sexta-feira, junho 27, 2014

Friday midnight movie (95) - Zombie (VI)


"Planet Terror", de Robert Rodriguez (2007)
Filme completo c/ legendas em castelhano

Jagger & Richards por Chris Farlowe (7)

"Satisfaction" - Immediate IMEP 001 (1965)

Futebol, selecção e jornalismo desportivo

Nos últimos vinte anos, potenciado pela chegada das televisões e, consequentemente, do dinheiro dos patrocinadores, o futebol evoluiu mais do que nos cinquenta anos anteriores. E refiro-me não só às questões técnico-tácticas como a todas as outras relacionadas com o treino e preparação das equipas, como a logística, equipamentos, medicina desportiva, psicologia e motivação, etc, etc. Também, claro, pois estamos a falar de dinheiro e negócio, nas questões relativas à gestão financeira e desportiva. 

Infelizmente, a maioria dos jornalistas desportivos não acompanhou essa evolução, a ela não se adaptou ou, por facilitismo, a essa realidade a maioria (não todos) da nova geração não aderiu. Por outro lado, a chegada do futebol às televisões trouxe também consigo o perigo da massificação e do populismo a ela associado, e potenciou algumas vertentes do espectáculo que pouco ou nada têm a ver com as questões técnicas do jogo e da gestão do negócio. Estava assim formada a tempestade quase perfeita que conduziu o jornalismo desportivo (leia-se, futebolístico) ao seu actual estado de indigência, preferindo a discussão sobre "fait divers" e o enfoque nas mais variadas teorias da conspiração à análise fundamental do que se passa dentro de campo e, a montante, das questões de natureza económica e financeira que enquadram os clubes e o jogo. E quando a tudo isto se junta o fenómeno selecção nacional, tornada símbolo de um nacionalismo serôdio, em época de crise de identidade, e refúgio de quem não gosta de futebol mas apenas pretende "curtir" o momento, tudo piora, alcançando níveis de ruído insuportáveis para quem gosta do jogo e do espectáculo e, simultaneamente, tenta manter alguma sanidade mental e capacidade para pensar. 

Claro que, felizmente, existem excepções, e nestas não poderei deixar de referir o bom trabalho feito pela RTP Informação e pelos comentadores Carlos Daniel, José Couceiro, Rui Costa, Carlos Carvalhal e, embora a um nível não tão elevado mas ainda assim esforçado e aceitável, Vítor Pereira e Bruno Prata. Também alguns dos artigos de opinião do jornalista António Tadeia no "Record". Serviço público também é isto: ajudar a pensar e a entender o jogo e o espectáculo.   

António Costa e o velho dilema da oposição democrática

Parece cada vez mais evidente que as eleições primárias do PS serão aquilo que tiverem de ser para António José Seguro ganhar. Aliás, a opção por "primárias" em vez da convocação de um congresso e de "directas" presidiu desde início a esse objectivo e duvido o actual secretário-geral aceite perder em campo o que ganhou na secretaria. Por enquanto estamos apenas no campo "soft" das questões organizativas e dos regulamentos "custom made", com uma ou outra incursão pelo campo já mais duvidoso dos procedimentos (o "caso" farmácias), mas parece existirem poucas dúvidas de que, caso necessário, se assistirá a uma deriva que não deixará de desembocar no "hard core" das "chapeladas" e outras "trafulhices" mais ou menos congéneres.

Perante isto, António Costa debater-se-à com o velho dilema da oposição democrática no tempo do Estado Novo: ir até às urnas, caucionando um processo que, de ou ou outro modo, parece viciado à partida, ou desistir alegando falta de condições e a viciação do processo, podendo ser assim acusado, pela actual direcção do partido, de cobardia política? Tendo em atenção a sua anterior candidatura falhada a secretário-geral e o estilo de actuação de que a actual direcção tem vindo a dar provas, ao estilo "disposta a tudo", salvo se algo de excepcionalmente grave se passar não restará a António Costa outra opção senão ir até ao fim, talvez caminhando, corajosa mas inutilmente, para o cadafalso que desde o início lhe está destinado. Se o sacrifício será ou não inútil é coisa que depois veremos. 

quinta-feira, junho 26, 2014

Roy Orbison SUN recordings (2)

"Go Go Go (Down The Line)" - SUN "242, "B"side (1956)

O negócio Garay

É óbvio que ninguém de boa fé e no seu perfeito juízo acredita que o SLB vendeu o passe do jogador Ezequiel Garay por seis milhões de euros. E se quisermos ir um pouco mais longe, "idem, idem, aspas, aspas", no que diz respeito aos quinze milhões arrecadados com a venda de André Gomes. No primeiro caso, e face aos valores correntes no mercado, o valor peca por defeito; no segundo, suspeito que por excesso. Podemos apenas especular dizendo que "isto anda tudo ligado" ou que o SLB assim se escapa de pagar ao Real Madrid 50% do valor real da transacção do internacional argentino, e o que mais adiante ainda neste defeso por certo se verá.

O problema é que a CMVM engole isto tudo sem pestanejar, embora, aparentemente, possamos não estar aqui perante uma ilegalidade "pura e dura" (devo dizer que desconheço a legislação), mas apenas perante um processo de engenharia financeira assaz primitivo, do tipo "tira daqui, põe ali". Mas, se provar o que quer que seja me parece difícil - e até o esclarecimento cabal a sócios e accionistas da SAD me parece problemático sem pôr a nu os contornos do negócio - competiria pelo menos à entidade reguladora mostrar que existe, num mercado que movimenta milhões mas onde a regulamentação e a transparência tardam em chegar, como o prova também um negócio promovido pelo FCP há mais de dez anos que ainda se encontra sob investigação. Mas que mais se poderá dizer quando FIFA e UEFA, a quem competia dar o exemplo, permitem "compras e vendas" já com as competições a decorrerem e onde o empréstimo de jogadores entre clubes que disputam essas mesmas competições é prática corrente?

Já agora: não vi ainda nos jornais desportivos "online" e no "Record" em papel (o único que já folheei) qualquer tentativa de análise do negócio. 

quarta-feira, junho 25, 2014

4ªs feiras, 18.15h (85) - "Noir" (XI)

"Pickup Alley", de John Gilling (1957)
Filme completo c/ legendas em castelhano

Devem jogar sempre "os melhores"?

