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sábado, julho 27, 2013

O "Gato Maltês" recomenda

Para os que passam a vida a atacar os "políticos", o "regime", a subalternizar o parlamento e a falar da necessidade de uma qualquer "União Nacional", o "Gato Maltês" recomenda muito este livro do historiador Fernando Rosas. Está lá tudo o que é preciso para percebermos o que está em causa. Cito, por exemplo: "mais imediato e vulgar... no duro combate político e ideológico contra a Primeira República, era o ataque e demonização da «política» e dos «políticos», entendidos como expressão emblemática dos males do «demo-liberalismo». Mas a verdade é que a alternativa nacional-corporativa à «política da desordem» se fazia em nome, não da ausência de política... ..., mas da urgência de fundar ou manter uma verdadeira «política nacional», a única que haveria de ter lugar no Estado Novo.". E, para os mais preguiçosos, devo dizer as suas 367 páginas se lêem num ápice, mesmo entre dois mergulhos na praia.

terça-feira, setembro 25, 2012

Os "boys" de Salazar

"Mas a grande lógica de Salazar, a razão da sua longevidade e do apoio das elites, era aquilo a que eu chamaria a "administração da cunha". Não há praticamente nenhum general que, depois de exercer funções políticas, não acabe num conselho de administração de uma empresa... Nisso, Salazar era habilíssimo... ... Salazar era um gestor muito habilidoso de favores".historiador António Araújo em entrevista ao Expresso.

Para os saudosos de "um" Salazar "honesto", íntegro", que "venha pôr isto tudo na ordem" e "acabe com os "boys", a "corrupção", o "tráfico de influências", as "mordomias", as "reformas douradas", a "promiscuidade entre o Estado e as empresas" e assim sucessivamente. Com uma diferença: é que nas ditaduras eu não poderia escrever isto e nelas tudo o que se sabe é transmitido "bouche à l'óreille", com os riscos inerentes.


quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Salazar "pop star" ou a destruição do mito

Durante muitos anos Salazar foi uma figura sacralizada, à esquerda e à direita. Por cada um dos campos políticos, à sua maneira, claro. Consoantes os seus valores, como não poderia deixar de ser. Assim se ajudou também a construir o mito.

Por isso, esta actual transformação do ditador em "pop star", por muito que isso falsifique a História e certamente o fará (não me passa pela cabeça ver a série da SIC para o confirmar: o “crime” não compensa), não deixa por certo de constituir uma contribuição importante para a destruição desse mesmo mito. Embora preferisse a “desconstrução”, o que pressuporia o rigor histórico da análise o que também tem sido feito embora de forma mais recatada, não deixo de considerar essa destruição do ditador enquanto mito como sintomática de um país cuja sociedade e democracia caminham para a maturidade. Boas notícias, portanto. Apesar de tudo.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Vanessa Fernandes e a avó

Aqueles que afirmam que “isto está cada vez pior”, “no tempo do Salazar é que era bom”, “não sei onde isto vai parar” e outros dislates de igual calibre, deveriam ter visto ontem um programa da RTP, incluído na série “Campeões”, sobre Vanessa Fernandes. Devo dizer que vi apenas uma pequena parte e cheguei lá absolutamente por acaso, mas na sequência que tive oportunidade de ver, Vanessa, uma jovem moderna, universitária, vestida desportivamente como qualquer outra jovem da sua idade do norte ou centro da Europa, aparelho corrector nos dentes, exprimindo-se de forma desenvolta em português e inglês, falava com a sua avó, uma “velhinha” enrugada, vestida de preto dos pés á cabeça, exprimindo-se com dificuldade, muitos dentes em falta, cuidando da terra tal como os seus pais, avós e gerações anteriores teriam já feito. Provavelmente, não porque precisasse de o fazer (a família de Vanessa terá já, felizmente, uma vida suficientemente folgada para que a senhora se escusasse ao trabalho), mas porque essa sempre foi a sua actividade, aquilo que saberá fazer e esse será o seu modo de se sentir útil. O contraste entre as duas, Vanessa e sua avó, entre o Portugal de Salazar e o da democracia e da UE não poderia ser mais evidente.

Nada que António Barreto não nos tivesse já dito no seu “Portugal: Um Retrato Social”. Mas é sempre bom ter oportunidade de olhar o caminho percorrido. Com um ror de asneiras e disparates pelo meio, pois claro; sabendo que tudo poderia estar bem melhor; mas, ainda assim, uma imagem no mínimo reconfortante. Ainda bem!

segunda-feira, julho 14, 2008

Bairros sociais...

