sexta-feira, outubro 31, 2008

Professores...

Um post de 2 de Maio de 2008 que, quando se prepara mais uma manifestação de professores, continua a fazer todo o sentido.

  • "Faz sentido que os professores sejam colocados por um computador do Ministério da Educação em escolas que nunca viram e nunca os viram, onde porventura não queiram estar e lá os não queiram, sem conhecerem os seus futuros colegas e superiores hierárquicos (se é que na actual organização escolar isso existe)? Conhecem alguma organização bem sucedida que contrate assim os seus funcionários e colaboradores?
  • Faz sentido que para a carreira docente tanto valha uma nota de curso (12, por exemplo) conseguida no “Técnico”, na “Nova” ou na “Católica”, na Faculdade de Letras de Lisboa, ou na “Internacional”, “Autónoma” e tutti quanti? Alguma organização bem sucedida utiliza este critério na admissão dos seus funcionários e colaboradores?
  • Faz sentido que a direcção de cada escola seja eleita, maioritariamente, pelos seus pares e, depois, tenha de responder pelos seus resultados a terceiros: pais, Ministério, sociedade, etc? Alguma organização bem sucedida utiliza este modelo organizacional e de responsabilização?
  • Faz sentido que os professores, salvo algum raro problema de maior gravidade, progridam até ao topo da carreira sem qualquer tipo de avaliação credível e apenas por via dos anos de serviço e de créditos concedidos através da frequência de cursos sobre a “modelação do barro de Estremoz” ou do tipo “Windows para principiantes”? É assim que funcionam as organizações bem sucedidas?
  • Faz sentido que um professor colocado numa escola de uma zona problemática, no interior, em turmas com problemas de aprendizagem, ganhe o mesmo e tenha o mesmo resultado em termos de (não) avaliação do que um outro que dê aulas ao 9ºA do Pedro Nunes? É isto que se passa nas organizações bem sucedidas?
  • Faz sentido que um professor de Matemática, Português, Inglês, disciplinas básicas para um melhor aproveitamento do aluno e onde estes normalmente apresentam maiores dificuldades de aprendizagem, tenha o mesmo vencimento de um outro de Trabalhos Oficinais ou Educação Física? Será que nas organizações bem sucedidas os responsáveis de Produção, Financeiro, Marketing, Recursos Humanos ou Relações Públicas têm todos vencimentos iguais?
  • Faz sentido que um professor que gaste o seu tempo e o seu dia a criticar a política educativa (qualquer que ela seja), fora dos orgãos competentes para o fazer (Conselho de Gestão, por exemplo), a manifestar permanente má vontade no cumprimento das directivas da sua hierarquia, a criar por isso mesmo um ambiente de trabalho desconfortável, deve ganhar o mesmo que um outro que, não se coibindo de expressar as suas opiniões, o faz disciplinadamente e no sentido de melhorar a sua actividade e a da escola? É exactamente isso que acontece nas organizações bem sucedidas?
  • Faz sentido que um professor na segunda metade da sua carreira, quando tem mais experiência da função que exerce e isso lhe poupa algum trabalho na preparação e organização das suas aulas, lhe permite obter mais facilmente uma atitude de maior disponibilidade para a aprendizagem por parte dos alunos, veja reduzida a sua "carga horária"? Alguém já observou tal coisa nas organizações bem sucedidas?

Sabem, é que estas são algumas das razões pelas quais as escolas públicas não são – e eu bem gostaria que fossem ou passassem a ser – organizações bem sucedidas. Lamentavelmente, nunca vi os professores manifestarem-se contra isso."

"No hay banda"!

"Mulholland Drive" - David Lynch (2001)
O “Gato Maltês” gosta muito de Lynch. É um axioma, pronto, uma boa razão para me poupar a explicações. Mas na obra de Lynch gosta especialmente de duas sequências em que a música assume um papel fundamental. Mas também o silêncio. Uma delas é aquela em que Dennis Hopper, no papel de Frank Booth em “Blue Velvet”, ouve ”In Dreams”, um original de Roy Orbison. Outra, especialmente esta, uma sequência de "Mulholland Drive", talvez o meu filme preferido de Lynch, com Naomi Watts e Laura Harring e que integra o Club Silencio e Rebekah del Rio interpretando “Crying” (“Lloranndo”), também um original de Orbison.

Mais do que o surrealismo presente tão frequentemente em Lynch, a sequência remete-nos para a atmosfera fantástica de “Twin Peaks”, para um certa “realista irrealidade”, se me permitem que traduza sem grandes preocupações de rigor o Lawrence Ferlinghetti de “Dada would have liked a day like this”... É, para mim, das cenas da história do cinema em que a música, a palavra, o silêncio (especialmente este) e o som ambiente melhor se conjugam, juntamente com um rigor de mise en scène (vejam o modo como se harmonizam as cores da roupa de Watts e Harring entre si e com as cores do teatro, mas também como o penteado e o loiro dos cabelos as aproximam, ajudando a criar um ambiente de cumplicidade que estabelece o contraste com o tom de distanciamento geral da sequência) e de montagem admiráveis, para construirem não o “real” mas propositadamente o fantástico, neste caso o do universo Lynchiano. Falta-lhe, aqui, o efeito écran grande e sala escura, como também faltará se o virem na TV já que o cinema para isso não foi feito. Mas não se pode ter tudo, e com Lynch já se tem muito. Mesmo assim, em formato reduzido.

"Lipstick On Your Collar" (19)

"Lipstick On Your Collar" - Frankie Vaughan: "Green Door"

quinta-feira, outubro 30, 2008

O "Gato Maltês" discorda do alargamento do terminal de contentores de Lisboa

O "Gato Maltês" discorda frequentemente de Manuel Alegre. Mas, por vezes, também concorda. Digamos que raramente, mas esta é certamente uma dessas vezes. Por isso, sendo ou não alfacinha mas gostando deste nosso rio, pode assinar aqui a petição contra o alargamento do terminal de contentores de Lisboa. Se já assinou fez muito bem. Se não o fez, ainda está a tempo. O "Gato Maltês" e os alfacinhas agradecem.

Viva o general Tapioca; abaixo o general Alcazar!!! (ou será vice-versa?)

Todos já ouvimos falar de “pronunciamentos“ militares, mas temo poucos conheçam a origem do termo. Eu próprio desconheço se a sua origem é espanhola ou sul-americana (inclino-me mais para esta hipótese), mas a palavra original é “pronunciamiento” e a “coisa” passava-se mais ou menos assim: descontentes com um governo, um grupo de oficiais declarava a sua intenção de derrubá-lo e estabelecer uma ditadura militar, assim daquelas tipo general Alcazar e general Tapioca. Aguardava-se, então, para ver se havia apoio suficiente por parte dos seus “camaradas de armas” (isto é, contavam-se as espingardas: melhor, as vozes) e, caso existisse, o assunto estava arrumado e lá se arranjava um general adequado (ou seja, suficientemente bronco e incompetente) para chefiar o novo governo. Caso não existisse esse apoio maioritario, lá a “coisa” fiava mais fino e os revoltosos, na melhor das hipóteses, acabariam na reserva ou no exílio. E assim sucessivamente, qual filme em “pescadinha”. A grande vantagem do assunto, do dito pronunciamento, é que não havia lugar a combates, mortos e feridos, essas coisas sanguinolentas e outras eventualmente ainda mais desagradáveis e chocantes.

Parece que por cá o pronunciamento, pelo menos neste momento, se limita aos generais na reserva. Acho boa ideia: é assim como quando, em adolescentes, sem nos expormos, intercedíamos junto de um irmão mais velho para este pedir em nosso nome, ao pai ou à mãe, para que nos fosse concedida qualquer benesse, mesmo que face a uma nota menos boa nos estudos, fosse a chave do carro no sábado à noite ou um aumento da mesada. Não têm os nossos generais na reserva armas nem comandam tropas? Paciência: como também já estão na “reserva” não haverá grandes consequências se o “pronunciamento” falhar. Mas, já agora, uma pergunta. Tal como em 1956 bricávamos, eu e os meus amigos de então, no recreio do colégio, aos húngaros e russos, substitutos ocasionais dos polícias e ladrões, porque não organizam os nossos generais na reserva um torneio de paintball? Uns seriam pelo Sócrates e outros, os “jovens mais impulsivos”, pelo General Tapioca, a breve trecho substituído pelo seu rival Alcazar. Haveria poucos a “alinhar” pelo Sócrates? Pois, calculo, mas também nas nossas brincadeiras de colégio era uma chatice arranjar quem quisesse ser pelos russos! Mas lá se arranjava, pois claro, caso contrário não haveria brincadeira, o que era o pior dos castigos!

