quarta-feira, fevereiro 29, 2012

"ab origine" : esses originais (quase) desconhecidos (29)



"My Boy Lollipop" - o original de Barbie Gaye (1956)
Uma composição de Robert Spencer, do grupo The Cadillacs, talvez o mais famoso dos grupos "doo wop" 

O mega-êxito da anglo/jamaicana Millie Small para a Island Records, em 1964

terça-feira, fevereiro 28, 2012

As célebres alpargatas...

...agora, do nº 26 ao 42, na Loja Real, Praça do Príncipe Real, 20 

O que nos dizem as receitas dos clubes europeus

Segundo a Deloitte Money League, dos vinte clubes europeus com maiores receitas*, catorze apresentam uma receita de bilheteira inferior a qualquer das duas outras (direitos de TV e exploração comercial), individualmente consideradas. Portanto, apenas em seis casos a receita de bilheteira é superior a uma, ou a ambas, das restantes rubricas, e somente o Arsenal apresenta a bilheteira como fonte de receitas principal. Conclui-se também que no mesmo número de clubes (14) os direitos de TV constituem a sua maior fonte de receitas.

Para o SLB, 21º do "ranking" mas para o qual não é indicado o "mix" de receitas (€102M no total), quatro conclusões a tirar:
  1. As limitações da receita de bilheteira, principalmente em situação de crise económica, como fonte de crescimento das receitas totais. 
  2. A necessidade de pensar cada vez mais na diáspora e nos PALOP como fonte de receitas da exploração comercial e aumento de audiências que permita maximizar as receitas de TV.
  3. A razão que assiste ao clube na negociação dos futuros direitos de TV, actualmente muito baixos, e quanto a competitividade futura da equipa de futebol depende do êxito dessa negociação.
  4. A necessidade de disputar a Champions League todos os anos, o que ajuda não só a maximizar o valor dos direitos televisivos, com o acréscimo daí recebido, como também permitirá valorizar a imagem do clube e, assim, das receitas provenientes da exploração comercial.
* Não estão incluídas as receitas extraordinárias provenientes das transferências de jogadores.

"For sentimental reasons" - original doo wop classics (23)


The Ladders - "I Want To Know"

Sinistro...

Acho que o assunto passou mais ou menos despercebido, ou pelo menos não teve o impacto que mereceria. Mas o ataque feito por João Palma, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, no programa "Gente que Conta" (TSF e DN), aos governos de José Sócrates e do PS em simultâneo com a defesa que faz da actual ministra Paula Teixeira da Cruz é suficiente para esclarecer muito do que se passou na área da justiça e da "justicialização" da política nos últimos anos, mesmo ainda antes do PS ser governo. Para além de explicar "urbi et orbi" que a magistratura tem, e continua a ter, uma agenda política, e não apenas corporativa, muito bem definida. 

Estamos, claro, perante a autêntica subversão de um dos princípios básicos do Estado de Direito Democrático, mas parece ninguém se importar muito com isso.  

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Les Belles Anglaises (61)





Alvis 12/50 (1923 - 1932)

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (9). "Sapatos de vela"

Dizia uma das minhas avós, francesa de nascimento, que a verdadeira pedra de toque sobre a elegância de um homem eram os sapatos. Um homem até poderia parecer muito bem vestido, mas uma má escolha de sapatos ou sapatos de má qualidade deitariam tudo a perder. Lembro-me disso sempre que vejo portugueses a usarem os chamados "sapatos de vela" (costumo chamar-lhes "docksides", a marca da Sebago que se tornou um "genérico") no Inverno, com meias, mesmo quando se tratam daqueles com a sola um pouco mais grossa e cores discretas. 

Como o nome indica, os "docksides" têm uma origem náutica, por isso mesmo se tendo tornado sapatos de praia, de "resort" ou até mesmo de cidade em situações de grande informalidade. E, claro está, sempre de Verão, que é a estação do ano ligada a tais actividades. Por isso mesmo, usá-los fora dessa estação (em sentido lato) e dos dias quentes, ou com roupa que não sejam os "chinos", "jeans", bermudas e "ofícios correlativos", é um "faux pas" totalmente a evitar. E, devo dizer, não raramente os vejo usados com calças de bombazina, o que constitui um duplo erro: bombazina é vestuário de Outono/Inverno, mais ligado ao campo e não à praia ou afins.

 Por tudo o que disse, devo também dizer que não percebo muito bem essa "história" dos "sapatos de vela" com sola grossa e um ar invernoso. No inverno, em ocasiões de alguma informalidade, principalmente se S. Pedro ouviu a preces da ministra Assunção Cristas, usam-se "brogues" de camurça, nobuck ou pele, com sola de borracha, ou então "Chukka boots" e por aí fora. É mais caro? "Olhe que não, olhe que não"!... Se decidir ir por aí "numa de saldos" verá que os arranja a preços bem "honestos". 

domingo, fevereiro 26, 2012

Oscares

A cerimónia dos Oscares pode ter a ver com muita coisa: moda, "glamour", desfile de vaidades e até "stand-up comedy", já que se dizem no palco uns disparates de ocasião. O cinema, quando existe (e tantas vezes tal não acontece) é apenas um pretexto, e cada vez mais vago. De qualquer modo, louve-se que o espectáculo se soube adaptar bem aos tempos da televisão. Por mim, escusado será dizer que não vejo.

Nursery Rhymes (5)

"Cock A Doodle Do"

Cock a doodle do!
My dame has lost her shoe,
My master's lost his fiddlestick,
And knows not what to do.

O SLB e os treinadores

Hoje em dia, uma equipa de futebol profissional assenta numa estrutura complexa, que envolve várias áreas, desde as de gestão "pura e dura" (direcção geral, financeira, "marketing" e promoção, etc), até à própria direcção técnica do futebol profissional e de formação. No campo mais específico da direcção técnica, podemos ainda considerar várias sub-áreas, desde a formação à direcção do futebol profissional, passando pelo "scouting" (nenhuma equipa pode ser, hoje em dia, bem sucedida sem um excelente departamento de "scouting"), equipa médica e incluindo também áreas fundamentais como a comunicação e a psicologia, para dar apenas dois exemplos. Para essa equipa ser bem sucedida no campo desportivo é necessário que toda esta estrutura funcione eficazmente, para isso sendo necessário definir uma filosofia de clube (o seu "way of thinking"), modelo de funcionamento ("way of doing the things") e implementar um modelo estratégico de negócio que permita ao clube/equipa crescer e ser financeira e desportivamente, a nível de resultados, bem sucedida. Foi a consistência nestas áreas, aproveitando a conjuntura favorável no pós-25 de Abril, que permitiu ao FCP ser bem sucedido. De há muitos anos para cá, todos sabemos de "cor e salteado" o que pensa o clube (o seu "corpo ideológico", digamos assim), como age e funciona, em que acredita, em que modelo de negócio se baseia, como joga, etc, etc. Isso permite-lhe ser bem sucedido com qualquer treinador razoável que encaixe nesta estrutura, apenas falhando quando isso não acontece. O caso de mais flagrante falhanço (relativo) terá sido o de Co Adriaanse, quando tentou mudar o modelo, princípios e sistema de jogo que eram há anos os da equipa.

Nos últimos três ou quatro anos, o SLB deu alguns passos num sentido semelhante, tentando criar uma personalidade e identidade próprias, pesem embora algumas hesitações e até passos em falso na época passada (ai aquele célebre comunicado!...). Mas o clube tem, hoje em dia, um modelo de negócio reconhecível, uma gestão financeira credível, um departamento de "scouting" que parece funcionar, começa a trabalhar na formação com alguma eficácia e, desde que Jorge Jesus é seu treinador, um modelo e princípios de jogo bem definidos. Subsistem, contudo, nesta área, alguns pontos negativos não conjunturais, isto é, que não terão que ver com actuações incorrectas "aqui e ali" (substituições, "invenções" num ou noutro jogo, etc), mas que se mantêm ao longo do tempo: uma (in)capacidade desastrosa para gerir a comunicação, alguma dificuldade em "equilibrar" defensivamente a equipa (está melhor este ano) e o facto desta falhar sistematicamente, sob pressão, nos momentos decisivos. São estes o problemas que terão de ser resolvidos e sobre os quais a direcção da SAD e a equipa técnica terão de se debruçar, independentemente do que acontecer até final do campeonato e no jogo com o Zenit. Poderão ser corrigidos mantendo a actual equipa técnica ou será necessário mudar? Estando "de fora", não o posso dizer. Mas posso e permito-me dizer uma coisa: caso, para os resolver, se conclua ser necessário mudar, há que garantir que  não se vai voltar à estaca zero e começar tudo de novo, pondo em causa o que já se construiu de positivo. E, principalmente, qualquer eventual novo treinador e equipa técnica terão que ser garantia de um modelo e alguns princípios de jogo que começam a criar raízes no clube e que, com uma ou outra correcção, me parecem adequados. É essa continuidade, com este ou outro treinador, que terá de ser assegurada para se obterem resultados, e parece-me que o SLB, nos últimos anos, já começou a criar uma identidade suficiente para deixar de depender demasiado dos treinadores. Como benfiquista, desejo que tal se consolide.

sábado, fevereiro 25, 2012

Falta de estofo

Está a repetir-se a cena do ano passado e o SLB perde cinco pontos em dois jogos numa altura decisiva da época. Costuma chamar-se a isto falta de estofo de campeão.

