sexta-feira, julho 31, 2009

"Serious Charge" (5)

"Serious Charge", de Terence Young (1959)

Sobre o programa eleitoral do PS

Claro que o programa eleitoral do PS, nas suas cerca de 150 páginas (dizem), cumpre apenas uma mera função propagandística e nada nem ninguém, no seu perfeito juízo, o irá ler, muito menos atentamente, a não ser que por deveres profissionais ou outros que não vêm ao caso. Mas então, se ninguém o irá ler a não ser esteja nessas indigentes condições (coitados...), como pode ele cumprir essa sua função de propaganda? Muito simples...

  1. Em primeiro lugar porque para se opor, justificando coerência, à tal ausência de ideias e de propostas com que o PS ataca o PSD (não cabe aqui analisar se com ou sem razão), nada melhor do que um calhamaço prenhe de ideias e boas intenções; rules and regulations destinados a resolver os problemas de todo e qualquer sector, nicho ou segmento da sociedade portuguesa, ao género “nós sim e eles não”. “Está vivo e assim quer continuar? Está morto e quer ressuscitar? Nós temos a solução!” Demonstra interesse, envolvimento, trabalho, face ao atacado alheamento e soit disant “bota-baixismo” do PSD. Apresenta soluções, mesmo que na sua maioria se resumam a um catálogo de medidas de eficácia nula ou questionável, o que para o objectivo que quer cumprir é de somenos importância (o papel aceita tudo!).

  2. Em segundo lugar, o facto de ser algo que pela sua extensão e aridez poucos ousarão ler (e mesmo assim o farão com algum atraso) permite ao aparelho de comunicação do partido individualizar algumas medidas que este pensa serem mais emblemáticas, avançando assim com um género de “executive summary” que transmitirá antecipadamente aos “media” aquilo mais interessa ao PS e que, pelas suas características de novidade, imediatismo, facilidade de serem apreendidas pelo público em geral, etc, melhor se poderão transformar em títulos e “sound bytes” eficazes. Querem um exemplo? A tal história dos 200 euros por cada filho. Para além de um sinal dado à sociedade de que é necessário procriar, nenhuma eficácia prática terá e certamente haveria bem melhores alternativas para aplicação desses fundos com objectivos idênticos. Além de que estará muito longe de se tratar de uma prioridade face aos desafios que um futuro governo terá de enfrentar (competitividade, desemprego, desigualdade, déficit, endividamento, educação, justiça...) Mas é algo simples, imediatista, de distribuição gratuita (é dar dinheiro...), uma notícia agradável fácil de transformar num título ou em notícia de abertura de telejornais.

É de facto este, e mais nenhum, o papel que um programa eleitoral de 150 páginas irá desempenhar para o PS na campanha eleitoral. Espero bem que os outros partidos, principalmente o PSD como alternativa imediata de poder, apresentem algo bem mais simples e sucinto, como que uma condensada manifestação de intenções que permita aos eleitores verificar rapidamente qual o caminho pelo qual cada um dos partidos seguirá em caso de governação. Nada mais do que isso será necessário para que os eleitores possam ser informados e decidir em consciência. É que, assim como assim, e no que se refere ao PS, será bem mais revelador das intenções de uma futura política governativa a integração de nomes como Miguel Vale de Almeida e de Maria Medeiros (saúdo ambos) nas suas listas de candidatos do que quaisquer 150 páginas de programa eleitoral.

Sir Robert ("Bobby") William Robson CBE (1933-2009)


Não foi um daqueles treinadores que mudou a face do jogo, como Herbert Chapman ou Rinus Michels. Talvez nem sequer um daqueles treinadores que se tornaram mitos do futebol britânico, como Sir Matt Busby, Brian Clough, Bill Shankly ou Bob Paisley. No futebol português ocupará mesmo um lugar atrás de outros que lutaram contra o provincianismo e o amadorismo de dirigentes e ambientes, como Otto Glória, o verdadeiro iniciador a modernidade do futebol em Portugal, ou Sven Goran Eriksson. Mas, para além de uma indiscutível competência, tinha de sobra aquilo de que se constróem os líderes: carisma, ousadia, simplicidade nas ideias e no modo como as expunha e arrastava tudo e todos atrás de si como só um grande comandante o consegue fazer no campo de batalha. Só quando chegou a Portugal soube que o tinha visto uma vez como jogador, era eu ainda criança, num Portugal-Inglaterra disputado em 1961 no Estádio Nacional (1-1).

Tenho pena nunca tenha treinado o meu clube, mas tinha, e tenho, por ele enorme admiração e respeito.

quarta-feira, julho 29, 2009

Jornalistas...

Acabei de ouvir um jornalista da RTPN (Alexandre Santos) dirigir-se ao treinador Steve McLaren (a quem tratou por Mr. McLaren, em vez de Steve, ignorando as regras de tratamento comuns nos países anglo-saxónicos), na conferência de imprensa após o SCP-Twente, perguntando-lhe sobre o jogo da “second hand”, querendo obviamente referir-se à segunda-mão da eliminatória que em inglês se designa por “second leg”. Pergunta: será que os jornalistas desportivos designados para este tipo de funções não deveriam, no mínimo, dominar o vocabulário inglês base do futebol? A culpa nem sequer é dele, coitado, mas de quem teria obrigação de lhe proporcionar a formação adequada.

"Serious Charge" (3)

"Serious Charge", de Terence Young (1959)
Nota: neste "clip" Cliff Richard interpreta "No Turnin' Back"

História(s) da Música Popular (139)

Earl-Jean McCrea - "I'm Into Something Good"
"Under the Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XXII)
“História(s) da Música Popular” vai de férias durante o mês de Agosto, mas nada melhor para este interregno do que algo bem disposto e significativo no título e tema que ficam para essas férias. O quê?

Bom, Gerry Goffin e Carole King escreveram, em 1964, este tema, que seria gravado, e editado com mediano sucesso, por Earl-Jean McCrea, uma das Cookies, das quais os Beatles também respigariam “Chains”, da mesma dupla do Brill Building. A canção seria, de imediato, repescada por um dos grupos mais emblemáticos da “British Invasion”, os mancunians Herman’s Hermits, de Peter Noon e do produtor Mickey Most, que a gravaram no Verão desse ano como seu primeiro “single” e a fizeram chegar a #1 no UK (o único) e #13 nos USA. Voltariam á carga com Goffin e King no seu segundo “single” (“Show Me Girl”) mas sem sucesso semelhante.

O dabate Santana-Costa e a jornalista(?) Clara Sousa

Apenas uma pequena nota (não faltam por aí “análises”) sobre o debate Santana-Costa de ontem que – confesso – só hoje tive coragem (é o termo!) de ver até ao fim. E essa nota vai inteirinha para a inépcia da entrevistadora, Clara Sousa, mais conhecida pela vida sentimental (?) que expõe amiúde nas revistas do “coração” do que pela qualidade do seu trabalho jornalístico.

Num debate em que os entrevistados se revelaram totalmente narrow minded, ao nível de "queixinhas" de escola primária (“foste tu”; “não, foste tu”), Clara Sousa mostrou-se completamente incapaz de conduzir a entrevista e os entrevistados na direcção da discussão das ideias, de concepções estratégicas para a cidade no espaço ibérico, lugar onde essas concepções devem ser colocadas (Lisboa é apenas a 5ª ou 6ª cidade da península mas a sua maior cidade atlântica e polo da 3ª maior zona urbana), e de integração da cidade no espaço urbano envolvente (sim, Costa ainda tentou falar um pouco da questão da população flutuante, das entradas e saídas de carros da cidade, mas de modo pouco consistente). Pior, Clara Sousa, às tantas, não encontrou nada melhor para perguntar a António Costa do que “qual seria a obra emblemática da sua vereação”, integrando-se, com toda a naturalidade - quando, enquanto jornalista, competir-lhe-ia ter do assunto uma visão crítica - no conceito vigente de gestão autárquica que define o grande presidente de câmara como aquele que “deixa obra”, tangível, de betão, seja ela rotunda, túnel, pavilhão, piscinas ou “nova centralidade”, que a época do fontanário já lá vai (felizmente) há muito.

Tudo isto prova apenas que é muito fácil, e frequentemente justo, apontar a fraca qualidade dos políticos a dedo; mas também que essa ausência de qualidade é muitas vezes potenciada pela inépcia e pouca exigência de quem deveria ter como objectivo contribuir para a melhoria da qualidade do debate político e civilizacional, estando em posição privilegiada para o fazer. Uma tristeza...

Bernardo Marques (14)

Capa de Bernardo Marques para "O Estrangeiro", de Albert Camus
Edição "Livros do Brasil"

terça-feira, julho 28, 2009

A "silly season" e o vinho tinto

Agora que chegaram o Verão e o calor, começa a triste saga: quando se ousa pedir um vinho tinto num restaurante que não seja de luxo (e mesmo em alguns desses...) ou de “gourmet”, o mais certo é vir para a mesa a uma temperatura de vinte ou mais graus, arruinando qualquer hipotético prazer em bebê-lo. Depois lá começa a cegarrega do costume: pedir ao empregado um balde com gelo, este e os vizinhos das mesas ao lado olhando-nos como se fossemos alienígenas ou estivéssemos a cometer crime hediondo até que, por fim, lá conseguimos levar por diante a árdua missão de o colocar a temperatura mais ou menos aceitável. Isto porque (sabe-se lá porquê?...) se convencionou, neste país vitivinícola, que o vinho tinto é para beber à temperatura ambiente, mesmo que estejam mais do que uns esturricantes trinta graus. Enfim... mitos urbanos!

