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domingo, maio 01, 2011

Diana, Catherine e o Reino Unido

Que semelhança poderá haver entre uma rapariga de dezanove anos pertencente à aristocracia inglesa, ao "inner circle" da família real e educada como tal, educadora de infância e uma outra de 29, oriunda da classe média e de uma família que fez fortuna nas últimas duas décadas, universitária e que viveu a sua vida de acordo com essse estatuto? Obviamente que nenhuma, a não ser nas cabeças tontas de alguns jornalistas e comentadores muito embrenhados na sua estratégia de mistificação.

Sejamos claros. Diana Spencer não foi nenhuma "princesa do povo". Foi alguém que, com mais esperteza-saloia do que inteligência (não era muito dotada...) usou o seu casamento e, depois, desejo de vingança em favor de uma deriva populista - quase "justicialista "à la Eva Péron" - que, levada às suas últimas consequências, tenderia a destruir a instituição monárquica no Reino Unido. Em última análise, foi Tony Blair que, com a sua actuação nos dias após a morte de Diana, acabou por fazer compreender à rainha Elizabeth que era preciso mudar algumas aparências para que tudo ficasse mais ou menos na mesma, salvando assim a monarquia e evitando mergulhar o país numa crise de dimensões imprevisíveis. A "coroação" de Diana após a morte - isto é, quando se torna apenas mito - como "princesa do povo", expressão usada por Blair, representa  o culminar de toda essa estratégia. Um talvez-republicano, trabalhista, terá assim salvo a monarquia para preservar o país.

Quem anseia pela restauração dessa deriva populista - a que agora se convencionou chamar "o legado de Diana" - tenta, em primeiro lugar, afastar Charles (o mau da fita e que casou com a "megéra" Camila) do trono em favor de William e, depois, encontrar alguém que possa ocupar o lugar deixado vago pela "princesa dos corações". Assim sendo, a "plebeia" Catherine Middleton pareceria, para os menos avisados, a personagem ideal.  Mas nada de ilusões: será apenas a pedra definitiva colocada sobre o projecto insensato de Diana Spencer e, vinda da classe média, do "povo", a possibilidade de manter o mito matando simultâneamente a perversão que ele continha. Catherine será, tal como acontece com as origens de ambas, muito diferente de Diana: alguém que não terá qualquer dificuldade em se adaptar à sua nova existência e ao papel que terá de desempenhar na defesa de uma instituição monárquica que praticamente se confunde com o próprio Reino Unido e com a ordem constitucional. Mudando uma ou outra aparência, claro.

segunda-feira, setembro 03, 2007

"The Queen" by Stephen Frears

Para os que só viram o filme agora, via RTP 1, aqui fica o link para o meu post escrito em Dezembro de 2006 sobre "The Queen" o filme de Stephen (por favor, lê-se Stiven e não Stefan) Frears.