Numa selecção devem sempre jogar "os melhores", aqueles que, a cada momento, estejam em melhor forma? Bom, independentemente do carácter subjectivo e redutor (os melhores para fazerem o quê, para jogarem de que modo?)  subjacente à definição de "os melhores" (e já não é pouca coisa), convém lembrar que uma selecção quase não tem tempo para treinar e é no treino que se implementam princípios e modelos de jogo; "automatismos", se quisermos utilizar o termo mais habitual. Ora isso é impossível se, a cada momento, o seleccionador optar por esses tais "melhores", a não ser que, em vez de uma equipa, prefira ter um amontoado de 11, 14 ou 23 jogadores num conjunto sem qualquer nexo. Por isso, em qualquer selecção com um mínimo de ambições existe sempre um "núcleo duro", que forma a estrutura da equipa, ao qual, "au fur et à mesure", se vão juntando alguns, poucos, que vão dando provas de qualidade de jogo e maturidade competitiva para poderem constituir uma opção que comprovadamente possa acrescentar valor ao colectivo. Aliás, não é por acaso que as selecções que assentam a sua estrutura num clube - no modo como esse clube joga -, como foi o caso da Espanha nos últimos ano e é agora o caso desta Alemanha, um género de Bayern "reforçado", têm normalmente maiores possibilidades de êxito. O mesmo aconteceu, aliás, no já muito longínquo 1966 com a selecção portuguesa, formada na base do SLB, e, em menor escala, com a selecção de 2004, baseada no FCP de Mourinho.

Por isso mesmo, mais do que "os melhores", devem jogar aqueles que "dêem mais garantias" a quem os dirige, isto é, aqueles que, pela sua qualidade técnica, maturidade e capacidade competitiva, pela sua experiência em determinado contexto colectivo e competitivo, melhor e de forma mais qualificada possam pôr em prática uma ideia de jogo previamente definida a assimilidada. Ora se Paulo Bento cometeu erros na abordagem dos jogos com a Alemanha e com os USA - e já aqui e aqui os nomeei, depois do primeiro jogo e antes do segundo - não se poderá alguma vez dizer que não seguiu, na lógica das suas convocatórias, um padrão adequado ao que acima descrevo, tendo juntado ao tal "núcleo duro" jogadores que tinha vindo a integrar gradualmente, tais como William Carvalho, André Almeida, Éder e Rafa e tendo incluído na lista dos 30 alguns outros nomes (João Mário, André Gomes, Ivan Cavaleiro, Anthony Lopes, etc). O resto, o que se diz por aí, com algumas notáveis excepções como esta, é um misto lamentável e explosivo de ignorância e do populismo do mais desbragado. "Vão-se catar"!

segunda-feira, junho 23, 2014

Paulo Bento: voltemos à convocatória

Como a minha paciência é infinita e o combate à estupidez não pode ter tréguas, vamos lá tentar analisar a convocatória de Paulo Bento focando os nomes mais badalados "que deviam lá estar e não estão". Mas vamos tentar fazê-lo com "cabeça, tronco e membros", tendo em atenção duas questões fundamentais:
  1. Estamos restritos a um grupo de 20 jogadores - retirando os três guarda-redes - o que significa para entrar A tem de sair X, para entrar B tem de sair Y e assim sucessivamente, coisa que vejo demasiadas vezes esquecida.
  2. Uma fase final de um Mundial, tal como uma revolução, não é propriamente um "picnic" e, portanto, temos de considerar gente com alguma experiência do "grande futebol", seja ao nível de selecções, seja de clubes.
Tendo isto em atenção, vamos lá analisar os nomes mais "badalados": Cédric, Antunes, Adrien e Quaresma.
  1. Cédric. É um razoável defesa-direito e fez uma boa época. Mas quem sairia? André Almeida, que não faz pior o lugar e tem as vantagens de ser polivalente e ter experiência de Champions League e Liga Europa? Um dos quatro centrais, sendo que Ricardo Costa tem a vantagem de também fazer as "laterais", jogar num campeonato mais competitivo e ter grande experiência internacional, no seu clube e na selecção? Amorim, que alia à maturidade e experiência internacional o facto de fazer também "6" ou "8"? Impossível.
  2. Antunes. Para além de Coentrão, é o único defesa-esquerdo "canhoto" com um mínimo de capacidade para jogar na selecção. Quem sairia? André Almeida? Mas tal obrigaria a encontrar mais uma solução para a direita, já que isto é como um cobertor: tapa de um lado, destapa do outro. Alguém de um meio-campo que sempre me pareceu deficitário em termos de número de jogadores convocados (já lá vamos)? Além do mais, Antunes faz apenas um lugar: com esse "handicap", tem a categoria-extra suficiente para justificar a convocação?
  3. Adrien. Ora aqui está um ponto: com o "déficit" de gente a meio-campo, em boas condições físicas, eu teria convocado Adrien, apesar da sua escassa experiência internacional. Retirando quem? Em minha opinião, um ponta de lança, já que, teoricamente, Postiga e Hugo Almeida seriam suficientes uma vez que Cristiano também pode ser utilizado na posição. Mas percebo Paulo Bento: Adrien é exclusivamente um "8" e tanto Meireles, como Moutinho e Amorim fazem bem a posição. Ironicamente, prova-se a posteriori e em face das lesões ainda bem Paulo Bento levou três pontas de lança. E se o preterido tivesse sido Rafa? Era outra opção e sobre Rafa, que nunca vi jogar "com olhos de ver", não me pronuncio. Mas Adrien é talvez a minha única discordância com Paulo Bento, embora não veja como a sua inclusão no grupo dos convocados poderia, por si só, mudar alguma coisa que se visse.
  4. Quaresma. Contrariamente ao que tenho lido, tenho quase a certeza a não opção por Quaresma nada tem a ver com questões do foro disciplinar ou semelhantes, mas sim com a sua incapacidade para entender o jogo e a sua total falta de sentido colectivo. Ricardo Quaresma é uma firma em nome individual, um jogador por conta própria, que, fazendo de vez em quando (muito de vez em quando, note-se) os seus números de ilusionismo, dificilmente pode ter lugar numa equipa que faça do colectivo a sua arma principal, como acontece no futebol moderno. E não se trata apenas de "defender ou não defender", mas de entender o jogo, uma equipa e as suas movimentações. Aliás, um dos sintomas da fraqueza do FCP 2013/14 foi exactamente a dependência da equipa desses "números" de Quaresma e a preponderância que o jogador veio a ter nos melhores resultados da equipa.
Estamos conversados?

