Capa de Marcelino Vespeira para "Gaivota em Terra", de David Mourão-Ferreira. Editora UlisseiaEu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
quinta-feira, março 05, 2009
5 capas de Vespeira (3)
Capa de Marcelino Vespeira para "Gaivota em Terra", de David Mourão-Ferreira. Editora Ulisseiaquarta-feira, março 04, 2009
História(s) da Música Popular (119)
Um pequeno desacordo com o Professor Silva Lopes
Consumo ou poupança a propósito do "Fórum" TSF
Bom, mas voltando ao cerne da questão. O problema a discutir, ao contrário do que propunha a TSF, não é como ensinar os portugueses a poupar, com excepção daqueles a quem o desemprego ou o lay-off a isso infelizmente obrigam. A questão é absolutamente a inversa: incentivar os cidadãos a gastarem o seu dinheiro do modo mais eficaz para o país e o mundo saírem da crise e para, mais cedo ou mais tarde, não serem nela e por ela arrastados. Fomentar o consumo (enquanto existe disponibilidade financeira para tal) e não a poupança que o medo e a incerteza geram. Talvez não se apercebam disso, mas, na conjuntura actual e ao incentivarem a poupança, a TSF e os cidadãos estão apenas a ajudar a cavar a sua própria sepultura.
terça-feira, março 03, 2009
Congressos partidários e discussão política
"The Duchess"
Já agora: não me parece se possa traduzir a forma de tratamento “your grace” por “sua excelência”, uma forma de tratamento que me parece nada ter a ver com a tradição aristocrática. Melhor tradução seria “vossa senhoria”, vossa graça” ou “vossa mercê”.
segunda-feira, março 02, 2009
Um pouco mais de rigor, sff
A semana passada, no dia em que oficialmente acabava o período de saldos, ouvi na rádio (TSF ou RCP, não me lembro) uma pequena reportagem sobre como, do ponto de vista dos comerciantes de algumas lojas de Lisboa, com maior ou menor sucesso, aquele tinha decorrido. As opiniões variavam, mas aqueles a quem o negócio não tinha decorrido de acordo com as legítimas expectativas queixavam-se da falta de dinheiro “das pessoas”, opinião corroborada pela jornalista - repórter. Algum rigor, por favor.
Sejamos claros. Para as famílias que conseguem manter o emprego, o rendimento disponível aumentou, e é esta uma das características específicas da actual crise e à qual as pessoas não estavam habituadas (até aqui, crise significava essencialmente aumento de salários inferior à inflação). A inflação baixou para níveis muito inferiores aos previstos mantendo-se os níveis de aumento salarial e as taxas de juro (uma maioria da população activa urbana tem pelo menos um empréstimo a pagar) baixaram substancialmente. Isto significa que em zonas onde o nível de emprego não sofreu forte alteração (Lisboa será um dos casos) não existem razões reais e efectivas, do lado do rendimento das famílias, para uma diminuição da procura.
A questão é bem outra, e prende-se mais com a gestão de expectativas e com razões emocionais. Temendo o futuro em situação de incerteza, mesmo quem tem emprego garantido (como os funcionários públicos), ou quem não tenha razões para fortes suspeitas de que ele se não mantenha, pelo menos no curto prazo, tende não só a optar pela poupança ou por investimentos de rentabilidade assegurada, diminuindo o consumo, como a decidir adiar consumos, esperando mais e maiores certezas ou que os preços baixem. Claro que isto só pode gerar ainda mais crise, levando à diminuição do nível de actividade económica e a mais desemprego.
