segunda-feira, outubro 31, 2011

Ministro Álvaro: “o trabalhador poderá... ...ver reduzida em meia hora a pausa de almoço”.


E que tal assim?

"Les uns par les autres" - os melhores "covers" de temas tornados famosos pelos seus autores (2)

Barry e Robin Gibb por P. P. Arnold
"To Love Somebody"

Uma decisão estúpida

Num país em que os exemplos de concertação entre empregadores e empregados são relativamente escassos e numa conjuntura em que seria necessário um esforço adicional em favor dessa mesma concertação, o governo resolve dar e apontar à sociedade um mau exemplo, lançando lenha e oxigénio para uma eventual futura fogueira em vez de aproveitar a oportunidade para pugnar por um esforço de entendimento entre as partes. Não me surpreende, e demonstra uma vez mais o voluntarismo ideológico que norteia a acção deste governo. Mas, não me surpreendendo, a decisão não deixa de ser estúpida, e constituir um enorme erro político que o país poderá vir a pagar bem caro.

domingo, outubro 30, 2011

O PS e a "lealdade" a Seguro

Quando as questões morais (a "lealdade", agora no PS de Seguro,como no PSD de Ferreira Leite o foram a "verdade" e a "honestidade") começam a substituir-se às políticas e à respectiva discussão nestes termos, algo vai de facto muito mal num partido político. E aquilo de que o PS precisa, urgentemente, é de ideias políticas, e não de uma qualquer moral que mascare a ausência daquelas ou a sua substituição por um oportunismo mais ou menos tacticista.

London Public Houses (4)






The Lamb and the Flag
33 Rose Street, Covent Garden, Westminster, London WC2E 9EB

Tel :020 7497 9504

"Rose Street joins both Garrick Street and Floral Street, here you'll find the Lamb & Flag, a small wooden fronted pub. First licensed in 1623, it's the oldest in Covent Garden, and possibly one of the oldest in London, if claims of a Tudor past are true. Like many an old London building, it has had to grow to meet the demand of an exploding population.

The brick front and upper floors are 19th century but its core is from the late 17th century. The downstairs rooms are delightfully simple, with a well worn, olde-worlde charm, created by the low beams, wood panelling and bare pine floorboards. The back bar area has a fireplace and plain wooden settles. The Lamb fills up in the evenings with office and shop workers and can get a bit too busy. In the summer, drinkers spill out into the courtyard."

Nemanja Matic

Sim, eu sei que Rodrigo marcou dois golos e um deles de execução primorosa, tanto na rapidez de desmarcação como na irrepreensível técnica de remate com o "pé contrário" (e tive a sorte de isto ter acontecido mesmo à minha frente). Mas vou falar de quem fez ontem, globalmente, a melhor exibição da equipa e a sua melhor desde que chegou ao clube: esse mesmo, Memanja Matic. É um futebolista típico da ex-Jugoslávia: estampa atlética, bons pés, mas com algum "déficit" de agressividade e rapidez, alguma "macieza". Mas, ao contrário do que acontece com Javi Garcia (mais rápido e assertivo sobre a bola e mais agressivo na sua disputa), a sua técnica permite-lhe também sair a jogar e conduzir a bola com a-propósito, galgando terreno com facilidade, sendo também superior ao espanhol naquilo que normalmente se designa por compreensão e "visão de jogo". Estas suas características permitem à equipa construir as suas transições ofensivas com "pés e cabeça" desde os sectores mais recuados e, quanto a mim, foi essa a principal razão porque o SLB ontem se instalou tão facilmente no meio-campo contrário, de tal modo que o S.C. Olhanense quase se limitou a ver jogar durante a primeira parte e largos minutos da segunda. Acresce que, com estas características, Matic poderá ainda jogar, em alguns jogos, a nº 8, no impedimento de Witsel, ou em períodos finais dos jogos em que seja necessário controlar o adversário, ao lado de Javi, sem que a equipa perca demasiada projecção ofensiva. Esperemos continue a evoluir, pois, se isso acontecer, será sempre uma opção a ter em conta.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Fado - Património Imaterial da Humanidade (9)



José Porfírio - "Fado Vitória" (gravação de 1929)

O regime e os números das sondagens

Quando olho para os últimos números da Eurosondagem e verifico que depois de medidas tão duras a variação nas intenções de voto é muito pouco ou quase nada significativa, a ideia que logo me ocorre não é que o povo português é sensato e se comporta com moderação. Essa será, talvez, a constatação mais imediata e óbvia. Mas, indo um pouco mais fundo, o que receio bem é que talvez os portugueses tenham chegado à conclusão de que o regime está bloqueado e não oferece alternativas democráticas atractivas aos cidadãos. E tal conclusão, a ser verdadeira, não me deixa nada, mas mesmo nada descansado. 

Viva a Rainha?

Esta disposição, estabelecendo que o herdeiro do trono não será necessariamente o varão e terminando com a proibição do seu casamento com um(a) católico(a), altera o "Bill of Rights" (1689) e o "Act of Settlement" (1701), que até hoje estabeleciam as leis que regulavam a sucessão da monarquia britânica. Conhecendo um pouco da História de Inglaterra, poderei dizer que tem o valor de uma autêntica revolução nos costumes. Será de esperar, e desejável, que, mais dia menos dia, o monarca inglês deixe também de ostentar o título de "Defender of the Faith" (curiosamente concedido pelo Papa Leão X a... Henrique VIII), que já não está em uso em alguns dos países da Commonwealth cujo chefe de Estado é o monarca inglês, deixando assim de ser, de jure, o chefe da Igreja de Inglaterra. Aliás Charles, Príncipe de Gales, já se expressou nesse sentido.

Mais do que os disparates dos que ("soit-disant") pretendem "modernizar" a família real inglesa transformando os seus membros em fúteis participantes do chamado "jet set" internacional, estas mudanças constitucionais constituem, elas sim e por si sós, um passo importante e decisivo na modernização do Estado britânico, não deixando, por certo, também de ter repercussões a outros níveis da aristocracia inglesa.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Equidade? Talvez seja melhor avaliar os interesses...

Ora vamos lá ver... Analisando as coisas friamente e com rigor, substituir, total ou parcialmente, o corte de salários na Função Pública (através do não pagamento dos 13º e 14º mês) por um imposto que abarcasse sectores público e privado (a tal equidade...) seria algo que interessaria apenas... aos funcionários públicos, eles mesmos, que assim veriam o seu esforço aligeirado.
  1. Não interessaria demasiado a este governo, que tem como objectivo principal diminuir os custos dos serviços prestados aos cidadãos e o peso da despesa pública no PIB.
  2. Não interessaria ao sector privado em geral: aos trabalhadores, que assim veriam o seu rendimento disponível "encolher"; aos empresários, que não só não veriam diminuir os seus custos de produção (continuavam a pagar salários idênticos) como arriscavam, principalmente os que vendem os seus produtos no mercado interno, a enfrentarem ainda um maior retraimento da procura.
O que interessa mesmo a alguns empresários de alguns sectores, e já ouvimos por aí uns "zunzuns" da parte de alguns economistas e representantes patronais, é aproveitar a embalagem do corte dos 13º e 14º meses no sector público e negociar uma redução de salários nas empresas (ou em algumas empresas), o que permitiria, isso sim, reduzir custos. Mas, claro, isto também não interessará demasiado ao Estado, pois iria cobrar menos IRS. Conclusão: irá ficar tudo como está e o funcionalismo público fará de mexilhão: "lixa-se"!

