sexta-feira, novembro 02, 2012

A resposta "dura"

O facto de o Partido Socialista se ter visto na necessidade de deixar escapar uma "inconfidência" sobre o tom "duro" da carta/resposta de António José Seguro à proposta de Passos Coelho para uma "refundação" do MoU diz bem do desconforto do partido face ao assunto, da insegurança da direcção de Seguro e da dificuldade que o PS tem tido em definir, ao longo deste tempo, uma linha política única e coerente face à crise da dívida e à "austeridade". Prova também que as dificuldades da direcção de Seguro não advêm apenas do facto de ter assinado e estar comprometido com o MoU; elas são bem mais profundas, estruturais e têm uma conotação ideológica bem determinada. 

Dylan & Byrds (2)

Bob Dylan - "Spanish Harlem Incident". Do álbum Another Side Of Bob Dylan (Agosto de 1964)

A versão dos Byrds, incluída no seu primeiro álbum Mr. Tambourine Man (Junho de 1965) 

"Sensibilidade social"?

Eu estou-me nas tintas para que um governo tenha "sensibilidade social". Essa tal "sensibilidade social" tem demasiado a ver com a "caridade", com as instituições de solidariedade social, com os Bancos Alimentares e organizações semelhantes que desenvolvem uma actividade meritória mas que deverá ser sempre supletiva - e quanto mais o for, melhor. Essas organizações não são o Estado, não lhes compete definir e implementar políticas, não representam os cidadãos e a sua vontade democraticamente expressa. O que eu quero é um Estado e governos que, por ideologia e convicção, assumam e implementem políticas que tornem o país mais desenvolvido e mais igualitário, mais culto e instruído, mais solidário sem perda do individualismo e da livre iniciativa de cada um, que elimine a pobreza, que dê oportunidades aos cidadãos - mesmo àqueles que têm problemas graves - para desenvolverem todas as suas potencialidades e capacidades, que premeie os melhores sem deixar de permitir que todos progridam. E não quero que isso aconteça pelo facto do governo ter "sensibilidade social", gostar de proteger os "pobrezinhos" ou os "mais "desfavorecidos, mas por achar que essa é a concepção política-base correcta, aquela a que os portugueses devem ter direito e que deve ser perfilhada para fazer do país um lugar decente e civilizado para os portugueses viverem. Pode parecer que não, mas são duas coisas muito diferentes.

"Refundação"? "Nuts"!

Já que tenho comparado (aqui e aqui) esta história da "refundação" do MoU com a Contra-Ofensiva ou Batalha das Ardenas, com o governo a fazer o papel da Wehrmacht (atenção aos espíritos mais sensíveis, não estou a chamar nazi ao governo, já que nem a Wehrmacht era, em bom rigor e no seu todo, nazi), sugiro o PS responda ao governo como o fez o general McAuliffe, comandante da 101ª Divisão Aerotransportada, cercada em Bastogne, à proposta de rendição dos alemães: "nuts"!

quinta-feira, novembro 01, 2012

A "assessoria" do FMI

Não deixo de achar "tocante" a ingenuidade de Constança Cunha e Sá quando afirma (hoje, nas notícias da 21h, na TVI 24) que "o governo não é capaz de cortar na despesa e precisa da assessoria técnica do FMI". Vamos ser claros: o governo não precisa da assessoria técnica do FMI para coisa nenhuma, muito menos para os tais cortes na despesa; precisa é do respaldo do FMI (1/3 da "troika") e, se possível, do BCE e da Comissão Europeia (os restantes 2/3), para mais facilmente conseguir impor aos portugueses, como se de uma inevitabilidade se tratasse, os tais cortes de quatro mil milhões de euros na despesa. Não se trata, portanto, de uma questão de incapacidade técnica, mas de um confesso acto de cobardia política. 

