quarta-feira, março 30, 2011

Onde pára a agência de comunicação de Pedro Passos Coelho?

Sim, eu sei que não é um(a) "caniche", mas a oportunidade era boa demais para ser desperdiçada.

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (7)


The Exciters - "Doo Wah Diddy" (Jeff Barry - Ellie Greenwich) - 1963


A bem conhecida versão de Manfred Mann - "Doo Wah Diddy" (Jeff Barry - Ellie Greenwich)

Junho de 1964 (ainda c/ Paul Jones como vocalista)

As ideias eleitorais do PS

  1. Certo: o PS irá adoptar como leitmotiv da sua campanha a responsabilização do PSD pela queda do governo e problemas daí inerentes (juros em alta, iminência de ajuda externa, futuras medidas eventualmente mais gravosas, etc). É um argumento forte; mas o PS tem-no repetido até à exaustão e esse é um dos seus problemas: o tema tem um tempo de vida limitado pois esgota-se nessa mesma repetição. Para além disso, as consequências dessa actuação do PSD são por ora pouco tangíveis, apenas se podendo vir a materializar de modo mais gravoso após as eleições.
  2. Do mesmo modo, o PS e José Sócrates já afirmaram que o PEC IV constituirá a base do programa eleitoral do partido. Não se imaginaria pudesse ser de outro modo e calculo o PS espere vir a colher frutos dessa sua frontalidade. Mas atenção: o PEC IV é constituído por medidas gravosas para a maior parte dos cidadãos (necessárias, mas gravosas) e não me parece a “frontalidade” e honestidade” de apresentar o PEC IV como base do programa eleitoral, tendo em atenção a imagem de pouca credibilidade do governo junto dos cidadãos, pouco importa se com ou sem razão, possa colher muitos frutos. Pelo menos, os necessários.
  3. Não é preciso ser bruxo ou ter dons de pitonisa para imaginar que o PS irá também fazer da defesa do ensino público e do SNS uma das suas armas de campanha. Só poderá ser assim, dado o “lamiré” do PSD no sentido da “livre escolha” como se amanhã todos os jovens, mesmo aqueles cujas famílias têm possibilidades económicas para tal, pudessem passar a frequentar o S. João de Brito, os Salesianos ou o Planalto. Mas existe algo de que o PS se deverá lembrar: em primeiro lugar que a ideia de “livre escolha” para os cuidados de saúde e para a educação é em si mesma, no abstracto, bastante atractiva. Em segundo lugar que o SNS, numa sociedade que já não é a dos anos 70 ou 80 do século passado e na qual os seguros de saúde se generalizaram para uma classe média urbana já com grande peso e voz própria nos “media”, talvez já não constitua um conceito suficientemente mobilizador para largas camadas de portugueses. Por último que o PSD irá “doirar um pouco a pílula” quando apresentar as medidas nesse sentido no seu programa eleitoral. Aliás, acho que as referências à “livre escolha” já efectuadas estarão lá bem mais para mobilizar a sua “vanguarda ideológica” ultra-liberal do que para se traduzirem num programa concreto que esbarraria necessariamente com a Constituição da República e com a oposição de PS, PCP e BE.
Em resumo: se analisarmos os três parágrafos anteriores será bem fácil concluir que todos os argumentos neles constantes assumem um carácter claramente defensivo. Ora, se o PS quer ganhar as eleições ou, pelo menos, limitar bastante os estragos, será necessário, mesmo tendo em conta os fortes constrangimentos ditados pela situação económico-financeira, ser bastante mais ousado e criativo. Não basta culpar o PSD; é preciso explicar bem porquê. Não basta apresentar o PEC IV; é preciso mostrar um caminho futuro. Não é suficiente defender a “escola pública” e o SNS; é indispensável desmontar o mito da “livre escolha”, demonstrar a sustentabilidade do SNS (e flexibilizá-lo) e deixar claras as suas virtualidades e vantagens mesmo para uma classe média emergente.

terça-feira, março 29, 2011

"Alice in Wonderland" by Sir John Tenniel (13)

"Dog looking at tiny Alice"

Farley Granger (1925 - 2011)


"Senso", de Luchino Visconti (1954)

Talvez o filme mais "operático" da História do cinema

O relatório do Banco de Portugal e a "ajuda externa"

Bem mais importante que o corte de 0.1pp na previsão de crescimento do PIB para 2011 - que me desculpem mas pouco ou nada relevante quando é feita com um histórico de apenas dois meses do ano e numa situação de enorme incerteza nacional e internacional - é esta a afirmação-chave que me parece destinada a condicionar fortemente o comportamento dos mercados e a colocar em risco a garantia do não recurso à “ajuda externa”: “persistem riscos de implementação não negligenciáveis”, decorrentes do “grau de consolidação orçamental numa magnitude sem precedente” (retirado do “Público” on line).

Ou seja, o que o Banco de Portugal afirma é a sua desconfiança na capacidade do governo (ou dos governos, já que teremos um novo lá para Junho) em implementar as medidas necessárias à redução do “déficit” para os valores acordados em 2011. Descodificando ainda um pouco mais: se isto não é um verdadeiro apelo a uma intervenção externa no controle das nossas contas públicas, não sei muito bem o que será.

Nota: com estas afirmações não pretendo dizer que não existam fortes razões para as dúvidas e incertezas manifestadas pelo nosso Banco Central. Direi mesmo que só um louco não partilha de tais dúvidas (e dúvidas não são certezas, note-se). Estou apenas a tentar descodificar uma afirmação (vulgo: "chamar os bois pelos nomes") tal como o farão todos aqueles, cidadãos e instituições, interna e externamente, a quem ela se destina.

"Empty Bed Blues" - Best of good time mommas (7)


Virginia Liston - "Evil Minded Blues"

De como cada um nasce para o que nasce

José Vítor Malheiros pergunta hoje no “Público” se alguém já imaginou o primeiro-ministro José Sócrates a dar aulas numa universidade prestigiada. A resposta é simples: claro que não. Mas tendo dito isto, convém não esquecer a segunda parte da pergunta: já alguém imaginou 99% dos académicos portugueses a exercerem o cargo de primeiro-ministro? Só de pensar causa arrepios, não é?

Pois... moral da história: como diz o povo, cada um nasce para o que nasce.

segunda-feira, março 28, 2011

PSD, CDS e a FENPROF

Se PSD e CDS tivessem intenção séria de implementar no futuro qualquer sistema consequente e diferenciador de avaliação dos professores, isto é, que tivesse efectiva repercussão nos salários e progressão nas carreiras, teriam tomado agora uma atitude que, fortalecendo, de facto, a posição dos sindicatos e o reforço da sua influência junto da classe, irá tornar ainda mais difícil qualquer eventual medida futura nesse sentido? Ou ainda não perceberam que qualquer reforma de fundo na Educação não é possível sem um claro enfraquecimento e perda de influência da FENPROF e que tal passa, necessariamente, pela substituição do actual sistema centralizado e impessoal de contratação e pelo fim do igualitarismo salarial?

História(s) da Música Popular (178)


The Association - "Cherish"

"Sunshine Pop" (II)

Se “Along Comes Mary” é o primeiro êxito dos “Association”, “Cherish” (1966), que se lhe seguiu e foi o primeiro #1 do grupo, parece-me, tal como seria “Never My Love” um pouco mais tarde, bem mais definidor do “estilo” do grupo, por vezes ao ponto de poder ser considerado demasiado “meloso”ou “lamechas”. Bom, mas eram assim as chamadas “músicas para constituir família” nas festas de garagem da minha adolescência. Já agora: e ainda bem!

O tema foi escrito por Terry Kirkman, um dos membros do grupo, e teve direito, em 1967, a uma versão pelos Four Tops, grupo emblemático da Tamla Motown.

Anglophilia (84)


HRH Prince Charles, The Prince Of Wales

domingo, março 27, 2011

Fado - Património Imaterial da Humanidade (7)


Maria Emília Ferreira - "Fado do Aljube"

Gravação de 1929

As "campanhas sujas"

Em vésperas de campanha eleitoral, vejo por aí multiplicarem-se os apelos para que se evite aquilo a que se chamam “campanhas sujas”, “ataques pessoais” e por aí fora. Muito bem, mas convém ter em atenção duas questões:

Em primeiro lugar, a tendência para as tais “campanhas sujas”, “ataques pessoais” e “baixa política” será tanto maior quanto menos for a diferença entre projectos políticos concorrentes. Quanto menos a ideologia se puder expressar, em suma, mais a tal “baixa política” assume o seu lugar. Ora por via dos constrangimentos gerados pela “crise económica”, necessidade de redução do “déficit”, “defesa da zona Euro”, “imposições de frau Merkel” e etc e tal - neste etc e neste tal se incluindo o medo do PSD se revelar demasiado liberal - não me parece os dois principais partidos possam apresentar projectos suficientemente contrastantes. Acresce ainda o facto da luta política contra os governos de José Sócrates se ter quase sempre fulanizado e centrado em demasia nas tais “campanhas sujas” contra o ainda primeiro-ministro, pelo que não será de admirar um resposta em tom semelhante. Não bastam, pois, declarações e solicitações piedosas, do tipo “orações pela paz”: há que levar em linha as condições em que a campanha se vai desenvolver e tal não augura nada de especialmente positivo.