Paulo Bento? Pensemos com o cérebro, sff.

Paulo Bento chegou à FPF pouco depois do início do apuramento para o Europeu de 2012, em situação muito difícil para uma selecção que tinha conseguido apenas um ponto em seis possíveis (empate em casa com Chipre e derrota na Noruega). Qualificou a equipa para a fase final e, depois, num grupo de extrema dificuldade, com Alemanha, Holanda e Dinamarca, todos eles ex-campeões europeus (e da era moderna, não dos tempos da "bola quadrada"), chegou aos quartos-de-final e meias-finais, sendo eliminado na marcação de "pontapés da marca de grande penalidade" pela campeã do Mundo, da Europa e futura bi-campeã, que golearia a Itália na final (4-0). Foi um excelente resultado obtido com o pior conjunto de jogadores dos últimos 25 anos. Terei de recuar aos "seabrinhas", do período pós-Saltillo, para encontrar pior plantel.

Depois viria a conseguir o apuramento para o actual Mundial, naquilo que podemos considerar "serviços mínimos", um "suficiente menos", mas mesmo assim um resultado que cumpria com os objectivos. Não vai agora a selecção portuguesa cumprir os tais "serviços mínimos" apurando-se para os 1/8 de final num grupo que até nem era dos mais complicados, mas o mesmo acontecerá com a Espanha, a Inglaterra (ambos apurados para o Mundial sem recurso ao "play-off") e os que, entre os europeus, mais adiante ainda veremos. E o mesmo aconteceu com a França, campeã do Mundo em título, em 2002 (um empate e duas derrotas com zero golos marcados). Aliás, convém aqui lembrar a tradicional dificuldade das selecções europeias nos Mundiais disputados fora do seu continente, onde apenas a Espanha ganhou numa competição quando os efeitos "jet lag" e climatérico não estavam presentes (África do Sul).

Responsabilidades de Paulo Bento? Sim, numa má abordagem ao jogo com a Alemanha, tentando jogar "de igual para igual", com "pressão alta" e a linhas demasiado subidas, quando a constituição da equipa e o adversário recomendariam o contrário. Sem essa má escolha talvez a derrota tivesse sido menor ou até o empate tivesse sido possível. Má escolha de jogadores? Mas alguém é capaz de afirmar, com honestidade e pensando com o cérebro e não com outras partes do corpo menos adequadas a tal função, que Adrien, Cédric e Quaresma (os habitualmente citados; não me lembro de mais ninguém) poderiam ter feito a diferença? Responsabilidade nas demasiadas lesões musculares e numa deficiente adaptação às condições climatéricas? Sou leigo na matéria, mas penso o mesmo acontecerá com 99.999% dos que por aí oiço com opinião definitiva sobre o assunto. Aguardo as equipas médica e técnica da selecção se pronunciem. 

Tendo isto em atenção, deve Paulo Bento continuar como seleccionador? Estando de fora, francamente, não vejo porque não nem onde a FPF poderá conseguir melhor opção: Del Bosque, com outras obrigações, e Roy Hodgson, podendo a FA contar com outros recursos financeiros, vão também eles continuar. Não sejamos "mais papistas do que o Papa" e preparemos racionalmente o futuro, deixando-nos de populismos e dos tradicionais "oito/oitocentismos" bacocos. Certo?

sábado, junho 21, 2014

Documentário de sábado (34)

Girl Groups - The Story of Sound

O BES e "tirar o Estado das empresas"

Ok, a senhora (Rita Barosa) até tem um percurso na banca que a recomenda para o lugar; nesse aspecto, nada a dizer. Bom, mas foi membro do governo, embora se possa dizer que episodicamente; enfim, foi assim a modos que um "vai ser tão bom, não foi", pode dizer-se que terá ido ao engano. Ah, mas foi como secretária de Estado do ministro Miguel Relvas: enfim, toda a gente tem um mau momento na vida, uma mancha mais ou menos sombria no seu passado. Mas então Relvas não é conhecido por ser um "facilitador"? Enfim, a senhora, quando viu como a "coisa" era, pediu licença e foi-se embora, para a sua "zona de conforto", todos sabemos como essas coisas são. Mas agora, depois de trabalhar (por escasso tempo, eu sei) com um "facilitador" como o ministro Relvas (não lhe chamo ex-ministro, "personagens" - ou "pintas" - como ele são ministros vitalícios) vai para a administração de um BES, em grave crise e sob suspeita, incluída no pacote de Paulo Mota Pinto, ex- juiz de Tribunal Constitucional proposto pelo PSD (será que Mota Pinto, que até é um tipo simpático, é dos que não "traiu"?), membro da Comissão Política de recandidatura de Cavaco Silva, ex-vice presidente da Comissão Política Nacional do PSD, actual deputado e ex-presidente da Comissão Parlamentar de Economia e Finanças? E que, claro, como não tem qualquer percurso na banca e vai ocupar um lugar de representação ("chairman"), vai também ele assumir o papel de "facilitador"? Já agora - e o agora refere-se também a todo o processo de sucessão no  GES - o Banco de Portugal , que já não é dirigido por um "socialista suspeito", mas por alguém que até teve um papel importante na queda do governo Sócrates, vai aceitar toda esta "fantochada"? E o principal partido da oposição, o tal que, segundo o seu actual secretário-geral, "quer separar a política dos negócios", que vai dizer? Suspeito que pouco ou nada (até gora, nada), porque terá "telhados de vidro". Moral da história, que todas as histórias devem ter uma moral: depois de o fomentarem, venham agora queixar-se do ambiente anti-partidos, do populismo, da histeria justicialista, da decadência do regime, etc, etc. E, já agora, repitam lá que tudo isto se resolve com a diminuição do número de deputados e com os círculos uninominais. Ou, a aqui vou soltar uma enorme gargalhada, que "é preciso tirar o Estado da empresas"... Importam-se de (não)repetir? 

