domingo, maio 31, 2009

Grindhouse Effect (5)


Cavaco Silva: as acções da SLN ou a perda da inocência

O facto da família Cavaco Silva ter sido accionista da SLN e nessa qualidade ter realizado mais-valias com a negociação das suas acções não tem nada de ilícito, muito menos de ilegal. Nem, claro está, deixa o Presidente da República como suspeito de qualquer tipo de envolvimento no caso de polícia em que o BPN se transformou. Mas, se assim acontece e nisso os partidos à esquerda do PS têm razão nas suas apressadas afirmações (de estranhar, dado partirem de inimigos declarados do “cavaquismo” e da economia de mercado), o caso não é, contudo, politicamente irrelevante nem deixa, desse ponto de vista, Cavaco Silva isento de mácula. Percebe-se a reacção de PCP e "Bloco", colando à popularidade da figura do PR e dela tentando tirar alguns benefícios, mas o silêncio do PS não deixa de ser ensurdecedor ensaiando captar o melhor de dois mundos: a popularidade da instituição presidencial ao mesmo tempo que se demarca da figura e das acções (no duplo sentido da palavra) de Cavaco Silva.

É que se até aqui o chamado “cavaquismo” e a casta de arrivistas, novos-ricos e parvenues por si gerada, os mega-negócios feitos à sombra do Estado e potenciados pelo dinheiro fácil dos fundos estruturais e da política do betão, eram vistos como algo a que Cavaco Silva era alheio, manifestando mesmo, perante o fenómeno, até um conveniente e distanciado “nojo” (no fundo residia aqui o tão propalado incómodo do então primeiro-ministro perante o “partido”, o modo como este funcionava e os interesses que perseguia), a partir do momento em que o actual presidente aparece como um dos participantes e beneficiário, mesmo que relativamente pouco importante e somente enquanto accionista, naquele que é um caso de polícia e, certamente e pelo que se sabe, o negócio mais sujo do "cavaquismo", em algo com ligações ao que de pior existe nos negócios escuros internacionais (até ao tráfico de armas), a imagem impoluta e a autoridade moral do actual Presidente da República não podem deixar de sair afectadas. Pior: a confiança pessoal e política manifestada até ao fim em Dias Loureiro, a tibieza que aqui assinalei na sua actuação neste caso e que o insuspeito José Pacheco Pereira não deixou esta semana também de referir, até mesmo a nomeação de alguém com o perfil bem conhecido de Manuel Dias Loureiro como conselheiro de estado, não deixarão de ser vistas por muita gente, mesmo que com o seu “quê” de injustiça, como resultado da ligação de Cavaco Silva, enquanto accionista e beneficiário das mais-valias geradas, aos negócios do grupo. Ou mesmo como resultado de um seu favorecimento.

Mais uma vez friso que nada de ilegal ou ilícito estará em equação, mas digamos que Cavaco Silva terá perdido esta semana a sua aura de inocência. Por alguma razão, não consta alguma vez Oliveira Salazar tenha jogado na bolsa ou tido participação em negócio!

Duas notas:
  1. Não me parece que o anunciado distanciamento de José Pacheco Pereira face à actuação do presidente da República neste caso seja desinteressado. Se, por um lado, pode aparecer como uma pequena e fria vingança de JPP para com o PSD “dos negócios” que sempre o execrou enquanto intelectual e pensador político (apesar de JPP dizer reconhecer-se no PSD dos "self-made men" – tem aqui o resultado), por outro pode também representar um sinal de que a campanha de Rangel estará a fazer nascer no PSD uma nova classe dirigente (Rui Rio, o próprio Rangel), de ideias mais próximas do neo-liberalismo e sem o estigma e o incómodo, a herança de um estado tutelar, que o "cavaquismo" pode representar. Aguardemos.
  2. Seria interessante saber se a família Cavaco Silva era uma habitual investidora no mercado de capitais ou se as acções da SLN constituem um caso mais ou menos isolado. Não é indiferente para a imagem do PR o investimento na SLN ser um entre tantos (o que aligeiraria as consequências políticas que este caso lhe possa acarretar), único ou quase exclusivo.

sábado, maio 30, 2009

Mais péssimas traduções...

Como o fim de semana e o calor convidam mais à preguiça da escrita, apetece-me apenas publicar mais uma pequena nota sobre as péssimas traduções. Ouvi há pouco, num documentário emitido pelo canal “História” sobre Porfírio Rubirosa, “liquor” ser traduzido por licor. Errado. “Liquor” significa “álcool”, no sentido genérico de bebidas alcoólicas. A palavra inglesa para “licor” é a francesa “liqueur”. Que raio!, vem em qualquer dicionário!

Gilbert & Sullivan (3)

Gilbert & Sullivan - "The Pirates of Penzance"
"My Eyes Are Fully Open"

sexta-feira, maio 29, 2009

Pobre Vital...

Vital Moreira é um intelectual e um académico; manifestamente tem-se sentido mal numa campanha em que nada de relevante se discute, dominada pela retórica e chicana parlamentares de Paulo Rangel, algo que em devido tempo previ. Acossado, inseguro da e na sua prestação, tentou o populismo, o “sound byte”. Saiu-lhe a “roubalheira”. Pode alguém ser quem não é?

Michelle Brito: agora venha a consistência

Apesar da clara derrota de hoje, Michelle Brito conseguiu finalmente um resultado com algum relevo, provando que pode vir a ser algo mais do que um “palmo de cara” e o resultado de uma excelente assessoria de comunicação baseada no físico, na simpatia e no facto de treinar na Academia de Nick Bollettieri. Mas para isso terá a partir de agora ser mais consistente, provando também que o resultado de Roland Garros contra a chinesa Jie Zheng não foi apenas fruto de circunstâncias demasiado conjunturais. Ninguém lhe pede a lua, isto é, que ganhe torneios do Grand Slam, mas conseguir a prazo (dois, três ou quatro anos) estar consistentemente entre as 20 melhores do ranking W ATP já seria o que se lhe poderia exigir para justificar a notoriedade mediática alcançada num país que sempre achou ser o ténis coisa de meia dúzia de "snobs". Falta-lhe altura? (tem apenas 1,65m). Verdade, mas Justine Hénin media apenas 1,67m e não tinha um “palminho de cara”!

"Pop Gear" (3)

"Pop Gear", um conjunto de vídeo-clips de Frederic Goode (1965)
1. The Honeycombs - "Have I The Right"
2. Sounds Incorporated - "Rinky Dinky"
3. Peter and Gordon - "World Without Love"

quinta-feira, maio 28, 2009

O SLB, LFV, Jesus, D. Camillo e o cinema. Ou de como se deve manter o bom humor apesar dos disparates!

"D. Camillo", de Julien Duvivier (1952)
Qual cinéfilo da minha geração não se lembra dos filmes de D. Camillo e Peppone?, símbolos do “compromisso histórico” dos pós-guerra italiano entre as duas maiores forças que se tinham oposto à ditadura fascista de Mussolini: a Democracia Cristã, representada pelo padre D. Camillo (Fernandel) e o Partido Comunista, representado pelo autarca Peppone (Gino Cervi). Apesar desse mesmo “compromisso histórico”, ou exactamente por causa dele, D. Camillo e Peppone lá se iam degladiando, à sua maneira, pela influência das forças que representavam (a igreja católica e o PCI) junto dos habitantes da aldeia onde viviam, numa luta renhida mas onde não estava ausente o respeito e admiração mútuos, apelando frequentemente D. Camillo ao auxílio de Jesus, em diálogos deliciosos, que lá o ia aconselhando a manter o bom senso e o fair play necessários ao bom termo da empresa.

Tenho-me lembrado disto a propósito da “novela” em que já se tornou a possível contratação do treinador Jesus (o terreno!) pelo meu clube. Como há que tirar partido das situações, mesmo as mais tristes e deprimentes, para, tanto quanto possível, manter o bom humor, resolvi aqui deixar uma breve sequência de D. Camillo (1952 e penso que o primeiro da série), em que D. Camillo, carregando Jesus crucificado, tenta evitar o boicote de Peppone e dos comunistas a uma procissão por si organizada. Talvez, em certa medida, uma alegoria ao modo como LFV tenta, com o possível apelo a um novo Jesus e com a ajuda deste, converter os sócios e adeptos benfiquistas à sua causa. Por mim, bem perde o seu tempo!

The famous blue "double decker"

Para além dos já tão propalados vencedores e vencidos, a final de ontem da Champions League teve um vencedor até agora ignorado: Guus Hiddink e o seu já famoso double decker azul, provando que esta era a única táctica possível para levar de vencida este Barça, o que só não aconteceu porque a UEFA resolveu dar uma mãozinha em apoio da final desejada. É feio? Feio é perder ou ganhar ilicitamente...

Black Mask (8)

O PCP, o "sector produtivo" e as PMEs

O PCP tornou-se o defensor oficioso do “sector produtivo” e das pequenas, médias e micro empresas, qual cavaleiro pelejando pela sua dama. Claro que ao defender o dito “sector produtivo” está também a lutar pela sua sobrevivência enquanto "partido da classe operária", embora a sua base de apoio esta cada vez mais restrita aos reformados, pensionistas e funcionários públicos.
Mas, independentemente disso, das boas intenções e sabendo nós que um número significativo dessas empresas não tem qualquer hipótese de ser competitiva sem praticar baixíssimos salários e/ou oferecer condições de trabalho que por vezes roçam o degradante (e frequentemente nem isso chegará), será que é esse o projecto que o PCP tem para oferecer, pelo menos no curto prazo, à classe operária que se diz representar? Pelo que lhe ouvimos e ao seu alter ego CGTP sabemos que não é assim. Mas, nesse caso, qual efectivamente a solução viável que o PCP propõe?

quarta-feira, maio 27, 2009

A propósito da Plataforma "Benfica, Vencer, Vencer": a boa vontade é importante, mas não chega

Em Outubro do ano 2000, Manuel Vilarinho venceu as eleições do Sport Lisboa e Benfica à frente de uma heterogénea coligação cujo objectivo era, essencialmente, arredar João Vale e Azevedo da presidência do clube. Na altura, assumi junto dos meus entusiasmados amigos benfiquistas uma atitude de algum distanciamento e criticismo face a tal candidatura (eles lembram-se), argumentando, eu que nunca tinha apoiado ou votado Vale e Azevedo, como continuei a não fazer, que por detrás de Manuel Vilarinho não conseguia vislumbrar uma ideia, uma estratégia para o clube, e que derrotar Vale e Azevedo seria certamente um objectivo louvável, mas insuficiente porque estritamente táctico.

