segunda-feira, janeiro 31, 2011

"Love In A Cold Climate" (1)

PSP: um Estado dentro do Estado?

Até quando a PSP continuará a ser um Estado dentro do Estado?, definindo e executando as suas próprias leis (será que a morte a tiro é a pena prevista para roubo de viaturas?), à revelia das leis da República, usando de força desproporcionada e julgando sumariamente suspeitos. O ministro Rui Pereira (um notório erro de “casting”) deve, mais uma vez, explicações aos seus concidadãos respeitadores dos direitos, liberdades e garantias como elementos estruturais definidores do Estado de Direito Democrático.

Sim, sou dos que prefere um criminoso em liberdade do que o desrespeito pelas mais elementares regras do Estado de Direito. E também não me parece seja o meu perfil o de um terrorista ou "perigoso esquerdista radical"...

"You Will Meet A Tall Dark Stranger"

Vemos Woody Allen e as suas obsessões há talvez mais de quarenta anos. Umas vezes reinventa-se, outras mais ou menos se repete; umas gostamos mais, outras menos. Por vezes, dizemos “este é o grande Woody Allen (“Deconstructing Harry”, por exemplo, ou também “Match Point”); outras achamos que já teve melhores dias. O problema, ou o que é gratificante, é que as obsessões de Allen são também as nossas e acompanham-nos na evolução (ou será antes decadência?) da vida; e, para além disso, existe sempre alguma coisa de novo e refrescante que torna o tempo sempre inteligentemente bem passado e nos faz regressar a casa com algo de novo no espírito.

Neste “You Will Meet A Tall Dark Stranger” o que nos refresca? Claro que um festival de representação de fantásticos actores sobre um texto apenas escorreito mas bem escrito para cinema. E, claro, “girl next door” Naomi Watts, uma das minhas favoritas, (enche o filme) e a lindíssima introdução a este “Fandango” do Quinteto para guitarra e cordas nº 448 de Luigi Boccherini. Ao contrário do que pensa Gemma Jones no filme, não vivemos já outras vidas nem sequer reencarnaremos; mas Allen e,neste caso, Watts e Boccherini mas também os outros, para não ser injusto, tornam esta bem menos penosa e muito mais suportável. Bem melhor de ser vivida!


Luigi Boccherini (1743-1805) - Quinteto para guitarra nº 448 (3º andamento - grave assai)

domingo, janeiro 30, 2011

Pedro Passos Coelho e o "passe social"

Uma informação para Pedro Passos Coelho, a quem parece os justos elogios ao seu discurso na noite das eleições presidenciais terão feito mal:
  1. São já os cidadãos com menos recursos que beneficiam do “passe social”, principalmente dos mais caros por residirem maioritariamente nas áreas suburbanas. Mais ainda numa conjuntura em que os combustíveis são caros, sendo os que ganham menos os primeiros a optar pelo transporte público. Os restantes, com maiores rendimentos, deslocam-se de carro.
  2. O “passe social” funciona também como um desconto ao utilizador intensivo, fomentando a utilização de transportes públicos com todos os benefícios daí inerentes em termos de ambiente e mobilidade urbana, principalmente nos acessos às cidades de Lisboa e Porto. Penalizar quem deles faz utilização diária vai, pois, ao arrepio da tendência de todas as políticas adoptadas hoje em dia nessas áreas.
  3. Onerar ou limitar a concessão de “passe social” significa reduzir salários a quem a eles (“passes sociais” deixa de ter acesso, como se de um taxa ou imposto adicional se tratasse. Ou, em compensação, “forçar” as entidades empregadoras a aumentar a respectiva massa salarial, inflacionando custos. Em nenhum dos casos me parece a ocasião mais propícia. Nem acho tal esteja em linha com as soluções de menos impostos e menores custos salariais que o PSD tem defendido como políticas suas.
  4. Por último, mas não menos importante, resta o “salsifré” que se iria gerar com a proposta ligação entre a concessão do “passe social” e a “declaração de rendimentos”. Como iria fazer? Considerar a existência de escalões? Nem quero bem imaginar o que tal seria...

Nazi Exploitation (11)






SS Camp 5: Womens's Hell (1977)

Orçamentos dos clubes portugueses e franceses e modelo competitivo

Não, não vou comparar o incomparável, isto é, os orçamentos dos clubes da Liga portuguesa (LPFP) com os da Premiership ou da Liga espanhola. Fiquemo-nos por algo um pouco mais modesto, fazendo a comparação com a Liga francesa. De acordo com esses números, FCP e SLB, com orçamentos a rondar os 50M (não encontrei números exactos para esta época), ocupariam uma posição abaixo do 7º lugar no “ranking” orçamental, algures entre o AS Monaco e o Stade Rennes. Quanto ao SCP,com os seus cerca de 20 e poucos milhões, contentar-se-ia com um... 19º e penúltimo lugar. Resta acrescentar que o orçamento mais baixo da Ligue1, o do quase desconhecido Arles-Avignon (18M), é cerca de duas vezes e meia superior ao do SC Braga, que disputou a fase de grupos da Champions League, e que o orçamento do Istres, o mais baixo entre os clubes da Ligue2, andará pelo nível dos clubes madeirenses, Marítimo e Nacional.

Conclusões? Volto à minha “vaca fria”: o actual modelo competitivo do futebol profissional, baseado nas Ligas nacionais e herdado da primeira metade do século XX, de um futebol cujas receitas eram locais e se baseavam na quotização dos associados e na “bilheteira”, é incomportável para os maiores clubes dos pequenos países, sendo necessário à sua sobrevivência um modelo que lhes permita o acesso à partilha de receitas do mercado mundial.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Tarzan (10)






"Tarzan and The Leopard Woman", de Kurt Neumann (1946)

O CDS, o PSD e um futuro governo

Leio e oiço por aí que o actual posicionamento ideológico do PSD de Passos Coelho, mais liberal, dificultaria os entendimentos com o CDS. Não me parece: o CDS tem esse mui raro dom do mimetismo que o faz adaptar às circunstâncias sempre que se aproxima a hipótese de ser poder. Para tal já se começou a pôr em bicos de pés!

Claro que o PSD tentará sempre o “dois em um”: ter o CDS no governo para não sofrer o “efeito de tenaz”, mas reduzir essa presença ao mínimo necessário de um ou dois ministros – um “de Estado” de “fachada” e outro mais ou menos irrelevante – e uns tantos secretários de Estado ignotos. Para tal, tudo fará pela maioria absoluta.

Pipes & Drums (4)


Royal Scots Polka & The Conundrum

Sobre o "blog" de António Boronha

O “blog” do ex-dirigente federativo António Boronha é bem o retrato do que é o futebol português, da pobreza e provincianismo dos seus dirigentes, dos interesses que o movem e dos vícios de que enferma. ¾ do que escreve é dedicado ás “tricas” de bastidores, das eleições da FPF e do SCP, de pequenos ódios e críticas para com os dirigentes da FIFA e da UEFA, do fulanismo em “huis clos” feito de pequenos ajustes de contas. Do restante, para além de, por vezes, umas tiradas políticas onde reina o primitivismo demagógico e de umas fotografias de “gajas boas” que são o “café com leite” e a “fruta” do “blog” (prefiro o "E Deus Criou a Mulher"), do “jogo jogado” (as minhas desculpas à TSF pelo plágio) apenas, aqui e ali, uma ou outra análise pouco ou nada mais do que superficial.

Já agora – para que não digam que só gosto de dizer mal - o que, sobre “bola”, embora desigual e não significando concordância permanente com o que lá se diz, merece alguma atenção na cena mediática:

Vasco Pulido Valente e o Presidente

Em desacordo com Vasco Pulido Valente (via "Da Literatura"). Ao contrário do que VPV diz, Portugal não precisa para nada de um Presidente. Mas precisa ainda menos de um mau Presidente, como o tem sido Cavaco Silva. Precisa, isso sim, de um governo estável dotado de maioria parlamentar e, no actual quadro constitucional, não vejo onde um qualquer Presidente da República, mesmo que não este, possa dar grande ajuda nesse aspecto.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

História(s) da Música Popular (174)


The Ivy League - "Funny How Love Can Be" (Carter & Lewis)


The Ivy League -"Lonely Room" (Carter-Lewis-Ford)

Carter & Lewis (V)

Vamos lá então e agora ao que mais importa quando falamos de Carter & Lewis. E o que mais importa é seguramente a Ivy League, trio formado em 1964 pelos mesmos mais Perry Ford e que nas suas harmonias vocais e estilo interpretativo muito já nos remete para a “sunshine pop” dos Association (por exemplo) e para “Let’s Go To San Francisco”, tema de Carter & Lewis entregue aos Flower Pot Men (1967) e já incluído no “post” anterior de “História(s) da Música Popular”.

