quinta-feira, maio 03, 2012

Nursery Rhymes (7)


Onde está Vieira?


O pouco misterioso mas estratégico "desaparecimento" de Luís Filipe Vieira, sem qualquer tomada de posição sobre as notícias que saem repetidamente nos jornais dando como incerta a continuidade de Jorge Jesus, tem apenas um significado: essa continuidade dependerá muito menos de Vieira e a SAD concluírem ser Jesus o treinador ideal para o projecto do clube (para fazer "crescer" a equipa, como aqui tenho afirmado) e bem mais da existência de uma alternativa que permita mobilizar eleitoralmente os sócios do clube. No caso de Vieira optar pela continuidade de Jesus, esta é uma posição que não deixará de fragilizar ainda mais o treinador do SLB, o que me parece pouco importa a LFV desde que tal o não atinja (ou atinja pouco). Mais do mesmo?

Duas notas mais
  1. É a ausência de vitórias importantes que dificulta, por parte de treinador e administração, o estabelecimento de prioridades desportivas para equipa principal do SLB. É essa ausência continuada de títulos relevantes, principalmente o de campeão nacional, que, ao contrário do que acontece com o FCP, não permite à equipa "dar-se ao luxo" de abdicar da conquista de uma Taça da Liga, por exemplo, ou de "arriscar todas as fichas" numa presença nas meias-finais da Champions League. Por isso de nada vale Jorge Jesus vir agora dizer, a posteriori, que "hoje teria colocado menos ovos na Champions". Não o fez porque, face ao que acima digo, simplesmente o não poderia fazer. Ponto!
  2. Luís Filipe Vieira não pode sistematicamente invocar o passado recente do clube para se justificar e justificar o seu mandato. Recuperou o clube financeiramente, com a ajuda de Domingos Soares de Oliveira (a quem o clube muito deve) e da Banca? Sem dúvida, e os benfiquistas reconhecem isso. Mas uma vez tal realizado, o seu papel é recuperar para o clube a hegemonia do futebol português e nisso o sucesso, ou o caminho para o atingir, tem sido bem menos evidente.

"Alirón, alirón, el Madrid es campeón!"

Não, após mais um seu enorme sucesso, e ao contrário da sugestão que me enviou o Tiago Miranda, não vou escrever sobre o "senhor que representa a antítese do "português": inteligente, trabalhador, regular, com um espírito ganhador, ambicioso, respeitado por todos quantos trabalharam com ele, temido pelos adversários e nada simpático, saindo sempre em sucessivas conquistas fora da sua zona de conforto, como agora todos gostam de dizer..." (as palavras são do Tiago). Já o fiz muitas vezes e o Tiago Miranda resume em muitos poucas palavras o que eu seria levado a dizer sobre Mourinho em algumas mais, como, por exemplo, "arrogante e metódico o suficiente para conseguir alcançar o sucesso". Por isso acrescento apenas isto: "alirón, alirón, el Madrid es campeón".

quarta-feira, maio 02, 2012

Os mártires de Haymarket - as origens do 1º de Maio (2/3)

Fernando Lopes (1935 - 2012)


"Belarmino" (1964) foi o primeiro filme que vi de Fernando Lopes. Acho, mesmo, ainda adolescente, o primeiro filme que vi do chamado "novo cinema português". Despedi-me do cinema de Fernando Lopes com "O Delfim" (2002), adaptação de um livro-chave da moderna literatura portuguesa e, para sempre, um dos meus livros de cabeceira. Pelo meio passei por "Uma Abelha Na Chuva" e, para ser franco e honesto, não me lembro se por mais algum (mas acho que não). De qualquer modo, talvez não se possa compreender algum do bom cinema português sem ver  "Belarmino" (também "Verdes Anos", de Paulo Rocha, mas isso é outra conversa). 
Para começar, obrigue-se a ver aqui 

O 1º de Maio de ontem a as classes sociais

Uma questão essencial que o fracasso da greve convocada para o "Pingo Doce" e apelos sem resultado ao boicote às compras nessa cadeia de supermercados veio novamente lembrar, mesmo de forma talvez brutal, é que a divisão da sociedade em classes baseada na relação destas com os meios de produção, como essencialmente a definiam os clássicos do marxismo (alienação ou posse que determinavam "proletariado" e "burguesia"), já pouco ou nada tem a ver com a realidade. A terciarização das sociedades desenvolvidas, a "proletarização" de algumas profissões como os professores e funcionários públicos, a penetração das novas tecnologias e da sociedade da informação na organização industrial, a mobilidade social acrescida e a "financeirização" da economia destruíram em grande parte a noção de "pertença de classe", da identidade e cultura operárias forjadas no trabalho duro das fábricas, na admiração pelos grandes dirigentes operários, na solidariedade construída no bairro entre os seus iguais e na cultura e socialização aprendidas e vividas nas sociedades recreativas. Hoje em dia a questão é bem mais complexa, e não terei muitas dúvidas em afirmar, por exemplo, que o trabalhador de bata branca que comanda um "robot" na linha de produção da AutoEuropa (tenho dificuldade em chamar-lhe operário) se identificará bem mais com certos procedimentos e regras de gestão, comportamentos sociais até, da sociedade alemã, mesmo com alguns dos seus quadros técnicos, arrisco, do que com muitos dos seus colegas de uma pequena empresa industrial portuguesa. Tanto - outro exemplo - como a "rapariguinha do shoping", suburbana, se identificará com os seus ídolos da TV ou das revistas "cor de rosa", condição a que espera um dia aceder. E não se iludam, essa identificação e solidariedade de antanho, essa comunhão de interesses permanente, não foi substituída por outra feita de situações apenas transitórias de vínculo laboral ou da sua ausência, como a do trabalho precário, dos contratos a prazo ou do desemprego. Embora a precariedade e a "pressão dos patrões" possa ter, como afirmam as centrais sindicais, alguma influência no fracasso de muitas greves no sector privado - não o nego - estão longe de ser essas as questões fundamentais e determinantes que também permitem compreender, por exemplo, o facto de muitos militantes e votantes comunistas se voltarem em França  para a FN da família Le Pen. Estas são questões que os sindicatos, erigidos na primeira metade do século XX, não surpreendentemente, em função do que acima descrevo, transformados quase exclusivamente em organizações agregadoras dos trabalhadores do sector público e que tendem a funcionar em função quase exclusiva destes, têm forçosamente de compreender se querem evitar o isolamento e salvaguardar algumas das conquistas mais importantes do mundo do trabalho. 

