quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Os quadros de Miró e o governo do "Manelinho"

Ok, o povo português deixou quase pacatamente que o governo vendesse a EDP e a REN a um mesmo Estado estrangeiro, onde não existe qualquer liberdade, nem sequer de iniciativa ou empresarial, e agora revolta-se quanto à venda no estrangeiro de uma colecção de obras de Miró. Que tenho eu a dizer a esta argumentação? Que ainda bem que se revolta pela venda de um património artístico, de obras de um grande pintor do século XX, pois tal significa que, apesar dos esforços em contrário deste governo, ainda lhe resta alguma sensibilidade, alguma dignidade aristocrática e não está reduzido a uma qualquer espécie de untermensch unicamente destinada à subsistência enquanto for capaz de produzir. Neste caso, o povo demonstrou bem não merecer o governo que tem nem a tentativa deste para transformar a política e a governação numa tarefa digna do "Manelinho" dos livros da Mafalda.

Já agora: sim, Joan Miró era catalão e não tinha qualquer ligação a Portugal. Mas Hieronymus Bosch também não era português, não consta alguma vez por cá tenha passado e espero ninguém se lembre um dia de ir às Janelas Verdes e decida leiloar "As Tentações de Santo Antão". Se, in illo tempore, o racional tivesse sido o mesmo, onde estaria hoje o quadro de Bosch?

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Os originais de "Os Conchas" (3)

Everly Brothers - "Poor Jenny"

Os Conchas - "Oh, Jenny!" (1961)

Man City FC - Chelsea FC

José Mourinho teve ontem um jogo à sua medida: era preciso defender bem e de forma concentrada (e ninguém defende melhor do que as equipas de Mourinho) e depois atacar em transições muito rápidas, tentando ganhar a bola em zonas altas ou fazendo-o em passes longos. Um meio-campo com David Luiz, Matic e Ramires (quem jogasse assim em Portugal seria crucificado) e um ataque com três diabos à solta, como Hazard (que jogador!), Willian e Eto'o, materializaram a estratégia. Só faltou e bom e velho amigo Drogba a ganhar as bolas longas para tudo ser ainda mais perfeito. Apesar de ter sido um jogo de apenas um golo, quem gosta mesmo de bola também gosta de ver como se defende tão bem e como, no campo, tudo parece tão perfeito como movimentar as peças  num tabuleiro de xadrez. Que lição!

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

"Parade's End"

"Parade's End" - Trailer

Uma cena é suficiente para marcar a diferença entre "Parade's End" e "Downton Abbey". Rebecca Hall prepara-se para tomar um banho e queixa-se à sua criada de quarto por na casa do Yorkshire não existir uma retrete, pedindo-lhe que arranje alguém que faça os despejos pois não gostaria de a ver a "despejar baldes". Depois, dois homens rudes e corpulentos, que parece não pertencerem ao "staff" da casa, aparecem transportando com dificuldade e vertendo para a banheira um enorme caldeirão de água quente, após o que a criada de quarto mede cuidadosamente, com um termómetro, a temperatura da água. Por fim, uma sofisticada e provocante Rebecca Hall tira o seu roupão, fica nua frente às câmaras e mergulha na banheira, não deixando também de desafiar sexualmente o seu marido (Benedict Cumberbatch) quando este aparece. Só esta cena marca indelevelmente a diferença entre o insípido e "delicodoce" "Downton Abbey", onde as personagens são meras caricaturas, e o bem bem denso, realista e provocante  "Parade's End" (Sábados, RTP2, 23.00h).

"Verdade desportiva" e regulamentação do mercado

O que é efectivamente mais importante (para não me ficar apenas pelo "importante") para a "verdade desportiva" (o termo está descredibilizado) no futebol?  Introduzir uma panóplia de "novas tecnologias" como ajuda aos árbitros, o que custará milhões e irá afectar o normal fluir do jogo tal como o conhecemos (a propósito: quantos dúvidas realmente importantes já ajudou o tão falado "olho de falcão" a esclarecer na actual edição da Premieship?) ou regulamentar "a sério" o sistema de transferências, impedindo a sua realização com as competições a decorrer, os empréstimos ente clubes que disputem as mesmas competições,  a separação entre direitos desportivos e económicos, implementando com seriedade o sistema de "fair play" financeiro, etc, etc?