Em segundo lugar, nesta questão dos “ataques pessoais” e das “campanhas sujas” há que distinguir entre duas coisas bem distintas: aquilo que é do foro privado dos cidadãos-candidatos e assim deve permanecer e o que tem efectivo interesse e impacto político. Exemplos? Os ataques feitos no final dos anos 70 do século passado a Sá Carneiro e à sua relação com Snu Bonnier Abecasis, bem como as alegações sobre a orientação sexual de José Sócrates (também já as houve em relação a Paulo Portas) surgidas há uns anos são, de facto,uma intromissão inqualificável na sua vida privada e não têm qualquer relevância política. Já as dúvidas levantadas sobre a legalidade e/ou legitimidade de algumas transações mobiliárias e imobiliárias de Cavaco Silva, principalmente tendo em conta o carácter unipessoal do cargo de Presidente da República, o facto de Cavaco Silva sempre ter brandido a “honestidade” como arma política e envolverem empresas, negócios e pessoas sob investigação criminal, não penso tenham algo de “campanha suja”: são assuntos politicamente relevantes para a decisão política dos cidadãos. Existirão, com certeza, muitos mais exemplos. Quem pretenda misturar casos de cariz tão díspar, “fazer um molhinho” e chamar tudo pelo mesmo nome tem apenas “um e só um” objectivo: impedir, sob a desculpa da tal “campanha suja”, que sejam discutidas algumas matérias que possam ser consideradas politicamente relevantes.

A Fórmula Um

Eu, que em criança (1958) ainda vi Moss vencer em Monsanto com o Cooper T51-Climax, pergunto-me se na Fórmula Um actual o piloto ainda é mesmo preciso ou apenas lá está, dentro do carro, para dar o "toque" humano necessário a um maior êxito do espectáculo, podendo os carros, de facto, ser telecomandados das "boxes".

sábado, março 26, 2011

sexta-feira, março 25, 2011

Nazi Exploitation (12)






"Red Nights of the Gestapo" (1977)

A propósito de Angela Merkel: o espírito alemão

Na segunda metade dos anos oitenta do século passado trabalhei na filial portuguesa de uma multinacional alemã. Aliás, por pouco tempo, menos de dois anos completos. Tinha um lugar correspondente ao terceiro nível de management da empresa, digamos assim, sendo que o primeiro era o do presidente da subsidiária (um alemão) e o segundo correspondia aos directores de cada uma das divisões - que me lembre, mas já não estou assim tão certo, também todos eles alemães.

Apesar de já não ser propriamente um júnior, exercer uma função de responsabilidade e de ter trabalhado anteriormente, durante alguns anos, numa outra multinacional, embora de outra nacionalidade, a primeira coisa que me disseram depois das normais apresentações foi o seguinte: “sabe, aqui não se deixa o telefone tocar mais de duas vezes. Mesmo que não seja o nosso, se formos a passar qualquer um, mesmo o presidente, tem de atender e tomar nota do recado”. Mais: “vocês, portugueses, perdem muito tempo quando atendem o telefone. É assim: está? Estou. Quem fala? Quem? (e por aí fora...). Nós, alemães, a primeira coisa que fazemos é dizer o nome e não se perde mais tempo”!

Durante o tempo que por lá trabalhei era comum deslocar-me à Alemanha, por vezes durante toda, ou quase toda, a semana. O horário normal era das 8.30h às 17h e, salvo casos muitíssimo excepcionais (e não me lembro de nenhum), a partir dessa hora, 17.30h no máximo, toda a gente (toda, mesmo) arrumava a secretária e ia para casa.

É este o espírito alemão (com o qual, confesso, me dou muito bem) e lembrei-me de tal coisa a propósito das reacções de Angela Merkel ao chumbo do PEC IV. Independentemente de concordâncias ou discordâncias com o conteúdo do documento, que não vêm agora ao caso, apetece-me dizer: como eu a compreendo, frau Merkel!

A propósito do IVA

  1. Miguel Beleza foi aqui há uns tempos (já anos?) à televisão (SIC Notícias) dizer aquilo que é óbvio para quem quer que tenha estudado economia: que a diferenciação das taxas do IVA é um disparate e, como tal, não faz qualquer sentido. É socialmente injusta, pois subsidia igualmente ricos e pobres (ou será que os “ricos” não compram bens de primeira necessidade?), e, por via desse subsídio a quem dele não necessita, constitui um desperdício. Seria bem mais eficaz e socialmente justo manter uma taxa de IVA única e subsidiar quem efectivamente necessita através duma diminuição da taxa de IRS a pagar pelos mais pobres e/ou por via de um aumento das transferências e prestações sociais de que maioritariamente essas classes de rendimentos beneficiam. Assinalei tal coisa aqui no blog” soltando um aliviado “até que enfim”! E que tal pensarem um pouco sobre o assunto?
  2. Ok, é politicamente importante mostrar as contradições do PSD no que diz respeito ao aumento de impostos, um pouco ao estilo “antes e depois”. Muito bem! Mas uma vez mostrada tal evidência e perante a proposta(?), nunca se sabe se definitiva no “toca e foge” a que o PSD de Passos Coelho nos habituou, de aumentar o IVA até 2pp e compensar tal coisa nas pensões e salários mais baixos, seria também interessante que se começassem a fazer umas contas para avaliar das repercussões de tal proposta. Por exemplo, sabemos que o aumento de 1pp no IVA corresponde aproximadamente a 500M de euros de receita adicional e que o seu impacto nas contas públicas e no bolso do consumidor é quase imediato (ao contrário do aumento das pensões e salários que apenas seria efectivado no próximo ano). E começam as perguntas: que efeito recessivo adicional teria o aumento da taxa de IVA nas circunstâncias actuais? Que impacto tal teria no desincentivo ao consumo (se o tivesse) e na poupança dos portugueses? Nestas circunstâncias, é assim tão claro que a relação de 500M de euros de aumento de receita por cada pp se iria manter? De que modo teriam de ser alterados os salários, subsídios (de desemprego, p. ex) e pensões mais baixas para que os mais pobres fossem efectivamente compensados desse agravamento do IVA? É isso possível numa conjuntura a que se tem assistido, fundamentalmente, a um recuo nestas áreas? Quem tiver na posse dos elementos necessários, faça favor de começar a fazer as contas.

As eleições do SCP e as eleições do país...

Quando Manuel Vilarinho concorreu às eleições do SLB, contra Vale e Azevedo, prometeu trazer Jardel e, ao que consta com financiamento de um tal Bibi, contratou Roger e André. Bom, todos conhecemos a sequência. Jardel nunca veio, André partiu desconhecido tal como tinha chegado e Roger nunca se impôs no SLB ou em parte alguma – excepto, ao que parece, nos corações femininos, sorte a dele. Só não sei como os associados dos clubes ainda embarcam neste tipo de coisas. Enfim...

Em função disso, desculpem-me este desabafo anti-democrático, um pouco ao estilo Ferreira Leite, mas já estou como diz um amigo meu: nos clubes ainda nos atribuem um número de votos de acordo com a antiguidade, não vá o diabo tecê-las. Nas eleições do país, tal número de votos deveria ser atribuído em função do QI ou, então, do resultado obtido num teste de avaliação prévia das nossas capacidades e conhecimentos. Porque é que me lembro sempre disto quando oiço o “Fórum TSF”?!

Pois!, eu avisei que era apenas um desabafo anti-democrático. Já passou, “tá bem”?

quinta-feira, março 24, 2011

Dennis Potter's "Pennies From Heaven" (3)


"Yes, Yes (My Baby Said Yes)"

A UE importa-se de explicar?

Alguém da UE me explica - muito bem explicadinho e a mim que até sou federalista - porque é que quem tenha residência em Espanha e, logo, possua legalmente um carro de matrícula espanhola, mas esteja a viver temporariamente em Portugal, tem de ir a Vigo, Ayamonte ou Badajoz (digamos que Irún é um pouco mais longe...) para fazer a inspecção obrigatória do dito veículo? Será só para perder um dia, gastar gasolina, pagar portagens, não esquecer o castelhano e, por fim, ficar chateado? Importam-se de se organizar?

