quinta-feira, junho 30, 2011

O "corte" as as dúvidas

Algumas dúvidas sobre o tal corte equivalente a 50% do subsídio de Natal (valor excedente ao salário mínimo) :
  1. Como vai ser aplicada a medida aos trabalhadores independentes ou em regime livre?
  2. Os beneficiários do subsídio de desemprego que recebem valores superiores ao ordenado mínimo serão abrangidos?
  3. Se, como disse o primeiro-ministro, o corte é equivalente a 50% do subsídio de Natal e pode ser pago de forma faseada (como e a partir de quando?), tal não é o mesmo que dizer 50% de um mês de ordenado?
  4. E se as entidades empregadoras privadas e os trabalhadores, de comum acordo, decidirem anular o subsídio de Natal e diluí-lo no salário mensal ou pagá-lo como ajudas de custo, subsídio de deslocação, etc, como se aplica a medida?
Muitas dúvidas por esclarecer, ainda...

Skiffle (4)

The Quarrymen - "That'll Be The Day"

"Déficit": comparar o comparável

Vamos vá ver... Ao contrário do que vou vendo por aí, não me parece ter qualquer sentido comparar o "déficit" real do 1º trimestre, ou seja, a execução orçamental Jan-Mar, com o valor previsto para o total do ano. Digamos que é absurdo, pois não estamos a comparar o comparável. O que se deve fazer, isso sim, é comparar a execução orçamental desse 1º trimestre, incluindo o "déficit" real obtido, com o que estava previsto para esse período no orçamento aprovado e, a partir daí, calcular os desvios e efectuar as correcções eventualmente necessárias nos três últimos trimestres para atingir o resultado orçamentado.

Explicando melhor: se o "déficit" do 1º trimestre foi de 7.7% mas o orçamentado era superior, então a execução está a correr bem, mesmo que o valor previsto para o total do ano seja 5.9%, o que apenas significa que as receitas dos restantes trimestres serão proporcionalmente muito superiores e/ou as despesas também proporcionalmente inferiores. Se acontecer o contrário, haverá problemas e serão necessárias medidas de correcção. Nas empresas é esta a metodologia; espero que no Estado seja pelo menos algo de parecido. Ou não será assim?

quarta-feira, junho 29, 2011

SLB: algumas interrogações técnico-tácticas

Três curiosidades sobre a nova época do meu "glorioso" que a próxima semana começará já a esclarecer:
  1. Sem David Luiz e Coentrão, dois jogadores-chave nos princípios de jogo da equipa, o primeiro com as suas "saídas a jogar" e "dobras" na ala esquerda,  permitindo ganhar superioridade a meio-campo e colmatar as descidas de Coentrão pelo flanco, e este último  com essas mesma descidas dando largura e profundidade à ala esquerda, como vai resolver Jorge Jesus o assunto? Colmatando as vagas com jogadores tanto quanto possível idênticos ou modificando esses princípios? (sim, eu sei que David Luiz saiu em Janeiro, mas nessa altura não era possível mudar grande coisa).
  2. Como vai Jesus equilibrar a equipa, um dos principais problemas na época passada? Com Amorim na direita? Recorrendo, agora que tem Matic, a um duplo-pivot? Com um lateral esquerdo menos ofensivo, compensando de outro modo essa mudança táctica?
  3. Com tantas alterações no plantel e vindo de uma época de insucessos, vai Jesus manter o habitual 4x4x2 ou tentar a mudança para um 4x3x3, sistema já ensaiado, e depois abandonado, na pré-época passada?
Enfim... faltam poucos dias para saber e cá estarei para comentar.

Onde anda o PS?

Sim, eu sei que o PS negociou e assinou, enquanto governo, o MoU - e fez bem em tê-lo feito - e isso baliza a sua actuação enquanto partido de oposição. Mas parece-me que nada disso nem ainda o facto de estar em processo de eleição de líder impede o partido de expressar em tempo oportuno a sua opinião sobre o programa de governo, como se espera que faça e é seu dever enquanto principal partido da oposição, único do chamado arco governamental. Mais ainda: o facto de ser, simultâneamente, um dos signatários do MoU e ter sido o segundo partido mais votado será até razão acrescida para que os portugueses, tanto os que o apoiaram como todos os outros, queiram saber da sua opinião sobre esse mesmo programa. Com este seu silêncio prolongado já durante demasiado tempo, o PS está a dar um sinal de fragilidade extrema e a abrir caminho ("a política tem horror ao vazio", não é?) a que a esquerda radical vá preenchendo, em parte, o espaço que deveria ser o seu. Digamos que os sinais que assim envia aos portugueses estão longe de serem positivos, até porque o país irá precisar - e muito - não só de quem se assuma como uma alternativa ideológica sólida ao governo mais ideológico desde a normalização democrática de 1976, como de quem saiba assumir e definir os limites em que se deve expressar um mais do que previsível descontentamento social futuro. 

Zarzuela (4)

"Luisa Fernanda", de Federico Moreno Torroba
"Ay mi Morena" -  intérprete: Placido Domingo

Para que servem os programas de governo?

Neste "post" de ontem comentei como o uso e abuso, propositado, de palavras como "avaliar", "reavaliar", "oportunamente", "eventual", "suspender", etc, nos programas de governo (o deste último está longe de ser caso virgem), bem como o enunciado sistemático de intenções mais ou menos vagas, por vezes até contraditórias, abrem caminho para (quase) tudo. Depois disso, resolvi-me por um "tweet" perguntando o que se entendia exactamente por "suspender"; se tal seria por um dia, uma semana, um mês, um ano ou sine die, já que me parecia absolutamente necessário, no caso da suspensão e reavaliação de um qualquer projecto, que se indicasse um prazo, uma data para decisão definitiva. Sem tais indicações, mais uma vez se abre a porta para quase tudo, já que se torna praticamente impossível ir avaliando do seu cumprimento. Inclusivamente, comparei o modo como está estruturado o programa do actual governo (que não difere muito dos anteriores) com o MoU, onde, e muito bem, se definem prazos, apontam "deadlines" e quantificam medidas para que, aqui sim, se possa ir avaliando do rigor com que está a ser implementado, de modo a efectuar eventuais correcções que se venham a revelar necessárias.

Pergunta-se, então e em função disto, para que servem os programas de governo? Fundamentalmente, e em graus diferentes e consoante as circunstâncias, para marcar terreno ideológico e para efeitos propagandísticos, conseguindo deste modo cativar uma "vanguarda de apoio" (digamos assim) e conquistar ou ampliar o chamado "estado de graça". No caso presente, o do programa do actual governo, um "mix" (para usar uma expressão cara a Eduardo Catroga) de ambas as dimensões está bem evidente: suficientemente ideológico para agradar à sua vanguarda ultra-liberal (mas convenientemente vago, hélas, por dever de realismo político) e populista quanto baste (mas sem demasiados compromissos) para agradar ao tablóidismo comunicacional, conquistando a sua confiança nos próximos tempos. Digamos que em função disto, é inteligente e cumpre bem os objectivos, o que pouco ou nada terá que ver com a sua execução futura.

terça-feira, junho 28, 2011

"Rescisões por mútuo acordo"


A propósito das rescisões por mútuo acordo na Função Pública, eis o que escrevi neste "blog" a 1 de Abril deste ano.

Spicy (5)

Programa de Governo e MoU: comparar padrões

Exercício interessante comparar o Programa do Governo com o MoU. Enquanto no Programa do Governo, seguindo a tradição, se usa e abusa de palavras como "avaliar", "reavaliar", "oportunamente", "eventual", "suspender", etc, numa falta de rigor que abre caminho para quase tudo, no MoU quantifica-se, estabelecem-se prazos e definem-se "deadlines". Digamos que para um governo que, mais do que qualquer outro anterior, tem, e bem, nas melhores práticas do sector privado um padrão e um exemplo a seguir, esperava-se ver tal já expresso de modo mais evidente no seu documento inicial.