Apesar dos progressos verificados na gestão financeira e na recuperação de alguma credibilidade para o clube, na construção do novo estádio e do centro de estágio (mas atenção: o “core business” do SLB não é a construção e, portanto, estádio e centro de estágio são apenas ferramentas que se não estiverem integradas numa gestão desportiva consequente de pouco ou nada valem), bastaram poucas semanas para que a realidade me desse razão: entre Vítor Santos (“Bibi”), Vilarinho e desconheço quem mais, o Benfica, cuja equipa jogava então num 4X4X2 clássico sob o comando de Toni, com Meira e Calado no meio-campo, salvo erro Miguel e Karel Poborsky nas alas e João Tomás e Van Hooijdonk no ataque, viu-se obrigado a acolher Roger, que independentemente da sua valia como futebolista e do seu comportamento como profissional não “cabia” neste sistema. Este foi apenas o primeiro dos muitos erros de uma gestão desportiva catastrófica, de navegação á vista, onde se confirmaram a total ausência de uma ideia e de uma estratégia para o clube nesta área.

Vem tudo isto a propósito de uma “grande coligação”, que parece estar a formar-se e denominada “Benfica, Vencer, Vencer”, que pretende agora agregar, um pouco como a “unidade de todos os portugueses honrados” para derrubar a ditadura do “Rumo á Vitória” do PCP dos anos 60, todos os benfiquistas descontentes com a actual gestão LFV. O objectivo é certamente louvável e acompanho-o, enquanto benfiquista descontente, com o maior interesse e renovada esperança. Para ser coerente devo, no entanto e uma vez mais, salientar que o que já li me parece manifestamente insuficiente: é preciso uma ideia para o clube (o que quer o Benfica ser?), objectivos realistas e uma estratégia consequente para os atingir. Sem essa definição de princípios, de onde devem derivar todas as outras políticas, mormente a desportiva onde a definição de uma estratégia consequente de recursos humanos é chave, parece-me existir o risco de tudo ser, de novo, abandonado à casualidade e às emoções, aos arrivismos de momento. Por isso mesmo, para que os erros e as suas péssimas consequências se não repitam, espero bem que tudo isto seja tido em conta e incorporado num programa e em propostas credíveis, servido por pessoas competentes e com a necessária visibilidade mediática.

E como não gosto de ser acusado de nada de concreto propor, aqui ficam alguma ideias mais ou menos mal alinhavadas:

Que quer o Benfica ser? Um clube nacional e cosmopolita, apoiado nas conquistas e notoriedade internacionais, que assim marque a diferença face a um FCP demasiado regionalista. Um clube popular, mas não populista, distinguindo-se deste modo de um certo elitismo que marca a identidade do SCP.

Que objectivos deve ter? Dominar o futebol português num prazo realista de 3 a 5 anos, apontando para ser campeão nacional pelo menos 5 a 6 vezes por década e a estar presente, salvo acontecimento conjuntural, em todas as edições da Champions League. A credibilidade destes objectivos é apoiada no facto de ser o clube português com maior mercado, nacional e internacionalmente (emigrantes e povos das ex-colónias), mas também no facto das condições do futebol português parecerem não permitir eles sejam alcançados, ao contrário do que se desejaria, no imediato.

Como pode alcançar o SLB estes objectivos? Com uma política de estabilidade na sua gestão desportiva (director desportivo, treinador) que lhe permita crescer sustentadamente, mantendo, dentro do limites do razoável e do que lhe é possível pagar, os seus principais jogadores e referências, integrando progressivamente alguns valores da formação e estabelecendo uma política de alianças no mercado nacional que lhe permita contratar os bons jogadores que possam surgir noutros clubes criando condições para que as possibilidades de uma integração bem sucedida possam ser maximizadas. Também com uma política de comunicação longe do populismo actual, centrada nos objectivos e evolução do próprio clube e não em terceiros e que não se confunda com o tradicional “trauliteirismo” provinciano característico do FCP ou um certo hermetismo do discurso político do SCP.

Aqui fica.

Finalmente!

Michelle Brito

Nazi Exploitation (4)


"Love Camp 7" (1968)

terça-feira, maio 26, 2009

Duas notas muito breves sobre as declarações de Oliveira e Costa

  1. Receio bem que o futuro julgamento do caso BPN se possa vir a transformar no julgamento do regime. Para já, a “confissão” de hoje de Oliveira e Costa, que parece ter assumido o estatuto de “arrependido” em plena campanha eleitoral, dá muito jeito ao PS. Aguarda-se o contra-ataque do PSD, talvez com “novas revelações” no "caso" Freeport. Há muito que deixei de ser ingénuo!
  2. O que sempre mais me espantou não foi o modo como o Presidente da República a seu tempo se manifestou relativamente à manutenção de Dias Loureiro como Conselheiro de Estado. Confesso tenho algumas dúvidas se poderia comportar-se de outro modo, embora eu tivesse preferido ouvir de Cavaco Silva algo mais claro. O que sempre mais me espantou e causou estranheza foi, isso sim, o facto de alguma vez ter nomeado Conselheiro de Estado alguém como Dias Loureiro, cujo perfil era desde sempre bem conhecido! Mistérios que o futuro esclarecerá? Para já, Oliveira e Costa colocou o Presidente da República em dificuldades. Para já, o PS rejubila - e tem razões para isso.

História(s) da Música Popular (131)


Shirley Jones - "Till There Was You"

"Under The Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XIV)

Pegando no último "post" de “História(s) da Música Popular”, a propósito de Gerry and the Pacemakers, “You’ll Never Walk Alone” e da opereta “Carousel”, convém dizer que nem os próprios Beatles escaparam à influência e sortilégio da Broadway e dos musicais americanos – dos quais, deixem-me acrescentar uma opinião pessoal, não sou particular apreciador. Isto porque no seu álbum “With The Beatles” (aquele da capa preta com as cabeças em recorte), editado em 1963 e que é, cronologicamente, o segundo da banda, incluíram um tema escrito por Meredith Willson para o musical de 1957 “The Music Man”: “Till There Was You”. De qualquer modo, parece ter sido a única ocasião em que a Broadway os terá inspirado.

No musical o tema era cantado por uma tal Barbara Cook (confesso a minha ignorância) e no filme que se lhe seguiu, de 1962, por Shirley Jones, já aqui falada a propósito de “Carousel” e habituée destas coisas dos musicais de Hollywood (“Oklahoma”, por exemplo). No entanto, a versão mais conhecida - para além da dos Beatles, claro está - será talvez a de Peggy Lee, gravada em 1961 e que terá inspirado Paul McCartney (só poderia ter sido ele!) na sua "cover version".

Pois aqui fica a versão do filme, realizado por um tal... Morton da Costa e cantada por Shirley Jones. Ah!, e o “canastrão” de serviço é Robert Preston. Para que conste!

Walter Trier's "Lilliput" (4)

segunda-feira, maio 25, 2009

O "Polvo". Ou será o "Sistema"?

Jorge Costa, antigo capitão do FCP, treinou o Sporting de Braga, onde Jesualdo Ferreira, actual treinador do mesmo FCP, já tinha exercido funções. Entre os dois clubes está estabelecida uma prática reconhecida de empréstimo, compra, venda e troca de jogadores. Actualmente, Jorge Costa treina o Sporting Olhanense, recém promovido à liga principal e onde actuam cinco jogadores emprestados pelo FCP.

Por sua vez, Daúto Faquirá, que redigia relatórios sobre os jogadores que treinava posteriormente entregues ao FCP, exerceu a sua profissão no V. de Setúbal e Estrela da Amadora, clubes onde nos últimos anos militaram jogadores cedidos pelo FCP e/ou onde este clube efectuou várias contratações, algumas delas a preços de “saldo”.

Domingos Paciência, antigo jogador de referência e treinador das camadas jovens do FCP, treinou a Académica, clube onde têm actuado também alguns jogadores cedidos pelo FCP e onde este efectuou pelo menos uma contratação (Lino) que ninguém terá muito bem entendido. No próximo ano, Domingos Paciência será substituído no cargo de treinador da AAC (OAF) por Carlos Azenha, antigo adjunto de Jesualdo Ferreira no FCP (não sei se também no Sporting de Braga).

Alguém acharia estranho que o próximo destino de Domingos Paciência fosse o Sporting de Braga?