Pois o primeiro “single” do trio, editado em 1964, chamou-se”What More Do You Want” e dele não reza a História. O sucesso chegou mesmo um ano mais tarde com “Funny How Love Can Be (Carter –Lewis), que chegou ao “top ten” no UK, “A” side de um "single" que incluía “Lonely Room” (dos mesmos + Perry Ford) no lado “B”. É um dos meus “B” side favoritos da Ivy League(o outro é “Rain Rain Go Away” – lá iremos) e por isso resolvi deixar aqui o disco completo do tempo em que não existiam “downloads”, mas sim discos com “A”sides e “B” sides que se vendiam em sítios tão improváveis como papelarias e lojas de artigos eléctricos.

Nota:
A melhor colectânea que conheço da Ivy League chama-se “The Major League” (2 CDs). Custa pouco mais de £8 na Amazon e reparo agora que a minha (diferentes grafismo e editora mas mesmo alinhamento) custou bem mais do que isso comprada em Londres já lá vão uns anos. Coisas...

Regimental Ties (11)

Argyll and Sutherland Highlanders Tie

"The Argyll and Sutherland Highlanders was an infantry regiment of the British Army, part of the Scottish Division. In 2004, as part of the restructuring of the infantry, it was announced that the Argyll and Sutherland Highlanders would be amalgamated with the other Scottish infantry regiments into the single Royal Regiment of Scotland, it is now known as The Argyll and Sutherland Highlanders, 5th Battalion The Royal Regiment of Scotland. "

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Duas notas sobre o próximo Congresso do PS

  1. Iniciativas do tipo “Novas Fronteiras” ou “Estados Gerais” costumam ser eficazes quando se aproximam os tempos de assumir o poder, com a capacidade deste para atrair independentes e criar novos fiéis. Nessas ocasiões, depois de passado algum tempo na oposição, o partido que os convoca pode mesmo apresentar-se perante o país com alguma virgindade política e novas ideias vistas como “refrescantes”. Funcionará quando um partido está no poder em tempos de grave crise e dirige um governo fraco? De qualquer modo, na actual conjuntura e quando se é poder, só funcionará se os seus resultados vierem a reflectir-se em nova composição e novos planos de actividade do governo. Conseguirá o PS atrair para a governação gente que nos provoque algum entusiasmo e cause algum solavanco positivo no país? Pela composição do actual governo, tal parece pouco provável...
  2. O Congresso do PS decorre em data-chave. Até lá parece afastada a necessidade de recurso a auxílio externo (vulgo, FMI), mas parece ainda cedo para existirem dados oficiais sobre a execução orçamental do primeiro trimestre, facto essencial para se conhecer o que se seguirá. Se tudo correr bem nas contas públicas, José Sócrates talvez vá a tempo de apresentar alguns dados antecipados, não oficiais, que o legitimem e ao governo. A tal ser possível, seria mesmo a apoteose e constituiria enorme fôlego para o partido e para o governo. Se correr mal ou menos bem será balde demasiado grande e frio a ser lançado umas semanas depois, e anulará completamente o efeito de “Novas Fronteiras” e Congresso.

Janis Martin, Barbara Pittman e Wanda Jackson (3)


Wanda Jackson - "Honey Bop"

Ora não querem lá ver que até vou falar do "processo Casa Pia"?!

Ora expliquem-me lá como se eu fosse muito loiro e muito estúpido.

Carlos Silvino, um dos arguidos do chamado "processo Casa Pia” e já condenado em 1ª instância, aguardando decisão de recurso, dá uma entrevista à revista “Focus”, na pessoa de um jornalista autor de um livro escrito em defesa de um outro arguido no mesmo processo e em igual situação(Carlos Cruz), em que desdiz tudo o que afirmou em tribunal durante o julgamento e quando se encontrava sob juramento. Que credibilidade tem tal entrevista para ser elevada à categoria de grande”furo” jornalístico e ter direito (ao que dizem – não vi) a difusão em “prime time” na SIC e a ocupar lugar de destaque nos noticiários da manhã da TSF, sendo também tema de discussão no respectivo “Fórum”? Se não tem credibilidade, qual a razão para tal?

Sei as respostas; mas não digo!

Nota:
Mais uma vez: não tenho lado da “barricada” no “processo Casa Pia” e considero os tribunais, funcionando bem, mal ou “assim-assim”, a única instância legítima para julgar, absolver ou condenar, por muitas certezas ou dúvidas que existam sobre a justiça das sentenças deles emanadas... Mais ainda: neste como em todos os processos, todos os arguidos são inocentes até trânsito em julgado da respectivas sentenças.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

A propósito da eleições presidenciais: orgãos de estado unipessoais e os perigos para a democracia

Muitos jornalistas e comentadores salientaram como facto positivo das eleições presidenciais, já verificado em menor escala em 2006, o chamado “espaço aberto à cidadania”, com eleitores oriundos da sociedade civil e/ou que dela se reclamam. Analisadas as candidaturas de Manuel Alegre em 2006 (apesar de Alegre ser um político profissional) e Fernando Nobre em 2011, com toda a carga populista e/ou vacuidade e contradições políticas de que enfermaram, não vejo o que de positivo tais candidaturas possam trazer ao país, à democracia e aos portugueses. Pior: ao contrário do que muitos portugueses pensam, contêm em si, a prazo, o germe do enfraquecimento da democracia pela convicção que momentaneamente podem gerar na sociedade de que os problemas se resolvem com a subalternização dos políticos e o enfraquecimento dos partidos. E não há democracia sem partidos políticos fortes, estruturados e com grande inserção na sociedade.

Trata-se de um fenómeno muito comum em algumas sociedades periféricas, de desenvolvimento intermédio e extremas desigualdades sociais, e evidencia bem alguns dos perigos ligados a eleições para cargos unipessoais, onde a interferência partidária e a ideologia tendem a ser mais fracos e o perfil pessoal e “carácter” dos candidatos assume um papel relevante (Câmaras e presidenciais).

Esta uma das razões porque defendo o parlamentarismo e desconfio, numa sociedade como a portuguesa, dos círculos uninominais nas eleições legislativas. A reeleição sistemática do Presidente da República em exercício e a sucessiva, por vários mandatos, de responsáveis autárquicos, a ponto de ter sido necessário introduzir a sua limitação, bem deveria servir para alertar os aprendizes de feiticeiro. O problema, o verdadeiro problema, é que Portugal é uma democracia com poucos democratas e ainda menos com gente de fortes convicções democráticas.

"Licht und Schatten" - o expressionismo alemão no cinema (8)





"Metropolis", de Fritz Lang (1927)

Onde se analisa a estratégia dos candidatos derrotados: apesar de tudo, algum sucesso

Para se analisar da correcção ou incorreção estratégica das campanhas eleitorais dos candidatos que se opuseram a Cavaco Silva será necessário, antes do mais, determinar quais os objectivos desses mesmos candidatos. Ora numa coisa todos estiveram de acordo: o objectivo seria obrigar Cavaco Silva a uma 2ª volta ou, nessa impossibilidade, diminuir a percentagem e número de votos do candidato incumbente. Eram objectivos realistas ou estariam sub ou sobre-dimensionados?

Bom, face à História da democracia portuguesa, das reeleições presidenciais, condições concretas em que se disputava a eleição, forças/fraquezas, perfis e apoios dos candidatos, números das sondagens, etc, etc, obrigar Cavaco Silva a uma 2ª volta seria bastante improvável, e os candidatos sabiam-no, do mesmo modo que também sabiam que para alcançarem esse primeiro objectivo ou diminuírem drasticamente o resultado eleitoral do candidato incumbente (objectivo secundário mas não contraditório com o primeiro) seriam necessários uma elevada abstenção e um crescimento acentuado do “voto de protesto”. Ora para isso, no curto-prazo de uma campanha eleitoral e tendo em atenção o descontentamento mais ou menos generalizado para com os “políticos” (na sua “honestidade”, “verdade” e coisas do género) e o pouco entusiasmo que o actual Presidente suscita em muitos dos seus tradicionais votantes, funcionaria sempre bem melhor junto dos indecisos uma campanha de “casos”, minando a credibilidade "moral" de de Cavaco Silva (e ele bem se pôs a jeito), do que a discussão política “pura e dura”, pouco eficaz junto da população menos politizada que sempre compõe maioritariamente o grupo dos que hesitam no destino do seu voto.

