quinta-feira, março 05, 2009

quarta-feira, março 04, 2009

História(s) da Música Popular (119)

Chuck Berry - "Come On"

Muddy Waters - "I Want To Be Loved"
"Under The Influence" - The original songs of the "British Invasion" (II)
Algo que define logo, bem á partida, a diferença entre Beatles e Rolling Stones são os respectivos primeiros “singles”. Enquanto os Beatles optam por uma composição de Lennon e McCartney (“Love Me Do”) os Stones homenageiam a música negra americana numa composição de Chuck Berry, “Come On”. No “B” side um outro tema de um grande nome do "blues" moderno, Willie Dixon, que tenho acompanhado aqui no “Gato Maltês”: “I Want To Be Loved”. Estão aqui bem definidas as origens, abordagem e imagem de ambos os grupos. Enquanto os Beatles, apesar da influência dos pioneiros do "rock n’ roll", nascem do “skiffle” e isso se vem sempre a reflectir na sua música tendencialmente mais melódica e mais “pop”, na sua imagem mais “clean”, na sua aceitação enquanto “family group”, os Stones mergulham as suas raízes no "blues" e no "rhythm n’ blues" e nos seus clubes londrinos de Richmond (Crawdaddy) e de Oxford Street (Marquee). Essas origens vão marcar para sempre a sua música e os seus relativos fracassos quando está demasiado ausente (“Their Satanic Majesties Request, por exemplo), e é também isso que torna possível e credível essa sua imagem de "bad boys", por contraste com o grupo do Merseyside uma vez abandonados os seus blusões de cabedal. A confirmar tudo isto, enquanto todos os “singles” do grupo de Liverpool são composições de Lennon e McCartney, sem excepção, só um ano depois de "Come On" (Junho de 1964) os Stones gravam um “single” assinado por Jagger e Richards: “Tell Me”. Mesmo assim, no “B” side encontramos, mais uma vez, um tema de Willie Dixon tornado popular por Etta James: “I Just Want To Make Love To You”. Isto depois de passarem por Buddy Holly/Bo Diddley e Bobby Womack. Mas lá iremos.

Um pequeno desacordo com o Professor Silva Lopes

Por uma vez, ouso (o termo é mesmo esse, dada a estatura que lhe reconheço enquanto cidadão e como economista) estar em desacordo com o Professor Silva Lopes, alguém a quem muito respeito e a quem escuto sempre com redobrada atenção. Não me parece que possa constituir uma boa medida congelar os salários de quem tem emprego para financiar os desempregados, por muito socialmente justa que a medida seja – e é-o. Claro que o rendimento das famílias não diminuiria, tratando-se apenas de uma transferência entre as mesmas, mas temo que a consequência, mesmo sendo a propensão marginal para consumir mais elevada nas famílias de menores recursos, logo, nos beneficiários da medida, fosse um aumento exponencial, não compensador, da poupança e uma enorme retracção do consumo nas famílias não atingidas pelo desemprego, face ás expectativas negativas que tal medida acarretaria. E isso será mesmo o que se não deseja. No mínimo, seria necessário fazer algumas contas e ter muito cuidado.
Já a redução dos salários mais elevados me parece uma medida moral e socialmente justa, um sinal para à sociedade, embora as suas repercussões globais me pareçam quase negligenciáveis.