quinta-feira, junho 19, 2014

Roy Orbison SUN recordings (1)

"Ooby Dooby" - SUN #242 (1956)

A crise de "La Roja"

Os êxitos recentes da selecção de Espanha foram reflexo directo dos sucessos do "tiki taka" do Barça, um modelo que, como qualquer mecanismo de relojoaria, não admite um grão de areia e só funciona quando tudo é perfeito. O seu insucesso neste Mundial resultado da crise do clube catalão e desse tal modelo que perfilha. Olha-se para esta "Roja" e não se vê ali uma ideia de jogo, mas sim uma crise de identidade. O resto (Casillas, Diego Costa, a idade de alguns jogadores) são questões menores ou subsidiárias. Não vale a pena ir mais longe procurar o que está mesmo à frente dos nossos olhos.

Sobreviverá o "tiki taka" a esta geração? Depende: como para o modelo ter êxito é preciso que tudo funcione na perfeição, apenas se for possível reunir um grupo de jogadores que nele encaixe a 100%, replicando os Iniesta, os Xavi e por aí fora. Veremos...

quarta-feira, junho 18, 2014

4ªs feiras, 18.15h (84) - "Sword & Sandals" (VIII)


"Il Colosso di  Rodi", de Sergio Leone (1961)
Filme completo c/ legendas em português

Girls, Girls, Girls (5)

Betty Everett - "The Shoop Shoop Song" (It's In His Kiss) - 1964

Joga o Manel ou joga o Joaquim? - ou a delícia dos "treinadores de bancada"

Continuando com estas coisas do Mundial, e agora falando do jogo contra os USA, devo dizer também estou farto de histórias do tipo "joga o Manel ou joga o Joaquim", "devia pôr o António já que o José está castigado/lesionado". Ora a primeira pergunta que se deve fazer antes de começar a atirar com nomes para a praça pública, é: "o que vai encontrar a selecção portuguesa nesse jogo"? "Que problemas vai defrontar e como pensa resolvê-los mantendo, no essencial, os seus princípios e ideia de jogo"? Ora partindo destas premissas e tendo em atenção o que vi no jogo dos norte-americanos contra o Gana (Paulo Bento e a sua equipa técnica terão visto muito mais jogos), o que vai a equipa portuguesa encontrar? Penso que uma equipa americana a jogar num bloco "médio-baixo", defendendo bem pelo meio e explorando o contra-ataque pelas alas (Dempsey, principalmente) e o passe longo para o substituto de Altidore (lesionado). Ora isto significa que a selecção portuguesa vai forçosamente ter mais bola; vai ter de a fazer circular no meio-campo adversário e jogar a toda a largura do terreno, para abrir espaços, assumir o jogo e ter paciência se o golo tardar. Muita paciência, mesmo. 

Assim sendo, Paulo Bento, entre o Manel e o Joaquim, o António e o José, terá de escolher aqueles que se sintam mais confortáveis neste processo e melhor possam interpretar o modo como a equipa terá de se comportar neste panorama que se "perspectiva". Quem? Não vejo os treinos, não falo com os jogadores, não conheço a sua condição técnica, física e psicológica, etc, etc. Mas, com todas estas ressalvas, quer-me parecer que, ceteris paribus, a fiabilidade e jogo aéreo de Ricardo Costa podem ser preferíveis à rapidez de Luís Neto; a capacidade defensiva de André Almeida, mesmo destro, talvez leve a melhor sobre a técnica de Veloso a colocar a bola à distância; talvez deva jogar no meio-campo quem tenha maior capacidade para cair rapidamente sobre as alas, quer nos movimentos defensivos, quer nos atacantes; Postiga cai como peixe na água neste panorama e, se a coisa se complicar, Vieirinha e Varela podem vir a ter uma palavra durante o jogo. Mas isto digo eu, treinador de bancada um pouco a contra-gosto, agradecendo desde já quem me conteste com argumentação a propósito.

terça-feira, junho 17, 2014

Jagger & Richards por Chris Farlowe (6)

"Paint It Black" - Immediate 071 (1968)

Portugal-Alemanha: ainda o equívoco - e também o jornalismo desportivo.

A estupidez das pessoas não tem limites e a da grande maioria dos jornalistas e comentadores de futebol ainda menos. Pois não é que vejo por aí dominante a opinião de que a selecção portuguesa "até entrou bem no jogo", a "pressionar alto" e jogando "olhos nos olhos" com os alemães? Pois eu direi - e já o fiz aqui - que o problema começou aí mesmo, em querer jogar em "pressão alta" e de "igual para igual" com esta fortíssima selecção da Alemanha (um género de misto Bayern/Borussia, não sei se já perceberam), mais a mais com Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo, jogadores muito mais adequados para explorarem, a partir de um bloco baixo, as transições rápidas e o eventual espaço deixado livre atrás da defesa contrária. Ao entrar do modo como entrou (que lhes terá passado pela cabeça, a jogadores e equipa técnica?), a selecção portuguesa pôs-se a jeito e a partir dos 11', em inferioridade no marcador, lá se foi qualquer possível hipótese de optar pelo plano que me pareceria mais adequado. Digamos que a jogar como o fez, a selecção portuguesa, em vez de optar pela estratégia anglo/lusa de Aljubarrota, resolveu fazer o papel da cavalaria francesa em Crécy, Poitiers e Azincourt, e a da franco/castelhana na mesma Aljubarrota. Desastre.