História(s) da Música Popular (184)

Richard Harris - "MacArthur Park"

Jimmy Webb (I)

Pois nem sequer pensei muito tempo e, em vez de começar pelo princípio ou pelo seu tema mais conhecido ("By The Time I Get to Phoenix"), ao falar de Jimmy Webb (1946, Oklahoma) fui directo àquele que é um dos temas mais insólitos, estranhos, mesmo, de toda a música popular anglo-americana da década prodigiosa. Estranho pela temática, pela sua longa duração (7' e 27''), pelo intérprete (o actor Richard Harris), pelo modo como é interpretado e pelo facto de, com todas estas características que parecem apontar mais para um tema a ocupar todo um lado "B" de um qualquer duplo álbum, ter sido editado em single" e ter chegado a #2 nos USA (1968). O álbum do qual a canção faz parte ("A Tramp Shining"), com Harris interpretando temas de Webb, manteve-se também nos tops durante cerca de um ano e inclui ainda um outro tema que faz parte dos meus favoritos: "Paper Chase".

"MacArthur Park" foi proposto em primeiro lugar aos Association, mas não estranho o facto de ter sido por estes recusado e ainda bem que o fizeram: de facto,  não só pouco me parece ter a ver com a temática "sunshine pop" da banda californiana, que já por aqui passou, como também nunca teríamos oportunidade para conhecer a "angústia" da interpretação de Harris, que constitui um verdadeiro "trademark" do tema.

Já agora: esqueça a versão de Donna Summer, de 1978. Aliás, fará bem melhor em esquecer Donna Summer, por junto.

A 1ª semana

  1. Na primeira semana depois da posse do novo governo, as medidas anunciadas - viagens em classe económica, modo como foi gerida a questão dos governadores civis, pré-anúncio do tal "trabalho solidário" (aposto o meu dinheirinho em como tal coisa nunca será implementada de modo permanente e normalizado) - dizem-nos que o país tem sido governado pelos "fóruns de opinião" e caixas de comentários. Aguarda-se agora com expectativa a entrada em funções do governo.
  2. Quem ouve e lê a comunicação social fica com a ideia que alguém terá decretado que "parece mal" criticar o governo. Curiosamente, e até agora, as poucas mas contundentes críticas têm vindo de militantes ou simpatizantes do PSD como Pacheco Pereira, o constitucionalista Bacelar Gouveia (muito bem no caso dos Governos Civis) e Pedro Marques Lopes, este último um apoiante de sempre de Pedro Passos Coelho. Então o modo como a comunicação social analisou o caso das viagens em "económica", quase o reduzindo a um assunto de economia doméstica em vez de o tratar como uma questão política, foi verdadeiramente deprimente. Esperam-se melhores dias. 

segunda-feira, junho 27, 2011

A UEFA e o período de transferências

Acho já por aqui o disse uma ou outra vez, mas repito: com os campeonatos nacionais a começarem a meio de Agosto e as pré-eliminatórias e "playoff" das competições europeias a terem lugar em Julho, faz cada vez menos sentido que o período de abertura do mercado de transferências se alargue até ao final de Agosto, com plantéis a manterem-se indefinidos, preparação afectada, jogadores a começarem a época num clube e a mudarem logo depois de duas ou três jornadas e por aí fora. Este é um assunto a que a UEFA deveria atribuir um maior grau de prioridade.

The best of SUN rockabilly (14)

Jerry Lee Lewis - "Bonnie B"

"Menos Franco y más pan blanco"*

Francesco Franco, professor da FEUN e um dos maiores entusiastas do que agora se chama "desvalorização fiscal" - que parece querer substituir-se ao disparatado "choque fiscal" proposto em tempos por Miguel Frasquilho - propõe, no "Público" de ontem, um corte para metade da "Taxa Social Única", o que, segundo ele, representaria uma diminuição dos custos laborais de aproximadamente 10% do PIB. Só que, tão rigoroso nas contas quando se trata de calcular o impacto do corte na TSU, quando toca a avaliar o aumento do IVA necessário para fazer face a tal "desvalorização fiscal" mantendo a sustentabilidade da Segurança Social, Franco já se mostra um pouco menos certeiro de contas e remete para o Governo a sua apresentação, não fosse a realidade dos números vir a mostrar, desde já, o absurdo político da sua proposta. A argumentação de Franco tem outros "ses", mas nem vale muito a pena ir por aí...

Digamos que Francesco Franco terá talvez tido uma boa ideia, mas essa coisa da realidade é que vem complicar tudo um bocado.

* "Palavra de ordem" da oposição anti-franquista durante a Guerra Civil de Espanha.

O "Expresso" não sabe copiar e vai ter que escrever 50 vezes "Renovação" em vez de "revolução"

Simpaticamente, o "Expresso" resolveu este fim de semana transcrever um "tweet" meu. Digamos que só lhes fica bem enriquecer assim o conteúdo do jornal, que bem precisado está.. No original, o "tweet", a propósito das dissidências no Bloco de Esquerda, dizia mais ou menos isto: "será que depois da Renovação Comunista vamos ter a Renovação Bloquista?". Claro está que qualquer pessoa minimamente informada perceberia que quando escrevia Renovação Comunista estava a referir-me ao movimento de dissidentes do PCP do qual Carlos Brito e Edgar Correia são os nomes mais conhecidos, comparando a génese da sua institucionalização com o que se passa actualmente no BE. Pois parece-me que o "Expresso" terá pensado que os "twitters" são todos (ou eu em especial) uns ignorantes e, zás, catrapás, toca de substituir "Renovação" por "revolução", o que altera todo o significado do que escrevi e o torna mesmo incompreensível. Enfim... se o "Expresso" não é capaz de fazer algo tão simples como copiar, como querem que acreditemos no que por lá dizem? 

domingo, junho 26, 2011

Três perguntas simples

  1. Sabendo que o número de deputados por habitante não é em Portugal superior à média dos Estados da UE, qual efectivamente o racional que justifica as propostas para uma diminuição do seu número? Ela é essencialmente económica (poupar dinheiro) ou política (melhorar a qualidade da democracia)? Como se espera contribua para uma melhoria da qualidade do exercício do poder democrático?
  2. Porque razão tanta gente se preocupa com o facto dos candidatos a deputados serem escolhidos pelas direcções partidárias e não vejo idêntica preocupação com a possibilidade (real) de Portugal poder ter um qualquer governo em que apenas o primeiro-ministro se apresentou a eleições e todos os outros membros são escolhidos pelas mesmíssimas direcções partidárias?
  3. Independentemente da velha questão do "caciquismo" e do "populismo", já tão conhecidos das eleições autárquicas, e no caso dos círculos uninominais, já alguém pensou como irão estes ser "desenhados"? Quem os propõe conhece bem, independentemente de questões de proporcionalidade que podem ser compensadas nacionalmente, o modo como esse desenho pode influenciar e deturpar os resultados eleitorais (gerrymandering)? Será que na difícil conjuntura actual, em que a indispensável redefinição autárquica já arrastará consigo dificuldades suficientes, estaremos todos dispostos a travar mais essa guerra, mais ou menos inútil? 

Grindhouse Effect (13)

A esquerda radical e Paulo Macedo

Não sei se Paulo Macedo virá ou não a ser um bom ministro da Saúde. Por mim, que sou um defensor do Estado-Providência, espero que proceda a uma racionalização do SNS de modo a que este consiga prestar cada vez com maior eficácia os seus serviços a todos (repito: todos) os cidadãos, e será em função disso que farei a minha avaliação. Mas o que acho lamentável é o processo de intenções que lhe está já a ser movido, vindo de sectores da esquerda radical, pelo facto de ter trabalhado na Médis e, para tal gente (da esquerda radical), isso significar que, enquanto ministro, irá defender os grupos privados de saúde, em geral, e a Médis, em particular. No limite, e levado este raciocínio às últimas consequências, tal significaria que ninguém poderia mudar de emprego para uma empresa concorrente, nos sectores público, privado ou entre ambos, sem carregar consigo a suspeição de o fazer sempre para defender os interesses da sua anterior entidade empregadora. Sobre o que este raciocínio revela de sectarismo, mentalidade mesquinha e persecutória, "ódio de classe" e estreiteza de vistas, não vale a pena acrescentar o que quer que seja. Haja pachorra.

