terça-feira, setembro 30, 2008

"Lipstick On Your Collar" (6)

"Lipstick On Your Collar" - Hank Williams. "Your Cheatin' Heart"

A Guerra Aqui (Mesmo) Ao Lado (36)

Kion vi feras por eviti tion? Geesperantistoj el la tuta mondo agu energie kontrau la internacia fasismo!
[What are you doing to stop this? Esperantists of the World, Pit Your Strength against International Fascism!].
Graf. Ultra Lithograph, 4 colors; 109 x 78 cm.

"In this poster, two red clenched fists prepare to stab bloodied daggers into the Iberian Peninsula. The two fists are emerging out of Italy and Germany and they bear the symbols of the fascist movements in those countries on their wrists. The image serves as a graphic representation of the role of Italy and Germany in the Spanish Civil War through their support of Franco and Nationalist Spain. It also reflects the fear that the battle for Spain was merely the next step in a fascist take over of Europe.
This poster also reflects one of the many attempts to internationalize the Spanish conflict. The text on the poster is written in Esperanto, an artificial language created by Lazar L. Zamenhof in 1887 in an attempt to develop a truly international language that belonged to no one people or nation. Given the presence of groups of soldiers and volunteers from other European nations, this poster, in using Esperanto, may have been an attempt to create solidarity among the various international groups contributing to the defense of the Spanish Republic. The use of Esperanto may have also helped to mediate between the different language groups within Republican Spain, which initially included much of Cataluña where Catalan is spoken, in order to motivate people in the struggle against fascism in Spain."

Ideologia e remunerações dos executivos

Muito se tem escrito e dito sobre os salários de executivos e gestores de topo, tendo mesmo o assunto chegado a ser objecto de comunicação presidencial para além das já clássicas afirmações demagógico-populistas (de defensores e críticos, note-se) que o assunto sempre arrasta consigo. A crise financeira, embora de forma subsidiária, trouxe a questão novamente para um primeiro plano, pelo que é chegada a oportunidade para mais uma “achega”.

Tudo, ou quase tudo, já foi dito sobre as justificações para as altas remunerações auferidas por muitos executivos de topo, a nível internacional, todas elas com a sua parte de verdade e com as quais, basicamente concordo: compensação por um investimento na sua própria formação efectuado nas melhores escolas mundiais, conhecimentos profissionais adquiridos por anos de trabalho nas melhores empresas, rede de conhecimentos e contactos políticos, capacidade para compreender o mundo para além da sua área profissional específica, influência, carisma, etc, etc. Tudo isto constitui, no seu conjunto, razão para aquilo que se poderia designar por uma escassez de profissionais qualificados no mercado, o que justifica o seu valor e, logo, a sua remuneração compensatória condizente. Se tudo isto é ou não confirmado pela sua performance no terreno, será questão importante; mas, de momento, não é essa a análise a que me proponho. De qualquer modo, não deixo sempre de me lembrar de uma frase que o meu pai utilizava para calar os que criticavam o ordenado do Eusébio, na altura elevado mas comparado com os que auferem, hoje em dia, as “estrelas da bola” ridículo: “pois é, será quase analfabeto, mas ninguém no mundo joga à bola como ele!”.

Mas existe, de facto, algo que ainda não vi por aí escrito ou mencionado por defensores ou inimigos: os salários dos executivos de topo contêm também, na sua formação, uma componente ideológica. As suas remunerações elevadas permitem enviar sinais de poder para a sociedade e para o mundo da política, valorizando um determinado modelo de organização social e económico ao mesmo tempo que ajudam a construir a imagem da empresa que se permite praticá-las. Por alguma razão, terá sido durante estes últimos anos de dominação ideológica da ortodoxia ultra-liberal, com um quase endeusamento do mercado após a derrota da URSS e a emergência de um certo novo-riquismo subsequente, que o assunto se tornou mais notório e chegou aos mais altos níveis de discussão pública. No fundo, nada disto é muito diferente, na sua essência que não na forma, das benesses concedidas aos membros das burocracias dos países comunistas ou o modo como eram, e são, apresentados “à cidade e ao mundo” os diversos “queridos líderes” ou “pais dos povos”, também contendo em si uma carga ideológica evidente de modo a acentuar a superioridade de um sistema. Felizmente, num dos casos, temos oportunidade de escolher e contribuir com a nossa actuação, enquanto cidadãos, para a melhoria das que achamos possam ser as imperfeições de um sistema.