Roger Corman classics (29)

"The Pit and the Pendulum" (1961)

"Rankings" e "chumbos"

Rankings escolares e a existência ou não de “chumbos” trazem sempre atrás de si doses incomensuráveis da mais rasteira demagogia. No caso dos rankings, à direita sobre a manifesta superioridade do privado sobre o público, esquecendo que as melhores escolas são, em última análise, as que podem recrutar os melhores alunos (leia-se, das classes alta e média-alta) e professores, algo que é vedado à escola pública. À esquerda, valorizando a inclusão, esquecendo o muito que há fazer em termos de organização, disciplina, selecção e formação de professores para que a escola pública progrida e não se “agarre” a desculpas esfarrapadas que tendem a mergulhá-la na mediocridade. No caso dos “chumbos”, à direita valorizando a exigência e a escola “à antiga”, quando as circunstâncias eram outras e o próprio secundário público era um ensino de uma elite para outra. À esquerda, fazendo valer as novas pedagogias e o papel social integrador da escola por sobre a transmissão de conhecimentos e do saber, como se estes não fossem a verdadeira essência do ensino. A argumentação, de ambos os lados, é por demais conhecida e, por demasiado próxima da tal demagogia mais rasteira, esperemos desta vez a isso nos poupem.

Os vírus do "Gato Maltês" e de José Pacheco Pereira

Talvez por o meu computador ter apanhado uma “valente carga” de vírus e spyware (estará pronto da reparação no fim de semana 120 euros depois), parece que alguns deles insistem em continuar a transferir-se para o programa “Vírus”, de José Pacheco Pereira no RCP. Hoje foi a referência ao “Cara al Sol”, aqui assinalado a 17 de Fevereiro de 2007, juntamente com “El Ejercito del Ebro”, num post dedicado a canções da guerra civil de Espanha. Mais uma vez, o “Gato Maltês” agradece a distinção e, pura e simplesmente, sente-se vaidoso por estar em tão boa e reconfortante companhia.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Sarah Palin e as "Pistol Packin Mamas" - mas não se assustem, eu votaria Obama!


Al Dexter - "Pistol Packin Mama" (1943)
Não, não se assustem porque se fosse americano nunca votaria Sarah Palin. A foto acima, de material de merchandising da candidatura McCain/Palin, está apenas aqui para ilustrar o que se designa nos USA por “Pistol Packin Mama”, categoria onde a candidata a vice-presidente dos USA (espero que nada mais do que isso) facilmente se insere e onde foi rapidamente catalogada. Mas a que propósito menciono aqui no blog Sarah Palin e as “Pistol Packin Mamas”? Muito simplesmente, para evocar um tema da Country Music com o mesmo nome que foi sucesso em 1943/44 tanto pela voz de Bing Crosby e das Andrew Sisters como de Al Dexter. Ambas as versões chegaram mesmo a #1 em Janeiro e Fevereiro de 1944, embora pense, sem demasiadas certezas, que a de Dexter será a original. Fica aqui esta última versão, esperando que Palin faça exactamente o que Dexter lhe pede: “lay that pistol down”, o que, traduzindo para o presente, significa um irrecusável convite para voltar para o Alaska!

"Lipstick On Your Collar" (18)

"Lipstick On Your Collar" - The Crew Cuts: "Sh Boom"

terça-feira, outubro 28, 2008

(Mais uma vez) Alegre se fez triste...

Manuel Alegre interroga-se, no seu artigo no DN, sobre qual será o papel da esquerda na mudança, depois da actual crise financeira. Constato que Alegre deve andar talvez um pouco distraído. É que PCP, Bloco de Esquerda e PS, cada um de acordo com a sua visão do mundo e a ideologia que defende, já definiram bem qual foi, é e será o seu papel antes e depois da crise. Portanto, o que incomoda Alegre não é o papel que a esquerda irá assumir, mas o papel que, com a sua proverbial megalomania, a si se reserva no seio de uma esquerda que nunca lhe reservou algo mais do que uma função meramente instrumental.

"The Go-Between"

"The Go-Between", de Joseph Losey (1970)
Confesso algum desprezo por aqueles que, pronunciando-se sobre filme, livro, vinho ou peça musical da sua vida (se é que isso existe – o que duvido), citam, sem hesitar, “Citizen Kane”, talvez o “Ulisses” do Joyce, de certeza o “Barca Velha” e, com boa hipótese de não falhar, a 9ª de Beethoven, de preferência numa daquelas interpretações de referência da Filarmónica de Berlim dirigida pelo von Karajan. Acho sempre que são gente pouco vivida, que nunca leu, bebeu ou viu tal coisa ou, se o fez, isso aconteceu por dever e não por gosto, por fastio e não por devoção e descoberta, de certeza por ausência de paixão. Por certo, gente sem alma, que nunca percebeu que a vida (a nossa e a dos outros – a de todos) nos pode conduzir a devoções pouco ou nada consentâneas com a razão – como, aliás, o devem ser sempre – e, assim, tornar nossos objectos de culto pequenas coisas que estão longe de se poderem considerar obras-primas, citadas a “torto e a direito” quando na hora de elaborar rankings de conteúdo mais ou menos magazinesco.

Lembro-me sempre disso a propósito de um dos meus filmes (que é também um romance) de culto, que, longe de ser um filme menor de um cineasta ignorado, nunca aparecerá por certo incluído num desses rankings do século ou da história do cinema, o que quer que seja que isso signifique. “The Go-Between”, de Joseph Losey (ou de L. P. Hartley, se preferirem o romance mas este não “tem” uma Julie Christie lindíssima), é um filme sobre a perda da inocência, que, muitas vezes, começa quando na pré adolescência nos apaixonamos platonicamente por alguém muito mais velho. Mas “The Go-Between” é muito mais do que isso, pois, nele, essa perda de inocência, para além da dor de ver que o “ente amado” usa essa paixão em proveito do seu amor por um terceiro, transformando-nos em mensageiro de e por esse mesmo amor, é acompanhada pela descoberta traumatizante da sociedade de classes e das suas convenções amesquinhantes para quem não pertence ao “topo” e as não domina, pelo desvendar do sexo pelo seu lado pecaminoso e adúltero, pelo suicídio como solução para o que a vida não pode consentir. É uma entrada demasiado brutal no mundo dos adultos, que marcará para sempre a vida de quem assim perdeu a inocência.

O que é para mim curioso é que, apesar de nada, ou muito pouco, no filme ter que ver com experiências por mim vividas enquanto criança, adolescente ou adulto (o que costuma ser essencial neste tipo de ligações), algo de semelhante que me tenha conferido carácter e moldado personalidade, tenha de tal modo compreendido e identificado os seus valores a ponto de filme e livro se terem transformado em objectos de culto que me seguem e seguirão para todo o lado e todo o sempre. Também para aqui, para este “Gato Maltês”, por isso, e disso, deixando aqui testemunho.

Do salário mínimo...

Quando da recente “alta” dos preços dos combustíveis, defendi aqui a não intervenção do estado, alegando, entre outras razões, que essa era uma boa oportunidade para a racionalização do seu consumo e utilização, tanto ao nível das empresas como das famílias onde existiam, e ainda existem, enormes desperdícios que é necessário eliminar, permitindo essa racionalização manter os custos de produção e os orçamentos familiares aos níveis anteriores – ou perto deles.

Lembrei-me disto mesmo a propósito da recente polémica sobre o aumento do salário mínimo, anunciado por José Sócrates, e que gerou um coro unânime de protestos das associações empresariais e mesmo de alguns economistas que normalmente estão perto das posições governamentais. Claro que seria bem melhor que esse aumento pudesse ser realizado em época de prosperidade e expansão económica, contribuindo para “limpar” o tecido empresarial das empresas e sectores menos competitivos sem que o eventual aumento de desemprego e possível menor crescimento económico tivessem consequências demasiado gravosas, mas deve a actual conjuntura afastar de todo qualquer perspectiva nesse sentido?

Independentemente de questões de ordem humana e de justiça social, que têm o seu peso mas prefiro aqui deixar de lado (até porque as boas intenções nem sempre conduzem ao resultado desejado e podem mesmo ter um efeito contrário ao pretendido), e pondo de parte as mais do que prováveis motivações eleiçoeiras, pergunto-me se o mesmo tipo de raciocínio utilizado quando da “alta” dos combustíveis não poderá, em certa medida, ser também aqui utilizado, e se o provável aumento controlado do salário mínimo não poderá forçar uma maior eficácia e racionalização de processos nas empresas onde os salários muito baixos ainda têm um peso excessivo no custo do produto final. Apesar do reconhecido primitivismo da gestão de muitas dessas empresas e do peso excessivo da mão de obra nos custos totais recomendarem cautelas e caldos de galinha, admito que vale a pena assumir o risco, e não me surpreenderia demasiado se os resultados obtidos não fossem tão catastróficos como por aí se tende a fazer crer. Gostaria de ter razão...

sábado, outubro 25, 2008

O "Gato Maltês"

Devido a inesperados problemas informáticos, este blog encontra-se em manutenção até à próxima 5ª feira. Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos.

sexta-feira, outubro 24, 2008

"Alla Turca", pois claro!