sábado, junho 25, 2011

"Económica" ou "executiva"? Uma questão política

Confesso estar demasiado farto de ver a discussão sobre a classe em que viaja o governo quase só centrada no que se poupa ou não poupa, isto é, reduzida às questões económicas (apetecia-me mais dizer de "economia de dona de casa"). Independentemente de se poupar mais ou menos (e aproveito para dizer que um bilhete de tarifa económica normal, isto é, não-reduzida e com as limitações que este último tipo de tarifas impõe à sua utilização, custa em muitos voos praticamente o mesmo do que um voo em executiva), trata-se de um assunto de natureza política e como tal deve ser analisado. Assim sendo, a pergunta que faço é a seguinte: "devem os membros do governo viajar em classe executiva ou em classe económica, mesmo na Europa". E aqui a minha resposta só poderá ser que o devem fazer em "executiva". Porquê? Por um conjunto de razões que passo a enunciar:
  1. As viagens oficiais de membros do governo assumem sempre um carácter de representação de Estado. É por essa mesma razão - de dignidade de representação - que as viaturas oficiais dos membros do governo são carros com um certo estatuto, pintados de cor sóbria, e não Fiats Punto ou descapotáveis pintados de cor de rosa ou "azul cueca"; que existe um "dress code" determinado para o seu trabalho diário e actos oficiais; que não se serve "Porta da Ravessa" ou Teobar nas refeições oficiais e assim sucessivamente. Enfim, que existe uma certa coisa que dá pelo nome de "protocolo de Estado". Já agora, não sei se viajando em "económica" os membros do governo também terão de abdicar dos "batedores", da sala VIP da Portela, do "executive lounge", terão de esperar pela bagagem ou irem para a "bicha" no "check in" se o não fizeram na "net.
  2. Para não falar dos membros de governos de outros Estados-membros da UE - que obviamente viajam em "executiva" - a grande maioria dos executivos, directores e administradores das principais empresas viajam em classe executiva, o que coloca os membros do governo numa posição de inaceitável subalternidade perante eles. 
  3. Mesmo na Europa, em voos de relativa curta duração, as viagens são frequentemente aproveitadas para trabalhar (consultar relatórios, trocar impressões, preparar reuniões futuras, etc). Só quem nunca viajou poderá ser de opinião que tal é possível na balbúrdia da "económica".
  4. Por muito que seja impopular dizê-lo, os membros do governo trabalham muito e têm agendas carregadas. Uma viagem, por muito curta que seja (duas ou três horas), pode muitas vezes ser aproveitada para uns minutos de descanso e descontração, uma refeição, leitura da imprensa, etc. Afigura-se difícil tais tarefas possam ser realizadas numa classe económica a abarrotar. 
  5. Por último, e como aqui já afirmei, viajar em classe económica constitui uma inaceitável cedência à demagogia populista mais rasteira dominante nas opiniões expressas pelos sectores menos intruídos e mais retrógrados dos portugueses nos "fóruns de opinião" e nas caixas de comentários. Ora não é isso que espero de um governo democrático de um país civilizado. Pelo contrário: espero elevação e bom senso na escolha das políticas e uma atitude pedagógica no modo como são explicadas aos cidadãos.

"Shindig" - 1965 (1)

Opening medley (song excerpts):
 1. Willy Nelson - "Long Tall Sally"
2. David Crosby and Roger McGuinn (of the Byrds) - "Long Tall Sally"
3. Righteous Brothers - "Sticks and Stones"
4. Kingsmen, Billy Preston - "Good Golly Miss Molly"

5. The Byrds - "Not Fade Away"
6. Willy Nelson - "Jump Back"
7. Micki Lynn - "Crazy 'bout My Baby"

sexta-feira, junho 24, 2011

O fascínio "bonapartista" de António Barreto

António Barreto é um homem culto e "com mundo; sociólogo com obra incontornável desde os anos anteriores ao 25 de Abril e político experimentado. Não admira, portanto, que, independentemente do tom pater familiae habitual no seu discurso, tenha algumas ideias interessantes, umas para as quais valeria a pena olhar com mais atenção, outras nem por isso. Mas, como académico que também é, Barreto parece ignorar - ou querer que ignoremos para assim fazer melhor passar as ideias políticas que defende - que o mundo é movido por interesses, e não pelo que é justo ou correcto de acordo com o seu pensamento ou de qualquer outro individuo, académico ou não, e que em democracia os partidos são expressão desses mesmos interesses sendo a governação expressão da correlação de forças a cada momento existente. Quando isso não acontece, quando os interesses existentes na sociedade não encontram expressão e representação suficiente a nível político, estamos perante uma situação "bloqueada", com os perigos de transformação revolucionária a isso inerentes. Aliás, António Barreto, enquanto presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é, também ele, expressão dos interesses representados por esta instituição e pelo grupo empresarial que está na sua base, o que em si mesmo nada tem de reprovável numa democracia pluralista e numa economia baseada na livre iniciativa.

Por isso mesmo, não imagino com que legitimidade pode Barreto, ou alguém, pedir aos partidos que abdiquem dos interesses que legitimamente defendem e que no seu pluralismo partidário conflituam para efectuarem uma qualquer revisão constitucional "ideal" ou legislarem e actuarem em nome de uma determinada concepção abstracta ou teórica do interesse "político" ou "social", bloqueando a expressão livre dos interesses sociais e económicos. O que me parece estar presente e influenciar este tipo de pensamento, que encontra expressão privilegiada no pensamento político de António Barreto e em alguns discursos do actual Presidente da República (o discurso de tomada de posse do governo de Passos Coelho é disso um exemplo) é, isso sim, uma concepção bonapartista do poder, o fascínio por uma certa democracia tutelada que, aliás, parece ter tradição nos fundamentos dos dois últimos regimes políticos saídos de revoluções: na concepção inicial do 28 de Maio, antes da táctica do "salame" ter afastado Gomes da Costa e Cabeçadas, e no 25 de Abril, com António de Spínola. Por hábito, é isto que acontece quando alguém, indíviduo ou grupo, se pensa portador de uma qualquer superioridade moral ou intectual face à sociedade, e é neste tipo de pensamento que, não raramente, se ancoram as ditaduras.

quinta-feira, junho 23, 2011

Val Lewton (1)


"Cat People", de Jacques Tourneur (1942)

Se o ridículo matasse...

Por mim, nem me preocuparia muito com a atitude infantil e ridícula de Passos Coelho ter decidido viajar em classe económica para a Cimeira de Bruxelas não fosse tal ser revelador de uma coisa e normalmente indiciar outra: revelador de uma cedência à demagogia populista dos "fóruns de opinião", o que, para mais, não é virgem no novo primeiro-ministro, e indiciador de falta de ideias de governação mais consistentes para racionalizar e tornar mais eficaz o Estado. No primeiro caso, espero rapidamente cresça e amadureça; no segundo, gostaria de estar enganado.

Quanto ao resto, faço minhas as palavras de Pedro Marques Lopes e Eduardo Pitta.

É sempre bom ouvir gente inteligente



O mais interessante que me foi dado ouvir nos últimos dias.

terça-feira, junho 21, 2011

Governadores Civis

Em vez de reunir a seu tempo com os Governadores Civis e de os informar que não tencionava renovar o respectivo mandato, o que é legítimo, ou mesmo que iria extinguir a função no cumprimento do que será o programa do governo, Passos Coelho anunciou ao que ia "por discurso", gerando uma onda de demissões e perdendo a iniciativa na condução do processo. Oh, senhor primeiro-ministro!, na próxima vez, antes de fazer o que quer que seja importa-se de pensar nas consequências?

Nota: Há males que vêm por bem: o "chumbo" de Fernando Nobre foi a oportunidade de Assunção Esteves. Bem esteve Maria de Belém ao afirmar que o nova Presidente da A. R. foi a sua primeira escolha. Penso o teria sido também de uma maioria dos portugueses.