Das concepções de casamento e divórcio

Na questão do casamento, a direita, herdeira natural, mas não exclusiva, dos valores aristocráticos e com uma ligação tradicional à Igreja Católica, tende a privilegiar a instituição, a ligação entre as grandes famílias, por vezes mesmo reinantes, que o casamento representava. Era uma ligação essencialmente política e patrimonial, pelo que a sua dissolução acarretava perigos e danos evidentes. Daí a sua concepção de ser algo para a vida, uma benção de Deus que deveria permanecer muito para além de quaisquer afectos, normalmente inexistentes, e, também, a sua resistência à eliminação da questão da “culpa”, já que esta era questão relevante na partilha patrimonial e na regulação dos jogos de poder políticos. Era essa substituição dos afectos pelos interesses - e, por vezes, pelas razões de Estado - que conduzia a um mundo em que o adultério, consentido ou tolerado, era um modo de ultrapassar frustrações ou sublimações. Já para esquerda, herdeira das revoluções burguesas que geraram o romantismo novecentista, os afectos estarão em primeiro lugar, pelo que existe a convicção, apesar da influência do pensamento aristocrático ter impregnado todos um pouco e as questões patrimoniais ou políticas estejam longe de estar ausentes, de que a ausência de afectos determina inexoravelmente o fim do casamento. E, já agora, assumindo os afectos o papel central e a sua ausência causa principal para a dissolução do casamento, deixa de fazer qualquer sentido procurar ou definir um culpado, já que ninguém comanda os seus sentimentos.

Temo estarem ambos longe da realidade, já que, mesmo nos dias de hoje, não só muitos casamentos nunca tiveram nada a ver com os afectos ou continuam muito para além da sua perda, muitas vezes para sempre, como podem continuar a existir afectos ou manter-se a sua ausência de sempre e o casamento terminar, quaisquer que sejam as razões invocadas para o facto, por um ou ambos os cônjuges, mesmo que os deveres e direitos de ambos não tenham sido sujeitos a violação culposa e/ou persistente. Quero com isto dizer, alertando desde já para o facto de não ser jurista, que na vida real o casamento acaba, será talvez o único contrato em que isso acontece, quando, pura e simplesmente, um dos cônjuges manifesta reiteradamente vontade inequívoca nesse sentido. É esta a realidade do mundo e da vida, mesmo que nos digam as estatísticas que o divórcio litigioso representa apenas uma percentagem inferior a 8% (salvo erro: se erro é por muito pouco). Claro, mas o que as estatísticas não podem mostrar é que dos restantes 92% uma grande maioria, esmagadora mesmo, são falsos divórcios por mútuo consentimento, em que o cônjuge que, em princípio, não deseja o divórcio acaba por com ele com concordar para que este não se eternize, arrastando sofrimento, para ambos e eventuais filhos, adiamento de decisões patrimoniais e de pensão de alimentos, etc (penso não valerá a pena continuar, pois a lista das penalizações seria longa).