Prova-se o que disse sobre o jogo de Guimarães: ao contrário do que disse a crítica ignorante, o problema não é, nem foi, Witsel, Matic, Javi Garcia ou Aimar. Em ambos os jogos não foi, nem é, o meio-campo, já que a percentagem de posse de bola foi esmagadora. O problema foi, e é, a falta de explosão na frente e a baixa intensidade de jogo atacante - o que não se confunde com volume de jogo. Melhorou - essa intensidade - com Nelson Oliveira, mas não chegou para colmatar a "ausência" de Gaitán e o jogo demasiado "redondo" de Bruno César. 

Falta cabeça fria a esta equipa nos momentos importantes - e não é de agora. Tentemos nós, adeptos, mantê-la.


Seguro no "Público" ("à vol d'oiseau")

Quando o líder do principal partido da oposição tem necessidade de recorrer a um artigo de jornal para explicar, de forma condensada, as suas propostas e sublinhar a bondade das mesmas isso não é sinal, ou mesmo prova provada, de que a sua mensagem política, pelo seu conteúdo, modo como tem sido veiculada ou ambos, não tem "passado"? 

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

"Les uns par les autres" - os melhores "covers" de temas tornados famosos pelos seus autores (7)


John Sebastian (The Lovin' Spoonful) por Joe Cocker
"Darling Be Home Soon"
Tema original de Sebastian gravado em 1966 pelos Lovin' Spoonful e versão de Joe Cocker de 1970


Passos, Seguro e a reorganização administrativa do território.

Se existe área onde seria positiva, e até indispensável, uma colaboração e acordo entre o governo e o Partido Socialista esta seria a da reorganização da divisão administrativa do território. A actual divisão administrativa, herdada do século XIX (penso que, maioritariamente, de Passos Manuel), tornou-se completamente obsoleta com o crescimento urbano do século XX e a terciarização da sociedade. Também com a melhoria das comunicações, claro. Sei que não é bem a mesma coisa e o interior é diferente das cidades e do litoral, mas a vereação de António Costa e o PSD deram um bom exemplo em Lisboa, reduzindo o absurdo número de freguesias existente. Espera-se, agora, que a tal corresponda também a responsabilização das novas freguesias lisboetas por alguns serviços até aqui sob directa tutela camarária.

Infelizmente, a nível nacional, o PSD já começou a recuar (ou a avançar às arrecuas) no caso dos concelhos, restringindo a reforma às freguesias. Percebe-se, mas não se aceita, porque sabemos quem proporcionou a Passos Coelho a eleição. Agora, António José Seguro assume o papel de "provedor" do interior e das freguesias, o que, por idênticas razões, também se entende mas igualmente se não aceita. Aliás, este discurso da "defesa do interior", tal como o da "defesa do norte" ou a verborreia contra "o centralismo do Terreiro do Paço", tresanda sempre a populismo do mais reles (haverá outro?), a arma de arremesso político de quem nada de relevante tem a propor aos cidadãos. Que ele seja expresso por personagens provincianas como Luís Filipe Menezes ou Fernando Ruas é algo a que já nos habituámos. Que o líder do principal partido da oposição faça dele bandeira e tente daí tirar dividendos eleitorais é pouco auspicioso para os portugueses. Mas é o que temos, e é demasiado pouco. 

Specialty records (9)


Little Richard - "Tutti Frutti"

3 notas 3 sobre o PS


  1. Se me pedirem para definir numa frase o pensamento político fundamental do PS face à crise, diria que o partido concorda, na sua essência, com a estratégia seguida pelo governo e pela UE mas discorda da violência da medicação. É isto, no fundo, que consigo depreender das declarações e actuação políticas dos responsáveis socialistas, de Seguro a Zorrinho e mais uns tantos dos quais não recordo o nome. Ou seja, neste aspecto nada distingue o PS de muitos partidos e governos conservadores europeus como os "tories" ou o PP de Espanha, bem como de inúmeras personalidades políticas da democracia-cristã portuguesa, de Cavaco Silva a Ferreira Leite, passando por Bagão Félix. O partido perdeu, portanto, autonomia e pensamento político próprios, não admirando porque a maioria dos portugueses, apesar de se dizerem decepcionados com o governo de Passos Coelho, consideram não existir alternativa credível. O PS está assim a deixar vago ou a oferecer de mão beijada aos sectores democrata-cristãos do PSD e CDS o espaço fundamental entre o neo-Thatcherismo de Vítor Gaspar e o radicalismo revolucionário da extrema-esquerda,espaço esse tradicionalmente ocupado pela social-democracia. Pagará caro.
  2. Esfreguei os olhos e não acreditei: ali, na TV, em horário nobre, Francisco Assis defendia, na última quarta-feira, a atitude de Cavaco Silva ao decidir fugir dos alunos da António Arroio em manifestação à porta da escola. Para além de pactuar com a covardia política, será que Assis e o PS pensam cavalgar a agenda política de Cavaco Silva, alguém que sempre se distinguiu por colocar os seus interesses pessoais acima de quaisquer outros e por não hesitar em esmagar quem e o que quer que seja quando tal lhe é necessário para os atingir? Aqui estamos, novamente, perante mais uma prova, se necessário tal fosse, da ausência de uma estratégia e pensamento político próprios por parte do PS. Surpresa? Mas alguém conhece uma ideia política a António José Seguro?
  3. Onde estarão agora os comentadores, politólogos, jornalistas e afins que se apressaram a falar de uma viragem à esquerda do PS quando da eleição de Seguro no último congresso? Nem à esquerda, nem ao centro, nem à direita; acho que para um lugar vazio. E como a política tem horror ao vazio, alguém o preencherá.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

José Afonso: as origens

José Afonso - "Fado das Águias" (1953)

Do 1º "single" de José Afonso e primeira gravação de uma composição de sua autoria

Mourinho e Villas-Boas

Pondo de lado o folclore que a comunicação social gosta sempre de explorar, o aparecimento de André Villas-Boas ao lado de Pinto da Costa na bancada do Etihad Stadium é, na sua essência, bem revelador da diferença de personalidades entre ele e José Mourinho, e explica muito das dificuldades do primeiro em se impor no Chelsea e dos êxitos do segundo.

Do lado de José Mourinho temos um "profissional", uma personalidade cosmopolita, "bigger than life", um líder que "não faz prisioneiros" e a quem os seus homens seguem "até à morte". Simultâneamente, a única verdadeira estrela das equipas que dirige e que, por isso mesmo, nunca se sujeitaria a ser interpretado em todo o mundo como alguém que presta vassalagem a quem quer que seja, muito menos ao seu anterior empregador, uma personalidade provinciana e a caminho do patético como o é Pinto da Costa. Sintomático o modo como rompeu com o clube quando da sua ida para o Chelsea, mostrando a sua independência, nesse momento e futura, face aos seus empregadores e colocando-se, de imediato, um degrau acima do presidente do Porto e até do próprio clube. Mais de meio caminho andado para o seu triunfo, portanto.

Do lado de Villas-Boas temos uma quase relação pai/filho (ou padrinho/afilhado?) de alguém demasiado sentimental, que tem dificuldade em cortar o cordão umbilical e não se importa de se subalternizar e aparecer quase como uma marioneta daquele a que chamam "Papa", sintoma de uma personalidade fraca e pouco autónoma. Villas-Boas é portista e foi torcer pelo seu clube do coração? Claro, todos o sabem, mas tinha todos os pretextos para se deslocar ao Etihad sem necessidade de se sentar ao lado do seu ex-presidente. Deu um trunfo a Pinto da Costa, mas triste imagem de si a Abramovich e ao mundo. Se quiserem, ao "mercado".

Até pode ser que Villas-Boas seja imensamente competente, não vou duvidar e os seus resultados à frente do FCP parecem comprová-lo. Mas o mundo dos treinadores de futebol está com certeza cheio de gente competente e, portanto, tal requisito não basta para fazer a diferença. E é assim em toda a actividade humana...

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

O que me disse o Manchester City - FCP

Viu Jorge Jesus como jogou hoje o FCP em Manchester? Pois é exactamente assim que vai jogar contra nós, tal como já aconteceu nos tristes jogos da época passada: muita posse e circulação de bola no nosso meio-campo, com constantes trocas de posições tentando assim desposicionar a nossa defesa. Isso permite também ao FCP evitar as nossas saídas rápidas a jogar, abortando-as no "ovo", o que obrigará Nolito e Gaitán, mas também Rodrigo, a recuarem para "pegar no jogo". E também vai obrigar a algum jogo directo na nossa parte. Uma certeza e um prognóstico: não gostamos nada de defrontar equipas assim e vamos ter, de certeza, pouca "bola". Teremos de ser eficazes. 

Traduções...