Pergunta de perguntar: se o vinho branco vem para a mesa a temperaturas mais ou menos adequadas (frequentemente demasiado gelado, mas enfim: num dia de calor basta tirá-lo do gelo para a temperatura subir rapidamente uns dois ou três graus), será assim tão difícil servir o tinto a temperaturas “honestas”, que não nos façam arrepender logo a seguir de não ter pedido uma inócua “imperial”? Ou, senhores da ARESP, é só pedir a redução do IVA?

"Serious Charge" (2)

"Serious Charge", de Terence Young (1959)

O presidente do S. C. de Braga é traído pelas palavras...

O presidente do Sporting Clube de Braga, António Salvador, ao afirmar hoje que “não estou a ver o Benfica a pagar ao Braga para levar algum jogador" está a levantar apenas a ponta do véu que esconde (mal) o que se passa com a compra do passe de alguns jogadores a esse e outros clubes por parte de alguns clubes grandes (leia-se, FCP), jogadores esses que se sabe de antemão muito dificilmente constituirão qualquer valor acrescentado, do ponto de vista desportivo, para a sua nova equipa: trata-se, apenas, de financiamentos encapotados que permitem o funcionamento de um efectivo esquema de corrupção. Posteriormente, esses jogadores serão maioritariamente emprestados a outros clubes concorrentes à mesma competição, empréstimo esse igualmente correspondendo a um financiamento com as naturais contrapartidas. Entretanto os passivos aumentam exponencialmente, apesar de algumas vendas milionárias, e o campeonato nacional é algo que fica viciado à partida. Para não falar da indústria que definha...

Que a Liga aceite este “esquema” não admira: muitos clubes (FCP, Olhanense, V. de Setúbal, Sporting de Braga, Académica, Estrela) dele beneficiam ou beneficiaram, pelo menos no curto prazo, olhando para a árvore mas ignorando a floresta. Que o país que gosta efectivamente de futebol (existirá?) e as entidades oficiais o admitam passivamente já me parece mais estranho...

Parece-me chegou o tempo de quem de direito (FIFA, UEFA?) encarar de frente a hipótese de limitar drasticamente os empréstimos a quem dispute a mesma competição e, porque não?, agir estabelecendo um número máximo permitido de jogadores sob contrato. Tudo isto me parece bem mais importante, e barato, do que as novas tecnologias do comentador Rui Santos.

segunda-feira, julho 27, 2009

Grindhouse Effect (6)

"Serious Charge" (1)

"Serious Charge", de Terence Young (1959)
“Serious Charge” (1959) é o primeiro filme com Cliff Richard, o Cliff “rocker” émulo britânico do Elvis inicial. E, tal como muitos outros da altura, mais um dos filmes que associavam "rock n’ roll" e deliquência juvenil - mas, neste caso, também homossexualidade e sexualidade tout court, para além de um padre anglicano com um comportamento pouco consentâneo com a moral cristã. O realizador é o bem conhecido Terence Young, que dirigiu pelo menos três filmes de James Bond: "From Russia With Love", "Dr. NO" e a 1ª versão de "Thunderball" (a 2ª é "Never Say Never Again", no regresso de Sean Connery, dirigido por Irvin Kershner). No filme, Cliff interpreta “No Turning Back”, “Mad About You” e... “Living Doll”, numa versão um pouco mais “up tempo” do que a que ficou para a História. Era o tempo em que os Shadows se chamavam Drifters e tocavam temas como “Chinchilla”, que faz, também ele, parte da banda sonora do filme.

O Cliff Richard “rocker” participaria ainda em mais um filme, “Expresso Bongo”, também em 1959, (na rubrica “Cinema e Rock and Roll” já mencionei ambos), antes de se deixar levar pelas facilidades e felicidades lucrativas do “show business” e participar em filmes construídos à volta da sua imagem, época iniciada com “The Young Ones” (1960). Curiosamente, os seus dois primeiros filmes não passariam num Portugal dominado pela moral conservadora imposta por uma ditadura retrógrada, pois seriam com certeza mau exemplo para a sua juventude. Com o “inocente” e integrador “The Young Ones”, um “family movie”, o caso já seria diferente, mas também já Cliff se preparava para aquilo em que se viria a tornar logo a seguir. Premonitório...

O “Gato Maltês” descobriu no You Tube alguns "clips" de “Serious Charge” que permitem ficar com uma ideia do que seriam o filme e Cliff nos seus, salvo erro, dezassete anos. Pela sua importância histórica, aqui os publicarei nos próximos dias. Verdadeiro "serviço público", pois claro!

Maus perliminares...

Entre convites aceites e não aceites a militantes e ex-militantes do “Bloco de Esquerda” (Joana Amaral Dias parece a adolescente que sente necessidade de anunciar que foi a si que o rapaz mais requisitado do grupo pediu namoro e a quem ela teve coragem de “dar com os pés” e Louçã reage como o namorado ultrajado e incomodado por agora ter de compensar tal declaração de amor eterno com atenção mais constante ou presente a condizer!), zeppelins atacados a tiros de caçadeira, gripes providenciais que são o exemplo de como o país se não deve comportar (Ferreira Leite ou não aceitava o convite por razões políticas ou ia lá mostrar-se nem que fosse por um minuto e com 39º de febre), os preliminares da próxima campanha eleitoral parece não prometerem bom orgasmo. Esperemos, pelo menos, a ausência das habituais “ondas” e “vagas” que costumam enfeitar a “silly season” torne a época um pouco mais suportável.

"When I woke up this morning" - Original blues classics (23)

Kokomo Arnold - "Head Cutting Blues"

domingo, julho 26, 2009

Guiné-Bissau

Peço imensa desculpa. Mas no meio dos golpes e contragolpes, assassinatos políticos e respectivas vinganças, luta entre bandos de traficantes rivais nos últimos anos, domínio das forças armadas ou de quem anda armado, pobreza extrema e o que bem mais se pode imaginar, alguém me explica bem explicadinho que significado democrático podem ter as eleições de hoje numa espécie de país chamado Guiné-Bissau? Não é este um exemplo mais do que típico do que é o fracasso da “exportação” da democracia?

24 de Julho feriado nacional

No “Bicho Carpinteiro”, José Medeiros Ferreira propõe a passagem do dia 24 de Julho de 1833 (dia da entrada do exército liberal vitorioso em Lisboa) a feriado nacional. Apoio totalmente a ideia e nem sequer chego bem a entender porque nunca o foi, pois essa data representa, de facto, o dia em que Portugal se assumiu politicamente como uma nação moderna.

Mas, simultaneamente, e embora não sendo monárquico, penso ser de todo em todo lógico que esse feriado substitua o de 5 de Outubro, já que a questão do regime (monarquia ou república) não faz hoje qualquer sentido na sociedade portuguesa e é apenas motivo para estabelecer uma falsa e artificial divisão entre os cidadãos deste país que se revêm na democracia e na liberdade.

24 de Julho e 25 de Abril, esses sim, são dois marcos que assinalam os valores da liberdade e modernidade na nação portuguesa, que identificam e unem quem se revê nos valores da civilização, e, como tal, dignos de serem devidamente lembrados e comemorados.

"Pop Gear" (7)

"Pop Gear" - um conjunto de vídeo-clips de Frederic Goode (1965)
1. The Nashville Teens - "Google Eyes"
2. The Honeycombs - "Eyes"
3. The Animals - "Don´t Let Me Be Misunderstood"

sábado, julho 25, 2009

(Correndo o risco de ser impopular) A estratégia de Luís Filipe Vieira e as finanças e futuro do Benfica

Depois de um exercício (2008/2009) em que o SLB se prepara para apresentar um prejuízo por certo superior a 20milhões de euros e de um novo (2009/2010) em que não só não terá acesso às receitas da Champions League como terá que amortizar a parte correspondente aos investimentos efectuados, não se prevendo, para já, receitas extraordinárias de monta com a venda dos passes de alguns jogadores (talvez Luisão, mas por um valor digamos que “modesto”), situação que irá repercutir-se nos resultados de exploração do ano que agora se iniciou, Luís Filipe Vieira terá, certamente com recurso ao endividamento, investido cerca de 25 milhões no reforço da equipa de futebol com o objectivo de ser campeão já esta época.

Trata-se de uma estratégia de altíssimo risco, que pode deixar o clube numa situação financeira muito, mas mesmo muito, complicada para os anos subsequentes. De facto, tendo em conta o domínio do FCP nos últimos anos, o funil cada vez mais estreito que é o acesso à Champions League (que constitui a grande fonte de receitas e a principal montra para venda de “activos” com elevadas “mais-valias”) para os clubes portugueses e a política de recursos humanos do clube - fruto dessa mesma obsessão de ser campeão “já” - demasiado centrada em jogadores pouco valorizáveis (Aimar, Cardozo, Saviola, Javi Garcia, Balboa) as probabilidades de recuperação do investimento efectuado parecem ser razoavelmente baixas, o que pode vir a agravar, quantitativa e qualitativamente, o passivo do clube hipotecando o futuro. No fundo, fruto de uma política desportiva que se tem revelado desastrosa, pode LFV, com esta estratégia, estar a sacrificar o desenvolvimento sustentado do clube e o domínio futuro do futebol português aos seus (de LFV) objectivos imediatos.