Songs of the WW II (19)

"Il bersagliere ha cento penne" (Il partigiano)

André Villas-Boas e o Chelsea

André Villas-Boas pode vir ou não a ter sucesso no Chelsea; por mim, agora que saiu do FCP, espero bem o tenha, porque aprecio as suas qualidades. Mas uma coisa não se poderá negar: longe de ser um qualquer capricho de Abramovich, é o nome que reúne melhores condições para ter êxito no clube de Stamford Bridge. Porquê? Pois muito bem:
  1. Em primeiro lugar, provou desde sempre saber o que queria e demonstrou a persistência e ousadia necessárias para o conseguir.
  2. É jovem e ambicioso, mas, simultaneamente, já possui grande experiência.
  3. Possui mentalidade e vivência cosmopolitas.
  4. Trabalhou com José Mourinho e com ele conheceu e ganhou experiência no "grande futebol" de Itália e Inglaterra.
  5. Já conhece o clube, a cidade, o ambiente da Premiership, alguns dos actuais jogadores do Chelsea e também Roman Abramovich.
  6. Fala bem inglês e até tem ascendência da nacionalidade, conhecendo portanto o espírito e cultura inglesas.
  7. Como treinador, realizou uma época extraordinária, interna e externamente.
  8. Tem como modelo preferencial de jogo a "posse e circulação de bola", o que me parece agradar  bem mais ao dono do Chelsea que o modelo muito físico e de transições rápidas de Mourinho.
Desejo-lhe pois boa sorte, lamentando nunca o meu "Glorioso" tenha tido, depois de Eriksson, capacidade para lançar assim um treinador no grande futebol da Europa. E, claro, serei um espectador atento e exigente.

A posse

Não existe retrato mais perfeito do modelo de funcionamento do Estado português, do ambiente que nele se respira e do "way of doing the things" nele prevalecente, do que estas cerimónias de "tomada de posse" entediantes e balofas, prenhes de discursos palavrosos e de um enfatuamento ao estilo "atento, venerador e obrigado", terminadas com uma cerimónia de "beija-mão" que mais parece uma apresentação de pêsames em missa de sétimo dia. Pelo menos os ingleses sabem fazê-lo com a "pompa e circunstância" devida e com sentido do espectáculo, caucionados por tradição justificativa mesmo quando ela não é tão antiga como se pretende fazer crer. E, questão de primordial importância, por certo nunca veremos comentadores e politólogos, jornalistas e afins, tentando interpretar palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, o "Queen's Speech", lido pela rainha em nome do "seu" governo.

NOTA: Ah!, é verdade, parece que teremos dois programas de governo: o apresentado pelo Presidente da República e  um outro, proposto pelo primeiro-ministro. Se quiséssemos fazer prova do enorme disparate que constitui o actual regime constitucional semi-presidencial, seria difícil encontrar melhor exemplo.

segunda-feira, junho 20, 2011

Uma lição para Passos Coelho

A primeira lição que Passos Coelho deveria aprender: em política, a teimosia e o voluntarismo nem sempre dão bons resultados e o cumprimento estrito das promessas eleitorais, a "transparência e o "falar verdade" não são, por si sós, as únicas medidas para a avaliação positiva de um líder. Para além de, como dizia o "camarada" Mao, nunca se deverem travar batalhas que se sabem à partida perdidas. Foi uma autêntica derrota de principiante, numa cedência inútil ao populismo que o fará começar o mandato mais fragilizado perante o país e vendo a sua autoridade afectada face ao governo. 

Quanto a Fernando Nobre, irá arrastar-se, humilhado e sem autoridade, na Assembleia da República até vir a ser, o mais discretamente possível, substituído. Mas esta será, também para si, uma lição que jamais esquecerá e que, além de pôr termo a quaisquer veleidades políticas futuras, não deixará de ter repercussões na sua actividade profissional e na da organização (AMI) que dirige.

Fame & Price (3)

Georgie Fame - "Sweet Thing"

"Felizmente Há Luar" e os exames do 9º ano

"Felizmente Há Luar" é uma das boas peças de teatro do século XX português e constituiu também um mais importantes panfletos políticos da literatura portuguesa contra a ditadura de Salazar e Caetano. A pergunta que já tenho feito muitas vezes - e que repito - é se, estando o conteúdo da peça muito ligado a um período complexo da História de Portugal (pós-Guerra Peninsular e regência de Beresford, sendo também um género de pré-anúncio do liberalismo) e sendo Gomes Freire de Andrade personalidade que pode ser considerada controversa ("maçon" e combatente nas fileiras do exército napoleónico) os alunos do 9º ano (e respectivos professores de Português e História, acrescente-se) estarão minimamente preparados para entenderem o seu enquadramento e "mensagem". Tenho sérias dúvidas, mas seria uma boa oportunidade para aprenderem um pouco de História. A sério, não como no meu tempo. 

domingo, junho 19, 2011

"Shindig" - The Rolling Stones (3/3)

1. "Oh Baby (We Got A Good Thing Going)"
2. "Down The Road Apiece"

Da impossibilidade do governo minoritário do PS e da esquizofrenia de Cavaco Silva

Não sei se depois de terem perdido a maioria absoluta, em 2009, o PS e José Sócrates terão mesmo tentado um acordo para um governo de coligação. Pese embora as suas afirmações em contrário, as evidências dizem que não, ou que o terão feito sem a convicção necessária, o que constituiu um grave erro. Mas também o correr do tempo nos diz, em função do que se passou entretanto (actuação do Presidente da República, programa eleitoral do PSD e, até, constituição e ideologia do próximo governo PSD/CDS) que dificilmente os partidos à direita estariam efectivamente interessados numa qualquer governação coligada (sobre PCP e BE não vale a pena sequer falar) com e sob a direcção do Partido Socialista e do então primeiro-ministro. Bom, eu sei que é sempre fácil acertar no Totobola à segunda-feira, mas hoje talvez se prove que nunca José Sócrates deveria ter aceite governar em tais condições (governo minoritário e P. R. adverso). Antes, teria talvez sido mais avisado declarar, depois de efectuadas tentativas exaustivas nesse sentido, que não tendo qualquer outro partido manifestado abertura a integrar um governo de coligação, o PS, face a uma conjuntura nacional e internacional de dificuldade extrema, não teria condições para governar com eficácia, colocando nas mãos de Cavaco Silva a resolução do problema. Pois... mas à segunda-feira todos acertamos.

Nota: ao mencionar o “perdemos muitos anos a recriar o que já estava criado, a recuperar experiência e competências que já existiam, a esbanjar recursos que poderiam ser canalizados para domínios mais carenciados e de maior urgência social”" a esquizofrenia de Cavaco Silva atingiu ontem um dos seus pontos mais altos, quiçá o mais alto: finalmente, descobriu que o ministro das Finanças do VI Governo Constitucional, o primeiro-ministro Aníbal António Cavaco Silva e o Presidente da República com o mesmo nome são pessoas diferentes.

sábado, junho 18, 2011

"Deliverance" - hoje, pelas 22.39h, na RTP2

"Deliverance" (1972), de John Boorman é um dos meus filmes de culto, que revejo vezes sem fim, e o meu favorito do realizador. Quem já viu, reveja e quem não viu faça favor de se sentar em frente ao televisor.

O novo governo e a cena mediática

Não será novidade constatar a clara dessintonia existente nos últimos anos entre aquele que era o pensamento dominante na comunicação social (jornalistas, comentadores políticos e, principalmente, económicos, politólogos, etc) e a área ideológica de onde provinham os dois governos de José Sócrates, pese embora a pouca ortodoxia deste último neste aspecto. Se seria difícil a um governo maioritário resistir, chego a espantar-me como, perante uma cena mediática claramente hostil e numa conjuntura tão difícil, o último governo, minoritário, o conseguiu fazer quase dois anos. Não admira, pois, que pelo menos dois ministros e um secretário de Estado (para já) sejam oriundos da crítica mediática (Nuno Crato, Álvaro Santos Pereira e Francisco José Viegas). Têm a seu crédito a coragem assumida de passarem das palavras aos actos. Mas também, todos nós conhecendo o seu pensamento de ruptura, não só se aguarda com expectativa saber qual o seu grau de coerência enquanto governantes, como ter prova da sua, até agora desconhecida, capacidade política.