Porque não têm um pouco mais de cuidado com as traduções? Acabo de ouvir, no canal História, referirem-se ao Hôtel Matignon, residência oficial do primeiro-ministro francês, como se de um hotel, na acepção portuguesa do termo, se tratasse ("vá ter comigo ao Hotel Matignon"). Convém lembrar que "hôtel", em francês, é o termo usado para designar uma mansão ou pequeno palácio (ou "palacete"), muitas vezes sede de serviços públicos. Por exemplo, Hôtel de Ville é a sede do município, ou Paços de Concelho. É que não custa nada...

Nazi Exploitation (14)


"Nathalie: Escape From Hell" (1978)

Demagogia e provincianismo

Demagogicamente, e com a maior desfaçatez, continuo a ouvir (ainda hoje, David Diniz, no "Fórum TSF") gente responsável(?) falar da "vergonha" que deveríamos sentir e da má imagem projectada por, em 2011 e quando de uma das primeiras visitas da "troika", o país estar em gozo de feriados e "ponte" enquanto os membros da dita "troika" trabalhavam no Ministério das Finanças. Duas notas:

  1. Como é óbvio, todos os funcionários do Ministério necessários ao apoio e acompanhamento dos trabalhos em curso relacionados com essa visita foram trabalhar nesses dias, feriados nacionais, e durante a tal "ponte". Posso garanti-lo de fonte segura. Mais não seria necessário, portanto, para o bom andamento dos trabalhos, acrescentando ainda, claro está, que os membros da "troika" não gozam os feriados dos países onde se encontram esporadicamente destacados em missões de curta duração.
  2. Se me é permitido citar um exemplo pessoal, o mesmo se passava nas empresas onde trabalhei - na sua maioria multinacionais - quando, uma ou outra vez, por motivo da presença em Portugal de responsáveis estrangeiros, era necessário trabalhar a fins de semana ou feriados. Nesses casos, apenas os funcionários directa ou indirectamente envolvidos nos trabalhos estavam presentes e nunca ninguém se lembrou de que o facto da empresa não estar a trabalhar a 100% poderia ser considerado uma "vergonha" ou daria "má imagem". Mesmo quando a situação da empresa pudesse não ser a melhor.
Uma questão de mentalidades e, digamos, enquanto a mentalidade dominante for tão pequenina e mesquinha, provinciana, como a que cito no primeiro parágrafo deste texto, Portugal não irá a parte alguma. É que é exactamente essa mentalidade que torna ainda mais difícil a ultrapassagem do atraso português.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Dennis Potter's "Pennies From Heaven" (8)


"Smoke Gets In Your Eyes"

Ressaca


  1. O que me preocupa não é o facto de Jorge Jesus ter deixado ontem Witsel no "banco"; mesmo que tenha sido um erro, não foi por aí que o SLB perdeu o jogo. O que me preocupa é o que tal facto parece revelar de cedências à "rua" benfiquista e à comunicação social, pois para colocar Witsel a jogar teria de abdicar de Aimar ou Rodrigo, os dois actuais "filhos pródigos" dos adeptos e protégés da crítica. A gestão de uma equipa de futebol é pouco compatível com tais cedências...
  2. Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus terão que compreender alguma falta de confiança dos adeptos face ao que aconteceu na época passada, quando a equipa "desabou" na sua fase decisiva perdendo na Luz o acesso, quase garantido, à final da Taça, deixando o FCP festejar o título nas nossas "barbas" e falhando o acesso à final da Liga Europa perante o SCB. São esses "déficits" de fiabilidade e de personalidade, e a convicção de que o FCP não falha nos momentos decisivos, que assaltam a memória dos adeptos depois da derrota de ontem. Esperemos que sem razão.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Derrota

Equipa em "surménage", cansada física e mentalmente, sem qualquer capacidade de explosão na frente e jogando a uma só velocidade (baixa). Sofreu o golo do costume e, pela primeira vez, não marcou. Por isso, perdeu. Ressaca dos 15º negativos e do terreno de São Petersburgo?

Bom, tinha três jogos (VSC, AAC e FCP) para perder dois pontos e já perdeu três. Terá que ganhar os dois restantes e irá jogá-los sobre brasas, o que não é bom para uma equipa que se costuma mostrar intranquila e menos fiável nos jogos decisivos.

Nota 1: Gaitán já percebeu que joga numa equipa ou precisa de ficar no banco para conseguir perceber? Confesso que é um jogador que me irrita.
Nota 2: num jogo fora, contra uma boa equipa como é o VSC, sem Javi Garcia, o SLB pode dispensar Axel Witsel?

Catroga no "Público"

Tenho respeito profissional por Eduardo Catroga, com ou sem "pintelhices". Pelo facto de ter sido excelente aluno (o que por vezes pouco significa) mas, principalmente, pelo seu percurso num grupo empresarial que tinha fama, e também proveito, de ser excelente escola de quadros: quem fez nele um percurso como o de Eduardo Catroga só pode mesmo ser competente. Para além disso, quando chegou à política Catroga não era um arrivista em busca de enriquecimento rápido, era também já alguém com provas dadas e proveitos financeiros adquiridos no decurso da sua vida profissional. Politicamente, já o caso é outro: discordo de muitas das suas opções, do seu estilo um tanto ou quanto "trauliteiro" e até acho que terá tanto jeito para a política como eu... sei lá, para desenhar, actividade na qual sou perfeita e assumida nulidade.

Mas vem este preâmbulo a propósito do artigo/panegírico editado hoje pelo "Público" e assinado por São José Almeida. Duas questões me assaltam depois da respectiva leitura:
  1. Será que o "homem" (Catroga) não tem defeitos? Bom, a não ser que se assuma como tal o facto de ser amigo de Cavaco Silva. Enfim, pode ser, já que tendo travado conhecimento, "in illo tempore", com o Cavaco Silva-professor, concordo que ser seu amigo só pode mesmo ser defeito.
  2. Estranho que o artigo/panegírico seja assinado por alguém  (São José Almeida) cujas posições políticas, expressas nos seus artigos de opinião publicados no jornal, estão sempre muito próximos da esquerda radical. Malhas que Azevedo tece?

"Foyle's War" no ZON VIDEOCLUBE


Para quem não os viu todos ou, tendo-o feito, quer voltar a vê-los (é o meu caso), dezoito episódios de "Foyle's War" ("Uma Guerra à Parte", em português) encontram-se disponíveis no ZON VIDEOCLUB mediante subscrição (€5/mês). Como é perfeitamente possível ver esses dezoito episódios num mês, por €5 está a "coisa" feita. Muito mais barato, portanto, do que comprar a série em DVD no El Corte Inglés. Escusado dizer que vale cada cêntimo. Enjoy!...

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (8). "Blazer"

Vá lá saber-se porquê, em Portugal o "blazer" fez durante muito tempo figura de traje formal, "chique", ou bem perto disso. Nos últimos tempos, com os portugueses mais viajados e país mais cosmopolita, as coisas têm vindo a mudar, mas ainda é relativamente comum ver um membro do governo em funções vestindo um "blazer" ou alguém que se pretende educado envergando um num enterro, fazendo luzir os botões dourados numa ocasição que, para além de formal (que raio, só se morre uma vez!), se pretende de sobriedade e recolhimento. Um disparate.

É que pelas suas origens náuticas (o tradicional, de "jaquetão"), que acabaram por evoluir para casaco de "clube" com a adopção do modelo "paletó", com ou sem o respectivo emblema bordado no bolso da frente, o "blazer" é um casaco dos tempos livres, um pouco a meio-caminho entre o casaco de "tweed" e o fato mais formal. E é exactamente esse meio-caminho que o torna atractivo, permitindo o seu uso em ocasiões muito diversas, de menor ou (relativamente) maior formalidade, consoante o que com ele se veste: um pouco mais formal com calças de flanela, gravata, camisa lisa com colarinho "cutaway" e sapatos pretos; ou menos informal com uma camisa "oxford" ou "tattersall", colarinho "button-down" sem gravata, "jeans", sapatos de camurça ou botas e até, no Verão, quando se usa um "blazer" de tecido mais ligeiro, "docksides" ou "loafers" sem meias. Digamos que vale quase tudo, desde que não se pretenda transformá-lo em traje formal ou "oficial" para o escritório.