The Big Easy (6)

Wynton Marsalis - Concerto para trompete e orquestra em mi bemol maior de Joseph Haydn (1732-1809)
1. Allegro
2.Andante
3. Allegro
Boston Pops Orchestra dirigida por John Williams

Marques Mendes ou a bóia de salvação

De facto, se o convite do governo ao PS para colaborar na "refundação" do MoU e na reforma do Estado tinha deixado o destinatário numa posição difícil e defensiva, pelo menos num primeiro momento (disse-o aqui, comparando-o à contra-ofensiva das Ardenas na WW II), as declarações de Marques Mendes, ontem à TVI, informando já existem negociações em curso com o FMI sobre o assunto, ofereceram da mão-beijada e em bandeja de prata ao PS o pretexto para a recusa de qualquer sua colaboração, dando contribuição significativa para afastar o partido de António José Seguro da posição difícil em que tinha sido colocado. Digamos que com amigos como Marques Mendes, por certo o governo não precisa sequer de inimigos. Definitivamente, nada sai certo a este governo.

O SCP e a estatística

Agora, com Frank Vercauteren, o SCP vai finalmente começar a ganhar? Sim. Com o treinador belga ou qualquer outro, tendo o terceiro orçamento da Liga, dizem as probabilidades que o SCP irá começar, mais jogo menos jogo, a conseguir os resultados "normais" para esse investimento, o que significa ganhar uma maioria dos jogos "em casa" e fazer resultados variáveis (vitória, empate e derrota) nos jogos disputados "fora", de modo a, no final do campeonato e de acordo com o seu orçamento, vir a situar-se entre o 3º (o melhor a que pode aspirar) e o 6º (difícil ficar abaixo mesmo com tantos problemas) lugares. Mas atenção: nada disto significa que os  problemas do clube estejam em vias de resolução, nem que o treinador belga seja melhor do que os anteriores; trata-se apenas de uma questão de estatística.

quarta-feira, outubro 31, 2012

4ªs feiras, 18.15h (6) - "Cinema Militante" (I)

"Salt Of The Earth", de Herbert J. Biberman (1954)
Filme completo c/ legendas em inglês

Onde se fala da proposta "refundadora" e da sua semelhança com a Batalha das Ardenas

Parece-me ser visível algum desconforto do PS face ao convite de Pedro Passos Coelho para uma "refundação" do MoU, o que, como aqui disse, significa, em versão descodificada, uma proposta para reduzir drasticamente o Estado Social, uma conquista civilizacional de todos os europeus (socialistas, sociais-democratas, conservadores, cristãos-democratas, liberais e comunistas). Por um lado, o PS não pode recusar-se ao diálogo sob pena de ser acusado por PSD e CDS de tudo o que o profeta Maomé disse do porco (escuso-me de exemplificar); mas deve também convencer-se que essa cedência ao diálogo pode, de imediato, ser vista, logo à partida, como indício de fragilidade e possível sinal de capitulação. De igual modo, caso se mantenha intransigente na defesa das suas posições em favor do Estado Social será acusado pela actual maioria governamental de ser o responsável pela manutenção de um nível de impostos acima do suportável, arriscando-se a assistir a uma possível erosão, no mínimo, a  algumas hesitações ou até enfraquecimento sério das suas bases de apoio social e eleitoral, onde a classe média tem enorme relevância e a cultura política está longe e ser sólida. Por outro lado, a mínima transigência para com as propostas de PSD e CDS, para além de também não ser isenta de riscos em termos eleitorais, principalmente na perspectiva do PS poder vir a reconquistar eleitores perdidos para o BE ou potenciais abstencionistas, será vista por muitos sectores do partido e da sociedade como inaceitável e colocará a frágil liderança de Seguro em perigo e até o partido em sério risco de desagregação.

Digamos que é entre estes dois parâmetros que o PS terá, com inteligência e tacto político, de fazer o seu caminho, mas convém admitir desde já que esta proposta de PSD e CDS é assim um pouco a modos que a "Batalha das Ardenas" do governo: apanha o adversário relativamente desprevenido e distraído no seu impulso atacante, fá-lo abanar e hesitar e, não chegando para ganhar a guerra, poderá atrasar o seu fim e, entretanto, causar-lhe alguns importantes dissabores. Convém portanto que o PS não menospreze o assunto.