Tendo dito isto, e goste-se ou não (e eu não gosto e até acho prejudicial para a democracia) que a luta política quase se reduza a este esgrimir de “casos”, em face da percentagem e número de votos alcançados por Cavaco Silva e dos valores da abstenção e votos brancos e nulos temos de concluir que a estratégia, não conseguindo atingir o seu principal objectivo, em si mesmo quase impossível, acabou por se materializar num relativo sucesso: a percentagem e o número de votos mais baixos de sempre de um Presidente reeleito. No fundo, os candidatos que competiram contra Cavaco Silva fizeram um pouco como aquelas equipas de futebol que, reconhecendo não poder lutar de “igual para igual” com o adversário, jogando o “jogo pelo jogo”, optam por “estacionar” o já célebre “double decker” frente à sua baliza: é feio, mas por vezes funciona; pode não dar para ganhar, mas para empatar ou perder por poucos até pode ser que resulte. Pelo menos, é (foi) a única estratégia possível.

Noite eleitoral: Cavaco e Passos Coelho, dois discursos nos antípodas

  1. Já o disse nos 140 caracteres do “twitter”: Cavaco Silva fez um discurso de vitória igual a si próprio, traçando o seu verdadeiro auto-retrato: mesquinho, vingativo, pequenino e sem qualquer vislumbre (muito menos rasgo) de grandeza ou sentido de Estado. De inchado auto-elogio, messiânico e apelando à delação, neste ponto se esquecendo do episódio das escutas e do “seu” Fernando Lima. Era assim há trinta e tal anos, quando meu professor de Finanças Públicas, o que prova depois dos trinta dificilmente alguém muda.

    Foi um discurso de um presidente cuja força vem do “povo”? Diria que bem mais do Zé Povinho, também ele desconfiado, provinciano, invejoso, sem horizontes e sempre pronto a tirar desforço, à sacholada, do vizinho por qualquer razão de águas ou de ramada de árvore de fruto.

  2. Nos antípodas o discurso de Passos Coelho: equilibrado, de Estado, salientando a separação de poderes e o domínio do legislativo e do executivo na arquitetura constitucional portuguesa. Colocando “água na fervura” de quaisquer veleidades “caudilhistas” de uma parte do eleitorado de direita. Claro que é a atitude que lhe convém, neste momento, mas, francamente, parece-me seria muito injusto considerar que foi só isso e não algo que resulta de uma posição política estruturada.

domingo, janeiro 23, 2011

José Sócrates: um vencedor da noite

Reelege Cavaco Silva com a mais baixa percentagem e votação de sempre numa reeleição (um mal menor), derrota o Bloco de Esquerda e a sua OPA hostil sobre o PS e põe termo à carreira política de Manuel Alegre e à sua influência no interior do PS.

Relexões após uma noite muito fria na "Catedral"

Muito frio na “Catedral” ontem há noite (4º agravados com wind chill na hora do regresso a casa), mas deu para ver que a equipa está mais confiante – por isso, mais “solta” – e que Sálvio, além de largura e profundidade atacante, deu á equipa uma agressividade no último terço do campo que até aqui pouco se via. Mas atenção:
  1. A equipa continua a perder demasiadas vezes a bola em zonas onde isso não pode acontecer, fruto de um futebol por vezes vistoso mas também demasiado “curto” e individualista. Contra equipas de outro nível, pode ser muito complicado. Quem viu ontem o Man. United percebeu como é possível jogar largo, simples e bonito: três ou quatro passes e bola na baliza.
  2. Alguma desconcentração, o que se compreende. A ganhar por 3-0 e com o FCP oito pontos à sua frente e o SCP a igual distância atrás de si, é natural que a equipa interiorize que “les jeux sont faits”.
  3. Se David Luiz (não jogou ontem, castigado) sair agora (e por vinte e muitos milhões, não vejo porque não), isso “mexerá” com alguns princípios de jogo da equipa. Com a sua agressividade e rapidez de arranque, David Luiz vem muitas vezes dobrar à esquerda, permitindo maior liberdade a Coentrão. Mais: a sua capacidade técnica permite-lhe “sair a jogar”, ganhando mais um elemento no meio-campo e equilibrando um sector onde apenas Javi Garcia tem poder físico-atlético e inegáveis competências defensivas. Portanto, ou a equipa tem um copycat de David Luiz, mesmo que um pouco pior, ou terá que proceder a algumas modificações nestes princípios.
  4. Faz falta à equipa, neste momento, um verdadeiro teste às suas capacidades, num campeonato muito desequilibrado. Venha rapidamente o VfB Stuttgart.

Ainda o Estatuto dos Magistrados Judiciais

No noticiário da ½ noite de sexta-feira, na TSF, foi possível ouvir declarações do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, dirigidos, respectivamente, pelos sinistros João Palma e António Martins, manifestando o seu apreço e saudando os partidos da oposição, mormente o PSD, por se terem oposto ao projecto de lei de alteração do Estatuto dos Magistrados (pode também ler aqui o comunicado da ASJP). Sobre o que tal declaração indicia no que diz respeito à isenção e independência dos juízes e magistrados e ao seu envolvimento, de facto, na luta política,escuso-me de acrescentar o que quer que seja.

Note-se, para que não subsistam dúvidas, que o meu comentário seria exactamente o mesmo quaisquer que fossem os partidos no governo e na oposição.

Ópera não é só música para operários (5)


W. A. Mozart - Don Giovanni: "Finch'han dal vino"

Intérprete: Cesare Siepi

sexta-feira, janeiro 21, 2011

A RTP1 e o comentário eleitoral

António Vitorino e Rui Rio serão os comentadores de serviço na RTP1 no dia das eleições. Alguém me explica que sentido faz serem dois políticos e dirigentes (ou ex-dirigentes) partidários destacados, um deles presidente da Câmara Municipal da segunda maior cidade do país, a assumir esse papel e não politólogos, jornalistas e comentadores independentes? E por que razão se discriminam assim os restantes partidos e candidaturas?

A pior campanha de sempre?

A pior campanha de sempre? Não se discutem os verdadeiros problemas dos portugueses? Bom, tendo em atenção o que se vê nos “media” fora do período de campanha e partindo do princípio que isso é o que “vende”, gostaria não só de saber se os portugueses (a sua maioria) pretendem mesmo ver discutidos, com seriedade, os seus problemas, como, se em tempo de 140 caracteres no “twitter”, “gosto” e “não gosto” no Facebook ou no You Tube, “blogs” onde quase ninguém tem paciência para ler mais do que um parágrafo - e quanto menos profundo melhor - e alguns segundos na TV onde a imagem vale mais do que o verbo, ainda será possível que algo de diferente, tal como campanhas “porta a porta” ou as “sessões de esclarecimento” do pós-25 de Abril, atraia a atenção desses mesmos portugueses.

Para além disso, tratando-se de um cargo “unipessoal”, não governando o Presidente e limitados (felizmente – deste e de qualquer outro) que são os seus poderes, discutiriam o quê? Questões de perfil e personalidade, de “carácter”, de comportamento. E não foi isso que fizeram? Não me “lixem”!!!

"Só Dylan é Dylan" - homenagem a "Em Órbita" (2)

Bob Dylan - Visions Of Johanna .mp3
Found at bee mp3 search engine
Bob Dylan - "Visions of Johanna"

Acordo s/ o Estatuto dos Magistrados: um dia triste

Se alguém alguma vez pensou que um governo de maioria absoluta poderia mandar na educação substituindo a FENPROF daquele senhor de bigode, a aliança espúria entre essa mesma FENPROF, do tal senhor de bigode, o BE e o PCP, por uma lado, e o PSD, o CDS e uma boa parte do PS, por outro, com uma achega de um Presidente da República que agora se mostra tão preocupado (diz ele) com a defesa dos “contratos de associação” com o ensino privado (note-se que nada tenho contra o financiamento do Estado ao ensino privado desde e quando tal se justifique),levando ao afastamento da melhor ministra da Educação da democracia, esse alguém deve ter perdido qualquer esperança.

Se alguém pensou que um governo de maioria absoluta alguma vez poderia pôr na ordem os “gauleiters” das autarquias e o seu despesismo acéfalo, os senhores Litérios de todas as Anadias espalhadas por este país, a versão pós-moderna da “Maria da Fonte”, a propósito do anti-patriotismo de ir nascer a Badajoz e não existir um médico à porta de casa de cada cidadão, levando ao afastamento do ministro Correia de Campos com a conivência da mesma coligação acima, terá reduzido a pó a esperança alimentada por esses poucos.