Algumas notas, contudo:
  1. Como casaco de clube, as gravatas mais adequadas são as "regimentais" e de "clube".
  2. Com "blazer" de "jaquetão" e gravata é aconselhável camisa com punhos duplos, devendo evitar-se o uso de botões de punho demasiado formais (de ouro, por exemplo). Os chamados "silk knots" são a opção mais correcta.
  3. Quem não quiser manter os botões de origem (caso o tenha comprado no "pronto a vestir") ou queira escolher os botões, tem duas opções: comprar um conjunto da London Badge & Button ou da Holland & Sherry (com grande variedade de escolha, mas que são caros embora durem toda uma vida) ou ir à Rua das Portas de Santo Antão (e arredores) ou Feira da Ladra comprar avulso das antigas fardas do exército (há com vários "motivos"). Devo dizer que, pelo preço e disponibilidade permanente, estas últimas são opções a ter em conta, e no caso da Feira da Ladra os botões até já vêm com "patine".
  4. Sapatos pretos ("loafers", "monkstraps" ou "brogues") são só admissiveis com calças de flanela, embora castanhos - de pele ou camurça - e "bordeaux" fiquem por vezes melhor. Mas são menos formais. Com "jeans" (neste caso sempre sem gravata), "chinos" ou calças de bombazina, castanhos ou "bordeaux" são indispensáveis.
  5. "Navy Blue" (traduz-se por azul "da marinha" ou simplesmente "azul-escuro", e não por "azul-marinho", á a cor normal. Existem de outras cores (o vencedor do "masters" de Augusta, em "golf", enverga por direito um verde) ou até os chamados "boating blazers". Os de cores fantasiosas é melhor reservá-los para "farda" ou traje oficial de alguns clubes, como o Agusta National Golf Club; quanto aos "boating blazers", enfim, quem se sentir com coragem ou quiser ir para as margens do Tamisa assistir à Henley Royal Regatta trajado a rigor...

Seguro e a "troika"

Parece-me absolutamente normal e desejável que a direção do Partido Socialista se encontre com a chamada "troika" para avaliação do modo como estar a ser aplicado o MoU que o partido assinou e se responsabilizou cumprir. Que nessas reuniões se analisem as repercussões que o seu correcto ou incorrecto cumprimento está a ter no mundo social, do trabalho e das empresas. Já me parece mais questionável que António José Seguro anuncie que "vai propor à "troika" que sejam dados incentivos às empresas que contratam jovens...". Não que a ideia seja em si disparatada, embora tenha dúvidas quanto à sua eficácia no momento presente, mas não penso seja à "troika" que tais propostas ou quaisquer outras com implicações governamentais devam ser endereçadas pela oposição, mas sim ao primeiro-ministro e ao governo legítimos (goste-se ou não) da nação. É que do modo como anuncia irá agir, o Partido Socialista acaba por legitimar a "troika" como governante "de facto", isentando assim Passos Coelho, o governo e os partidos que o apoiam das responsabilidades da governação e respectivas consequências.

domingo, fevereiro 19, 2012

Country Life (16)




Oakley Court - Berkshire

Igrejas Caeiro (1917 - 2012) - democrata e benfiquista



Mira Amaral ubíquo

Todos conhecem aquela história do indivíduo que tinha enorme propensão para dizer coisas novas e interessantes; só que as novas não eram interessantes e as interessantes não eram novas. Não é este o caso de Mira Amaral: nada do que diz, novo ou velho, é interessante. Portanto, esta sua actual ubiquidade mediática fica apenas a dever-se a uma de duas coisas, ou ambas: o excelente trabalho de "lobbying" e assessoria de comunicação do Estado angolano e dos promotores do nuclear, cujos negócios Mira Amaral promove e aos quais está ligado. Nada tenho contra o "lobbying" ou contra o trabalho dos assessores de comunicação, ambos dignos de consideração e apreço. Muito menos contra os negócios em termos gerais e abstractos e desde que legais e honestos. Acontece que, neste caso, ambas as causas que Mira Amaral defende merecem a minha profunda antipatia. Sorte a minha que há o botão do "off". 

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

A tradição já não é mesmo o que era...

Parece que pela primeira vez desde 1970 não haverá este ano nenhum piloto italiano na Fórmula Um. Confesso há muito não acompanhar o espectáculo de perto, por cada vez mais monótono e desinteressante, mas o facto do país da Ferrari, Maserati e Alfa Romeo, de Ascari, Farina e Villoresi, não ter nele nenhum representante e o último (Jarno Trulli) ter sido substituído por um qualquer russo de nome Vitaly Petrov é bem sintomático do declínio da Europa e da importância crescente dos países e mercados emergentes. A tradição parece já não ser mesmo o que era.

Já agora, o último italiano campeão do mundo foi Alberto Ascari, em 1953(!) e depois disso o mais parecido que houve foi o italo-americano Mario Andretti, em 1978.

Val Lewton (7)




"The Curse of the Cat People", de Robert Wise e Gunther von Fritsch (1944)

As novas tecnologias e as conversas sobre "bola"

No futebol, as novas tecnologias tiveram até agora uma consequência importante, e má. Nas televisões, ameaçam restringir a análise dos jogos aos "penalties" marcados e por marcar, aos cartões bem ou mal mostrados, enfim, às questões de arbitragem, esquecendo ou deixando para segundo plano as bem mais interessantes e importantes análises de ordem estratégica, técnica e tática. E isso, claro está, acaba por se estender às conversas entre amigos sobre o jogo, o que é lamentável. 

"Saber ler, escrever e contar"...

No muito pouco que tive oportunidade de ouvir do debate de hoje na Assembleia da República, António José Seguro acusava, a dado passo, o governo de "preconceito" a propósito do fecho de um número importante de centros do projecto "Novas Oportunidades". Ora devo informar António José Seguro que não se trata de preconceito, mas de algo ainda mais grave por nascer de uma opção estrutural. Independentemente da avaliação que se possa fazer do projecto "Novas Oportunidades" e da sua relação custo-benefício (esperemos tal venha a ser feito já que há demasiada propaganda envolvida de ambos os lados), o que está em causa é, e em função da política de empobrecimento definida pelo governo e pelas instâncias europeias, a qualificação dos portugueses ter deixado de ser uma opção estratégica prioritária. Fácil de compreender: se a opção fundamental não é criar valor acrescentado e optar pela inovação, competir em termos europeus e no mundo desenvolvido, mas, como parece ser o caso, através dos salários e avançar para a Angola "rapidamente e em força", para que serve gente mais qualificada, investimento em investigação e desenvolvimento (o chamado R&D) e na economia do conhecimento? No caso dos portugueses mais qualificados, para emigrar, claro, cumprindo o desígnio do ministro Relvas. Estamos, pois, perante a versão século XXI do "saber ler, escrever e contar". Só nos faltava mesmo esta...

"Death by hanging"

Em Portugal, felizmente, não existe pena de morte legalmente instituída. Repito, "legalmente instituída". Mas o que é facto é que ela parece existir, de modo informal, sem julgamento e com total impunidade para os seus executores, à disposição das forças policiais sempre que tal lhes aprouver, seja através de "snipers" apontando as suas armas com mira telescópica à cabeça de assaltantes de bancos, policias com excesso de zelo e falta de respeito pela vida dos cidadãos em operações "stop", detidos que entram vivos numa esquadra e de lá saem mortos (ou, com sorte, em mau estado) e, agora, também de um preso que deveria estar sujeito a segurança máxima e vigilância total e, oh, surpresa das surpresas, aparece enforcado na sua própria cela. Parece que já nem para cumprir uma das suas funções essenciais - vigiar os presos colocados à sua guarda - podemos confiar no Estado.

Digamos que não vou ao ponto de pedir a demissão da ministra Teixeira da Cruz, mas, para além de ser caso para exigir, enquanto cidadão, um rigoroso inquérito às condições de detenção nas cadeias portuguesas e deste preso em particular, será mesmo caso para tal se a ministra não exonerar rapidamente o responsável pelos Serviços Prisionais e o director da prisão em causa.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

História(s) da Música Popular (193)

Adam Faith - "Ah, Poor Little Baby!" (1959)

Adam Faith - "What Do You Want?" (1959)

British Rock & Roll (IV)

Dos principais rockers britânicos deste período inicial, Adam Faith (1940 - 2003), um dos muitos que se iniciaram no célebre 2i's Coffee Bar, no Soho londrino, é aquele (acho) que mais se afasta, no estilo e temas, da essência do "rock & roll". E, curiosamente, só consegue mesmo obter sucesso quando definitivamente o põe de lado. Por isso, escolhi propositadamente estes dois temas, ambos de 1959, que de tal coisa são bem reveladores. "Ah, Poor Little Baby!", incluído no seu 3º "single", é, talvez, aquele em que mais e melhor Faith se integra no "rock & roll"; mas, tal como acontece com os dois anteriores, o disco não obtém qualquer sucesso. Já em "What Do You Want?", o seu primeiro êxito e também o seu primeiro #1, o "rock & roll" parece ir já bem longe, tal como acontecerá com "Poor Me" (1960), o outro seu #1 e o seu tema mais conhecido.

Adam continuaria ligado ao mundo do espectáculo até ao fim da sua vida (morreu aos 62 anos com problemas cardíacos) e ainda não há muitos anos fui surpreendido por uma sua aparição numa das minhas séries de TV favoritas, "Murder In Mind", uma criação de Anthony Horowitz a quem ficámos também a dever séries como "Foyle's War" e "Midsomer Murders, esta última actualmente em exibição no canal Fox Crime.