Nota: no meio de todo este panorama nada animador, houve pelo menos espaço para uma boa ideia: António Saraiva, da CIP, propôs transformar a "1/2 hora de trabalho diário para a nação" num banco de horas a gerir (se entendi bem) em concertação entre empregadores e empregados. Se assim fôr, sempre prevalecerá algum bom-senso e a medida, permitindo alguma flexibilização na utilização do factor trabalho, poderá vir a ter, aqui e ali, alguma utilidade.

"Les uns par les autres" - os melhores "covers" de temas tornados famosos pelos seus autores (1)

Mick Jagger e Keith Richards por Chris Farlowe
"Out Of Time"

O PS, o orçamento de Estado e o guarda-chuva presidencial

Uma democracia pressupõe um governo e partidos que o apoiem, mas também uma oposição. E não só uma oposição que funcione nas margens do regime ou que a ele, globalmente e não apenas ao governo, se oponha: essa pode ou não existir sem que tal se reflicta necessariamente no normal funcionamento das instituições. Pressupõe, também, um ou mais partidos de alternativa com uma ideologia, programa e práticas governativas diferentes das dos partidos no poder mas que aceite, no essencial, os fundamentos do regime. Bem ou mal, concordemos ou discordemos das suas práticas (não é isso que está aqui e agora em questão), foi esse o papel assumido por PSD e CDS durante a vigência dos governos de José Sócrates, principalmente depois de Pedro Passos Coelho ter assumido a liderança do PSD e apresentado uma alternativa ideológica e de governo claras. Deveria ser esse o papel do PS, neste momento: apesar do seu compromisso com o MoU e das responsabilidades (embora não exclusivas) de governos por si apoiados na actual crise, apresentar aos cidadãos um caminho globalmente diferente, ou pelo menos em alguns dos seus aspectos essenciais, para a superação da actual conjuntura. Infelizmente para os cidadãos, para o país e para a democracia, a agenda política do PS parece limitar-se, neste momento, a mendigar um lugar à mesa do Orçamento de Estado de 2012, ao mesmo tempo que se tenta abrigar debaixo do guarda-chuva "gentilmente" aberto pelo Presidente da República. Pode ser que se molhe e, muito pior do que isso, arraste o país na enxurrada.

terça-feira, outubro 25, 2011

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (22)

"I Just Don't Know What To Do With Myself" (Burt Bacharach-Hal David)
A versão original (1962) de Tommy Hunt, do grupo "doo wop" The Flamingos

"I Just Don't Know What To Do With Myself" - a bem conhecida versão de Dusty Springfield (#3 no UK em 1964)

Ainda a "caça aos políticos": salários e benefícios adicionais

No início do regime democrático, com a intenção deliberada e positiva de consolidação da sua imagem aos olhos dos cidadãos (desnecessária, pois o regime gozava então de prestígio incontroverso) e de atrair gente com qualidade vinda da actividade privada ou da vida académica (o que também me parece seria desnecessário dado que a política era então aceite como sendo uma actividade nobre), os deputados resolveram atribuir a quem exercia funções políticas ordenados muito baixos, compensando tal disparate com a atribuição de "fringe benefits" vários, benefícios adicionais a que o "povo da SIC" resolveu chamar de "mordomias". Tratou-se, à luz das circunstâncias de então, daquilo que me parece, hoje em dia, terem sido uma escolha demagógica e uma escusada concessão ao populismo (todas o são, convenhamos...); e como quem cede à demagogia populista lhe acaba por morrer às mãos, temos hoje perante nós o resultado de tal asneira: com a conivência e por vezes até a instigação de jornais e jornalistas sem quaisquer escrúpulos ou cultura ética e democrática, abriu a chamada "caça aos políticos", levando à sua frente gente honesta e menos honesta, políticos competentes e incompetentes, personalidades dedicadas ao serviço público e outras que o serão menos, corruptos e pessoas impolutas. No fundo, levando à sua frente o regime, que é o que se pretende e está efectivamente em causa.

Significa isto que todos os benefícios adicionais incluídos no pacote salarial de políticos fazem sentido? Bom, como disse, seria bem mais lógico que alguns desses benefícios adicionais pudessem ser convertidos em salário, tornando tudo bem mais claro e esse vencimento mais compatível com a actividade exigente e desgastante que exercem e onde toda a sua vida, pública e privada, é exposta ao estilo "panem et circenses" para gáudio do "povo da SIC". Mas se admito existirão casos em que tais "fringe benefits"poderão revelar-se excessivos (tal como em muitos sectores do Estado, e pela ausência de processos de avaliação e progressão credíveis, muita gente ganha acima do mérito efectivamente não-demonstrado), creio não será esse o caso da sua grande maioria. Até porque, sabemos, se alguns desses cidadãos que exerceram actividade política conseguem, por via disso, lugares profissionais de destaque - e são esses os apontados a dedo pelos "media" como se de criminosos comprovados se tratassem - não é isso que se passa com uma maioria, que finda a sua comissão de serviço regressa aos seus lugares e profissões de origem sem benefício visível para as suas carreiras profissionais ou, na melhor ou pior das hipóteses, passa a exercer ignoradas e mediamente pagas funções políticas em algum lugar da estrutura do Estado.

Nota: não me lembro de alguma vez ter visto o PCP assumir a vanguarda do coro demagógico da "caça" às ditas "mordomias" dos políticos. Com o à-vontade de quem defende uma sociedade que muito pouco ou nada tem a ver com aquela que é proposta pelo PCP, apenas me apetece dizer que quem faz e sempre fez política a sério sabe que este não é o seu caminho. Honra lhe seja feita.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Abriu a caça aos políticos, ou uma notícia candidata a escarro do ano

Conforme já tinha aqui afirmado, depois do subsídio de residência algo mais se iria seguir. Aliás, esta fotografia do DN já não andará muito longe do "Wanted: Dead or Alive" das histórias de quadradinhos do velho oeste. Até o valor da recompensa parece já não faltar. E atentem no "palavreado" incluído no corpo da notícia: "a maioria PSD/CDS vai juntar medidas que impeçam os seus beneficiários de as acumular com chorudos ordenados no sector privado." Duas perguntas numa só e uma interrogação: se não forem políticos e os ordenados não forem "chorudos" (sic) já podem acumular? Com notícias deste tipo, quem, com qualidade, estará ainda disposto a ser político?