Claro que as migrações dos anos 40 e 50, da província para a cidade de gente que, apesar de tudo, partilhava valores e religião, língua e alguns hábitos, mais pequena-burguesia de funcionários do que qualquer outra coisa, nada tem a ver, até em número, com a actual imigração de gente de etnias, línguas e religiões diferentes, hábitos e valores antagónicos, mas apetece-me dizer que Salazar bem percebia de integração, pelo menos enquanto o regime pôde controlar esses movimentos migratórios nos estreitos limites da não massificação e da sua não disseminação em bairros de lata: bairros sociais com casas individuais, geminadas, quintal, igreja ao fundo... Tudo o que reproduzia a vida da aldeia de origem, da vizinhança, do Portugal rural que o regime importava para pequenas aldeias dentro da própria cidade, assim reproduzindo a sua própria ideologia e contribuindo para a sua perpetuação. A industrialização acelerada, a “malfadada industrialização” geradora do grande crescimento económico dos anos 60, tudo isso levou à sua frente.

sexta-feira, novembro 16, 2007

O Portugal de Salazar (3), mas também do "reviralho" (1)




"Micas" - ou o Portugal de Salazar

Muito curioso o post de Carlos Abreu Amorim no "Blasfémias" sobre o facto da protégée de Salazar, Maria da Conceição Rita, “nunca ter falado de política com o ditador, não se ter apercebido da campanha de Delgado e não ter a noção da gravidade da guerra em África”. Nada de muito estranho, contudo: no Portugal de então pouco se falava de política, menos ainda nos meios afectos ao regime, muito menos com mulheres e nada com criadas, supondo que “Micas”, apesar de não o ser de facto, teria, vinda de onde veio, um estatuto que não andaria muito longe do reservado ao pessoal doméstico. O próprio facto de ter cursado a escola comercial, em vez do liceu, o confirma, pois esse era, no Portugal classista e de escassa mobilidade social de então, a máxima sorte a que poderia aspirar quem vinha de um meio humilde e conseguia ter acesso a um “padrinho” protector. Nada disto, portanto, individualiza o ditador, serve para dele traçar um perfil específico ou para descobrir paradoxos – nem CAA o afirma, note-se. Mesmo a própria campanha de Delgado, apesar da mobilização popular conseguida, terá passado quase despercebida fora de Lisboa e Porto – e Portugal era então um país rural – e dos meios comunistas e “reviralhistas” republicanos, mais alguns “curiosos” e aderentes tímidos ou mais ou menos tácitos de última hora. Quatro ou cinco mil pessoas nas ruas (ou mesmo 10. 000), pelos padrões de então e riscos que isso comportava (na "baixa" - contam-me - acabou a tiro e a carga da GNR), era uma multidão, os jornais (apenas o “Diário de Lisboa” e o “República” estavam ligados à oposição) eram lidos por uma elite e controlados pela censura e da rádio e televisão nem vale a pena falar.

Quanto ao facto de Maria da Conceição Rita escolher Aristides Sousa Mendes como o segundo “melhor português de sempre”, a seguir a Salazar, nada de especialmente estranho, muito menos paradoxal. Tal como Salazar quando a protegeu a ela, “Micas”, e lhe deu a oportunidade de escapar ao seu destino, também Aristides Sousa Mendes protegeu os mais fracos e necessitados, dando-lhes uma oportunidade de, também eles, escaparem a esse mesmo destino, no caso a morte quase certa nos campos de extermínio. Desconhecedora da política e do mundo (este reduzido "ao seu mundo") ambos, Salazar e Sousa Mendes, para Maria da Conceição Rita foram homens que pautaram a sua vida pela dedicação e bondade, pela devoção a uma causa, pela vontade de abdicarem de si próprios em prol do “bem fazer”. Uma escolha "lógica", portanto!

quinta-feira, maio 17, 2007

"Portugal - Um Retrato Social"

Um concurso, ou entretenimento, de televisão, cujos resultados não têm qualquer significado ou rigor científicos, sendo, por isso, insusceptíveis de qualquer tipo de análise política séria, ocuparam, durante semanas, os nossos comentadores e analistas, gastando rios de tinta, resmas de papel, milhares de megabytes e centenas de horas de emissão. Tudo porque no referido concurso foi eleito(???) como o “melhor português de sempre” o nosso ditador de estimação. O assunto – quer dizer, o concurso (?) – chegou a mobilizar algumas das personalidades tidas por mais influentes (certamente, mais mediáticas) na nossa sociedade, em defesa das suas damas (e cavalheiros, claro).

Na passada semana acabou de ser emitido na RTP1 o último programa de uma série que analisa com seriedade e rigor a nossa história recente; a evolução de várias facetas do país e dos seus habitantes nas últimas quatro décadas. Estou a falar, claro, de “Portugal- Um Retrato Social”, de António Barreto e Joana Pontes. Foi dos melhores programas de TV, de produção nacional, dos últimos anos e aquele que, em conjunto com “Portugal - Um Retrato Ambiental”, de Luísa Schmidt, melhor analisou alguns aspectos sociais da nossa história na segunda metade do século XX. Nos media, na "blogosfera", na TV do serviço público abateu-se sobre o assunto um silêncio de morte. Nem um debate final, uma análise à posteriori, uma discussão na "blogosfera". Nada! Era talvez demasiado sério. Não seria talvez controverso.

PS (de post scriptum): talvez um pouco tarde demais, mas sobre o tal concurso idiota e os seus resultados saúdo um artigo que Pedro Magalhães publicou no “Público”, o único - que me lembre - que pôs os pontos nos ii e “chamou os bois pelos nomes”. Muito bem!