Consumo ou poupança a propósito do "Fórum" TSF

Hoje, a TSF preparava-se para editar mais um dos seus “fóruns”, desta vez sobre o modo como, em virtude da crise económica, os portugueses podem poupar. Baseava-se a estação em dados como o aumento do número de frequentadores de balneários públicos, idosos que não aviavam inteiramente as receitas médicas e, no fundo, outras questões tendo por base implícita a diminuição do rendimento disponível. Como já por aqui afirmei, uma falácia: para quem mantém ou não está em risco de perder o emprego, para reformados e pensionistas, para servidores do Estado, nas regiões ainda não muito atingidas pelo desemprego ou pelo lay-off, o rendimento disponível, por via de uma taxa de inflação e juros em forte regressão, aumentou como nunca tinha acontecido nos últimos anos. Assim, se podemos compreender que a crise (maior número de desempregados) tenha feito aumentar recentemente o número de frequentadores de balneários públicos dado esses frequentadores serem em número muito reduzido, já os restantes exemplos e o modo como foram apresentados, na sua relação causa/efeito, me parecem despropositados. Por exemplo, reformados e pensionistas, por muito que os seus rendimentos sejam baixos – e em muitos casos são-no – viram aumentado este ano o seu poder de compra. Se existirão fortes razões para que cortem nas despesas, incluindo na compra de medicamentos, essas razões não serão conjunturais, acontecendo mesmo a contra-ciclo da conjuntura. Serão emocionais e não racionais. Como nota à margem, penso que até poderão conter algo de positivo, pois a sobre–medicação constitui um dos problemas de sustentabilidade do SNS. Para que não me julguem insensível aos problemas dos idosos, “dos “velhinhos”, o que se passa é que a incultura e pobreza de uma boa parte da população idosa, em Portugal, faz com que aceitem mal saírem do seu Centro de Saúde sem uma boa lista de medicamentos para tomar, uma parte pouco ou nada mais do que inútil. Médico que não o faça será suspeito de incompetência. Por sua vez, estes, para não se maçarem muito nem serem acusados de negligência, não hesitam na cumplicidade.

Bom, mas voltando ao cerne da questão. O problema a discutir, ao contrário do que propunha a TSF, não é como ensinar os portugueses a poupar, com excepção daqueles a quem o desemprego ou o lay-off a isso infelizmente obrigam. A questão é absolutamente a inversa: incentivar os cidadãos a gastarem o seu dinheiro do modo mais eficaz para o país e o mundo saírem da crise e para, mais cedo ou mais tarde, não serem nela e por ela arrastados. Fomentar o consumo (enquanto existe disponibilidade financeira para tal) e não a poupança que o medo e a incerteza geram. Talvez não se apercebam disso, mas, na conjuntura actual e ao incentivarem a poupança, a TSF e os cidadãos estão apenas a ajudar a cavar a sua própria sepultura.

terça-feira, março 03, 2009

Congressos partidários e discussão política

Não engrosso o coro de carpideiras pelo fim da discussão política nos congressos partidários. Aliás, como já deixei expresso em pequena nota do “Twitter”, parece-me que os congressos partidários e as assembleias gerais dos clubes de futebol serão tudo menos os locais mais indicados para discutir aquilo que move as organizações que lhes estão na base e dão razão à sua existência: política e gestão desportiva e financeira. Escassa é a minha participação em congressos partidários, mas alguma experiência colhida nas assembleias gerais do meu clube (SLB) nos anos 80 e 90 será suficiente para fazer o paralelismo e recusar o engodo. Peço imensa desculpa, mas o populismo e demagogia normalmente “à solta” em tais conclaves (se quiserem, chamem-lhes “paixão”), muito mais emoção (e comoção) que razão, não me parecem ser os ingredientes mais adequados e necessários para discutir complexas decisões que envolvem a gestão de milhões de euros (nos clubes) ou o futuro da pátria. Bem melhor será deixar tal desiderato para reuniões mais restritas, no caso dos partidos, para as secções e freguesias, as pequenas e certamente mais calmas e mais restritas reuniões locais. Penso tudo, ou muito, se terá a ganhar (excepto para maledicência mediática, claro, travestida de comentário político) e entendo mal que quem enaltece o modo como funcionam as primárias americanas (discussões locais e congressos de consagração) se abespinhe agora com a falta de debate partidário nos congressos pátrios. Mas parece que o que se pretende não é, de facto, discussão política, mas, na realidade, material que alimente a sempre rentável maledicência indígena.