Bom, que quero eu concluir com isto? Apenas que qualquer posição realista e não hipócrita perante o casamento e a sua dissolução, vulgo divórcio, terá de se centrar nesta questão, demasiado pertinente para ser evitada por questões de oportunismo ou cobardia ideológica ou política: o “divórcio a pedido” - isso mesmo, sem medo de dar o nome às palavras - centrando-se a missão do Estado e dos Tribunais naquilo que é realmente importante: a defesa dos filhos e da equidade entre os cônjuges face à contribuição de cada um durante o tempo de vida em comum e em perspectiva da sua vida futura após o divórcio. O resto é passar um pouco ao lado da realidade, mesmo que se avance, aqui e ali, num sentido considerado positivo.

domingo, setembro 28, 2008

Lazy day; sunday afternoon

  • Com Quique Flores o Benfica tem, ao fim de muitos anos, um treinador respeitado um pouco por todos: sócios, adeptos, imprensa, críticos, colegas de profissão e jogadores. Que o meu clube saiba dar valor a esta quase unanimidade.
  • Não sou um “fanático” da Fórmula Um. Sigo o campeonato com atenção q.b. e, ao todo, assisti ao vivo a três corridas: em Monsanto em 1959, ainda pré-adolescente e pela mão do meu pai, e no Estoril em 1991 e 1992 (salvo erro), por convite irrecusável para a chamada área VIP, com almoço e visita às “boxes”. Pela televisão, “deito um olho” se acontece estar em casa, ter a TV ligada e não ter nada de mais interessante para fazer. Excepção é o Grande Prémio de Mónaco, onde aquela comunhão entre os carros e as ruas da cidade com os seus, e meus, locais de culto, confesso me diz alguma coisa. Por isso achei ridículo que um dos comentadores da Sport TV tentasse encontrar algumas semelhanças entre o G. P. de Mónaco e o G. P. de Singapura, acho que por serem ambos circuitos citadinos. O problema, o pequeno/grande problema, é que em Singapura os carros não curvam junto ao Rascasse, não sobem perto do Hermitage, não passam frente ao Casino e ao Café de Paris, não descem para o Hotel Lowe’s e não têm de fazer uma chicane junto ao porto. Para o caso de o dito comentador não ter reparado, é isso que faz toda a diferença.

Paul Newman (1925-2008)


Paul Newman - "Sweet Bird Of Youth", de Richard Brooks (1962)
Conseguiremos todos viver sem ele; certamente um pouco pior do que vivíamos antes.

sábado, setembro 27, 2008

"Lipstick On Your Collar" (4)

"Lipstick On Your Collar" - Gene Vincent: "Lotta Lovin"

Ferreira Leite e a crítica política

Depois de ter passado meses a criticar o plano de obras públicas do governo apenas de um ponto de vista contabilístico-financeiro, Manuela Ferreira Leite resolveu finalmente pronunciar-se politicamente sobre uma delas, a terceira auto-estrada Lisboa-Porto, afirmando que a sua construção não traria nenhuma competitividade acrescida ao país. Tem razão, por isso se saúda este seu regresso ao combate político consequente. Mas, já agora, estou certo todos os portugueses gostariam de ver alargada esta análise a projectos como o TGV, o novo aeroporto de Lisboa e restantes, já que eles definirão, basicamente, o modelo de desenvolvimento do país para os próximos 20 anos. Constituem, portanto, uma questão política fundamental sobre a qual o líder do maior partido da oposição não poderá deixar de se pronunciar. Politicamente, entenda-se.

sexta-feira, setembro 26, 2008

As capas de Cândido Costa Pinto (49)

Capa de CCP para "A Casa Sem Chaves", de Earl Derr Biggers, nº 58 da "Colecção Vampiro"

"Lipstick On Your Collar" (3)

"Lipstick On Your Collar" - Ann Shelton: "Lay Down Your Arms"

Medos...

