sexta-feira, agosto 10, 2012

"Going For Gold" - The '48 Games (6/9)


"Going For Gold" (aka "Bert and Dickie") - The '48 Games - Episódio VI

Pensamento olímpico do dia

Parece que, para muita gente, os atletas portugueses presentes nos Jogos Olímpicos são insuscetíveis de crítica; são assim uma espécie de "Querido Líder" ou "Pai dos Povos" em versão atlética. Ou então  é o contrário: os "índios" (atletas) são sempre bons e os "chefes" (leia-se, os dirigentes) é que "têm a culpa". É a versão "popularucha", do "povo humilde e coitadinho"... Ou será, como aqui se sugere, que a sua prestação só poderá ser analisada por quem corra a maratona em menos de duas horas, os 100 metros em 9,60'' e assim sucessivamente? Confesso não entender. Será que todos os participantes portugueses fizeram sempre tudo bem feito? Deveriam todos eles ter estado presentes? Escolheram as opções estratégias e tácticas correctas? Todos se prepararam com igual racionalidade e afinco? Ou só quem é romancista, piloto de automóveis ou realizador de cinema pode ser crítico destas as actividades? O que me parece é que muita gente gosta demasiado de tabus, adora "vacas sagradas", confunde crítica com "má-língua" ou maledicência e não consegue ter o distanciamento suficiente para uma análise fria, lúcida e, tanto quanto possível, despida de "partis-pris". Tudo isto, sintomas e factores potenciadores do nosso atraso, pois claro.  

Zita Seabra: uma vez estalinista...?




Conclusão: Zita Seabra pode ter mudado de partido, mas as ideias, a imaginação delirante, o simplismo analítico, a ortodoxia, o radicalismo e o sectarismo militantes característicos do PCP continuam lá e bem vivos. Parece que a antiga dirigente da UEC quer mesmo fazer jus aos que dizem que os estalinistas não mudam de ideias nem de métodos: limitam-se a mudar de patrão.

Pergunta: Alguém ainda compra o "Diário de Notícias" de Joaquim Oliveira e João Marcelino?

quinta-feira, agosto 09, 2012

"Going For Gold" - The '48 Games (5/9)

"Going For Gold" (aka "Bert and Dickie") - The '48 Games - Episódio V

Fundação Paula Rego: um resquício de "vendetta"?


Recuso-me a acreditar que exista algum preconceito, alguma questão moral ou ideológica, algum resquício de "vendetta", na base da intenção do governo em extinguir a Fundação Paula Rego. Em nome da democracia e da liberdade, recuso-me a acreditar em tal coisa. Valha-nos que ainda vai existindo (subsistindo?) no próprio PSD (que, note-se, por outro lado também é o partido da inenarrável deputada Isilda Pegado) gente com alguma réstea de inteligência e de bom-senso. É uma pequenina esperança...

Pensamento olímpico do dia

Sim, eu sei que a credibilidade da imprensa desportiva se aproxima ou até mesmo já ultrapassou o nulo, mas mesmo mesmo para isso, para a demagogia e para a estupidez deveria haver limites. Hoje, o jornal "O Jogo" coloca em manchete, na sua primeira página, os montantes investidos na preparação dos atletas olímpicos de canoagem (1.4M), natação (2.4), judo (2.1) e atletismo (4.3) concluindo, por comparação, da injustiça cometida para com a canoagem. Uma estupidez, claro, já que se os resultados desportivos dependem em parte significativa do investimento realizado, nada permite concluir, apenas limitando-se o jornal a lançar de forma demagógica estes números à cara dos cidadãos, que a multiplicação do investimento na canoagem tivesse retribuição proporcional nos resultados obtidos. 

Se é indiscutível, pela simples verificação das classificações alcançadas, alguns desportos têm demonstrado maior sensibilidade ao investimento realizado (atletismo, judo e canoagem estarão entre eles), para questões de justiça ou injustiça (se é que tal é relevante - não o creio) ou de adequação do investimento não basta comparar as verbas disponibilizadas para cada um deles: cada desporto tem a sua realidade, a sua história, a sua capacidade para crescer, progredir e apresentar resultados e é em função disso que o investimento deve ser realizado. Mas, claro, num país em que se tornou moda atirar com custos e gastos à cara dos cidadãos empobrecidos, sem qualquer outra preocupação ou espaço reservado a uma simples análise custo/benefício, principalmente quando este não é tangível, e quando vemos que tal atitude parte demasiadas vezes do próprio governo do país, nada disto já causa qualquer espanto ou admiração. 

Citius, Altius, Fortius (5)


Antuérpia, 1920

quarta-feira, agosto 08, 2012

"Going For Gold" - The '48 Games (4/9)


"Going For Gold" (aka "Bert and Dickie") - The '48 Games - Episódio IV

Clássicos de cine-esplanada - filmes completos (2)

"Bend of the River", de Anthony Mann (1952)
Filme completo c/ legendas em inglês

Portugal: participação olímpica e desenvolvimento económico e social

Portugal participou pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em 1912, em Estocolmo, e ganhou a sua primeira medalha em 1924, em Paris (hipismo). Desde essa sua primeira participação até 1976, nos Jogos de Montreal, todas as medalhas conquistadas o foram naquilo que poderíamos chamar a área dos desportos aristocrático/militares (hipismo, esgrima e vela), que, aliás, tiveram grande importância na génese dos Jogos Olímpicos, numa época em que apenas as elites sociais e económicas tinham condições (tempos livres e dinheiro) para a prática desportiva, para se tornarem verdadeiros "sportsmen". O Portugal da 1ª República e, depois, da ditadura era um país demasiado pobre, onde qualquer disseminação da prática desportiva era impossível, sem uma classe média digna desse nome, em número e poder, e onde as Forças Armadas e a aristocracia fundiária foram sempre, aliás,  dois dos apoios mais incondicionais do regime que governou o país entre 1926 e 1974.

É já depois do 25 de Abril, com uma democratização que abriu finalmente algumas portas a uma massificação da actividade desportiva já timidamente ensaiada nos finais da ditadura, com o crescimento económico dos anos 60, que o estado de coisas começa a mudar; e muda por onde podia mais facilmente fazê-lo num país ainda a caminho do desenvolvimento e do estatuto europeu: pelas corridas de fundo, onde o investimento em infraestruturas e metodologias de treino é reduzido e basta uma estrada e vontade de correr para se conseguir progredir. É a partir da medalha de prata de Carlos Lopes nos 10 000 metros, em Montreal, que começa a época da dominação portuguesa nas provas de fundo do atletismo. E é também após a democratização começada com o 25 de Abril, com o seu espírito igualitário, que as mulheres conquistam as suas primeiras medalhas (Rosa Mota na maratona de Los Angeles).

Vamos ter de esperar por Sydney e por um Portugal já membro de pleno direito da UE, um país já terciarizado, com uma classe média em expansão e integrado no primeiro mundo desenvolvido, para que a distribuição de medalhas atinja desportos mais sofisticados e onde o investimento é maior (judo, triatlo, ciclismo e, agora, canoagem), ou provas de atletismo integradas nas chamadas disciplinas técnicas, muito graças aos portugueses imigrantes africanos de primeira ou segunda geração. No fundo, também um sinónimo de desenvolvimento, pois apenas os países mais desenvolvidos são estruturalmente destino de emigração.

Como se pode ver, percorrer a história da participação olímpica portuguesa é também visitar a evolução do país nos últimos quase 100 anos. O que virá agora e no futuro, quando a política de "empobrecimento" parece ter sido erigida em desígnio nacional?