Agora, se um punhado de ingénuos ainda achava que um “pacto de regime” para a Justiça seria condição indispensável para a sua reforma e isenção, para que esta passasse a funcionar minimamente como em qualquer país civilizado, a ser verdade este acordo selado entre PS e PSD a propósito do Estatuto dos Magistrados, culminando um par de semanas de intensa batalha política pelo domínio das Magistraturas e cedendo em toda a linha ao poder das respectivas corporações, faz corar de vergonha todos os portugueses e, simultâneamente, não deixará de contribuir para o já enorme desprezo que juízes e magistrados (orgão de soberania não eleito) sentem pelos agentes políticos, restantes orgãos de soberania e, o que é ainda pior, pelos cidadãos em geral - sentimento que, aliás, nunca perdem oportunidade de demonstrar na praça pública.

Estamos perante um acordo que envergonha os dois principais partidos políticos, o país e todos os portugueses. Um dia muito triste.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Spicy (3)

Maio de 1936

A morte de Don Kirshner e a ignorância jornalística do "Expresso"

De facto, a ignorância jornalística não tem limites. A propósito da morte de Don Kirshner (ver "post" neste "blog") o "Expresso" não só lhe chama "compositor de Elvis Presley" (não tenho ideia que Kirshner alguma vez tenha composto o que quer que fosse, muito menos nada de relevante ou para Presley) como, para justificar tal epíteto, lhe atribui a autoria de "You've Lost That Lovin' Feelin'". Duas notas:
  1. Embora Presley tenha interpretado "You've Lost That Lovin' Feelin'", pouca gente o saberá, já que o tema foi êxito retumbante, isso sim, na voz dos Righteous Brothers (editado em Dezembro de 1964 - #1 em Fevereiro de 1965), aos quais ficará para sempre ligado. Aliás, para além do "cover" de Elvis Presley existe uma lista infindável de versões, algumas bem mais conhecidas do que a de Presley.
  2. Os seus autores são Barry Mann, Cynthia Weil e Phil Spector, nomes incontornáveis da música popular, do Brill Building e da Aldon Music de Kirshner e Al Nevins, claro. Mas daí a atribuir-se a sua autoria a Kirshner...
  3. Os nomes do Brill Building indissoluvelmente ligados à carreira de Presley depois da passagem deste da SUN para a RCA são Jerry Leiber e Mike Stoller, autores de temas como "Treat Me Nice", "Baby I Don't Care", "Love Me", "Jailhouse Rock" e por aí fora.

Uma lástima, já que o "Expresso" tem obrigações.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Morreu Don Kirshner (1934-2011), o homem que inventou a "pop"


Texto publicado neste "blog" e integrado no nº 50 de "História(s) da Música Popular" (11 de Julho de 2007)

"Pois a história podia começar assim: era uma vez um edifício situado no nº 1619 da Broadway. Ou então assim: o mercado emergente da nova cultura juvenil a que o r&r deu voz, não podia passar despercebido à indústria da música, que viu nele abrir-se um novo campo ao seu desenvolvimento. Pois então fica assim: desde antes da WWII que muitas das grandes produtoras e editoras de música tinham a sua sede no nº 1619 da Broadway, o “Brill Building”, assim chamado por via dos irmãos Brill, os seus proprietários originais. Depois do advento do r&r, mais precisamente em 1958, Don Kirshner, aquele que viria a ser um dos grandes produtores da pop (foi o "inventor" dos Monkeys e dos Archies), e a sua Aldon Music (em parceria com Al Nevins) estabeleceram aí os seus escritórios, embora mais tarde se tenham transferido para o nº 1650. E agora uma curiosidade: porquê aí? Bom, o nº 1650 tinha sido propositadamente construído para o efeito, com portas laterais, já que as leis da época não permitiam que os músicos utilizassem as... portas da frente! Era um bocado como se fossem os “marçanos” e as “sopeiras” da minha infância! E qual a ideia de Kirshner? Exactamente, partindo do r&r e tendo como mercado-alvo a nova cultura juvenil, criar um estilo musical mais melódico, musicalmente mais bem estruturado e orquestrado, suficientemente simples para ficar no ouvido mas sem o seu lado mais selvagem e que fosse ao encontro dos valores, sentimentos e aspirações dessa nova cultura emergente. Digamos que assim nasceu a pop, tal como hoje a conhecemos.

Para isso era necessário recorrer a quem tivesse bons conhecimentos de música e composição, mas, simultaneamente, fosse novo de idade e mente o suficiente para se enquadrar no espírito da época. E, de acordo com estes padrões, quem foram os primeiros contratados? Uma dupla já conhecida por ter composto um grande êxito para Connie Francis (“Stupid Cupid”, mais conhecido em Portugal pelo cover da brasileira Celly Campelo): Neil Sedaka, um músico de dezoito anos de formação clássica (piano), e o seu colega de escola Howie Greenfield. Foi apenas o início: Sedaka começou aí uma carreira recheada de êxitos como cantor e compositor (a “meias” com Greenfield), Kirshner enriqueceu, outras duplas de maior sucesso e consistência (até nas “letras”) foram contratadas (Barry Mann – Cynthia Weil; Carole King – Gerry Gofin; Ellie Greenwich – Jeff Barry; Doc Pomus – Mort Shuman; Jerry Leiber – Mike Stoller) e ao Brill Building ficaria para sempre ligado aquele que foi o maior produtor de sempre da pop music, tendo mesmo definido novos padrões para a função: Phil Spector, o “inventor” do célebre “Wall of Sound” e de um sem número de grupos e cantores da 1ª metade dos anos sessenta. Lá iremos, já que por aqui, pelo Brill Building, iremos ficar longo tempo, que ele (o 1619 – 1650 da Broadway) bem o merece.

Pois comecemos por aquele que terá sido mesmo o começo: “The Diary” da dupla “Greenfield – Sedaka”, #14 em 1959, interpretado pelo próprio Sedaka. Se pensarmos que Sedaka tinha sido escolhido por Arthur Rubinstein “himself” para tocar piano num espectáculo da “Antena 2” lá do sítio, veremos quão insondáveis são os desígnios da música e quanto toda ela é uma paixão."

Nota final: o "Expresso" chama a Kirshner "compositor de Elvis Presley". Não sei onde foram inventar tal disparate, mas apetece-me dizer que a ignorância não tem limites.

Neil Sedaka - "The Diary"

"ab origine": esses originais (quase) desconhecidos... (2)

Earl-Jean McCrea - "I'm Into Something Good" (Gerry Gofin-Carole King) - 1964

Original do tema mais conhecido na interpretação dos Herman's Hermits (mesmo ano)

Sufrágio directo (agora é "direto", não é?), poderes presidenciais e o "povo"

Em face dos actuais poderes do Presidente da República (e, note-se, como parlamentarista convicto eu gostaria ainda tivesse menos) nada justifica a sua eleição por sufrágio directo e universal. Pior, o desfasamento entre o método de eleição e os seus efectivos poderes arrisca-se a contribuir ainda mais para um maior afastamento entre governantes e governados, cidadãos e políticos, uma vez que, estou convicto, a maioria dos portugueses, não tendo perfeita noção da exiguidade de poderes que a constituição confere ao cargo de Presidente da República ,tenderá a sentir-se defraudada, nas suas expectativas, com o modo como este exerce o seu mandato.

O problema é que, por via disso, colocar um ponto final a este estado de coisas, passando a eleger o presidente através de um colégio eleitoral ou sendo o cargo exercido pelo Presidente da Assembleia da República, iria sempre ser visto (suspeito), por uma maioria, como correspondendo a um "encolhimento" da democracia, uma “manobra dos políticos” (como se o PR o não fosse) em seu exclusivo proveito. Embora republicano q. b., é nestas circunstâncias que sinto alguma inveja das monarquias constitucionais.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Skiffle (2)


Lonnie Donegan - "Rock Island Line"

O "Público" e o estudo da GFK: como ler.

Afirma o “Público” que, segundo um estudo realizado pela GFK, “metade dos portugueses diz que o país está pior do que antes do 25 de Abril”. Algumas notas.