Na Idade Média, mesmo em tempos mais recentes anteriores ás revoluções burguesas e industriais, temiam-se principalmente a guerra e as fomes, as pestes, muitas vezes associadas ou causa e consequência umas das outras. Ameaças fundamentalmente nascidas e germinadas no interior, quando a noção de país, de pátria pouco ou nada ainda significavam. Pouco a pouco, esses medos, esses temores, à medida que se consolidava essa noção de pertença a uma entidade mítica mas com alguma expressão no dia a dia dos povos (os valores comuns, os modos de vida, a língua-mãe, a identidade) foram sendo substituídos por ameaças, fundamentalmente, com origem no exterior. Primeiro, foi a ocupação por uma potência estrangeira, alguém com valores e um modo de vida diferente e que constituía um travão ao desenvolvimento nacional, submetendo-o aos seus interesses próprios, muitas vezes conduzindo mesmo um povo à quase escravatura. Foi este, por exemplo, o paradigma da ocupação nazi em França ou, até, a situação que esteve na génese das lutas anti-coloniais. Depois, no rescaldo da WWII, quando a ameaça da guerra efectiva foi afastada e esta tomava a forma de “fria” ou de conflitos localizados, foi o medo alienígena, as ameaças marcianas tão bem expressas pelas centenas de filmes temáticos dos anos cinquenta e pela célebre emissão da “Guerra dos Mundos”, que a partir daí passou a ser não de um mas de dois “Wells”. Também, claro, a ameaça do comunismo, que visava alterar o nosso modo de vida: nós, ocidentais que nos guiávamos pela democracia só possível graças á livre iniciativa, ao empreendorismo e às liberdades cívicas. Uma ameaça vinda de uma longínqua Rússia soviética, colectivista, com cumplicidades locais dos que tinham traído a pátria e conspiravam a favor de potências estrangeiras e inimigas que visavam a submissão dos nossos modelos. Hoje, com a UE, a globalização, a abertura dos mercados, a queda do “muro” e com o comunismo, pelo menos na forma que conhecemos, condenado a existir apenas como curiosidade museológica ou quimera vivida por alguns que se deixaram abandonar pela vida - ou a quem essa vida teimou em abandonar - a ameaça “de fora” parece querer continuar bem viva no imaginário e na irracionalidade de muitos. Agora, são as novas formas de criminalidade trazidas pelos imigrantes (e estes que vêm “roubar” o trabalho dos nacionais), a concorrências das lojas chinesas e os perigos que delas e dos seus produtos advêm, as redes pedófilas, de tráfico de mulheres e de prostituição, as máfias internacionais, as directivas de Bruxelas. E o terrorismo, claro. Algumas delas, como o terrorismo, a pedofilia e as máfias, bem verdadeiras; outras, nem por demais evidentes; outras, ainda, fruto apenas da ignorância e da falta de preparação de muitos para as enfrentar e com elas conviver, para se integrarem no mundo das civilizações. “Coisas” novas, com as quais temos ainda dificuldade em lidar; mas nada de novo, na sua essência.

O "Gato Maltês" faz dois anos!

Este blog cumpre hoje dois anos de vida. Aqui, sem festas nem espalhafato, se assinala devidamente a efeméride.

quarta-feira, setembro 24, 2008

"Lipstick On Your Collar" (1)

"Lipstick On Your Collar", by Dennis Potter - Genérico inicial
“Lipstick On Your Collar” (de Dennis Potter, 1935-1994), título retirado de um êxito da americana Connie Francis, é seguramente uma das melhores séries de TV de sempre e, para mim, indiscutivelmente uma série de culto. Tal como nas outras séries de Potter, a música não se limita a sublinhar ou servir de contraponto à acção, nem tão pouco é, ou pretende ser, original; ela é, isso sim, elemento fundamental e central da própria acção. Mas, ao contrário do que acontece nos musicais, estamos aqui perante algo que os subverte, ou seja, estamos perante temas populares bem conhecidos, interpretados por quem deles fez êxitos, “mimados” pelos actores .