Contrariamente ao que se diz, não são os políticos e as suas "soit disant" "mordomias" que estão a cavar a sepultura do regime: são estes jornalistas(?) demagogos e este jornalismo(?) de sarjeta. Esta asquerosa notícia do DN é pois séria candidata a escarro do ano. 

Mariachi (7)

José Alfredo Jimenez - "Paloma Querida"

"Ah!, ça ira"!

Quem cede ao populismo e à demagogia acaba por lhe morrer às mãos. Hoje é o subsídio para a casa, amanhã o carro a que tem direito ou as despesas de transporte, depois a verba para despesas de representação, de seguida o motorista e por fim a cabeça. É assim desde sempre. "Ah!, ça ira, ça ira, ça ira; les aristocrates à la lanterne"!

domingo, outubro 23, 2011

Primavera árabe?


Pergunta (especialmente dirigida à deputada europeia Ana Gomes - mas não só): será a isto que chamam "primavera árabe"? Tenham medo; tenham muito medo.

O "meu" SLB e a história do cavalo do inglês

Durante duas épocas o meu clube só conhecia três velocidades, depressa, muito depressa e "que nem um relâmpago", e um caminho: o mais frenético e directo possível na direcção da baliza contrária. Tal valeu-lhe grandes exibições, mas também enormes dissabores, principalmente na Champions League. Agora, Jorge Jesus aprendeu e, muito por isso mas também pela existência de Witsel, a equipa exagera por vezes nesse controle e um dia até pode ser tenha um dissabor - e os adeptos quase vão tendo um AVC. Até me apetece dizer ficará como a história do cavalo do inglês, que de se habituar a não comer acabou por morrer à fome: de tanto querer controlar o jogo, vai esquecer-se de marcar golos. Espero bem que não...

sábado, outubro 22, 2011

sexta-feira, outubro 21, 2011

O "pied à terre" do ministro Miguel Macedo e o populismo reinante

Parece que o ministro Miguel Macedo tem a sua residência permanente em Braga e, durante a semana, habita num seu apartamento (quiçá um "pied à terre") em Algés. Tendo a sua residência permanente em Braga, Miguel Macedo tem direito a receber um subsídio de alojamento no valor de 1 400 euros. Parece que a demagogia e o populismo vigentes contestam Miguel Macedo deva ter direito a receber esse subsídio, ignorando que habitar, durante a semana, uma segunda residência significa despesas acrescidas em água, gás, electricidade, limpeza e talvez mesmo móveis e electrodomésticos que possa ter sido obrigado a adquirir para o efeito.

Ah!, dir-me-ão, mas não tem que pagar alojamento (renda de casa, quarto de hotel, pensão da Tia Anica, o que for). Pois, aconselho então o ministro Macedo a arrendar o seu apartamento (quiçá um "pied à terre") de Algés: passa a receber a renda respectiva, o subsídio a que tem legalmente direito e a demagogia e populismo reinantes deixarão de o chatear.

Specialty records (6)

Clifton Chenier - "Ay-Tete Fee"

Vasco Pulido Valente e Cavaco Silva

«A eleição do dr. Cavaco para Presidente da República foi uma das maiores desgraças que sucederam a Portugal e aos portugueses desde 2006. Mas foi pior do que uma desgraça, foi um erro. [...]» - Vasco Pulido Valente no "Público" de hoje (via, "Da Literatura").

Pois está muito errado Vasco Pulido Valente. Uma das maiores desgraças, talvez mesmo a pior e assim já VPV pode estar certo e a eleição de Cavaco Silva como Presidente da República ter sido apenas uma das piores, foi os portugueses terem eleito Aníbal Cavaco Silva primeiro-ministro e lhe terem oferecido de bandeja duas maiorias absolutas. O resto... O resto veio por acréscimo.

quinta-feira, outubro 20, 2011

As televisões e os políticos/comentadores

Deve um político ser pago enquanto comentador televisivo? A pergunta está mal formulada, e o que se deve perguntar, isso sim, é: deve um político no activo exercer as funções de comentador televisivo? E aqui a minha resposta terá de ser um rotundo e definitivo "NÃO", tal como um treinador de futebol no activo não deve ser comentador desse desporto. No caso da política, essa função, devidamente remunerada, deveria ser entregue a jornalistas, politólogos e académicos e, vá lá, políticos já retirados. O problema é que as televisões, mais do que locais de análise e debate político e ideológico, se foram deixando resvalar para o terreno (privilegiado) do combate político e ideológico e de afirmação dos interesses corporativos, o que acabou por contaminar toda a sociedade e estabelecer os parâmetros do que se passou a entender, na generalidade, como debate e comentário. No fundo, o mesmo foi acontecendo com a análise e comentário desportivo, que se foram paulatinamente transformando em boçal combate clubístico.

Enquanto serviço público de televisão, deveria a RTP dar o exemplo e estabelecer regras muito claras quanto a estas questões, não se limitando a não remunerar os políticos/comentadores mas pondo fim à existência de tal figura. E, já agora, também aos programas desportivos transformados em arma de arremesso clubístico.

The Raj (4)



"Gunga Din", de George Stevens (1939)

quarta-feira, outubro 19, 2011

Cavaco Silva e o Orçamento de Estado

As afirmações de hoje de Cavaco Silva provam uma vez mais, se tal fosse ainda necessário, que o actual Presidente da República age apenas em função de uma e só uma agenda política: a sua. Já tendo percebido onde nos podem levar as opções políticas contidas no próximo Orçamento de Estado, Cavaco Silva trata de se demarcar, pondo-se a bom recato para o que der e vier e conseguir passar incólume entre as bátegas do dilúvio. Como até aqui tem passado entre os pingos, mais ou menos grossos, da chuva.

"For sentimental reasons" - Original doo wop classics (21)

The Flamingos - "Stolen Love"

Ainda os salários públicos e privados (mais uma vez)

Partindo do princípio, aliás questionável, de que os servidores do Estado ganham, em média, mais do que os seus equivalentes do sector privado (comparação também questionável dada a heterogeneidade deste sector), o que está errado não é a existência desse "prémio" salarial: é, por ausência anos a fio de uma avaliação credível que permitisse o estabelecimento de uma diferenciação por mérito, ele contemplar igualmente os bons e os maus funcionários, os competentes e os incompetentes, os trabalhadores e os preguiçosos e ser independente das condições em que esse trabalho é exercido. Pior, não me parece este governo mostre qualquer intenção de alterar este estado de coisas.

O lance mais estúpido do jogo de ontem...