Sim, eu sei que isto diz pouco ou nada aos à maioria dos benfiquistas, desejosos, tanto como eu, de verem a bola na baliza adversária e de serem campeões ao fim de anos de desespero e frustrações repetidas. Tanto quanto também sei que ter razão antes de tempo nunca trouxe popularidade a ninguém. Mas, claro, convém também lembrar que há quem consiga acertar na lotaria, onde as probabilidades são bem mais escassas do que no cenário que aqui fica descrito. Espero bem seja esse o caso do meu clube e do seu actual presidente, mas ouvir uma palavra a Domingos Soares de Oliveira talvez me pudesse trazer mais algum conforto. Estranho o silêncio...

O PS e o "programa" eleitoral do PSD

“Interessante” é o facto do PS ter eleito como “cavalo de batalha” da sua luta eleitoral contra o PSD o facto de este partido tardar em apresentar as suas propostas. Joga assim num terreno em que pensa ter óbvias vantagens, já que sabe não recolherem algumas das propostas que necessariamente terão de vir a terreiro e que têm constituído elemento essencial da luta política contra o governo, como é o caso das grandes obras públicas, consenso no partido de Ferreira Leite. Sabe também que as crises, ou seja, os reflexos locais da crise internacional e a crise estrutural da economia portuguesa, condicionam as alternativas, e que existem personalidades da área do PSD e cujo “parecer” o Presidente da República calorosamente parece acolher que recomendam medidas radicais de correcção que dificilmente seriam recebidas pelo eleitorado com um sorriso nos lábios, arriscando-se, mesmo, a gerar uma pequena tempestade social favorecendo o voto útil PS. Entretanto, o PS vai ensaiando algumas promessas eleitorais, mais ou menos avulsas, mormente nas áreas da empregabilidade e formação, que José Sócrates sabe serem especialmente sensíveis e não só à esquerda.

O problema para o PS é que a importância dos programas e medidas eleitorais me parece estar longe de ser decisivo na futura escolha dos eleitores. Tal como no já longínquo ano de 1995 em que os eleitores terão escolhido na base de um “slogan” (“Razão e Coração”) que contrapunha, como metodologia de governo mais do que como programa político, o “humanismo” e o “diálogo” a um perfil considerado demasiado “autoritário” e “tecnocrático” do governo de Cavaco Silva, do qual visivelmente estavam fartos e cujos métodos se propunham rejeitar, isto é, escolheram, mais do que um programa, uma filosofia de governo e um perfil de primeiro-ministro, algo de semelhante pode vir a estar na base da escolha de Setembro, podendo os portugueses optar não em função da “política” (ou das “políticas”), mas por quem apresente uma proposta na área da “seriedade”, do “rigor”, da “honestidade”, dos “princípios”, de um certo “low profile” anunciado, fartos de algumas confusões, negócios nem sempre claros, atitudes “clownescas” e perfil tido como demasiado propagandístico do actual governo. Esta é também a plataforma que mais convém a Ferreira Leite que, longe de trazer consigo um passado político de êxitos governativos (antes pelo contrário), pode reclamar, isso sim, um perfil pessoal de “confiança”.

Este é, verdadeiramente, o actual drama do PS e o PSD já o terá compreendido, adiando o mais que pode a apresentação do seu manifesto eleitoral e preparando-se para o fazer em torno destes valores mais do que por via de propostas governativas demasiado específicas e/ou pormenorizadas, o que também o faria concorrer no mercado já um pouco desacreditado das "promessas eleitorais".

Uma tarefa bem complicada, terá José Sócrates pela frente.

quinta-feira, julho 23, 2009

História(s) da Música Popular (138)

Nina Simone - "Don't Let Me Be Misunderstood"

The Animals - "Don't Let Me Be Misunderstood"
"Under The Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XXI)
De uma balada com “nuances” jazísticas ao “rock” e "Rhythm & Blues" é como se pode classificar o caminho que se estende entre Nina Simone e os Animals, entre o activismo dos direitos humanos e a “working class” mineira do norte de Inglaterra para a interpretação de “Don’t Let Me Be Misunderstood”, um original da primeira escrito, em 1964, por Bennie Benjamin, Gloria Caldwell e Sol Marcus e editado em “single” pelo grupo de Newcastle no ano seguinte. Atingiu o #3 no UK e tornou-se, talvez (existe também “We Gotta Get Out Of This Place”, curiosamente também oriundo dos USA, do Brill Building, mas um original dos Animals após peripécias várias), o tema mais conhecido do grupo depois do emblemático “House Of The Rising Sun” (#1 dos dois lados do Atlântico), muito por culpa do “riff” inicial de Hilton Valentine reconhecível por qualquer iniciado onde quer que se encontre.

Penso que terá sido o penúltimo “single” gravado pelo grupo ainda com Alan Price (o último terá sido “Bring It On Home To Me”), que abandonou os Animals em Maio desse mesmo ano e já não se deslocou a Portugal em Dezembro para os dois concertos no Teatro Monumental, substituído por Dave Rowberry. Uma enorme perda, atenuada pela qualidade da sua carreira a “solo” e das parcerias com o seu amigo Georgie Fame.

Major Alvega (1)

quarta-feira, julho 22, 2009

Benfica 2009/2010: princípios, modelo e sistema.

Depois de quatro jogos via TV e um “ao vivo” que é possível dizer do SLB 09/10?

Bom, ao contrário da época transacta, em que a equipa jogava num 4x4x2 clássico (mais ou menos clássico, pois - em vez de um médio central mais avançado e outro mais recuado, à maneira da equipa de Toni com Meira e Calado em que este jogava mais à frente com Poborsky e Miguel nas alas - a equipa de Quique jogava com um duplo “pivot” defensivo em que, quando tinha a bola, ora avançava Yebda ora “Katso”) dando suporte a um “bloco” baixo e transições ofensivas por meio de passe longo para as costas da defesa contrária ou através de Reyes, o SLB de Jesus opta por um 4x4x2 em losango, embora de certo modo irregular já que o lado esquerdo (Di Maria ou Coentrão), pelas características dos jogadores que aí actuam, tende a ser mais “exterior” do que o direito com Martins, Amorim ou Ramires, que tenderão a procurar mais os espaços interiores. Do lado direito compete a Maxi compensar, com os seus avanços, essa tendência para a interioridade dos médios desse lado, até porque os seus avanços no terreno são defendidos pelas características mais conservadoras dos médios do lado direito, que “equilibram” a equipa defensivamente. Do lado esquerdo é Saviola quem frequentemente compensa as “interioridades” de Di Maria, já que Coentrão é dos dois quem maior tendência apresenta para o jogo exterior e Sepsi e Shaffer não têm (ainda?) vida para grandes aventuras. Aimar é o vértice mais avançado, apesar de recuar frequentemente na busca de jogo.

Normalmente associamos o losango a um modelo de posse e circulação de bola, à Sporting, mas não me parece seja esse o caso típico deste SLB em que, uma vez mais e pelas características dos seus jogadores, parece existir alguma dificuldade em fazer circular a bola dando preferência às transições rápidas, por via dos passes da Aimar mas muito também com recurso ás cavalgadas de Di Maria e Coentrão, do lado esquerdo, e Maxi ou Carlos Martins, no lado direito (com Ramires parece-me será diferente). Esta nova distribuição de elementos, na base de um princípio de jogo que privilegia a transição centrada na condução de bola e no passe mais curto, permite à equipa jogar mais à frente do que na época passada, gostando de assumir o jogo o que também não acontecia com a equipa de Quique que era muito mais uma equipa “de espera”. Assim sendo, a equipa parece mais talhada para a maioria dos jogos no campeonato português, onde as equipas utilizam um bloco baixo sem espaço atrás da defesa e concedendo o meio-campo ao adversário.

Problemas?

Já aqui foquei alguns, com especial destaque para a ausência de um “número 6” (será Javi Garcia?), mas reputo de fundamental o comportamento defensivo da equipa. Porquê? Basicamente porque a equipa não tem no meio-campo ofensivo e no ataque quem pressione sem que isso se revele uma actividade “contra-natura”. Apesar do esforço nesse sentido que já vemos em Di Maria, Coentrão ou até Aimar, nunca a pressão e a conquista da bola serão seus pontos fortes, ao contrário do que acontecia com o FCP de Lucho e Lizandro (que mesmo assim tinham atrás de si Meireles e Fernando) ou com o SCP de Derlei, Moutinho e até Liedson. Ora quando se recorre a um único “pivot” defensivo (agravado por este ser pouco agressivo defensivamente, como Amorim, ou por integrar como será Garcia) é fundamental que quem está à sua frente evite que os elementos da equipa contrária lhe surjam com total controle da jogada, com tempo e espaço para escolher as melhores opções. Isto agrava-se quando sabemos que no losango se torna essencial o recurso a laterais ofensivos, e que se Maxi pode dar garantias de saber “subir e descer” com alguma consistência, o lado esquerdo está longe de dar idênticas garantias. Mais ainda, a tendência de Di Maria e Coentrão para privilegiarem o jogo exterior tende a abrir um “buraco” no meio-campo ofensivo do SLB, permitindo ao adversário povoá-lo e iniciar aí, de modo consequente, as suas transições ofensivas. Olhanense e Atlético (no caso deste enquanto não começaram as substituições) perceberam-no e montaram aí o seu “negócio”, não permitindo ao SLB, em grandes períodos do jogo, ameaçar as respectivas balizas.