André Freire e as semelhanças entre PS e PSD

André Freire volta à carga no “Público” de hoje (não "linkável”) sobre um tema caro àqueles que se situam à esquerda da actual linha política do Partido Socialista: o da semelhança entre este e o PSD. Para provar a sua tese da pouca dissemelhança, Freire volta-se uma vez mais para uma análise do número de projectos em que ambos os partidos votaram em consonância, em contraste com o bem menor número em que o PS terá votado em conjunto com PCP ou “Bloco de Esquerda”. Duas questões:
  1. O PS partilha com o PSD e com o CDS a mesma concepção de Estado: o Estado de Direito Democrático, burguês e liberal, baseado no primado do mercado. Para além disso, PS, PSD e CDS, em função do que acima afirmei, são aquilo a que poderemos chamar partidos com vocação de poder dentro da actual arquitectura institucional, não admirando, pois, que pelos motivos citados votem lado a lado em tudo o que tem que ver com esta mesma concepção fundamental que partilham. Inútil afirmar que tanto o PCP como o “Bloco” não partilham dessa mesma concepção de estado e dos valores em que ela se baseia, por isso mesmo posicionando-se muito mais como partidos de contestação, anti-sistema, do que como partidos com vocação de poder, o que naturalmente terá de se reflectir nas votações da Assembleia da República.
  2. Para além disso, não é possível, neste campo de encontrar diferenciações ou semelhanças, restringir-nos a uma análise puramente quantitativa, remetendo-nos o racional de André Freire para aquele outro, igualmente erróneo, que avalia a rentabilidade dos patrocínios das marcas comparando o investimento efectuado com o espaço que em função disso lhe é concedido nos “media”, valorizado como de publicidade se tratasse. Para além de, no segundo caso, estarem em causa outras questões técnicas que não vêm agora ao caso, André Freire não entra em linha de conta com questões qualitativas e que se poderão resumir ao seguinte: que importância efectiva tem cada projecto, objecto de votação, na diferenciação entre modelos de sociedade e civilizacionais alternativos dentro do quadro político e institucional referido no ponto um? Penso que é a partir daí, de uma análise qualitativa e valorizando cada projecto em função do modelo de sociedade para que aponta, que a diferença ou semelhança entre os dois partidos deverá ser estabelecida.

Chegaríamos então a conclusões muito diferentes? Talvez não tanto assim, quando estivessem em causa modelos macro-económicos de desenvolvimento, até aqui muito semelhantes. Já no que diz respeito a concepções de sociedade, parece evidente a diferença entre o conservadorismo tendencialmente ultra-liberal do PSD e a concepção mais claramente social democrata e progressiva, de uma sociedade mais aberta, do PS. Questões em que os dois partidos assumem visões antagónicas, tais como o investimento público, a fiscalidade, o financiamento da segurança social, o sistema de saúde, o papel que deve caber ao ensino público, a IVG, o casamento homossexual, no seu conjunto essenciais, hoje em dia e 20 anos após a queda do “muro”, para o entendimento das diferentes concepções de sociedade, aí estão para o provar.

"Back to the basics": Marty Robbins & Charlie Feathers (6)

Charlie Feathers & The Musical Warriors - "Bottle to the Baby"

domingo, maio 24, 2009

As Capas de Cândido Costa Pinto (57)

Capa de CCP para "O Crime do Escaravelho", de S. S. Van Dine, nº 91 da "Colecção Vampiro"

As provas de aferição, o "Manual de Aplicadores" e os professores ofendidos

Segundo julgo saber, as tão faladas provas de aferição, realizadas na passada semana e que têm como objectivo avaliar o grau de conhecimentos dos alunos nas cadeiras de português e matemática, são iguais em todo o país e para todos os alunos. Certo? Sendo assim, e tendo lugar nas mais variadas escolas, do Minho ao Algarve incluindo as regiões autónomas, supervisionadas por professores com personalidades e características diferentes, também práticas que se esperam e desejam diferenciadas no seu dia a dia, nada mais natural que o Ministério da Educação estabeleça um manual de procedimentos o mais rigoroso possível, normalizado, definindo a metodologia e o léxico a utilizar na sua apresentação aos alunos e o método correcto da sua execução, minimizando interpretações pessoais de cada professor, possíveis mal-entendidos e explicações dúbias, a utilização de palavras desconhecidas dos alunos ou, até, as normais distracções. Só assim se poderão colocar todos eles, tanto quanto possível, em igualdade de circunstâncias e minimizar reclamações e queixas posteriores sob a alegação que a professora X não explicou bem ou o professor Y se esqueceu de mencionar isto ou aquilo. Que o professor Z não se exprimiu de forma adequada. Pode contestar-se a necessidade dessas provas de aferição, o facto de serem iguais para todas as escolas, mas uma vez existindo, com estas características, parece-me difícil e até indesejável fugir a esta realidade.

Aliás, é exactamente assim que se procede, em situações comparáveis, nos países civilizados e nas organizações responsáveis, deixando o mínimo possível ao acaso, às interpretações pessoais e ao livre arbítrio de cada um, quer estejamos a falar da NASA, de uma empresa multinacional ou da organização pela FIFA de um campeonato do mundo de futebol. Se me é permitido citar um caso pessoal muito simples e por todos facilmente entendível, quando da Guerra do Golfo todos os executivos da companhia para a qual então trabalhava, quer estivessem em Londres, Lisboa ou na Conchichina, receberam um manual pormenorizando, de modo detalhado e com um questionário/resumo de perguntas e respostas no final, todos os procedimentos a seguir e cuidados a ter nas suas viagens, profissionais ou privadas, enquanto a guerra durasse, incluindo o que deveria dizer e como se deveria comportar em diversas situações, etc, etc. Não me lembro de algum ter estranhado tal coisa... e, como devem calcular, nenhum deles estava sequer perto de poder ser considerado mentecapto, temerário ou pouco habituado a viagens. E que dizer dos check-lists dos pilotos de avião, repetidos em voz alta por piloto e co-piloto? Fazem deles atrasados mentais ou destinam-se apenas a minimizar riscos?

Se os senhores professores querem ter, e acho muito bem que assim seja, espaço para exercerem a sua criatividade e autonomia, são as suas aulas e a colaboração na gestão da escola o espaço e tempo próprios para o fazerem, assim proporcionando aos alunos melhores condições para o seu bem-estar e aproveitamento escolar. O problema é que, nesses campos e quando isso lhes é solicitado, raramente parecem muito preocupados ou interessados em exercê-la, protestando de imediato contra tudo o que se afaste do conservadorismo e dos hábitos instituídos. E se, pelo menos, deixassem de ser provincianos e de agir como donzelas ofendidas? Não acham já seria uma contribuição bem positiva?

Gilbert & Sullivan (2)


Gilbert & Sullivan - "The Mikado"

"Miya Sama
"

sábado, maio 23, 2009

Um tal Di Maria, no rescaldo do SLB-CFB

Angel Di Maria tem algo de Ricardo Quaresma: uma enorme habilidade inata; mas escolhe demasiadas vezes a pior opção (direi mesmo que raramente escolhe a melhor), não tem a mínima noção das movimentações colectivas e do jogo da equipa, cumpre muito poucas das funções que lhe deveriam competir em campo e falta-lhe concentração competitiva. Claro que, assim, de quando em vez é genial, o que para um seleccionador como Maradona pode ser suficiente. Mas a frequência com que isso acontece é demasiado escassa para que possa ser levado a sério e fazer carreira na Europa no grande futebol. A imprensa desportiva, infelizmente, não entende isso, ou melhor: compreender o futebol talvez não seja bem o objectivo que normalmente persegue.

Onde a propósito de Manuela Moura Guedes e Marinho e Pinto se recordam Elvis Presley e Madame de Pompadour

A propósito da cena ontem protagonizada na TVI por Marinho e Pinto e Manuela Moura Guedes (não, não vou entrar em análises e aderir à infantilização da política) uma dúvida atormenta o meu espírito: não sei se a palavra “peixeirada”, utilizada em português para designar tais acontecimentos, se deve à permanente tendência das simpáticas profissionais do mercado do Bolhão ou da há muito extinta Praça de Figueira para armar tais zaragatas se ás célebres “poissonnades”, escritos satíricos dirigidos contra Madame de Pompadour, amante de Luís XV e Jean-Antoinette Poisson (peixe) de seu nome de baptismo, dadas as suas origens não aristocráticas e o modo, digamos, pouco convencional como conseguiu subir na vida.

De qualquer modo, pelo menos uma palavra ficámos a dever à (dizem que) bela senhora (parece que o seria na sala e uma p... na cama): “popa”, que em inglês se diz “pompadoured” e tem origem na forma como a dita Jean-Antoinette arranjava o seu cabelo. Na sala, evidentemente!

"Pop Gear" (2)

"Pop Gear", um conjunto de vídeo-clips de Frederic Goode (1965)

1. The Animals - "The House Of The Rising Sun"

2. The Fourmost - "A Little Loving"

3. The Rockin' Berries - "He's In Town"

sexta-feira, maio 22, 2009

Cavaco Silva "ombudsman" ou a infantilização da vida política

Só quem nunca trabalhou se pode gabar de não ter apanhado alguma vez pela frente um administrador prepotente, um director malcriado, um chefe cretino. Ou, o que é igualmente mau, uma estrutura incompetente. Nestes casos, oferecem-se ao trabalhador várias alternativas: tentar explicar calma e educadamente, de modo racional, os seus argumentos, convencendo quem de direito a aceitá-los como válidos; “encaixar” e esperar oportunidade mais favorável para demonstrar a razão que lhe assiste; mudar de emprego; colocar a questão ao seu sindicato e/ou comissão de trabalhadores, se esta existir; em situações mais graves mover processo judicial contra quem achou agiu ilegalmente para consigo; apresentar o problema ao Provedor de Justiça. Espero não me ter esquecido de nenhuma, pelo menos considerada relevante.