Se tivesse que escolher um momento do jogo de ontem que me tivesse ficado na retina, não escolheria a excelente jogada do primeiro golo do SLB, a defesa-chave de Artur Moraes, a estúpida expulsão de Emerson. Escolheria, também tendo o desastrado Emerson como protagonista, a jogada na qual, sendo um dos jogadores do SLB que, nos cantos a favor, cobre o adiantamento dos centrais e de Garcia e Witsel, esquece essa sua função no campo e, apanhando um bola de ressaca, resolve adiantar-se e, de longe, chutar à baliza sem cuidar de que, no caso de uma mais do que provável recuperação da bola pela equipa contrária, deixaria a sua equipa à mercê de um contra-golpe quase fatal. Este é um excelente exemplo de como uma acção individual de uma estupidez sem limites pode deitar a perder todo o esforço de uma equipa. Felizmente o adversário era o F. C. Basel...

terça-feira, outubro 18, 2011

Walter Trier's "Lilliput" (5)

Governo e Função Pública: cortar salários ou despedir?

Jacinto Nunes afirmou à TSF "que o Governo adiou os despedimentos na Função Pública, considerando que daqui a dois anos são quase inevitáveis". Face à política do actual governo - e mantendo-se esta -, fazem todo o sentido estas afirmações. Se, como disse Vítor Gaspar, a actual medida de corte de dois meses de salários aos servidores do Estado apenas é permitida com carácter de excepção, em termos estruturais o governo terá forçosamente que encontrar uma outra solução. Partindo do princípio - constitucionalmente falso, parece-me - que a lei autoriza o despedimento dos funcionários públicos com vínculo contratual e mesmo que seja possível encontrar uma solução que permita a continuidade do corte nos 13º e 14º meses (ou a sua substituição por outra medida de valor correspondente), o governo terá de ponderar um de dois cenários extremos, qual deles o pior.
  1. Manter os cortes salariais sem despedimentos massivos, o que significa abdicar de qualquer reforma estrutural que permita racionalizar os serviços em termos de recursos humanos, isto é, impedindo o despedimento dos piores e a manutenção dos melhores ou a racionalização dos serviços em termos de "headcount". Vantagens? Evita o pagamento de indemnizações e subsídio de desemprego e um agravamento mais profundo do desemprego e da crise social.
  2. Despedir massiva e selectivamente (os piores e onde fazem menos falta), o que lhe permitirá racionalizar os serviços mas obrigará ao pagamento, no curto-prazo, de indemnizações e subsídios e, last but not least, se arrisca a agravar a situação social e a contestação política ao governo. Numa situação de desemprego grave, tal significa ainda um sinal de insensibilidade  social dado à sociedade no que diz respeito a uma questão tão sensível como é o emprego.
Como diria o "velho" Vasco Santana no "Pátio das Cantigas: "cruel dilema".

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (21)

Chubby Checker - "The Twist" (1960)


Hank Ballard & The Midnighters - o original do tema "The Twist" (1959)
O tema foi editado como "B" side de "Teardrops On Your Letter"

Os "subsídios" de férias e Natal

  1. Contrariamente ao que afirma, um trabalhador assalariado não trabalha 11 meses e recebe 14. Trabalha 335 dias (menos dias feriados, fins de semana e eventuais "pontes") e recebe 365 dias divididos por 14 meses. Mais ainda, adianta 30 dias de trabalho à sua entidade empregadora, pois só recebe ao fim de um mês de trabalho. Na prática, os chamados subsídios de férias e Natal não existem: fazem parte do salário anual de um trabalhador assalariado que, por questões históricas, o recebe dividido em 14 prestações (durante muito tempo, no UK recebiam à semana, por exemplo). Ao contrário do que é habitual, neste caso estou em desacordo consigo.
  2. Outra coisa bem diferente é esse salário anual passar a ser pago em 12 prestações, eliminando assim que se sobrecarregue a tesouraria das entidades empregadores no período de férias e no Natal e, ainda, passando os trabalhadores a receber logo a partir do final de Janeiro a prestação correspondente aos actuais 13º e 14º meses. Se é isso que propõe no seu "post", tal tem desde já a minha concordância (e penso a terá também de sindicatos e associações patronais), e já algures neste "blog" o defendi.
De um "blogger" que o lê sempre com interesse e habitualmente até consigo concorda.
JC

segunda-feira, outubro 17, 2011

O IVA e a cultura

Confesso não entender porque, no OE para 2012, o IVA dos livros se mantém nos 6% e o dos espectáculos sobe para 23%. Para defender a cultura? Bullshit! Se eu (livra!) comprar um livro da astróloga (ou taróloga, ou lá o que seja) Maya, da Margarida Rebelo Pinto ou uma dessas coisas inqualificáveis que agora poluem as livrarias pago 6% de IVA. Se for ver um concerto do Leonard Cohen ou dos Deolinda, uma ópera ao São Carlos ou uma peça de teatro levo com 23%. Confesso não perceber muito bem onde está a defesa da cultura... O que me parece, isso sim, é que o lobby dos editores e livreiros vale bem mais do que o dos organizadores, promotores de espectáculos e ofícios correlativos.

Anglophilia (87)

A síntese que falta fazer

Defender um capitalismo regulado, uma economia baseada na livre iniciativa e a democracia liberal e, simultâneamente, ser de opinião que as actuais medidas para combater a crise, esta austeridade seguida de mais austeridade e ainda mais austeridade, são totalmente inadequadas e suicidas, propondo alternativas viáveis, é a síntese que me parece ainda falta fazer. E tal síntese é incompatível com "indignados", "acampados", "assembleias populares" e assim sucessivamente.

Sector público e sector privado

Sempre achei extremamente redutor qualquer menção ao "sector privado" - assim mesmo, no seu todo - por contraponto ao sector público. Se neste último, apesar das diferenças entre escolas, hospitais, autarquias e outros, poderemos, ainda assim, encontrar no limite alguma homogeneidade (no fim de contas, o accionista é o mesmo e existe um "way of doing the things", incluindo na gestão de recursos humanos, que é mais ou menos comum), quando falamos no "sector privado" estamos a referirmo-nos a quê? A multinacionais como a AutoEuropa, bem geridas, com gente qualificada, salários acima da média e uma estrutura organizativa coerente e em que, de parte a parte, se privilegia a concertação? A grandes empresas estruturadas como a Galp, PT, etc, oriundas de privatizações de antigas empresas estatais? A pequenas empresas inovadoras, com gente jovem, qualificada e empreendedora? A grandes centros comerciais onde funcionam lojas "franchisadas"? Ao comércio tradicional da mercearia de bairro ou a novas lojas "gourmet"? A fabriquetas, que quase não geram valor acrescentado, geridas por um patrão com a 4ª classe que trata os trabalhadores como sua propriedade? A empresários em nome individual que funcionam na base familiar? Enfim,algum rigor seria mesmo muito benvindo quando se fala nestas coisas e se brandem conceitos demasiados genéricos como arma de arremesso político. 