  1. No texto verificamos logo que não se trata de metade mas sim de 46%, o que é bem menos do que metade. Há que ser rigoroso no modo como se titula.
  2. Para o estudo ter alguma validade, os interrogados deveriam estar em plena vida activa há 40 anos. Deveriam ter, portanto, mais de 18 anos em 1971, o que significa 58 anos actualmente. Se é esse o universo do estudo - o que seria o correcto - apenas se pode falar em 46% dos portugueses com mais de 58 anos e nunca em 46% dos portugueses. Se não o é, estamos perante um disparate total (acho). Ora, por muito que tenha procurado no texto do "Público", o estudo nada nos esclarece sobre o assunto.
  3. Quem tem hoje mais de 58 anos seria, como vimos, adolescente ou jovem adulto em 1971. Ora a vida, por muito dura que tivesse sido, é sempre bem mais risonha quando se é jovem e quase todos os sonhos são permitidos. Este é um dado habitual quando se realizam inquéritos sobre o passado longínquo ("a escola era risonha e franca" e o tempo apaga as mágoas deixando apenas as gratas recordações). Quem tiver dúvidas veja o sucesso de "Conta-me Como Foi".
  4. Quem responde a este tipo de inquéritos tem sempre tendência a “pintar” a actual situação (qualquer que ela seja) com cores mais negras, funcionando a resposta muito como uma queixa “a quem de direito” para tentar a sua vida melhore. Uma maioria dos inquiridos parte sempre do princípio que de nada serve salientar os aspectos positivos, já que nada ganham com isso sendo esses sempre considerados como um direito adquirido. Há que ter isso em conta.
  5. Por último, um estudo como este não é “neutro”, e quem o encomendou e publica, não sendo muito difícil conhecer ab anteriori, de um modo geral, as suas principais conclusões, pretende com ele atingir um objectivo bem preciso e definido. Longe de mim estar a pretender com esta afirmação exercer qualquer pressão censória. Nada disso: total liberdade à execução e publicação deste tipo de estudos. Mas convém o cidadão que os lê saiba como o fazer, o que os pode influenciar e o que está em causa. Politicamente, claro!

O PSD e a oposição "à direita"

Nada que constitua enorme novidade, mas é sempre interessante lembrá-lo... Nos últimos tempos, a “despesa” da oposição à direita, o seu “front line”, tem sido mais assumida por economistas, comentadores, jornalistas e “media” desse espaço político (quase me interrogo se existirão outros) do que propriamente por dirigentes e/ou membros do grupo parlamentar do PSD. Mais ainda, em termos ideológicos, assumindo posições muito mais próximas da direita “pura e dura” do que daquela que tem sido, tradicionalmente, a linha política de centro-direita maioritária no PSD.

Não admira. Primeiro, porque tal tipo de ideário parece-me ser bem mais eficaz na mobilização de uma “vanguarda” (como todas elas, reduzida em número mas activa e mobilizadora) do que um discurso mais centrista. Em segundo lugar, porque o PSD “oficial” não se pode permitir a assumir determinado tipo de ideias e a utilizar uma linguagem mais extremada ou pessimista, do tipo muito em voga de finis patriae. Em terceiro lugar, porque economistas,comentadores, jornalistas e “ofícios correlativos”, bem como os “media” onde expressam opinião, ainda são vistos por muitos como arautos e terreno da neutralidade (oh!, santa inocência!...). Por último, porque o indispensável apoio ao governo em assuntos essenciais para a governação, tal como o orçamento (e outros), não permite ao PSD “oficial” grande à vontade nem toda a latitude na expressão do combate político.

Perfeitamente legítimo, claro, mas convém sempre ter os factos bem presentes.

"Prós & Contras": afinal enganei-me (e ainda bem)

Confesso que me enganei... Isto de não entregar o "Totobola" (ainda existe?) há 2ª feira tem os seus inconvenientes.

Afinal, o "Prós & Contras" de ontem, certamente porque sem a presença de representantes corporativos, de partidos e de governo, mas com a presença de bons jornalistas (Teresa de Sousa, Pedro Guerreiro e Paulo Ferreira), do académico Filipe Menezes (que falou sobre a Irlanda) e do treinador de futebol Fernando Santos (uma boa surpresa o modo como falou sobre a Grécia), resultou, apesar de uma Fátima Campos Ferreira e de um Carlos Magno demasiado iguais a si próprios (o que é sempre mau), numa interessante e calma conversa (diria "cavaqueira") sobre a crise e os caminhos da Europa. Este, sim: um bom exemplo de serviço público que se saúda.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

O "Prós & Contras" trata o FMI como se este fosse o "Monstro da Lagoa Negra".

O título do “Prós & Contras” de hoje (“Portugal vai conseguir escapar ao FMI?”) é bem sintomático de como o sensacionalismo impregnou tudo e (quase)todos, tomando também conta do “serviço público de televisão”. Em primeiro lugar, trata-se uma instituição internacional como o FMI como se fosse um qualquer monstro do cinema de Jack Arnold a cujas “garras” seja necessário escapar a qualquer preço, em luta pela vida: não sendo eu um incondicional da sua intervenção nem dos que vai para o alto da serra da Estrela clamar pela sua chegada, as suas intervenções anteriores em Portugal mostram que não será bem assim. Depois, duvido muito alguém possa, com um grau razoável de certeza, responder à pergunta formulada numa realidade europeia em evolução constante. Por último, não se trata de saber se Portugal vai ou não conseguir “escapar”, mas sim de conhecer contornos de uma eventual intervenção; vantagens e desvantagens de recorrer a ajuda externa; do que, eventualmente, possa vir a determinar o recurso a essa ajuda; no caso de ela vir a ser necessária, quais as condições que poderemos esperar; se a decisão será essencialmente motivada por questões de carácter económico ou político; que implicações a sua intervenção (ou não intervenção) poderia ter na situação política interna e na UE, etc, etc. Enfim, o que seria necessário era uma discussão séria sobre o assunto, algo que, mesmo sem conhecer ainda os convidados, por certo dificilmente poderemos esperar.

"Globos" de quê?


"The King's Speech", de Tom Hooper (2010)

A atribuição dos Globos de Ouro para o melhor filme e melhor realizador a filme tão chato e desinteressante como "A Rede Social" e ao seu realizador David Fincher mostra bem o estado a que chegou o cinema. O ano passsado ainda fomos salvos pelos Óscares de Kathryn Bigelow e do seu "The Hurt Locker", mesmo assim um filme e uma realização que não passam do bom pequeno. Este ano, espero o pior. Talvez Colin Firth nos salve, mas ainda não vi o filme ("The King's Speech").

Janis Martin, Barbara Pittman e Wanda Jackson (2)


Barbara Pittman - "I'm Getting Better All The Time"

domingo, janeiro 16, 2011

O "Expresso" jogou à "batalha naval" e atirou um submarino ao fundo

Começo por dizer que não sou perito em questões de Defesa Nacional e muito menos conhecedor de assuntos relacionados com a defesa marítima. Por isso mesmo, não estou em posição de aferir da utilidade dos tão falados submarinos, embora tenha por hábito dizer que ainda não vi nem ouvi da parte dos defensores da sua indispensabilidade o que quer que fosse que me tenha cabalmente convencido de tal coisa. Enfim, também pelo que li e ouvi - embora, reafirmo, leigo em tal matéria – quer-me bem parecer que a Marinha Portuguesa não quis ver-se amputada da sua unidade de submarinos, mais por questão corporativa do que pela sua utilidade efectiva para as missões que competem às forças armadas, e que talvez seja bem esta a questão que levou à dita compra. E como, no fim do dia, eram provavelmente em maior número e mais influentes aqueles a quem o investimento convinha, pelas mais variadas razões, lá vieram os descendentes dos U-Boat a 500M a unidade.

Bom, mas tendo dito isto e marcado o meu território, “serve a presente” para declarar que o modo como o “Expresso” desta semana aborda a avaria do tal “Tridente” (é o nome do claustrofóbico submergível), que apesar do título do jornal e do sentido que este tenta dar à notícia me parece ser mais um caso de "running adjustments" do que avaria propriamente dita, me parece tudo menos sério, bem mais ao estilo de conversa de taxista e de “bater” porque é popular e caiu em desgraça do que análise ao assunto efectuada com a seriedade que tal mereceria.

Et tu, “Expresso”?

