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sexta-feira, julho 20, 2012

As minhas memórias de José Hermano Saraiva

Conheci José Hermano Saraiva era ele reitor do Liceu D. João de Castro e eu aluno de um dos últimos anos. Estaríamos no início da segunda metade dos anos sessenta, não me lembro exactamente do ano mas antes de Saraiva ter assumido a pasta da educação de um dos últimos governos de Salazar. Para quem vinha do Camões de Sérvulo Correia - autenticamente o "fascismo no liceu", com disciplina de "campo de concentração" - o D. João de Castro era um oásis de liberalismo. Podíamos sair se um professor faltava ou quando tínhamos um "furo", jogar à bola no pátio desde que contribuíssemos com uma pequena quantia para eventuais danos nos vidros ou jardim, partilhar os intervalos com as raparigas, já que 6º e 7º ano (antigos) eram mistos, jogar "ping-pong" numas mesas que tinham sido compradas pelo liceu e até havia um intervalo mais longo (20 ou 30', não me lembro), a meio da manhã, durante o qual os alunos produziam um pequeno programa de rádio transmitido internamente e se podia ir à cantina beber um chá, um sumo ou comer uma sanduíche. Por último, José Hermano Saraiva tinha por hábito organizar por vezes há noite, na sua casa do Restelo, uns interessantes saraus para os quais convidava alguns alunos (desconheço o critério dos convites, mas lembro-me de ter lá ido um par de vezes). No Portugal de então, naquilo que era a escola pública, tudo isto constituía uma lufada de ar fresco, para não dizer mesmo uma enorme e desejada ventania.

Tendo dito isto, devo dizer que já aluno universitário, no então ISE, foi para mim enorme surpresa o comportamento de José Hermano Saraiva durante a crise académica de 1969. Teria esperado dele atitudes mais consentâneas com a imagem liberal - católica, conservadora, mas liberal - que tinha de si formado nos meus anos de liceu. Não o tornei a encontrar depois desses anos, mas é exactamente por isso que a sua imagem que guardo com mais força é a de reitor de um liceu onde soube criar um ambiente muito diferente, para bem melhor, do que era o padrão no ensino secundário público de então e, por extensão, no resto do país. É esse José Hermano Saraiva que quero aqui recordar.