domingo, outubro 16, 2011

Ainda os salários públicos e privados

Já agora... Não é um dado adquirido, muito menos tal pode ser analisado em função de padrões morais,  os trabalhadores do sector público não devam ou possam ganhar em média mais do que os do sector privado. Nem é absolutamente necessário os salários de ambos os sectores sejam igualizados, como também é perfeitamente admissível, com ou sem possibilidade de despedimentos que têm, de facto, um valor de mercado, os salários no sector público sejam inferiores. Compete ao Estado, em função da sua estratégia e objectivos para as funções que exerce, definir uma política salarial que lhe permita contratar os recursos humanos que julgue adequados à prossecução dos seus objectivos - e em função dos recursos financeiros de que dispõe. Ao diminuir os salários dos servidores públicos, Pedro Passos Coelho e o governo estão a afirmar uma de duas coisas: que as actuais funções do Estado, qualitativa e quantitativamente, podem ser cabalmente cumpridas pagando menos aos seus actuais funcionários e, eventualmente, diminuindo o seu número e qualificações por alguns (mais qualificados) optarem por sair; ou que e as funções desse mesmo Estado podem vir a ser reduzidas em quantidade e/ou qualidade.

Salários públicos e privados (adenda)

O Tomás Belchior, do "Insurgente", deixou aqui um comentário em que informa existir um estudo comparativo relativamente recente (2009), do Banco de Portugal, sobre os salários praticados nos sectores público e privado. Dada a sua relevância e o facto de ter sido produzido por uma entidade credível, aqui deixo o respectivo link, independentemente de o primeiro-ministro não ter indicado as fontes em que se terá baseado quando justificou os cortes salariais na Função Pública.

Salários públicos e privados

Não sei se os funcionários públicos, comparando o comparável, isto é, funções idênticas e níveis de experiência e responsabilidade semelhantes, ganham mais ou menos, em termos médios, do que os trabalhadores do sector privado. Não conheço nenhum estudo recente e credível que demonstre serem verdadeiras ou falsas as afirmações de Pedro Passos Coelho sobre este assunto. Exactamente por esse motivo, antes de produzir qualquer tipo de juízo sobre tal coisa, deveria o governo ter feito aquilo que é habitual as melhores empresas do sector privado fazerem periodicamente, e antes de tomarem decisões, quando querem comparar os salários por si praticados com a situação vigente no mercado: um estudo comparativo; uma avaliação que lhes permita definir e materializar uma estratégia salarial e de recursos humanos. Sem tal estudo, sem nada em que se basear e embora reconhecendo a impossibilidade de despedimento para quem tem um vínculo ao Estado tenha um valor de marcado nada negligenciável, as afirmações do primeiro - ministro, tendo ou não razão, valem o que valem: aquilo que em linguagem popular se designa por "boca".

Para terminar: o que o governo está a fazer com o corte indiscriminado dos salários na função pública, é, de facto, a tratar todos por igual, os bons e os maus servidores servidores do Estado, ignorando qualquer avaliação actual (se a houver) nem a prevendo para o futuro. Convenhamos que para quem se diz liberal e adepto do mercado e da livre concorrência não me parece seja este o caminho, nem que esta actuação tenha o que quer que seja de reformador.

sábado, outubro 15, 2011

sexta-feira, outubro 14, 2011

Um PS à deriva e o regresso do "camarada" Vasco

A questão fundamental que o PS deveria colocar ao governo enquanto único partido da oposição defensor da democracia liberal e de uma economia baseada (disse, "baseada") na livre iniciativa, enquanto partido representante das ideias e valores da social-democracia europeia, não deveria ser se as medidas adoptadas estão ou não para além do acordado no MoU: em última análise, no documento assinado com a "troika" Portugal compromete-se a atingir um determinado "déficit" para as suas contas pública, e o governo poderá sempre alegar que essas medidas são as necessárias para eliminar "surpresas desagradáveis". De igual modo, não se deve limitar a confrontar o primeiro-ministro com as enormes discrepância entre as suas promessas e afirmações eleitorais e pré-eleitorais e a política do actual governo: infelizmente, os cidadãos assumiram - e não é de agora - que tais promessas eleitorais valem o que vale, ou seja, pouco ou nada - e, acrescente-se, ninguém sai ileso. Acresce que nenhuma destas posições contém em si uma alternativa, muito menos mobilizadora. O que o PS deveria fazer, isso sim, é contestar o caminho traçado e a ideologia que o suporta como sendo totalmente inadequados aos objectivos de aumento da competitividade e crescimento económico a atingir a prazo, o que implicaria assumir o MoU como um contrato "contra-natura" (face à sua ideologia) que teria sido "obrigado" a assumir apenas por imperativo "patriótico" e como necessidade conjuntural. Demarcar-se-ia assim, ideologicamente, do actual governo e da linha de pensamento dominante na UE, abrindo espaço a uma alternativa no país e batalhando por ela na Europa. Sem isso, isto é, não o fazendo, está votado a um degredo de onde não consegue, sequer, fazer-se ouvir.

Nota: ao "dia de trabalho para a nação" do PREC e dos "camaradas" Vasco Gonçalves e Costa Martins sucede-se a 1/2 hora de trabalho para a empresa. Em ambos os casos tratam-se de medidas puramente ideológicas (e demagógicas), que nada acrescentam a coisissíma nenhuma. No caso actual, trata-se apenas de mostrar que se substituiu a baixa da TSU por outra coisa qualquer e de se poder dizer "lá fora" que somos trabalhadores e bem comportados. "Volta, "camarada" Vasco: estás perdoado".

A maçã podre - Portugal: a inovar desde 2006

quinta-feira, outubro 13, 2011

Ainda Marcelo Rebelo de Sousa

Afinal, parece que Marcelo Rebelo de Sousa, tal como no caso Bernardo Bairrão, quis apenas antecipar-se ao anúncio do primeiro-ministro. Mas ao contrário do então acontecido, estou certo desta vez o governo não volta atrás. Infelizmente.

Regimental Ties (17)


"The Rose & Laurel"

Marcelo Rebelo de Sousa perdeu boa oportunidade para estar calado

A economia, é sabido, vive muito em função das expectativas dos seus agentes. As famílias não consomem menos apenas em função da redução do seu rendimento disponível, mas também das expectativas e cautelas sobre o seu futuro: se esperam a sua situação se deteriore, aumentam a sua poupança e diferem o seu consumo. No caso das empresas, se esperam uma retracção da parte dos seus clientes, sejam eles o Estado, outras empresas ou as famílias, claro que restringem os seus investimentos e a expansão da sua actividade. Isto é o b+a=ba, claro.