Dennis Potter's "Pennies From Heaven" (1)


"Pennies From Heaven" (1978) - "Pick Yourself Up"

A demissão de J. E. Bettencourt e algumas considerações de um "lampião" sobre o momento dos seus amigos e rivais "lagartos"

Conforme por aqui, aqui e aqui fui afirmando, os objectivos e estratégia do SCP para o seu futebol - ser o segundo clube português em resultados desportivos (objectivo alcançado na primeira década do século XXI) aproveitando as “migalhas” deixadas cair pelo FCP (umas Taças de Portugal e da Liga e dois campeonatos nacionais), a péssima gestão desportiva do meu “glorioso” e baseando a sua política de recursos humanos na formação com uma ou outra contratação adicional - , embora adequados face à incapacidade do clube para gerar receitas significativas e à sua diminuta capacidade de endividamento, apenas poderiam surtir efeito enquanto o SLB não melhorasse a sua gestão desportiva e Portugal fosse conseguindo “meter” dois clubes directamente na Champions League, duas condições que o SCP não poderia dominar. E quem confia essencialmente em erros alheios e cenários que dificilmente pode influenciar...

Perante a mudança das premissas em que assentava a estratégia assumida até então, a direcção presidida por JEB mudou de rumo, tentando, com um orçamento bem menor , competir “taco a taco” com SLB e FCP. É uma estratégia sem sentido, que, como tal, levou o clube a cometer enormes erros nos seus planos de acção, quer na área de recursos humanos (contratações erradas ou sem qualidade quando comparadas com as de SLB e FCP) , quer na estrutura dirigente da SAD (Costinha, Paulo Sérgio, Couceiro e organização e definição de funções) ou na desvalorização da “marca” (venda do passe de Moutinho à concorrência). Centrar as críticas nestes (vamos chamar-lhes assim) “efeitos de realidade”, sem perceber a incorrecta definição de objectivos e a estratégia errada que está na sua base, é ver apenas a parte emersa do iceberg, o que conduz ao naufrágio e levará os meus amigos “lagartos” a centrarem a sua análise em “nomes” de futuros candidatos à substituição de JEB sem cuidarem de saber aquilo que é essencial: o que pode ser o SCP, em função do seu “heritage” mas tendo muito em conta as circunstâncias actuais, internas (fraca capacidade de atracção de adeptos, incapacidade para gerar receitas e endividamento) e externas (cena futebolística muito polarizada entre SLB e FCP; segundo clube de uma cidade onde a autarquia, ao contrário de outras, não se assume como “dona” do clube; economia em recessão e crédito dificultado)? É para esta pergunta que os sócios e adeptos “lagartos” terão que encontrar uma resposta antes de se lançarem na lotaria do “toto-presidente”. Eu, metendo a minha foice benfiquista em seara alheia e face às ameaças que SC Braga e VSC (essencialmente estes) representam para os ""lagartos, sugiro que, antes de tudo o mais, o SCP trate de consolidar a sua posição enquanto terceiro clube português, partindo dessa posição, depois de consolidada, para, de quando em vez, tal qual fez o SC Braga na época transacta mas com maior frequência, se intrometer na luta entre SLB e FCP. É duro? Provavelmente, mas é a realidade. E o que tem de ser tem muita força!

sexta-feira, janeiro 14, 2011

João Marcelino e a " falta de ideia global para a sociedade portuguesa"

João Marcelino, director do DN, afirma à TSF que "falta uma ideia global para a sociedade portuguesa".

Gostaria de lembrar a João Marcelino que ideias globais para as sociedades a que presidiam tinham-nas Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Salazar, Pol Pot e, actualmente, tem-na o Grande ou Querido Líder de Pyongyang. A ideia global para a sociedade portuguesa chama-se democracia, o que significa que compete aos portugueses definirem a cada momento, no quadro legal democrático e respeitando os seus princípios fundadores e universalmente aceites, incluindo o respeito pelas minorias, os caminhos que vão pretendendo seguir.

Confesso que quando vejo o director de um jornal que se pretende de referência(?) fazer afirmações deste tipo, um arrepio de medo me percorre a espinha.

Giallo (6)




"Paranoia", de Umberto Lenzi (1968)

"Só Dylan é Dylan" - homenagem a "Em Órbita" (1)


Bob Dylan - "Absolutely Sweet Marie"

Futebol: o mercado de Janeiro e a mulher de César

Por mais de uma vez tenho manifestado neste “blog” a minha oposição à legislação (por existência ou omissão) que permite o empréstimo de jogadores a clubes que disputam a mesma competição na época a que esse(s) empréstimo(s) se refere(m). Permitir que jogadores actuem contra os clubes com os quais têm contrato, ou apenas o não possam fazer nesses mesmos jogos, e autorizar que, por esse meio, alguns dos clubes financiem, de facto, outros, falseia (e deixem-me utilizar uma expressão tão cara ao inenarrável Rui Santos) a “verdade desportiva” . Ultimamente, o sempre interessante “site” Futebol Finance veio em meu socorro, e nas suas “10 medidas para clarificar as finanças do futebol e fomentar a competição” (não estou de acordo com todas elas, digo desde já, mas são uma excelente contribuição) sublinha: “As federações de futebol não devem permitir o empréstimo de jogadores a clubes do mesmo escalão do clube que detêm os direitos desportivos ou económicos do jogador”.

Tendo dito isto, penso que a proibição deve ser estendida às contratações no mercado de Janeiro, não permitindo, num período em que as competições estão em curso, a mudança de jogadores entre clubes do mesmo escalão ou que estejam ainda a disputar nessa época as mesmas competições. Evitar-se-iam assim situações potencialmente menos claras como a protagonizada pelo meu clube na contratação de um tal Jardel ao S.C. Olhanense antes de disputar uma eliminatória da Taça de Portugal contra esse mesmo clube. É a tal história da mulher de César...

Nota final: não me lembro de ter visto nenhuma das virgens ofendidas com o caso ter tido reacção semelhante em outras ocasiões protagonizadas por diferentes clubes, mormente pelo FCP.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Arte Popular e Estado Novo (16)

Pintura mural de Estrela Faria (1948).
Museu de Arte Popular. Sala do Alentejo

PSD e estatuto dos magistrados

O que está em causa na aprovação ou reprovação pelo PSD dos cortes salariais a juízes e magistrados não é apenas uma questão de equidade e justiça entre todos os funcionários públicos, incluindo os que desempenham funções em orgãos de soberania (governo, Assembleia da República, Presidência da República, Magistratura, etc). Não é tão somente o efeito que tal medida possa ter na execução orçamental, que não sendo de monta transmite contudo as indicações erradas à sociedade e desprestigia (ainda mais?...) a imagem da Justiça junto da opinião pública. É tudo isto e algo muito mais importante: embora o PSD afirme que o seu provável voto contra se destina a salvaguardar a independência da Magistratura, é absolutamente o contrário que está em jogo: é a luta pelo seu domínio político, deste modo pretendendo o partido da São Caetano marcar pontos em tal combate.

Lamentável... mas ainda tenho alguma esperança prevaleça o bom senso e um acordo possa ser possível.

História(s) da Música Popular (173)

The Flower Pot Men - "Let's Go To San Francisco"

Carter & Lewis (IV)

Impossível falar de Carter e Lewis sem mencionar The Flower Pot Men e o seu mega-êxito “Let’s Go To San Francisco” (1967), um tema e um grupo que, genericamente, podemos incluir naquilo que ficou conhecido como “sunshine pop” (Mamas & The Papas, Association , Fifth Dimension, etc) embora eu considere que talvez seja mais rigoroso incluir “Let’s Go To San Francisco” em qualquer coisa a caminho entre esse sub-género e o psicadelismo. Mas isso de fronteiras rígidas entre os sub-géneros da “pop music” em década tão rica e multifacetada como os 60s é sempre bastante relativo. O grupo foi basicamente constituído a partir de músicos de estúdio e é um exemplo clássico de “one-hit wonder” - “Let’s Go...” foi #4 no UK e grande êxito um pouco por todo o mundo -, já que a sua vida útil se ficou mais ou menos por aqui. E não ficou muito mal - nem muito bem, digamos.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Les Belles Anglaises (XLX)







Triumph TR6 (1969-1976)



Sórdido!

Tudo é demasiado sórdido no caso do assassinato de Carlos Castro. O que ele escrevia, sobre quem escrevia e onde o escrevia; o modo despudorado como expunha a sua vida pessoal – no que, aliás, nada o distinguia do pseudo-“beautiful people” sobre o qual escrevia; a gente que o rodeava e o “meio” onde se movimentava; a relação que mantinha com alguém com idade para ser seu neto; o modo como foi barbaramente assassinado; a exploração mediática subsequente; o que se escreve nas caixas de comentários; a homofobia à solta como se Portugal e o mundo não estivessem prenhes de crimes passionais tão ou mais violentos em relações heterossexuais; o aproveitamento oportunista que alguma (felizmente, nem toda) comunidade LGBT faz do caso, quase como se Castro fosse herói nacional; a transformação de um prostituto com prováveis problemas do foro psicológico em jovem vítima às mãos de um “velho depravado”. País de tristes, este! Provinciano e triste...