Wolfgang Amadeus Mozart: Sonata para piano nº 11 KV 331. 3º andamento - Allegretto "Alla Turca" . Interpretação de Ivo Pogorelich
Muitos dos que não se interessam especialmente por música ou, mais especificamente, pela música erudita (impropriamente chamada “clássica”) já ouviram falar da, também pouco correctamente, chamada “marcha turca” de Mozart. Com maior rigor, trata-se do último andamento (Allegretto) da sonata para piano nº 11 KV 331, um Rondó (forma musical muito utilizada durante o classicismo vienense) inspirado pela chamada música de Janízeros, ou seja, da infantaria turca que 100 anos antes (1683) de Mozart ter composto esta sonata (1783) se encontrava, no auge da expansão do império otomano, às portas de Viena. Foram várias as heranças culturais deixadas pelos turcos na Europa central, entre as quais a mais conhecida terá sido talvez o hábito de beber café, mas no campo musical, e no que diz respeito a Mozart, também na música essa influência foi notória, tendo nesse mesmo ano de 1783 Mozart composto uma das suas principais óperas cujo libreto revela também essa influência da sociedade e dos hábitos otomanos, “O Rapto do Serralho”. Uma outra curiosidade a assinalar é que uma grande parte da partitura manuscrita original desta sonata se perdeu, encontrando-se o que resta dela na posse de uma colecção particular em... Lisboa.

Pois aqui fica o 3º andamento “alla turca” da sonata nº11 para piano de W. A. Mozart. Interpretação de Ivo Pogorelich.

As capas de Cândido Costa Pinto (50)

Capa de CCP para "O Camelo Preto", de Earl Derr Diggers, nº 49 da "Colecção Vampiro"

Os aumentos salariais da Função Pública

Uma vez mais: a questão do aumento de salários da Função Pública é apenas a parte visível do iceberg, aquilo que, por simples e rapidamente quantificável, permite uma leitura mais imediatista com a subsequente maior facilidade de mobilização dos trabalhadores por um objectivo expresso de modo bem tangível, conseguindo mesmo, embora de forma cada vez mais mitigada, captar aqui e ali ainda as simpatias de outros sectores da sociedade. Independentemente de mesmo essa questão ser apresentada de uma forma incorrecta e errónea por sindicatos e partidos seus apoiantes (num esquema de progressão automática nas carreiras, o cálculo correcto deve efectuar-se comparando a variação da massa salarial total entre os diversos anos e não apenas os aumentos salariais, o que levaria a conclusões bem diversas das expressas repetidamente pelas estruturas sindicais – no sector privado, mesmo sem progressões automáticas, é assim que se processam os aumentos salariais), o que está realmente em causa são questões como a avaliação de desempenho, a progressão automática nas carreiras, os processos de selecção, o modelo de gestão das escolas e de selecção de professores, a estrutura organizativa da FP, etc, etc. Não nos iludamos, a “luta” pelo aumentos salariais, que por vezes chega a parecer ridícula dada a irrelevância dos montantes em causa e o desenlace conhecido à partida, constitui apenas uma forma priveligiada para, através da mobilização dos trabalhadores do sector mostrando algum poder na rua, pressionar o governo no sentido da manutenção do actual status quo, o único que ainda permite ao PCP partilhar algum poder no aparelho de estado.

quarta-feira, outubro 22, 2008

"Lipstick On Your Collar" (16)

"Lipstick On Your Collar" - Carl Perkins: "Blue Suede Shoes"

Carlos Queiroz e o seu erro de base

Muito se tem dito e escrito sobre a selecção portuguesa de futebol depois do empate com a Albânia, mas, desculpem-me a arrogância, muitas vezes não focando o essencial, não o conseguindo isolar de outros factores acessórios ou, pura e simplesmente, colocando todos esses factores a um idêntico nível de importância. O que pretendo analisar aqui (veremos se o consigo) é, independentemente da substituição A por B, da "forma" do jogador X ou Y, da opção táctica W ou Z ou das lesões de C ou D, qual é, de facto, o factor determinante no descalabro da selecção. Ora, vamos lá ver se isso é possível, agora que as águas perderam um pouco da sua fervura inicial.

Por personalidade, concepção sobre qual o seu trabalho e o melhor modo de o executar, formação, perfil técnico, etc (talvez de tudo um pouco), Carlos Queiroz introduziu, propositada e conscientemente, uma ruptura nos conceitos de gestão de Scolari. Quebrou o conceito de “inner circle”, herdado de Scolari, e substitui-o por um conceito mais abrangente nas convocatórias; não convocou Ricardo (o que foi o primeiro sinal) e chamou Eduardo, o eleito do "povo” e da crítica mas sem qualquer experiência relevante a alto nível; passou a observar ao vivo os jogos onde intervinham potenciais seleccionados, chegando ao extremo do ridículo de ir à Grécia observar um tal Edinho; focou desde o início a necessidade de jogar bom futebol, contra o conceito mais pragmático do resultado acima de tudo (“meio a zero”) defendido por Scolari; pôs de parte os “banhos de multidão”, resguardando jogadores; acabou com as conferências de imprensa quando das convocatórias, confiante num certo “estado de graça” junto dos “media”; não sendo uma personalidade carismática, ao que dantes era vibração e “sound bytes” contrapôs um discurso cinzento e confuso, uma ausência de uma ideia-força que rapidamente pudesse ser captada por todos, jogadores, jornalistas e adeptos; ontem, ao contrário do que fez Scolari, que afrontando o FCP no “caso” Vítor Baía colocou 2/3 dos adeptos portugueses “ferozmente” do seu lado, sentou-se ao lado de Pinto da Costa, depois de se ter incompatibilizado com Soares Franco, colocando esses mesmos 2/3 inexoravelmente contra si, o seu erro mais grave até agora sabendo-se que o sucesso da selecção, qualquer que seja o seu responsável, nunca foi nem será do interesse “deste” FCP. Por último, é talvez por esta sua opção em levar a ruptura com o passado recente para lá do do racional que perde o jogo com a Dinamarca, ao insistir, ao contrário do que faria Scolari - que tentaria defender o 2-1 “à outrance” - em não colocar jogadores altos em campo para se precaver do, mais do que provável, “chuveirinho” dinamarquês.

Esta estratégia de ruptura será talvez o seu erro de base (mas pergunto-me se poderia ser de outra forma, tendo em conta o seu perfil), a questão-chave (key issue), à qual se subordinam todas as outras, responsável pelo seu, até agora, insucesso no comando da selecção, sabendo nós quanto essas situações de ruptura com um passado recente, em que o “novo” ainda não domina e o “antigo” está bem presente, são geradoras de instabilidade e indefinição, de algo que não se sabe bem o que seja, o que foi bem visível no “cada um por si” do jogo com a Albânia. Não sendo uma personalidade carismática, que rapidamente se imponha por um olhar ou uma frase, um gesto, essa característica tende a agravar ainda mais este estado de terra de ninguém em que navega a selecção, responsável último pelo seu insucesso recente. Responsabilidade de Queiroz? Sim, claro, mas principalmente de quem o contratou, sabendo que o seu perfil nunca se enquadraria num projecto de continuidade, mesmo que alterando o que de menos bom havia para alterar (e existiam algumas coisas), mas de ruptura, fazendo tudo voltar ao princípio. É provável que o tempo ajude a consolidar o seu “modelo” de gestão, apagando algumas das marcas do passado, o actual estado de indefinição. Mas existe algo que Madaíl e Queiroz não poderão esquecer: Queiroz e os seleccionados, ao contrário do que acontecia nos juniores, terão muito pouco tempo juntos, e o “beija-mão” de ontem a Pinto da Costa, autêntico pacto com o Diabo, talvez lhe tenha selado o destino.

Roger Corman classics(27)

"Atlas" (1961)

terça-feira, outubro 21, 2008

Ferreira Leite, Teixeira dos Santos e as previsões de crescimento económico

Não vi a entrevista de Manuela Ferreira Leite e, francamente, não me apetece vê-la em versão requentada. Mas do que fui lendo e ouvindo, algo me chamou a atenção: MFL contrapôs ao crescimento previsto pelo governo para o próximo ano, e incluído no OGE (0.6%), um valor que será cerca de metade deste (0.2/0.3%). Sendo este último um valor bastante mais realista (espero estar enganado), MFL coloca, como se diria em linguagem futebolística, toda a pressão do lado de um Teixeira dos Santos que aceitou arriscar demasiado. Assim sendo, durante o próximo ano estes dois valores não deixarão de estar em permanente confronto, não esquecendo que do crescimento efectivo muito irá depender o cumprimento do déficit público (2.2%). No caso de derrapagem orçamental, MFL não deixará de ir recordando ao país as suas previsões, colocando o governo e o ministro em sérios embaraços e marcando pontos a seu favor. Caso as previsões orçamentais se cumpram, o ministro Teixeira dos Santos e o governo conseguirão um triunfo esmagador, como só conseguem os que arriscam contra todas as previsões e avisos. Um duelo interessante a ser seguido, principalmente porque objectivo e mensurável.