Bom, mas parece que um enfermeiro de um hospital público resolveu esquecer tudo isto e optou por escrever ao Presidente da República, queixando-se. Está no seu direito, mas chegado a este ponto cometeu o primeiro erro: sujeitou-se a que a Presidência da República divulgasse publicamente a missiva, o que aconteceu (enviou a carta ao Ministério da Saúde), quebrando o dever de confidencialidade e de inviolabilidade da correspondência que deveria saber respeitar, o que pode ter colocado o dito enfermeiro sob alçada disciplinar. Erro também da Presidência da República, pois claro, que se deveria ter limitado a responder ao cidadão aconselhando-o sobre os procedimentos normais a seguir neste em semelhantes casos. Mas como parece o bom senso e o respeito pelas regras do estado de direito democrático parecem andar um pouco esquecidos lá pela Praça Afonso de Albuquerque, não contente com isso o Presidente da República (qual monarca absoluto concedendo indultos em dia de aniversário) resolve colocar a si mesmo o chapéu de “ombudsman” e vir a terreiro, atropelando toda a legalidade e exorbitando das suas funções talvez por sentir ter procedido de forma incorrecta para com o trabalhador ao divulgar a dita carta, “mandar palpites” (peço desculpa do plebeísmo mas não me ocorre termo mais adequado) sobre a resolução do caso e interceder em defesa do queixoso. No mínimo, abstruso e revelador de como entre farinha Maizena, “graças a Deus não há comícios” e alunas que gravam sem autorização aulas de professoras tresloucadas a infantilização parece ter tomado definitivamente conta da nossa vida política.

Les Belles Anglaises (XXVIII)

















Gordon-Keeble (1963-1967)

quinta-feira, maio 21, 2009

Ferreira Leite e Américo Tomás: descubra as diferenças...

  • "Quando comecei a fazer política ainda estávamos na base dos comícios... Devo dizer que se tivesse que fazer se neste momento algum comício seria a maior das violências que me poderiam pedir. Acho que o jeito que eu tinha para fazer um comício era nulo. Graças a Deus que passou a era dos comícios", observou."Ainda há alguns, mas vamos ver se nos escapamos deles".
  • "Não tenho pena de não ter assessores do Obama porque tenho aqui pessoas e muito mais-valia do que isso. E porque também estou convencida de que não são os assessores que resolvem nada". "É impossível haver algum grupo de assessores que transforme o Sócrates em Obama", acrescentou.
  • "Eu, por exemplo, estou absolutamente convencida de que os cartazes nunca conseguem um voto, mas provavelmente perder-se-iam milhares de votos se não houvesse os cartazes. Aí todos somos subjugados e lá pomos os cartazes."
  • "Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados....»"
  • "É uma terra [Manteigas]bem interessante, porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude..."
  • "A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance."
  • "Eu prolongo no tempo esse anseio de V.Ex.ª e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que portugal será eterno, como eterno é o sono da morte."
  • "Neste almoço ouvi vários discursos, que o Governador Civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos."

O "Bloco" e os "dress codes".

De cada vez que se fala na adopção de um qualquer “dress code” o “Bloco de Esquerda” reage como vampiro que viu alhos, ou como qualquer cura de aldeia perante criança “possessa”, t‘arrenego Satanás. Ele foi na Loja do Cidadão de Faro e, no caso último de uma qualquer escola, o assunto chegou mesmo a assumir foros políticos que o levaram a ser debatido na Assembleia da República, tal como crime de lesa-pátria se tratasse e uma escola, dentro dos limites da legalidade, do bom senso e dos usos e costumes da época, não pudesse ter autonomia para determinar que alunas e alunos não se poderiam apresentar-se vestidos como quem vai para a praia, para um "rave-party", para um jogo de futebol ou curtir uma de sexo na boa. A escola não pode mesmo ser o lugar sisudo das minhas infância e adolescência, mas é um lugar de estudo e aprendizagem (também de aprendizagem dos códigos e valores da sociedade) que se deve querer ver reflectido num ambiente geral de descontração, sim, mas também de sobriedade e seriedade que favoreça, e não contribua para fazer esquecer, a prossecução do seu objectivo último. Também de convívio e socialização, mas este enquadrado, claro está, naqueles que são os seus valores básicos de preparação para uma vida que consagra direitos, mas também impõe regras e deveres. Códigos!

O mais estranho disto tudo é que se olharmos para a bancada no Bloco de Esquerda na Assembleia da República, e também para outros dos seus dirigentes excepção feita a alguns do sexo feminino, deparamos com aquilo que parece ser um “dress code” estrito e monocórdico: na ausência de gravata em qualquer situação; nas cores do vestuário sempre oscilando entre uns “beije” que parecem ter sido indevidamente adquiridos na máquina de lavar, uns verdes do tipo camuflado militar e uns castanhos e cinzentos um pouco desbotados que tingem uns fatos que parecem ter pertencido ao irmão mais gordo; naquele 2º botãozinho da camisa sempre apertado a sentir saudades do primeiro e da gravata que nunca usam. Daqui que se depreende facilmente que o problema do “Bloco” poderá não ser com os “dress codes”, com algumas práticas sociais que teimam em ser pouco libertárias, mas com a adopção de comportamentos diversos daquele que determinaram como sendo o seu estilo e gosto. Oficial, pois claro!

Bom, posto isso que mais posso dizer em jeito de moral da história, que todas elas a devem ter mesmo que não em jeito de fábula? Apenas isto: no dia em que eu vir na bancada do “Bloco” alguém vestido com o bom gosto inglês e aristocrático de um Paulo Portas, o “panache” europeu continental de José Sócrates, a sóbria elegância de executiva de Manuela Ferreira Leite ou o alegre contraste de gravata encarnada e fato azul escuro de Jerónimo de Sousa, ostentado com o orgulho da classe operária a que pertence, acho poderei finalmente acreditar que o “Bloco” optou pela pluralidade e não pelo monocromatismo, pelo campo libertário em vez do da moral repressiva e, para o partido, a questão dos “dress codes” passou finalmente do campo da religiosidade a algo tão mais comezinho como os usos e costumes de cada um. A acontecer, não deixarei de saudar tal evento, está bem de ver.

A João Bénard da Costa (1935-2009), "muito cá de casa"

"Johnny Guitar", de Nicholas Ray (1954)

Gilbert & Sullivan (1)

Gilbert & Sullivan - "The Mikado"
"Three Little Maids From School Are We"

quarta-feira, maio 20, 2009

História(s) da Música Popular (130)

Liverpool F.C. - Anfield Road - Bill Shankly Gate

"You'll Never Walk Alone" - cena do filme "Carousel", de Henry King (1956)
"Under the Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XIII)
Sobre este tema já li e ouvi os mais bárbaros disparates, e até já o vi no “Público” referido como canção dos Beatles tornada hino do Liverpool. Enfim...

A frase que constitui o título do tema encontra-se, de facto, encimando o principal portão de Anfield (denominado Shankly Gate, em homenagem ao lendário treinador Bill Shankly), e a canção é normalmente entoada pelos seus adeptos mas também por muitos outros de vários clubes britânicos. A última vez que a ouvi ao vivo foi num Benfica-Celtic, em 2006, entoada em pleno estádio da Luz por cerca de 10 000 escoceses após uma derrota da sua equipa por indiscutíveis 3-0. De arrepiar!

Penso todos conhecemos o tema na interpretação de Gerry (Marsden) and the Pacemakers (1963, #1 no UK), um dos mais emblemáticos grupos do merseysound tal como os Beatles gerido por Brian Epstein, mas o original é da autoria de Rodgers & Hammerstein e pertence à banda sonora da opereta “Carousel” estreada na Broadway em 1945 e feita filme em 1956 pela mão de Henry King. A versão que aqui apresento é mesmo a do filme de King, na interpretação de Shirley Jones e Claramae Turner.

Escusado também nomear as suas inúmeras versões, onde se incluem como intérpretes nomes como Elvis Presley, Nina Simone, Sinatra, Judy Garland e até o barítono galês Bryn Terfel, um dos actuais nomes mais mediáticos da cena operática mundial. Acho que também os três tenores, mas esses o que não interpretaram?

Educação sexual nas escolas: existe mesmo necessidade de controvérsia?

Estou muito longe (acho) de poder ser considerado um conservador, não professo qualquer religião e Deus nunca me deu provas da sua existência. Mais ainda, votei favoravelmente a lei da IVG e sou favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tendo dito isto, isto é, tendo claramente demarcado o meu território e pedindo desde já desculpa por qualquer ignorância que, do ponto de vista da pedagogia, se possa depreender das minhas palavras (os meus filhos já deixaram a escola há muito e os netos ainda vão no pré-escolar e de “nuestros hermanos”), alguém me explica da necessidade de um programa específico e autónomo de educação sexual nas escolas? Não seria bem mais simples, e menos (ou nada) susceptível de controvérsia, que o assunto fosse integrado no estudo da reprodução animal (onde também se estudariam as especificidades inerentes ao género humano, claro está) incluído numa cadeira de biologia, ciências naturais, zoologia, ou lá o que quer que fosse, onde, inclusivamente, se poderia - e deveria - falar da contracepção, das doenças sexualmente transmissíveis e dos diversos métodos para evitar a sua propagação? E se deixasse a distribuição gratuita de preservativos para os centros de saúde e tutti quanti, para onde os alunos deveriam ser encaminhados em caso de necessidade?

Esta questão não está a ser apenas agitada para dar um “ar” de “olha, tão modernos e liberais que nós somos!”, a que não corresponde um conteúdo efectivo nem uma resposta eficaz aos problemas que se propõe resolver?

Alguém me responde mesmo?