Talvez fique assim bem clara - com esta explicação prosaica - uma das razões porque uma diminuição dos impostos - independentemente de outras consequências que não são agora para aqui chamadas - possa não ter como resultado imediato um correspondente aumento do investimento e do consumo, logo, talvez não constituindo a receita mais eficaz para resolver ou atenuar a crise.
domingo, março 01, 2009
"Doce": "Portugal goes pop"
A nível político, a direita da AD tinha alcançado o poder e a inabilidade política de Sá Carneiro propunha um general politicamente “suspeito” como candidato presidencial, talvez pensando que os tempos em que Melo Antunes tinha salvo, com apenas uma frase, um regime plenamente democrático já não se repetiriam. Eanes renovou o seu mandato, pôs a tropa nos quartéis e a revisão constitucional de 1982 (Soares, uma vez mais) abriu caminho à CEE.
A música que tinha marcado uma década (a de setenta), a chamada de “intervenção”, dos “pais fundadores” da música popular portuguesa, e a da revolução na música ligeira protagonizada nos Festivais da Canção por muitos nomes ligados, conjunturalmente ou não, ao PCP, como Ary dos Santos, Tordo, etc, estava em refluxo. A chamada música “pimba”, num país ainda com grandes manchas de ruralidade, restringia-se, envergonhadamente, às feiras de província e às cassetes pirata. Num país com televisão a “preto e branco”, aquela que tinha sido, talvez, a última manifestação de cultura de massas e, simultaneamente, de combate político no rescaldo da revolução de Abril (“A Visita da Cornélia”), entre a esquerda de “Pitum” e José Fanha (entre outros) e a direita de Gonçalo Lucena e Rui Guedes, tinha obrigado a RTP a contorcer-se para dar a vitória a um “moderado” que não deixou rasto nem nome. Em 1980, a televisão a cores anunciava um novo Portugal e uma nova era, mais moderna, cosmopolita, urbana e suburbana. Uma sociedade mais aberta e interclassista. Mais europeia, enfim.
É este “caldo de cultura” que irá gerar a emergência de novas realidades a nível tanto da música popular como da música ligeira, e até uma maior fusão entre elas. A formação e autonomização de uma cultura suburbana - um pouco á semelhança do acontecido com o movimento “mod” londrino dos anos 60 - protagonizada pelos filhos dos seus primeiros habitantes, já nascidos junto à cidade ou já sem memórias do mundo rural dos seus pais, irá fazer nascer aquilo que ficou conhecido como o “novo rock português”, onde a influência anglo-saxónica do movimento “punk” – mas não só – é notória. A emergência do embrião daquele que viria a ser o movimento LGBT, assumindo uma certa marginalidade urbana, gera um dos nomes mais interessantes da música popular portuguesa de sempre e a sua morte prematura, vítima de AIDS, um movimento de culto. A nível “mainstream”, perante o quadro acima descrito e a chegada à adolescência de quem, então criança, não tem memórias de Abril, estão criadas as condições políticas e sociais para que a música “pop”, despretensiosa e tendo como único objectivo ganhar dinheiro através do puro divertimento (sem mais), mas já com um profissionalismo e rigor marcados pela chegada de Portugal ao capitalismo concorrencial e à modernidade europeia, faça o seu caminho e preencha o espaço que em muitos países é o seu. Nada de surpreendente que esse lugar seja ocupado pelas “Doce”, talvez, em Portugal, o primeiro grupo concebido e criado por um produtor (tal como as Chiffons, Cookies, Crystals, etc, vinte anos antes nos USA) na base de um conceito que tinha a ver com as condições da época e vai marcar a imagem do grupo: abertura europeia, degelo político, televisão a cores, disseminação do erotismo e dessacralização do sexo. Será a conjugação de todas estas condições que vai proporcionar o nascimento do grupo e potenciar o seu enorme e merecido sucesso.
Nota: Devo pedir desculpa pela má qualidade do vídeo aqui apresentado, mas, pelo que acima afirmei, acho que as “Doce” são indissociáveis da imagem e o facto de se tratar de uma sua presença no “Tal Canal”, outro elemento da “cultura de massas” que simbolizou a passagem de Portugal à era da modernidade, tornava-o incontornável.


