Mais importante, muito mais importante do que o caso Freeport, a tão propalada “arrogância” de José Sócrates, os projectos que assinou, a sua licenciatura, o tio, o primo, a mãe, a sogra, o canário, o periquito, o cão e tantas cartas anónimas quanto as que Cristiano Ronaldo receberá por dia de admiradoras do seu dinheiro - assuntos frequentemente roçando a baixa-política, o populismo mais rasteiro - é saber em que se baseou o governo – em que análises, estudos e credibilidade dos mesmos - para conceder um financiamento de 100 milhões de euros a uma empresa (Quimonda) que um mês mais tarde declara falência e que, provavelmente, se verá forçada ao encerramento a muito curto prazo. É que não é só a Quimonda que está aqui em causa, mas de um modo mais geral o que este caso questiona, é a seriedade e eficácia (ou eventual ausência de ambas) com que o Estado utiliza o dinheiro dos contribuintes na louvável tentativa de minimizar os efeitos da crise.
É que não pondo em causa modelo e metodologia - muito menos a importância estratégica da Quimonda - talvez não fosse pedir demasiado ao ministro Manuel Pinho que o seu ministério adoptasse de uma maior profundidade e rigor de análise, em cada caso, de modo a possibilitar uma melhor e bem mais criteriosa escolha das soluções a encontrar. Nós, os donos do dinheiro, ficaríamos bem gratos.
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
sexta-feira, janeiro 30, 2009
De como a Quimonda é bem mais importante do que toda a família de José Sócrates
História(s) da Música Popular (115)
Mas o que é um facto é que o mesmo aconteceu com o talentoso Howard Tate (1939), que gravou para etiquetas tão acima de qualquer suspeita (em termos de qualidade, entenda-se) como a Verve e a Atlantic, cujo maior sucesso aconteceu via Janis Joplin quando esta se lembrou de gravar um seu original também escrito por Ragovoy, “Get It While You Can”.
Mas é destas pequenas coisas, “enganos de alma”, que também se faz a vida. Injusta? Mas alguém duvida da justiça que fez triunfar Janis Joplin? E, além de tudo o mais, que graça teria a vida se, como nas histórias de cavalaria, os bons triunfassem sempre? De que se ocupariam então os “lutadores de causas perdidas”?
quinta-feira, janeiro 29, 2009
Duas pequenas notas sobre a "direita" política
- Tal é o afã do 31 da Armada na tentativa de incriminar o primeiro-ministro no caso Freeport que, vindo de onde vem, até alguém como eu, que me permito ter dúvidas, fica imediatamente convencido da tese socrática da cabala logo ao ler as primeiras linhas de qualquer um dos posts. Um mau serviço prestado à direita por um blog que dela se reclama. A tragédia é que normalmente é assim!
- Será que José Pacheco Pereira, um homem inteligente e de grande cultura, ainda consegue não se envergonhar pelo seu comportamento no "índice do situacionismo"? Ou será que, estando já na casa dos cinquenta e acho que muitos, estará a sofrer de alguma regressão e a voltar, fora de época, ao Pacheco Pereira (m-l)?
A política do carácter
Note-se que, ao fazer esta afirmação, não estou de modo algum a fazer nenhum juízo valorativo ou sequer a manifestar o meu acordo ou desacordo com tais práticas e respectivas consequências. Mas apenas a constatar um facto: o surgimento em força de uma nova era na política portuguesa em que as questões de carácter passam a ocupar um lugar relevante no combate político Por enquanto, as questões morais parecem permanecer felizmente fora deste modelo, não podendo, neste particular aspecto, evitar pronunciar-me soltando um muito sonoro e aliviado “ainda bem”!
Onde a propósito do caso Freeport se recordam Timor, Paulo Pedroso e o casal McCann
Há alguns anos (tudo parece ter-se passado já há muito), o país parou por uma antiga colónia, sem um povo, língua ou cultura próprias excepto aquelas que o colonizador católico tinha legado a uma pequena elite, a que não faltaram algumas vagas noções políticas aprendidas nas universidades europeias, tudo muito de acordo com o “ar do tempo”. Os "media" construíram rapidamente heróis - como só nas histórias de cavalaria existem - e esse jovem quase-país rapidamente conseguiu atingir os seus objectivos, aqueles a que se propunha. Não valerá muito a pena falar sobre o destino de tais heróis e de tal povo e jovem país, não muito diferente de muitos outros jovens países que nós, europeus, contribuímos para criar e sustentamos. Quaisquer notícias que de lá cheguem – e por vezes até conseguem ir chegando algumas – pouco mais merecem do que um encolher de ombros resignado e, dos "media", um lugar de pequeno destaque, que só não o será menor por razões de memória e para provarmos a nós próprios quanto as emoções combinam mal com a política.
Uns anos mais tarde, um juiz com aversão a “dress codes” apropriados à função, qual ar de boxeur saído do ginásio, Belarmino aprés la lettre, entrou com ar triunfante naquela que deveria ser – e eu acredito que seja – a casa da democracia e levou consigo um deputado acusado de um crime hediondo, daqueles que a actual civilização mais veementemente condena. Preso e enxovalhado por muitos “media”, pelo “povo da SIC”, foi uns meses mais tarde libertado sem sequer lhe ter sido deduzida qualquer acusação, exigindo indemnização a quem foi mandatário da sua prisão e enxovalho. Sendo meu vizinho, por vezes cruzo-me com ele e família, sempre pensando que pensará ele de mim e de todos os outros, nossos concidadãos. Quais e quantos destes, com que na rua se cruza, o terão invectivado, deverá interrogar-se?
Em Maio de 2007 um frémito de comoção quase fez parar o país por uma criança. Por uns jovens pais despedaçados. Todos corremos a proteger melhor os nossos e a duvidar do vizinho. Semanas mais tarde, aqueles por quem muitos de nós chorámos passaram a ser considerados suspeitos; assobiados na rua; julgados pelo “povo da SIC”, em directo e ao vivo. As “provas” apresentadas nos “media”; detalhes, considerados escabrosos, da sua vida sexual e privada sugeridos mediaticamente, em público; ambos apresentados ao mundo como era uso e costume nas freak parades de antanho. Ficou uma investigação incompetente, um nojo de xenofobia, uma criança por encontrar e criminosos por julgar. Uma família para sempre sob suspeita. Um inspector que, tal como o “macaco de rabo cortado”, de polícia se fez escritor, de escritor se fez arguido, de arguido se quis fazer político só não se sabendo se, seguindo os passos do seu inspirador, ta-ran-tan-tan se vai embora para Angola (onde estes pormenores por certo pouca relevância terão, acrescento).
Perguntarão... “mas que tem isto a ver com José Sócrates e com o caso Freeport"? Apenas um pequeno aviso, um avivar de memórias, caso seja necessário.