Nazi Exploitation (3)

"Gestapo's Last Orgy" (1977)

terça-feira, maio 19, 2009

A professora de Espinho e a indisciplina dos alunos

A propósito da professora da escola de Espinho, uma pequena pergunta que não me lembro de já alguém ter feito: sem qualquer intuito desculpabilizador da professora em causa, que me parece ter jeito e preparação para tudo menos para a profissão que exerce apesar dos mestrados, pós-graduações e ofícios correlativos (ai a falta de preparação pedagógica, de educação e de bom senso!...), alguém acha didáctica e pedagogicamente aceitável - já não falando na mais do que duvidosa legalidade da situação - que um aluno, num evidente acto de indisciplina, tenha a liberdade de introduzir um gravador na sala de aula e de registar o que lá se passa sem autorização da professora e da direcção da escola e, depois, o divulgue publicamente? Que exemplos de disciplina e rigor pedagógico se estão a dar a todas as escolas e alunos deste país? Será esse(a) aluno(a) punido(a) por isso?

Aguardemos os próximos episódios...

A Guerra Aqui (Mesmo) Ao Lado (40)

Protege con tu donativo a los huérfanos de los antifascistas asesinados en Campo Faccios

[Your donation will protect the orphaned children of the anti-fascists who were murdered on the rebel battlefield.].
Ricardo Yesares Blanco. Gráficas Valencia, intervenido U.G.T.-C.N.T. Poster, 4 colors; 104 x 78 cm

"This poster shows a revolutionary clenched fist behind two children in blue. It is asking viewers to provide donations for the support of orphaned children. Shortly after the start of the war, the Republican government and associated unions became actively involved in providing support for orphaned or refugee children. In this case, International Red Aid (Socorro Rojo Internacional or SRI) is the organization behind the relief effort.
SRI was a Spanish Soviet organization with connections to Comintern. It first emerged in Spain in October of 1934 when there were workers' revolts in the Asturias region of Spain. During the Civil War, the SRI was mostly involved in aid activities in the Republican zone such as the creation and administration of refugee camps, soup kitchens, libraries for Republican soldiers, transportation networks between hospitals and front, and the re-purposing of buildings into makeshift hospitals, blood banks, and schools. Much of the SRI's activities were focused on children. The included the founding its Escuela Nacional para Niños Anormales (National School for Mentally Disabled Children) and a Children's Park, both in Madrid.
Ricardo Yesares Blanco, who signed his work with the pseudonym "YES," is the artist of this poster. Yes was born in Madrid in 1911 to a family of Castilian farmers. Little is known about his early life and education. In 1931, his first artistic works began to appear in periodicals and magazines. Two years later, Yes participated in an exhibition of revolutionary art in Madrid sponsored by the Asociación de Escritores y Artistas Revolucionarios (Association of Revolutionary Writers and Artists). Other artists in the exhibition included Ramón Puyol, Josep Renau, and Monleón whose works are also represented in this exhibit. Yes was imprisoned in 1935 and presumably was freed before or around July 1936 when the civil war began.
During the war, Yes published frequently in the "workers press" and other leftist publications such as Nuestra Cinema, El Tiempo Presente, Ruto, Mundo Obrero, La Lucha, Euskadi Roja and Ayuda! As represented here, he also worked for the Socorro Rojo Internacional (International Red Aid). In 1936 in Madrid, he published a book of twenty-five engravings entitled La Guerra al Desnuda. His introduction to the book provides some insight into his motives in publishing the text and his views on war and the function of art. He writes:
The publication of my first book is not responding to the looking glass of popularity or looking for critical success that would result in economic benefits. Just the opposite. The purpose, that moves me to produce this album, is to put within the reach of the popular masses a clear and naked vision of the most horrifying catastrophe that threatens to destroy Humanity, War!
In further speculating on the meaning of the war in Spain and the immediate future of Europe, he writes:
The fire [of war] was sparked by Italy, and nobody knows where the fire will go. It is probable that the call is supported by Germany or Japan. What new fire arises in Europe or Asia?
The only biographical information available at the writing of this entry is a short biography that accompanied Yes' 1936 book. Consequently, little is known of Yes fortunes after the war."

"Crooners" à portuguesa?

Segundo a "wikipédia", em regime de adaptação livre, um “crooner” é um cantor de baladas e canções de índole popular, normalmente com acompanhamento orquestral e com algumas raízes na ópera italiana, mas em que a potência de voz foi evoluindo para tonalidades mais subtis e suaves, sob influência jazística. O que quer que isto queira dizer, podemos concluir que se trata de um género musical essencialmente urbano, onde alguma influência jazística, como pano de fundo, misturada com o tom de balada “romântica” são condimentos para o sucesso junto das grandes audiências brancas que constituíam o mercado com maior poder de compra nos USA. Todos ligamos o estilo a intérpretes como Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby, Perry Como, e outros, que dominaram a música de origem anglo-saxónica desde os anos 20 até ao feliz advento do "rock and roll", a música que mudou o mundo.

Nesses anos Portugal era um país pobre e essencialmente rural, com uma classe média diminuta e fraca e onde a música urbana era dominada pelo fado, de fortes raízes populares, e pelas marchas e canções revisteiras quase sempre com fortes ligações a esse mesmo fado (fado-canção) ou a formas musicais ainda próximas do folclore, o que não deixa de ser sintomático da origem ainda recente de uma pequena burguesia que constituía o “grosso” dos espectadores do teatro de revista. O "jazz" era coisa de alguns jovens intelectuais e estudantes, mais ou menos marginais e cultos, estrangeirados, e por isso não será de estranhar que o estilo “crooning” apareça tarde e tenha uma menor base jazística, por vezes, mesmo, contendo alguma influência do fado e até de algum folclore rural, tornando-se num estilo talvez mais popular do que aquele que na América lhe terá dado origem. Um pouco como aquilo que em Portugal se chamava nos idos de 50 do século XX o “whisky saloio”, mistura de aguardente apenas sofrível com água Castelo e gelo imitando o que era então o estilo de consumo mais comum do "whisky" escocês. Rui de Mascarenhas, Francisco José, Alberto e Artur Ribeiro e, até, Tony de Matos, este num estilo mais “rasca”, mais longe do “crooner” clássico e mais próximo de uma audiência fadista, terão sido os maiores expoentes deste estilo de “cantores românticos”, de certo modo influenciados pelo “crooning”.

A referida estrutura da sociedade portuguesa e a ditadura, limitando a influência local do "rock and roll" que só viria a ter implantação decisiva em Portugal com o "novo rock" nos anos 80, de carácter essencialmente suburbano, irão contribuir para prolongar este estilo durante os anos 60, influenciando, de alguma maneira, ainda nomes como António Calvário, por exemplo. Será o festival da RTP da canção, onde alguma influência do "rock" e de modelos interpretativos já por ele mais definidos (Ricky Nelson, Cliff Richard, Tom Jones) se começam a sobrepor em nomes como Paulo de Carvalho, Hugo Maia de Loureiro, Duarte Mendes, Fernando Tordo e outros, a dar-lhe a final e decisiva machadada final.

Rui de Mascarenhas - "Encontro às Dez"

Francisco José - "Olhos Castanhos"

Um apelo benfiquista

Já todos percebemos qual o objectivo último da gestão(?) populista de Luís Filipe Vieira enquanto presidente do SLB, percepção agora confirmada com a possível contratação de Jorge Jesus (assim a “modos” que um Jaime Pacheco com ar de galã do parque Mayer e pretensões a treinador dotado de “métodos científicos” de almanaque “Borda d’Água”), numa clara cedência aos sentimentos mais primitivos da “rua” benfiquista a ser paga a peso de oiro, e, a crer nos jornais, o que é sempre um exercício melindroso, de algumas promessas(?) do futebol brasileiro não se sabendo como o aval de quem, para que modelo e sistema de jogo e obedecendo a que política de recursos humanos: manter-se na presidência do clube o mais tempo possível e a todo o custo. Ele lá saberá porquê.

Entretanto, o SCP prepara-se para eleger como seu presidente alguém (José Eduardo Bettencourt) com um perfil pessoal, social e profissional que está nos antípodas de LFV, o que perante os dislates deste e de Veiga não poderá deixar de obrigar qualquer benfiquista a mergulhar na mais profunda e envergonhada melancolia. Sim, eu sei que o SCP foi um clube fundado por um aristocrata, e por esse motivo tem obrigações e deveres inerentes, mas pelo facto de ser uma instituição com uma origem mais burguesa e popular, estará o meu clube destinado à desonra, que não é nem nunca foi apanágio de quem o fundou e nele se reconhece, e a tornar-se objecto de chacota dos seus adversários? Onde estão benfiquistas como António Bagão Félix ou Joaquim Ferreira do Amaral, para só falar nos dois primeiros nomes que de repente me ocorrem?

segunda-feira, maio 18, 2009

Novo aeroporto?

Segundo o “Jornal de Negócios” o tráfego aéreo de passageiros caiu 9,3% em Março depois de uma queda de 9.6% em Fevereiro, ambas em termos homólogos. Seria interessante que os defensores do esgotamento da Portela e da construção da nova mega-estrutura aeroportuária tomassem isto em consideração.

Grindhouse Effect (4)

A discussão sobre a Europa

A menos de três semanas das eleições europeias, o debate sobre a Europa e questões internacionais tem sido aquele que se esperava: zero – ou perto disso. Nem a viagem do Presidente da República à Turquia serviu de oportunidade para que discutisse a hipotética adesão deste país à UE, os limites geográficos da União e a oportunidade o seu alargamento; a sua capacidade futura para absorver um país com um nível de desenvolvimento e um perfil cultural muito distantes da maioria dos actuais estados, etc. etc. Nem a actual crise, pano de fundo do pedido de adesão da Islândia e do aparente fortalecimento do europeísmo irlandês, esteve perto de proporcionar qualquer tipo de debate entre os candidatos sobre o aprofundamento político da União, a necessidade de aprovação do Tratado de Lisboa, a importância do euro. Se o ouvi – em relação ao euro - foi em discussões entre economistas independentes, às quais os candidatos se mantiveram alheios. Ah, lá escutei o deputado e candidato Rangel declarar-se federalista, o que muito me regozijou embora tenha faltado a explicação sobre o que por essa designação entende e quais as razões desta sua opção. É que federalista “a sério”, desde sempre assumido, com uma visão política consequente e de longa data sobre o que devem ser a Europa e a União, conheço um político neste país: chama-se Mário Soares e já foi Presidente da República.