Anglophilia (52)









WILKIN & SONS LTD
Fruit Growers and Preservers
Since 1885

Os "amanhãs que cantam"

“Es zittern die morschen Knochen” - Hino da Juventude Hitleriana (Hans Baumann)

Hino da Mocidade Portuguesa (Mário Beirão-Rui Correia Leite)
Algo que existe de comum na propaganda dos regimes totalitários - que não são exactamente o mesmo do que apenas ditaduras, puras e simples ditaduras - é aquela ideia de um sacrifício do presente aceite em nome de um ideal superior, de uma ideia, de um partido e/ou de um estado, com a “leveza” e a alegria de quem está convicto marcha num caminho feliz e sem retorno possível para um prometido futuro radioso, para uma espécie de “terra do leite e do mel” que só por si justifica a inexistência de quaisquer dúvidas. É isso que vemos nos cartazes da China de Mao, nas páginas da “Vida Soviética”, nos filmes de propaganda nazi, talvez os três exemplos mais claros e conhecidos do que aqui afirmo.

Claro que a música não escapa a esta descrição e está bem presente onde mais seria de esperar: nos hinos das organizações de massas desses mesmos regimes, chamem-se elas SA, “Pioneiros”, “Komsomol” ou... Mocidade Portuguesa! É óbvio que a Mocidade Portuguesa, fundada por Carneiro Pacheco, ministro de Salazar, em 1936, continha em si mesma muitas das características das organizações nazi-fascistas da Europa de então, pese embora a ditadura de Salazar tivesse expurgado da organização do estado, mesmo nos seus primeiros tempos, as características mais “revolucionárias” e de “massas” dos regimes alemão e italiano. Quando por lá passei (era obrigatório nos antigos 1º e 2º ano do Liceu), no final dos anos 50, já uns largos anos depois da vitória dos aliados e após o “terramoto” Delgado, a ideia com que fiquei, até hoje, foi que a organização era já bem mais forma (a farda, a continência, a marcha) do que conteúdo, neste último caso mais próximo do escutismo do que de uma pré preparação militar e ideológica, razão última de ser das suas ex-congéneres hitlerianas e mussolinianas. Novos tempos, claro, aos quais o regime se ia moldando sem que o essencial fosse posto em causa.

Mas como falamos de forma, no caso da música existia o hino, de canto obrigatório, que, por sinal, mantinha bem viva essa ideia de uma marcha feliz (“Lá vamos cantando e rindo”), conduzida por um grande ideal (“Pela voz do som tremendo, das tubas, clamor sem fim”) em direcção a um futuro grandioso e radioso (“Lá vamos que o sonho é lindo”) perante a qual a própria natureza se inclinava em saudação (“tronco em flor estende os ramos à mocidade que passa”). O que é interessante é a sua semelhança, em termos musicais, com o hino da Juventude Hitleriana, o não muito conhecido “Es zittern die morschen Knochen” da autoria de um tal Hans Baumann. E se em termos musicais essa semelhança é notória, denunciando bem as suas origens comuns, existe uma diferença essencial em termos da “letra”: embora mantendo-se em ambos essa ideia de marcha em direcção a um futuro glorioso, ao qual todos se vergam, no hino da Juventude Hitleriana, ao contrário do que acontece no da MP, a ideia da guerra (“Der Welt vor dem roten Krieg”) e do expansionismo (“Und morgen die ganze Welt”) estão já bem presentes, justificando desde bem cedo a sua inevitabilidade, a razão de existência da organização e anunciando os tempos que aí viriam. Digamos que, também aqui, os meios (musicais) se submetem aos fins, embora dentro da mesma família. Ora oiçam...

segunda-feira, outubro 20, 2008

Pergunta de perguntar a propósito da eleições açoreanas

Se bem fiz as contas (acho que sim), para eleger um deputado no Corvo são necessários apenas 171 cidadãos eleitores, enquanto em S. Miguel esse número será de 5.395. Para não pensarem que tenho algo contra os, certamente simpáticos, habitantes da pequena ilha açoreana, direi já que estou de acordo com o facto de todas as ilhas estarem representadas no parlamento regional, mas, segundo me parece e aprendi, é exactamente para estes casos que serve uma segunda câmara, tal como nos USA acontece com o Senado para o qual cada Estado elege o mesmo número de representantes. Não seria bem mais interessante – e, já agora, justo -, no caso açoreano, eleger um menor número de deputados através de um círculo único (57 deputados para menos de 200 000 eleitores parecem-me um enorme exagero) e criar uma segunda câmara com representantes em número igual (por exemplo, dois) de cada uma das ilhas?

"Lipstick On Your Collar" (15)

"Lipstick On Your Collar" - The Platters: "My Prayer"

domingo, outubro 19, 2008

"Les haricots sont pas salés" - old time cajun music (5)


The Balfa Brothers - "J'aimerais te Pardonner"

António Vilarigues e as "teses" do PCP

No “Público” (não linkável) da passada sexta-feira, António Vilarigues mostra-se bastante indignado pelo facto das propostas do PCP incluídas nas teses para o XVIII Congresso do partido quase não terem repercussão mediática, nem mesmo por parte daqueles que, situando-se em campos opostos ou antagónicos, seria lógico se manifestassem criticamente. Para o caso de António Vilarigues não o saber, o que duvido, passo a fornecer-lhe uma explicação que reputo de plausível. As propostas do PCP nada têm a ver com uma sociedade aberta, livre e democrática, fomentadora dos valores da livre iniciativa dos cidadãos e integrada na União Europeia. Neste enquadramento não fazem mesmo qualquer sentido, o que não será de espantar e se apresenta até como lógico em função das sociedades que essas teses apresentam como exemplos e onde, estou certo, mesmo a maioria dos votantes do PCP não gostaria de viver e com as quais se não identifica. Sendo assim, para quê perder tempo? Nunca ouviu dizer que só vale a pena discutir com aqueles que, discordando ou concordando, pensam como nós, isto é, se regem pelo mesmo sistema de valores e lógicas de raciocínio? Ou acha que valia a pena Galileu perder tempo a discutir astronomia com a igreja católica dos séculos XVI e XVII?

sábado, outubro 18, 2008

"Que floresçam mil flores" (22)

Autor desconhecido (1967)
Fully criticize the Chinese Khrushchev from a political, ideological and theoretical perspectivePublisher: Shanghai People's Publishing House(Offset, 53x76 cm., inv.nr. BG E3/763)
"The 'Chinese Khrushchev', who is being wiped out at the bottom left, is Liu Shaoqi. Together with Deng Xiaoping he introduces some privatizations in agriculture. Mao wages a severe campaign against them. Eventually, Liu and Deng are thrown out of the party and arrested. Liu dies soon afterwards, being denied medical aid in confinement; Deng will return to high functions in 1973. The agressive group in the poster consists of a female Red Guard, a worker with brush and Mao's collected writings, a farmer and a soldier. "

sexta-feira, outubro 17, 2008

História(s) da Música Popular (103)

Gene Pitney - "The Man Who Shot Liberty Valance" (Bacharach-David)

"The Man Who Shot Liberty Valance" - John Ford (1962)
Bacharach & David (VI)
Não foi o maior sucesso de Bacharach e David para Gene Pitney (esse terá sido “Only Love Can Break A Heart”), mas aquele que tem mais histórias para contar, já que partilha o título com um dos mais famosos filmes de John Ford – com um elenco de luxo onde pontificam John Wayne, James Stewart e Lee Marvin – sem nunca, nem mesmo em lenda, ter feito parte da respectiva banda sonora. Falo, claro, sobre “The Man Who Shot Liberty Valance” - que nem é dos meus filmes favoritos de Ford - onde a realidade, por nua e crua, se mostra incapaz de destronar a lenda. Claro que teria de ser mesmo assim, pois de realidade não se fazem as lendas e constróem os mitos, mas, confesso, há no filme um certo excesso de tom pequeno-burguês anti-política e anti-políticos (ao estilo, “estão a ver como são todos uns oportunistas”?), de humanismo lamecha que longe de me comover se torna tão reaccionário que acaba por me irritar. Tão lamecha como a voz “plangente” de Pitney, que por lá não é ouvida. Mas como a maioria dos meus amigos cinéfilos gostam do filme, admito o defeito possa ser meu. Adiante!

Mas bom, e isso nem sequer é lenda embora ajude a construir o mito, este foi o primeiro de uma série de êxitos (a string of hits... diriam nos USA) que Bacharach e David compuseram para Gene Pitney (1940-2006, também ele autor de êxitos como He’s a Rebel, das Crystals, e “Hello Mary Lou”, do “teenage idol” Ricky Nelson), dizendo, desde já, que o meu favorito é “24 Hours From Tulsa”, embora, acima de todos, prefira “Something’s Gotten Hold Of My Heart”, de uma outra dupla, Greenaway-Cook.