Outro problema consiste numa possível falta de consistência do ataque (com excepção de Cardozo) e do meio-campo ofensivo do SLB, composto por jogadores (Di Maria, Aimar, Martins, Saviola, Coentrão, Urreta e Balboa – já não falando de Mantorras ou Nuno Gomes) que têm um passado recente de grandes oscilações de forma e/ou lesões frequentes. Também o papel nuclear reservado a Aimar pode constituir, por isso mesmo, um problema, para além de me questionar se este pode ser, neste momento da sua carreira, um jogador de grandes espaços a que este sistema o obriga, principalmente quando, nos jogos a doer, o ritmo e intensidade de jogo aumentarem na proporção em que o tempo e espaço diminuírem. Por alguma razão, na época passada Quique evitou fazê-lo. Também uma alternativa a Cardozo (que não será Weldon), em caso de lesão, pode, e deve, preocupar, dependente que a equipa está das suas prestações de goleador.

Enfim, algumas certezas e outras tantas interrogações. Voltarei seguramente ao tema, mas, para já e como sempre, prefiro falar (ou escrever) antes do bom ou do mal acontecerem. O tempo dirá das minhas (não)razões.

Nota: não me preocupo com o guarda-redes pela simples razão de que não me parece seja possível, no momento, arranjar significativamente melhor.

Cavaco Silva e o papel do Conselho de Estado

O Conselho de Estado é um orgão político. Talvez o mais político de todos eles, pois compete-lhe o aconselhamento do Presidente da República em situações de especial relevância e sensibilidade política. Algumas destas estão mesmo constitucionalmente previstas, tais como a dissolução da Assembleia da República, demissão do governo, declarar a guerra ou fazer a paz, situações-chave ou limite para qualquer Estado democrático.

Daí a sua composição reflectir isso mesmo, com recurso a personalidades de elevada experiência política e da “coisa pública” tais como antigos Presidentes da República, dos governos autonómicos, as principais figuras do Estado (Presidentes dos Tribunais de Justiça e Constitucional, primeiro-ministro, presidente da A.R.) e personalidades nomeadas por essa mesma A.R. e pelo Presidente da República. Se atentarmos nos nomeados pela Assembleia da República, veremos que esta soube perfeitamente entender a verdadeira natureza do Conselho de Estado, tendo nomeado personalidades do perfil senatorial de um Almeida Santos, Francisco Pinto Balsemão, Manuel Alegre, Gomes Canotilho e António Capucho. Estranho, portanto, que Cavaco Silva, para além de personalidades de largo traquejo e percurso políticos como o são, indiscutivelmente, Marcelo Rebelo de Sousa e Leonor Beleza, nomeie como conselheiros personalidades cuja experiência política se aproxima do zero absoluto, como são os casos de Pedro Conceição Agostinho e, agora, Vítor Bento, já que, no limite e com alguma boa vontade, até se poderá entender a nomeação para o cargo do mandatário nacional (embora um cargo puramente honorífico) da sua candidatura, João Lobo Antunes.

Claro que não está em causa o mérito pessoal de cada um dos conselheiros, com “curricula” que falam por si, mas apenas e nada mais do que a adequação dos respectivos perfis aos lugares que ocupam no orgão político em causa, como vimos, muito longe de ser um puro comité de assessoria técnica da Presidência. No fundo, o que me parece estar aqui em causa é um, recorrente em Cavaco Silva, “nojo” da política, que bem pode ser interpretado como característica muito comum a que da democracia tem uma noção puramente instrumental e não essencial.

terça-feira, julho 21, 2009

Serviço Público

A TSF converte-se nos períodos de férias num autêntico deserto, muitas vezes sem um pequeno oásis que seja para valer a pena a travessia. Mas, neste momento, existe uma excepção: todos os dias úteis, entre as 11h e o ½ dia, a estação repete a série “Encontros com o Património”, o suficiente para nos fazer sintonizar a frequência 89.5 ou, quando a hora o torna impossível, visitar o programa no site da estação a qualquer momento mais conveniente. O programa é de Manuel Vilas Boas e é autêntico e genuíno serviço público, lições de História que nos ajudam a perceber quem e o que somos pelo preço módico de uma hora de energia eléctrica. A não perder e a saudar.

"O invencível pensamento do camarada Mao ilumina o palco da arte revolucionária" (2)

Ali Cissokho

Ali Cissokho, um jogador perfeitamente desconhecido há seis meses e que ao serviço do FCP fez alguns bons jogos que o definem como não mais do que um razoável jogador a nível europeu, viu recusada a sua transferência para o A. C. Milan por alegadas questões médicas. Quinze milhões de euros seria a verba em causa, um valor bem elevado face ao que o jogador já demonstrou e à posição, normalmente pouco valorizada, em que actua.

Passado cerca de um mês o negócio conclui-se, sem entraves médicos, com o Olympique Lyonnais, um clube que não tendo a notoriedade e palmarés do Milan tem contudo integrado nos últimos anos a Champions League onde atinge com frequência a sua segunda fase.

Penso que há aqui algo pouco claro neste súbito interesse dos grandes clubes europeus e no valor subitamente inflacionado do jogador. Alguém se importa de investigar?

segunda-feira, julho 20, 2009

A propósito do BPN e, agora, de Arlindo Cunha: o "cavaquismo" como projecto de sociedade ao qual quase ninguém escapa ileso

Sejamos claros, uma vez mais. O que está em causa no caso BPN (agora que atingiu Arlindo Cunha) é muito mais do que o ilícito de alguns administradores, ex-dirigentes do PSD e antigos membros de um governo deste partido. Muito mais do que a qualidade de supervisão do Banco de Portugal, as virtudes, os erros ou os excessos do chamado neo-liberalismo. O que está verdadeiramente em causa tão pouco é um partido (o PSD). Em julgamento está aquilo que para o futuro ficou conhecido como "cavaquismo": um modelo de desenvolvimento, um projecto de sociedade baseado nas grandes obras tangíveis mesmo que inúteis, na “obra feita”, nas “novas centralidades”, na subversão (mais do que isso: na inversão) de uma hierarquia de valores até aí socialmente aceites, no desenvolvimento de uma classe empresarial e de uma nova burguesia nascida e fortalecida na corrupção à sombra do Estado protector e apontada mediaticamente como exemplo a seguir.

É o falhanço do projecto de sociedade cuja denúncia fez os dias de glória do “Independente”: o Portugal do dinheiro novo, da sociedade afluente inculta e boçal, da glorificação dos “empresários” e do "sucesso" e do escárnio dos intelectuais, das minorias cultas, do trabalho organizado e do "saber". Um projecto, sejamos claros mais uma vez, a que o actual Presidente da República deu cobertura (daí a sua incomodidade) e a que o próprio PS, principalmente ao nível autárquico, esteve longe de ficar imune e impune. Tudo isto perante um PCP prisioneiro dos seus fantasmas ideológicos e um CDS em desagregação, incapaz de perceber a diferença entre o oiro durável e o pechisbeque de ocasião. Como no filme, infelizmente, ninguém sai ileso e é esse o drama. Ainda hoje.

A Lua...



Uma desilusão, o dia em que todos chegámos à Lua. Via-se mal, não havia selenitas (o que infelizmente desde o Tim Tim já sabíamos), qualquer colónia marciana emigrada, restos de uma antiga civilização Atlante, monstros vivendo no seu subsolo e para lá enviados por um qualquer cientista louco ou, sequer, vislumbre de Flash Gordon e do erotismo da bela Dale Arden. Nada de verdadeiramente excitante, portanto.

Por isso mesmo, foi talvez mesmo esse o dia em que terminou a nossa adolescência, num ano que o fim de Woodstock também nos faria entrar na idade adulta e as pseudo-eleições do regime terminariam com qualquer réstia de esperança. Foi mesmo um mau ano de uma boa década, sabiam,,,?

domingo, julho 19, 2009

Songs of the WW II (12)

Walt Disney & Oliver Wallace - "Der Fuehrer's Face" (1942)
“Der Fuehrer’s Face” é o título, “conjugando” o inglês e o alemão, de um desenho animado, produzido pela Disney em 1942 e protagonizado pelo Pato Donald, que satiriza o nazismo, integrando-se assim no esforço de guerra e na propaganda contra o Eixo. Ganhou, em 1943, o Oscar para a melhor curta-metragem de animação.