"O Oriente é Vermelho" (1/12)

De equívoco em equívoco até ao desenlace fatal

  1. Quando das manifestações contra as medidas reformistas na área da educação e da saúde, medidas essas protagonizadas por Maria de Lurdes Rodrigues e Correia de Campos e manifestações que tiveram o apoio explícito de toda a oposição e mais ou menos expresso do próprio Presidente da República, tendo chegado mesmo ao ponto de se acusar o Ministro da Saúde de anti-patriotismo pelo facto de bebés irem nascer a Badajoz, transformando-se estes assim, por via do nascimento, em potenciais Miguéis de Vasconcelos, José Sócrates deveria ter-se demitido, assim forçando eleições antecipadas e pedindo a caução do eleitorado para o seu programa de reformas. Não o fez, talvez por demasiado calculismo de curto-prazo e/ou alguma dose de cobardia política. Defendi essa posição aqui no “blog” e, que me lembre, de entre gente com responsabilidades políticas apenas Vital Moreira, que aliás me deu a honra de trocar comigo umas breves impressões sobre o assunto, defendeu posição semelhante. Começou aí o enfraquecimento do governo de José Sócrates e foi esse o primeiro anúncio da sua futura queda.
  2. Em qualquer país democrático e civilizado, o episódio das “escutas”, talvez o mais grave que se terá passado com um titular de orgão de soberania depois do 25 de Abril e certamente o mais grave protagonizado por um Presidente da República em funções, teria sido suficiente para que fosse desencadeado um processo de impugnação do mandato (vulgo, impeachment”) de Cavaco Silva. Mandou a “brandura dos nossos costumes”, a que gosto mais de chamar “falta de rigor” e “deixa andar”, para não ser mais duro e lhe chamar “bandalheira”, que tudo ficasse na mesma e a falta de memória, a que preferiria chamar de “tomates”, dos portugueses e de independência de comentadores e jornalistas, fizesse o resto. Começou aí o caminho para a perda de autoridade de um político medíocre e de carácter questionável a quem os portugueses resolveram, vá lá saber-se porquê, entregar a Presidência da República.
  3. Quando nas últimas eleições legislativas o PS não conseguiu obter uma maioria absoluta de mandatos, face aos problemas existentes deveria o Presidente da República ter tido um papel visivelmente mais activo na formação de um governo maioritário, de preferência que incluísse todos os partidos do chamado “arco governativo”. Deveria mesmo ter falado aos portugueses dando-lhes conhecimento, sempre que necessário, das démarches efectuadas, assim pedindo o apoio dos cidadãos e envolvendo-os e mobilizando-os para todo esse processo. Por calculismo político em proveito próprio, por querer defender o PSD e resguardar Manuela Ferreira Leite, por mesquinhez de carácter e falta de convicções democráticas e visão política, não o fez, empurrando o país para o pântano.
  4. No dia seguinte ao discurso de tomada de posse de Cavaco Silva para o seu segundo mandato, José Sócrates deveria ter de imediato apresentado a sua demissão, alegando total falta de confiança do e no Presidente da República e culpabilizando Cavaco Silva pela impossibilidade de exercer os deveres de governação. Em vez de o ter feito, resolveu baixar o tom crítico dos comentários ao discurso do Presidente da República e entrar num esquema de birras de adolescentes. Vá lá que ainda lhe restou a inteligência suficiente para apresentar, semanas depois, a sua demissão, evitando aquilo que, mais tarde ou mais cedo, se sabia iria inevitavelmente acontecer: a humilhação de se ver demitido.

Com tudo isto, por obra de gente sem coragem nem qualidade, nestes se incluindo muitos dos cidadãos votantes, perdem-se quase dois anos, uns milhares de milhões de euros, hipoteca-se o presente e uma parte do futuro. Fora aquilo que não é assim tão tangível: a confiança nos governantes e nas instituições, em nós próprios e nas nossas capacidades, uma parte da nossa felicidade. Espero, sem grande esperança, se tenha aprendido alguma coisa.

quarta-feira, março 23, 2011

"Edward VIII: The Traitor King" (11/11)

O discurso de Ferreira Leite, o mensageiro e o conteúdo da mensagem

O discurso desta tarde de Manuela Ferreira Leite, durante a discussão do PEC IV, pode resumir-se no seguinte: não importa o conteúdo da mensagem seja idêntico; o que conta é a credibilidade do mensageiro. Claro que não nego a importância da credibilidade do mensageiro para “fazer passar” mais facilmente o conteúdo da mensagem; mas tal parece-me demasiado redutor de um ponto de vista político. Tão redutor que não foi suficiente para dar a vitória ao PSD, da mesma MFL, nas últimas eleições legislativas. Passos Coelho percebeu-o; MFL não conseguiu ultrapassar o trauma, demonstrando, uma vez mais, se tal ainda fosse necessário, as suas debilidades políticas.

Eurostat: dúvidas sobre o "déficit" de 2010?

Pelo seu teor, sem qualquer afirmação taxativa e lançando apenas dúvidas ou suspeitas, esta notícia do “Diário Económico”, amplamente citada esta manhã pela TSF, tem todo o ar de cirurgicamente construída e colocada com o objectivo de criar dificuldades acrescidas ao governo do debate desta tarde (como se tal fosse ainda necessário...). Mas tendo dito isto, o seu conteúdo é suficientemente grave para que o governo, de imediato e conforme requereram PSD e CDS, confirme ou desminta, sem margem para quaisquer dúvidas, a sua veracidade. A confirmar-se, e espero que não, seria o mais estrondoso falhanço do governo na actual legislatura e, por si só, razão mais do que suficiente para que a oposição apresentasse uma moção de censura ou o Presidente da República tomasse a decisão de dissolver a Assembleia da República.

terça-feira, março 22, 2011

Não pensava nem está nos meus hábitos escrever sobre este tipo de assuntos; mas o pseudo-jornalismo põe-me o sangue a ferver

Não escondo o meu ferrenho benfiquismo, mas, como sabem os que habitualmente seguem este “blog”, tal não significa um “seguidismo” em relação a todas as atitudes dos respectivos orgãos sociais nem que não assuma uma posição de distanciamento crítico em relação ao clube, sempre que tal se justifique. Tendo dito isto, penso ter assim adquirido autoridade suficiente (e desculpem-me a imodéstia) para criticar os que colocam no mesmo pé as normais atitudes arruaceiras assumidas por aquilo a que me habituei a chamar de sturmabteilung do FCP, e do seu presidente, e outras, graves e criticáveis, protagonizadas ou instigadas por arruaceiros de outros clubes, quer eles se chamem SLB, SCP, etc. De um lado, temos acções sistemáticas e organizadas, que chegaram a ter por alvo o próprio treinador do clube, que se limitam a pôr em prática os pressupostos ideológicos e a estratégia assumida por Pinto da Costa e José Maria Pedroto, desde os finais dos anos 70, para dominarem o futebol português. No fundo, tal como as SA de Ernst Röhm eram instrumento de arruaça e terror utilizado pelos nazis para melhor imporem a sua barbárie, o mesmo papel cabe agora nessa estratégia aos tais SuperDragões de um tal Madureira. Do outro, quer se trate do meu clube quer da grande maioria dos outros, nestes se incluindo o nosso principal rival SCP, estamos perante acções de bandos de arruaceiros e marginais - que deveriam banidos dos estádios e arredores – mas cuja acção não decorre nem se insere numa sistemática e premeditada estratégia rumo a objectivos que todos conhecemos.

Sem que tal constitua ou possa sequer ser, mesmo que vagamente, confundido com pactuação de acções de vandalismo de adeptos do meu clube, uma das quais levou mesmo à morte um inocente adepto do nosso grande rival, colocar tudo no mesmo saco é apenas uma maneira de branquear aquela que tem sido, desde há muitos anos (décadas), a actuação da direcção do FCP e de pactuar com o actual estado de coisas (o tal “sistema” de que falava Dias da Cunha) do futebol português. O pseudo-jornalismo que, por subserviência ou medo a quem manda, não sabe distinguir o que está, neste caso, à frente dos seus olhos é tão responsável pelo estado actual do futebol português como aqueles que iniciaram, há já mais de trinta anos, o projecto que o conduziu a este seu miserável estado.

"Edward VIII: The Traitor King" (10/11)

A tal "broad coalition for change" e o cenário pós-eleitoral

Bom, não sei a quem cabe a maior quota-parte de responsabilidade pela inexistência de uma coligação de governo ou, pelo menos, de um acordo com incidência governamental. Sei que tendo o PS ganho as últimas eleições legislativas apenas com maioria relativa, deveria ter sido este partido, no pós-eleições e com o apoio da Presidência da República, a esgotar todas as soluções para que tal acontecesse e o país não ficasse literalmente à mercê de um governo fraco numa situação de grave crise. Se ambos, o PS e o PR, o fizeram ou não é algo que desconheço. Esgotou-se nessa altura o “momentum” e, agora, ponto final.

Mas não tendo sido tal possível, deixem-me dizer que também me parece altamente improvável e suicidário que depois de novas eleições, com a mais do que previsível vitória do PSD de Passos Coelho, um PR adverso e na sequência de todo um processo em que as posições se extremaram do modo que conhecemos, e caindo o governo por acção directa do PSD, o PS aceite integrar um qualquer governo de coligação à sua direita, ou sequer conceder o seu apoio, explícito ou implícito, a um tal tipo de solução governativa. Seria algo demasiado desequilibrado, e até talvez humilhante para se tornar aceitável.