Perante tal estado de coisas, lembrei-me daqueles que defendiam ser o referendo sobre o Tratado de Lisboa excelente ocasião e pretexto para se discutir a Europa. Estão agora ver o que efectivamente (não)queriam discutir, não estão?

"Pop Gear" (1)

"Pop Gear", um conjunto de vídeo-clips de Frederic Goode (1965)
1. The Beatles - "She Loves You"
2. Billy J. Kramer and the Dakotas - "Little Children"
3. Susan Maughan - "Make Him Mine"
4. The Four Pennies - "Juliet"

domingo, maio 17, 2009

"Back to the basics": Marty Robbins & Charlie Feathers (5)

Marty Robbins - "Respectfully Miss Brooks"

Para José Pacheco Pereira Portugal não é um país a sério... Felizmente para ele, para mim e para (quase) todos é um estado democrático

Portugal talvez não seja mesmo um país a sério, mas como uma democracia, que é – apesar de todas as imperfeições e problemas dos estados democráticos aqui ampliados por algum subdesenvolvimento que não conseguiu ainda erradicar – permite que os seus cidadãos exprimam livremente as suas ideias, mesmo quando estas possam parecer disparatadas ou manifestem opiniões contrárias às normas pelas quais se regem os estados de direito democráticos. É essa a sua força. Por isso, permite, e muito bem, que o Bloco de Esquerda (um partido legal), mais do que balbucie, expresse loud and clear as suas opiniões sobre o que se passa no país, mesmo quando, como é o caso dos acontecimentos do Bairro da Bela Vista, muitos, como eu e José Pacheco Pereira, possam delas total ou parcialmente discordar.

Portugal talvez não seja mesmo um país a sério, mas como uma democracia, que é, tem reagido através de inúmeras palavras e acções, entre as quais muitas delas protagonizadas por José Pacheco Pereira e pelo partido do qual é militante, contra o excesso de propaganda que tem envolvido – quanto a mim, já aqui o disse, de modo contraproducente e prejudicando a essência do projecto – a distribuição de computadores Magalhães. Poderá mesmo, ao contrário do que sucede nos regimes não democráticos, achar que isso é razão suficiente para “despedir” o governo e dar o lugar aos que agora o criticam. Mas talvez não seja mesmo o tal país a sério e, por isso, tem permitido que numa parcela do seu território a democracia seja permanentemente atropelada por quem exerce o poder em nome do partido do qual José Pacheco Pereira é militante e propagandista e onde o primeiro-ministro “ousou” distribuir 300 computadores Magalhães. Mas como democracia, que é, tem respeitado a vontade do povo que em eleições sucessivas tem reeleito Alberto João Jardim como chefe do governo regional, apesar da sua boçalidade, dos seus atropelos à democracia que o elege e do ridículo a que se expõe. Talvez não seja mesmo um país a sério, mas como democracia, que é, teve também liberdade suficiente para protestar contra a atitude conciliadora que o seu Presidente da República, eleito por mais de 50% dos portugueses e com o apoio de José Pacheco Pereira e do partido do qual é militante, demonstrou para com o repetido desrespeito por essa mesma democracia e manifesta falta de educação permanente para com as instituições da república protagonizadas pelo referido presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim.

Portugal talvez não seja mesmo um país a sério, mas como país democrático, que é, considera (ou deveria considerar) que todos os cidadãos são inocentes até prova em contrário e, por isso mesmo, independentemente da opinião de José Pacheco Pereira, minha ou do rato Mickey, existem orgãos competentes e com a necessária independência para julgar os cidadãos e determinar da sua culpabilidade, encontrando-se os seus direitos e deveres devidamente regulamentados em função do cargo que ocupam. Mais ainda, como democracia, que é, rege-se pelo primado da lei e não do livre arbítrio, da ética ou da moral de cada um, por muito que nos desagrade (e a mim desagrada) ver Manuel Dias Loureiro como conselheiro de estado ou Lopes da Mota no cargo de presidente do Eurojust.

Por último, Portugal talvez não seja mesmo um país a sério, mas como democracia, que é, permite, e eu pessoalmente congratulo-me com o facto, que todos possamos ler, ver e ouvir na imprensa, televisão e rádio, as opiniões do ubíquo José Pacheco Pereira, mesmo quando elas parecem apelar a métodos censórios e não coincidem com as minhas, as do meu vizinho do lado ou mesmo do Rato Mickey, dos quais desconheço o que pensam – ou até se efectivamente o fazem. Num estado democrático apenas posso lamentar – expressando-o - que alguém com a bagagem cultural, inteligência e capacidade de trabalho de José Pacheco Pereira se dedique, nos últimos tempos, a produzir essencialmente peças da mais pura e demagógica propaganda, mas lá está, na democracia valem o primado da lei, a liberdade de expressão, a pluralidade de opiniões e não os princípios e valores morais e éticos de cada um. E ainda bem que assim é!

sexta-feira, maio 15, 2009

Ainda o "it man" do momento e um artigo do "Público"

Já se percebeu que o “it man” do momento tem “boa imprensa”; como não sou ingénuo acho João Gabriel estará a bem cumprir a função para o qual é pago. Mas como o ridículo mata convém também que não exagere.

Ontem, o “Público”, normalmente mais dado a panegíricos relacionados com um tal clube do norte, contava, em tom elogioso, a história de um telefonema de Jorge Jesus a José Pedro, jogador do CFB, perguntando-lhe se este estaria a ver um determinado jogo da "Champions League" e, no caso afirmativo, que reparasse nas funções desempenhadas por Cambiasso, pois era exactamente isso que JJ pretendia JP executasse em campo.

Bom, no caso de vir a treinar o SLB, espero JJ não se lembre de fazer algo de semelhante com Pablo Aimar, José António Reyes ou outro de igual quilate. É que o melhor que lhe pode acontecer é nenhum destes sequer lhe atender o telefone e o pior é ter de volta uma resposta que o faça nunca mais ter vontade de repetir o telefonema!

Pedido à Câmara Municipal de Lisboa

Mesmo partindo do princípio que as receitas lhe façam alguma falta, o que é um raciocínio do tipo “método de redução ao absurdo” de tal modo irrisórias penso serem, importa-se a Câmara Municipal de Lisboa de não autorizar a utilização dos postes de iluminação pública da cidade como suporte publicitário, político, institucional ou outro? É que as bandeirolas utilizadas, já de si suficientemente horríveis para tornarem a cidade um pouco mais terceiro-mundista, passado pouco tempo de exposição ao vento e ao sol tornam-se simples trapos que, aparentemente, ninguém se preocupa em recolher, o que ainda agrava mais a poluição visual já tão afectada por prédios com fachadas decadentes e uns inestéticos “ecopontos” de plástico que são autênticas lixeiras a céu aberto. Façam favor, está bem?

Tarzan (5)


Tarzan's Secret Treasure (1941)

quinta-feira, maio 14, 2009

Anglophilia (59)






Silk Knot Cufflinks

"Back to the basics": Marty Robbins & Charlie Feathers (4)

Charlie Feathers - "Tongue Tied Jill"

Alguns mitos do futebol português e o "it man" de momento

Nos últimos vinte anos só dois treinadores portugueses têm exercido com continuidade a sua profissão no 1º mundo futebolístico: José Mourinho, com o sucesso reconhecido, e, ao nível mais modesto de uma 2º divisão europeia e sem grandes vitórias mas também sem inêxitos marcantes, Fernando Santos. Todos os restantes, com maior ou menor sucesso, dispersam-se pelos 3º, 4º e 5º mundos futebolísticos, dos Emiratos a África, do Vietnam a sabe-se lá mais onde. Experiências romenas e outras que tais revelaram-se esporádicas e acabaram sem honra nem glória para todos eles. Esta é a realidade do mercado e estes são os factos, e é neles que nos devemos basear para aquilatar da qualidade dos profissionais em causa.

Vai por aí uma onda (direi mais, um autêntico tsunami) em favor dos treinadores portugueses, falando da “especificidade do nosso futebol” , etc, etc. Nada mais falacioso. O futebol português não é nem mais nem menos específico que o espanhol, o inglês, o francês, o alemão e assim sucessivamente: todos apresentam características próprias, embora a globalização os tenha feito aproximar bastante nos últimos tempos. Isso não impede que treinadores espanhóis e franceses tenham sucesso em Inglaterra, holandeses em Espanha, na Alemanha e um pouco por todo o lado (Rússia, Coreia), italianos em Inglaterra, na Áustria e por aí fora. Portugal, por exemplo, na evolução do seu futebol e nos resultados alcançados, muito deve a um sueco (Eriksson), a um inglês (Robson), a um austro-húngaro (Guttmann), etc, etc. Aliás, foi a importação de treinadores de outras escolas uma das causas da evolução do futebol britânico, e é também essa uma das bases em que assenta o êxito da Premiership, longe do "kick and rush" de antanho. O resto nada mais é do que uma tosca tentativa de proteccionismo da parte de uma classe profissional (a dos treinadores portugueses) que não consegue ter êxito num mercado aberto e concorrencial.