sexta-feira, junho 17, 2011

1ªs notas muito breves sobre a constituição do governo

  1. Ao contrário do que parecia ser a intenção anunciada, o governo não consegue abrir-se a alguns independentes da área do centro-esquerda. Pelo contrário, parece-me inclusivamente um governo ideologicamente bastante homogéneo e, adepto como sou de uma separação clara das águas quando exista uma maioria parlamentar suficiente para governar, não vejo nada de negativo nessa homogeneidade, até porque o PS se encontra vinculado ao MoU que constituirá parte relevante do programa governativo.
  2. Notei uma certa semi-desilusão nas pessoas da área mais liberal com as quem troquei uma ou outra opinião, necessariamente apressada. Faltará, talvez, um nome "de peso" nas Finanças, como Vítor Bento, por exemplo, que constituiria um sinal. Para mim, a questão não será essa, mas sim alguma falta de peso e experiência políticas em áreas fundamentais como a Educação, Saúde (ser director-geral bem sucedido nos Impostos é uma coisa e ministro é outra bem diferente), Economia e até mesmo Finanças, apesar do respaldo do P.R..
  3. Por outro lado, na Agricultura a experiência política será suficiente e existe o respaldo de Paulo Portas, mas numa área tão técnica Assunção Cristas parece um erro de "casting".
  4. Experiência política e competência técnica parecem coexistir na Justiça. Mas terá uma Paula Teixeira da Cruz tão "cortante", muitas vezes tão pouco "política", o perfil exigido para romper com o passado numa área onde as corporações impõem a sua lei ?
Enfim... Uma coisa fica desde já certa: podendo vir a ser bem ou mal sucedido, trata-se de um governo ideologicamente consistente e que não pretende subsistam quaisquer dúvidas sobre o seu alinhamento ultra- liberal. 

Fame & Price (2)

Alan Price - "Hi-Lili, Hi-Lo"

O ministro da Justiça e o "copianço"

O ainda ministro da Justiça, Alberto Martins, assim de repente fez-me lembrar aqueles países mais ou menos ignorados que, no final da WW II e quando Hitler se encontrava já virtualmente derrotado, se apressaram a declarar guerra à Alemanha para ganharem um lugar à mesa dos vencedores. Ministro durante cerca de dois anos, nem ele nem (verdade seja dita) nenhum dos seus antecessores fizeram o que quer que fosse de relevante para dotar o país de uma Justiça que não nos envergonhe. Pior, nunca se ouviu a qualquer deles uma palavra que fosse contra o poder das corporações das magistraturas. Agora, a meia-dúzia de dias de deixar o cargo, quando o seu poder e influência são já nulos e depois do caso já ter levantado - e bem - suficiente indignação, é que, a propósito do "copianço" do CEJ, se consegue ouvir a voz de Alberto Martins. Ora bolas, senhor ministro, nos tempos da ditadura sempre foi bastante mais corajoso. Que lhe aconteceu, então? A idade trouxe consigo o conformismo, os cargos políticos uma noção aguda dos interesses ou será que, nesse tempo, Américo Tomaz e José Hermano Saraiva tinham bem menos poder do que aquele que as magistraturas actualmente detêm? 

quinta-feira, junho 16, 2011

Novo governo: nenos bravata, se faz favor.

Quando temos perante nós uma tarefa complicada e difícil, com objectivos cujo cumprimento exige o nosso melhor, mandam as regras da gestão e do bom-senso que nela nos concentremos sem nos deixarmos distrair por questões acessórias, sem tentarmos ser "mais papistas do que o Papa" convencendo-nos de que podemos ir mais além. É este o caso futuro governo PSD/CDS, mais a mais sabendo que limitando-se a executar o trabalho que lhe é prioritariamente pedido terá, no mínimo e obrigatoriamente, a neutralidade do principal partido da oposição.

É exactamente por isso que me parecem pouco avisadas as afirmações de Passos Coelho sobre o compromisso do seu governo ir mais além do que é pedido no Memorando de Entendimento e, pior, falar de revisão constitucional, algo para que necessitará do nada provável apoio do PS. Gostaria bem mais de ter ouvido da parte do primeiro-ministro indigitado e do seu "compagnon de route" Paulo Portas o compromisso solene de que o cumprimento do MoU seria a sua tarefa essencial, e a tal dedicariam o seu melhor, considerando com a realização desse objectivo cumprido integralmente o seu dever de governantes. E que se mais e melhor conseguissem vir a fazer (o que tentariam), tal se fizesse sem bravata e anúncio prévio do que não é garantido. Assim, estão a arriscar demasiado, o que seria um problema apenas seu se não arriscassem também o país.

Fame & Price (1)

Georgie Fame & Alan Price - "Boney Moroni"

Televisões "generalistas" ou "populares"?

A propósito do assunto "privatização da RTP", pergunto-me se será correcto continuar a designar SIC, TVI e, em grande parte, RTP1 como televisões generalistas. Penso seria mais rigoroso designá-las, em função do "posicionamento" que assumem, característica dos seus conteúdos e tipo de "approach" a esses mesmos conteúdos, como televisões "populares". A questão sobre a qual nos devemos interrogar é se, independentemente de questões conjunturais de mercado (que têm a sua importância) e falando apenas em termos estratégicos, o Estado deve ou não ser um "player" nesse mercado. Por mim, tenho sérias dúvidas, e falar em "serviço público" no caso da RTP1 actual parece-me apenas um eufemismo.

A questão de fundo parece-me ter bem mais que ver com o actual desequilíbrio informativo geral na televisão, com SIC e TVI demasiado inclinadas à direita. Mas com alguma tendência da RTP para seguir os governos em funções, não me parece possa vir daí a solução que - penso - poderá passar bem mais pela iniciativa futura de um qualquer grupo de comunicação com ligações ao centro-esquerda. 

O chefe de gabinete de Passos Coelho

Francamente, e ao contrário de muita gente, não consigo ver nada de especialmente positivo no facto do anunciado futuro chefe de gabinete de Passos Coelho, Francisco Ribeiro de Menezes, ter trabalhado com  Jaime Gama e transitado do gabinete de Luís Amado. Antes pelo contrário: tratando-se de lugares políticos, a mensagem que transmite é a do chamado "pântano do bloco central dos interesses", da promiscuidade ideológica e não de uma clara separação de águas, como parece estar agora felizmente a acontecer, entre os dois partidos-âncora da democracia portuguesa. Compreendo Passos Coelho precise de se apoiar em alguém experiente, mas penso teria sido preferível uma outra solução.

Significativamente, Gama e Amado são dois dos dirigentes mais "atlantistas" do PS, e que decidiram exactamente agora abandonar a vida política activa...

quarta-feira, junho 15, 2011

Fernando Nobre: e agora?

Parece-me enorme erro Passos Coelho sujeitar-se a uma derrota e expôr Fernando Nobre a uma humilhação apresentando-o na eleição para a presidência da Assembleia da República apenas para "cumprir uma promessa". Caso Nobre não demonstre inteligência suficiente para decidir retirar-se, o líder do PSD deveria tentar chegar a um acordo "honroso" com o presidente da AMI e apresentar um candidato credível  e prestigiado para a presidência do parlamento. Penso a democracia, a política e, consequentemente, todos nós ganharíamos com isso. 

Nuno Gomes: um "não-caso"

No "glorioso", está a formar-se uma tempestade num copo de água com o "não-assunto" Nuno Gomes. Nuno foi um excelente jogador e um  bom profissional que, tanto quanto me lembre, sempre cumpriu correctamente com os seus deveres para com o clube. Acontece que, bem ou mal, a equipa técnica, a única entidade a quem compete decidir sobre tais assuntos, foi de opinião que as actuais capacidades do atleta serão insuficientes para que possa continuar a integrar o plantel. Tendo isto em conta, a sua carreira ao serviço do SLB, a sua aceitação junto de sócios e adeptos e o seu perfil pessoal, que, sem dúvida, o capacita para o exercício de outro tipo de funções dentro ou fora do clube, a administração convidou-o para exercer um cargo na estrutura directiva, opção que Nuno Gomes não aceitou. Mesmo assim foi decidido que Nuno teria sempre a porta aberta quando e se decidisse voltar, o que se compreende e de bom grado aceito. Qual é então o problema? Confesso não entender...

Nota 1 - Com todo o respeito que Nuno Gomes me merece, não o poderemos considerar um símbolo do clube ao nível de um José Águas, Mário Coluna, Humberto Coelho ou até Rui Costa (para já não falar de Eusébio).
Nota 2 - O que faltava agora ao "Glorioso" era outra novela Mantorras.