Por isso mesmo, alguns apelos nesse sentido vindos de personalidades do centro-direita (Mira Amaral, por exemplo, mas não só) me parecem constituir um autêntico “canto de sereia” destinado a atrair o PS para uma agonia provável de encontro aos rochedos. Mais avisado, Pedro Passos Coelho já definiu, bem a atempadamente, o que entende pela tal “broad coalition for change”: PSD, outros partidos (CDS, claro) e independentes vindos dessa mesma área ideológica. Estejamos ou não identificados com com tal área ideológica, pelo menos uma solução desse tipo é algo de clarificador e que cai no domínio do possível, e não um puro e simples devaneio. E do que o país menos precisa é de quimeras.

Artur Agostinho (1920 - 2011)

É habitual dizer-se que é o final da Grande Guerra (1914-1918) que marca, de facto, o início do século XX. Eu diria que a morte de Artur Agostinho, com todo o simbolismo que acarreta, talvez marque, definitivamente, o fim do século XX português. Com tudo o que teve de bom, mas também com o muito que teve de mau.

segunda-feira, março 21, 2011

A esquerda radical não aprende?

Jean-Luc Mélenchon, eurodeputado do GUE/NGL, candidato presidencial francês e copresidente do Parti de Gauche, que com os comunistas franceses faz parte da Frente de Esquerda, citado no “Arrastão”: “ A primeira questão que temos de nos colocar é a seguinte: há um processo revolucionário no Magreb e no Médio Oriente? Sim. Quem faz a revolução? O povo.”

Bom, que eu saiba, o que há é uma revolta contra os governos ditatoriais locais, no poder há já algumas décadas. Com umas vagas referências à liberdade, claro que sim e nada mais natural na circunstância, mas algo de muito contraditório e sem que existam forças e condições locais capazes de assumir um rumo democrático, muito menos um “processo revolucionário” no sentido que costuma ser atribuído ao termo pela esquerda radical europeia.

São tais revoltas positivas? Claro que sim: abrem uma janela de esperança. Mas daí até estarmos na presença de processos democráticos, ou muito menos “revolucionários”, vai uma enorme distância. Enfim, o voluntarismo desta gente recusa-se a aprender com os erros passados.

Zarzuela (3)


"Luisa Fernanda" de Federico Moreno Torroba - Mazurka

David Luiz e os princípios de jogo do Chelsea

Quem viu ontem o Chelsea- Man. City percebeu que David Luiz já não sai a jogar “à maluca”, arriscando-se, como acontecia com demasiada frequência no SLB, a perder a bola em zonas proibidas e dar assim origem a perigosos contra-ataques do adversário. Porquê, perguntarão? Muito simples. Com um meio-campo muito físico e multi-funções” composto por Essien, Ramires e Frank Lampard, a equipa não necessita dessas “saídas” para ganhar superioridade nessa zona do terreno. Para além disso, e ao contrário de Javi Garcia que é um “pivot” mais posicional, Essien e Ramires são jogadores mais “móveis”, capazes de iniciar as transições ofensivas com a propósito.

Ora aqui está um bom exemplo para se entender que o futebol é bem mais interessante do que apenas os árbitros, os “penalties”, os “Trios d’Ataque” e por aí fora.

Daniel Oliveira, a "moral" e a "política"

Daniel Oliveira elenca no “Arrastão” as razões que tornam, segundo ele, a intervenção na Líbia diferente da que aconteceu no Iraque. Tudo bem: apesar das minhas enormes dúvidas sobre a possibilidade de se estabelecerem democracias nos norte de África e nos países árabes, não estou, em termos gerais, em desacordo frontal com o Daniel. Excepto numa coisa: quando ele afirma que “o apoio a uma acção que defenda os líbios da loucura de Kadhafi é uma obrigação moral e política”. Política? Enfim, compreendo e até não me custa aceitar. Agora, moral? É que de cada vez que vejo a “moral” - as razões "morais" - misturada com a “política” habituei-me a puxar logo pela pistola!

"Edward VIII: The Traitor King" (9/11)


domingo, março 20, 2011

Paulo Portas, a mentira e a boa governação

Do "Público":

"Paulo Portas promete governar sem mentir aos portugueses."

Bom, como duvido qualquer governante tenha sempre possibilidades de o fazer (de não mentir), em toda e qualquer situação, e, mesmo que isso por absurdo viesse a acontecer, tal (nunca mentir) pudesse ser sempre considerado positivo para uma boa governação, das duas uma: ou Paulo Portas está já a mentir ou nem sempre irá ser, de facto, um bom governante.

Country Life (10)








Wrest Park - Bedfordshire

sábado, março 19, 2011

Ainda a morte de "Jet" Harris...


"Feelin' Fine" (1959), lado "A" do primeiro "single" dos Shadows (Jet Harris, Hank Marvin, Bruce Welch e Tony Meehan), então conhecidos como Drifters - nada a ver c/ o grupo norte-americano de R&B.

Curiosamente, um tema vocal de um grupo que ficou conhecido como sendo puramente instrumental. Sobre a faceta "vocal" do grupo recomenda-se a colectânea "The Shadows Vocals" (apenas a tenho em vinilnuma edição da EMI).

Terence "Jet" Harris, MBE (6 de Julho de 1939 - 18 de Março de 2011)


Jet Harris & Tony Meehan - "Diamonds"


Jet Harris & Tony Meehan - "Scarlett O'Hara"


Soube há pouco pelo “Ié Ié” que morreu Jet Harris! Para a maioria o nome pouco dirá. Mas trata-se, nada mais nada menos, de um membro fundador dos Shadows, um grupo instrumental britânico que, com Cliff Richard, marcou a época entre o declínio do Rock n’ Roll original (1958) e o início do "Liverpool sound" e da “British Invasion” (1962). Era mesmo, e ao contrário do que muitos pensam, o seu verdadeiro líder, quase sempre ofuscado pela imagem mais carismática e pelo virtuosismo do guitarrista Hank Marvin. Antes disso, no auge da chamada “skiffle fever”, tinha sido membro do Viper’s Skiffle Group, que por este “blog” também já passaram.

Harris (“baixista”) deixou os Shadows em 1962, juntamente com o baterista Tony Meehan, e enquanto o grupo se começava a “afogar” no “easy listening” e Cliff Richard na música ligeira, abandonado as suas origens de “rocker” definitivamente e perdendo o seu “momentum” com a ascenção dos Beatles e do “merseysound”, Jet Harris e Tony Meehan mantiveram-se fiéis a um som mais “duro”, mais perto, até pela utilização de “metais”, do "rock" instrumental do outro lado do atlântico. São desse período temas como “Diamonds” (#1), “Scarlett O’Hara” e “Applejack”. Correndo o risco de ser polémico, foi o que de melhor nos deixou Jet Harris, mesmo tendo em consideração algum do bom trabalho dos Shadows nos seus early years.

Ora nem mais!

O modelo de jogo do SLB analisado, e bem, pelo "Entre Dez":

..."Nesse aspecto, o modelo de Jorge Jesus tem-se revelado cada vez mais banal. Depende excessivamente - e isto é algo que ando a dizer desde o início da época passada, embora se revele cada vez mais - da vertigem que as individualidades são capazes de colocar no jogo; depende das correrias dos laterais, da velocidade a que cada jogador reage à perda de bola, da espontaneidade de cada elemento, etc. Se é verdade que, jogando deste modo, impede os adversários de se organizar do melhor modo, impede também a própria equipa de jogar de modo organizado. O modelo de Jesus prepara a equipa para ser forte em momentos de desorganização, mas limita-a não a preparando para ser competente quando é preciso inventar essa desorganização.!

sexta-feira, março 18, 2011

"Edward VIII: The Traitor King" (8/11)


O "candidato" António Costa

No mesmo dia em que António Costa “desancava” o ministro das Finanças na “Quadratura do Círculo”, mesmo nas barbas de Pacheco Pereira e Lobo Xavier (estão a ver o que vale a ética em política, não estão?), Medeiros Ferreira, em entrevista ao i (citada pelo "Público"), lançava o nome do mesmo Costa como possível candidato do PS a próximas eleições legislativas. Trata-se, claro, não de suscitar uma vaga de fundo, que não parece possível neste momento, mas de uma tentativa nada inocente para começar a aferir sensibilidades. Ficamos a aguardar se e como elas se irão manifestar, nelas se incluindo a de alguém tão incontornável como o continua a ser Mário Soares.

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (6)

Bert Weedon - "Apache" (Jerry Lordan)

Gravação do início de 1960


The Shadows - "Apache" (Jerry Lordan)

Gravação de Junho de 1960

Uma curiosidade sobre este clássico instrumental de Jerry Lordan: foi gravado em primeiro lugar pelo guitarrista Bert Weedon, no início de 1960, ficando por editar. A gravação dos Shadows, com o seu “line-up” inicial (e o melhor), composto por Jet Harris, Hank Marvin, Bruce Welch e Tony Meehan, data de Junho desse ano e foi, de facto, a segunda, mas a primeira a ser editada, no mês seguinte. Liderou o "hit-parade" no UK durante 5 semanas.