Em Portugal raramente se analisam as causas específicas que podem estar na origem de um treinador conseguir bons resultados na época X no clube Y. Mal isso acontece o tal treinador é de imediato elevado à categoria de estrela em ascensão, de “it man" do momento. Aconteceu assim com Jaime Pacheco (lembram-se?), depois de ter “levado” o Boavista ao título de campeão nacional e a família Loureiro o clube à bancarrota. Nunca mais Jaime Pacheco conseguiu qualquer tipo de sucesso, por pequeno que fosse, o que só para os distraídos (prefiro chamar-lhes assim) poderá constituir uma surpresa. Outro exemplo? Alguém tenta analisar com seriedade e isenção o percurso de José Maria Pedroto (elevado á categoria de “mestre”), um treinador que estava no Vitória de Setúbal quando a região era a mais beneficiada com o “boom” económico da época e a “lei da opção” impedia as livres transferências de jogadores e no FCP quando a conjuntura política, social e económica estava reunida para “levar ao colo” o clube? Teria tido o mesmo sucesso (no V. de Setúbal ele foi muito relativo) em outros clubes? Num projecto diferente – o da selecção nacional – nunca o teve, o que deveria levar muita gente a interrogar-se.

Existem treinadores para clubes pequenos e outros para clubes grandes? Claro que, dito deste modo, isso não é verdade. Mas existem treinadores que “encaixam” num projecto, numa “cultura de clube”, num determinado tipo de mentalidade e "way of doing the things" e não encaixam noutro. Ou até projectos que, pela sua consistência, facilmente integram em si um qualquer treinador dentro de limites bastante alargados: será este o caso do FCP. O mesmo acontece nas empresas, com funcionários, gestores e executivos, onde o chamado “hire and fire” (contrata e despede) é normalmente visto como sintoma de que algo vai mal. Daí as empresas mais conceituadas serem extremamente criteriosas na contratação dos seus quadros. Um exemplo? Na situação actual do SCP, em função do enfoque na gestão financeira e numa política de recursos humanos que privilegia a formação, o que não lhe permite competir com orçamentos idênticos aos dos seus rivais, Paulo Bento é o homem certo no lugar certo. Sê-lo-ia em circunstâncias diversas, embora no mesmo clube?

Passemos ao meu clube. Luís Freitas Lobo afirma que o SLB necessita de um treinador português porque este entenderá melhor a grandeza e o passado do clube e, assim, perceberá melhor que tem de ganhar e não contentar-se com o segundo ou terceiro lugares. É o “rabo a abanar o cão”!, pois é o clube, as suas direcção e administração, que têm de fixar, de acordo com o treinador, seja ele português, espanhol ou do Burkina Faso, os objectivos finais e parciais e proporcionar condições para que eles sejam atingíveis. E é em função destes, e não do passado eventualmente glorioso, que tem de agir e gerir. O problema do SLB é exactamente o inverso: os objectivos são marcados e definidos por esse passado glorioso e não pelas condições concretas da actualidade, existindo portanto uma incompatibilidade entre objectivos e condições para os alcançar! É - tem sido - o desastre!

E, por último, vem o “it man" de momento, um tal Jorge Jesus com nome de Messias e com o qual Luís Filipe Vieira – dizem os jornais – tem falado, qual D. Camillo quando Peppone resolve causar-lhe preocupações de monta. Que percurso pode apresentar? Bom, uma boa época com o Belenenses, sem dúvida, e um percurso dentro das expectativas (nem acima nem abaixo) com o Sporting de Braga, face à dimensão e orçamento do clube. Lutar pelo 4º lugar com os clubes da Madeira e atingir os ¼ de final da UEFA seria o expectável face aos apoios e orçamento (o Sp. de Braga é, de facto, pertença da 3ª maior Câmara Municipal do país) de que o clube dispõe. Resta a pergunta: e o Belenenses? Será que o projecto de que foi rosto visível e bem sucedido no Restelo tem algo que ver com aquilo que vai encontrar no SLB e este pretende. Será que não foi apenas fruto de circunstâncias próprias e conjunturais que pouco terão a ver com a competência do treinador? Será que Jorge Jesus e a sua escassíssima experiência internacional “encaixam” na política de recursos humanos do clube? A personalidade e o perfil pessoal e profissional do técnico são as mais adequadas ao que vai encontrar? Perguntando de outro modo: um gestor ou executivo de uma multinacional pode ter igual êxito numa empresa de índole familiar, e inversamente? Pode gerir igualmente bem e com êxito semelhante em Nova Iorque ou em Antananarivo? Jorge Jesus até poderia (poderá?) vir a ser o homem certo, mas estas são algumas das questões que deveriam ser colocadas e, infelizmente, não vejo ninguém preocupar-se muito com o assunto.

quarta-feira, maio 13, 2009

Pergunta de perguntar...

Uma aproximação entre partidos e cidadãos, entre políticos e eleitores quebrando o soit disant distanciamento na actualidade existente, por exemplo, através da criação de círculos uninominais ou de outros mecanismos que permitissem uma escolha individual de cada deputado, significa que passaríamos a ter como deputados e governantes nacionais personalidades mais próximas dos portugueses? Políticos da estirpe de um Valentim Loureiro, da categoria intelectual de um Ferreira Torres, do exemplo de respeito pela justiça de uma Fátima Felgueiras, da classe e expertise financeira do ex-ministro e autarca Isaltino Morais, da inamovibilidade de um Mesquita Machado? Ou, até, muitos deles imbuídos do espírito democrático e de respeito pelas instituições de um Alberto João Jardim? Não serão todos estes políticos aqui citados excelentes exemplos de proximidade entre eleitores e eleitos?

História(s) da Música Popular (129)

The Valentinos - "It's All Over Now"
"Under The Influence" - The original songs of the "British Invasion" (XII)
Ora voltemos aos Rolling Stones onde existe um manancial de canções para ilustrar o tema que aqui e agora abordo. O 4º "single" do grupo londrino, editado em 1964, é este “It’s All Over Now”, um original dos Valentinos, dos irmãos Womack (Cleveland, Ohio), composto por Bobby e Shirley Womack e por eles editado em Junho de 1964. Em Julho do mesmo ano a versão dos Stones alcançaria o #1 no UK, o primeiro do grupo.

A versão dos Rolling Stones terá sido gravada nos célebres Chess Studios dos irmãos Leonard e Phil Chess, em Chicago, poucos dias depois de daqueles terem ouvido o original dos Valentinos durante a sua primeira digressão americana. Parece que ao princípio não muito feliz com a ideia, Bobby Womack depressa mudou de opinião em função dos direitos recebidos.

Como curiosidade o facto de o "cover" dos Stones de “It’s All Over Now”, fruto daquelas confusões e diferenças entre os álbuns ingleses e americanos (e respectivos alinhamentos) que os iniciados nestas coisas bem conhecem, nunca ter sido editado em LP no UK a não ser em colectânea (“High Tide and Green Grass”, 1966). Nos USA faz parte do bem conhecido álbum 12X5 (1964).

Lima de Freitas e Vergílio Ferreira (4)

Desenho de Lima de Freitas para "A Face Sangrenta", de Vergílio Ferreira. Edição especial "Contraponto" (1953) de 500 exemplares numerados e rubricados pelo autor e 5 desenhos "hors text" em papel L1. Esta gravura foi digitalizada do exemplar nº 376.

Magistrados, militares e uma boa ideia (às vezes acontece!) de José Manuel Fernandes

De um lado um procurador-geral adjunto com um passado pouco recomendável e que terá feito quase toda a sua carreira à sombra da política, junto do PS. Do outro um sindicalista (!)/magistrado do Ministério Público que o denuncia e faz queixa ao Presidente da República. Políticos que são magistrados, magistrados que também são políticos. Polícias que se tornam deputados e políticos em trânsito para polícias. Que resta? Um aparelho judicial terreno de luta partidária (alguém duvida?), teatro de pequenas e grandes ambições pessoais, vinganças, ajustes de contas, recalcamentos e frustrações mal sublimadas . Alguém (Lopes da Mota) que durante muito tempo soube estar sempre no local certo à hora exacta e de repente falhou nos seus cálculos, e deu por si no local errado a hora inconveniente, julgando que o não estava.

Dirão que tudo isto é também a democracia e que só em democracia pode ser investigado e denunciado, o que não deixa de ser verdade. Que, no fundo, será muito barulho por quase nada, já que as tais pressões quase se resumem a inofensivas conversas entre colegas que apenas terão sido denunciadas e tomado esta relevância por conveniências políticas e pessoais de momento, erros de cálculo de Lopes da Mota, o que também não deixa de ser verdade e também é a democracia a funcionar. Então em que ficamos?