Bernardo Marques (21)

Capa de Bernardo Marques para a revista "Civilização" (Março de 1930)

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Zenit - SLB

Tinha visto com atenção o jogo do FCP em S. Petersburgo (3-1 para o Zenit) e, com o "handicap" do FCP ter jogado com 10 na 2ª parte mas com condições meteorológicas normais e um relvado decente, o resultado poderia ter sido bem mais desnivelado se fosse uma eliminatória e não um jogo em que a vitória valia três pontos. Quando o sorteio nos destinou o Zenit, contra o optimismo dos meus amigos alertei para o que tinha visto de positivo na equipa russa e, por isso e em função das condições deploráveis em que o jogo de hoje se disputou para uma equipa constituída basicamente por jogadores sul-americanos, estava bastante apreensivo. Estaria agora bem menos se um empate nos tivesse colocado na frente da eliminatória, já que ter obrigatoriamente de ganhar em desafios decisivos não é do que esta equipa do meu "Glorioso" mais gosta. De qualquer modo, os meus piores receios não se confirmaram.

Mas atenção que esta equipa do Zenit costuma defender bem e, como se viu hoje, sai rapidamente e com facilidade a jogar, sabendo criar perigo naquela zona entre as alas e o centro do terreno, com trocas rápidas e constantes entre os seus jogadores. No Porto empatou apesar de ter tido a sorte do jogo pelo seu lado. Dia 6 será preciso o melhor do meu "Glorioso" e que as incidências do jogo sejam felizes para o nosso lado. 

Um parágrafo sobre a crise do SCP

Confessava há pouco durante o almoço que o que me faz confusão na crise do SCP é a ausência de sentido crítico dos seus adeptos e a ligeireza e superficialidade das análises que vejo e oiço nos "media" mesmo vinda de sportinguistas que reputo de preparados e responsáveis, como se tudo se resumisse à qualidade do treinador e/ou aos seus erros, ao facto de Godinho Lopes ter ou não mentido nas suas afirmações sobre a equipa técnica, ou a escolha de Sá Pinto ser ou não a mais adequada. Já ouviram falar em estratégia, modelo de negócio, estrutura e organização da SAD (Freitas Lobo foi o único que até agora levantou - e bem - este último problema) ou já olharam bem para a situação financeira do clube? E se acordassem?

É que não quero passar o resto da vida a discutir o título com o FCP...

Ainda "The Iron Lady"

A propósito de "The Iron Lady" interrogo-me sobre o que é, realmente, uma interpretação de excelência. Se aquela em que o actor/actriz, numa demonstração de capacidade mimética, se dilui na personagem (olhamos para o "écran" e vemos sempre Margareth Thatcher e nunca Meryl Streep) se uma outra onde contribui com algo de si próprio, da "ideia" que faz da personagem (no verdadeiro sentido de interpretação como o "modo como interpreta) para a sua composição. Acho uma boa ideia pensar um pouco sobre o assunto... 

terça-feira, fevereiro 14, 2012

"Salut les Copains"! - 3 temas 3 que o movimento "Yé-Yé" nos ensinou (3)

Brenda "Little Miss Dynamite" Lee - "My Whole World Is Falling Down"

Ensinado por Sylvie Vartan - "Si Je Chante"

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (8). "Jaquetão"

Quando, em criança, acompanhava o meu pai ao alfaiate, ali para os lados da Rua de Santa Justa, o "mestre" começava por perguntar ao cliente se queria o fato com um casaco "paletó" ou "jaquetão". Com o andar dos tempos e, principalmente, o domínio do "pronto a vestir", o "jaquetão", que era minoritário, começou a cair em desuso, excepção aos "blazers" onde continuou a ter o seu lugar de eleição: fabricar e vender fatos de "jaquetão"significava mais um modelo a produzir e a "stockar" com o agravamento de custos inerente. No entanto, continua a ter os seus seguidores e talvez o Príncipe Carlos seja o seu maior propagandista. Por mim, em alguns fatos não dispenso o "jaquetão", principalmente nos considerados mais formais, onde acho o modelo indispensável.

Mas atenção: existem várias restrições e outras tantas obrigações. Em primeiro lugar o "jaquetão" não fica bem a pessoas baixas. Esta é a regra fundamental que me ensinaram desde pequeno. De seguida, deve ter seis botões, dos quais os dois de cima e todos os do lado esquerdo são "falsos", isto é, não têm "casa" correspondente (existem apenas com quatro botões, mas não são "como deve de ser"). Duas "rachas" (é mesmo assim que se diz) são também obrigatórias, para se poder enfiar as mãos nos bolsos das calças sem amarrotar o casaco. E quanto ao resto? Bom, um fato de "jaquetão" obriga a camisa com punhos duplos e impede (quanto a mim) o uso de um colarinho "button down", demasiado informal. A excepção é o "blazer", onde punhos simples e camisa "button down" são admissíveis desde que se prescinda do uso de gravata. Ah, e quanto a sapatos, "loafers" são para esquecer, sendo melhor optar por "brogues", lisos ou picotados consoante o maior ou menor formalismo do fato. E os "monkstraps" vão também a matar, de camurça se falarmos apenas de um "blazer". Por fim, se um casaco desapertado é sempre sinal de desleixo, no caso do "jaquetão" nem sentado tal é admissível: existe um botão interior que permite mantê-lo fechado com os restantes botões desapertados.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

"Salut les Copains"! - 3 temas 3 que o movimento "Yé-Yé" nos ensinou (2)

Brian Hyland - "Sealed With A Kiss"


ensinado por Les Chats Sauvages c/ Dick Rivers (ler Rivér) - "Derniers Baisers"

10 pontos 10 que é preciso lembrar aos meus amigos "lagartos" - conselho de "lampião"

  1. Que com o terceiro orçamento da liga, muito abaixo dos dois primeiros, o seu lugar "natural" seria sempre o terceiro, e só um conjunto de circunstâncias muito favoráveis lhe permitiria chegar mais acima.
  2. Que constitui um erro crasso definir objectivos desproporcionados para os meios e recursos disponíveis. Uma vez mais, socorro-me do exemplo do meu clube e das afirmações fantasistas de Jorge Jesus na época passada.
  3. Que o exemplo do SC Braga não colhe, pois o seu projecto actual já nasceu há alguns anos e não existe no clube a pressão de um grande. Mesmo assim, com excepção da época 2009/2010 (as tais circunstâncias excepcionais), o SC Braga não consegue igualar SLB e FCP.
  4. Que revoluções nos plantéis raramente resultam, como o demonstra o exemplo, felizmente já antigo e ultrapassado, do meu "Glorioso" e o caso do Manchester City, que, apesar dos milhões, só este ano consegue lutar pelo título.
  5. Que os clubes têm de ter uma estratégia e um modelo de negócio consequentes e o SCP, tendo-o durante a década anterior e tendo obtido daí resultados, não tem actualmente nem uma coisa nem outra.
  6. Que despedir treinadores não resulta. Que teria acontecido ao meu clube se, depois da má época anterior, tivesse despedido Jorge Jesus?
  7. Que a estratégia de comunicação é essencial num clube profissional de futebol e, portanto, alguém deveria ter dado uma "mãozinha" a Domingos nessa área.
  8. Que, mesmo com razão, culpar os erros dos árbitros pelos maus resultados não leva a parte alguma. Os árbitros erram e se isso pode ser decisivo numa final ou eliminatória dificilmente o é numa prova longa e de regularidade. E, além de tudo o mais, é preciso contar e saber lidar com esses erros.  
  9. Que chegaram ao jogo com o meu "Glorioso" apenas com um ponto de atraso e, com tudo a seu favor, perderam o jogo.
  10. Por último, que ser acrítico para com a gestão do clube e da sua equipa de futebol nem sempre é a atitude adequada de um sócio ou adepto que quer ver o seu clube ter êxito.

"The Iron Lady"

Estou em frontal desacordo com os que dizem que Margareth Thatcher enquanto política está quase ausente em "The Iron Lady". Não sendo um filme que se debruce essencialmente sobre a Thatcher política, mas antes sobre a Thatcher indivíduo e personalidade, também enquanto mulher ambiciosa que pretende subir na vida num ambiente adverso (o UK dos anos 50 e o partido conservador) sacrificando a isso a família, estamos, mesmo assim, em presença de um documento apologético da ex-primeira-ministra britânica, quando põe permanentemente em contraponto a sua "razão", vontade e obstinação, valorizando as origens sociais e apresentando essas suas características pessoais como positivas em função dos resultados obtidos, e a tibieza, hesitações e vontade conciliatória dos outros políticos "tories", oriundos da "upper class". Mesmo quando Thatcher é forçada à resignação, é a vitória de um negativismo conciliador, da "política tradicional", que é enfatizada. É a "força da razão", de alguém que sai de Downing Street sob o aplauso dos seus colaboradores e do pessoal doméstico, derrotada pela "fraqueza dos políticos e da política".

Portanto, o filme não foi feito só para Meryl Streep ganhar mais um Óscar - que vai ganhar. Trata-se, também, e em alguma medida, de um documento apologético da primeira-ministra Margareth Thatcher feito do modo mais eficaz e abrangente possível quando estamos em presença de alguém tão controverso, entre amores e ódios extremados: de modo pouco assumido e focando essencialmente a sua personalidade, a sua luta pessoal, a sua vida privada e a sua velhice afectada pela doença. Um filme político, pois claro!