3 equipas nos 1/4 de final da Liga Europa é assim um resultado tão "notável"?

Portugal ter 3 equipas nos ¼ de final da Liga Europa é assim tão “notável”, como por aí já vi afirmado? É um bom resultado, mas dentro da normalidade quando o futebol português não conseguiu colocar nenhuma (o SLB seria essa equipa mais provável) nos 1/8 de final da Champions League, sendo lógico ter acontecido o contrário.

Vejamos: Portugal ocupa o 6º lugar no “ranking” da UEFA (e isso, sim, é que constitui um excelente resultado), à frente de Rússia, Ucrânia e Holanda. Quais as nacionalidades das outras equipas presentes nos ¼ de final da Liga Europa? Exactamente Rússia (1), Ucrânia (1), Holanda (2) e uma equipa espanhola “cliente” normal da CL e da Liga Europa (Villareal). Tudo normal, portanto, se nos lembrarmos que a França, que precede Portugal no “ranking” da UEFA (é 5ª), teve 2 equipas (OL e OM) nos 1/8 de final da Champions League e os 4 primeiros do “ranking” (Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália)têm todos eles ainda equipas presentes nos ¼ de final da CL.

Pois, mas exigir rigor à imprensa desportiva (e não só) é o mesmo que pedir a um gato que ladre ou a um cão que mie!

quinta-feira, março 17, 2011

PSG - SLB no final

Tácticas? Processos, princípios e modelo de jogo? Sistema táctico? Sorte? Azar?
Deixem-me mas é soltar um grande e sentido:

Uff!!!...

PSG - SLB ao intervalo

A dificuldade que o meio-campo do SLB tem, nestes jogos contra as melhores equipas europeias, em filtrar e estancar as acções ofensivas do adversário e em temporizar o jogo e fazer circular a bola quando na sua posse, está a ser um problema. O tal frenesim de que já falei. Bom, tivemos a sorte do jogo, so far, o que também é importante.

O jogo está a pedir Jara em vez de Saviola.

"Edward VIII: The Traitor King" (7/11)

História(s) da Música Popular (177)


"The Association" - "Along Comes Mary"

"Sunshine Pop" (I)


Pois a seguir à Ivy League, em pleno território da “british pop”, só poderia vir a seguir aquilo que ficou para todo o sempre designado por “sunshine pop”. E o que é tal coisa? Bom, segundo a Wikipedia (que nem sempre tem razão mas neste caso está mais ou menos correcta), tal pode definir-se como um sub-género da "pop" “characterized by a cheerful attitude, close vocal harmonies, and sophisticated production”. "Mai nada"! Floresceu principalmente na costa oeste dos USA como reacção a algum "pop-rock" mais empenhado social e politicamente. Certo?

Dos seus intérpretes, normalmente grupos (a dita Wikipedia inclui neles os Beach Boys, e aí já não estou nada de acordo; estou mesmo no mais profundo desacordo mesmo considerando qualquer das fases por que passou o grupo), talvez os mais ignorados em Portugal sejam os “Association”, o mais prolífico e o meu favorito do género, se excluirmos os The Mamas and The Papas cujo âmbito e importância da sua música ultrapassa as fronteiras da "sunshine pop". Pois comecemos por aí.

O grupo teve os seus inícios em LA, em 1965, embora os seus membros tenham origens várias, da "east coast" à "west coast" dos USA. O que importa é que começaram a tocar no célebre e hollywoodiano “The Troubadour”, por onde passaram nomes como James Taylor, Carole King, The Byrds and so on. Editam um primeiro “single”, sem grande sucesso, e em 1966 surge “Along Comes Mary”, talvez não o tema mais característico do grupo, nem o meu favorito, mas o seu primeiro êxito.

Aqui fica!

quarta-feira, março 16, 2011

"The Lost Prince" (18 e último)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

"Edward VIII: The Traitor King" (6/11)

Da "classe política" e do afastamento entre governantes e governados

Oiço e leio demasiadas vezes menções várias à classe política. Um erro. Em bom rigor os políticos não formam nenhuma classe social. São oriundos de classes sociais tão diversas como o proletariado urbano e rural, a pequena, média e alta burguesia, o campesinato, etc, etc. Aliás, tradicionalmente os partidos políticos formavam-se em torno das necessidades de representação das várias classes sociais: comunistas, socialistas e sociais-democratas representavam as aspirações revolucionárias ou reformistas do operariado, a democracia-cristã de uma parte da burguesia e proprietários rurais de diversa dimensão, os pequenos partidos do centro tendiam a identificar-se com pequenos proprietários urbanos, funcionários e profissões liberais (mais tarde também com uma certa tecnocracia emergente) e em alguns países existiam mesmo partidos cujos nomes rapidamente identificavam a sua origem classista (“agrários”, por exemplo).

Com a terciarização das sociedades modernas, pós-industriais, as diferenças entre classes sociais (nos seus comportamentos, interesses, modo de vida, etc) esbateram-se (atenção: não estou a falar das desigualdades de rendimentos, o que é bem outra coisa e, por si só, é insuficiente para definir uma “classe social”) e os partidos políticos mais importantes do espectro político tenderam a transformar-se nos “catch all parties” que encontramos hoje em dia, perdendo alguma da sua identificação classista. Consequência disso, os seus militantes e, principalmente, dirigentes fecharam-se sobre si próprios e tornaram-se, salvo algumas excepções mais radicalizadas que mantêm ainda alguma ligação aos interesses da sua classe social de origem (o PCP, por exemplo), numa verdadeira “corporação” que, como é normal nesses grupos, tende a unir-se e agir quase exclusivamente em função da defesa dos seus interesses. Esse é um pouco o “drama” (digamos assim) que está na origem do actual distanciamento entre governantes e governados, entre cidadãos e a impropriamente chamada “classe política”.

Como resolvê-lo? Bom, francamente não tenho qualquer mezinha ou poder mágico, mas, identificado o problema, é bom que que se comece a pensar a sério no assunto.

A RTP e Miss Marple

Eu cá tinha as minhas razões para desconfiar: "quando a esmola é grande o pobre desconfia". Hoje, no "site" da RTP, a versão de 2004 de "The Body In The Library", cuja exibição tinha sido anunciada para a próxima 5ª feira (amanhã) foi já substituída pelos elementos referentes à versão de 1984, a tal com Joan Hickson no papel de Miss Marple. Trata-se, portanto, de mais uma repetição da versão já muitas vezes exibida.

Talvez mais rigor e menos ignorância e desleixo, recomenda-se...

terça-feira, março 15, 2011

"The Lost Prince" (17)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

"For sentimental reasons" - original doo wop classics (19)

The Spaniels - "Here Is Why I Love You"

"Edward VIII: The Traitor King" (5/11)

José Sócrates e a política "pura e dura"

Vamos lá ver... Agiu bem ou mal José Sócrates pelo facto de não ter informado o Presidente da República sobre as novas “medidas de austeridade” e de só o ter feito tardiamente perante o líder do maior partido da oposição e parceiro de acordo no orçamento de 2011? Bom, do ponto de vista ético e institucional é óbvio que fez mal: por muitas razões de queixa (digamos assim) que tenha do Presidente da República (e é indiscutível que as tem), o relacionamento institucional deve sempre prevalecer nos contactos entre os diversos orgãos de soberania e, mais ainda, acresce que o acto do primeiro-ministro arrisca-se a ser visto pelos cidadãos como uma “birra” ou vingança inconsequente de adolescente a quem foi dada uma reprimenda pública. Quanto à informação tardia ao partido de Passos Coelho tal pode ser considerado, na sua essência, como uma manifestação de deslealdade.

Mas tendo dito isto, todos sabemos que a política está muito longe de se esgotar nas questões éticas – e muito menos morais – nem estas estão, frequentemente, e goste-se ou não, na essência e na génese dos actos políticos, não devendo, por isso mesmo, também nelas esgotar-se a sua análise. Mais ainda, a eficácia das acções deve ser sempre também avaliada em função da sua adequação aos objectivos a atingir. Assim sendo, e em função da realidade nua e crua, dos objectivos que pretendia atingir e subalternizando as questões de natureza ética, agiu ou não o primeiro-ministro com eficácia face aos objectivos que pretende atingir? A resposta só pode ser uma: claro que sim.