History of the Blues (8 - último)


terça-feira, janeiro 11, 2011

O "Gato Maltês" recomenda...





... que deixem por uns dias de ver as repetitivas séries da FOX e vejam estes dois episódios de “Ruth Rendell Mysteries” (série britânica baseada nas obras da escritora Ruth Rendell, aka Barbara Vine), principalmente “Master of the Moor” (c/ Colin Firth no protagonista) que passou nos anos 90 na RTP2. Não me lembro de ter visto “Vanity Dies Hard”, mas sei que foram então emitidos vários episódios da série (que já vai bem longa). Na altura, “Master of the Moor”, que tinha visto com pouca atenção e não na totalidade, tinha-me causado forte impressão, agora confirmada por um visionamento completo e mais atento. Desnecessário acrescentar que é para ver com atenção e “não dá” para conversa levezinha à mistura. Ah! E o DVD custa a muito módica quantia de €9.99 no “El Corte Inglés” de Lisboa – e ainda aproveita para ir aos “saldos”.

Beat (11)


"An Eastern Ballad" - a poem by Alan Ginsberg

I speak of love that comes to mind:
The moon is faithful, although blind;
She moves in thought she cannot speak.
Perfect care has made her bleak.

I never dreamed the sea so deep,
The earth so dark; so long my sleep,
I have become another child.
I wake to see the world go wild.

History of the Blues (7)

O FMI e o mito sebastianista

Para muitos portugueses, o FMI começa a encarnar uma espécie de mito sebastianista pós-moderno, do século XXI e sob a forma de “sociedade anónima” substituindo a até aqui tradicional “em nome individual”. Tornando os actuais tempos inviáveis as soluções caudilhistas do tipo clássico - “sidonista” (“morro bem, salvem a pátria” é uma bela frase para substituir a “morrer sim, mas devagar”), “salazarista”, “spinolista” e por aí fora – e tendo Cavaco Silva recusado assumir o papel para o qual alguma direita em “plano inclinado” e Manuel Villaverde Cabral o empurravam e lhe atribuíam no “script” por eles escrito para o Portugal presente, resta a solução sebastiânica “colectiva e institucional”, sem rosto ou “encoberta”, assumida por um FMI tornado messiânico e que vai “pôr isto tudo na ordem”. Uma tristeza de ideias, a desta gente!

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Parabéns a dobrar, José Mourinho: o menos português dos portugueses


"Sou um admirador confesso de José Mourinho. Mais, acho que a sua importância e a da sua personalidade transcendem em muito o campo limitado do futebol, enquanto actividade profissional e mediática, e são mesmo um excelente exemplo extrapolável para outras actividades e base sólida para análises mais alargados do comportamento geral dos portugueses. Mourinho é a antítese do português médio: é rigoroso e persistente; acredita no trabalho organizado e metódico; é estudioso e perfeccionista; faz prevalecer a estratégia sobre a táctica; acredita no grupo enquanto estrutura, com um "leader" e e sub-leaders, com uma hierarquia. Cultiva a imagem e tem a arrogância de quem se reconhece com valor, face à “humildade” (muitas vezes falsa) que o português típico gosta a apregoar como sua qualidade. Tem convicções de que dificilmente abdica. Por último, alicerça o seu “carisma” na base sólida que todas estas características configuram."

Texto escrito e publicado neste "blog" em 14 de Janeiro de 2007

Nem sequer "jornalismo de sarjeta": apenas um vómito!

Não vou afirmar que o “dossier” que o “DN” tem vindo a apresentar sob o nome “O Verdadeiro Retrato do Estado” é jornalismo de sarjeta, pois nem sequer de investigação (muito menos “grande”) ou de jornalismo se trata. Trata-se,isso sim, e pura e simplesmente, de um vómito destinado a alimentar o ódio e a desinformação dos sectores mais pobres e ignorantes da sociedade portuguesa.

Depois de, em edições anteriores, o “DN” ter apresentado alguns gastos do Estado do género “”X em flores e Y para um concerto de Tony Carreira" sem qualquer enquadramento na actividade, projecto ou acção a que se destinavam, ou até dos benefícios, tangíveis ou não, que possam ter resultado de tais acções, atira agora com o título “Pagos 20 milhões por mês em reformas milionárias”, sem indicação suplementar informando se quem as recebe beneficiou de algum regime especial ou se se trata apenas do resultado da sua carreira contributiva e considerando reforma milionária, pasme-se!, o valor de 4 000 euros por mês. Mais ainda, acrescenta: “Pensões de políticos custam 80 milhões em 10 anos”, como se político fosse cidadão infectado por lepra ou alguma espécie de sarna medieva e, como tal, destinado a viver apartado da sociedade e sem acesso a quaisquer direitos até ao fim dos seus dias.

Poderia dizer que se trata de algo “abaixo de cão”. Mas estimo demasiado os cães para os considerar em comparações tão aviltantes.

Porque não vão os portugueses ao futebol...

Querem - mas querem, mesmo - perceber porque não vai o público ao futebol em Portugal? Então deixem-se de devaneios sobre a crise, o horário dos jogos, o frio e a chuva. Muito menos sobre o desconforto dos estádios, que, em boa parte dos casos, já não é verdadeiro.

Ontem, no Bernabéu, num jogo em que se defrontavam o 1º e 3º classificados do campeonato de Espanha, estiveram presentes 80 000 espectadores. Quem viu o jogo assistiu a uma extraordinária e emotiva partida de futebol, isto apesar do público do Real Madrid normalmente pouco contribuir com o seu entusiasmo (não conheço "aficción" de grande clube menos barulhenta e mais macambúzia...) para o espectáculo. Ninguém, nem mesmo os adeptos do derrotado Villareal terão de lá saído com a sensação de tempo mal empregue e dinheiro mal gasto.

Por contraste, pergunto quem não sendo ferrenho benfiquista (e eu sou) se terá disposto a ir a Leiria assistir a um jogo entre 2º e 4º classificados que, em 80% do tempo de jogo, não entusiasmou ninguém e se limitou a provocar um enorme e longo bocejo... Isto depois de ter assistido calmamente, via TV, ao Madrid-Villareal. 12 500 heróis, foi a soma anunciada.

É a concorrência, estúpidos! Perante isto, pergunto-me como ainda existe gente que se manifesta contrária à integração das duas Ligas Ibéricas.

History of the Blues (6)