Mas hoje o que interessa é mesmo “The Man Who Shot Liberty Valance” (acho que o vi pela primeira vez no Império) e por isso fica por aqui uma sessão dupla, como nos cinemas de reprise da minha infância, com o tema de Bacharach e David para Gene Pitney e o trailer do filme de Ford.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Roger Corman classics (26)

"The Last Woman On Earth" (1960)

A selecção nacional e o impagável Rui Santos

  • Ontem foi um dia de ausências: Madaíl da tribuna, Queiroz da flash interview e Rui Santos dos comentários da SIC Notícias, após o jogo. O empregador, o empregado e o head hunter.
  • Hoje, no Record, o mesmo Rui Santos esclarece, desde já, qual o responsável pelo desastre que se está a revelar a actual campanha da selecção: a FPF e os jogadores, que estarão a boicotar o trabalho de Queiroz. Esqueceu-se de acrescentar Filipe Soares Franco e a Senhora de Caravaggio, que por certo estarão também a dar a sua pequena contribuição. Ridículo, se não fosse patético e a requerer internamento imediato.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Les Belles Anglaises (XIV)







A C Cobra (1961-1967)

Antes do Portugal-Albânia

A confirmar-se, a entrada de Manuel Fernandes para o meio-campo da selecção portuguesa, mantendo-se Moutinho a “fazer” de Deco, recuando Meireles e fazendo jogar Danny numa das alas, parece-me uma opção inteligente. Colocar Danny na posição “dez”, com Moutinho e Meireles nas suas costas, partiria a equipa, desequilibrando-a e enfraquecendo ainda mais o meio-campo, de si já o sector problemático da equipa. Acresce que Nani se encontra manifestamente em má forma, por contraste com o português nascido na Venezuela. Treinador de bancada, que sou, arrisco dizer isto antes do jogo. Veremos se resulta.

"Lipstick On Your Collar" (14)

"Lipstick On Your Collar" - Jerry Lee Lewis: "It'll Be Me"

O orçamento: crescimento, "déficit" e aquilo que me parece ser um erro político do governo

Sim, eu sei, isto está mais para professores Zandinga ou para quem tenha dons de pitonisa do que para fazer orçamentos com um mínimo de rigor. Também sei que em tempos de crise e risco de recessão o governo dar sinais de pessimismo não é algo que se recomende e deseje, muito antes pelo contrário. Mais ainda, todos sabemos que um orçamento com algum carácter expansionista era, na conjuntura, inevitável, com o consequente abrandamento do ritmo de contenção do “déficit” público. Mas – mas – por outro lado, também sabemos que o controle do “déficit" é talvez a área de maior sucesso deste governo (o que já não é nada pouco), e que o ministro Teixeira dos Santos assim granjeou uma reputação de rigor e boa governação que muito útil tem sido ao governo no seu todo.

Tendo dito isto, acho que o governo, ao prever um “déficit” para 2009 igual ao de 2008 (2.2%) com um crescimento pouco provável do PIB de 0.6% (o FMI prevê 0.1%, embora saibamos que é, por norma, pessimista, e os 0.8% previstos para este ano ainda não são facto consumado), estará a arriscar demasiado a, pela primeira vez, não cumprir as metas estipuladas para o “déficit” público, arriscando-se a trocar muita coisa (uma área em que granjeou merecida reputação de seriedade e rigor e sucesso) por pouco, nada ou mesmo coisa nenhuma. Politicamente – penso – teria sido bem mais sensata uma previsão um pouco abaixo (v.g. 2%), mesmo que à custa de algumas "benesses" (seria necessário fazer contas), que permitisse uma mais do que provável revisão posterior para um valor que não ultrapassasse os 2.2% deste ano. Assim, no fio da navalha, qualquer revisão “em baixa” dos 0.6% de crescimento (Francisco Van Zeller já invocou a ajuda de Deus e eu próprio, agnóstico, no caso dele, católico, teria mesmo já mandado rezar algumas missas), arrisca-se a “atirar” o valor do "déficit" para um nível superior ao deste ano, o que constituirá um enorme falhanço e um erro político de monta por parte do governo.

terça-feira, outubro 14, 2008

António Costa

Sim, eu sei que raramente os intelectuais interessantes são bons políticos - embora me pareça que os grandes políticos (falo daqueles mesmo grandes) são frequentemente pessoas interessantes. Pensei nisto ao lembrar-me das intervenções de António Costa na “Quadratura do Círculo”, demasiado pobres e desconchavadas, com uma deprimente falta de interesse, ditas com a incomodidade mal escondida de quem parece ter sido feito para não estar ali. Se calhar nada disto seria importante se ao vê-lo contra-argumentar com Pacheco Pereira e Lobo Xavier me pudesse lembrar de uma boa e inteligente gestão na Câmara Municipal de Lisboa. Mas o problema é exactamente esse: não consigo, o que faz com que juntando a mediocridade demonstrada em ambas as funções – comentador e presidente camarário – comece a pôr seriamente em causa o que já está muito para além delas: o homem e as suas reais capacidades.

A CUF

"O Bairro da CUF" - documentário da autoria de Isabel Teixeira e Rui Durão da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha
A RTP exibiu há um par de semanas um excelente documentário sobre a CUF (que penso passou um pouco esquecido), o que significa também uma igualmente excelente visão sobre uma realidade incontornável do século XX português e, que me lembre, do único dos grandes grupos económicos do período anterior ao 25 de Abril que nasceu e cresceu ancorado numa base eminentemente industrial e muito em função das necessidades de crescimento e consolidação dessa sua base, mesmo tendo-se estendido à banca, seguros, navegação, etc. A CUF correspondia a um modelo daquilo que Alvin Toffler denominava de "segunda vaga industrial", característico da primeira metade do século XX, um conglomerado de empresas que cresceu e se desenvolveu com a ditadura, o corporativismo e o “condicionamento industrial” e que o final destes, a liberdade empresarial e a abertura de mercados veio a pôr em causa, por muito que as nacionalizações e o período conturbado pós 25 de Abril possam também ter dado o seu contributo, em minha opinião não mais do que conjuntural e acessório. À CUF e ao modelo empresarial que consubstanciava está também ligada uma parte da história do Barreiro e do PCP (eram a outra face de uma mesma moeda), das lutas operárias do Portugal do século passado, da oposição democrática e das eleições de 1958. Por isso mesmo, muito mais do que uma empresa ou um grupo económico, foi, mais do que qualquer outro ou de qualquer outra coisa, um modo de vida que cresceu, teve o seu apogeu e declínio e depois morreu, deixando em muitos a saudade de quando se tem a vida cheia. Morreu como morreram a Marinha Grande, a cintura industrial de Lisboa, quer a de Belém – Alcântara – Marvila quer a posterior da Venda Nova a Vila Franca, como desapareceu o proletariado agrícola do Couço ou de Albernoa, as operárias conserveiras de Olhão. Mas com uma diferença: a CUF, com os seus bairros operários, a sua despensa, as colónias de férias, as escolas e hospitais, o desporto, a formação de operários, mas também a repressão e as lutas, deixou por certo uma saudade que não é só memória da juventude perdida: é que era mesmo toda uma vida. Dizê-lo é a melhor forma de homenagear todos que a fizeram, fundadores, accionistas, dirigentes e trabalhadores.

O “Gato Maltês” foi descobrir no "You Tube" este pequeno e excelente documento (trabalho final de curso) realizado por Isabel Teixeira e Rui Durão, alunos da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, sobre “O Bairro da CUF”, que ilustra bem o que acima digo. Com a devida vénia o apresento.

Roger Corman classics (25)

"Little Shop of Horrors" (1960)

segunda-feira, outubro 13, 2008

Os outros Hinos de Portugal

"Hino da Carta Constitucional" (D. Pedro IV de Bragança) - Hino Nacional de Portugal entre 1834 e 1911
Hino da Maria da Fonte (Angelo Frondoni) - Interpretação de Vitorino
Como nem só de pão vive o homem - isto é, de política e crise financeira – e o circo só continua na próxima 4ª feira, continuemos com a abordagem e análise dos hinos e das canções patrióticas, e fiquemo-nos agora aqui por casa. Sobre o Hino Nacional Português e o contexto em que foi composto todos sabemos alguma coisa, mesmo que essa dos egrégios avós nem sempre nos soe muito bem. Também sabemos que o refrão era cantado “contra os bretões” o que diz bem do espírito da época e do conflito que lhe deu origem. Adiante, pois.