A canção do mesmo nome, que integra o filme, foi escrita por Oliver Wallace.

sábado, julho 18, 2009

Anglophilia (60)




The English Garden

As faltas dos deputados e os "media"

O relevo absolutamente despropositado dado ás faltas dos deputados, estas transformadas em padrão quase único do seu comportamento e eficácia no cumprimento da actividade para a qual foram eleitos, acaba por ser um retrato, ele sim, representativo da indigência e primarismo a que chegaram a crítica e análise políticas em Portugal. É o trabalho dos deputados analisado em função do modo como votaram, da qualidade do trabalho apresentado, do cumprimento daquilo a que em campanha se propuseram, da importância para o país das suas propostas, do rigor e realismo posto na feitura das leis, do contacto menos ou mais frequente com os eleitores, do modo como tentaram fazer cumprir o programa eleitoral do partido, etc, etc? Não, ou pelo menos isso são coisas relegadas para segundo plano. Já tínhamos a tradicional análise do PCP em função do volume de trabalho efectuado, esquecendo o partido de Jerónimo de Sousa que grande parte dele, sem qualquer hipótese de influenciar as decisões parlamentares, acaba por ser apenas um trompe d’oeil para propaganda interna. Agora são os representantes do povo tratados como quaisquer irresponsáveis ou criaturas indigentes, crianças e adolescentes avaliados em função da sua comparência na sala de aula sem que a essa análise se juntem quaisquer outros padrões de avaliação bem mais importantes.

E assim vão os “media” contribuindo alegremente para a criação de uma mentalidade populista e anti-democrática junto da opinião pública. Compreende-se: é bem mais fácil e rentável para jornalistas e meios agirem como "chefes de turma", consultando rapidamente o livro de presenças na Assembleia da República, do que efectuarem um sério e permanente escrutínio do trabalho político de cada um dos deputados.

Nota: o deputado Nuno Melo (só para dar um exemplo de alguém que eu não ajudei a eleger com o meu voto) foi citado quase unanimemente como tendo realizado um excelente trabalho na actual legislatura - conclusão com a qual concordo. Terá faltado muito, pouco ou apenas "assim-assim"?

sexta-feira, julho 17, 2009

Sword & Sandals (6)

Maciste all'Inferno (1962)

O "Bloco" e Lisboa

Aparentemente (ou será mesmo na realidade?) o “Bloco de Esquerda” desistiu de concorrer ao município lisboeta. Depois da sua ala mais sectária (devo dizer “estalinista”?) ter forçado o afastamento de José Sá Fernandes, é essa mesma lógica que parece prevalecer na candidatura de Luís Fazenda, alguém que reduzirá à expressão mais simples a votação do partido numa sua área preferencial de implantação como parece ser a cidade de Lisboa. Em contrapartida, o PCP, ao optar por Rúben Carvalho, candidata um “alfacinha” (apesar de, penso, não ter nascido ou não viver actualmente em Lisboa) profundo conhecedor da sua cidade, que sempre cultivou "pontes" e uma imagem de alguma "abertura", intelectual prestigiado (é um dos maiores estudiosos do fado, com obra publicada, e da música popular americana) e personalidade capaz de atrair para o voto no seu partido pessoas de outras origens ideológicas. Também o PS, depois do acordo conseguido com Helena Roseta, parece ter finalmente percebido quão importante será ganhar a cidade, vendendo os anéis para não arriscar perder a mão que os segura.

Esta posição do “Bloco”, que provavelmente o conduzirá a uma derrota histórica, acaba por reflectir também a sua profunda fraqueza e incapacidade de actuação a nível autárquico, fruto não só do seu tardio aparecimento na cena política enquanto força única e com algumas pretensões de poder, que o limita na distribuição de benesses característica do poder local, como também da origem maioritariamente jovem e estudantil - um pouco marginal ou pós-moderna ao nível da vivência, se quisermos – dos seus militantes, pouco consentânea com o modelo de funcionamento, baseado na intriga e tráfico de influências, nos pequenos poderes burocráticos e conservadores, que se tornou norma na luta política autárquica.

Lynch, mais uma vez

"Mulholland Drive", de David Lynch (2001)
Connie Stevens - "Sixteen Reasons"
“Mulholland Drive” é o meu David Lynch favorito e talvez o filme mais surrealista da história do cinema (será?). Sim, eu sei que há aquele sonho desenhado pelo Dali em “Spellbound”, mas ele é apenas uma sequência nesse mesmo filme.

Bom, sequência por sequência a minha favorita de “Mulholland Drive” - e uma das minhas preferidas de todo o cinema que vi - é certamente a da “Llorona de Los Angeles” (“No Hay Banda!”), mas essa já por aqui foi em devido tempo exibida. Esta, agora, é apenas uma curiosidade nessa maior e enorme curiosidade que é o universo fantástico de Lynch, embora o modo como Naomi Watts (gosto muito de Naomi Watts, acrescento, talvez pelo seu ar de “girl next door” um pouco perversa) olha Justin Theroux vá ao encontro de todas as nossas fantasias (quase todas...).

O tema chama-se “Sixteen Reasons”, #3 no Billboard na interpretação de Connie Stevens em 1960, aquela era um pouco idiota entre o declínio do "rock and roll" original e o advento da “British Invasion”. Vale a pena ser vista (a sequência mas também a menina Watts), mas muito mais do que ambas o filme de Lynch na totalidade, agora que por aí anda de passagem no MOV (acho).

quinta-feira, julho 16, 2009

Alberto João Jardim tenta comer-nos por parvos... e de certo modo consegue!

O dislate de Alberto João Jardim sobre o comunismo tem apenas um fim em vista: lançar uma cortina de fumo sobre a essência das suas propostas de revisão constitucional (aquelas que verdadeiramente lhe importam, sobre a autonomia regional), desviando delas o foco das atenções mediáticas em favor de uma cretinice que ele próprio sabe não ter pés nem cabeça. Simultaneamente, reforça a imagem de enfant terrible que para si próprio escolheu e lhe tem dado frutos. Pelos vistos consegue... o que prova que é o país, não ele, que parece ser mesmo cretino!

Regimental Ties (3)


Royal Navy

quarta-feira, julho 15, 2009

À atenção de Paulo Portas

Hoje, numa importante avenida de Lisboa, um grupo de cerca de dez calceteiros reconstruía um passeio. Pelo que me apercebi, todos eles imigrantes africanos, assegurando a continuidade de um ofício no qual os portugueses se tinham tornado mestres e especialistas. Sem estes imigrantes, seguramente uma técnica e um ofício condenados, como tantos outros, ao lento desaparecimento. Que o deputado Paulo Portas pense no assunto...

"Silly season": hoje apetece-me dizer isto...

As pessoas são como os vinhos: os de qualidade, quando envelhecem perdem em força e vigor o que ganham em elegância e complexidade, em “nuances” até então escondidas; os outros, no início até podem parecer aceitáveis, mas ao fim de pouco tempo ficam “chatos” e desinteressantes e rapidamente acabam por se estragar.

"O invencível pensamento do camarada Mao ilumina o palco da arte revolucionária" (1)

O "Público" e uma tal "Associação Força Emergente"

O “Público”, um jornal que se pretende de referência, faz hoje eco destacado da pretensão de uma tal Associação Força Emergente requerendo a demissão da procuradora Cândida Almeida da direcção das investigações do “caso” Freeport. Sobre a referida Associação, para além do nome do seu responsável, desconhecido da opinião pública, e da referência ao facto de se tratar de uma associação cívica com fins políticos e integrando “empresários, gestores, consultores internacionais, advogados, professores, psicólogos, historiadores, médicos e enfermeiros” (já agora, porque não calceteiros marítimos? É profissão não credível?), nada mais nos é dito. Sendo a Associação Força Emergente uma instituição até agora desconhecida da esmagadora maioria dos portugueses, mesmo dos mais informados, quais serão os seus fins? A sua ideologia? Como está organizada? Quem compõe os seus orgãos dirigentes? Quais as suas actividades conhecidas? Pouco importa para o “Público”, pois os meios justificam os fins: desacreditar a investigação do “caso” Freeport, denegrir a imagem da procuradora Cândida Almeida e, no limite, lançar a suspeição sobre a figura do primeiro-ministro, em última análise o visado com a desinformação.

Como sou curioso, tratei de procurar na net informação sobre a “dita cuja” Associação Força Emergente a que o “Público” dá hoje guarida e, claro, aconteceu o que já suspeitava: pela linguagem, nada mais parece ser do que uma ultra-minoritária organização proto-fascista, justicialista e populista (desculpem lá o excesso de "ismos"...) um pouco à semelhança de um peronismo serôdio e a meio-caminho entre o “Jornal do Crime” e o “Diabo”. De certo modo, um eco de alguns fóruns de opinião. Pois, se não acreditam, façam favor de ler.

Já agora, caro JPP, fico à espera, com enorme ansiedade, do seu comentário sobre esta notícia no próximo “Ponto/Contraponto". Será que posso ter esperança?

Nota 1: Como já por aqui afirmei no, pouco (ruído já existe de sobra), que escrevi sobre o “caso” Freeport, sou talvez dos poucos portugueses que não tem qualquer posição apriorística sobre o assunto e, acima de tudo, gostaria de poder concluir antes das eleições sobre a honorabilidade do primeiro-ministro de Portugal, o “meu” primeiro-ministro. Resta-me pouca ou nenhuma esperança que este meu desejo se cumpra.