Exactamente por isso, este tipo de afirmações alarmistas, ao estilo self fulfilling prophecy, vindas de quem, por bons ou maus motivos - pouco interessa - é um cidadão influente e com audiência e responsabilidades na sociedade portuguesa, é absoluta e totalmente lamentável, apenas contribuindo para, baixando ainda mais as expectativas, inflacionar a já mais do que esperada e inevitável (face às medidas existentes e futuras) espiral recessiva. Marcelo Rebelo de Sousa está assim, e mais uma vez, a prestar um péssimo serviço ao país.

Poder-me-ão dizer que, provavelmente, estará a falar verdade. Pois, mas quer se queira quer não, e ao contrário do que é voz corrente em muitos sectores do seu partido, saber gerir a comunicação faz parte dos atributos de um bom político e em política existem verdades tão inconvenientes que talvez seja bem melhor para todos mantê-las bem guardadas.

Fame & Price (7)

Georgie Fame & Alan Price - "Rosetta"

quarta-feira, outubro 12, 2011

História(s) da Música Popular (188)

Johnny Rivers - "Do What You Gotta' Do" (Jimmy Webb)

Jimmy Webb (V)

Nada de muito especial para dizer sobre aquela que é a sexta faixa do álgum "Rewind" e quarta assinada por Webb, excepto que existe também uma bem conhecida versão de Nina Simone. Correndo risco de heresia (os admiradores de Nina são muitos e com boas razões para tal), não gosto particularmente da sua versão deste tema de Webb, um dos mais conhecidos. Prefiro Nina Simone em temas mais próximos do jazz/soul/blues como, por exemplo, "Don't Let Me Be Misunderstood", mais tarde objecto de um excelente "cover" pelos Animals, ou "I Put A Spell On You", um original de "Screamin' Jay Hawkins que um Alan Price já saído dos Animals levaria ao sucesso. E por aqui me fico.

A "falta de empenho" da selecção e as "mordomias" do Estado

Depois de ouvir metade do Fórum TSF de hoje, cheguei à conclusão a "falta de entrega, garra, empenho e humildade" assumem, para o "povo da SIC" e no que diz respeito à selecção, o mesmo papel que as "mordomias" e "gorduras do Estado" quando os mesmos falam de política e economia: o de argumento de quem não sabe nem percebe do que fala; a expressão de um sentimento de inveja para com aqueles que atingiram um estatuto de algum privilégio ou se destacaram na sociedade. Lamentável é que quem tem na sociedade um papel de liderança política, intelectual e social se demita, demasiadas vezes, das responsabilidades pedagógicas e didácticas a que essa posição de elite os deveria obrigar. É esse o terreno que alimenta o populismo.

terça-feira, outubro 11, 2011

Dinamarca - Portugal: o meio - campo

Ok, a defesa, com a possível excepção de Bruno Alves, foi composta por elementos que mal alcançam uma envergonhada mediania. Mas atenção, já vimos mais ou menos esta cena também com Bosingwa, Ricardo Carvalho, Pepe e Fábio Coentrão: principalmente nos jogos "fora", contra equipas da 2ª linha europeia mas rápidas e agressivas, pressionantes e com capacidade atlética juntando a isso uma técnica acima do razoável (as Dinamarcas, Polónias e Suécias deste mundo), o meio-campo da selecção portuguesa não consegue mandar no jogo, circular a bola, criar desequilíbrios no ataque e ser eficaz nas transições defensivas. Cria assim uma "folga" e o à vontade suficiente para a defesa e meio-campo contrários poderem subir no terreno, e desprotege a sua própria defesa possibilitando os médios contrários apareçam sem marcação junto dos seus avançados. Digamos que os médios não marcam nem se desmarcam.

Pois... "mostrem-me um bom meio-campo e eu mostro-lhes uma boa equipa".

Country Life (14)





Highclere Castle (Newbury, Berkshire)

Local de filmagens da série "Downton Abbey", actualmente em exibição na FOX Life

Demagogia


Estas afirmações de José Manuel Esteves, da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares), são um bom exemplo da demagogia mais rasteira. Levando este seu raciocínio às últimas consequências, também seria impensável, e injusto, pagar o mesmo valor de IVA por uma refeição no "Eleven", ou em qualquer outro restaurante de luxo, ou na tasca ou restaurante popular ali da esquina, independentemente do consumidor ser Belmiro de Azevedo, José Berardo ou, no caso da tasca, alguém que ganhe apenas o ordenado mínimo. No Ritz ou na pensão da tia Anica. E isso é o que acontece actualmente.

Este é, aliás, o perigo de se tentar fazer justiça social com os impostos indirectos, pela sua natureza "cegos". Esse papel - de elemento redistribuidor da riqueza - cabe, por definição, aos impostos directos progressivos, cobrados em função dos rendimentos, e às transferências sociais.

Pode pois José Manuel Esteves argumentar que o aumento do IVA cobrado no sector irá ter consequências nefastas no seu nível actividade e emprego. Terá ou não terá razão - e admito a possa ter - em função da sensibilidade do sector, que está longe de ser homogéneo, a um aumento de preços correspondente a um agravamento de 10pp na taxa de IVA. Mas se a insistência em utilizar o argumento acima pode conceder-lhe alguns títulos de jornais e um certo apoio popular, tal nunca será capaz de dotar a corporação que dirige de um racional de negociação suficientemente eficaz para ser bem sucedido.  

O voto (de)Seguro...

Sou da opinião (já o disse aqui há tempos no "twitter") que, salvaguardadas circunstâncias muito extremas e dificilmente verificáveis, o PS tem apenas um sentido de voto possível na votação do Orçamento de Estado para 2012: a abstenção. Esta é a única opção que lhe permite, simultâneamente, honrar os compromissos assumidos com a assinatura do MoU e afirmar uma posição de autonomia face ao governo e de alternativa ao seu programa político. Enfim, afirmar-se como oposição firme não radical nem anti-regime, posição que corresponde à sua natureza essencial.

Por isso mesmo, e tendo a proposta de Orçamento aprovação garantida na Assembleia da República sem necessidade dos votos do PS, confesso ter alguma dificuldade em entender esta posição dúbia; este género de tabu (embora "rabo escondido com gato quase todo de fora") de António José Seguro no que diz respeito ao voto do seu grupo parlamentar, até porque ao afirmar à partida que votar contra não faz parte de 99.999% das suas opções está a entregar de bandeja aos partidos do governo qualquer capacidade negocial que pudesse sonhar ainda ter. A não ser... A não ser que o canto da sereia presidencial, entoado na última entrevista de Cavaco Silva, esteja a exercer alguma sedução sobre Seguro e este se apreste a encarar o voto a favor em troca de alguns encantos e graças concedidas, talvez na reforma autárquica. Nesse caso, aconselho-o a fazer como Odisseu, até porque não me parece muita gente no seu partido seja assim tão sensível à inspiração das Tágides de Belém (se as houver..). 

segunda-feira, outubro 10, 2011

The Raj (3)

          
                                                      "Bhowani Junction", de George Cukor (1956)

domingo, outubro 09, 2011

Madeira: simples e claro

É muito fácil explicar o resultado das eleições regionais da Madeira: os eleitores que perderam a confiança em Alberto João Jardim e no PSD-M em virtude do endividamento excessivo, que conduzirá a Região ao resgate e consequente austeridade, não a quiseram dar a quem atribuem as mesmas responsabilidades a nível nacional. Explicação mais simples e lógica do que esta será difícil encontrar. 