A "manif"

Em Portugal, parece que o êxito ou fracasso de uma manifestação se mede apenas pelo número de participantes que consegue reunir, gerando-se assim discussões intermináveis sobre o rigor dos números apresentados. Uma estupidez, pois o êxito ou fracasso de uma manifestação mede-se, fundamentalmente, pela sua capacidade para conseguir alcançar os objectivos a que se propõe (ou contribuir decisivamente para tal) e se tal depende, em parte, do número de participantes, está muito longe de se esgotar nesse ponto. Depende, também, da capacidade para mobilizar gente fora do habitual círculo do PCP e CGTP, tal como aconteceu, por exemplo, nas manifestações de professores durante o Governo de José Sócrates ou, até, da "Geração À Rasca". Da conjuntura política e das fragilidades do governo (se a manifestação for contra este) na área que é especialmente visada. Dos apoios, explícitos ou implícitos que consegue granjear no aparelho de Estado (foi importante para os organizadores o apoio do PR à "manif" da "Geração À Rasca"). Do sector que se mobiliza (uma manifestação da Função Pública, por habitual, terá sempre menor impacto que uma outra de um conjunto de empresas do sector privado). Do modo como decorrer a manifestação e do respectivo impacto mediático - e tal depende muitas vezes de acontecimentos imprevisíveis. Etc, etc, etc.

Por isso mesmo me parece inútil saber se na manifestação do último sábado estiveram presentes 100 000, 200 000 ou 300 000 pessoas. Restringido o seu âmbito aos habituais CGTP, PCP e BE, sem nenhuma novidade mobilizadora na sua organização e sem grandes apoios visíveis fora desse sector bem definido, sem objectivos tangíveis alcançáveis no curto-prazo, enfim, sem qualquer novidade no seu conteúdo, estejamos a falar de 100 000 ou 300 000 pessoas, limitou-se a mostrar a já conhecida capacidade de mobilização dos seus organizadores e apoiantes e a manter nestes a "chama viva". Parece-me bem que por aqui pode estar o governo descansado.

domingo, fevereiro 12, 2012

Anglophilia (89)

College Scarves

António José Seguro

Deixemos agora de lado, por um momento, o conteúdo, as dificuldades sentidas por um PS que assinou o MoU, cujo governo se viu obrigado a recorrer ao resgate internacional e, até, as dificuldades sentidas por um partido dividido no seu grupo parlamentar. Deixando de lado, por comodidade, tal coisa, chegamos à conclusão que um dos problemas de António José Seguro é o seu "ar" demasiado "clean cut" (assim ao estilo de um Pat Boone da política), a sua atitude demasiado "fishing for compliments" depois de ter dito uma qualquer banalidade ou lugar comum, a imagem de menino marrão e bem-comportado que manda presentes aos professores, a sua ausência de carisma e a falta de confiança, de autenticidade, que tudo isso transmite aos portugueses em tempo de incerteza.

Por vezes, confesso, e adaptando a já ultra-citada frase de Nanni Moretti para D'Alema ("diz qualquer coisa de esquerda"), apetece-me pedir a Seguro que diga, não "qualquer coisa de esquerda" (não vou tão longe, nem será isso que está em causa), mas que diga, com convicção, algo inteligente, que me surpreenda pela positiva, que seja capaz de mobilizar os portugueses. E, para além disso, que nos faça acreditar que num dia, já longínquo, roubou o carro ao pai para sair com uma qualquer namorada, viu uns filmes pornográficos e até bebeu um pouco mais do que a conta. Ou seja, que tem espessura, já foi gente e até viveu. É que se ele e Passos Coelho têm um passado em comum lá naquela coisa das "jotas", este último, pelo menos, até foi casado com uma Doce, sabemos ia a uns bares e até já fez um "casting" para o La Féria. Não fará dele um bom primeiro-ministro; mas, pelo menos, dá para pensar nele como gente.

Link Wray & Dick Dale (11)

Dick Dale & His Del-Tones - "Surf Beat"

Ora vejam lá se percebem...

A diferença é esta: quando um árbitro erra e marca, mal, um "penalty" contra o SCP e, no mesmo jogo, um jogador deste clube não consegue converter em golo uma falta semelhante marcada a seu favor, o SCP perde ou empata o jogo. Quando o mesmo acontece com o meu "Glorioso" chegamos ao intervalo a ganhar por 3-1 e acabamos o jogo com uma vitória por 4-1. Não sei se estão bem perceber, mas isto espelha bem a diferença de classe entre duas equipas... 

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

"Salut les Copains"! - 3 temas 3 que o movimento "Yé-Yé" nos ensinou (1)

The Cascades - "Rhythm Of The Rain" (1962)

ensinado por: Sylvie Vartan ("En Écoutant La Pluie")

Quem viveu a adolescência nos anos 60 sabe que muitos dos temas e canções que a povoaram chegaram primeiro até nós através do movimento "Yé-Yé", de "covers" franceses de originais anglo-saxónicos, principalmente americanos. O francês era ainda uma língua importante (cinco anos obrigatórios no liceu) e os USA eram muito longe e as importações de lá vindas caras. Acresce que o UK e os USA eram mercados massificados, de "singles", enquanto França criou uma boa parte do seu mercado discográfico baseando-se nos EP's, de "quatro músicas", como se dizia na altura, o que - penso - seria também mais lucrativo para um pequeno mercado como o portugues. No meu caso, acresce que o francês e a cultura francesa, ao contrário do que acontecia com o inglês, eram-me familiares desde a infância e, mais ainda, uma boa parte dos meus amigos andava no Liceu Francês, o que facilitava as influências.

A qualidade destes "covers" era variável, do razoável ao mau, mas digamos que a média era para o fraquinho. Ficam três dos exemplos mais significativos, com os respectivos originais para comparação.

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (6). "Fraque" e camisa

Nos meus tempos de final de adolescência e início de idade adulta, a maioria dos casamentos "era de fraque" (para os homens, claro). Problema grave, pois acontecendo tal coisa, por norma, no Verão e sendo o fraque uma indumentária quente e pesadona (ainda não existiam estes fraques de agora, feitos de materiais mais "leves"), "rapava-se" um calor de morte. Lembro-me de ir uma vez, com os meus pais e restante família, a um casamento em Coimbra, num mês de Junho ou Julho e aí pelo início dos anos 70, quando os carros não tinham ar condicionado e auto-estrada chegava até... Vila Franca. Pois como estava um dos tais "calores de ananases", para não chegarmos em estado calamitoso lá tivemos, à entrada de Coimbra, de arranjar um sítio para vestirmos os fraques e nos apresentarmos, frescos que nem "alfacinhas", ao dito cujo enlace... Depois, com o 25 de Abril e a liberalização dos costume, o "dress code" dos casamentos aligeirou e, hoje em dia, apenas a pais dos noivos e padrinhos é requerida normalmente tal indumentária. E como há muito o "fraque" deixou de ser obrigatório nos enterros e em Portugal (apesar de alguns monárquicos "patuscos") não há rei nem o "royal enclosure" de Ascot, as coisas ficam-se por aí.

Não, mas não vou dizer como e com quê se deve usar "fraque": qualquer manual barato de etiqueta e boas maneiras refere tal coisa. Há no entanto um erro, ou omissão habitual, quanto a tal coisa: contrariamente ao que se pode ler em tais manuais, não é absolutamente necessário usar uma camisa branca. Uma camisa de cor clara (azul-clara ou cor de rosa, por exemplo), ou até de riscas leves com essas mesmas cores, desde que com colarinho e punhos brancos, é muito mais "catita" do que uma simples camisa branca. E marca, claro, bem a diferença.

Pedro Passos Coelho, a "verdade" e o populismo

Pedro Passos Coelho disse uma verdade. Uma verdade inconveniente, mas uma verdade: os políticos são mal pagos. Tem direito, à hora que escrevo, a 136 comentários na notícia do "Público". Escusado será dizer qual o tom (insultuoso) da maioria, e não me custa adivinhar que essa maioria é a mesma que está sempre a pedir aos políticos "verdade" e "transparência". Passos Coelho disse a verdade e foi transparente. Além de tudo o mais, tem razão. Mas o "povo da SIC" (que neste caso emigrou para o "Público") gosta mesmo é da sua própria verdade, da que lhe é conveniente. Estão agora a perceber os enormes perigos de cedência à demagogia e ao populismo?

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Michel Giacometti (5)

Dança na Várzea (Soajo - Arcos de Valdevez)

Obrigado, Martin Schulz!

A função essencial do Estado e dos governos - este ou outros quaisquer - é fazer política. É para isso que eles existem, sempre existiram e existirão. Nas democracias, em nome dos cidadãos que os elegem; nas ditaduras, das classes e grupos sociais que os apoiam. Nas democracias, quando uma maioria de cidadãos deixa de se rever nas opções políticas tomadas, derruba o governo pelo voto; nas ditaduras, quando o governo perde o apoio dos que o suportam, dá-se um golpe de Estado. Não são os governos, portanto, meros gestores de "activos" de um país - se é que em qualquer organização ou instituição existem meros "gestores dos seus activos": agem em função de interesses que se consubstanciam em objectivos políticos e nas estratégias adequadas para os atingir.