domingo, janeiro 09, 2011

Erros e contradições na campanha de Alegre

Ao centrar os seus ataques a Cavaco Silva, no caso SLN/BPN, fundamentalmente em questões de ordem circunstancial (a quem comprou e a quem vendeu; quais os preços na altura praticados; forte valorização sofrida pelas acções negociadas; sabia ou não das desconfianças suscitadas pelo modo como o Banco era gerido, etc), tendo como objectivo lançar a desconfiança sobre a honorabilidade do candidato adversário e assim abdicando de o fazer de um ponto de vista político mais global e sustentado (o negócio só se torna possível pelo estreito relacionamento construído entre os homens da SLN/BPN e Cavaco Silva durante os governos deste e quando o Estado, com a conivência tácita do então primeiro-ministro, foi utilizado por grupos emergentes pouco escrupulosos como trampolim para a ascensão social e para negócios nas margens da licitude, em vez de o ter sido para a efectivação das reformas necessárias ao desenvolvimento de um país mais competitivo e de uma estrutura empresarial mais moderna e autónoma), a candidatura de Manuel Alegre comete dois erros e evidencia uma das suas contradições fundamentais.
  1. Em primeiro lugar, não fora a provinciana arrogância moral de Cavaco Silva e a sua pouca frontalidade de carácter e mediocridade enquanto político o terem conduzido a uma gestão desastrosa do assunto (autênticamente “com os pés”), como aliás já tinha acontecido nos casos das “escutas”, do Estatuto dos Açores e, até, no modo como se comportou para com a oposição numa das suas visitas à Madeira, e Alegre teria ficado rapidamente com algo vazio entre mãos. Para tal, bastaria Cavaco Silva tivesse respondido com naturalidade às perguntas colocadas, e cujas respostas já eram conhecidas através de investigação do jornal Expresso”, assumindo que poderia ter sido mais cuidadoso quando da efectivação do negócio, etc, etc. Não lhe sendo conhecidos outros “telhados de vidro” do género, o assunto morreria por aí. Mas, parafraseando José Mário Branco, “pode alguém ser quem não é?” Neste ponto, foi essa a sorte de Alegre.
  2. Em segundo lugar, sendo Alegre um político muito experimentado e nunca tendo assumido, nem de perto nem de longe, responsabilidades políticas no país semelhantes às de Cavaco Silva, podendo, por tal razão, apresentar-se como quase isento de responsabilidades pelo “estado a que isto chegou”, era nesse terreno (o político) que a discussão lhe seria sempre mais favorável. Assim , ao atacar Cavaco Silva em questões de honorabilidade e carácter, possibilitou que a candidatura adversária lançasse o seu contra-ataque baseada em questões idênticas (campanha BPP), onde Alegre manifestamente poderá ter cometido uma pequena ilegalidade (um deputado não pode participar em campanhas publicitárias) e onde se explicou “metendo os pés pelas mãos”. É um caso de pouca ou nenhuma gravidade, mas não se livrou de assunto ter sido lançado pela candidatura e pelos “media” favoráveis a Cavaco Silva (e são quase todos...) como “equivalente” perante a opinião pública - e o facto de se tratarem de duas entidades bancárias ajuda à confusão.
  3. Por fim, a candidatura de Alegre evidencia também aqui uma das suas contradições essenciais. Para atacar politicamente Cavaco Silva pela quase ausência de reformas significativas efectuadas no decurso dos seus mandato como chefe do governo, no sentido de tornar o país mais competitivo e dotado de uma estrutura empresarial mais moderna e de um empreendedorismo mais autónomo e dinâmico, Manuel Alegre não poderia estar, como está, refém de quem se opõe a esse mesmo livre empreendedorismo, por um lado, e, por outro, daqueles que sempre se manifestaram contra questões como o aumento da idade da reforma, mudança no sistema de cálculo das pensões e, no primeiro governo de José Sócrates, às reformas que ministros como Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues tentaram levar a cabo para salvaguarda do essencial do Estado Social, pelo qual o candidato se diz bater e eu próprio considero um avanço civilizacional. Para tal, seria necessário uma candidatura que partisse da esquerda moderada ou do centro-esquerda, agregando, a partir daí, toda a esquerda e até alguns sectores menos conservadores do centro-direita. Coisa que a candidatura de Manuel Alegre positivamente não é nem consegue fazer. Uma lástima...

Grindhouse Effect (12)

sábado, janeiro 08, 2011

Frivolidades, ou o que ainda ninguém disse sobre o casamento do ano!

Os Windsor do sexo masculino, nem sempre conhecidos pelas suas fortes personalidade e convicções, como acontece nos casos mais gritantes de George V e VI e, muito especialmente, de Eduardo VIII, o “efémero”, tiveram pelo menos o mérito de escolher mulheres com um carácter forte e determinado, para o bem (Eduardo VII e ambos os George) e para o mal, no caso de Eduardo VIII.

A rainha Alexandra, mulher de Eduardo VII, embora parece que pouco dada a preocupações intelectuais, teve pelo menos a grandeza e nobreza de carácter para, quando da morte do rei, seu marido, enviar uma carta de condolências e convidar para lugar de destaque na exéquias reais Alice Keppel, a mais conhecida e “oficial” das amantes reais, bisavó de Camilla Shand, actual mulher do Príncipe de Gales, e mãe de Violet Trefusis, conhecida pelo tórrido romance que manteve com Vita Sackeville-West, escritora e integrante do Bloomsbury Group e também, a seu tempo, amante de Virginia Woolf.

Já a rainha Mary de Teck, mulher de George V, para além de pessoa interessada e conhecedora em História e Arte, foi uma preciosa ajuda para o seu marido durante os conturbados anos da Grande Guerra, chegando inclusivamente a aconselhá-lo nos seus discursos e assuntos de governação.

Sobre o forte carácter e ambição a condizer de Wallis Simpson, bem como a sua reconhecida arte de manipuladora de homens, levando, inclusivamente, Eduardo a abandonar os seus deveres de rei para grande alívio de Stanley Baldwin, pouco haverá a dizer que não tenha sido já dito. Por motivos felizmente bem diferentes, também pouco haverá a dizer sobre a personalidade e fortaleza de carácter, o papel decisivo de Elizabeth Bowes-Lyon durante a WWII e o reinado de seu marido, George VI. Ficou célebre a sua frase quando aconselharam as princesas Elizabeth e Margaret a abandonar Londres durante a guerra: “as princesas não vão sem mim; eu não vou sem o rei e o rei, obviamente, não pode ir.” Nas palavras de Hitler era “a mulher mais perigosa da Europa”. Ainda bem, acrescento!

Excepção e esta regra parece ter sido Carlos, Príncipe de Gales, que talvez por parecer ser dotado de personalidade e cultura assinaláveis (ao que consta...) resolveu casar com a “tontinha” Diana Spencer”. Talvez por isso tenha arrastado uma paixão ao longo da vida e,enfim, tarde e más horas mas lá acabou por corrigir alguma coisa, o quanto não se saberá lá muito bem. Mas, tanto quanto parece, com Willliam a normalidade voltará a ditar as suas regras, já que a menina Catherine Elizabeth Middleton não parece mulher para brincadeiras. Deve ser do nome Elizabeth, mãe e filha, ambas rainhas e com personalidade para dar e vender!

sexta-feira, janeiro 07, 2011

History of the Blues (5)


Uma história simples...

Aqui há uns anos, acho que cerca de vinte (por aí, mais coisa menos coisa - começo a estar velho) o Banco com o qual então trabalhava resolveu creditar-me em conta, por engano, uma quantia que não recordo. Acho que eram para aí cerca de duzentos contos (+ ou – €1 000), ou até mais um pouco, não me lembro bem. Para a altura era algum dinheiro; nada de especialmente relevante mas, mesmo assim, algo que não me poderia passar despercebido. Como não sou parvo, mas sabia que, mais menos menos mês, o Banco daria pelo erro, resolvi deixar por lá andar o dinheiro, incluindo-o numa aplicação segura, que me desse algum benefício, mas sabendo que teria que ter essa importância disponível mal o Banco a exigisse, o que veio a acontecer passado um pouco mais de uma ano (!). Fui honesto: disse-lhes que sim, que tinha dado por isso (pelo erro) desde o seu início mas que, como o problema era do Banco - com o qual, aliás, tinha e continuei a ter excelente relação - fui aproveitando, tendo devolvido a importância inicial mal feita a reclamação. O gerente de conta ainda se riu, e acabou por me pedir desculpa quando, em abono da verdade, era a mim que elas competiam. Pergunto-me: o que aconteceria se fosse hoje candidato a um cargo político e a história fosse divulgada?

As capas de Cândido Costa Pinto (70)

Capa de CCP para "Sumuru", de Sax Rohmer, nº92 da "Colecção Vampiro"

A CML já recolhe o lixo separado "porta a porta"

Em algumas zonas de Lisboa, a CML passou recentemente a recolher o lixo separado “porta a porta”, tendo para tal entregue bem explícitas instruções e os necessários contentores diferenciados. Mais do que um benefício, trata-se de um avanço civilizacional que se saúda. Espero agora o seguinte:

  1. Que os “alfacinhas”, tal como os restantes portugueses sempre prontos a vociferar contra “quem manda”, cumpram a sua parte do contrato, separando o lixo cuidadosamente de acordo com as instruções. Sim, eu sei que dá trabalho e até pode requerer a compra de um caixote de lixo doméstico adequado e de sacos para tal fim em vez dos malfadados sacos de plástico utilizados para transporte das compras do supermercado, tão do agrado dos portugueses para o usar com o lixo, mas que, por inadequados, acabam por deixar entornar o dito lixo tornando o ambiente pestilento.Mas verão que sai bem mais barato do que as próximas férias na “república”, um novo Plasma” e até do que um DVD com os últimos episódios de uma das séries da FOX.
  2. Que este seja finalmente o caminho para acabar com a autêntica praga de lixeiras urbanas a céu aberto que dão pelo pomposo nome de “Ecopontos”.
  3. Que o executivo de António Costa implemente, finalmente e conforme promessa eleitoral, a nova divisão administrativa do concelho, acabando com a aberração de uma cidade de menos de 700 000 habitantes dividida em 53 freguesias, algumas com 300 eleitores. Já existe pelo menos um projecto...