  1. Em primeiro lugar, porque se tivesse informado previamente Cavaco Silva e atempadamente Passos Coelho tal geraria de imediato uma discussão pública e reacções nos “media”, bem como uma recusa "à partida" das medidas, que enfraqueceriam a posição de força com que o primeiro-ministro se apresentou em Bruxelas, gerando ainda mais dúvidas sobre a possibilidade do governo implementar o que se propunha.
  2. Em segundo lugar, porque José Sócrates pretendeu sempre ter o aval prévio de Bruxelas e Berlim - da CE, do BCE e de Merkel - colocando assim Cavaco Silva e Passos Coelho em maiores (arriscaria a dizer: enormes) dificuldades para negarem o seu apoio, sendo esse acto visto como um voto negativo também às instituições da UE e à Alemanha, das quais Portugal precisa para obter financiamento. Como o primeiro-ministro ontem não se escusou de sublinhar, um “acto anti-patriótico”.
  3. Por último, porque com estas atitudes José Sócrates nada tem a perder: sabe que uma moção de censura do PSD dificilmente passará na AR (e, por absurdo, mesmo que passe...), que o relacionamento institucional com o PR está em ruptura desde o caso das escutas e que se este se decidir pela dissolução assume ele próprio o risco da “instabilidade política” e do recurso ao FMI, lavando o primeiro-ministro daí as suas mãos.

Em função do que acima digo, gostemos ou não, concordemos ou discordemos, e se analisarmos a sua actuação com o distanciamento que aqui pretendi assumir e em função daqueles que são os seus objectivos políticos, temos de concluir que José Sócrates deu, de facto, uma lição de política “pura e dura”. Com isso, provou também que será sempre um “osso bem difícil de roer”.

Falar "a verdade" aos japoneses?

Perante a possibilidade não negligenciável de um grave acidente nuclear, acham os arautos da “verdade” que por aí pululam que o governo japonês deveria “falar a verdade” aos seus cidadãos, mesmo com o claro risco de se poder gerar uma onda de pânico, porventura injustificada e incontrolável, ou que será bem mais avisado e mais positivo para todos, governo e cidadãos, controlar e gerir a informação e comunicação à medida das necessidades e da evolução da crise?

segunda-feira, março 14, 2011

"The Lost Prince" (16)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

Rescaldo da comunicação do primeiro-ministro

Os compradores de um Ford T podiam escolher qualquer cor desde que fosse preto. Os portugueses sempre têm mais opções: poderão escolher se querem que seja o PS ou o PSD a aplicar as mesmas medidas para baixar o “déficit” para 2% em 2013.

A nova Miss Marple na RTP Memória


A RTP Memória anuncia para a próxima 5ª feira a versão de 2004 do clássico de Agatha Christie "The Body In The Library", protagonizado por Geraldine McEwan no papel de Miss Marple. A RTP já passou por mais de uma vez a versão de 1984, com a mais do que famosa "bisbilhoteira" de St. Mary Mead interpretada por Joan Hickson. Não conheço nenhum dos episódios desta nova série, e por isso mesmo não sei que tal se sai McEwan quando para mim Marple e Hickson já eram uma e a mesma pessoa. Mas a presença de Ian Richardson (o inesquecível Francis Urquhart da trilogia "House Of Cards", "To Play The King", "The Final Cut") e da minha muito favorita Tara Fitzgerald ("The Camomile Lawn", "Waking The Dead" e "Brassed Off") será suficiente para me manter agarrado à televisão. O enredo? Esse sei de cor, mas, para mim, isso não tem importância nenhuma.

Já agora: espero a informação do "site" da RTP esteja correcta e não se trate de mais uma repetição da versão de 1984. É que nunca é de fiar...

Onde se explica (e espero os jornalistas desportivos percebam) porque joga Kardec e não Nuno Gomes

Para os que ainda não perceberam, eu vou tentar explicar porque joga Kardec e não Nuno Gomes:
  1. Em primeiro lugar porque Kardec é um jogador jovem, cujo passe custou dinheiro e constitui um activo do clube que se pretende – e bem – valorizar. É um jogador com margem de progressão, embora até ao momento suscite – e com razões para tal – muitas dúvidas sobre a sua real valia.
  2. Em segundo lugar, e não menos importante, apesar de algo diferente de Oscar Cardozo, é o “ponta de lança” do plantel cuja utilização menos “mexe” com os princípios de jogo assumidos pela equipa nos seus processos ofensivos. E, claro, se a equipa pode flexibilizar um pouco esses princípios em determinadas situações do jogo – por exemplo, a 10 ou 15’ do fim do jogo, quando pretende alterar um resultado desfavorável – não pode nem deve fazê-lo de forma sistemática e prolongada no tempo de jogo.

    Espero já tenham percebido, mas, claro, aceito réplica.

O PS e o actual momento governativo

Se eu fosse membro de algum dos orgãos dirigentes do Partido Socialista (nem militante ou votante regular sou) estaria hoje a tentar convencer quem de direito a chamar José Sócrates para discutir e explicar perante essas estruturas partidárias qual a estratégia a adoptar pelo governo para tentar superar os problemas do momento político actual.

Não se trata de “revitalizar” o debate partidário, de “activar a discussão ideológica” e essas outras tretas que se costumam dizer de um partido que está no governo. Trata-se, pura e simplesmente, de perguntar: “a situação é esta; em função disso que tencionam o primeiro-ministro e secretário-geral do partido, assim como o governo a que preside e que o PS apoia, fazer? Tão simples, não é?

"Edward VIII: The Traitor King" (4/11)


domingo, março 13, 2011

O discurso de Cavaco Silva e a hipótese de dissolução da AR

Voltemos à “vaca fria”: o discurso de posse de Cavaco Silva não só praticamente anulou qualquer hipótese deste Presidente da República agir como elemento impulsionador de um qualquer eventual governo ou acordo maioritários, algo já de si muito problemático (o que já foi glosado em muitas cores e tons por vários comentadores e personalidades), como também coloca sérios problemas a que, a decidir-se o PR pela dissolução da Assembleia da República (e neste momento qualquer um que ocupasse o cargo teria razões para o fazer sem demasiados reparos), tal não apareça, não como ditado pelo “interesse nacional (o que quer que tal coisa signifique), mas como uma clara decisão de “facção” em favor da sua área ideológica e, pior, do seu partido político de origem. Ainda pior: algo decidido, mais do que por motivos estritamente políticos, por razões pessoais de ressabiamento e interesse próprio, fruto de uma personalidade vingativa pouco consentânea com o exercício do cargo. A José Sócrates e ao PS tal serve às mil maravilhas e Cavaco Silva não sai nada bem do assunto.

"Só Dylan é Dylan" - homenagem a "Em Órbita" (5)


Bob Dylan - "Like A Rolling Stone" (1965)

O que nos disse a "manif." da "geração à rasca"

Fundamentalmente, que nos disse a manifestação da “geração à rasca”? Nada que já não soubéssemos: que existe uma base social de apoio a uma solução política populista e anti-democrática para Portugal. Trata-se um grupo inorgânico e heterogéneo, até contraditório entre os seus elementos, mas que encontra num exacerbado sentimento anti-políticos e anti- partidos, no radicalismo anti-regime, em algum primitivismo basista “popular” filho do PRP-BR de antanho, o seu cimento ideológico. E no desemprego e na precariedade, na ilusão de que um qualquer licenciado “mestre” em “Estudos para a Paz” (não, não é piada, é a especialização de uma das organizadoras da “manif”.) teria, por promessa explicita ou implícita de governantes com responsabilidades, o passaporte para um emprego estável e uma vida com algum desafogo. Constituem-no, em traços gerais, abstencionistas e votantes em branco, muitos dos que dirigem e votam no “Bloco de Esquerda” (menos do PCP), herdeiros da esquerda radical do PREC, mesmo que convertidos a um ultra-liberalismo recente e mal amanhado, nacionalistas radicais e vários crentes nas virtudes de um difuso messianismo político, do “isto está cada vez pior; já só lá vai quando for o povo a mandar e correr com esses políticos corruptos”. Exprimiam-se, até agora, nas caixas de comentários dos “blogues” e dos jornais electrónicos, nos “fóruns de opinião”, e viam esse seu sentimento catalisado por programas como o “Plano Inclinado”, políticos com discursos irresponsáveis e incendiários como os de Francisco Louçã ou o de Cavaco Silva na passada 4ª feira e por jornalistas e uma comunicação social que abdicaram das suas funções numa infrutífera, mas desesperada, tentativa de inverter o decréscimo de vendas originado pelos suportes electrónicos.

Conclusão? Razão tinha Mário Soares quando se decidiu pela rápida adesão do país à então CEE, que, se não nos salva (não tenhamos ilusões), nos põe pelo menos a algum recato de soluções anti-democráticas. Só isso seria razão mais do que suficiente para lhe estarmos gratos. Muito obrigado, Dr. Mário Soares!

sábado, março 12, 2011

"Shindig" - British Invasion (3)



1. The Zombies - "Tell Her No"

2. The Animals - "We Got To Get Out This Place"

3. Gerry & The Pacemakers - "Ferry Cross The Mersy"

4. Manfred Mann - "Sha La La"

Reflexões de sábado à tarde: 2. Pedro Passos Coelho e as novas "medidas de austeridade"

Pedro Passos Coelho reagiu de forma inteligente e sensata ao anúncio das novas “medidas de austeridade”, que sabe impostas pela instâncias da UE. Esperou pelo fim da reunião de Bruxelas, rejeitou de modo firme o seu apoio (não poderia agir de outro modo), mas, ao afastar qualquer intenção de apresentar uma moção de censura, abriu caminho a negociações e eventuais entendimentos futuros perante aquilo que serão certamente as pressões da CE, BCE e Berlim.

