Compreendo os problemas da chamada “geração à rasca”, com dificuldade em estabilizar e organizar a sua vida, presente e futura, fruto do elevado desemprego e da precariedade. Isto apesar de muitos deles terem optado por licenciaturas (aqueles que as obtiveram) e universidades (por insuficiência de média, note-se) que sabiam à partida constituiriam um “handicap” para um emprego mais estável e razoavelmente remunerado: não me parece nesse caso pudessem alguma vez ter alimentado grandes expectativas. Escusado dizer que têm todo o direito a manifestar-se e, até, desde que respeitando a lei e as instituições democráticas, com a irreverência própria de quem tem menos de 30 anos.
Mas tendo dito isto, gostaria de lembrar à “geração à rasca” que na minha geração, a imediatamente anterior (os meus filhos estão actualmente nos “early thirties”), a dos “baby boomers” do pós-guerra, apenas uma minoria, os razoavelmente privilegiados, conseguiam obter uma licenciatura; existia uma guerra colonial que ocupava entre três e quatro anos das nossas vidas (eu prestei serviço militar durante 40 longos meses) e ninguém conseguia um emprego fora do Estado sem a “tropa feita”; exactamente por essa razão, a vida profissional começava tarde, muito tarde (eu comecei-a aos 26 anos!); iniciar um negócio (uma empresa) por conta própria, excepto para as profissões liberais, era pouco menos do que uma miragem; não existia crédito pessoal para férias, viagens, etc (eu, como de certo modo era privilegiado, quando precisava pedia um empréstimo pedia à família e ia fazendo pequenos trabalhos para o pagar); conseguir um passaporte antes de cumprido o serviço militar era quase impossível e não existiam InterRail, Erasmus, etc.; muitos de nós, alguns mesmo bastante qualificados, tendo começado a trabalhar já tarde pelas razões que expliquei, e tendo sido apanhados por situações de reforma pouco depois dos 50 anos de idade (conheço vários), acabaram por ter uma vida contributiva relativamente curta, o que se reflecte nas respectivas pensões de reforma, algumas muito, mas muito abaixo dos salários que auferiam; se para quem saiu de casa dos pais antes do 25 de Abril alugar uma casa era relativamente simples, a seguir à revolução isso era quase impossível e até aos anos 90 comprar casa era para quem podia dispor de dinheiro para uma entrada relativamente generosa. Vá lá, a vida profissional talvez tivesse um carácter menos competitivo do que hoje (de certeza teria). Podia alongar-me, falando inclusivamente sobre o que é crescer e viver em ditadura, mas não quero tornar-me fastidioso - e os exemplos, penso, serão suficientes.
Resumindo... Tem a actual “geração à rasca” razões para se sentir insegura e aspirar, protestando, a uma vida mais estável e compensadora? Estou certo que sim: cada geração tem os seus próprios problemas e não devem (politicamente, não podem) as gerações anteriores ignorá-los e incompreendê-los. Mas talvez não tenha assim tanta razão quando considera privilegiada a geração dos seus pais e muito menos a terá quando pensa que é única em sacrifícios. E como descendente de uma família de estrangeiros, nem sequer ouso citar os europeus que se sacrificaram nas duas guerras mundiais ou na guerra civil de Espanha para que a minha geração pudesse viver alguns anos de paz e prosperidade económica, e a actual viajasse por todo um continente sem sequer ter que trocar dinheiro ou usar um passaporte. Vale?