Significa isto que quando um Estado, por decisão governamental, decide alienar um ou vários dos seus "activos", privatizando-o, tal tem sempre consequências políticas e tem também na sua base uma estratégia política, mesmo que não abertamente assumida. Como tal, não é exactamente a mesma coisa, nem tem as mesmas repercussões e consequências, vender ao país A ou ao país B, à empresa X ou ao consórcio Y. É que não estamos propriamente a falar de uma família rica que, em ocasião de crise, decide vender as pratas ou as Companhias das Índias dos seus tempos de abastança a "quem der mais": esta recebe o dinheiro e nunca mais vê o comprador; quem compra os activos de um Estado, principalmente quando falamos de empresas que exercem a sua actividade em sectores estratégicos (transportes, energia, água, etc) continua a exercer  a sua actividade nesse território e a produzir bens e serviços essenciais aos cidadãos e à execução dos objectivos políticos desse Estado. Assim sendo, e por muita regulação estatal que possa existir, não é indiferente que esses activos sejam comprados e geridos por empresas de países democráticos, onde, por definição, existe liberdade individual e autonomia empresarial, ou por ditaduras, onde essa liberdade não existe e tudo se subordina aos interesses do Estado. Como também não é indiferente que fiquem na posse de empresas de países tradicionalmente aliados, que partilham cultura, valores e objectivos, ou organizações de países ou Estados com os quais existam, ou se preveja virem a existir, contradições graves de natureza política.

Significa isto que as afirmações do Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, devem ser saudadas como uma lufada de ar fresco no bafiento panorama da política portuguesa (e europeia) actual, que esquece os valores em que se baseiam as sociedades que construíram ou onde vivem e se coloca de cócoras, qual aristocrata arruinado, perante "quem dá mais". A mim, pasma-me como aqueles que promovem ou fecham os olhos, directa ou indirectamente, aberta ou veladamente, à interferência de governos como a cleptocracia angolana na política portuguesa venham agora arvorar-se em patriotas sem mácula, barafustando pelo facto do Presidente de uma instituição democrática, de uma União de Estados também eles democráticos, ter posto, certeiramente, o dedo na ferida. Pois, provavelmente doeu-lhes. 

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (4). Meias Argyle

Se declarei a minha condição de fanático por gravatas de lã, confesso sê-lo também por meias Argyle, ou "de losangos". Hoje em dia, as verdadeiras - de lã com reforço de fibra apenas no calcanhar e ponta - não são fáceis de comprar em Portugal, principalmente as "altas", pelo joelho ("knee high"), que são as "como deve de ser". De fibra existem por aí "aos pontapés", da Burlington, mas são de má qualidade e ficam feias ao fim de umas poucas lavagens (acho já são feias "à nascença"). Contudo, procurando bem, pelo menos no "velho" Lourenço & Santos e também na Camisa de Ouro, é possível encontrar qualquer coisa decente, e a própria Burlington também tem uma versão de lã.  Mas atenção: com origem na Escócia, baseado o seu desenho no tradicional "tartan" escocês, é coisa só para Inverno, pelo que são de evitar aquelas versões de algodão que é suposto serem para usar no Verão. E, claro, nada de fatos: falamos de coisa rústica e, como tal, casaco de "tweed", "pullover" ou camisola de lã e calças de bombazina com "brogues", de camurça, "nobuck" ou até mesmo pele, com sola de borracha, são o acompanhamento ideal. Ou então "jeans", de "denim" ou bombazina, com botins ou "chukka boots".

Santa ignorância...

Que raio! Ainda ninguém percebeu que a história do rapaz (pastor) mentiroso que estava sempre a dizer que "vinham aí os lobos" nada tem a ver com o "Pedro e o Lobo" composto (história e partitura) em 1936 por Sergei Prokofiev? Se não sabem, perguntem ou investiguem...

Sergei Prokofiev - "Pedro e o Lobo" (Parte I)
The Chamber Orchestra of Europe dirigida por Caudio Abbado
Narração de Sting

SCP: ganhar a Taça ou ser 3º no campeonato?

Até certo ponto, confesso estar em desacordo com os comentadores que afirmam ser mais importante para o SCP conseguir o terceiro lugar no campeonato do que ganhar a Taça de Portugal, baseando este seu argumento na possibilidade de acesso à Champions League. E para basear o meu raciocínio, invoco aqui, tal como o fiz no caso da transferência de João Moutinho para o FCP, o conceito de "brand equity": se as receitas da Champions League (e já lá iremos) podem dar muito jeito em termos financeiros, quando falamos do "valor percebido" do clube, da sua equipa de futebol e da marca "Sporting", ser eliminado pelo Nacional e perder assim a hipótese de conquistar um troféu com o prestígio da Taça de Portugal seria desastroso.

Acresce ainda que não só um clube como o SCP tem obrigação de lutar em ambas as frentes (tem o terceiro orçamento da Liga e seria esta, portanto, a sua classificação "natural"), como nada garante, no actual "estado da arte", que a equipa, mesmo conseguindo alcançar o apuramento para a terceira pré-eliminatória da CL, consiga ultrapassar os obstáculos que terá pela frente e ascender à fase de grupos, onde - enfim... - poderá ter hipótese de ganhar dinheiro "que se veja". E para os actuais problemas financeiros do rival do meu "Glorioso", o problema não será milhão a mais ou milhão a menos: é muito mais do que isso!

As ameaças anti-democráticas das FA

Pode gostar-se muito, pouco ou até mesmo nada deste governo. Podemos simpatizar muito, pouco ou até mesmo nada com o seu Ministro da Defesa. Concordar ou não com a sua política. Mas perante a chantagem e ameaças de alguns sectores das Forças Armadas, mormente por parte de algumas das suas associações de classe, ao Estado Democrático, existe apenas uma atitude a tomar, no curto-prazo, por aqueles que assumem a democracia como valor inquestionável e inviolável: a defesa do ministro Aguiar Branco. Este é o único ponto de partida possível para depois, com calma, bom-senso e moderação, tentar resolver os problemas existentes sem que para isso seja necessário abdicar de uma posição de princípio que me parece oferecer poucas dúvidas: as Forças Armadas portuguesas estão sobre-dimensionadas e a sua estrutura distorcida face às funções que lhes são actualmente exigidas e tendo em atenção os meios financeiros disponíveis.

Confesso que ouvir o deputado e antigo secretário de Estado do PS Marcos Perestrelo assumir, na TSF, a defesa das reivindicações das associações das Forças Armadas me deixou perplexo. E incomodado. A política não pode ser cega.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Sebastião Rodrigues (7)

Poster - anos 50 do século XX

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (28)


Irma Thomas - "Ruler Of My Heart"
O original de Allen Toussaint (aka Naomi Neville) de "Pain In My Heart" (1963)


A versão de Otis Redding, que fez do tema sucesso (1964)

A excelente (e célebre) versão "ao vivo" dos Rolling Stones icluída no seu EP "Got LIVE If You Want It!" (1965)

O "Fórum TSF" e o "diálogo" governantes/cidadãos

Não sou um ouvinte/telespectador dos chamados "fóruns de opinião"; são locais onde pontificam a demagogia e o populismo mais rasteiros e a linguagem mais desbragada. Mas reconheço-lhes uma função: servem de válvula de escape de tensões acumuladas, de local onde, por via dos cinco minutos de fama, o "povo da SIC" pode dizer o que lhe vai na alma - e a saúde da democracia também passa por aí. Abro, contudo, uma excepção para o "Fórum TSF" que, com alguma regularidade, dependendo do tema e sempre que outros afazeres o permitem, consegue captar a minha atenção. Porquê? Bom, porque entre as opiniões populares é possível ouvir a opinião de alguns comentadores estimáveis (outros, nem por isso) e, aqui e ali, de gente convidada que, uma vez ou outra, até calha ser sensata e conhecer bem o tema em discussão.

Nos últimos tempos, contudo, a TSF tem decidido convocar governantes (ministros e secretários de Estado) para no "Fórum TSF" responderem "às questões dos ouvintes". Quanto a mim, embora em teoria a ideia até pareça boa, é um falhanço total, pois o programa acaba por se tornar num autêntico tempo de antena do governo. Porquê? Bom, em primeiro lugar porque o governante convidado, sem um interlocutor/entrevistador actuante mas apenas com um moderador, acaba por ocupar o tempo de que dispõe com propaganda política da mais primária. Em segundo lugar, porque - algo de muito português - existe um certo retraimento do público em afrontar o governante com perguntas - digamos - "incómodas"; e quando tal acontece (as perguntas "incómodas") a desproporção de conhecimentos e preparação entre público e convidado favorece incomensuravelmente este último. Por último, porque os apoiantes do governo/governante em causa aproveitam a oportunidade, não só para elogiá-lo, como, ao bom estilo dos partidos apoiantes de um governo na Assembleia da República, para colocar questões preparadas e que sabem de antemão serem da conveniência do convidado, fazendo-o "brilhar". Estamos, portanto, perante uma solução nas margens do populismo e que, embora na aparência muito democrática (governo responde directamente aos cidadãos), acaba por evidenciar os limites do diálogo directo entre cidadãos - individualmente considerados - e governantes e subverter a própria lógica da democracia representativa, essência das democracias liberais. 