Dificilmente poderia ter agido de outro modo? Sim, claro. Mas colocado numa posição difícil, pelo menos soube reagir com inteligência e perceber o que estava em causa. E perante a histeria anti-políticos que por aí grassa, é sempre bom assinalar quando um deles sabe estar à altura das circunstâncias.

Reflexões de sábado à tarde: 1. As televisões e a "manif."

José Pacheco Pereira já o disse bem melhor do que eu o poderei alguma fez fazer. Mas as televisões escreveram hoje uma das mais negras páginas do jornalismo e da democracia portuguesa. De repente, senti-me de volta aos tempos de Manoel Caetano e das transmissões do 10 de Junho da ditadura ou das “manifestações da mais veemente repulsa pelo cobarde ataque efectuado pelas forças da União Indiana aos territórios portugueses de Goa, Damão e Diu”. Se “media” significa “mediatismo” (que é o contrário de “imediatismo”), a função de alguém que age como “mediador”, foi exactamente disso que as televisões abdicaram na manifestação de hoje da “geração à rasca”, colocando de lado qualquer distanciamento, qualquer capacidade crítica e funcionando apenas como um gigantesco megafone propagandístico das intenções e objectivos da “manif”. Só faltou mesmo o apelo explícito dos repórteres à participação – ou se calhar nem mesmo isso esteve em falta.

E se não existe democracia, tal como a conhecemos, sem “mediatização”, o que hoje aconteceu foi um passo muito perigoso no caminho de uma sociedade totalitária. Tenham medo; tenham muito medo!

sexta-feira, março 11, 2011

"The Lost Prince" (15)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

O PEC IV



Acrescento eu (JC): a situação parece ser suficientemente grave para exigir que o 1º ministro fale e se explique ao país após o seu regresso de Bruxelas. Mais ainda, deveria fazê-lo em conjunto e com o respaldo do Presidente da República e anunciar de imediato a formação de um governo maioritário de coligação. Escusado será adiantar que tudo isto, esta necessidade de um acordo alargado , demonstra mais uma vez o enorme erro político que constituiu o discurso, de facto em sentido contrário, de tomada de posse de Cavaco Silva.

"Verdade" e "transparência": "democracia total" ou o "ovo da serpente"?

Confesso a minha apreensão (ou até bem mais do que isso) quando leio e oiço muitas avaliações positivas do discurso de posse de Cavaco Silva apenas com base em afirmações do tipo “disse a verdade aos portugueses” ou “nada do que disse é mentira”. Falo do discurso do Presidente da República porque é o exemplo mais próximo no tempo, e não porque quaisquer outras razões específicas.

Em primeiro lugar porque, como tenho inúmeras vezes salientado, excepto nas sociedades totalitárias não existe uma única verdade tornada oficial e, assim, imposta aos cidadãos deste modo “castrados” de pensamento próprio e autónomo. As sociedades democráticas são, por definição, plurais, abertas ao confronto de ideias, ideais e opiniões que nem sempre confluem em consensos. Claro que existem factos comprovados e indiscutíveis (os valores do “déficit”, das taxas de juro, da dívida, etc), mas o modo como são apresentados, a importância dada a cada um deles, o modo como são integrados num discurso político e o “peso” específico de cada um deles na construção de um raciocínio podem dar origem a “verdades” muito diferentes entre si.

Em segundo lugar, porque a omissão de alguns desses factos comprovados em detrimento da apresentação de outros, seja, a sua selecção, pode conduzir os destinatários de uma determinada comunicação num caminho específico, o pretendido pelo comunicador. Existe, de facto, em qualquer discurso – e o exemplo da montagem no cinema é muitas vezes apontado como paradigmático – uma enorme dose de manipulação (comunicar é manipular). Por exemplo, e utilizando uma vez mais o discurso de Cavaco Silva como tema, referências à Justiça e/ou à crise internacional, bem como o maior ou menor peso específico que lhes fosse atribuído - para apenas citar dois temas importantes na vida dos portugueses - teriam certamente levado quem ouviu o discurso a algumas “nuances” nas suas conclusões.

Por último, e agora refiro-me a algo actualmente muito “em moda” e que, quanto a mim, constitui um enorme perigo para as sociedades democráticas na medida em que se parte do princípio da sua identificação com o a própria democracia, porque a ideia, bem expressa no Wikileaks e que começa quase ter “força de lei”, da “bondade da “transparência total” retira aos governantes e responsáveis políticos aquela que te"Falar verdade"m sido sempre, e deve continuar a ser sob pena de ingovernabilidade, uma das suas principais funções: a selecção e gestão da informação, a escolha de quem a ela tem acesso e do “tempo e o modo” como deve ser comunicada.

O que me parece é que corremos novamente o risco de estarmos perante o simbolismo do ovo da serpente: através da sua casca transparente, neste caso representada pela ilusão da “democracia total”, no seu interior, já em formação, espreita de facto o perigo do totalitarismo constritor.

"Edward VIII: The Traitor King" (3/11)


Que se passa com as contas públicas?

Se a notícia for confirmada, e o anúncio de algumas medidas adicionais feito esta manhã pelo ministro Teixeira dos Santos quase parece “rabo escondido com o resto do gato todo de fora”, aqui está algo bem mais penalizador para o governo do que o discurso de Cavaco Silva, a manifestação “à rasca” ou a moção de censura do BE. Mais: se não faz qualquer sentido nem tem sempre um resultado positivo qualquer governo falar “a verdade” aos portugueses (o que quer que seja essa tal “verdade”: só nos regimes totalitários existe uma verdade absoluta), aqui está algo a precisar de esclarecimentos imediatos por parte do primeiro-ministro e do ministro da Finanças. Espero o façam quanto antes.

quinta-feira, março 10, 2011

"The Lost Prince" (14)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

SLB - PSG: demasiado frenesim

Este modelo de jogo demasiado frenético e defensivamente desequilibrado do SLB, com uma defesa demasiado subida, que parece só saber funcionar em transições muito rápidas, de enorme intensidade e com dificuldades em temporizar o jogo e fazer circular a bola, quando necessário, terá quase sempre muitas dificuldades para se impor nas competições europeias. Se internamente, onde 95% das equipas são muito fracas e jogam com um bloco muito baixo, o modelo é genericamente adequado, já contra boas equipas europeias, bem equilibradas e constituídas por jogadores acima da média, o modelo, principalmente nos jogos em casa, só pontualmente poderá funcionar com eficácia.

Digamos que o modelo é a “cara” de Jorge Jesus; mas este terá rapidamente de mostrar que é competente para conseguir um justo equilíbrio, a “divina proporção”, entre uma equipa capaz de sair a jogar nessas transições muito rápidas e, quando necessário e principalmente nestes jogos, tornar-se mais matreira, fazendo circular a bola e “descansando com ela” (como agora se diz) enquanto espera a sua oportunidade.

Hoje, podia ter corrido bem pior...

PSD: o partido "Iô Iô" de Cavaco Silva

O discurso de posse de Cavaco Silva terá sido, como foi afirmado por Jerónimo Sousa, um discurso de líder de facção, neste caso do PSD? Indirectamente sim, já que é o partido ideologicamente mais próximo do actual Presidente da República e aquele em que se poderá apoiar nas actuais circunstâncias. Mas atenção: “em que se poderá apoiar”, o que é muito diferente de “que poderá apoiar” (nas suas naturais ambições de governo). De facto, o PSD sempre assumiu para Cavaco Silva um papel puramente instrumental, de partido "Iô Iô", para um projecto de poder que se centrou fundamentalmente nos seus (de Cavaco Silva) próprios interesses políticos. O discurso de ontem, reivindicando-se de um papel quase messiânico, de “provedor do descontentamento”, parece indiciar que nada de muito diferente do acontecido no passado poderá o PSD esperar do seu ex-presidente.

"Edward VIII: The Traitor King" (2/11)


Presidente da República ou "Chefe de Estado"?