"The Duchess"

“The Duchess” ficaria bem melhor como mini-série de dois episódios, mas, para além do meu “fraquinho” por Keira Knightley me empurrar sempre para onde quer que ela esteja, o filme conseguiu, talvez devido à minha notória anglofilia, o raro objectivo de não me entediar (longe disso), o mesmo não podendo dizer de alguns dos candidatos a Óscares. Que lhe falta? Talvez uma abordagem mais “crua” e sincera à personalidade da duquesa (que tem o seu quê de Marie Antoinette inglesa), ao modo, nem sempre claro, como exerceu a sua influência política mas também aos seus vícios pelo jogo e pelo esbanjamento. Digamos que o tudo no filme parece propositadamente demasiado “flat” e pouco contrastante, fabricado para jogar com as evidentes semelhanças entre algumas facetas da vida e personalidade da duquesa e a imagem deixada nas revistas cor-de-rosa e nos meios mais populares pela sua descendente Diana Spencer. Mas se hoje sabemos essa imagem é apenas uma parte evidente da realidade, convenhamos que o evidente reaccionarismo, a personalidade rústica e desinteressante do Duque de Devonshire e a sensibilidade artística de Charles Windsor também nada têm em comum. No fundo, se me perguntarem o que falta ao filme sintetizarei numa palavra: dramatismo; algo que efectivamente nos agarre e faça viver.

Já agora: não me parece se possa traduzir a forma de tratamento “your grace” por “sua excelência”, uma forma de tratamento que me parece nada ter a ver com a tradição aristocrática. Melhor tradução seria “vossa senhoria”, vossa graça” ou “vossa mercê”.

segunda-feira, março 02, 2009

Erich Kästner, Walter Trier e "Emílio e os Detectives"


Ilustrações de Walter Trier para "Emílio e os Detectives" de Erich Kästner

"Alice in Wonderland" by Sir John Tenniel (4)

Alice Stretched Tall

Um pouco mais de rigor, sff

A semana passada, no dia em que oficialmente acabava o período de saldos, ouvi na rádio (TSF ou RCP, não me lembro) uma pequena reportagem sobre como, do ponto de vista dos comerciantes de algumas lojas de Lisboa, com maior ou menor sucesso, aquele tinha decorrido. As opiniões variavam, mas aqueles a quem o negócio não tinha decorrido de acordo com as legítimas expectativas queixavam-se da falta de dinheiro “das pessoas”, opinião corroborada pela jornalista - repórter. Algum rigor, por favor.

Sejamos claros. Para as famílias que conseguem manter o emprego, o rendimento disponível aumentou, e é esta uma das características específicas da actual crise e à qual as pessoas não estavam habituadas (até aqui, crise significava essencialmente aumento de salários inferior à inflação). A inflação baixou para níveis muito inferiores aos previstos mantendo-se os níveis de aumento salarial e as taxas de juro (uma maioria da população activa urbana tem pelo menos um empréstimo a pagar) baixaram substancialmente. Isto significa que em zonas onde o nível de emprego não sofreu forte alteração (Lisboa será um dos casos) não existem razões reais e efectivas, do lado do rendimento das famílias, para uma diminuição da procura.

A questão é bem outra, e prende-se mais com a gestão de expectativas e com razões emocionais. Temendo o futuro em situação de incerteza, mesmo quem tem emprego garantido (como os funcionários públicos), ou quem não tenha razões para fortes suspeitas de que ele se não mantenha, pelo menos no curto prazo, tende não só a optar pela poupança ou por investimentos de rentabilidade assegurada, diminuindo o consumo, como a decidir adiar consumos, esperando mais e maiores certezas ou que os preços baixem. Claro que isto só pode gerar ainda mais crise, levando à diminuição do nível de actividade económica e a mais desemprego.

Talvez fique assim bem clara - com esta explicação prosaica - uma das razões porque uma diminuição dos impostos - independentemente de outras consequências que não são agora para aqui chamadas - possa não ter como resultado imediato um correspondente aumento do investimento e do consumo, logo, talvez não constituindo a receita mais eficaz para resolver ou atenuar a crise.

domingo, março 01, 2009

"Doce": "Portugal goes pop"

"Doce" - "Amanhã de Manhã"
Quando se inicia a década de oitenta do século XX, os ecos do PREC são cada vez mais longínquos, e o rescaldo do 25 de Novembro está em fase de dissipação. O tempo em que as dissenções políticas tinham divido famílias e destruído amizades, forjando outras talvez menos duradouras e mais ditadas pela conjuntura, em que a proximidade vivêncial não era ditada por personalidades, classes sociais ou formação educacional e intelectual, mas pela afinidade ideológica e partidária, caminhava para o seu fim.