Mas tendo dito isto, gostaria de lembrar à “geração à rasca” que na minha geração, a imediatamente anterior (os meus filhos estão actualmente nos “early thirties”), a dos “baby boomers” do pós-guerra, apenas uma minoria, os razoavelmente privilegiados, conseguiam obter uma licenciatura; existia uma guerra colonial que ocupava entre três e quatro anos das nossas vidas (eu prestei serviço militar durante 40 longos meses) e ninguém conseguia um emprego fora do Estado sem a “tropa feita”; exactamente por essa razão, a vida profissional começava tarde, muito tarde (eu comecei-a aos 26 anos!); iniciar um negócio (uma empresa) por conta própria, excepto para as profissões liberais, era pouco menos do que uma miragem; não existia crédito pessoal para férias, viagens, etc (eu, como de certo modo era privilegiado, quando precisava pedia um empréstimo pedia à família e ia fazendo pequenos trabalhos para o pagar); conseguir um passaporte antes de cumprido o serviço militar era quase impossível e não existiam InterRail, Erasmus, etc.; muitos de nós, alguns mesmo bastante qualificados, tendo começado a trabalhar já tarde pelas razões que expliquei, e tendo sido apanhados por situações de reforma pouco depois dos 50 anos de idade (conheço vários), acabaram por ter uma vida contributiva relativamente curta, o que se reflecte nas respectivas pensões de reforma, algumas muito, mas muito abaixo dos salários que auferiam; se para quem saiu de casa dos pais antes do 25 de Abril alugar uma casa era relativamente simples, a seguir à revolução isso era quase impossível e até aos anos 90 comprar casa era para quem podia dispor de dinheiro para uma entrada relativamente generosa. Vá lá, a vida profissional talvez tivesse um carácter menos competitivo do que hoje (de certeza teria). Podia alongar-me, falando inclusivamente sobre o que é crescer e viver em ditadura, mas não quero tornar-me fastidioso - e os exemplos, penso, serão suficientes.
Resumindo... Tem a actual “geração à rasca” razões para se sentir insegura e aspirar, protestando, a uma vida mais estável e compensadora? Estou certo que sim: cada geração tem os seus próprios problemas e não devem (politicamente, não podem) as gerações anteriores ignorá-los e incompreendê-los. Mas talvez não tenha assim tanta razão quando considera privilegiada a geração dos seus pais e muito menos a terá quando pensa que é única em sacrifícios. E como descendente de uma família de estrangeiros, nem sequer ouso citar os europeus que se sacrificaram nas duas guerras mundiais ou na guerra civil de Espanha para que a minha geração pudesse viver alguns anos de paz e prosperidade económica, e a actual viajasse por todo um continente sem sequer ter que trocar dinheiro ou usar um passaporte. Vale?
Não me parece que esta geração considere que as gerações anteriores sejam privilegiadas. De qualquer forma, de que serve existir interrail, erausmus e todas as coisas que actualmente existem ao dispôr se as pessoas lutam para sobreviver todos os dias e não podem ter acesso a elas. Compararmo-nos com as gerações passadas e dizer que hoje é mais fácil e que estamos melhor, é dizer que devemos deixar as coisas como estão. A falta de visão e ambição é uma das principais razões para manter o "status quo". É pena que assim seja para bem do nosso país.
ResponderEliminar"Compararmo-nos com as gerações passadas e dizer que hoje é mais fácil e que estamos melhor, é dizer que devemos deixar as coisas como estão."
ResponderEliminarNão digo tal coisa, Pedro, como pode ver se ler o "post" c/ atenção. Inclusivamente, afirmo que percebo a frustração da geração actual e saliento o seu direito a manifestar-se. Apenas pretendo pôr em evidência que gerações anteriores tb tiveram os seus problemas e estiveram, por motivos vários, tão ou mais "à rasca" do que a geraçõ actual. E tb não é verdade que a geração actual não possa ter acesso a Erasmus e InterRail. Muitos o têm,como sabe,e ainda bem.Torna-os mais cosmopolitas e informados.
Cumprimentos
Ao que leio, doze jovens (doze), resolveram interromper o discurso de Sócrates, para se manifestarem. A blogosfera, cheia de activistas de sofá, deixou logo quinze posts no Twingly do Público a salivarem de contentamento. Sou insuspeito de gostar de Sócrates, já o disse aqui, mas não me parece o local indicado. Sabiam que o ambiente era hostil e mais do que isso, inadequado. É de má educação interromper o jantar de alguém, dizendo que a comida está um lixo. Mas isso não se aprende na universidade, aprende-se em casa. A agitação é na rua, e na rua doze gatos-pingados não têm visibilidade nenhuma. O que vocês querem é aparecer. Manifestem-se na rua, mobilizem, não façam agitprop para TV ver. É na rua que se travam os combates, não em salas partidárias ...
ResponderEliminarPonham os olhinhos no médio oriente.
Tb achei inadequado e de mau gosto, abusivo, terem interrompido a sessão daquela maneira. Aí, de acordo consigo,Fernando. Foi apenas uma maneira de promover a manif. e criarem algum clima de crispação que favorecesse os seus intentos. Nada justifica que um tal incidente s/ importância justifique tanto mediatismo.
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