Não sou jurista, muito menos constitucionalista, por isso não me posso pronunciar sobre o rigor técnico da denominação. Mas, como cidadão, confesso me incomoda o Presidente da República (este ou outro qualquer, anterior ou futuro) seja frequentemente denominado de “Chefe de Estado”. Parece-me uma designação que minimiza ou ignora a separação de poderes definidora de um Estado democrático e remete bem mais para os regimes totalitários e seus habituais “caudillo", “duce”, “führer” e demais “salvadores da pátria”. Minudências? Por mim, acho bem que não.

quarta-feira, março 09, 2011

"The Lost Prince" (13)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

Depois do discurso: a oportunidade de José Sócrates e Passos Coelho

A sequência lógica do violento discurso de tomada de posse de Cavaco Silva seria a sua decisão de dissolver a Assembleia da República e convocar eleições. Não o fazendo, não me parece a manutenção de um clima de confrontação e crispação, já muito mais do que latente, entre dois orgãos de soberania - governo e Presidência da República - possa de algum modo contribuir para o país enfrentar a crise em condições mais favoráveis para a ultrapassar. A pergunta que deixo é a seguinte: será intenção de Cavaco Silva ir “fazendo a vida negra” ao governo, tentando assim levá-lo à demissão? Na situação actual, tal tipo de actuação seria demasiado má para ser verdadeira. Mas vindo do meu ex-professor de Finanças Públicas, confesso, nunca se sabe...

Perante isto, talvez fosse finalmente tempo de quem me parece mais prejudicado com esta “presidência de tipo novo” inaugurada por Cavaco Silva - o PS de José Sócrates e o PSD de Passos Coelho - acordarem numa solução estável de governo, deixando Cavaco Silva a falar sozinho. Já não seria sem tempo e constituiria uma boa lição de política “pura e dura” para o actual Presidente da República.

O discurso do Presidente (ainda a quente e com algum espanto)

Foi um discurso programático e radical de um líder da oposição, longe, muito longe de contribuir para um qualquer cenário de estabilização ou se se tornar ponto de partida fomentador de consensos. Diria que foi um discurso em “plano inclinado”. Mas foi bem mais do que isso, enquanto tal: centrado na sua figura e nas suas funções, subalternizando as restantes instituições da República com excepção, nada ingénua, das autarquias (as que estão mais perto do “povo”), tentando, de modo demagógico, chamar a si o papel de provedor do descontentamento, teve o seu quê de messiânico, de demagogia anti-regime. Por mais de uma vez me lembrei de Spínola e não me parece tal tenha acontecido por acaso.

Assim sendo, se o discurso afrontou claramente o governo e o PS, não vejo grandes razões para que o PSD de Passos Coelho se possa sentir feliz: não só por Cavaco Silva assumir essa sua vertente anti-regime e polarizadora do descontentamento, como também por parecer querer agir como líder, de facto, da oposição, embora colocando-se, como lhe convém, com um pé de fora do sistema. E conhecidas as suas ligações ao PSD de Ferreira Leite e Pacheco Pereira, digamos que as perspectivas para Passos Coelho no partido a que preside talvez não sejam as melhores.

No fim, duas questões:

  1. É possível a um país na situação de Portugal viver sob um regime de clara confrontação entre governo e Presidente da República, ambos com a mesma fonte de legitimação, o sufrágio directo e universal?
  2. Não prova tal coisa a total inadequação e “disfuncionalidade” do actual regime semi-parlamentar (ou semi-presidencial) ao “normal funcionamento das instituições”, algo que desde sempre tenho por aqui afirmado?

"Edward VIII: The Traitor King" (1/11)


Documentário do Channel 4 (1995) sobre Edward VIII, Princípe de Gales, rei durante 326 dias e Duque de Windsor.

Apenas um comentário: arrasador!

A mesma luta! Ou será "separados à nascença"?

Carlos Xistra

Massimo Busacca

"Indomável"

Aviso já que não vi o original de Henry Hathaway, de 1969, por isso não tenho termo de comparação. Mas a versão dos irmãos Cohen é pelo menos um filme divertido, por vezes até um pouco enternecedor, e apesar de alguma violência, uma boa tarde de cinema para toda a família se os filhos forem já adolescentes. Claro que a presença de Steven Spielberg como produtor executivo não será alheia a essa faceta de entretenimento familiar.

É isso mesmo: vá e leve a família, pelo menos os mais crescidos, numa destas tardes de um fim de semana de chuva. Não verá um grande filme; mas, pelo menos, passa uma hora e tal sem dar por isso e sem que lhe chamem estúpido. Nos tempos que vão correndo...

terça-feira, março 08, 2011

"The Lost Prince" (12)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

"Geração à rasca" ou gerações à rasca?

Compreendo os problemas da chamada “geração à rasca”, com dificuldade em estabilizar e organizar a sua vida, presente e futura, fruto do elevado desemprego e da precariedade. Isto apesar de muitos deles terem optado por licenciaturas (aqueles que as obtiveram) e universidades (por insuficiência de média, note-se) que sabiam à partida constituiriam um “handicap” para um emprego mais estável e razoavelmente remunerado: não me parece nesse caso pudessem alguma vez ter alimentado grandes expectativas. Escusado dizer que têm todo o direito a manifestar-se e, até, desde que respeitando a lei e as instituições democráticas, com a irreverência própria de quem tem menos de 30 anos.

Mas tendo dito isto, gostaria de lembrar à “geração à rasca” que na minha geração, a imediatamente anterior (os meus filhos estão actualmente nos “early thirties”), a dos “baby boomers” do pós-guerra, apenas uma minoria, os razoavelmente privilegiados, conseguiam obter uma licenciatura; existia uma guerra colonial que ocupava entre três e quatro anos das nossas vidas (eu prestei serviço militar durante 40 longos meses) e ninguém conseguia um emprego fora do Estado sem a “tropa feita”; exactamente por essa razão, a vida profissional começava tarde, muito tarde (eu comecei-a aos 26 anos!); iniciar um negócio (uma empresa) por conta própria, excepto para as profissões liberais, era pouco menos do que uma miragem; não existia crédito pessoal para férias, viagens, etc (eu, como de certo modo era privilegiado, quando precisava pedia um empréstimo pedia à família e ia fazendo pequenos trabalhos para o pagar); conseguir um passaporte antes de cumprido o serviço militar era quase impossível e não existiam InterRail, Erasmus, etc.; muitos de nós, alguns mesmo bastante qualificados, tendo começado a trabalhar já tarde pelas razões que expliquei, e tendo sido apanhados por situações de reforma pouco depois dos 50 anos de idade (conheço vários), acabaram por ter uma vida contributiva relativamente curta, o que se reflecte nas respectivas pensões de reforma, algumas muito, mas muito abaixo dos salários que auferiam; se para quem saiu de casa dos pais antes do 25 de Abril alugar uma casa era relativamente simples, a seguir à revolução isso era quase impossível e até aos anos 90 comprar casa era para quem podia dispor de dinheiro para uma entrada relativamente generosa. Vá lá, a vida profissional talvez tivesse um carácter menos competitivo do que hoje (de certeza teria). Podia alongar-me, falando inclusivamente sobre o que é crescer e viver em ditadura, mas não quero tornar-me fastidioso - e os exemplos, penso, serão suficientes.

Resumindo... Tem a actual “geração à rasca” razões para se sentir insegura e aspirar, protestando, a uma vida mais estável e compensadora? Estou certo que sim: cada geração tem os seus próprios problemas e não devem (politicamente, não podem) as gerações anteriores ignorá-los e incompreendê-los. Mas talvez não tenha assim tanta razão quando considera privilegiada a geração dos seus pais e muito menos a terá quando pensa que é única em sacrifícios. E como descendente de uma família de estrangeiros, nem sequer ouso citar os europeus que se sacrificaram nas duas guerras mundiais ou na guerra civil de Espanha para que a minha geração pudesse viver alguns anos de paz e prosperidade económica, e a actual viajasse por todo um continente sem sequer ter que trocar dinheiro ou usar um passaporte. Vale?

segunda-feira, março 07, 2011

"The Lost Prince" (11)


"The Lost Prince" (BBC - 2003)

"Shindig" - British Invasion (2)



1. Freddie & The Dreamers - "You Were Made For Me"

2. Chad and Jeremy - "Willow Weep For Me"

3. The Yardbirds - "Heart Full Of Soul"

"Não há almoços grátis"!

Depois de anos a emigrar de tamancos para padeiros no Brasil, de mala de cartão para o bidonville parisiense, para a “faina” do bacalhau na Terra Nova, fugindo de um país onde se trabalhava de “sol a sol”, sem gente qualificada, vivendo no granito e no xisto da ruralidade, onde a maioria não saía da aldeia onde tinha nascido, trabalhava para o mesmo patrão toda uma vida, a taxa de mortalidade infantil era alta e a esperança de vida baixa, mas virtualmente sem desemprego, os portugueses têm agora quem faça os trabalhos de que não gostam, licenciados sem emprego ou em trabalhos precários, outros, altamente qualificados, emigram para onde têm trabalho, muitos que lutam, não por novas regalias, mas para manter as que têm, famílias que assumem vão poupar nas férias ou nas viagens ao estrangeiro, uma taxa de mortalidade infantil quase inexistente e uma das esperanças de vida mais elevadas do mundo. Mas, infelizmente, taxas de desemprego e precariedade elevadas. Finalmente os portugueses ascenderam ao primeiro mundo, com todos os problemas daí decorrentes. É bom que se convençam disso, até porque, nunca é demais repeti-lo, "não há almoços grátis".