Quero dizer com isto que com a estratégia adequada os portugueses poderiam não ter perdido o jogo? Não me parece; não sou doido nem vou tão longe. Mas poderiam, pelo menos, ter evitado a goleada e o enxovalho, o que, sendo realista, era tudo o que se lhes pedia: uma derrota assim pelo tangencial ou, com uma dose cavalar de sorte e igual ajuda dos deuses e dos santos milagreiros, um empatezito providencial. Assim, puseram-se a jeito e foi o que se viu. 

segunda-feira, junho 16, 2014

Portugal - Alemanha: o equívoco

Como tinha dito aqui, quando a selecção portuguesa entrou em campo com Hugo Almeida no lugar de "ponta de lança" pensei iria jogar num bloco médio-baixo e tentar explorar as transições rápidas. Parecia correcto face ao poderio da selecção da Alemanha. Estranhamente, vi uma equipa adiantada no terreno a tentar jogar "olhos nos olhos" contra uma selecção que lhe era teoricamente bastante superior. Isso foi-lhe fatal e aos 12' viu-se a perder, com um "penalty" estúpido, deitando por terra qualquer possível estratégia baseada num "bloco baixo" e "transições rápidas" que, de qualquer modo, parecia esquecida na imatura e inexplicável excitação de "mostrar serviço"  logo nos primeiros minutos. Por isso mesmo, havendo que mudar algo na forma de jogar, já que os alemães recuaram um pouco no terreno, a lesão de Hugo Almeida e a sua substituição por Éder até poderia ter tido alguma utilidade. Mas a equipa portuguesa continuou a laborar no mesmo equívoco táctico e veio o segundo golo e a expulsão do desmiolado Pepe. O jogo acabou aí.

Pergunta: Cristiano Ronaldo está ou não em condições de dar o seu contributo à equipa com um mínimo de eficácia?

Onde a propósito do futebol se fala de Haydn

Joseph Haydn - Quarteto nº 62 em Dó Maior Op. 76 nº3
2º andamento - Poco adagio: Cantabile

Quando, daqui a pouco, ouvirem o hino da Alemanha (Das Liede der Deutschen) no início do jogo com a selecção portuguesa, talvez não saibam que é baseado neste 2º andamento de um dos quartetos de cordas mais famosos de Joseph Haydn (1732 - 1809), conhecido como "o do Imperador" porque dedicado a Francisco II do Sacro Império Romano-Germânico. A peça foi composta no ano de 1797 e foi um dos mais de 60 quartetos de cordas compostos por Haydn.

Postiga ou Hugo Almeida?

Ao contrário do que tenho por aí lido e ouvido, não me parece a opção de Paulo Bento entre Postiga e Hugo Almeida tenha que ver com a dimensão física do jogo nem, sequer, demasiado com a forma física de um ou outro jogador. O que me parece é que tudo vai depender muito mais da forma como o seleccionador português "perspectivar" (é assim que se diz agora em "futebolês") o jogo: se pensar vai ter de jogar durante largos períodos num bloco mais baixo e em transições rápidas, jogará o canhoto Hugo Almeida, mais à vontade nesse tipo de jogo, derivando com a propósito para a faixa esquerda desde terrenos recuados e arrastando assim um central contrário o que permite a entrada de Cristiano pelo meio e/ou o internamento de Coentrão. Se Paulo Bento achar que a equipa pode jogar um pouco mais "subida", com largos períodos "em posse" e fazendo circular a bola no meio-campo contrário, jogará Postiga, que entende bem melhor esse tipo de movimentos. 

O que é que eu acho? Bom, acho que a primeira opção é a que tem mais probabilidades de se verificar, mas também que nenhuma equipa que não seja constituída por alienígenas será capaz de jogar 90' em Salvador da Baía, à uma da tarde e mesmo na espécie de Inverno que por lá agora vigora (devo dizer só lá estive em Dezembro/Janeiro, pleno Verão, pelo que as condições eram diferentes e substancialmente mais gravosas), em permanentes transições rápidas e, por isso, vai ter que saber, em alguns períodos, gerir o ritmo de jogo com bola. Quero com isto dizer que, se me parece Almeida será opção inicial, prevejo nenhum deles jogue os 90'. Veremos...

sábado, junho 14, 2014

Juan Carlos de Espanha - La transición (13/13)

13. Las primeras Cortes democráticasEmitido a 15 de Outubro de 1995 (TVE)

O Grupo Espírito Santo e a democracia liberal

Sou dos que pensam não existe liberdade nem democracia liberal sem uma economia baseada na livre iniciativa empresarial - regulada e regulamentada e salvaguardando os chamados interesses estratégicos de cada país, acrescente-se. E também sei que não existe livre iniciativa sem grupos económicos fortes e saudáveis, só composta pelas tais micro, pequenas e médias empresas. É por isso, depois do descrédito em que caíram os políticos e também do caso de polícia que foi e é o BPN, que leio com especial preocupação as notícias sobre as alegadas irregularidades atribuídas ao Grupo Espírito Santo, que acabam por afectar não só o grupo económico e a família, mas também a Banca, todo o mundo empresarial e dos negócios e, por acréscimo, o regime. É que, ao contrário do que acontece com o BPN, já não estamos aqui perante um grupo de arrivistas sem escrúpulos - pelo menos em teoria, facilmente isoláveis - mas perante gente com outro tipo de "background" político e social e cuja actividade bancária, empresarial e até cultural atravessou séculos e regimes, apoiando e apoiando-se em todos eles e identificando-se com a História do país desde o século XIX. Muitos regimes, democráticos ou não, já caíram perante este "caldo de cultura". Preocupante, pois claro. 

quarta-feira, junho 11, 2014

Juan Carlos de Espanha - La transición (10/13)

10. La presidencia de Adolfo Suárez - Emitido a 24 de Setembro de 1995 (TVE)

4ªs feiras, 18.15h (83) - Brigitte Bardot (I)


"La Vérité", de Henri-Georges Clouzot (1960)
Filme completo c/ legendas em inglês

E se Cavaco Silva convocasse eleições?

E se Cavaco Silva, sabendo de antemão será quase impossível a uma coligação PSD/CDS alcançar um resultado significativo nas eleições legislativas, muito menos uma maioria absoluta, resolvesse convocar eleições antecipadas enquanto o PS está em confusão quase total, dando a Seguro uma hipótese de liderar o partido nessas eleições e possibilitando assim  à actual coligação a obtenção de um melhor resultado eleitoral e, consequentemente, a forte hipótese de vir a liderar um futuro governo ou negociar nele a sua participação em posição um pouco mais favorável? Maquiavélico? Nem tanto assim: Passos Coelho e Paulo Portas fingir-se-iam vítimas, mas, na realidade, Cavaco Silva acabaria deste modo por prestar aos "seus" um último serviço.