Nota 2: Apesar de tudo e mais alguma coisa me afastar de qualquer ideologia anti-democrática, sou dos que pensam que não há mais lugar no Portugal de hoje à interdição de associações que perfilhem ideologias de cariz fascista ou de extrema-direita. Por isso, não me move nas minhas afirmações qualquer intenção proibicionista. Mas penso também que um jornal de referência como o “Público” deveria investigar a credibilidade das organizações desconhecidas de cuja actividade se faz eco, dar ao leitor os elementos informativos necessários para que este possa julgar da respectiva credibilidade e, em função dela, conceder-lhes o destaque adequado.

terça-feira, julho 14, 2009

Bernardo Marques (13)

Capa de Bernardo Marques para a edição portuguesa (Editora Ulisseia) de "A Roda da Fortuna", de Roger Vailland

História(s) da Música Popular (137)

The Contours - "Do You Love Me"
"Under the Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XX)
Curioso é verificarmos que os grupos mais conhecidos e importantes da “British Invasion” (com excepção dos Beatles, claro está), Stones, Animals e Manfred Mann, todos eles mergulham as suas raízes nos "blues" e R&B e, claro, nasceram fora do Merseyside e do "Merseysound": Stones e Manfred Mann em Londres, Animals em Newcastle. Bom, claro, poderíamos juntar aqui - aos grupos com maior projecção - os Kinks, londrinos mas fora da cena R&B, mas para o “post” não só não dá muito jeito como não me parece, apesar do meu gosto pessoal prezar muito os seus primeiros temas, tenham atingido na sua primeira fase, isto é, anterior às crónicas de Ray Davies iniciadas em Outubro de 1965 com “A Well Respected Man”, a mesma projecção e individualidade de Animals e Manfred’s, já que Stones são outra conversa bem mais séria.

Bom, o problema é que, depois deste enorme intróito, não iremos falar de nenhum deles, mas daquele que foi, durante muito tempo, tido como the next big thing e também, depois dos Beatles, o primeiro a ver um seu “single” atingir um lugar de destaque nas "charts" americanas: Dave Clark Five (DC5), claro, que o conseguiram com “Glad All Over” (#6), nasceram para a música no norte de Londres e também nada (ou muito pouco) tiveram que ver com a herança R&B. Pois os DC5 gravaram essencialmente música por si escrita (assim são os seus maiores êxitos), mas também um tema original dos Contours (1959 - Detroit, Michigan) escrito por Berry Gordy, a alma matter da Motown, em 1962, “Do You Love Me” mais tarde (1987) popularizado pelo filme "Dirty Dancing".

Curioso, muito curioso mesmo, é que o tema foi #1 no UK, em 1963, na interpretação de um outro grupo bem menos relevante no panorama da “British Invasion”: os Tremeloes de Brian Poole, aqueles mesmos que a Decca preferiu em detrimento dos Beatles apenas porque viviam em londres e estavam mais á mão. A gravação dos DC5 foi editada quase simultaneamente, mas não passou de #30. Lesson to learn: Os Tremeloes terão sido preferidos aos Beatles pela Decca e alcançado o #1 em detrimento dos DC5, mas o futuro, neste caso, revelou-se bem mais justo e tratou de repor as coisas na ordem. É que às vezes o mundo até é justo...

Dave Clark Five - "Do You Love Me"

Aerosoles

O caso Aerosoles, com os americanos “donos” da marca (Aerogroup) a proporem o fim da fabricação em Portugal, a intensificação das compras à China e o pedido para que “copiassem mais”, parece ser um exemplo paradigmático da posição do país na chamada “divisão internacional do trabalho”: custos de produção já demasiado elevados face aos países emergentes e ainda um grau demasiado baixo de “conhecimento” e de capacidades sinergéticas, de dimensão, para se tornar um centro de R&D, quer na área no “design”, "marketing" ou desenvolvimento de novos produtos. Um país intermédio, com todos os problemas daí decorrentes.

Ou estou muito enganado ou a nova marca portuguesa recém criada nos despojos da Aerosoles (MoveOn) irá experimentar muito em breve o sabor amargo desta mesma realidade e sofrer-lhe as consequências. Por enquanto, vale a boa vontade e o optimismo, mas oxalá não seja “um engano de alma ledo e cego...”.

segunda-feira, julho 13, 2009

No país dos sovietes (11)

Lebeshev, 1936 We do like Stachanov!
Publisher: Izo-Azernesr, Baku(Lithography, 95x65 cm., inv.nr. BG E11/931)
"Stachanov, a miner achieving incredibly high production figures, is held up as shining example for workers throughout the Soviet Union. Here he is emulated by Azerbaijani cotton workers. Many years later, Soviet authorities admitted that Stachanov was assisted by a team of miners when he performed his heroic feats."

O Benfica, o "losango" e o nº6

Os jogos de pré-época valem o que valem: o ritmo e intensidade nada têm a ver com os jogos “à séria”, há jogadores a chegar e outros que não estão e tudo o mais e o resto que sabemos. Costumo mesmo dizer que estes jogos promovem um tipo específico de jogadores: os “craques” de pré-época. De qualquer modo, existe sempre algo que se pode ir observando e uma ou outra conclusão a tirar. E que podemos concluir desde já do “meu” Benfica?

Duas coisas. A equipa tem um claro problema para resolver com o “pivot” defensivo, um lugar que é meio caminho andado para construir uma equipa: Bynia é para esquecer, Filipe Bastos logo se verá, Yebda tem problemas para sair a jogar, é demasiado faltoso e desposiciona-se com facilidade (será de outros terrenos) e talvez reste Amorim, embora também o prefira ver em zonas de nº8. O ano passado havia Katsouranis, que jogava com os centrais, sabia saír a jogar e valia alguns golos por época, e a utilização de um duplo “pivot” pressionante (com Yebda ou menos com Amorim) ajudava a minorar o problema. Como será este ano com o losango, um sistema que me parece, talvez, um pouco contra-natura num plantel com Di Maria, Urreta, Coentrão e Cardozo? Para já temos um meio-campo desequilibrado, com três “box to box” que sabemos o que podem valer (Amorim, Yebda e Ramires) e sem um número 6 de confiança. Veremos o que nos reserva o futuro próximo...

Depois, quando olho para este problema do “pivot” defensivo e para um meio-campo ofensivo e um ataque em que não vejo quem possa pressionar (Aimar, Cardozo, Saviola, Nuno Gomes, Urreta, Di Maria, e ainda o tal Coentrão), para a aposta em laterais ofensivos como estivéssemos a falar de um losango perfeito (à Sporting) sem a existência de extremos, a minha preocupação aumenta. Esperemos Amorim e Ramires ajudem a equilibrar a equipa e os jogos seguintes a tirar conclusões.

domingo, julho 12, 2009

"Les haricots sont pas salés" - old time cajun music (9)

Lawrence Walker - "Lafayette Two Step"

Os portugueses e o "Guinness"

Um dos maiores indicadores do atraso cultural e civilizacional, da menoridade intelectual do povo português é certamente esta tentativa constante de bater "records" do “Guinness”, seja o maior tacho de pobres gastrópodes indefesos ou o maior "pic-nic" com direito a garrafão (ainda existe?) e arroz de marisco. É simples: não exige normalmente grande esforço nem persistência (são eventos localizados num tempo muito curto), muito menos alguma dose de conhecimentos e cultura, com alguma frequência, tratam-se de coisas pouco sofisticadas, a roçar ou mesmo para além do boçal e permitem facilmente, sem grande trabalho, o acesso aos tais 5’ de fama. Difícil encontrar algo mais imbecil no primeiro mundo do século XXI. Em vez de alguma dose de orgulho, os seus promotores e participantes deveriam mais sentir vergonha.

sábado, julho 11, 2009

Lucy in the Sky with Diamonds (24)

Jefferson Airplane

A Alegre só convém a derrota do PS

Para o que são os objectivos pessoais de Manuel Alegre de conseguir a indigitação como candidato presidencial com o apoio oficial do PS e com hipóteses de ganhar - e apenas isso o move neste momento -, uma derrota do partido nas eleições legislativas, com a entrada em funções de um governo PSD ou PSD/CDS com o apoio de Cavaco Silva e atirando o PS para a oposição com as mãos livres de responsabilidades governamentais e o mal disfarçado desejo revanchista face a Cavaco Silva, seria o cenário mais favorável. De facto, não se está bem a ver como um governo PS, com José Sócrates como primeiro-ministro, poderia facilmente conviver com o apoio a uma candidatura e eventual co-habitação com um Presidente da República como Manuel Alegre. Por ele próprio, pela sua inabilidade e populismo políticos, mas também pelas posições de que se tem feito porta-voz e corresponderiam, de certo modo, a importar um pouco das ideias e propostas do “Bloco de Esquerda” e do PCP para a presidência do Estado. Daí que, até Setembro, não seja de estranhar que se venham a multiplicar as suas tomadas de posição críticas, como a do “Expresso” de hoje, face ao governo, José Sócrates e à linha oficial do PS. É que a cada voto perdido pelo partido nas eleições legislativas poderá corresponder um ou mais votos ganhos por si nas futuras presidenciais. Será duro para o PS constatar isto, mas é a triste realidade da vida.

sexta-feira, julho 10, 2009

Muito bem!, José Manuel Fernandes

Frequentemente, tenho aqui manifestado discordâncias para com alguns dos editoriais de José Manuel Fernandes no "Público". Mas perante o seu editorial de hoje só me posso mesmo congratular e dar-lhe os meus parabéns. Muito bem!