É a Inglaterra (e a Londres, muito particularmente) dos anos cinquenta vista e vivida através da música popular e do quotidiano de dois funcionários administrativos do "Foreign Office" durante a crise do Suez (segunda metade dos anos 50; mais propriamente, 1956), isto é, no estertor do Império, quando se conclui que a Inglaterra já não tem capacidade para aventuras neocoloniais e o mundo já não lhe pertence. Em certa medida, é o fim da mentalidade, usos e costumes, herdados dos anos pré-guerra. É o fim de uma época e o início de outra que se aproxima, da swinging London dos sixties, radicalmente diferente e revolucionária nos usos e costumes. Por alguma razão, e se estou bem lembrado, uma das últimas sequências da série é uma panorâmica sobre o "2I's Coffee Bar", no Soho, onde Cliff Richard, então o émulo britânico de Elvis Presley e ainda na sua fase de "rock & roll", se deu a conhecer "à cidade e ao mundo". É o retrato de uma geração - a imediatamente anterior à minha - que, em certa medida, se descobriu, fez adulta e formou a sua personalidade através das novas formas da música popular, que projectou a emancipação das gerações seguintes.

É também a primeira aparição na TV de Ewan Mc Gregor, no papel do "Private" Mick Hopper, numa série que passou na RTP (na 2, salvo erro) nos anos 90. O “Gato Maltês”, que já teve oportunidade de passar alguns “clips” na sua rubrica “Grandes Séries”, irá apresentar aqui no blog, hoje e nos próximos dias, um número bem mais alargado de ""clips, começando, claro está, pelo genérico. Divirtam-se, pois é bem caso para isso!

Sobre o casamento homossexual

Já por aqui expressei a minha posição favorável ao casamento entre homossexuais. Mesmo em relação à sua capacidade de adopção, sobre a qual mantive dúvidas durante algum tempo, tenho hoje em dia também uma posição de inequívoca concordância. Esta é uma posição de princípio que politicamente me afasta de quem, também por princípio, vê no principal objectivo do casamento a procriação (atenção: sou heterossexual e tenho filhos e netos; não sou, portanto, juiz em causa própria). Tendo dito isto, percebo a actual incomodidade do PS perante a proposta dos “Verdes” e do “Bloco”: a questão, sendo importante, não é uma questão de tal modo chave na sociedade portuguesa que justifique a emergência, num período já quase pré-eleitoral, de um eventual conflito com o Presidente da República, um outro, mais do que certo, com a Igreja Católica e, ainda, uma possível divisão do seu eleitorado, digamos que natural. Compreendo que o PS se queira a ele escusar, neste momento, desde que se comprometa a agendá-lo para o início da próxima legislatura. Compreendo também, tratando-se de uma questão política e não de consciência (trata-se de legislar sobre direitos dos cidadãos, que são livres de a eles quererem ou não aceder, e não de impor nada a qualquer indivíduo ou grupo), que a disciplina de voto fosse imposta, de acordo com os parâmetros porque se rege o nosso parlamento - concorde-se ou não com eles e eu, confesso, teria alguma dificuldade em com eles me conformar. De qualquer modo, já me parece pouco consentâneo com qualquer inteligência, mesmo que mediana, encontrar como justificação para ao seu não agendamento a sua não inclusão no programa eleitoral ou do governo (quantos assuntos são incluídos na agenda parlamentar sem que isso aconteça e sem que a emergência da situação o justifique?), o facto de não ser uma prioridade (será que a bizantina questão dos votos dos emigrantes o é?), ou o país estar perante problemas bem mais graves como a crise económica e o desemprego. Neste último caso, não me parece que sendo o desemprego e a crise económica questões estruturais, sobre as quais a capacidade de intervenção parlamentar é limitada, o não agendamento da questão do casamento homossexual trouxesse algum benefício: o desemprego e a crise continuariam inalteráveis e perder-se-ia a possibilidade e a oportunidade para discutir este ou outros assuntos.

Mas subitamente, e utilizando o calão do momento, uma eventual posição do PSD dando liberdade de voto aos seus deputados, conforme já foi sugerido por alguns dos seus dirigentes, parece abrir uma “janela de oportunidade” para o PS fazer o mesmo e, eventualmente, conseguir aprovar a lei sem danos de maior para os seus objectivos eleitorais ou de convivência presidencial. É algo a que o PS deve estar bem atento e que, ao confirmar-se, poderia transformar o partido, nesta questão, de patinho feio em cisne emplumado, conduzindo-o de uma posição desconfortável até uma saída airosa. Que esteja atento, pois.

