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sábado, novembro 21, 2009

Odete Santos, a queda do muro, a NEP e o revisionismo de Khrushchev

Ontem, no programa “Os Pontos nos “is” (o programa seria bem melhor com um apresentador/moderador mais bem preparado), da RTP Memória, sobre o vigésimo aniversário da queda do muro de Berlim, a ex-deputada comunista Odete Santos retomou as teses pró-albanesas dos anos sessenta do século XX ao, recuando no tempo, responsabilizar a NEP e o “revisionismo” Khrushcheviano pela implosão da URSS e do bloco soviético em 1989. Não deixa de ser interessante, tal confissão, mas pergunto, colocando-me da pele de Odete Santos mas tentando ir um pouco mais longe: não teria sido a necessidade de implementação da NEP, nos anos 20, um sintoma de que já nessa altura o proletariado soviético, dirigido pelo seu auto-proclamado partido de “vanguarda”, o PCUS, se manifestava incapaz de fazer triunfar a revolução nos termos definidos e nas condições existentes? Não estaria esse mesmo proletariado já a perder na luta de classes, então travada, sendo obrigado a fazer concessões que, segundo Odete Santos, estariam na génese da sua derrota futura? Para Odete Santos, a ascensão de Stalin ao poder corresponderia àquilo que se depreende das suas palavras ser um reforço da linha bolchevique anterior à NEP ou ao triunfo de uma nova burguesia, sobre a pequenas burguesia da NEP, alicerçado nos planos quinquenais e na colectivização forçada? Tudo isto significa que Odete Santos admite que o PCP andou todos estes anos a defender uma linha política incorrecta ou só o terá feito após o XX Congresso?

Estas foram as questões interessantes levantadas por Odete Santos e que teriam merecido uma discussão substantiva (ninguém lhes pegou...), já que a “traição” de Gorbachev, as provocações da CIA e outros primarismos semelhantes não merecem sequer um segundo de atenção e só apoucam quem os profere. Fora isso, Medeiros Ferreira fez uma interessante incursão pelos meandros da política internacional de 45 a 89, o que se saúda.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Os Beatles, o "rock n' roll" e a URSS - algumas notas despretensiosas a propósito de um "post" do "IÉ-IÉ" (II)

Bom, em primeiro lugar trata-se de um movimento contestatário do “statu quo”, um pouco anárquico e, por definição, isso é algo com o qual as ditaduras, mais ainda as mais fechadas, como era o caso da soviética, lidam mal. Mesmo, muito mal. Acresce que o movimento tinha muito de afirmação da liberdade do indivíduo perante o sistema, do direito à diferença e à marginalidade, algo que não se vislumbra como poderia ser tolerado na URSS de então. Mais ainda: contestava os comportamentos, a moral dominante e a reprodução dos valores culturais e sociais existentes, desprezava a política nas suas formas de organização tradicional (o Maio 68, a luta pelos direitos cívicos e contra a guerra do Vietnam introduzem novas formas de contestação política), o modo de vestir e comportar socialmente e estes - todas estes - tanto na URSS como no mundo democrático de então, não diferiam assim tanto como possa, à primeira vista, parecer. Musicalmente, integrava também, em si mesmo, um certo apelo à individualidade ou à constituição de pequenos grupos com recusa da erudição das grandes orquestras ou dos grandes solistas patrocinados pelo Estado: uma guitarra e instrumentos improvisados, como os dos "blues" originais ou do "skiffle", resolviam bem o problema. Por último, falando ainda em termos “de sociedade”, sugeriam, ou faziam amiúde recurso a, alguma violência (“mods” e “rockers”, “teddy boys”, “hell angels”) e se, em todas as sociedades, o monopólio da força pertence ao Estado, numa democracia, por definição, existirá alguma tolerância em relação a fenómenos desse tipo, desde que contidos no seu âmbito e na sua amplitude, mas numa ditadura como a soviética, em que apenas um “partido de classe” (o representante da “classe operária”) dirige o Estado e a sociedade, impondo-lhe os seus valores, qualquer contestação a esse monopólio constitui uma manifestação intolerável.

