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terça-feira, junho 03, 2014

Juan Carlos de Espanha - La transición (2/13)

2. El espíritu del 12 de febrero emitido a 30 de Julho de 1993 (TVE)

Juan Carlos, a transição e a continuidade da monarquia

Juan Carlos de Espanha foi fundamental na transição democrática e na manutenção da unidade de uma Espanha plurinacional? Sim, sem dúvida que sim, e estamos perante uma constatação à qual poucos ousarão opor-se. Mas atenção, porque é preciso ir um pouco mais longe: ao fazê-lo, Juan Carlos assegurou também a continuidade e legitimação da monarquia espanhola, marcada pelo "ferrete" de ter nascido de um pronunciamento militar contra a legalidade republicana e de uma guerra civil que dividiu também as nacionalidades de Espanha. Só ao conseguir conjugar, simultaneamente, democracia e unidade plurinacional a monarquia poderia assegurar a sua legitimação e continuidade. E só ao sobrepor-se aos direitos dinásticos de seu pai, D. Juan de Borbón (e este a eles renunciando), personalidade em ruptura com o franquismo, Juan Carlos poderia assegurar pelo menos a neutralidade de alguns sectores do franquismo e construir assim uma base social de apoio mais ampla para a transição. Digamos que, politicamente, Juan Carlos e os seus mais próximos agiram de modo brilhante.

Aliás, ao abdicar agora em favor de seu filho e de uma plebeia inteligente e também ela bem preparada (o rei, no seu discurso de abdicação, não deixou de se referir a Letízia Ortiz e não terá sido por acaso), em tempos de crise do regime, da família real e da figura do rei, Juan Carlos tenta novamente assegurar aquilo que, para si, e logicamente, nunca deixou de ser fundamental e valor que coloca acima de todos os outros: a continuidade da instituição monárquica. Veremos o que o futuro nos reserva naquelas que foram, pelo menos durante o século XX, as questões-chave da política espanhola: a natureza republicana ou monárquica do regime e a unidade plurinacional do Estado. 

terça-feira, abril 17, 2012

D. Juan Carlos, o elefante e a unidade de Espanha

Penso que os portugueses se esquecem com demasiada frequência que a Espanha, ao contrário do que acontece com Portugal, é um Estado multinacional, em que a sua unidade enquanto país não se alicerça numa língua e cultura únicas e num longo percurso histórico contra um inimigo comum. Ou mesmo como os USA, cuja unidade nacional foi em grande parte construída pelo facto de neles terem encontrado oportunidade de liberdade e de uma vida mais digna os pobres e perseguidos da Europa - mas também de alguma Ásia. Digamos que, raspada alguma camada superficial acumulada por umas poucas centenas de anos de vida em comum, muitas vezes forçada, continua um galego a ter mais a ver com um português do que com um catalão ou um basco, ou qualquer destes com um castelhano. Mais ainda, é muitas vezes esquecido que a sua guerra civil do século XX não opôs apenas a esquerda liberal, socialista, comunista e anarquista, à direita conservadora, fascista e ultra-católica, o trabalho e o capital, mas também as nações basca e catalã ao resto de Espanha e, principalmente, ao domínio de Castela.

Tendo dito isto, é bom lembrar que a precária unidade da Espanha actual muito deve ao rei Juan Carlos e ao seu papel na chamada "transição democrática", que estabeleceu as bases mínimas nas quais a grande maioria dos espanhóis se pôde rever, independentemente da respectiva nacionalidade, língua materna, opção politica ou de regime. Por isso mesmo, o que está agora em causa na tão badalada caçada aos elefantes do rei Juan Carlos, no Botswana, não é apenas uma questão moral pelo facto do rei ter decidido esbanjar uns milhares de euros, numa actividade frívola, num momento de austeridade para a grande maioria dos seus concidadãos. Muito menos uma questão, também ela moral, de ver o seu rei envolvido na crueldade ou brutalidade de uma actividade como a caça grossa, facto que não deixará de chocar muitos dos espanhóis. Embora ambas as questões não deixem de ter o seu peso, o que está fundamentalmente em causa e delas deriva é uma questão política e, neste aspecto, um erro crasso do rei que, ao arriscar com este seu acto colocar em causa a instituição monárquica, que com ele se confunde, não deixará, dado o papel que esta tem desempenhado desde a "transição", de contribuir também para enfraquecer a unidade do pais e o precário  equilíbrio multinacional em que esta tem assentado nos últimos anos. Numa república, o eleitorado não deixaria de lhe indicar qual o próximo caminho a seguir. Mas também tenho dúvidas que sem Juan Carlos e a monarquia a Espanha tivesse conseguido percorrer o mesmo caminho que iniciou em 1976 e fosse um país igual ao que é hoje. Mas cumprido esse papel, teremos que nos interrogar se o rei de Espanha ainda faz parte da solução ou, pelo contrário, se tornou num problema que é necessário resolver.

domingo, dezembro 28, 2008

A RTP e D. Juan Carlos

Apesar das más traduções continuarem (“primo-irmão” não existe em português; a tradução correcta de “primo-hermano” é “primo-direito” – caramba!, é assim tão difícil?), a RTP presenteia-nos por vezes com muito boas surpresas. Acabei há pouco de ver , na RTP 2, um excelente documentário sobre a infância, adolescência e ascensão ao trono de D. Juan Carlos. Uma autêntica lição de política e de História que bem valeu o serão. Muito bem!