A nível político, a direita da AD tinha alcançado o poder e a inabilidade política de Sá Carneiro propunha um general politicamente “suspeito” como candidato presidencial, talvez pensando que os tempos em que Melo Antunes tinha salvo, com apenas uma frase, um regime plenamente democrático já não se repetiriam. Eanes renovou o seu mandato, pôs a tropa nos quartéis e a revisão constitucional de 1982 (Soares, uma vez mais) abriu caminho à CEE.

A música que tinha marcado uma década (a de setenta), a chamada de “intervenção”, dos “pais fundadores” da música popular portuguesa, e a da revolução na música ligeira protagonizada nos Festivais da Canção por muitos nomes ligados, conjunturalmente ou não, ao PCP, como Ary dos Santos, Tordo, etc, estava em refluxo. A chamada música “pimba”, num país ainda com grandes manchas de ruralidade, restringia-se, envergonhadamente, às feiras de província e às cassetes pirata. Num país com televisão a “preto e branco”, aquela que tinha sido, talvez, a última manifestação de cultura de massas e, simultaneamente, de combate político no rescaldo da revolução de Abril (“A Visita da Cornélia”), entre a esquerda de “Pitum” e José Fanha (entre outros) e a direita de Gonçalo Lucena e Rui Guedes, tinha obrigado a RTP a contorcer-se para dar a vitória a um “moderado” que não deixou rasto nem nome. Em 1980, a televisão a cores anunciava um novo Portugal e uma nova era, mais moderna, cosmopolita, urbana e suburbana. Uma sociedade mais aberta e interclassista. Mais europeia, enfim.

É este “caldo de cultura” que irá gerar a emergência de novas realidades a nível tanto da música popular como da música ligeira, e até uma maior fusão entre elas. A formação e autonomização de uma cultura suburbana - um pouco á semelhança do acontecido com o movimento “mod” londrino dos anos 60 - protagonizada pelos filhos dos seus primeiros habitantes, já nascidos junto à cidade ou já sem memórias do mundo rural dos seus pais, irá fazer nascer aquilo que ficou conhecido como o “novo rock português”, onde a influência anglo-saxónica do movimento “punk” – mas não só – é notória. A emergência do embrião daquele que viria a ser o movimento LGBT, assumindo uma certa marginalidade urbana, gera um dos nomes mais interessantes da música popular portuguesa de sempre e a sua morte prematura, vítima de AIDS, um movimento de culto. A nível “mainstream”, perante o quadro acima descrito e a chegada à adolescência de quem, então criança, não tem memórias de Abril, estão criadas as condições políticas e sociais para que a música “pop”, despretensiosa e tendo como único objectivo ganhar dinheiro através do puro divertimento (sem mais), mas já com um profissionalismo e rigor marcados pela chegada de Portugal ao capitalismo concorrencial e à modernidade europeia, faça o seu caminho e preencha o espaço que em muitos países é o seu. Nada de surpreendente que esse lugar seja ocupado pelas “Doce”, talvez, em Portugal, o primeiro grupo concebido e criado por um produtor (tal como as Chiffons, Cookies, Crystals, etc, vinte anos antes nos USA) na base de um conceito que tinha a ver com as condições da época e vai marcar a imagem do grupo: abertura europeia, degelo político, televisão a cores, disseminação do erotismo e dessacralização do sexo. Será a conjugação de todas estas condições que vai proporcionar o nascimento do grupo e potenciar o seu enorme e merecido sucesso.

Nota: Devo pedir desculpa pela má qualidade do vídeo aqui apresentado, mas, pelo que acima afirmei, acho que as “Doce” são indissociáveis da imagem e o facto de se tratar de uma sua presença no “Tal Canal”, outro elemento da “cultura de massas” que simbolizou a passagem de Portugal à era da modernidade, tornava-o incontornável.