Songs of the WW II (11)

"Wenn alle untreu werden"
Muitas das canções da WWII são canções de guerra ou patrióticas adoptadas e/ou adaptadas durante esses anos. Está neste caso “Wenn alle untreu werden” (“quando todos perdem a fé”, numa tradução livre), uma canção patriótica alemã baseada num poema de 1814 de Max von Schenkendorf e, penso, também composta pelo mesmo na base da melodia de uma velha canção de caça francesa. Durante a WWII, foi adoptada pelas tristemente célebres SS (Schutzstaffel), mas isso não é certamente razão suficiente para que a não traga aqui, já que se trata, como muitas outros hinos de guerra e de sinistras organizações totalitárias, de uma bonita canção.

quinta-feira, julho 09, 2009

The best of SUN rockabilly (7)

Ken Cook - "Don't Be Running Wild (problem child)

Isabel Meireles e as opções do PSD

Não reconheço no perfil e experiência políticos de Isabel Meireles nada de especialmente relevante que a recomende como candidata por qualquer um dos partidos do chamado “arco governamental” à presidência de uma das mais importantes câmaras municipais do país. Dela conheço a sua actividade como comentadora de assuntos europeus da TSF, tema do qual é especialista e no qual, de acordo com esses seus comentários, sempre me pareceu pessoa razoavelmente conhecedora e competente, o que talvez indiciasse um perfil mais consentâneo com uma candidatura ao parlamento de Estrasburgo. Poder-se-ia argumentar que se trata de alguém com notoriedade mediática, um pouco à semelhança do que em tempos aconteceu em Sintra com a candidata do PS Edite Estrela (uma má escolha, como se provou), mas, dando de barato que isso constitui condição suficiente para gerir uma importante autarquia, o que está longe de ser verdade insofismável, nem sequer me parece ser esse o caso de Isabel Meireles, excepto junto de alguns (poucos) que seguem estas coisas com mais atenção e para os quais essa notoriedade não será assim tão importante e decisiva na hora da escolha.

Tendo dito isto, talvez argumentem que, face à recandidatura tida como ganhadora de Isaltino Morais, um homem com origem no mesmo partido (PSD), poucas hipóteses havia de escolher alguém que, à partida, teria boas hipóteses de vir a sair derrotado. Mas coloquemos a questão de outro modo: face à recandidatura de alguém oriundo da área do PSD, mas acusado e em julgamento por crimes e irregularidades praticados no exercício do seu mandato político, não seria quase obrigação de um partido com vocação de governo, à partida o melhor posicionado para derrotar o actual presidente, apresentar um candidato politicamente forte, capaz de provar, no campo dos princípios, dos valores e das ideias, ser possível vencer o candidato Isaltino Morais, e tudo aquilo que ele representa, no combate eleitoral? Não seria esse o exemplo que os cidadãos esperariam e não a capitulação perante alguém que, por muito que se fale da “obra feita” (cada vez que oiço o termo, devo dizer me torço todo), representa o que de pior se pode apontar ao poder local?

Pelos vistos PSD não pensou assim, ou então Isabel Meireles terá capacidades que não reconheço ou desconheço e estarei a ser injusto na minha apreciação. Sinceramente, apesar de não ser habitante do concelho e, assim, não poder contribuir com o meu voto para o desfecho eleitoral, este é um dos casos em que gostaria mesmo de estar errado.

Nazi exploitation (5)


"Salon Kitty" (1976)

quarta-feira, julho 08, 2009

Terence Mallick e Carl Orff

Carl Orff - Schulwerke: "Gassenhauer"
Da banda sonora de "Badlands", de Terence Mallick (1973)
De Terence Malick tinha ficado com uma vaga boa ideia desde que, nos anos 70, tinha visto “Days Of Heaven” e “Badlands”, salvo erro no velho Apolo 70 (quase juro um deles foi por lá). Uma boa vaga ideia, já que não mais tornei a ver o primeiro e o segundo houve que esperar por uma reposição televisiva nos anos 90 para que a “boa” se confirmasse e a “vaga” se tornasse mais presente. Dessa boa vaga ideia tinha-me restado um certo sentido poético da tragédia e uma fotografia (mais em “Days Of Heaven”) que me remetia para o meu bem e muito amado Hopper. Enfim, Mallick passou a constituir para mim uma quase, quase lenda. Talvez por isso a semi-decepção de “Thin Red Line”, a piscar o olho ao bom selvagem e - sempre achei – com uma boa ½ hora a mais. Mas adiante que não é a isto ao que venho.

De Carl Orff (1895-1982) estamos do “Carmina Burana” fartos, de mega-concertos de estádio a publicidade quanto baste ou, até, música de elevador (aliás, a peça, composta no auge do nazismo, esteve sempre envolta, tal como o próprio Orff, em grande polémica). De tal modo que nos acontece com a Cantata de Orff o que se passa em relação a quem nos é demasiado próximo: acabamos por perder o sentido crítico.

Mas nem só de “Carmina Burana” se faz Orff - e ainda bem. Também de Schulwerk (“trabalho escolar” – um método desenvolvido por Orff para a educação musical) e do pequeno trecho Gassenhauer (“canção de rua”), nele incluído, que Mallick foi repescar para “Badlands” e que tanto marca a acção e a recordação do filme. Uma boa razão para recordar Orff.

Ainda a "saga" CR e o estranho caso das camisolas esgotadas

Já li em pelo menos dois jornais, o “Mais Futebol” ("on-line") e o”i” (em papel), a notícia de que as camisolas de Cristiano Ronaldo se teriam esgotado, sinal de uma procura que teria excedido todas as expectativas. Pode até ter acontecido, mas, sejamos claros: colocar propositadamente no ponto de venda uma quantidade de produto ligeiramente inferior (apenas ligeiramente) àquela que se espera vender, quando se sabe estar perante algo que irá ter grande procura e em relação ao qual existe enorme expectativa no mercado, é uma “velha e relha” técnica de “marketing” que permite potenciar essa expectativa já existente e “construir” para os “media” uma notícia, um “facto político”, que irá, ainda mais, aumentar a apetência e as subsequentes vendas do produto.

Claro que essa "sub-stockagem" nunca poderá ser demasiado elevada, pois isso acabaria por poder criar algum mal-estar no mercado face ao produto e ao vendedor e, desse modo, originar perda de vendas desse mesmo produto e até de outros da mesma origem, por desistência. Exactamente pelo mesmo motivo, também essa ruptura de stocks no ponto de venda nunca poderá ultrapassar umas horas, muitas vezes “esgotando” o produto uma ou meia hora antes do encerramento da loja e estando de novo disponível no dia seguinte, quando da sua abertura. Mas, mais uma vez, o que tudo isto prova é que, face a um investimento tão elevado, o Real Madrid não irá deixar nada ao acaso (alguém, para além dos jornalistas e comentadores do costume, assim pensou?), actuando com enorme rigor e profissionalismo para maximizar o seu retorno.

Prova também, como se isso fosse preciso, o grau de sofisticação que a indústria “futebol” já alcançou nos seus mercados de vanguarda - Inglaterra e Espanha - e sua internacionalização em que agora o Portugal ibérico (atenção clubes portugueses!) é agora um mercado cada vez mais relevante. E, por fim, mostra também a “intimidade” cada vez mais necessária entre clubes e “media” para que ambos, em conjunto, contribuam e lucrem com o êxito do negócio.

O "Gato Maltês" recomenda

Um interessante artigo de Avelino de Jesus, professor no ISEG, no "Jornal de Negócios" sobre o tema de momento dos investimentos públicos.
(com os meus agradecimentos ao Tiago Miranda)

Duas capas de Octávio Clérigo (2)

"Vidas Secas", de Graciliano Ramos
Potugália Editora

terça-feira, julho 07, 2009

Marty Robbins & Charlie Feathers (8)

Charlie Feathers - "Stutterin' Cindy"

Assalto ao BES de Campolide: entre a execução sumária e 11 anos de prisão.

O assaltante sobrevivente do assalto ao BES de Campolide foi hoje condenado pela Justiça a 11 anos de prisão efectiva, uma pena que me parece justa e proporcionada. Significa isto que, se tudo correr bem para si e para todos nós (faço votos para que isso aconteça), poderá ter direito a liberdade condicional e a tentar refazer a sua vida dentro de seis ou sete anos, já que é bastante novo. Esta oportunidade, que só honra um país que se pretende civilizado e que seria desejável viesse a ser bem sucedida, resolveu a PSP, com a conivência do governo ao ceder ao securitarismo mais primário, não conceder ao seu companheiro de assalto que, recorde-se, não integrava, tanto como o agora condenado, nenhuma rede de grande criminalidade organizada. Boa sorte, pois, para o cidadão Welligton Nazaré e os votos de que seja possível ter uma vida digna após a cumprimento da justa pena a que a sociedade o condenou.

Cristiano Ronaldo, o futebol, a "movida" e a gestão de um valioso activo

A estupidez humana não tem limites e a cretinice de jornalistas e comentadores desportivos, na sua generalidade e com poucas excepções, também não. Agora interrogam-se sobre se o “movida” madrilena irá ou não “engolir” Cristiano Ronaldo, se as inúmeras solicitações de uma grande cidade não irão prejudicar o seu rendimento enquanto atleta. Até há quem sugira que se case, o que teria sérias hipóteses de se tornar no começo do fim do negócio!