O que penso do Mundial

Devo dizer que estou longe e ser um "fanático" dos Mundiais. Em primeiro lugar porque estou longe de me entusiasmar com o futebol de selecções. Cada vez mais, o futebol é um confronto global de ideias e modelos de jogo e de treino, tácticas estudadas com máximo rigor, métodos de gestão e modelos de negócio, filosofias e culturas de organizações, estilos de comunicação e liderança, e é este conjunto de factores que vai contribuindo para que nos apaixonemos cada vez mais pelo jogo. Ora, no seu conjunto, isto está longe de acontecer em equipas (selecções) onde os jogadores são "pescados" em vários clubes (muitas vezes rivais entre si), cada um desses clubes com as sua própria cultura, quase não tendo oportunidade de treinar em conjunto e sem tempo para apreenderem o que quer que seja de novos modelos de jogo, organização e liderança - quando eles existam, o que não é fácil de acontecer em grupos formados de modo quase "ad hoc" e para períodos de tempo curtos. Apenas aqui e ali, quando a base de uma selecção é formada por jogadores maioritariamente oriundos de um só clube (ou tal aconteça com os seus jogadores-chave), como aconteceu com a Espanha/Barça ou, de forma um pouco menos evidente, com a Itália/Juve dos últimos anos, se torna possível fugir significativamente a esta lógica. Acresce que se há alguns anos os Mundiais constituíam oportunidade privilegiada para ver em acção alguns dos melhores jogadores do mundo, hoje em dia eles "entram-nos pela casa dentro" quase todos os dias da semana.

Por outro lado, com a sobrecarga dos jogos realizados durante a época, muitos dos melhores jogadores chegam aos Mundiais em má forma ou, por lesões motivadas por uma época longa, dele estão ausentes. Por último, e já não falando na histeria patrioteira que costuma grassar um pouco por todo o lado, com especial destaque para as televisões deste país, para ser franco e honesto muitos dos jogos, pelo menos na primeira fase, não interessam mesmo a quase ninguém, sendo esse quase composto exclusivamente pelos nacionais dos respectivos países. Por exemplo, alguém perde tempo a ver um México-Camarões, um Irão-Nigéria, um Costa do Marfim-Japão ou até um Suiça-Equador, para me ficar apenas pelos primeiros cinco dias? Pouca gente, mesmo, se excluirmos os respectivos nacionais. Compreendo, aceito e até concordo a FIFA, com os Mundiais de 32 selecções, tenha como intenção promover o futebol em alguns países onde ele esteja ainda numa fase de conquista de popularidade, mas para os espectadores do primeiro-mundo do futebol são estes jogos o preço a pagar. Mas adiante.

Posto isto, que dizer? Que lá irei ver os principais jogos, com interesse mas sem demasiada paixão, até mesmo com algum desprendimento, sendo claro que, adepto de Paulo Bento pela sua competência, sentido profissional e personalidade vincada, desejo a melhor sorte à selecção portuguesa, pela qual irei torcer. Mas sem exageros e longe, muito longe, do sofrimento, das palpitações e suores frios com que assisto a alguns jogos do meu "Glorioso". A época, essa começa a 10 de Agosto.  

terça-feira, junho 10, 2014

Juan Carlos de Espanha - La transición (9/13)

9. La demisión de Arias Navarro Emitido a 17 de Setembro de 1995 (TVE)

Duane Eddy & Sandy Nelson (4)

Sandy Nelson - "Drum Party" (1960)

Teresa Leal Coelho é inimputável?

Claro que o Tribunal Constitucional não é uma "vaca sagrada", é criticável e deve ser criticado, mesmo politicamente, que as suas decisões não devem exceder o âmbito das responsabilidades e competências que lhe estão constitucionalmente atribuídas, que os seus acordãos, pelo menos para um não-jurista como eu, parecem por vezes completamente esotéricos, expressos, não sei se propositadamente, num português de certo modo confuso, etc, etc. Direi mesmo que, como não sou ingénuo, parece estabelecida entre Governo e Tribunal Constitucional uma "guerra" de poderes entre orgãos de soberania que desprestigia ambos, as instituições da República e o Estado Democrático, enquanto um Presidente da República incompetente e sem qualquer característica política ou de personalidade que o recomende para o cargo que em tão má hora ocupa assobia para o lado, condecora Maria João Avillez (esqueceu-se do Tino de Rans ou estamos aqui apenas a assistir à versão "social climber" de Cavaco Silva?) e grita que não é "pressionável". Mas depois de termos assistido a afirmações de membros do governo sobre os juízes do Tribunal Constitucional que excedem o politicamente aceitável, até os limites da boa educação e só prejudicam uma correcta, e tanto quanto possível isenta, avaliação da actividade deste orgão de soberania, ouvir Teresa Leal Coelho, vice-presidente do PSD, acusar os juízes de "traição" a quem os nomeou e pedir sanções que penalizem tal atitude, querendo transformar o Tribunal Constitucional num orgão que julgue segundo os puros e estritos interesses partidários, sem que ninguém a "meta na ordem" "rapidamente e em força", excede tudo o que é admissível. Será que a senhora é inimputável ou neste país já vale tudo? Provavelmente, ambas as situações são verdadeiras.

sexta-feira, junho 06, 2014

Friday midnight movie (92) - Sci-Fi (XV)



"The Brain That Wouldn't Die", de Joseph Green (1962)
Filme completo c/ legendas em português

Juan Carlos de Espanha - La transición (5/13)

5. La llegada de Felipe emitido a 20 de Agosto de 1995 (TVE)

Sobre o tal dia "livre de impostos"

Demagogia da mais reles. A levar esta afirmação à letra, tal significava os cidadãos não receberiam do Estado qualquer retribuição, a prestação de quaisquer serviços ou a disponibilização de quaisquer bens públicos financiados pelos impostos pagos.  