Bom, como gosto de tirar sempre conclusões direi que neste caso alguém já as tirou por mim. Por isso mesmo, e para que a democracia funcione ainda melhor em benefício dos cidadãos deste país, para que as suspeições pelo menos se atenuem, subscrevo o que diz José Manuel Fernandes (que por vezes mostra algum bom senso – hélas!) no “Público” de hoje e não deixa de revelar as circunstâncias históricas muito especiais em que a Constituição de 1976 foi elaborada: a não existência de normas que obriguem ao apartidarismo dos magistrados - ao contrário do que acontece com os militares das forças armadas - e a inexistência de um regime de incompatibilidades adequado é uma lacuna constitucional que deveria ser revista. Talvez não resolva, mas será por certo uma boa ajuda. Mas em 1976, depois de uma ditadura de 48 anos apoiada pelos militares e após um PREC traumático com a tropa na rua, quem se lembraria de tal coisa? Ainda vão a tempo, mas por favor vão a correr.

terça-feira, maio 12, 2009

"Back to the basics": Marty Robbins & Charlie Feathers (3)

Marty Robbins - "Mean Mama Blues"

Quatro notas muito breves sobre o "meu" Benfica

  1. Luís Filipe Vieira afirmou que alguma coisa vai ter que mudar no Benfica. Como treinador e jogadores mudam todos os anos, resta mudar ele próprio.
  2. Treinador do FCP arrisca-se a se campeão. Treinador do SLB a ser despedido ao fim de um ano. Convenhamos que não é um emprego muito atractivo.
  3. Ao querer ser campeão à força ao fim de um ano em vez de ter como objectivo dominar o futebol português num horizonte de três a cinco anos, o mais certo é o Benfica não conseguir nem uma coisa nem outra. A experiência prova isso mesmo e as mesmas acções, em circunstâncias idênticas, conduzem necessariamente aos mesmos resultados.
  4. Como pretender que Luís Filipe Vieira não ceda às pressões da "rua" benfiquista se ele próprio é a "rua" benfiquista?

segunda-feira, maio 11, 2009

Songs of the WW II (7)

Pierre Lefèvre - "Ceux du Maquis"

Bairro da Bela Vista: é bom lembrar como tudo começou

Disse-o aqui, Louçã tem razão ao criticar as declarações incendiárias de Paulo Portas, de uma total e espantosa irresponsabilidade para um homem que já foi ministro de um governo de um estado democrático. Também afirmei que esta minha crítica e a razão concedida a Louçã não isentava de responsabilidades os autores dos desmandos e que estes, usando as polícias de todo o bom senso possível e a força que se revelasse proporcional e necessária, deveriam ser presentes à justiça que os julgaria de acordo com as leis do país, isto não significando que medidas de fundo, sociais, económicas e políticas, não fossem futuramente tomadas.

Tendo dito isto gostaria de acrescentar duas notas:
  1. As leis são gerais e abstractas e, portanto, não existem leis para “essa gente” e leis para “esta gente”. Do mesmo modo que não existem leis para brancos e outras para pretos, leis para quem habita nos bairros sociais e leis para quem mora em condomínios de luxo, leis para nómadas e leis para populações sedentárias. Nem o rigor de aplicação das leis deve variar em função desses parâmetros. Esta é uma ressalva necessária em função do que por aí já tenho ouvido ao “povo da SIC”(o tal que exige que a lei seja igual para todos quando se trata dos “ricos e poderosos” mas depressa se esquece disso quando se trata de penalizar pretos e ciganos!) e a quem, acima de tudo, gosta de lhe agradar.
  2. Em segundo lugar gostaria de lembrar que as alterações da ordem havidas no Bairro da Bela Vista começaram após o enterro de um jovem baleado na nuca pela polícia durante uma perseguição a um bando que tinha assaltado uma caixa Multibanco. Significa isto que, mais uma vez, a polícia excedeu as suas atribuições, desta vez não só fazendo justiça pelas próprias mãos e de forma desproporcionada (não me consta tenha agido em legítima defesa e que compita à polícia julgar e aplicar a pena – neste caso, de morte), como arranjando um sarilho que poderia ter tido repercussões bem mais graves. Para que conste, e para que os viciados no “securitarismo” – os partidários do “todo o poder às polícias” - tenham bem a noção para onde a sua irresponsabilidade pode conduzir o país.

domingo, maio 10, 2009

A razão de Louçã

Francisco Louçã tem razão nas críticas que dirige a Paulo Portas e às suas incendiárias declarações de Famalicão (e às quais acho a farinha Maizena e a inútil discussão sobre o Bloco Central tiraram relevância mediática), dignas de um qualquer Le Pen e indignas de um democrata e homem de Estado, sobre os incidentes no Bairro da Bela Vista em Setúbal. O assunto exige que o tratem com pinças e a sua resolução requer enorme bom senso e seriedade, e não a sua exploração populista. Mas atenção: independentemente de todas as medidas de ordem social e política que devam ser tomadas (e Louçã não deixará de chamar a atenção para o assunto), tal não significa que as forças policiais, com o tal bom senso e o profissionalismo que o caso requer e me parece até aqui têm mostrado, não mantenham a ordem pública e que os responsáveis pelos desacatos, por muito que sejam os "mais pobres dos pobres" (e poderão sê-lo, de facto), não sejam detidos, responsabilizados e presentes à Justiça que os julgará de acordo com as circunstâncias agravantes e atenuantes. Assim o exige o Estado de Direito Democrático e também a prevenção de incidentes futuros.

Lucy in the Sky with Diamonds (23)

"Petulia" - um filme de Richard Lester (1968)

sábado, maio 09, 2009

Os modelos de jogo do SLB e os jornalistas desportivos

Sem David Suazo, Quique Flores viu-se obrigado o mudar o seu modelo de jogo. Deixou o futebol longo para as costas das defesas contrárias e para José António Reyes, abdicou dos médios mais pressionantes, Yebda e Katsouranis, e passou a jogar num modelo de maior circulação e posse de bola com os sectores mais juntos, Martins e Ruben Amorim no meio, recuando Aimar e deslocalizando-o para as faixas e jogando com dois “pontas de lança”. Era o modelo proposto pela grande maioria dos críticos e jornalistas desportivos. Os resultados estão à vista. Que proporá de seguida tão sabedora gente?

O "Arrastão" e as moscas surdas

O “Arrastão”, com a demagogia do costume, tenta demonstrar que o facto de duas maiorias absolutas terem coincidido com épocas de fraco crescimento económico significa que existe algum tipo de correlação entre essas duas realidades. Não me dou sequer ao trabalho de demonstrar falsificação tão primitiva, apenas me apetecendo citar aquela história do rapaz que arrancou as asas à mosca e lhe ordenava que voasse. Como isso não tivesse acontecido, anotou nas suas conclusões: mosca sem asas é surda!

Jesualdo Ferreira

Tenho respeito profissional por Jesualdo Ferreira: para além de uma licenciatura na área por universidade prestigiada, quando resolve não assumir as dores de Pinto da Costa e não ser mais papista que o Papa, assumir que não precisa ser porta-voz da ideologia do clube e decide falar apenas de futebol, é alguém a quem se ouve com gosto, alguém a quem se reconhece um saber muito para além do que é uso e costume na indústria.

Mas, sejamos claros: com 62 anos de idade, não tinha, antes de assumir o cargo que actualmente ocupa de treinador do FCP, sucessos que justificassem um curriculum brilhante, achievements dignos de qualquer relevância e registo. Parece-me pois excessivo, por se ir sagrar tri-campeão e ter levado aos ¼ de final da Champions League um clube onde até uns tais António Oliveira e Carlos Alberto Silva tiveram sucesso, que se faça dele o “it” de momento. Apenas um treinador indiscutivelmente competente, que finalmente conseguiu estar no lugar correcto à hora certa.

Pronúncias...

Juro que não pretendo nenhum português pronuncie o nome de Winston Churchill tal qual o velho Pessa o fazia, no seu ”received english”. Muito menos que alguém pronuncie nomes eslavos qual José Milhazes ou Egveni Mouravitch de trazer por casa, até porque pelo nome este parece ser mesmo lá do sítio. Muito menos que alguém mencione o nome do general De Gaulle tal como aquele senhor, do qual não me lembro o nome, das “Actualidades Francesas – Assim Vai o Mundo”, o fazia... Mas, que raio!, dizer enormes barbaridades, isto é, coisa digna de gente pouco civilizada, também me parece um pouco exagerado.

É que já não basta, um pouco por todo este Portugal, os jornalistas falantes terem decidido que os condados ingleses terminados em “shire” se pronunciavam “shaiare”, vá lá Deus Nosso Senhor (é assim que se escreve?, com maiúsculas e tudo ou estou a ser blasfemo?) entender o porquê, talvez porque na escola lhes tenham ensinado que o “i” em inglês vale “ai” ou nunca se tenham dedicado à tarefa de “ir às bifas” como aquele tal senhor “qualquer coisa” lá do Algarve. Oh, homens!, neste caso digam à portuguesa que sempre ficam mais perto!

O problema, o verdadeiro problema, é que não tentam pelo menos dizer algo de parecido, que não brade aos “Céus” (é assim?), deixando então para os senhores correspondentes, com a sua dicção muito própria, a pronúncia correctíssima de cada local. Mas esforcem-se, caramba, até porque já não é preciso falar para a embaixada respectiva para conseguir ter a pronúncia correcta e, então, tentar dizer algo de mais ou menos aproximado, mais ou menos adaptado aos usos e costumes locais. Basta ir à “net”, caramba, onde encontram maneira de conhecer a pronúncia correcta. Depois... bom, depois é só tentar dizer algo de parecido!

Querem mais exemplos? Olhem, não digam o “J” catalão como pronunciam a mesma letra em castelhano: é mesmo “J” (“Jordi”, por exemplo). Mais? Não digam que um cidadão da mesma nacionalidade se chama “Puig”: lê-se “Putsh”, não custa nada. Mais ainda? A capital do Montenegro (Podgorica) não é Podgorika, mas sim Podgoritsa. Vêm?, não custa mesmo nada. E, já agora, Nico Kranjčar, jogador de futebol do Portsmouth e da selecção croata, não se pronuncia “Kranikar”, mas sim alguma coisa de parecido com Krantshar, tal como Paolo, lá por se escrever com “o”, não se pronuncia Páólo, mas quase como o Paulo português, prolongando um pouco o “o” fechado”. E isto são só alguns exemplos.

Vá, senhores jornalistas falantes, comecem lá a experimentar: vão ver que não custa mesmo nada e apenas demonstra rigor, profissionalismo, brio pessoal, algo que anda tão em falta aqui pelos nossos costumes. Deixem o “received english” para o velho Pessa lá na rádio do outro mundo onde ele já faz furor; saibam que nunca conseguirão pronunciar o russo como o José Milhazes ou o Egveni Mouravitch; acreditem que já não há “Actualidades Francesas – Assim Vai o Mundo”. Mas, por favor, vão à “net”, digam algo de parecido e poupem-me às vossas pronúncias bárbaras!