Duas notas finais:
  • Uma para o PCP, que trata de se esconder numa posição de cobardia e conservadorismo político atrás dos “Verdes”, ninguém tendo dúvidas de que votará a favor. Assim, qual doutor Frankenstein, concede alguns momentos de glória ao “monstro” político por si criado.
  • Outra para expressar que a aprovação da lei terá efeitos políticos e sociais muito para além dos evidentes. Permitirá dar sinais à sociedade sobre o que se deseja para o futuro: um país conservador, isolado, bisonho, tutelado; ou uma sociedade mais livre, mais responsável, mais aberta, mais democrática, mais igual e, simultaneamente, plural. Mais próxima das civilizações mais avançadas.

Pacheco Pereira e Sousa Tavares

José Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares são indiscutivelmente dois comentaristas cultos. Inteligentes. Interessantes. Com uma análise da sociedade portuguesa por vezes bem pertinente. Aguda. Tocando onde mais dói. Mas corre o risco de acontecer a JPP, quando comenta e analisa os “media”, o mesmo que acontece com MST quando fala sobre o FCP: só lhe dão ouvidos os radicais mais indefectíveis. É o que acontece quando se substitui a independência crítica e a análise séria pela mais rasteira propaganda. Por mim, confesso tenho bem pena. Em ambos os casos.

terça-feira, setembro 23, 2008

Paços de Ferreira - Benfica

Duas notas sobre o jogo de ontem :

  • A equipa joga em transições ofensivas muito rápidas, como sempre jogaram as grandes equipas do Benfica, mas por isso tem dificuldade em gerir a posse de bola e controlar o jogo, perdendo a bola com frequência, em passes de risco, e desequilibrando-se demasiadas vezes porque joga com a baliza nos olhos. Para agravar, Yebda (um tipo de jogador que há muito fazia falta ao Benfica, uma espécie de Sromberg menos exuberante) não é um “6” posicional clássico, percorrendo muito terreno e ocupando grandes espaços. Com a capacidade táctica de Katsouranis o equilíbrio será outro (já o é com Ruben Amorim), bem como com uma defesa mais estabilizada e com uma melhor participação dos avançados nas acções defensivas o que, no entanto, nunca será um ponto forte da equipa com estes jogadores e este modelo de jogo. Digamos que há uma ideia; mas é preciso consolidá-la.
  • De qualquer modo, há que ter em atenção que alguns dos golos sofridos nos últimos jogos tiveram a sua origem em situações casuísticas, tal como o "penalty" despropositado de Katsouranis contra o FCP, o 3º golo, “por tabela”, do Nápoles, o “frango de Quim e outro golo “de tabela” ontem. Não dura sempre...

Grandes Séries (28)

Um alerta: a RTP Memória está a passar todos os dias úteis, pouco depois das nove da noite, uma excelente série da London Weekend Television sobre a ocupação alemã das chamadas Channel Islands, Guernsey e Jersey, única parcela da Commonwealth que esteve sob ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de "Enemy at the Door", uma série sobre as grandezas e misérias (costuma dizer-se assim) de um pequeno território de uns poucos milhares de habitantes ocupado por umas centenas de alemães tentando gerir os conflitos com e entre a comunidade local ao mesmo tempo que o fazem com os que existem entre eles (são conhecidos os existentes entre a Wehrmacht e as SS). Onde nos apercebemos, também, das históricas ligações entre os dois povos (a família real britânica é de ascendência alemã, das casas de Hannover e Saxe-Coburgo Gotha), feitas de admiração e rivalidade mútuas, muitas vezes nascidas nas universidades britânicas frequentadas pela elite alemã ou nos bares de Hamburgo onde os marinheiros britânicos afogavam mágoas em cerveja e sexo. A série é de 1978 e é constituída por duas “temporadas” de 13 episódios cada. Infelizmente, a RTP não disponibiliza informação sobre a ordem dos episódios, mas ontem terá sido exibido “Steel Hand from the See”, 4º episódio da 1ª “temporada”. Pode consultar a ordem e sinopse dos episódios aqui.