Tudo isto nos conduz para uma outra área, a do político no seu sentido mais restrito. O “rock n’ roll” não tem uma natureza de classe definida: embora nasça, influenciado pelos “blues”, da cultura dos negros mais pobres do sul, torna-se um movimento essencialmente geracional, chegando às "high school", universidades, intelectuais da “Village” e burgueses da classe média californiana. Junta pretos e brancos, alguns ricos mas também muitos pobres. Tem uma ideologia difusa, de contestação, e esse modelo de contestação e o que é contestado vão mudando, ao longo do tempo, consoante se modificam também os valores dominantes do “sistema”: contestam-se, à vez com importância variável a cada momento, a segregação racial, a moral sexual, a autoridade parental, a guerra, o primado do dinheiro, valoriza-se a droga e o “escapismo”, etc, etc. Exaltam-se os valores adolescentes e juvenis - o amor, a música, a dança, a moda, as férias –, digamos que aquilo que pode ser associado a alguma futilidade, muito longe, portanto, do cumprimento dos Planos Quinquenais, da exaltação patriótica, da superioridade da doutrina do “partido”, do colectivo, valores dominantes na URSS de Stalin ou Nikita Khrushchev . Por último, o essencial do movimento político e cultural do “rock n’ roll”, embora depois “exportado” para o reino Unido e para França (Maio 68), tem origem na pátria do capitalismo (USA), em plena guerra fria, sendo quase visto na URSS como que uma quinta coluna destinada a corroer por dentro a juventude soviética, logo, o futuro da pátria do socialismo e do movimento comunista mundial.

Tudo isto poderia ser, claro está, ainda mais aprofundado, o que não está nos objectivos deste, mesmo assim, já demasiado longo “post”. Deste modo, limitei-me apenas a lançar algumas pistas sobre o assunto, esperando que alguém com acesso a mais meios, paciência e capacidade o possa fazer. Que tal meteres mãos á obra, LT?

Os Beatles, o "rock n' roll" e a URSS - algumas notas despretensiosas a propósito de um "post" do "IÉ-IÉ" (I)

No seu "blogue" “Ié-Ié”, LT transcreve um curioso texto do “Diário Popular”, de 30 de Março de 1966, falando da hostilidade com que a música dos Beatles foi recebida pelas entidades oficiais na URSS de então, o mesmo tendo acontecido com o “rock n’ roll”. Essa hostilidade inicial terá sido, posteriormente, substituída por uma atitude de “deixa andar” (cito), apesar dos discos não se encontrarem à venda, o que, se parece remeter para uma certa impotência em travar o entusiasmo suscitado pela “Beatlemania” e pelo “rock n’ roll”, teria também que ver – citando o DP – com o facto de uma hostilidade aberta contribuir ainda mais para a popularidade das novas formas musicais, o que dá bem uma ideia da (im)popularidade do regime de então, dirigido pelo PCUS.

O primeiro comentário que tal curioso texto me suscita sobre o regime soviético de então - e que assinalei ao LT - é o do conservadorismo, diria mesmo reaccionarismo, de tal regime, algo que, ao tempo, pareceria ser termo ousado ou até mesmo impróprio para o classificar e definir. Mas, vendo bem, nada de demasiado estranho: as ditaduras (quaisquer que sejam), tendendo para uma maior ou menor repressão de tudo o que se oponha ao pensamento e práticas dominantes, ao indivíduo e aos grupos na margem do sistema, tendem a gerar sociedades “fechadas”, cristalizadas nas suas formas, pouco dinâmicas e, logo, estruturalmente conservadoras. Aliás, o “rock n’ roll” e a “Beatlemania”, com toda uma nova cultura de contestação de que eram portadores, inclusivamente com alguma imagem de marginalidade e violência anti-sistema que traziam consigo, também na ditadura de Salazar foram recebidos com desconfiança, marginalizados, vilipendiados através de textos trauliteiros e doutrinariamente ultramontanos em alguma imprensa de então, mais ou menos ligada ao regime, à Igreja Católica ou, no limite, até a alguns grupos republicanos mais conservadores. Tal como na URSS, o regime acabou por contemporizar e, embora a natureza periférica do país, o subdesenvolvimento de então e a guerra colonial limitassem os contactos com o exterior e a importação de novos modelos culturais, sempre o, por cá, chamado, muito “à francesa”, movimento “Ié-Ié” foi contido pelo regime, através de uma vigilância distanciada, nas margens da cultura de massas. Claro que Portugal fazia parte do mundo e da cultura ocidental, o regime, apesar de ditatorial e reaccionário, pouco ou nada tinha a ver com o universo concentracionário da URSS e, por isso mesmo, a nova cultura conseguiu ter em Portugal difusão importante e um pouco mais alargada (apesar de vigiada), o que, neste aspecto, distancia claramente os dois países.

Mas, há que ir um pouco mais longe e interrogarmo-nos: quais as razões para a hostilidade do regime soviético para com o “rock n’ roll” e o movimento político e cultural a ele associado, talvez aquele que, de forma mais consistente e continuada, pelo menos durante década e meia, contestou o modo de vida e os valores da chamada civilização ocidental, principalmente aqueles herdados do período anterior à WWII? É o que a seguir veremos...

sábado, setembro 12, 2009

No país dos sovietes (12)

E. Mirzoev, 1938
December 5 (Lithography, 89x60 cm., inv.nr. BG E11/935)
A giant Stalin amid Azerbaijani peoples celebrating the anniversary of the introduction of the new constitution of the Soviet Union.