"Sangue do Meu Sangue"

João Canijo transporta a sua "troupe" de actores e o seu cinema feito de uma viscosidade ensopada em suor e sangue do ambiente sórdido de uma casa de alterne (algures no norte?) para a promiscuidade de um bairro degradado da  suburbanidade lisboeta. Da prostituição dominada pela máfia russa para o pequeno tráfico de droga da imigração africana, embora as dívidas se continuem a pagar em sexo.

Apesar de um argumento pouco plausível, no mínimo poussée à la limite, na parte da história que liga o triângulo Márcia (Rita Blanco), Cláudia (Cleia Almeida) e Alberto (Marcello Urgeghe), o que torna o filme menos homogéneo do que "Noite Escura", o dramatismo da cena "quase final" entre João Carlos (Rafael Morais), a tia (Anabela Moreira - excelente!) e o traficante, bem como a ternura simples da cena mesmo final entre mãe, filha e companheiro daquela (este sempre disponível, mas como elemento exterior ao núcleo duro familiar, alguém que não é "sangue do mesmo sangue", com dificuldade em se envolver em toda a extensão do drama), pertencem ao melhor cinema que vi nos últimos anos. 

Também um festival de actrizes, mas isso já se disse muito por aí.

Oráculo...

Alberto João Jardim conseguirá (o mais provável) ou não nova maioria absoluta nas eleições regionais de hoje. Mas tanto num caso como noutro, não completará este seu novo mandato: "razões de saúde" ditarão, a prazo mais ou menos breve (arrisco um ano ou ano e meio), a sua renúncia.

Specialty records (5)

Guitar Slim - "The Things That I Used To Do" (1953/54)

sábado, outubro 08, 2011

O Portugal-Islândia e Rui Patrício

Acho cada vez menos vejo o mesmo jogo do que a maioria dos jornalistas e comentadores de futebol. Ontem, no Portugal-Islândia, achei Rui Patrício fez uma exibição medíocre. É certo que, no início do jogo, fez uma boa e difícil defesa a remate de cabeça de um jogador islandês (faria o 0-1), embora a bola fosse sem muita força e o remate tivesse sido um pouco denunciado. Mas foi quase à queima-roupa, daí o crédito por essa defesa. Mas já no segundo golo islandês andou literalmente "aos papéis", de nariz no ar (diga-se, em abono da verdade, que juntamente com os centrais), enquanto a bola andava por ali, em jogo aéreo na pequena área que, como se sabe, é terreno da jurisdição do guarda-redes. Quanto ao resto do jogo, nada de especialmente brilhante ou comprometedor, pelo que não percebo as razões de tantos elogios na imprensa desportiva.

Sendo benfiquista, devo salvaguardar nada ter contra o sportinguista Rui Patrício, que, sendo um guarda-redes mediano a nível internacional, é o melhor português no seu posto e merece amplamente o lugar na selecção nacional. Inclusive, tem boas condições físicas para o lugar e, como agora se diz, margem de progressão para melhorar as qualidades que já possui. Mas, até para que potencie as suas já reconhecidas qualidades, nada disso se deve substituir ao rigor de análise das suas prestações. 

sexta-feira, outubro 07, 2011

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (20)

Jackie DeShannon - "Come And Stay With Me" (Jackie DeShannon- Jimmy Page-?)

Um outro caso curioso de confusão entre o original e o "cover": o tema é uma composição da dupla DeShannon-Page (ao tempo em bons lençóis comuns), que o compôs em 1965. Jackie ofereceu por essa altura a canção a Marianne que a gravou e editou nesse mesmo ano (#4 no UK). No entanto, Jackie só viria a gravar este seu tema em 1968.
Nota: nem sempre Page aparece como co-autor do tema. O mais provável é que a sua contribuição tenha sido... well, you know... 

Marianne Faithfull - "Come And Stay With Me" (1965)

quinta-feira, outubro 06, 2011

Em louvor do Serviço Nacional de Saúde - um pequeno caso pessoal

Uma pequena história para os que se dedicam a dizer "cobras e lagartos" do SNS.
  1. Decidi, passados uns cinco anos desde os últimos exames médicos rotineiros, ser hora de reincidir. Falei para o meu Centro de Saúde (Stª Isabel - São Mamede) e, telefonicamente, marquei sem qualquer dificuldade consulta para o meu médico de família, aí para uns três ou quatro dias depois. Nesse dia, esperei cerca de meia-hora pela consulta (como termo de comparação, quando os meus filhos eram crianças costumava esperar a tarde inteira por uma consulta privada num dos pediatras mais conceituados de Lisboa), que me custou pouco mais de dois euros, e vim de lá com "credenciais" para as análises "do costume" e ainda para uma ecografia abdominal, para ver se estava tudo bem nas "partes médias e fundengas (ou pudibundas)". Tive ainda o cuidado prévio de lembrar ao meu médico de família que, sendo um defensor do SNS, fizesse o favor de me prescrever apenas o que achasse essencial, para não gastar dinheiro ao Estado sem necessidade absoluta.
  2. No dia seguinte (uma 6ª feira), falei para um laboratório de análises privado, com o qual o SNS tem acordo e local onde também fazem ecografias, e só não fui lá na 2ª feira seguinte porque era para mim inconveniente. Mas marquei para hoje, 5ª feira. Realizei os exames, a médica que me fez a ecografia disse logo estava tudo nos conformes (as "partes médias e fundengas") e as análises estarão prontas na próxima 2ª feira. Por todos estes exames paguei a ridicularia de €10.30. Não me importaria, e até acharia correcto, ter pago um pouco mais.
Moral da história? Acho os portugueses não dão valor ao que têm... Nem quando é excelente.

Pasodoble (2)

"Gallito" (Santiago Lope Gonzalo)

quarta-feira, outubro 05, 2011

Cinco de Outubro ou 24 de Julho?

Não sendo monárquico (é-me indiferente o regime desde que democrático e representativo - e quanto mais democrático e representativo, melhor), penso não fará muito sentido, actualmente, a comemoração da data de implantação da República. Uma vez que a questão do regime está resolvida há muito, seria bem mais significativo se comemorasse o 24 de Julho (de 1833), data de entrada em Lisboa das tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira marcando o fim, de facto, da guerra civil, o início da monarquia constitucional e a derrota do absolutismo miguelista. Mais do que o 5 de Outubro, é o 24 de Julho a data que marca o início do Portugal moderno. 