O que é menos conhecido é que a “Portuguesa” teve um antepassado, de seu nome “Hino da Carta Constitucional” (fala-se ainda de um outro, anterior, o “Hino Patriótico”, mas creio foi efémero e nunca oficial) e que foi hino nacional português (oficial) de 1834 (vitória dos liberais na guerra civil) a 1911, quando a “Portuguesa” se tornou oficialmente hino nacional após a implantação da República. Como curiosidade o facto do hino ser da autoria (música e letra) do próprio D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), soberano que outorgou essa mesma “Carta Constitucional” que pôs fim oficial ao “Antigo Regime”. Daí não seja de espantar que a letra do hino (que aqui transcrevo já que não consegui uma versão cantada) glorifique aquilo que eram os pilares fundamentais do regime político emergente, que se pretendiam em harmonia: o rei (e com ele a aristocracia), a religião (clero) e o povo (o célebre terceiro estado), finalmente na posse do poder que era também seu por via da nova constituição liberal. Comparado com a “Portuguesa” é muito menos um hino bélico, expresso num mood & tone musical muito menos marcial, e muito mais uma marcha de regozijo, de felicidade por um novo ordenamento social e político que põe fim a uma guerra e instala uma ordem tida como mais justa, face ao Absolutismo, e capaz de promover a unidade entre os portugueses. Curioso, também, que tal como em Espanha aqui ao lado a mudança de regime, de monarquia para república, tenha gerado um novo hino (em Espanha o “Himno de Riego” substituiu a “Marcha Real” durante a República).

Um outro hino tocado nas cerimónias de estado (é, digamos, o hino de saudação às entidades oficiais: podemos ouvir alguns dos seus acordes dando início às corridas de touros ou nas cerimónias presididas por ministros da República), facto que por vezes se desconhece, é o “Hino da Maria da Fonte”, uma canção revolucionária que nasceu com a revolta popular do mesmo nome, em 1946, composto por Angelo Frondoni. Interessante o facto de, sendo uma canção que exprime um sentimento de revolta popular, essa revolta ter tido um cariz anti-progressista – digamos assim e simplificadamente –, provindo do Portugal rural (Minho – “glória ao Minho que primeiro o seu grito fez soar”) contra a cidade e o mundo moderno, pois tinha por alvo as medidas reformistas e modernizadoras do Estado conduzidas pelo governo de Costa Cabral. Curioso, também, o facto de Vitorino – um intérprete que nos habituámos a situar “à esquerda” – ter uma interpretação de referência do hino. Ou talvez nem tanto assim, se tivermos em conta certas alianças, aparentemente contra-natura, da contemporaneidade.
Letra do "Hino da Carta Constitucional"
Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição

Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição

Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos Portugueses
Divinal Constituição

Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

domingo, outubro 12, 2008

The Classic Era of American Pulp Magazines (52)

Capa de John Newton Howett para "Horror Stories" (Agosto de 1937)

Suécia-Portugal: o problema é o meio-campo, claro!

Bom, vamos lá ver: como já por aqui afirmei várias vezes, e principalmente antes das fase final do Euro 2008, o problema fundamental da selecção portuguesa não é o “ponta de lança” ou o defesa-esquerdo, chama-se meio-campo. Desde que Costinha e Figo abandonaram (Figo desequilibrava nas alas mas trabalhava, também e muito, no meio-campo) e Maniche decidiu ser mais Mr. Hyde do que Dr. Jekill, resta apenas Deco – e, mesmo assim, às vezes - como jogador de verdadeira categoria internacional nessa zona do terreno. Simão, com a sua competência táctica, quando joga ainda consegue disfarçar um bocado, tentando fazer de Figo, mas falta-lhe a classe e o poder físico-atlético deste. A equipa fica assim entregue às transições ofensivas rápidas de Cristiano, Nani ou Danny (Quaresma é uma invenção dos ”media” ligados ao FCP e ontem devia ter sido expulso), cujo jogo de risco expõe demasiado a equipa aos contra-ataques de adversários que jogam simples e são atleticamente poderosos. Ontem, a equipa viveu nesse pavor. Quando Nani, como ontem, decide estar em campo em corpo que não em espirito, Cristiano está longe da melhor forma (espero não ouvir um dia destes a notícia de que terá de ser operado novamente pois qualquer coisa terá ficado menos bem) e Danny, o que está em melhor forma, não tem a preferência de Queiroz, a equipa emperra e não sabe o que fazer. E, para ser sincero, não vejo solução no horizonte.

sexta-feira, outubro 10, 2008

"Arrogantes" e "Humildes"

Todos conhecemos, em português, insultos vários, muito mais vernáculos do que aqueles que, na versão original ou traduzida, aprendemos da boca do capitão Haddock, de “com mil milhões de macacos” ao original “tonnerres de Brest”. Insultos como “cabrão”, “filho da puta”, “paneleiro” (hoje em dia, ainda o será?) faziam parte de um léxico na minha meninice e adolescência só aceitável nas pessoas de baixa condição social, nos “pés descalços”, nos bêbados, nas peixeiras que, mesmo assim, eram bastante mais coloridas e divertidas nos seus “palavrões” e ofensas.

Passaram anos e como tudo muda também as ofensas sofreram a devida evolução. “Filho da puta”, ou mesmo a respectiva mãe sem descendência, “cabrão” e coisas do género entraram no léxico corrente, com direito a transcrição completa na imprensa e sem a necessidade de “pis” no audiovisual. Uma chatice! Mas como os portugueses não poderiam ficar desprovidos de palavras de arremesso, “palavrões” á medida das suas necessidades de bancada do estádio a janela de carro (o ar condicionado tornou o impropério ao volante de execução mais difícil – há que abrir primeiro a janela o que lhe retira espontaneidade), por vias várias, um pouco mais intectualizadas, surgiu uma nova ofensa, arremessada de modo que julgam certeiro por todos aqueles que, numa área ou noutra, no campo do comportamento humano, descobriram em si algum complexo de inferioridade: “arrogante”! Esta é pois a ofensa definitivamente fascista, totalitária porque insusceptível de contra-argumentação, usada contra todos aqueles que pensam, têm ideias próprias e acreditam nelas, lutam por as ver vingar e não se curvam ao poder ou às massas, não cedem perante a primeira dificuldade encontrada. “Arrogante”! Esta é, pois, a moderna fogueira inquisitorial para onde são enviados os ímpios, os possuidores de ideias e os comportamentos proibidos por todos aqueles que, arrogantes ou não, pouco importa, no seu comportamento insinuantemente hipócrita se auto-intitulam de humildes, epíteto que cai sempre bem perante um povo moldado pela cultura judaico-cristã e por séculos de subdesenvolvimento e periferia. Por eras de submissão a quem julga superior.

Não, não, desenganem-se. Este país já não se divide entre mouros e cristãos, entre castelhanos e portugueses, entre senhores feudais e servos da gleba, entre monárquicos e republicanos, entre “situacionistas” e “reviralhistas”, entre operários e patrões, o que quiserem e lhes der jeito em função de preferências e opções. Esqueçam tudo isso. Na modernidade envergonhada que quer ser o país de hoje, a divisão, a nova "luta de classes" é entre “arrogantes”, os proscritos condenados ao insulto e ao fogo eterno, e “humildes”, os que são filhos de Deus, mesmo que de um menor. Como corolário e como devem calcular, só destes, pela sua “superioridade moral”, será o “reino dos céus”. Ainda bem. Arrogante, que sou, nada terei que com eles partilhar para além da vida.

Roger Corman classics (24)

"House of Usher" (1960)

quinta-feira, outubro 09, 2008

Scolari e Queiroz - contrastes

Carlos Queiroz tem assumido, enquanto seleccionador, uma atitude, digamos, de contraste. Scolari convocava Ricardo, Queiroz deixa-o em Sevilha; Scolari era acusado de convocar sempre os mesmos, Queiroz foi descobrir Djaló e Eduardo; Scolari pouco assistia aos jogos, Queiroz foi à Grécia ver um tal Edinho; Scolari tinha um discurso directo e incisivo, do “mata-mata” e do “meio a zero”, Queiroz pretende ser mais eloquente; Scolari era acusado de não colocar Ronaldo a “ponta de lança”, Queiroz pelo menos já fez o teste. Sinceramente, espero o contraste não se estenda também às qualificações para as fases finais de europeus e mundiais.

As canções de "Casablanca"

"Casablanca", de Michael Curtiz (1942)

"Die Wacht am Rhein": Max Schneckenburger-Karl Wilhelm (circa 1850)
Quando nos lembramos de “Casablanca”, o filme de Michael Curtiz, e de música aquilo que imediatamente recordamos é a canção “As Time Goes By”, quase como um emblema do filme. E, no entanto, um dos momentos mais marcantes e simultaneamente mais comoventes do filme (um filme já de si comovente) é aquele em que um grupo de oficiais alemães entoa, no café do Rick, aquilo que parece ser um hino ou uma canção de guerra, ouvindo-se, pouco tempo depois, a réplica dos franceses presentes entoando a “Marselhesa”, também ela um hino guerreiro, que vai aumentando de intensidade até se sobrepor completamente levando os alemães à desistência, perdendo ali a sua guerra local.