Hammer (1)



"Lust For A Vampire" (1971)

Les Belles Anglaises (Especial)


Encontra-se à venda por $195 000 (vi o anúncio na "MotorSport") o Cooper T51-Maserati da Scuderia Centro-Sud com o qual Mário Araújo Cabral disputou os Grandes Prémios de Portugal de 1959 (Monsanto) e 1960 (Boavista). Para além de, por estas razões, ser um carro histórico para Portugal, o Cooper T51, neste caso com motor Coventry-Climax, constituiu um marco na história do automobilismo desportivo e da F1, pois foi o primeiro carro com motor colocado atrás do piloto a tornar-se campeão do mundo (Jack Brabham em 1959).

Uma boa oportunidade para o ACP ou para um qualquer coleccionador privado português.  

terça-feira, junho 14, 2011

Um Nobre problema

O modo como vai resolver o problema Fernando Nobre (um problema que, lembre-se, ele próprio criou), mantendo a sua candidatura à presidência da Assembleia da República, optando por "desviá-lo" para uma pasta ministerial como Saúde ou Segurança Social (só de imaginar, percorre-me um frémito de angústia...) ou, pura e simplesmente, "dando-lhe um pontapé para cima" criando um qualquer cargo inócuo mas à medida do desmesurado ego do médico urologista e presidente da AMI, dirá alguma coisa sobre a personalidade de Passos Coelho como primeiro-ministro e o modo como irá desempenhar o respectivo cargo. Como há pouco me dizia um amigo (aliás, simpatizante do PSD) o ideal seria uma tirada à Salazar, do género: "sabe, senhor doutor, agradeço muito a sua disponibilidade mas, como não tive maioria absoluta, tenho de negociar com o CDS, que se mantém irredutível. Mas não se preocupe, pois tenho para si planos à altura da consideração e respeito que o senhor me merece e que por certo darão a v.exª a projecção que lhe é devida".

Ora nem mais; sem tirar nem pôr!  

Anglophilia (85)






The boating blazer

"One hit wonder" à portuguesa


Adiafa - "As Meninas da Ribeira do Sado"

Os chamados "one hit wonders" constituem, por si sós, uma categoria na música popular e tiveram até direito a um bom e divertido filme em que eram tema: "That Thing You Do", de Tom Hanks (1996). Aqui, no "Gato Maltês", tenho-lhe dedicado algum espaço, principalmente nos tempos de Agosto com o qual casam bem, já que são normalmente músicas despreocupadas, despretensiosas, quiçá mesmo um pouco frívolas, que entram e ficam no ouvido.

Para quem não sabe, os chamados "one hit wonders" são intérpretes, mais frequentemente grupos, que vindos do nada conseguem um tema de grande êxito e por aí se ficam, voltando rapidamente para o esquecimento de onde tinham episodicamente saído. Penso que, fundamentalmente, o fenómeno está ligado à massificação do mercado no pós-guerra, com a chegado dos "baby boomers" à adolescência e o surgimento dos "singles" de 7'' que, após a ruptura cultural surgida com o "rock n' roll", dominaram esse mesmo mercado da música popular nos anos 50 e quase até ao final da década prodigiosa de 60 do século passado, quando os LP começaram a impor a sua lei. Se formos ver, apesar da influência da chamada "British Invasion" na História do "pop/rock", o fenómeno é especialmente importante nos USA, pois tratava-se, simultâneamente, de um enorme mercado e de um país de economia liberal onde, nessa época e no que diz respeito ao "rock n' roll", a influência de editoras independentes e rádios de expressão regional era considerável.

E em Portugal? Bom, o mercado discográfico, num país quase sem classe média e onde a televisão nascente era o "meio" em ascensão, era exíguo e o movimento "Yé-Yé", designação dada por influência da cultura francófona, de pouca qualidade e defrontando, num país governado por uma ditadura conservadora, inúmeras dificuldades. Dominava o fado e a música ligeira do chamado "Centro de Preparação de Artistas da Rádio", ligado à Emissora Nacional, sendo o mercado musical mais constituído pelos "Serões para Trabalhadores" da FNAT e pelas aparições no "teatro de revista" do que pelo mercado discográfico onde os singles de 7'' davam lugar aos EPs, de preço mais elevado e que permitiam maiores margens.

Não admira, portanto, que, por muito que me esforce, não encontre por essa época um bom exemplo de um "one hit wonder" aqui no rectângulo. Para o ir buscar, tenho de percorrer uns decénios e chegar à última década do século XX ou a primeira do século XXI. Devo dizer, em primeiro lugar, que pensei naquele que foi o grande êxito do Verão de 1995, o célebre "Bicho" de Iran Costa (seis discos de platina). Sem dúvida um bom exemplo, mas Iran Costa é brasileiro, o tema pode ser integrado na categoria de "bubblegum music" e preferia apresentar um "one hit wonder" de música popular portuguesa, nascido e criado aqui na "paróquia". Lembrei-me então dos bejenses Adiafa e do seu "As Meninas da Ribeira do Sado" que, além de se tratar de um excelente exemplo (talvez o melhor em Portugal) de um "one hit wonder" é, simultâneamente, um bom tema de música popular portuguesa, com raízes nos cantares do Alentejo, e não da chamada "música ligeira", ou de "variedades". Pois aqui o deixo.

domingo, junho 12, 2011

Songs of the WW II (18)

"Maréchal, Nous Voilá" (André Montagard-Charles Courtioux)
Marcha de homenagem ao Marechal Pétain, chefe de Estado da França colaboracionista de Vichy, tornou-se, na prática, seu hino oficial.

O excelente exemplo do sector do calçado

O sector do calçado, que, segundo o "Público", "contabiliza 1354 empresas, que empregam cerca de 32700 trabalhadores, com uma produção anual de 62 milhões de pares, dos quais mais de 95 por cento se destinam à exportação para 132 países", decidiu, após negociações com os sindicatos do sector (aleluia!: para além do caso da AutoEuropa ainda há sindicatos e associações patronais que negoceiam e conseguem chegar a acordo), aumentar os seus trabalhadores em 2%. Pelos vistos, aqui está um bom exemplo de um sector exportador que não tem problemas de competitividade que obriguem a uma redução na Taxa Social Única. Por todas estas razões, um excelente exemplo que deve levar quem ainda não o fez o repensar a questão da TSU.

Nota: sobre este assunto, ler o excelente pequeno artigo de Ferreira Fernandes no DN.

As "24 Horas de Le Mans"

Passo não mais de um ou dois minutos pelo Eurosport e pelas "24 Horas de Le Mans" para concluir que tudo se decide entre a Audi e a Peugeot - que os comentadores portugueses insistem em pronunciar Péjou, mas enfim... Tudo sem o "glamour" dos tempos em que a vitória se decidia entre as grandes marcas de carros desportivos, Ferrari, Porsche, Aston Martin, Jaguar, Maserati e "tutti quanti". Francamente, alguém se apaixona por um Audi ou um Peugeot, mesmo que com o nome da marca correctamente pronunciado?

Mais uma lição de Mário Soares

Mário Soares em entrevista o "i": "o patriotismo é o patriotismo europeu". Muito bem! Haja quem tenha a coragem de o afirmar "alto e bom som".

A fusão das polícias ou "era bom, não era?"

Leio num qualquer título de um qualquer jornal que "fusão das polícias separa PSD e CDS" (mais ou menos isso). Sobressalto-me. Será que finalmente, como sempre tenho defendido, PSP e GNR (mais PJ, como corpo de investigação criminal, e restantes) se vão fundir numa única polícia de carácter civil, como já o é a PSP? Leio com mais atenção e desengano-me: a GNR fica de fora, continuando a existir como força policial militarizada num país democrático e dividindo os portugueses em duas categorias: os que têm direito a viver numa área cuja segurança e apoio aos cidadãos são prestados por uma força civil e os outros, cidadãos de segunda, entregues a uma força militar ou militarizada.