terça-feira, julho 01, 2008

Ainda a selecção de Espanha e a unidade do país

Por muito que a selecção de futebol de Espanha seja tradicionalmente formada por jogadores das suas várias nacionalidades (nas épocas áureas do futebol basco estes estavam, frequentemente, mesmo em maioria), o que é um facto é que o apoio popular ao seu desempenho está muito longe de ser unânime, ou perto disso. Mesmo hoje, com a Espanha campeã da Europa, os esforço dos jornais castelhanos para mostrarem unidade no apoio à selecção e as tentativas muito meritórias do rei Juan Carlos, da família real e do presidente do governo, José Luís Rodriguez Zapatero, para aproveitarem a oportunidade, o que é um facto é que, como já aqui mencionei, numa cidade de 1.5 milhões de habitantes como Barcelona, e com uma área metropolitana onde vivem 3.0 milhões, apenas pouco mais de 10 mil pessoas vieram para a rua festejar. 10% da normal assistência a um jogo do Barça! Como termo de comparação, numa média cidade como Granada, e segundo o “Público de hoje, estiveram 30 mil nas ruas. Mas, mais evidente é o que se passou em Bilbau, a maior cidade basca com cerca de 350 mil habitantes (seria a 2ª cidade portuguesa) e uma área metropolitana com cerca de 1 milhão, onde, também de acordo com o mesmo “Público”, mil pessoas (corajosas, acrescento) festejaram nas ruas. Disse bem: mil!, não se enganou a ler... Quem quiser comparar, agora que vem aí o “Tour”, veja na televisão as etapas dos Pirinéus e tente calcular o número de espectadores que envergam camisolas da principal equipa basca e empunham Ikurriñas. Espanha...

terça-feira, janeiro 22, 2008

Helena Matos e o "Hino de Espanha"

Uma explicação de que acho Helena Matos necessita (ver “Público” de hoje, não linkável) para evitar demagogia tanta e tão barata sobre a questão do hino de Espanha.

Os políticos, neste caso os espanhóis, não “se atrapalham com os versos dos hinos que os dirigentes desportivos querem ouvir cantar nos estádios” - e Helena Matos sabe bem que o problema não é esse, só que a verdade lhe dá pouco ou nenhum jeito. Os políticos acham, e bem, pura e simplesmente despropositado que a bizarria de adoptar uma letra para um hino (a “Marcha Real”) que nunca a teve com carácter oficial (lá por casa, ás vezes inventávamos algumas nem sempre com o aval paterno), só para que pudesse ser cantado quando a bandeira de Espanha sobe no mastro ou os jogadores se perfilam no início do jogo, iria causar graves problemas políticos e fracturas várias num país composto por várias nacionalidades, com grandes pulsões independentistas em algumas delas e onde, por esse motivo, pelas feridas mal saradas da guerra civil, por alguma recente radicalização ideológica do PP, inclusivamente pela questão da natureza monárquica ou republicana do regime que só o prestígio de D. Juan Carlos atenua, qualquer pequeno incidente, aparentemente menor, pode ter consequências imprevisíveis. Parafraseando o nosso actual Presidente da República referindo-se aos referendos: esse é, em Espanha, o tipo de coisas que se sabe como começa mas nunca se sabe como acaba. Uma letra para a "Marcha Real" era tudo o que Espanha não precisava de momento, a não ser, talvez, os seus sectores políticos mais radicais. Não era, Helena Matos?

Para além do mais, sabe você, Helena Matos, muito bem, em que contexto histórico e ideológico nasceram os hinos, entre os quais o português, o que acentua ainda mais o carácter um pouco vetusto e arcaico de tal iniciativa. Sabe, no fundo, os políticos de Espanha demonstraram alguma dose daquilo que você, qual incendiária em propriedade alheia, parece revelar desconhecer: bom senso! Só isso: apenas bom senso.

segunda-feira, novembro 12, 2007

A Espanha e o seu rei

Pela especial importância política que assumiu na, também ela muito particular e sensível, transição democrática de Espanha, pelo papel desempenhado na tentativa de golpe de estado de Fevereiro de 1981, pela própria natureza do estado espanhol e das várias nacionalidades que o compõem, se quisermos ir mais longe, pela questão do regime que dividiu a Espanha durante a Guerra Civil e, depois, pelo contencioso com o franquismo protagonizado por seu pai, D. Juan de Borbón, Conde de Barcelona, o rei de Espanha, D. Juan Carlos, assume uma importância política que vai muito para além do habitual papel reservado a um monarca constitucional nas diversas monarquias europeias. Mais do que nos interrogarmos sobre o facto de ter sido ou não eleito, como o faz Daniel Oliveira no Arrastão, o que é absolutamente redutor (todas as democracias europeias – monarquias ou repúblicas - têm orgãos de estado ou de soberania, não legislativos ou executivos, não eleitos), a questão a colocar é se um monarca constitucional deve estar presente numa cimeira política como e com as características da Ibero-Americana, para além do seu papel de representação de estado. Estou quase certo a nenhum outro isso se permitiria, e que só a muito especial condição que envolve a figura de D. Juan Carlos, em função do papel político que efectivamente desempenha e acaba por transcender de facto as suas meras funções constitucionais e protocolares, o torna possível e permite que assuma um protagonismo para além do que é habitual em cargos semelhantes. Mas foi também essa mesma condição que lhe permitiu mandar calar Chavez, atitude, de facto, política (independentemente do que se pense do presidente venezuelano e eu penso mal) impensável em qualquer outro monarca europeu e que está a deixar a Espanha, o PP e o PSOE à “beira de um ataque de nervos”. Mas... exactamente pelo que se afirma acima, resistirão a monarquia e a Espanha ao desaparecimento, um dia, do seu actual rei?