A “Marselhesa” todos a identificamos com facilidade (trata-se, talvez, do hino nacional mais famoso do mundo e arquétipo dos hinos nacionalistas do século XIX, como também o é a “Portuguesa”), mas duvido que fora da Alemanha muitos consigam identificar a canção entoada por aqueles oficiais da Wehrmacht lembrando ali a sua pátria distante. E, no entanto, não se trata de um qualquer hino nazi, ao estilo “Horst Wessel Lied” ou de alguns outros criados e adoptados pelas Waffen SS, por exemplo. A canção, ou o hino, é, também ela, tal como a “Marselhesa”, uma canção patriótica, neste caso alemã, com origem no século XIX quando os alemães temiam a anexação da margem esquerda do Reno pelos franceses, tal como acontecera uns anos antes durante o consulado napoleónico. Daí o antagonismo expresso no filme se revele, para quem conhece a história, ainda mais dramático. Tornou-se, também, em época de unificação alemã, um apelo à unidade. Chama-se “Die Wacht am Rhein”, o que pode ser livremente traduzido usando o meu alemão mais do que incipiente por “Vigilância no Reno”, e, com as duas guerras, tornou-se uma das canções mais conhecidas e cantadas na Alemanha. Parece que no filme, dizem as histórias, esteve para ser substituída pelo “Horst Wessel Lied”, este um verdadeiro hino nazi, só não o tendo sido por questões de copyright. Não confirmo. Mas, para além de ser pouco plausível vermos um grupo de oficiais do exército a cantar um hino nazi, por mim, prefiro bem tenha sido este “Die Wacht am Rhein”, por todas as razões apontadas e por ser uma bonita canção sobre uma das regiões europeias mais de que mais gosto.

"Lipstick On Your Collar" (12)

"Lipstick On Your Collar" - Floyd Robinson: "Making Love"

De como a dimensão da crise até favorece o governo

Dizem os lugares comuns que os governos tendem a preencher a primeira metade do seu mandato com a promulgação das eventualmente necessárias medidas impopulares, reservando o que resta desse mesmo mandato para as benesses, seja, para as medidas que lhe permitirão ganhar os votos necessários para a sua reeleição. Dizem também, esses mesmos lugares comuns, que o PS e o governo Sócrates teriam, em certa medida, sido vítimas do calendário da crise, o que não lhes permitiria, depois de esgotadas as medidas ditas impopulares da primeira metade do mandato, cumprir com eficácia o “programa” de reeleição. Isso seria verdade, de facto, até uma certa dimensão da crise, até aqui há uns dias; nas suas características actuais e a partir do momento em que ela tomou a forma de quase mega-desastre internacional, ao ponto de se tornar notícia de abertura dos telejornais mais tablóides passando, qual bolsa em tempo de euforia, a ser objecto de discussão popular, isso só poderá vir a beneficiar o actual governo e o Partido Socialista. Porquê? Vejamos:
  1. Em primeiro lugar, permite mais facilmente “diluir” na crise internacional qualquer componente mais especificamente interna de crise económica, apresentando-se mesmo aquela como elemento limitador de quaisquer medidas correctivas mais radicais mas inadequadas.
  2. Em segundo lugar, permite que o PS se possa apresentar, na sua raiz mais próxima da social-democracia europeia em que a intervenção do estado não é algo de contra-natura, como o partido ideológicamente mais próximo das medidas correctoras necessárias para minorar e vencer a crise. Digamos que como o partido "natural" para o momento.
  3. Em terceiro lugar, ao nível do combate das ideias e de uma certa dominância crescente assumida nesse combate pela ortodoxia ultra-liberal, permite ao ideário social-democrata (estou a falar do PS, note-se) um comeback, em termos de expressão mediática talvez um pouco inesperado, colocando em dificuldades a direita mais liberal.
  4. Coloca claramente na primeira linha das opções dos eleitores a questão da estabilidade em vez da mudança (a propósito, já viram o que seria esta crise com o governo Santana/Portas em funções?)
  5. O necessário enfoque em medidas de curto prazo que permitam fazer crescer a economia mais rapidamente e de forma menos dependente das exportações (em causa em período de recessão internacional) permite ao governo uma defesa mais eficaz da “bondade” do seu programa de obras públicas (mesmo que revisto e corrigido, adaptando-o à crise do mercado de capitais e à nova realidade macroeconómica).
  6. Permite um certo “piscar de olho” à esquerda, uma vez que se torna absolutamente necessária a adopção de medidas expansionistas, com redução do ritmo de diminuição do déficit, sempre por essa mesma esquerda, de Alegre ao “Bloco”, reclamadas.
  7. Coloca em ainda maior dificuldade a apresentação de alternativas diferenciadoras e autónomas por parte do PSD e do Presidente da República.

Vejamos o que dirão as próximas sondagens, mas se fazer futurologia no actual cenário é bastante complicado, arrisco que se as eleições fossem ainda este ano o PS dificilmente "escaparia" a uma nova maioria absoluta.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um pensamento ligeirinho sobre a crise, para manter o moral elevado...

Se algo podemos agradecer às nacionalizações de 1975, na conjuntura inevitáveis, foi elas terem permitido, posteriormente e na sequência da abertura do sector bancário à iniciativa privada, a emergência de um sistema financeiro moderno e eficiente, competitivo, que parece (parece - knock on wood) resistir bem à crise internacional. Claro que o facto de Portugal ser uma economia pequena e periférica também ajuda bastante (alguma vez haveria de ser), mas será justo lembrar pela positiva um sector, muitas vezes (algumas com razão), alvo das nossas críticas e injúrias. No entanto, cautelas e caldos de galinha vão parecendo ser cada vez mais receita adequada já que, como dizia alguém ligado ao futebol, também neste campo e nos tempos que vão correndo o que hoje é verdade poderá vir a ser mentira lá mais para o fim da tarde. Sem especial ofensa aos meus amigos sportinguistas, “lagarto, lagarto”!

História(s) da Música Popular (102)

The Walker Brothers - "Make It Easy On Yourself" (Bacharach-David)

Jerry Butler - "Make It Easy On Yourself" (Bacharach-David)
Bacharach & David (V)
Sim, eu sei, ele há coisas assim, que se colam a nós e das quais nunca conseguiremos fugir. Por exemplo, para mim, “Make It Easy On Yourself” será sempre dos Walker Brothers, apesar de ter sido gravado em primeiro lugar (na verdade, foi escrito por Bacharach e David para Dionne Warwick que só o gravaria muito mais tarde) por alguém que também ocupa aqui lugar importante na mente e no coração: Jerry Butler, “The Iceman”. Pois é, mas também “For Your Precious Love”, um original de Butler, terá sempre de partilhar amores e desamores com Otis Redding, aqui por casa, e terei sempre me interrogar (acho o farei até ao fim da vida) qual a minha versão favorita. Bom, mas, neste caso, por certo não a de Gene Vincent, que com grande pena minha também gravou o tema – “não havia necessidade”!. É que ele há coisas que são mesmo da negritude, por muito que nós, brancos, achemos que, por vezes, também podemos “dar um jeito”!

Voltando atrás no texto para o que realmente agora importa, “Make It Easy On Yourself” foi, de facto, o tema que mostrou “à cidade e ao mundo” (mais ao UK, pois nunca os Walker Brothers tiveram muito sucesso nos USA – ninguém é profeta na sua terra...) a veia artística de Scott Engel, Gary Leeds e John Maus, acompanhados pela orquestra dirigida por Ivor Raymond num género de “wall of sound” tardio “à la Spector”. Estávamos nos idos de 1965 e o tema chegou a #1 no UK, já que nos USA se ficou por um bem mais modesto #16. Desde aí fiquei com este “fortezinho” pelos Walker Brothers, que se passou mesmo – coisa rara – para a carreira a solo de Scott e as suas incursões pelo universo Breliano (de Jacques Brel, entenda-se).

Pois como não gosto de ser injusto, e emoções muito próprias e intransmissíveis à parte – as tais que me fazem inclinar perante a versão dos Walker Brothers – fica também aqui a original de Jerry Butler (1962), já que é de Bacharach e David que falamos, com a nota de que Scott, John e Gary gravaram mais um tema dos mesmos autores: “Another Tear Falls”.

Voltem: estão perdoados!

