar tal epíteto, lhe atribui a autoria de "You've Lost That Lovin' Feelin'". Duas notas:
  1. Embora Presley tenha interpretado "You've Lost That Lovin' Feelin'", pouca gente o saberá, já que o tema foi êxito retumbante, isso sim, na voz dos Righteous Brothers (editado em Dezembro de 1964 - #1 em Fevereiro de 1965), aos quais ficará para sempre ligado. Aliás, para além do "cover" de Elvis Presley existe uma lista infindável de versões, algumas bem mais conhecidas do que a de Presley.
  2. Os seus autores são Barry Mann, Cynthia Weil e Phil Spector, nomes incontornáveis da música popular, do Brill Building e da Aldon Music de Kirshner e Al Nevins, claro. Mas daí a atribuir-se a sua autoria a Kirshner...
  3. Os nomes do Brill Building indissoluvelmente ligados à carreira de Presley depois da passagem deste da SUN para a RCA são Jerry Leiber e Mike Stoller, autores de temas como "Treat Me Nice", "Baby I Don't Care", "Love Me", "Jailhouse Rock" e por aí fora.

Uma lástima, já que o "Expresso" tem obrigações.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Morreu Don Kirshner (1934-2011), o homem que inventou a "pop"


Texto publicado neste "blog" e integrado no nº 50 de "História(s) da Música Popular" (11 de Julho de 2007)

"Pois a história podia começar assim: era uma vez um edifício situado no nº 1619 da Broadway. Ou então assim: o mercado emergente da nova cultura juvenil a que o r&r deu voz, não podia passar despercebido à indústria da música, que viu nele abrir-se um novo campo ao seu desenvolvimento. Pois então fica assim: desde antes da WWII que muitas das grandes produtoras e editoras de música tinham a sua sede no nº 1619 da Broadway, o “Brill Building”, assim chamado por via dos irmãos Brill, os seus proprietários originais. Depois do advento do r&r, mais precisamente em 1958, Don Kirshner, aquele que viria a ser um dos grandes produtores da pop (foi o "inventor" dos Monkeys e dos Archies), e a sua Aldon Music (em parceria com Al Nevins) estabeleceram aí os seus escritórios, embora mais tarde se tenham transferido para o nº 1650. E agora uma curiosidade: porquê aí? Bom, o nº 1650 tinha sido propositadamente construído para o efeito, com portas laterais, já que as leis da época não permitiam que os músicos utilizassem as... portas da frente! Era um bocado como se fossem os “marçanos” e as “sopeiras” da minha infância! E qual a ideia de Kirshner? Exactamente, partindo do r&r e tendo como mercado-alvo a nova cultura juvenil, criar um estilo musical mais melódico, musicalmente mais bem estruturado e orquestrado, suficientemente simples para ficar no ouvido mas sem o seu lado mais selvagem e que fosse ao encontro dos valores, sentimentos e aspirações dessa nova cultura emergente. Digamos que assim nasceu a pop, tal como hoje a conhecemos.

Para isso era necessário recorrer a quem tivesse bons conhecimentos de música e composição, mas, simultaneamente, fosse novo de idade e mente o suficiente para se enquadrar no espírito da época. E, de acordo com estes padrões, quem foram os primeiros contratados? Uma dupla já conhecida por ter composto um grande êxito para Connie Francis (“Stupid Cupid”, mais conhecido em Portugal pelo cover da brasileira Celly Campelo): Neil Sedaka, um músico de dezoito anos de formação clássica (piano), e o seu colega de escola Howie Greenfield. Foi apenas o início: Sedaka começou aí uma carreira recheada de êxitos como cantor e compositor (a “meias” com Greenfield), Kirshner enriqueceu, outras duplas de maior sucesso e consistência (até nas “letras”) foram contratadas (Barry Mann – Cynthia Weil; Carole King – Gerry Gofin; Ellie Greenwich – Jeff Barry; Doc Pomus – Mort Shuman; Jerry Leiber – Mike Stoller) e ao Brill Building ficaria para sempre ligado aquele que foi o maior produtor de sempre da pop music, tendo mesmo definido novos padrões para a função: Phil Spector, o “inventor” do célebre “Wall of Sound” e de um sem número de grupos e cantores da 1ª metade dos anos sessenta. Lá iremos, já que por aqui, pelo Brill Building, iremos ficar longo tempo, que ele (o 1619 – 1650 da Broadway) bem o merece.

Pois comecemos por aquele que terá sido mesmo o começo: “The Diary” da dupla “Greenfield – Sedaka”, #14 em 1959, interpretado pelo próprio Sedaka. Se pensarmos que Sedaka tinha sido escolhido por Arthur Rubinstein “himself” para tocar piano num espectáculo da “Antena 2” lá do sítio, veremos quão insondáveis são os desígnios da música e quanto toda ela é uma paixão."

Nota final: o "Expresso" chama a Kirshner "compositor de Elvis Presley". Não sei onde foram inventar tal disparate, mas apetece-me dizer que a ignorância não tem limites.

Neil Sedaka - "The Diary"