Embora não deixando de estar de acordo com a integração da PJ na PSP (muito de acordo, mesmo) perde-se uma excelente oportunidade de levar a reforma das polícias até ao fim, deixando de fora o mais importante (GNR). Lamento, mas também já estava a achar tal seria demasiado bom para ser verdadeiro. 

sábado, junho 11, 2011

"Apurar as responsabilidades pela crise"?

Aqueles que defendem o "apuramento das responsabilidades pela crise" (as responsabilidades estão apuradas e devem-se, no mínimo e em proporções variáveis, á má governação dos últimos 25 anos) e o seu julgamento (a derrota nas últimas eleições corresponde ao julgamento político do último executivo pelos portugueses, o único possível quando não existe evidência de infracção da lei), têm do poder uma concepção autoritária e ditatorial, totalitária, na qual os vencedores, por revolução, "pronunciamento" ou "golpe de estado", subjugam e julgam policial ou militarmente os vencidos. Felizmente que nem no 25 de Novembro, quando a democracia ainda era muito frágil e o "golpismo" vigente na esquerda radical poderia tornar o recurso a tais práticas mais compreensível, tal concepção foi adoptada, pese embora Sá Carneiro tivesse pugnado em sentido contrário. No fundo, parece que mais portugueses são herdeiros da tradição autoritária de Sá Carneiro do que do exemplo democrático de Ernesto Melo Antunes.

"Shindig" - The Rolling Stones (2/3)

1. "Suzie Q"
2. "Heart Of Stone"

sexta-feira, junho 10, 2011

O Presidente da República e o interior...

O interior do país despovoou-se, abandonou-se a agricultura, as aldeias e vilas ficaram entregues aos mais idosos? Sim, a percentagem de portugueses que se dedica à agricultura e vive no interior é hoje bem mais diminuta do que era há alguns anos. Mas alguém já reparou no que eram e são hoje as cidades e vilas do interior português? Como e em que condições se vivia e vive hoje nesse mesmo interior? O que era a agricultura de então comparada com a que hoje se pratica e como melhoraram de vida tanto os que ficaram como os que migraram para as cidades? Já alguém (claro que já) comparou o país da ruralidade e do conservadorismo de antanho com o Portugal de hoje? Já alguém, por exemplo (claro que já), comparou o que era o sector vitivinícola português há 15 anos com aquele que existe hoje?

Pois, é este o meu comentário ao discurso de hoje de Cavaco Silva.


Saucy (4)

Dezembro de 1937

A privatização da RTP

Confesso não ter nenhuma oposição política ou ideológica de fundo à privatização da RTP. Nos últimos tempos, face ao notório enviesamento à direita da cena mediática, achei manter a RTP nas mãos do Estado poderia introduzir um certo factor de equilíbrio no debate político. Mas com a entrada em funções de um novo governo e a natural tendência da RTP para "acompanhar" os governos em funções, tal deixou de ser um argumento. Mesmo do ponto de vista pessoal, como telespectador, pouco ou nada terei a obstar: com excepção do Telejornal (o das 20h e apenas quando não abre com tragédias e afins), de alguns jogos de futebol e de um ou outro Prós & Contras, e apenas quando o tema e/ou intervenientes suscitam a minha atenção, ignoro a RTP1. Poderei ter algumas saudades de uma ou outra série inglesa, em reposição da RTP Memória, mas pouco ou nada mais. Restam pois questões de mercado (mas a RTP já é um player nesse mesmo mercado), o Serviço Público e o modo como este for contratualizado. Vou estar atento ao que acontece...  

Das razões da derrota do BE ao futuro do centro-esquerda

Em entrevista a uma das televisões (não me lembro bem qual, peço desculpa), José Manuel Pureza, ex-líder do grupo parlamentar do BE, afirmou, mais ou menos em jeito de explicação para os fracos resultados eleitorais do partido, que o discurso sobre as questões económicas tinha assumido o papel principal do debate político. Nada de que devesse surpreender quem quer que fosse, acrescentarei, e numa pequena nota no "twitter" mencionei não ter o BE não sabido dar resposta a tal mudança. Ora vejamos...

O segredo do êxito do Bloco de Esquerda residiu, fundamentalmente, na sua capacidade para responder a um país que se "urbanizou", que se terciarizou; aos problemas de muitos portugueses, urbanos e com algum grau de instrução, pós-modernos (chamemos-lhes assim por comodidade de raciocínio) que não se reviam numa sociedade conservadora, de raiz rural e ainda muito influenciada por essa mesma ruralidade. Mais ainda, soube responder também a uma sociedade pós-industrial e que, por isso mesmo, também já não se revia nos métodos e projecto pelo PCP. Não é por acaso - é antes bem sintomático - que essa resposta tivesse passado também por gente como Miguel Portas, Ana Drago e Joana Amaral Dias, oriundos de uma classe social média-alta, instruída e com uma imagem de grande sofisticação na qual muitos jovens, e também alguns menos jovens, urbanos se reviam. Foi esta a "oportunidade de negócio" (vamos chamar-lhe assim) inicial do BE, potenciada por uma deriva conservadora nos costumes assumida pelo PS do católico António Guterres.

O problema é que resolvida uma parte importante destas questões de costumes, onde o BE teve papel relevante forçando o PS a tomá-las como suas, quando as "tais" questões de carácter económico passaram a dominar, a ortodoxia do BE, ou das suas organizações fundadoras, não conseguiu dar resposta àquele que tinha passado a constituir-se como o seu "grupo-alvo". Porquê? Porque me parece bem que se os jovens e até os "não assim tão jovens" urbanos e suburbanos se preocupam bastante com a precariedade e, principalmente, com a falta de oportunidades para as suas qualificações, são, também e simultâneamente, gente liberal e individualista, anti-autoritária, sem o grande sentido colectivista que o trabalho na indústria ou como assalariado rural moldava "in illo tempore". Na prática, parece-me ser gente para quem pouco importa a CP, a TAP, ou a RTP sejam públicas ou privadas, para os quais a questão da segurança social pública ou privada (muitos são precários e nunca tiveram sequer acesso a subsídio de desemprego) ou do SNS são questões, para já, não excessivamente mobilizadoras, para os quais a passagem pelo ensino público - para os que não frequentaram o privado - não terá deixado grandes saudades e para quem as ideias de Marx e Lénin nada dizem e o anti-capitalismo é imediatamente relacionado com sociedades autoritárias e claustrofóbicas nas quais não se reconhecem e onde nunca gostariam de viver. Daí que as propostas do BE no área económica, a sua aproximação ao PCP e até o seu apoio ao "conservador" Manuel Alegre possa ter sido mal compreendido e aceite com desconfiança. Daí que alguns dos votantes do BE, em eleições passadas, tendo rejeitado o conservadorismo de Ferreira Leite, se possam mesmo ter sentido atraídos pelos auto-proclamados ultra-liberalismo de Passos Coelho, que até foi casado com uma das Doce e em tempos se tinha manifestado a favor da adopção por casais homossexuais.

Claro que o actual BE marxista-leninista, anti-capitalista do PSR e da UDP, nunca poderá abandonar os seus ortodoxos princípios de base em matéria económica, o que prevejo possa conduzir ao seu quase desaparecimento. Mas seria bom que militantes oriundos da Política XXI e outros, como Daniel Oliveira, Miguel Portas e até a sempre demasiado sectária Joana Amaral Dias, perdessem (ou ganhassem) alguns minutos do seu tempo a pensar sobre estas questões. Aliás, quer-me mesmo parecer que qualquer possibilidade futura, a prazo mais ou menos longo, de um novo governo de centro-esquerda, liderado pelo PS, passará muito pelo que acontecer na área política actualmente ocupada pelo BE.

quinta-feira, junho 09, 2011

quarta-feira, junho 08, 2011

Discutir presidenciáveis ou discutir o semi-presidencialismo?

A fulanização da vida política, promovida pela cena mediática, é incorrigível. Quando estamos no início de um ciclo político, com Presidente da República no início do seu segundo mandato e governo em formação, já se lançam para a arena nomes de futuros candidatos a Belém: José Sócrates, Durão Barroso, António Costa (eu acrescento Marcelo Rebelo de Sousa). Esta seria antes a oportunidade de discutir algo bem mais importante nesta área: a necessidade ou não de se alterar a natureza semi-presidencialista do regime, cujo carácter disfuncional ficou mais uma vez bem demonstrado com os problemas de coabitação surgidos durante o primeiro mandato de Cavaco Silva.  A minha opinião, já várias vezes expressa e justificada neste "blogue" (este é só um exemplo), vai, claro, para a preferência por um regime parlamentar, à semelhança do que acontece com as democracia europeias mais antigas e consolidadas (a França é excepção por razões históricas muito concretas). 