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (4). Gravatas de lã

Sou um fanático por gravatas de lã, quer sejam as de malha - direitas, sem aquele formato de "bacalhau" característico - quer regimentais ou de padrão "paisley" ou similar. São gravatas de Outono/Inverno, claro, que ficam especialmente bem com camisas de tecido "oxford", com ou sem colarinho "button down", e com um casaco de "tweed" ou "blazer" de sarja de lã. Já quanto ao seu uso com camisas "tattersall", exceptuando no caso das de malha lisas, é preciso ter alguns cuidados quanto à combinação de padrões, já que se torna bem mais fácil fazê-lo com as regimentais. As gravatas de lã vão igualmente bem com um fato cinzento de flanela, por tradição menos formal, e "brogues" picotados, mas, em minha opinião, esse é o limite quanto ao seu uso com fato no continente, já que no Reino Unido, com os fatos de "tweed", a história é bem outra.

Em Portugal não são actualmente fáceis de encontrar, principalmente as regimentais, mas a Wesley costuma tê-las, de padrão "paisley", do excelente fabricante inglês Drakes.

"When I woke up this morning" - original blues classics (31)

Skip James - "Devil Got My Woman" (1931)

Da demagogia dos industriais de panificação

Confesso estar demasiado farto do choradinho demagógico dos industriais de panificação sobre a diminuição do consumo de pão. Para além do que aqui escrevi em 2008, de modo mais desenvolvido, a crise actual só poderia ter como consequência, não uma diminuição do consumo de pão, mas um seu aumento, bem como dos bens mais essenciais, já que os portugueses com menores rendimentos tenderiam a fazer o "trade down" de produtos alimentares mais sofisticados. Se o consumo de pão decresce, tal só poderá ficar a dever-se a uma de duas coisas, ou à acção combinada de ambas: apesar da crise, os portugueses, em média, melhoraram a sua dieta alimentar, diversificando-a, e a crise ainda não chegou ao ponto de os obrigar a modificar radicalmente este estado de coisas; uma parte da venda e consumo de pão tem vindo a escapar, de modo crescente, à contabilização da associação do sector, o que pode ter a ver com a diversificação, nos últimos anos, da sua produção e venda. Por exemplo, a crescente importância que as as grandes superfícies e outros locais de produção e venda de pão não integrados, eventualmente, na associação do sector podem estar na base de uma distorção dos números apresentados. 

domingo, fevereiro 05, 2012

Ex-votos (4)

"O Artista"

Sim, eu sei que raramente se pode esperar grande cinema dos candidatos aos Óscares. Mas, que raio, "Estado de Guerra" (para me lembrar do único que, nos últimos anos, quanto a mim cumpriu os mínimos) não sendo um grande filme, muito menos o melhor de Bigelow, era, pelo menos, um bom filme, atingindo os tais mínimos exigíveis. Isto vem a propósito de "O Artista", um filme que não passa de "uma graça" (diria mais "uma gracinha") e que terá atingido estatuto apenas por ser contra a corrente: a "preto e branco", mudo e com os chamados "intertítulos" e em ecrã quase quadrado, tal qual como nos (bons?) velhos tempos. E parte, quanto a mim, de um equívoco: para homenagear o cinema clássico ou o dos tempos do mudo não é absolutamente necessário copiar-lhe os aspectos meramente formais e o "mood and tone", e acho desde "Singing In The Rain" todos sabemos isso.

Saí do cinema como quando para lá entrei? Nada disso, saí com vontade de ver um "western" de Ford, uma comédia de Cukor, um filme negro ou de aventuras de Hawks ou um mudo dos tempos do expressionismo alemão de Lang e de Murnau. Já valeu o preço do bilhete...

A "tolerância de ponto"...

Para mim, que nunca trabalhei no Estado ou em empresas públicas, "tolerância de ponto" deveria ser um conceito a que os governos poderiam recorrer quando, por razões imprevisíveis ou não suficientemente antecipáveis, achassem ser conveniente dispensar os trabalhadores de um dia ou várias horas de trabalho. Exemplos? Morte de uma alta figura do Estado, actual ou histórica, permitindo aos portugueses que assim o quisessem associar-se às homenagens. Vitória da selecção portuguesa num europeu ou mundial, permitindo que todos se juntassem nas comemorações. Catástrofe ou intempérie que dificultasse as comunicações ou enlutassem o país ou uma região. Os exemplos seriam muitos e de natureza diversa, não valendo a pena alongar-me ou ser exaustivo.

Isto significa, portanto, que não estando o Carnaval incluído em nenhuma dessas categorias (começa por não ser imprevisível, sendo possível determinar o seu dia até ao fim dos séculos), e constituindo a sua comemoração, com maior ou menor espalhafato, uma tradição em quase todo o mundo civilizado, incluindo Portugal, não faz qualquer sentido não ser considerado dia feriado, assim se retirando essa decisão, qual benesse real medieva, aos humores de um qualquer governo. Acresce que, deste modo, tal data poderia ser incluída em qualquer negociação sobre feriados, não acontecendo como agora em que as cinco partes do mundo passaram de repente a ser seis, isto é, em vez de quatro feriados eliminados, de repente e por artes da magia governamental, passaram de facto a ser cinco. Digamos que estamos perante mais um disparate; o problema é que já vão sendo muitos.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

O debate

Hoje, o debate quinzenal na Assembleia da República foi de um vazio confrangedor. Era isto, a vacuidade das interpelações ao governo por parte dos partidos da oposição, o ridículo das intervenções encomismáticas dos partidos que apoiam o governo,  que eu gostaria de ver mencionado e discutido, glosado mesmo que em tom jocoso na "blogosfera" e nas redes sociais. Em vez disso, vejo quase todos demasiados absorvidos por questões de "petite politique", tal como o acto idiota de Graça Moura na sua quixotesca luta contra o Acordo Ortográfico. Talvez essa ausência da Assembleia da República no debate na "net" seja mesmo reflexo do afastamento e desinteresse pelo que por lá se passou. Pois... mas é mesmo esse desinteresse e o facto de nada de relevante se ter lá passado que são preocupantes e deveriam levar a que o assunto fosse um pouco mais discutido.

Sebastião Rodrigues (6)

Capa para a 3ª edição de "Aparição", romance de Vergílio Ferreira (1960)

O "Sol" do primeiro-ministro

Pergunta nada ingénua: o facto de, neste momento específico, o primeiro-ministro ter escolhido o semanário "Sol" para uma sua entrevista "de fundo" não significa um apoio e reforço explícitos ao controverso programa da RTP1 emitido de Luanda, ao afastamento de Pedro Rosa Mendes da Antena1e um apelo ao investimento da ditadura e cleptocracia angolana nos "media" portugueses? Por mim, só o posso interpretar desta maneira, o que é preocupante. É que isto de coincidências...

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (3). Em louvor do "loden"

Aí por meados dos anos oitenta do século passado (isto de dizer o "século passado" acaba por dar uma certa "patine"), Portugal foi invadido por uma epidemia de sobretudos verdes que a campanha presidencial de Freitas do Amaral ajudou a popularizar. De repente, como acontece com todas as modas, os tais sobretudos verdes sumiram-se tão rapidamente como tinham surgido e não me consta a derrota de Freitas do Amaral para tal tenha contribuído.

E, no entanto, o "loden" (e é disso que estamos a falar) está muito longe de ser uma peça de vestuário "de moda", constituindo, antes pelo contrário, um clássico mais ou menos intemporal. Trata-se, originalmente, de um casaco de caça austríaco de textura relativamente grosseira e fabricado com uma mistura de lãs virgens de carneiro a alpaca (grande número dos que se viram em Portugal eram imitações mais baratas), bastante quente, com alguma resistência à água e que pelo seu "corte" largo permite grande liberdade de movimentos, característica necessária aos caçadores mas que dá muito jeito a todos. Face a este conjunto de características que o tornam tão prático, admiro-me como desapareceu do mapa em Portugal, sendo, hoje em dia, raro cruzar-me com alguém com um vestido. No que me diz respeito, mantenho o meu, velhinho de uns vinte e cinco anos, ainda em uso, com todos os cuidados de manutenção para ficar para a eternidade. Nos dias mais frios como o de hoje, é de utilidade a toda a prova. Tem o "loden" contudo (opinião pessoal) um "contra": Pelo seu peso, volume e comprimento, é pouco prático para o "veste/despe quando se anda de carro.

Mas atenção: ao contrário do que vejo muitas vezes, nada de o usar com fatos mais formais ou até com "blazer", que é um casaco de clube. Pelas suas origens campestres e alpinas, o "loden" é para usar com um casaco de "tweed", com calças de bombazina ou flanela, ou então, pura e simplesmente, por cima de um "pullover" ou de uma daquelas camisolas grossas de lã "shetland".