domingo, setembro 02, 2007

De como não resisti à "Dianomania" e fui jantar ao San Lorenzo - e reincidi

Pronto, confesso. Apesar de não ter Diana Spencer em grande conta, conforme se pode depreender pelo post anterior, também nem sempre fiquei indiferente ao propagandeado glamour e charme, cada vez menos discreto, da tão mediática personagem. Fiquei horas na rua à espera que passasse, agitando bandeirinha, e, eventualmente, me cumprimentasse, ao que eu responderia com um ligeiro baixar de cabeça? Claro que não, nem, não podendo chegar-lhe à fala, pude sequer convidá-la para um chá no meu favorito Basil Hotel, ali mesmo junto ao Harrods do Sr. Al Fayed, pai da sua última conquista (ou vítima, como quiserem). Que fiz eu então, de tão evidentemente pecaminoso, rendido ao apelo irresistível da irmã do Visconde de Althorp? Bom, confesso que depois de algumas tentativas frustradas, já que era preciso marcar com algum mês de antecedência (ou mais, estávamos em plena época de Dianomania, aí pelos idos de 90 ou 91) resolvi ir jantar ao então célebre San Lorenzo, em Beauchamp Place, seu restaurante favorito e onde, ao que consta e consta com verdade, várias vezes a então ainda mulher do futuro rei de Inglaterra poderia ser avistada. Pior do que isso, apesar de nunca com ela me ter cruzado (se calhar por isso mesmo, com esperança isso alguma vez acontecesse), estive em vias de me tornar adicto e reincidi, jantando lá, que me lembre, pelo menos duas vezes. A “coisa” até dava jeito e havia uma boa desculpa: era walking distance do meu hotel habitual, quase em pleno South Kensington - muito Sloan Ranger, portanto - e a rua, onde em devido tempo chegou a existir um restaurante português (onde, apesar de fugir deles a “sete pés” quando fora aqui do rectangulo”, já tinha sido levado pela arreata uma vez), é uma pequena rua “chique” e simpática, lojas trendy quanto baste.

Bem, devo dizer, em abono da verdade, que o San Lorenzo não me deixou especiais memórias; bom, quanto baste, e nada mais. Como diria o José Quitério, “do comido e do provado” (e do bebido, acrescento), retenho apenas uma ideia vaga de umas alcachofras sem história, de uma vez, e de um “Beaujolais noveau”, acho que de outra vez, já que com os vinhos era bem preciso ter cuidado e qualquer "1er Cru" bordalês, em semelhante enquadramento, seria bem capaz de me levar à ruína. Nada de transcendente, portanto, nem de memórias gastronómicas exaltantes, o que não abonaria muito dos gostos de Lady Diana Spencer que não necessitariam desta prova suprema para tal comprovação. E a conta, claro, a conta, perguntarão, terá ela ficado na memória, dado o local escolhido e a “sobretaxa” Diana? Olhem que não, olhem que não!... Carote, claro, um pouco para o puxavante, mas nada de me arrepiar a espinha ou fazer soltar um “ui!” acompanhado de um esgar doloroso - sabendo antecipadamente onde ia, onde estava e ao que ia, sem dúvida. Digamos que antes e depois de tal acontecimento, passei algumas vezes por situações bem mais delicadas e a requererem outro tipo de expertise.

E como todas as histórias de princesas e fadas (?) têm sempre uma moral, mesmo que amoral, qual a conclusão a tirar? Bom, tenho aqui uma boa oportunidade para, quando lá entre o céu e o inferno me reencontrar com Diana Spencer já sem os entraves do protocolo e das diferentes contas bancárias, iniciar uma daquelas vulgares conversas de engate, que, por sinal, não fazem mesmo nada o meu género, do tipo: “sabe, fui lá jantar ao “seu” restaurante umas duas vezes e, deixe-me que lhe diga, não achei nada de especial”. É que no céu até as mais vulgares conversas de engate devem ter a sua desculpa, e no inferno por certo ficam sem punição! Et voilá!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Diana Frances Spencer

De Princesa de Gales e futura Rainha de Inglaterra a “queen of hearts” (rainha de “copas”) e dos tablóides. De nora da Rainha de Inglaterra e mulher do futuro rei a amiga de Versace e Elton John - e namorada de Al Fayed. Dela disse Vítor Cunha Rego (e cito de cor) “que tinha combatido a aristocracia em nome do jet-set”, uma das frases mais justamente assassinas e certeiras que alguma vez me foi dado ler. Dela também diria Marx que nem sempre a origem de classe (era filha do Conde Spencer) e a pertença de classe – e a “classe”, acrescento - se confundem. Morreu ao lado de um playboy como costumam morrer os playboys, como Portago ou Rubirosa: num carro inconscientemente lançado em alta velocidade, mas já sem a elegância de uma Isadora Duncan ou o panache dos Ferrari e Bugatti de outros tempos. Um dos mais monumentais erros de casting da história contemporânea.