Regimental Ties (14)

Royal Air Force Tie

História(s) da Música Popular (183)

The Fifth Dimension - "Up, Up and Away" (Jimmy Webb)

Sunshine Pop (VII)

Confesso não gostar nem um bocadinho dos Fifth Dimension e da sua "musiquinha" leve como bolhas de champanhe, quase ou até mesmo de elevador. E quando se tem de escrever sobre o que não se gosta mas o "deslike" não é suficientemente importante para se ter sobre o assunto um "ódio de morte", toca a despachar o servicinho de um modo "quick and mais ou menos dirty". Pois vai ser assim mesmo.

Pois os Fifth Dimension (LA, California) são assim a modos que uma coisa a meio-caminho entre o som Tamla Motown (no seu pior) e a "sunshine pop", igualmente no seu pior. Digamos que é essa mistura que faz a sua originalidade e, juntamente com Jimmy Webb, o facto de ser obrigatório trazê-los aqui. Ah!, tiveram alguns êxitos relevantes, entre eles este "Up, Up and Away" (1967), da autoria de Jimmy Webb, e o célebre "Aquarius/Let The Sunshine In", do musical "Hair". Pois para fazer-mos a agulha para Webb, que merece mais atenção, aqui fica o primeiro.

terça-feira, junho 07, 2011

A questão-chave do BE

Contrariamente ao que afirmam Daniel Oliveira e Joana Amaral Dias, os problemas do "Bloco de Esquerda" não se reduzem a opções meramente tácticas, como ter ou não apoiado Manuel Alegre, apresentado uma "moção de censura" ou ido ou não à reunião com a "troika". A questão é mais funda e é estratégica, podendo resumir-se na seguinte frase: qual o posicionamento político e ideológico que um partido "entalado" entre a social-democracia europeia clássica e o comunismo ortodoxo de raiz soviética pode assumir para conseguir ser bem sucedido de forma sustentada. É esta a questão-chave, o problema que o BE terá que resolver a prazo se não se quiser condenar ao insucesso.

Condicionado por uma ideologia marcada pela inserção do PSR na IV Internacional e por uma "frente" (UDP) dirigida por um partido marxista-leninista, duvido muito existam no BE condições para uma reflexão deste tipo.

"The Secret Flight Of Rudolf Hess" (5/5)

Um nojo!

O Partido Socialista, um partido fundador da democracia portuguesa e em cujas posições políticas e ideologia de base muitas vezes me revejo, deveria demarcar-se, de imediato, destas inqualificáveis declarações da euro-deputada Ana Gomes, retirar-lhe a confiança política e accionar os mecanismos disciplinares internos, previstos nos seus estatutos, para situações deste tipo. E não quero nem vale a pena dizer mais nada, pois quem proferiu tais declarações não merece representar o partido, o país e a democracia, restando-me acrescentar que qualquer lista de que Ana Gomes faça parte jamais terá o meu voto.

segunda-feira, junho 06, 2011

Blindness (11)

"Blind" Arthur Blake - "Early Morning Blues" (1926)

Além da "troika"?

Quando José Sócrates tomou posse, em 2005, no seu primeiro discurso manifestou clara intenção reformista, anunciando, se bem me lembro, o fim da férias judiciais e a venda de medicamentos não sujeitos a receita médica fora das farmácias. No entanto, quando se tratou de levar as fundamentais reformas na educação e na saúde até ao fim, faltou-lhe coragem política e ficou a meio-caminho, o primeiro grande erro do seu governo.

Agora, Pedro Passos Coelho anuncia a intenção de "ir além da troika". Pelo antecedente, temo tal anúncio possa ser pouco auspicioso... No calão masculino, este tipo de actuação tem um nome.

"The Secret Flight Of Rudolf Hess" (4/5)

As eleições no "day after": 5 pontos 5

  1. Qual a posição que o PS irá assumir na oposição, entre dois modelos teóricos muito distanciados entre si?: uma obstrução sistemática ao governo, não permitindo que PCP e BE capitalizem o descontentamento pelos tempos difíceis que aí vêm, ou uma certa neutralidade mais ou menos colaborante, fazendo crescer os partidos da esquerda radical? Bom, penso que, tendo assinado o MoU, não está o PS em situação de grandes radicalismos face à medidas nele contidas (nem o deve estar), mas a posição global do partido irá forçosamente depender muito da atitude do novo governo: se este colocar o seu foco no cumprimento integral do acordo de resgate e se deixar de ideias abstrusas como aquela de pôr os beneficiários de transferências sociais a limpar as matas e tratar dos "velhinhos", bem como de reduzir o número de deputados, transformar a Segurança Social num modelo assistencialista e o SNS numa "coisa em forma de assim", privatizar a CGD (aqui o CDS poderá ser um travão) e despedir "porque sim", não restará demasiado espaço ao PS. Caso contrário, se, no governo, o bom-senso reformista ceder lugar ao radicalismo ideológico ultra-liberal, o PS ficará bem mais livre para uma oposição mais radical. Não esquecer, contudo, que a construção a prazo de uma indispensável alternativa de centro-esquerda exige do PS autonomia face ao novo poder.
  2. Curioso de ver a evolução da "media scene", nos últimos tempos dominada pela política editorial dos "casos", pelo pessimismo "plano-inclinadista" e por algum radicalismo ultra-liberal. Há, entre jornalista a afins, quem agora vá começar a olhar em volta sem saber muito bem o que fazer da "vidinha".
  3. Mas alguém pensava que Francisco Louçã se iria demitir depois do resultado desastroso do BE? É não entender os modelos de funcionamento dos partidos revolucionários, marxistas-leninistas (e o BE é, na sua essência, um partido marxista-leninista), em que as eleições "burguesas" são apenas mais um terreno de luta e essencialmente "contra-natura". Daniel Oliveira, que considero um democrata sincero (radical, mas democrata) e ontem manifestava a necessidade de ser convocada uma "Convenção" (acho se chama assim), enganou-se no partido. Um dia, que espero seja breve, chegará a essa conclusão.
  4. O discurso final de Pedro Passos Coelho pareceu-me um pouco atrapalhado, do género "e agora, que faço eu com esta vitória que os portugueses me deram?" Espero rapidamente alguém o ajude a retomar a boa forma patenteada no debate com José Sócrates e que este último parece ter recuperado com um excelente discurso de resignação ontem à noite. O país precisa de um primeiro-ministro mais confiante do que demonstrou na campanha e no discurso de vitória.
  5. "Uma maioria, um governo um presidente"? Sim, claro, objectivo alcançado pela direita. Mas convém não esquecer que os poderes do Presidente da República são agora muito diferentes, e bem menores, do que o eram nos anos 70 do século passado, quando Francisco Sá Carneiro definiu esse objectivo, pelo que a frase perdeu alguma força e conteúdo programático.

domingo, junho 05, 2011

No País dos Sovietes (17)

As opções políticas de Isabel Jonet

Com as suas afirmações de hoje à TSF, criticando o Estado Social (o que me espanta, vindo de uma católica, mas parece que a tradição já não é o que era), Isabel Jonet assumiu opções claramente políticas que remetem para os papéis que Estado e organizações de solidariedade social devem desempenhar nas democracias modernas, para elas arrastando a instituição (Banco Alimentar Contra a Fome) que tem vindo a dirigir com indiscutível sucesso. Está no seu pleníssimo direito e tal constitui até um acto clarificador, que saúdo. Mas não me reconhecendo nas afirmações de Isabel Jonet e não compartilhando de tal visão da sociedade, nem admitindo que a minha colaboração consubstanciada no esparguete e no azeite entregues graciosamente seja utilizada para tais fins de natureza política com os quais discordo, será também em função dessa clarificação, assim assumida, que a partir de agora passará a contar com menos um cidadão cooperante. Lamento.