terça-feira, maio 01, 2012

Ainda o 1º de Maio do "Pingo Doce"

Ora vamos lá ver...

  1. Um governo eleito pelos portugueses (acho que um dos anteriores) permitiu que as grandes superfícies comerciais passassem a estar abertas no 1º de Maio, tal como acontece em todos os outros feriados e domingos com excepção do Natal e Ano Novo - onde, diga-se, não teriam quase clientes. Podemos, claro, contestar e estar em desacordo com a lei, mas as organizações dos trabalhadores, partidos que se lhe opuseram e outras organizações que advogavam em contrário, como algumas associações de pequenos comerciantes, não tiveram até agora força suficiente para se lhe opor.
  2. Em função dessa disposição legal, os supermercados "Pingo Doce" decidiram abrir hoje com uma promoção especial que atraiu milhares de clientes. Uma vez legal, é uma decisão legítima que só ao "Pingo Doce" compete, podendo qualquer de nós estar de acordo ou criticá-la. E se existiu alguma ilegalidade deve partir de quem se sentiu lesado (sindicatos, concorrência, clientes, etc) denunciá-la a às autoridades competentes (Inspecção do Trabalho, Autoridade da Concorrência, ASAE, etc), que obrigatoriamente terão de investigar.
  3. Os sindicatos do sector terão convocado uma greve, que não foi obedecida. Porque uma maioria dos trabalhadores do "Pingo Doce" está numa situação de precariedade? É provável, mas tal era um dado do problema que desaconselhava a greve fosse declarada.Também um boicote, com idêntico resultado. Felizmente, não existem notícias de piquetes terem sido impedidos de actuar e esclarecer quem quer que fosse, trabalhadores ou clientes.
  4. Há relatos de pequenos e ligeiros incidentes sem consequências que a PSP rapidamente sanou, sem queixas. Nada que não aconteça nos grandes saldos do Harrods (é só um exemplo), em que as pessoas passam a noite na rua à espera da abertura dos armazéns. Ou das "bichas" para comprar bilhetes para alguns concertos. 
  5. Para espanto meu, ouvi há pouco a jornalista São José Almeida ("Público"), acho que na TVI e a propósito deste assunto, falar em "atentado à dignidade humana". Como disse? Os consumidores foram obrigados a ir comprar ao "Pingo Doce"? Os produtos estavam fora de prazo? Eram por acaso restos de qualidade deficiente? Tinham os clientes de apresentar "atestado de pobreza", declaração de rendimentos ou passar por testes como aqueles a que se sujeitam alguns concorrentes de "reality shows"? Haja algum decoro, se fazem favor...

Os mártires de Haymarket - as origens do 1º de Maio (1/3)

As afirmações do Professor Sérgio

Não sei qual o vínculo legal que Manuel Sérgio mantém com o SLB (no jornal "Record" é apresentado como "colaborador do clube da Luz"), se é que existe algum. Mas depois destas afirmações, e independentemente da decisão que a SAD vier a tomar em relação à continuidade de Jorge Jesus, deveria ser imediatamente afastado do clube e proibido de frequentar as suas instalações. Fico a aguardar...

O 1º de Maio do Pingo Doce

Podemos simpatizar ou não de Alexandre Soares dos Santos (e eu declaro já não apreciar muito o género de algumas das suas intervenções públicas), achar ou não que se está a pôr em causa o Dia do Trabalhador, mas a operação de "marketing" montada para hoje pelas lojas Pingo Doce (50% de desconto nas compras acima de €100) é brilhante e merece uma enorme chapelada. As lojas estão a abarrotar, permitindo assim desenvolver o negócio, atrair novos clientes e, por via disso, compensar melhor os seus trabalhadores. Para além disso, concorde-se ou não com os pressupostos e objectivos, ao oferecer grandes descontos aos cidadãos em conjuntura de crise, exerce também uma função ideológica, justificando a abertura no 1º de Maio e funcionando como contraponto às manifestações essencialmente reivindicativas das centrais sindicais, que insistem em repetir as mesmas acções de sempre sem grandes resultados em termos de eficácia. Para o movimento sindical e para o mundo do trabalho, seria bom que os seus dirigentes aprendessem um pouco com esta ideia e pensassem, também eles, um pouco em inovar.

Nota pelas 17.35: O sucesso da operação de "marketing" de hoje na cadeia Pingo Doce, depois dos sindicatos terem apelado à greve e ao boicote, está a transformar-se no acontecimento do dia, suplantando as tradicionais manifestações de UGT e CGTP. De certo modo, isto reflecte o isolamento a que as direcções das centrais estão a conduzir os trabalhadores e o mundo sindical, num período de refluxo dos seus direitos. Um aviso muito sério e razão acrescida para uma reflexão.