Não, não são o dinheiro e o capitalismo que estão a destruir o futebol: a chegada do profissionalismo, dos patrocínios e das televisões fez o futebol progredir como nunca até aqui e tornou-o no espectáculo empolgante e globalizado que vemos hoje em dia. O que pode vir a destruir o futebol - tal como tem ajudado a criar enormes problemas às democracias e às sociedades - é a desregulamentação total de um negócio para o  qual as entidades gestoras do desporto (FIFA, UEFA), tal como os Estados, não estavam preparadas, deixando-se, por inépcia, corrupção ou incapacidade , capturar por interesses que podem bem acabar por os vir a destruir.

Motor City (15)

Paul Gayten - "The Hunch" (Novembro de 1959)

Paul Gayten - "Hot Cross Buns" (Novembro de 1959)

domingo, fevereiro 02, 2014

As divisões da esquerda

Muita gente continua a interrogar-se sobre as causas das divisões "à esquerda". Nada mais simples: entre o PS e os partidos "ditos" à sua esquerda existe um antagonismo inultrapassável na concepção da sociedade e o Estado, entre a democracia liberal, o Estado de Direito e o primado,  ou pelo menos a importância atribuída à livre iniciativa e, por outro lado, um modelo baseado no chamado "socialismo real", pese embora algumas "nuances" possam ser consideradas. Entre os partidos à esquerda do PS, todos eles herdeiros da revolução de 1917, a questão do "leninismo" e da "vanguarda", isto é, da verdadeira e exclusiva representação do proletariado como único agente da revolução. São estes os verdadeiros problemas; não me parece exijam grande reflexão nem sejam ultrapassáveis nos tempos próximos.

Matiné de Domingo (52)

"Pane, Amore e...", de Dino Risi (1955)
Filme completo c/ legendas em português

sábado, fevereiro 01, 2014

Gil Vicente FC - SLB

Para que não existam dúvidas: o SLB não venceu em Barcelos essencialmente por culpa do estado do terreno. Mas tendo dito isto, convém lembrar que mais uma vez Jorge Jesus esteve mal na condução da equipa. Se depois da expulsão da Siqueira pode ter estado bem ao decidir colocar Gaitán como defesa-esquerdo, mal o SLB passou para a frente do marcador deveria ter imediatamente reequilibrado a equipa, colocando alguém defensivamente mais consistente (Amorim) em campo por troca com Markovic, por exemplo. O golo do Gil Vicente FC teve aí origem, tal como já tinha acontecido há dois anos no jogo com o FCP, o do célebre golo de Maicón em "fora de jogo". Lembram-se?

Já agora:
  1. Estou convencido Oblak até é o melhor guarda-redes do plantel do SLB. Mas convém não construir ídolos, super-estrelas, campeões e coisas que tais antes de tempo. Muito menos gerir o plantel para agradar ao pseudo-jornalismo desportivo ou à rua benfiquista.
  2. Deixem-se dessas tretas de discutir se o "penalty" deveria ter sido marcado por Lima ou Cardozo. Por sinal, sou até de opinião não foi "penalty" e, se tivéssemos ganho graças a ele,  não me apetecia ter os "lagartos" a semana inteira  a chatearem-me a cabeça.
  3. (já no dia seguinte). Ainda não vi em Ivan Cavaleiro nada de melhor já não tenha visto em Markovic, Sulejmani e Djuricic, para não falar, claro, de Salvio e Gaitán. Pode ser que um dia... mas o "Glorioso" não pode viver dos "amanhãs que cantam". 

Documentário de sábado (24)

"Gallipoli - The First D-Day"