quarta-feira, julho 09, 2014

4ªs feiras, 18.15h (86) - Novo cinema alemão (II)

"Die Ehe der Maria Braun", de Rainer Werner Fassbinder (1979)
Filme completo c/ legendas em inglês

3 notas 3 sobre a goleada de ontem

  1. O Brasil-Alemanha de ontem foi quase um "copy paste" do Portugal-Alemanha: ambas as equipas (Portugal e Brasil) pensaram que poderiam jogar contra este Bayern travestido de "Mannschaft" "de igual para igual", "olhos nos olhos", e duas ou três jogadas iniciais, criando relativo perigo, ainda mais os convenceram. Pagaram cara a ousadia ainda dentro do primeiro quarto de hora e, a partir daí, ficaram "perdidos na tradução", sem saberem se deviam recuar e juntar linhas, evitando a goleada, ou manter o plano inicial. Sem cabeça, o Brasil de ontem optou por tentar recuperar "à maluca" (é mesmo o termo), sofrendo as consequências. Podiam ter sido dez.
  2. A semelhança vai até ao ponto de ambas as equipas dependerem demasiado de um jogador: Cristiano Ronaldo, no caso português, e Neymar, no caso do Brasil. Acontece que o primeiro jogou inferiorizado e o segundo nem sequer jogou. Fatal. Se, no caso de Portugal, ainda se compreende tal dependência de Cristiano (havia demasiados "pernas de pau" na equipa), no caso do Brasil, com bons jogadores para dar e vender (excepção ao tal Fred que nem na selecção portuguesa teria lugar), tal dependência é incompreensível. Ou melhor, revela uma total ausência de ideias e de plano de jogo.
  3. Muito mais do que Thiago Silva, David Luiz é bem o "capitão" de Scolari e símbolo desta equipa do Brasil: pouca ou nenhuma cabeça, indisciplina táctica total e muito mais emoção do que razão. Como foi possível ver os jogadores alemães trocarem três e quatro passes em plena grande-área brasileira até fazerem golo? 

terça-feira, julho 08, 2014

Roy Orbison SUN recordings (3)

"Rockhouse" - Sun #251 (1956)

Clubes portugueses: dívida e estabilidade

Os principais clubes portugueses têm vivido nos últimos anos essencialmente da dívida que foram contraindo. Falando do meu clube, Luís Filipe Vieira finalmente percebeu (ou teve condições para implementar o que já tinha percebido) que apenas investindo a um nível semelhante ao do FCP conseguiria competir com este pela hegemonia do futebol português. E se esta hegemonia ainda não foi plenamente conseguida, o SLB conseguiu pelo menos dois títulos nacionais, uma Taça de Portugal e presença em duas finais consecutivas da Liga Europa, elevando o seu nível competitivo e tornando-se uma cada vez maior ameaça para o seu rival do norte. É preciso também perceber que a dívida não terá sido contraída apenas com recurso ao crédito bancário, agora cada vez mais escasso ou até inexistente, mas também através de processos de engenharia financeira que terão envolvido os chamados "fundos" e alguns empresários FIFA a esses fundos directa ou indirectamente ligados. Bem ou mal, com maior ou menor regulamentação do mercado (e já escrevi várias vezes o que penso sobre o assunto), foi assim que, com maior ou menor êxito, os três principais clubes portugueses foram vivendo. Há agora, pois, que pagar a factura.

Se há alguns anos não era tanto a necessidade de vender, mas a incapacidade para pagar em conformidade com as ofertas dos melhores emblemas europeus, que levava os clubes portugueses a venderem os passes dos seus melhores jogadores, a isso junta-se agora a necessidade de realizar valor para pagar a dívida entretanto contraída, pelo que daí resulta a impossibilidade de manter plantéis com um mínimo de estabilidade ao longo dos anos, até porque também a necessidade de recurso a processos de engenharia financeira se acentuará. A estabilidade necessária a qualquer organização bem sucedida, essa, tenderá transferir-se para as direcções e administrações dos clubes, seguindo o caminho já traçado pelo FCP há vários anos, e para a manutenção das equipas técnicas durante períodos mais longos, como acontece agora no SLB, assegurando desse modo a continuidade de culturas, filosofias e valores, quer a nível da gestão dos clubes, quer de processos e modelos de jogo. É a vida ou, parafraseando um outro, habituem-se.

Cavaco Silva e o "beija-mão real"


Ora vamos lá ver, embora a coisa não passe quase de um "fait divers".

Cavaco Silva é quem é, nasceu onde nasceu - aliás, nunca o escondeu - e numa república democrática qualquer cidadão pode, felizmente, ascender, por escolha dos seus concidadãos, à chefia do Estado, desde que cumpridos determinados preceitos legais (em Portugal, ser maior de 35 anos e ter tido sempre a nacionalidade portuguesa, para além de outras "minudências"). Por isso mesmo, Cavaco Silva não é obrigado a ter nascido ensinado: alguém pouco avisado lhe terá um dia dito que era chique beijar a mão a uma senhora, principal mente sendo rainha (para além de nova e "gira") e pronto, ele acreditou; fizesse o mesmo à rainha de Inglaterra e eu gostaria de ter visto - mas aí a coisa "fia mais fino".