O 5 de Outubro de Seguro

Segundo leio, António José Seguro "congratulou-se com o discurso de António Costa, que defendeu uma aposta clara na descentralização". Enfim... Numa conjuntura em que o país está obrigado ao cumprimento de metas muito estritas, em que os recursos são escassíssimos, o que o país menos precisa é de descentralização, o que normal e historicamente significa maior desperdício, menor rigor e menos controlo na aplicação dos ditos recursos, além de apelo acrescido ao poder negocial das corporações. Aliás, esta afirmação de Seguro é contraditória com o que tinha afirmado antes, ao salientar que os socialistas "estão ao lado do presidente quanto à urgência do país não derrapar"... "de não poder falhar".

Enfim, mais uma vez se compreende Seguro: o que é mesmo preciso é dizer qualquer coisa que possa soar como música (mesmo que desafinada...) aos ouvidos das "concelhias" que o elegeram. Mesmo que a música seja má e a partitura não tenha cons(c)erto. Entre o "flirt" com o Presidente da República e o casamento com o aparelho concelhio, para onde vai Seguro levar o PS? 

Les Belles Anglaises (58)





Triumph Stag (1970 - 1978)

A autocrítica de Cavaco Silva?

Excerto do discurso do Presidente da República (no cargo há quase seis anos e 1º ministro durante dez) nas comemorações do Cinco de Outubro:

terça-feira, outubro 04, 2011

Dennis Potter's "Pennies From Heaven" (5)

"Sweet So And So"

Amanda Knox

Quando leio sobre a deplorável investigação da polícia italiana no caso Amanda Knox, lembro-me, de imediato, dos casos "portugueses" de Madeleine McCann, Joana e Rui Pedro, em que o desleixo, a meias com o mais puro amadorismo, arrogância policial e desprezo pelos direitos e garantias dos cidadãos, em conjunto com a  manipulação dos "media" para disfarçar a incompetência generalizada, geraram autênticas monstruosidades processuais. Parece que, apesar de toda a tecnologia de investigação actualmente ao dispor das polícias, as "little grey cells" de Poirot e a bisbilhotice de Miss Marple ainda levam a melhor. Pena não ser tudo como nos livros e nos filmes...

segunda-feira, outubro 03, 2011

Seguro e a reforma autárquica

Será com certeza desconfortável para António José Seguro, eleito secretário-geral pelas estruturas regionais (leia-se, concelhias e etc.) do partido, ver-se agora forçado a negociar com o governo e com o PSD a reorganização das autarquias, levando à fusão e extinção de algumas delas. Mas tratando-se de um reforma indispensável, já demasiado tempo adiada e onde PS e PSD deram um bom exemplo de cooperação em Lisboa, parece-me bastante negativo Seguro venha agora publicamente e à partida impor condições para tal negociação, algo que me parece a maioria dos cidadãos terá dificuldade em compreender e aceitar. Parece-me, isso sim, bem mais ajuizado e positivo para os socialistas e para o país que Seguro manifeste maior ou até mesmo total abertura negocial e, depois, tente fazer valer durante a negociação os seus pontos de vista. Do modo como o fez, esqueceu o país, penso mesmo que terá posto de parte o partido no seu todo e falou apenas para a sua base social de apoio partidária. Digamos que foi "poucochinho".

Giallo (7)

"Nude... Si Muore" (aka "The Young, The Evil and The Savage"), de Antonio Margheriti (1968)

O indecoroso espectáculo de ontem em Coimbra

Quem se deu ao trabalho de passar hoje os olhos nas crónicas dos jornais desportivos sobre o A. A. Coimbra - FCP de ontem, facilmente conclui, pela leitura das entrelinhas, do que se terá passado em Coimbra. Aliás, nem sequer era preciso ter dons de pitonisa para calcular antecipadamente que assim seria. Infelizmente, é este o estado do futebol português, e para o corrigir já não bastará impedir que jogadores com contrato com um clube sejam cedidos, por empréstimo, a clubes que actuam nas mesmas competições: seria também necessário impedir que clubes que são autênticas filiais e funcionam, de facto, como verdadeiras equipas "B" de outros actuassem nos mesmos campeonatos. Se, no caso dos empréstimos, a correcção desta situação aberrante dependerá apenas da vontade política de quem dirige a indústria, a nível nacional (LPFP e FPF) e internacional (FIFA e UEFA), no caso das equipas "B" encapotadas, e infelizmente, tal já me parece bem mais difícil de provar e, consequentemente, de legislar em conformidade. Entretanto, resta-nos ir assistindo a estes indecorosos espectáculos.  

domingo, outubro 02, 2011

Midsomer Murders

No canal FOX Crime todos os sábados pelas 21.30h
Repete aos domingos pelas 18.45h.

"Les haricots sont pas salés" - old time cajun music (15)

Amédé Ardoin - "Two Step De Prairie Soileau"

Seguro e o seu discurso sobre a Madeira

António José Seguro tem centrado o seu discurso político na questão da Madeira. Compreende-se: nunca Alberto João Jardim esteve numa posição tão fragilizada e, apesar da demarcação clara de Passos Coelho (que não de Cavaco Silva), nunca foi tão evidente a sua situação de "elo mais fraco do PSD" e, por arrastamento, do governo onde este partido é dominante. O "faux pas" de Passos Coelho e do governo no que diz respeito ao "timing" de apresentação da auditoria e do plano de resgate para a Região Autónoma dão a Seguro pretexto acrescido. Por outro lado, este discurso permite também ao PS desviar as atenções de eventuais responsabilidades do governo Sócrates numa deficiente execução orçamental do primeiro semestre, pois o partido poderá sempre invocar - e bem - que no caso madeirense estamos perante uma ilegalidade, algo bem mais grave do que "apenas"(!) um desvio orçamental. 

Mas como convém sempre analisar o outro lado das coisas, este discurso tem um ponto fraco e assume um risco. Começa por demonstrar - ponto fraco - que o PS, exceptuando algumas declarações avulsas de um ou outro seu dirigente ou deputado, não tem uma proposta política e económica alternativa de fundo ao actual discurso dominante sobre as crise do Euro e da dívida, e modo de as resolver. Quanto a mim, seria em torno dessa alternativa às propostas, por um lado, do Partido Popular Europeu e, por outro, do radicalismo de esquerda, que o PS deveria articular no fundamental o seu discurso e mobilizar os seus apoiantes. Acresce - enorme risco  - que numa eventual e talvez mais do que previsível vitória de Jardim nas eleições de 9 de Outubro com as percentagens habituais, e sem que o PS-Madeira consiga uma votação mais expressiva do que no passado recente, Seguro terá que assumir a estrondosa derrota desta sua estratégia. E, convenhamos, para que está há tão pouco tempo na direcção da partido, tal não constituiria, de facto, um bom augúrio.