segunda-feira, julho 13, 2009

No país dos sovietes (11)

Lebeshev, 1936 We do like Stachanov!
Publisher: Izo-Azernesr, Baku(Lithography, 95x65 cm., inv.nr. BG E11/931)
"Stachanov, a miner achieving incredibly high production figures, is held up as shining example for workers throughout the Soviet Union. Here he is emulated by Azerbaijani cotton workers. Many years later, Soviet authorities admitted that Stachanov was assisted by a team of miners when he performed his heroic feats."

terça-feira, abril 28, 2009

Songs of the WW II (5)

Lidiya Andreyevna Ruslanova (Лидия Андреевна Русланова) - "Katyusha" (Катюша)
Esta é a versão original do célebre tema Katyusha, composto em 1938 por Matvei Blanter e Mikhail Isakovsky e que nos habituámos a ouvir pelo Alexandrov Ensemble (Ансамбль Александрова) aka "Coros do Exército Russo". A canção fala de uma rapariga cujo "bem amado" está na guerra e tornou-se num dos temas mais célebres da música popular russa.

sábado, novembro 29, 2008

No país dos sovietes (9)

Brigade KGK (1931)
Female delegate, stand to the fore!
Publisher: Ogiz-Izogiz, Moscow/Leningrad(Lithography, 99x69 cm., inv.nr. BG E5/578, coll. Rose)
"Poster directed at women farmers, delegated to the meeting of 'the crack brigade of forewomen of Sots-Stroitelstva' [something like 'the construction of socialism'], where discussions are to be held concerning 'the realization of full collectivization and the liquidation of the kulaks [private farmers] as a class'. Packed in an avant garde design, the political jargon of the poster is stifling. "

domingo, outubro 05, 2008

No país dos sovietes (8)

Let's send millions of qualified worker cadres to the 518 new factories and production units
Publisher: Ogiz-Izogiz, Moscow/Leningrad(Lithography, 143.5x103 cm., inv.nr. BG M3/131)
"The often forced employment in the new factories in Siberia and other remote areas is pictured as a matter of voluntary enthousiasm. The parade of workers swings through the picture plane, bringing about a splendid spatial effect. In the lower right corner small text is printed, encouraging people to send comments on this poster to the publisher. Given the political climate of these years, this has more to do with enforcing ever stricter political discipline than with stimulating an open debate."

sábado, agosto 30, 2008

No país dos sovietes (7)

Under Lenin's banner for the second Five Year Plan!
Publisher: Ogiz-Izogiz, Moscow/Leningrad(Lithography, 142.5x100 cm., inv.nr. BG M3/130)
"An ode to industrialization and electricity in the name of Lenin. Senkin, the designer, often cooperates with Klutsis and is clearly influenced by him."

quarta-feira, agosto 27, 2008

Georgia on my mind...

Algo que devemos ter sempre presente quando pensamos no conflito na Geórgia. Os USA ganharam a guerra fria, resolvendo finalmente a questão de se saber qual o efectivo vencedor da WWII 45 anos depois, e, como vencedores, tratam de impor as suas condições aos vencidos, neste caso trazendo para a sua esfera de influência regiões onde o inimigo derrotado dominava: o leste europeu. Foi assim com o Japão e a Alemanha, depois da WWII, e não penso isso tenha sido para nós, ocidentais, negativo. Ah!, já me esquecia, foi também o que aconteceu com o Tratado de Versailles, após a Grande Guerra, o que leva a que alguma prudência, um pouco de cautela e um ou outro caldo de galinha possam ser, aqui e ali, recomendáveis.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Zita Seabra e Alexandre Soljenitsyne

O passado político de Zita Seabra enquanto dirigente do PCP e o modo como exerceu esse poder no partido deviam levá-la a assumir algum pudor e direito, ou dever, de reserva na sua disponibilidade para fazer o elogio fúnebre de Alexandre Soljenitsyne. Tê-lo feito do modo como o fez (dada a sua personalidade não se esperaria o fizesse de outro modo) aproxima mais essas suas afirmações de um qualquer exercício de autocrítica, de uma necessidade de se mostrar “reeducada”, de um exorcismo dos fantasmas de um passado com o qual convive mal, do que do mero elogio fúnebre - que, aliás, não me parece alguma vez ter estado nos seus objectivos. O contraste com as afirmações equilibradas e contidas do seu ex-companheiro Carlos Brito é por demais evidente. Assim, por muito que se esforce por demonstrar o contrário, Zita Seabra apenas confirma aquilo que todos nós já sabíamos: no fundo, em si nada mudou, e as suas actuais convicções democráticas não passam de uma mera funcionalidade julgada conveniente para aquilo que sempre foi o seu objectivo: o exercício do poder e a exibição de um “ego” e de uma vaidade desmesuradas com os quais tenta ultrapassar as marcas de um passado que não consegue sublimar.