D-Day, 70 anos: Omaha Beach

António Costa e a "armadilha" das "primárias"

Que mais haverá a dizer, neste momento, sobre a crise no Partido Socialista? Para já, que António Costa se deixou aprisionar - sem grandes protestos, diga-se - em duas armadilhas bem urdidas por António José Seguro. 
  1. Em primeiro lugar, as tais "primárias"; que não fazem qualquer sentido - muito menos pela ordem "primárias", "directas", congresso" - e das quais, na base da apresentação de um programa populista e no facto dos seus homens dominarem uma boa parte das estruturas e direcção do partido, Seguro espera vir a tirar alguma vantagem. Mas, dir-me-ão, não é Costa que ganha vantagem se "simpatizantes", "votantes" e "amigos" do PS forem chamados a votos? Teoricamente, isso é verdade; e, aliás, se Seguro e a direcção do partido quisessem mesmo saber quem estaria em melhor posição para ganhar as próximas eleições legislativas bastaria para tal encomendarem uma sondagem onde poderiam apresentar à consideração dos inquiridos (militantes, votantes, simpatizantes das tais "primárias e cidadãos em geral) uma meia-dúzia de nomes. Mas não se iludam os apoiantes de António Costa, nem, muito menos, menosprezem o adversário: aguardemos pela proposta de regulamentação das tais "primárias" e respectivos procedimentos para tirar conclusões. Quer-me parecer que muita tempestade pode estar ainda a formar-se no horizonte.
  2. Em segundo lugar, a "armadilha do tempo": quanto mais tarde se realizarem as "primárias" em pior e mais frágil posição se encontrará o partido, o que para Seguro é indiferente (endossará sempre as responsabilidades a Costa), mas não o será para Costa, que terá de legitimar a sua actuação presente com um resultado eleitoral inquestionável nas legislativas. Para além disso, com mais tempo, Seguro e a máquina partidária terão mais possibilidades de "desenharem" e adaptarem as tais "primárias" aos seus desejos e PSD e CDS para desgastarem e moverem guerra aberta a Costa na gestão da CML (o que aliás já começou), tentando favorecer Seguro.
Duas notas finais:
  • Concordo ser muito difícil para António Costa contestar a efectivação das tais "primárias", dada a imagem "popular" e "democrática" que estas projectam. Mas de um líder e de um político com convicções seria isso que se deveria esperar.
  • Não me venham, em defesa das "primárias", com o exemplo dos USA: a estrutura, organização, modo de funcionamento e realidade que enfrentam os grandes partidos americanos nada têm a ver com as que existem na Europa. 

quinta-feira, junho 05, 2014

Seguro e "o rabo a abanar o cão"

António José Seguro diz que se demitirá do cargo de secretário-geral do PS se não ganhar as eleições primárias para candidato a primeiro-ministro. Ou seja, sujeita a sua continuidade na chefia do Partido Socialista aos resultados de uma votação para um outro cargo e onde, segundo tudo leva a crer, participará um largo número de não-militantes. Digamos que isto não tem pés nem cabeça, é uma espécie de rabo a abanar o cão.

Juan Carlos de Espanha - La transición (4/13)

4. El fin del aperturismo emitido a 13 de Agosto de 1995 (TVE)

A estratégia de Seguro e os "simpatizantes" do PS.

Faltava a entrevista de ontem à SIC Notícias para fechar o "ramalhete" e tornar tudo definitivamente claro na estratégia de António José Seguro: não estamos apenas na presença de uma manobra dilatória, mas perante o privilegiar da convocação de "primárias" com base num programa populista (redução do número de deputados, reforma do sistema eleitoral, incluindo círculos uninominais, etc) que nada tem a ver com a ideologia e prática política do PS, ou de qualquer versão da social-democracia europeia, das mais tradicionais às mais recentes,  mas lhe permita alargar a base de apoio depois de ter verificado que o "aparelho", atraído pelo maior potencial  eleitoral de António Costa, lhe começava a "trocar as voltas". 

Quais as consequências? Em primeiro lugar, ficamos desde já a saber que Seguro tentará que a definição e recenseamento dos chamados "simpatizantes" (ou outros votantes nas tais "primárias") se venha a subordinar a este objectivo e programa político, veremos como e de que modo. Em segundo lugar que a efectivação das primárias, pelo menos nestas condições e mais ainda na eventualidade de uma vitória de Seguro (mas também António Costa dificilmente poderá voltar atrás e prescindir delas no futuro), arrisca-se a pôr fim ao PS tal como o conhecemos, transformando-o numa organização sem quaisquer princípios políticos ou ideologia definida, ou pior, num grupo ao sabor do que a cada momento permita mais facilmente alcançar o poder. Exactamente o contrário do que deveria ser feito para repor alguma da confiança perdida entre cidadãos e política. 

Como dizia José Eduardo Martins no "Sem Moderação" de ontem (cito de cor): estamos perante alguém que vendo-se na contingência de ter de entregar o "brinquedo" o prefere destruir. E com ele o regime, acrescento.

Nota final: o que é um simpatizante do PS? Alguém, como acontece comigo, que por vezes e consoante as circunstâncias já tenha votado no partido ou em algum dos seus candidatos? Alguém que declare fidelidade à declaração de princípios e programa do partido, valha isso o que possa valer? E, neste caso, porque não se inscreve esse alguém como militante? Alguém que se defina como social-democrata? Com que base? No de um programa mais reformista e liberal, como o do primeiro governo de José Sócrates, ou mais perto da social-democracia "tradicional" e da "unidade de esquerda", como, por exemplo, pode ser o caso de Manuel Alegre? Ou, já agora, alguém que se reveja nas propostas populistas de Seguro? Não me lixem!

quarta-feira, junho 04, 2014

Juan Carlos de Espanha - La transición (3/13)

3. La revolución de los Claveles emitido a 6 de Agosto de 1993 (TVE)

4ªs feiras, 18.15h (82) - Eisenstein (II)

"Старое и новое" aka "A Linha Geral" (1928/9)
Filme completo c/ intertítulos em francês

Politicamente falando...