Mas sendo quem é - e mesmo que outro fosse - Cavaco Silva não tem, neste caso, qualquer responsabilidade por quase ter "lambido a mão" a Letízia Ortiz: é para gerir coisas deste género que existe o chamado Protocolo de Estado, dirigido por um embaixador de carreira, e caberia a esse mesmo Protocolo definir junto de Cavaco Silva e de outras entidades oficiais quais as formas de tratamento e cumprimento adequadas na circunstância, para além de tudo o resto que é habitual em visitas deste tipo. Poupava Cavaco Silva - que bem ou mal é Presidente da República - à chacota e o Estado português ao ridículo.

segunda-feira, julho 07, 2014

Ainda a propósito da Prússia...

Frederico o Grande (1712 - 1786) - Sinfonia para duas flautas, dois oboés, duas trompas, cordas e baixo contínuo.
1º andamento - Allegro assai

"Back in business" ou 5 notas políticas sobre uma visita a Berlim.

  1. Para os que, como eu, já conheciam algumas cidades e zonas da antiga RFA (Colónia, Munique, Düsseldorf, Frankfurt, etc), mas nunca tinham ido a Berlim, um aviso: nada tem a ver. Estamos a falar da capital do antigo e poderoso reino da Prússia, que unificou a Alemanha manu militari, da capital dos segundo e terceiro Reich, ou seja, da cidade imperial símbolo do poder alemão.
  2. Isto significa que quando o parlamento de Bona, depois da reunificação, tomou (por maioria relativamente escassa, diga-se) a decisão de se transferir para as antigas instalações do Reichtag e tornar Berlim a capital da nova Alemanha, não o fez por acaso e isso teve um significado político inequívoco: reconstituir, sob novas formas, o poderia alemão da Europa. E é exactamente esse processo que está em curso.
  3. Aliás, é bem interessante, para não dizer indispensável para quem vem de um país onde a História da Europa Central é quase completamente ignorada no ensino secundário, efectuar uma visita ao Deutsches Historisches Museum, onde nada se esconde e tudo parece dirigir-se a um objectivo fundamental: para o bem e para o mal, nas várias áreas da actividade humana, da política ao conhecimento, da filosofia à indústria, e não tentando sequer escamotear ou desculpar o nazismo, a ditadura da DDR ou até a carnificina da Grande Guerra, em tudo o que se passou na Europa que vai de Paris a Moscovo (Catarina da Rússia era alemã de nascimento e o seu pai serviu no exército prussiano), a Alemanha e, antes dela, os estados alemães com a Prússia à cabeça tiveram um papel fundamental ou pelo menos importante. E, efectuada a reunificação, a Alemanha não irá abdicar desse seu passado e desse seu futuro.
  4. Vinte e cinco anos após a queda da RDA e a reunificação, uma visita a Berlim permite ter uma ideia mais directa do esforço da reconstrução e da quantidade astronómica de dinheiro que tal está ainda a custar. Permite-nos deste modo também compreender (o que não significa aceitar passivamente) a resistência alemã a quaisquer soluções para o problema da dívida dos países periféricos que impliquem um esforço financeiro adicional para o estado alemão. Por isso, e como justificação, inventaram a narrativa dos "preguiçosos" do sul" e do "viveram acima das suas possibilidades". Triste é que tal seja repetido (eu diria, acriticamente "papagueado") por muitos responsáveis políticos do sul da Europa.
  5. Ninguém se iluda: não existirá uma UE sem hegemonia alemã. Ensina-nos a História que a Alemanha do século XXI tenderá a reconstituir a sua tradicional zona de influência (Polónia, Áustria, República Checa, Eslováquia, uma parte dos Balcãs, etc) perante um França enfraquecida e sem voz própria e um UK que se entrincheirá  na sua ilha - em colaboração com a sua antiga colónia americana - e não "alinhará neste filme". Para os povos periféricos, onde Portugal se inclui, será fomentada a emigração para trabalhar nas tarefas menos qualificadas (apesar de tudo, "bem melhor" que o trabalho escravo na Organização Todt dos tempos do Terceiro Reich) ou, para uma minoria instruída, a possibilidade de colaborarem no estrangeiro em tarefas de de grau técnico elevado ou de investigação e desenvolvimento. Ou então abandonarem a UE e procurarem uma alternativa. Será possível e vantajoso? Pois, se não alinharmos pelas certezas de BE, PCP e MRPP e acreditarmos na democracia e na liberdade, é exactamente esse o problema  que temos de resolver.