Franklin Delano Roosevelt

John Maynard Keynes

terça-feira, outubro 07, 2008

"Lipstick On Your Collar" (11)

"Lipstick On Your Collar" - Les Baxter: "Unchained Melody"

"Enemy at the Door", ou a WWII com gente dentro (e de ambos os lados)

Uma das boas razões para ver “Enemy at the Door”, a série da LWT que passa actualmente na RTP Memória e que por aqui já recomendei, é que raramente é objecto principal de um filme ou de uma série de TV passados na WWII a vida de todos os dias, dos cidadãos comuns perante a ocupação estrangeira, neste caso numa pequena e remota ilha (Guernsey) apesar da sua proximidade com o continente europeu, também ele sob ocupação, e com a Grã Bretanha que resiste. Aliás, essa localização, digamos assim, entre dois mundos, também já evidente na vida das Channel Islands em tempo de paz, é extremamente bem evidenciada e estará sempre presente na série. Mas, acima de tudo, o que temos não é a habitual luta heróica da resistência contra o ocupante e a brutalidade da resposta da Gestapo (não existia Gestapo nas Channel Islands), as deportações das populações judaicas, o estereótipo dos maus contra os bons – o que não significa a ausência de uma posição de princípio, claro, muito menos a existência de uma qualquer atitude pró germânica. Aqui temos um povo cercado, interior e exteriormente, sem hipóteses de levar a cabo actos heróicos, que tenta sobreviver com a dignidade possível a cinco anos de ocupação, de exclusão, de provação e até de fome. Os seus pequenos e únicos possíveis actos de resistência passiva, os pequenos gestos de rebeldia desafiando proibições, a necessidade de colaborar (e a interrogação sobre até que ponto isso será possível e legítimo sem ser confundido com traição) com o ocupante na administração do território para que tudo não se torne ainda mais doloroso e o sofrimento alastre, os pequenos dramas individuais gerados pela ocupação e pela guerra ou que esta amplifica até aos limites do suportável. Mas, também, o reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelos alemães e pelos os seus oficiais, nomeadamente os do exército regular (Wehrmacht) por norma gente culta e civilizada, e as contradições políticas e sociais entre ele e as SS (talvez demasiado caricaturais na série). Para aqueles, um trabalho que é necessário levar por diante; para estes uma missão. Por último, o próprio isolamento social dos soldados e oficiais do exército alemão, num território onde não há uma guerra para travar, face aos “ilhéus”, duas comunidades feitas de gente, que coexistem, até talvez se respeitem no reconhecimento dos lugares específicos que cada um ocupa, mas que acabam por ser quase estanques. Apesar do passar dos anos (a série é de 1978) evidenciar aqui e ali algumas fraquezas formais que hoje seriam tratadas de uma outra forma, é uma série com gente dentro, muitas vezes, mesmo nos seus actos mais extremos e quando a cólera parece dominar, comportando-se com uma contenção admirável só presente nas séries com origem no lado de lá do canal.

Bernardo Marques (8)

Capa de Bernardo Marques para a revista "Civilização", "grande magazine mensal" (1928)

segunda-feira, outubro 06, 2008

"Prós & Contras"

“Na América, a Banca colapsa e o Estado intervém. Do outro lado do Atlântico, os bancos europeus estremecem e os dirigentes políticos dividem-se. Intervir ou não intervir? Em quem podemos confiar? As nossas poupanças estão seguras?” (da publicidade ao Prós & Contras de hoje).

Este estilo alarmista/tablóide parece ser tudo aquilo de que o país o mundo não precisam depois de uma segunda-feira como esta e apesar da sensata intervenção de Teixeira dos Santos. Mas parece que o Serviço Público de TV ainda não se apercebeu disso e da gravidade da situação. Aguardemos para ver o programa, mas de Fátima Campos Ferreira há que esperar o pior... Para início está filosófica, perguntando se a “ganância faz parte do homem”, o que, como se deve calcular, é de capital importância para o entendimento e explicação da crise. Depois perguntou se era o fim do capitalismo... Resistirei? Acho que não...

"Lipstick On Your Collar" (10)

"Lipstick On Your Collar" - Michael Holliday: "The Story of my Life"

Assédio sexual? Sim, mas perde metade quem não vê a outra face das coisas.

A propósito desta notícia do “Público”. O assédio sexual nos locais de trabalho é uma realidade indesmentível, que penso mais notória nas empresas menos estruturadas, onde trabalham pessoas menos preparadas, - logo, mais fragilizáveis - e o chamado “patrão” ou “chefe” à antiga ainda se comportam como donos e senhores da vida dos seus súbditos. Eu próprio, na minha vida profissional feita em outro tipo de empresas, já presenciei, aqui e ali, um ou outro caso sem relevância de maior porque a estrutura da própria empresa não permitia que ele se desenvolvesse, matando-o no ovo. Mas, sejamos claros mesmo com o risco de entrarmos no “politicamente incorrecto”: gostaria também de ouvir falar, com igual ou pelo menos alguma veemência - e já que estamos numa questão da chamada igualdade de género - de quem faz rápidas carreiras profissionais sem outra justificação que não seja a chamada posição horizontal, ou outras se para tanto lhes sobrar imaginação e espero bem que sim. Apenas por uma questão de justiça... E igualdade, já agora.

O governo, a crise e os projectos. "E pur se muove"?

Aqui há um par de semanas, Luís Campos e Cunha, episódico ex-ministro das finanças de José Sócrates, referiu a necessidade de se proceder à revisão dos grandes projectos de obras públicas, definidos pelo governo, em função da nova realidade financeira internacional. Nada de mais normal: mandam as mais elementares regras da gestão e do bom senso que assim se proceda em caso de alteração do seu enquadramento ou de algumas das premissas em que cada projecto se baseou. A afirmação só teve a repercussão que conhecemos em função da credibilidade reconhecida a Campos e Cunha, o facto de ser alguém que ocupou funções governamentais com José Sócrates e, ainda, pela independência que se lhe reconhece apesar de ser alguém visto como próximo do PS. Claro está que isso obrigou Mário Lino, qual Galileu, a ripostar com uma mentira que seria, na circunstância, a única resposta possível da parte de um membro do governo: que sim, de facto a Terra estava quietinha e não se movia e, por isso, os projectos eram para se cumprir. Cedo irá, também ele, reconhecer publicamente o que no íntimo já sabe: que, no entanto, ela move-se, ou seja, que os projectos terão de ser reequacionados em função de uma realidade já diferente.

Senão vejamos... Mudou uma boa parte do enquadramento macro-económico. As taxas de crescimento previstas para o PIB europeu e português foram revistas em forte baixa, alguns países entraram (ou vão entrar) mesmo em recessão técnica e a confiança nas instituições de crédito e nos mercados sofreu rude golpe. A inflação, essa, ou melhor, o seu comportamento futuro em função das tensões que a injecção de dinheiro nos mercados possa vir a causar, está para se ver, como também estará a atitude que o BCE possa vir a tomar na circunstância, e o petróleo... bom, esse é melhor nem nos preocuparmos muito com ele se quisermos manter a nossa sanidade mental ainda intacta (ou quase). De que modo é que este enquadramento irá afectar muitos projectos, mormente aqueles que têm tudo a ver com o tráfego aéreo e ferroviário, de passageiros e mercadorias?

Não chega? Bom, então falemos da componente financeira. Financiamento dos projectos? Disponibilidades de crédito e seu custo, uma componente com certeza importante no custo total, custo este onde a crise, porventura, apenas poderá trazer consigo de favorável uma diminuição dos custos de mão de obra, partindo do princípio académico que haverá mais gente disposta a trabalhar por menos dinheiro no lower end do mercado de trabalho, isto é, na construção civil (leia-se, imigração).

Mais ainda, e agora vamos às questões da política “pura e dura”, algo que parece andar esquecido nesta discussão. Em face da nova realidade - a crise - as opções políticas estratégicas e de curto prazo do governo devem manter-se? Em que medida? Por exemplo, a estagnação e o aumento previsível do desemprego devem levar o governo a reforçar as políticas que permitam um crescimento económico a curto prazo , reforçando assim a opção pelo betão e sacrificando, de certo modo, o desenvolvimento sustentado de médio longo prazo e a aposta na chamada “economia do conhecimento”? As incertezas do presente, com as subsequentes dificuldades de planear a longo prazo, podem, e devem, levar o governo a, sempre que possível, fasear projectos (o novo aeroporto parece, a este nível, ser um caso paradigmático)? O comportamento do preço do petróleo, nos últimos tempos, é razão para acelerar os projectos ligados às energias alternativas ou aqueles menos dependentes de elevados consumos energéticos, em sacrifício de outros? Em face da realidade ocidental actual, deve ou não o governo fomentar ainda mais os investimentos nas economias emergentes, menos afectadas pela crise mas de maior risco político?

Chega? São apenas algumas perguntas avulso, escritas por um cidadão comum “ao correr do teclado”, que isso da “pena” já lá vai há muito. Uma prova de que o governo deveria reunir, fazer o trabalho de casa e chegar finalmente à conclusão de que, apesar de parada, a Terra parece contudo mover-se. Lá chegará o governo a essa conclusão, esperando não o faça demasiado tarde.

domingo, outubro 05, 2008

No país dos sovietes (8)

Let's send millions of qualified worker cadres to the 518 new factories and production units
Publisher: Ogiz-Izogiz, Moscow/Leningrad(Lithography, 143.5x103 cm., inv.nr. BG M3/131)
"The often forced employment in the new factories in Siberia and other remote areas is pictured as a matter of voluntary enthousiasm. The parade of workers swings through the picture plane, bringing about a splendid spatial effect. In the lower right corner small text is printed, encouraging people to send comments on this poster to the publisher. Given the political climate of these years, this has more to do with enforcing ever stricter political discipline than with stimulating an open debate."

Willie Dixon's Blues Dixonary (11)

Howlin' Wolf - "Back Door Man" (Willie Dixon)
Howlin' Wolf - Vocals
Hubert Sumlin - Guitar
Willie Dixon - Bass
Fred Below - Drums
Gravação de Junho de 1960

The Doors - "Back Door Man" (Willie Dixon)