Não sou jurista e muito menos constitucionalista: os meus conhecimentos de Direito limitam-se a algumas cadeiras que quem cursava Economia ou Gestão tinha de "aturar" e ao todo devo ter entrado num tribunal, por questões da minha vida pessoal e profissional, pouco mais do que uma meia dúzia de vezes. Tendo dito isto, e como é óbvio pelo que acima afirmei não entrando na análise dos acordãos do Tribunal Constitucional, não deixo no entanto  fazer notar o seguinte - de um ponto de vista político, claro está:
  1. Parece-me estar instalado entre governo e Tribunal Constitucional um clima de mal-estar, talvez mesmo de "guerra surda" (independentemente de quem o tem fomentado), até de antagonismo político, que em nada contribui para um debate sério das questões e para o prestígio dos orgãos de soberania da República e consequentemente da democracia e do regime. Assim sendo, caberia ao Presidente da República tomar a iniciativa no sentido de resolver, ou pelo menos minorar, este estado de coisas. Claro que tendo em conta a personalidade de Cavaco Silva e o modo como tem exercido o cargo, as esperanças o faça são poucas.
  2. Sendo aceitável ou não que o Tribunal Constitucional entre pelo caminho das sugestões ao governo sobre matérias de governação (tenho dúvidas o deva fazer), o último acordão acaba por mencionar algo que me parece importante e que o governo devia ter em conta: nas democracia liberais são os impostos sobre o consumo, actividade e rendimento dos cidadãos e das sociedades o meio por excelência para financiamento do Estado, e estes incidem sobre todos os cidadãos em geral,  eno que diz respeito aos rendimentos de forma progressiva, e não apenas sobre grupos específicos, sejam eles funcionários públicos, pensionistas, cidadãos cujo nome começa pela letra Z, gordos, magros, de olhos castanhos ou verdes. Seria bom que o governo dedicasse alguns minutos do seu tempo a pensar sobre o assunto.

terça-feira, junho 03, 2014

Duane Eddy & Sandy Nelson (2)

Sandy Nelson - "Teen Beat" (1959)

Juan Carlos de Espanha - La transición (2/13)

2. El espíritu del 12 de febrero emitido a 30 de Julho de 1993 (TVE)

Juan Carlos, a transição e a continuidade da monarquia

Juan Carlos de Espanha foi fundamental na transição democrática e na manutenção da unidade de uma Espanha plurinacional? Sim, sem dúvida que sim, e estamos perante uma constatação à qual poucos ousarão opor-se. Mas atenção, porque é preciso ir um pouco mais longe: ao fazê-lo, Juan Carlos assegurou também a continuidade e legitimação da monarquia espanhola, marcada pelo "ferrete" de ter nascido de um pronunciamento militar contra a legalidade republicana e de uma guerra civil que dividiu também as nacionalidades de Espanha. Só ao conseguir conjugar, simultaneamente, democracia e unidade plurinacional a monarquia poderia assegurar a sua legitimação e continuidade. E só ao sobrepor-se aos direitos dinásticos de seu pai, D. Juan de Borbón (e este a eles renunciando), personalidade em ruptura com o franquismo, Juan Carlos poderia assegurar pelo menos a neutralidade de alguns sectores do franquismo e construir assim uma base social de apoio mais ampla para a transição. Digamos que, politicamente, Juan Carlos e os seus mais próximos agiram de modo brilhante.

Aliás, ao abdicar agora em favor de seu filho e de uma plebeia inteligente e também ela bem preparada (o rei, no seu discurso de abdicação, não deixou de se referir a Letízia Ortiz e não terá sido por acaso), em tempos de crise do regime, da família real e da figura do rei, Juan Carlos tenta novamente assegurar aquilo que, para si, e logicamente, nunca deixou de ser fundamental e valor que coloca acima de todos os outros: a continuidade da instituição monárquica. Veremos o que o futuro nos reserva naquelas que foram, pelo menos durante o século XX, as questões-chave da política espanhola: a natureza republicana ou monárquica do regime e a unidade plurinacional do Estado. 

segunda-feira, junho 02, 2014

Duane Eddy & Sandy Nelson (1)

Duane Eddy - "Rebel Rouser" (Maio de 1958)

Futebol: e 2014/2015?

O que pode desde já dizer-se sobre previsões para a próxima época no que diz respeito aos chamados "três grandes"? Resolvida a questão dos treinadores - que, no caso de Marco Silva e Julen Lopetegui, e como diria Forest Gump, são "como as caixas de chocolates": só depois de abertas sabemos o que está lá dentro" -, e como este "blog" não entra em especulações sobre plantéis e outras que tais, apenas que parece ponto assente que SLB e FCP irão desinvestir e reduzir os seus orçamentos significativamente (calculo, no mínimo, 20 a 25%) e que é provável o SCP, apesar do acréscimo de receitas vindo da Champions League, não o venha a aumentar, pelo menos de modo significativo. Aliás, foram neste sentido as afirmações do seu presidente.

Que significa isto? Que se nada de muito anormal se passar entretanto e durante a época, SLB e FCP (orçamentos de cerca de 60/65M em 2014/2015?)  continuarão a ser os principais candidatos ao título e o SCP (~25M) um "outsider" a ter em conta - mas sempre um "outsider". Também que o apuramento para os 1/8 de final da Champions League pode começar a tornar-se um problema ainda maior para as equipas portuguesas.

E para já é tudo. 

A responsabilidade política de António Costa

Olhando para a votação de Fernando Nobre nas últimas presidenciais e para a de Marinho e Pinto nas europeias, podemos concluir que existe uma forte tendência entre muitos portugueses para darem o seu apoio a uma personalidade política a quem, por razões várias e nem sempre coincidentes, atribuam qualidades ímpares para o exercício das funções governativas. Que os portugueses personalizem em demasia as suas escolhas e privilegiem quem acham vem de fora do "sistema" e se candidata contra ele, potencia o perigo populista e proporciona a génese do messianismo e da ditadura, mas se uma personalidade à qual os portugueses reconheçam, de uma maneira geral, qualidades ímpares para a governação surgir de dentro do regime, do seio de um dos dois grandes partidos do "consenso europeu" (PS e PSD) e com o controle e apoio destes, das suas estruturas e no respeito pelos fundamentos do Estado de Direito Democrático, não será certamente a opção ideal, mas pode certamente ser considerado como um mal menor. Talvez mesmo a derradeira oportunidade do regime e da democracia liberal. Pode vir a ser esta a responsabilidade política de alguém como António Costa. 

Juan Carlos de Espanha - La transición (1/13)

1. El asesinato de Carrero Blanco - emitido a 23 de Julho de 1993 (TVE)