Bom, no Manchester United Cristiano era apenas um jogador de futebol, mesmo que o melhor, e, nesse sentido, apenas se lhe exigia que jogasse muito bem à bola e contribuísse para que o clube conquistasse títulos. A sua vida pessoal, desde que não obstasse seriamente a este objectivo essencial, era relativamente indiferente e mesmo numa cidade relativamente provinciana como Manchester, quem ganha o que Cristiano ganhava facilmente poderia organizar a “movida” na sua própria casa.

Agora, no Real Madrid é uma “pop star”, num modelo de negócio que irá potenciar esta sua vertente: só assim poderá tornar rentável um tão elevado investimento. Deste modo, alguém no seu perfeito juízo poderá pensar que o seu novo clube irá deixar a gestão da vida deste seu activo tão valioso à casualidade e aos humores e desejos do jogador? Às “tentações”? Por certo não pensará, e a vida profissional e pessoal do recente CR9, a partir de agora unidas num todo não mais separável, irá ser gerida com pinças pelo seu novo clube, num equilíbrio que lhe permita, tanto quanto possível, manter esse seu novo estatuto de vedeta do espectáculo: isto é, jogar o suficientemente bem para não perder a imagem de grande jogador e, fora do campo, criar suficientes motivos de interesse para os “media” de modo a que a sua imagem de “pop star” se mantenha e fortaleça. A história de Paris Hilton já aí está para o provar.

Um equilíbrio difícil, mas no qual o Real Madrid já pensou e nunca, mas nunca, irá deixar, ao contrário do que alguns comentadores pensam, ao sabor dos acasos de momento e das decisões do jogador. É que 94 milhões (fora os ordenados e "fringe benefits"), mesmo para Florentino Perez e para o Madrid, é mesmo muito dinheiro.

Duas capas de Octávio Clérigo (1)

"Uma Fenda na Muralha", de Alves Redol
Portugália Editora

segunda-feira, julho 06, 2009

História(s) da Música Popular (136)

O. V. Wright - "That's How Strong My Love Is"
"Under The Influence" - "The original songs of the "British Invasion" (XIX)
“That's How Strong My Love Is” é um dos meus temas favoritos da música popular, seja pelos Stones ou Otis Redding; um daqueles “slows” em que só mesmo as muito feias ficavam sentadas. Os Rolling Stones incluíram-no no seu álbum de 1965 “Out Of Our Heads”, o primeiro a alcançar o topo nos USA. Apesar da omnipresente confusão de alinhamentos entre os álbuns editados nos USA e no UK, “That´s How Strong My Love Is” está felizmente presente em ambas as edições. No meu caso especial, tenho-o também na edição brasileira de “Out Of Our Heads”, que curiosamente segue o alinhamento britânico, na colectânea também brasileira “Heartbreakers” e no CD original, que segue o alinhamento americano. Para (quase) todos os gostos...

Deixando os Stones, o que muitos não sabem é que o tema é um original americano do intérprete “soul” O. V. Wright – que teve vida curta (1939-1980) e bem complicada - escrito pelo seu "manager" Roosevelt Jamison e editado em “single” em 1964. Muito diferente tanto da versão dos Stones como de Redding. Mas todos lhes estamos, a Wright e Jamison, bem agradecidos.

Patrocínios, futebol e mais uma vez Paulo Curado e o "Público"

Paulo Curado volta, no “Público” de hoje, "à carga" sobre a questão do retorno dos patrocínios investidos no futebol. Como sou mais teimoso do que ele e não desisto de tentar fazer do rigor opção de pensamento e escrita (que me desculpem quando não consigo), repito o que afirmei num “post” de 5 de Julho de 2007 sobre o mesmo assunto e sobre o mesmo Paulo Curado, já que entretanto o jornal e o autor do artigo nada aprenderam.

“Segundo a Cision (empresa de monitorização de meios de comunicação citada hoje pelo “Público”), as nove principais empresas patrocinadoras da actividade “futebol”, em Portugal, alcançaram na última época um retorno de 433 milhões de euros face ao seu investimento (não menciona o investimento total mas fala de 43.7 milhões para os "três grandes" o que, portanto, não deve andar muito longe dos investimento total). Conclui ainda o “Público” que, em função desse retorno, investir no futebol é cada vez mais lucrativo.É uma conclusão errada fruto de uma metodologia “de medida” inadequada e pouco rigorosa que converte o espaço e tempo de exposição, conseguidos pelas marcas nos diversos meios, em espaço publicitário valorizado a preços brutos “de tabela”. E porquê inadequada e pouco rigorosa?

Bom, em primeiro lugar porque se trata de dois tipos diferentes de comunicação, com funções específicas, cada uma utilizando linguagens também diferentes e de tipo distinto que, portanto, não podem ser avaliadas pela mesma bitola. Em segundo lugar, porque a metodologia utilizada considera que todo o espaço ou tempo da peça (escrita, reportagem TV, notícia de rádio), onde a marca é mencionada, é contabilizado para efeitos do cálculo do retorno, mesmo que a marca aí seja mencionada apenas uma vez ou “apareça” de forma difusa ou esporádica. Em terceiro lugar, porque esse espaço e tempo são contabilizados em valores “brutos”, de “tabela”, e não líquidos de descontos, bónus, etc, o que tornaria o resultado bem diferente. Em quarto lugar, porque a avaliação é apenas quantitativa e não qualitativa, isto é, não entra em conta com questões tais como a adequação à estratégia e “valores” da marca, compreensão e memorização da mensagem, etc. Em quarto lugar, porque não mede os seus efeitos ao nível do consumidor e do mercado, isto é, quais as alterações que terá provocado no comportamento dos consumidores face ao mercado, “categoria” de produto e marca (compra, recompra, hábitos de consumo, etc). Se quisermos ir mais longe, a montante, não “mede” a adequação da marca ou do negócio patrocinador à actividade patrocinada, em termos de identidade de “valores” e imagem, identificação entre patrocinador e patrocinado, apropriação da actividade patrocinada pela marca patrocinadora na mente do consumidor, etc.

Seria bem melhor que Paulo Curado - autor da notícia do “Público” - em nome do rigor da informação e não sendo obrigado a perceber destas “minudências” técnicas, tivesse tido o cuidado prévio de se informar sobre a validade da informação transmitida. Não o tendo feito, a peça jornalística bem mais se parece com encomenda a preceito.

Como informação adicional, existem, hoje em dia, metodologias de research que permitem responder, com bem maior eficácia e rigor, a este tipo de questões, e que poderão constituir uma ferramenta essencial, ao nível das empresas e das marcas, na tomada de decisões sobre este tipo de investimentos."

Dos chifres e dos cornos!

Desde as célebres comédias portuguesas dos anos 40, as do António Silva e Vasco Santana (depois disso tivemos azar com ambos, Vascos e Santanas), que me diverte o facto de quando se pretende retratar as chamadas “classes altas” estas sejam vistas como “bem falantes”, falando “caro”, como se diz na gíria, expressando-se “arrebicado” e de forma pretensiosa. Supremo erro: nas classes altas utiliza-se um léxico relativamente reduzido (existe mesmo como que um código para palavras intrusas e outras admitidas) e fala-se normalmente de forma muito directa, quase como quem atira pedras, a maior parte das vezes utilizando as palavras na sua forma mais vernácula. Mais: quem pretenda falar “caro e arrebicado” é ridicularizado, tido como “possidónio”, arrivista. Maria Filomena Mónica já uma vez a isto se referiu em uma das suas crónicas...

Mas a que propósito vem isto agora? Bom, voltamos à história dos “chifres” do ministro Pinho (Honni soit qui mal y pense!)!

Quase como quem tem medo de ferir susceptibilidades ao utilizar palavras tidas por inapropriadas - “rascas”, talvez - os jornais e televisões deste país de brandos costumes lá trataram de omitir os “cornos” (ou os “corninhos”, que têm muito mais graça), substituindo-os por uns “chifres” que sempre me foi explicado ser palavra francesa para designar um número ou o valor de algo. Mais ainda: hoje de manhã, a propósito dos agentes da PSP atingidos a tiro (e não “baleados”, se fazem favor), o noticiário da TSF salientava que um deles tinha sido operado a uma “vista”. Como sempre me ensinaram que a “vista” é o sentido e o orgão é o “olho” (o “olho”, sim, o “olho”) suponho que um dia destes ainda nos venham informar que alguém terá sido operado ao “tacto”, ao “gosto” ou ao “olfacto”! É que já basta o cancro substituído pela actual “doença prolongada”, ou o “da janela à rua” para designar os suicídios num “feliz” país de antigamente onde eles não podiam existir e estavam proibidos por decreto. É que tudo isto só me faz lembrar antiga história, passada com um colega de trabalho, pessoa já de uma outra geração. Ao ser-lhe perguntado a que tinha sido operada a sua mulher, respondeu que “a uma doença das senhoras”. Comentário de um outro colega: estranha palavra para designar as “partes fundengas”!!!

Strawberries & Cream (Ano II - 15)

No surprises, ou melhor, quase nenhumas, pois talvez tivesse surpreendido menos ter ganho a mana Williams mais velha, na mais desinteressante final feminina de que me lembro. No caso da final masculina, neste ténis de Wimbledon em que quem quebra o serviço ganha o "set", Roddick assim ganhou dois, mas Federer conseguiu fazê-lo no momento decisivo.