segunda-feira, setembro 22, 2008

O Mundo em Guerra (49)

Hungary

Santana Lopes: o "Grande Sedutor"

Para o PSD criar uma dinâmica de vitória precisa de ter uma ideia, um conceito suficientemente estimulante e diferenciador que o projecte junto dos eleitores e que tarda em reencontrar. Algo que com Santana Lopes estaria, à partida, obviamente resolvido, pois com ele esse conceito, essa ideia, estaria contida em si próprio, com ele “a carne se faria verbo e o sangue ideia”, que me desculpe Manuel Alegre de tão livre e blasfema citação. É que, para a personagem, isto de seduzir um partido, os eleitores, talvez um país, não passa por ser algo muito diferente de “engatar umas gajas”, só que numa escala colectiva e muito maior. E o que é isso para si, o “Grande Sedutor”?

37th Ryder Cup - final

Como seria de prever, a Europa não conseguiu dar "a volta ao texto", ou seja, aos 7-9 de desvantagem com que partiu para os singulares. A jogarem muito bem, tanto na aproximação aos greens como nos putts, e muito apoiados por um público entusiasta que até não faltou com cânticos "à futebol", já habituais na Ryder Cup, os USA, depois de nove anos de jejum, chegaram a um resultados final de 16 1/2 - 11 1/2 depois de vencerem 7 dos singulares e empatarem 1. Restaram 4 vitórias e um empate para os europeus que ficaram a dois pontos e meio (duas vitórias e um empate) do objectivo dos 14 pontos, o que lhes permitiria empatar e manter a taça em seu poder. Fica para a próxima, daqui a dois anos no País de Gales.

Veja aqui as imagens de ontem.

domingo, setembro 21, 2008

Roger Corman classics (20)

"Teenage Caveman" (1958)

Willie Dixon's Blues Dixonary (10)

Etta James and Riley Hampton Orchestra - "I Just Want To Make Love To You" (Willie Dixon)
Gravação de Abril ou Maio de 1960

The Rolling Stones - "I Just Wanto To Make Love To You" (Willie Dixon)
Gravação de 1964 incluída no seu 1º álbum "The Rolling Stones"

No intervalo do Chelsea-Manchester United

Uma das consequências da falta de capacidade competitiva da Liga portuguesa desde que a lei Bosman e as televisões globalizaram a indústria futebolística, isto é, desde que esta teve de competir num mercado aberto, não protegido, exportando os melhores talentos e apenas conseguindo importar jogadores de 3ª linha, é que, hoje, muito mais gente em Portugal estará interessada no Chelsea-Manchester United do que no conjunto dos jogos da Liga caseira. Até porque é aí que terá oportunidade de ver em acção os melhores jogadores portugueses. Assim, a crescente popularidade da selecção nos últimos anos não se deve só a Scolari, mas também e muito a esta nova realidade, que Scolari, inteligentemente, se limitou a potenciar.

Uma outra questão que nada tem a ver com esta. Defender tem também a sua técnica, que não passa pela habilidade demonstrada em “dribles” e “fintas”, ou em “chapéus” ao gurda-redes. Com uma deficiente técnica defensiva e também uma falta de convicção na hora do “um para um” (quem jogou rugby, mesmo a brincar, percebe melhor o que estou a dizer), para ganhar a bola, Bosingwa “ofereceu” o golo ao Man. United. Pois é, em Portugal a intensidade de jogo é outra...

37th Ryder Cup - sábado

Depois dos jogos de pares de ontem, "foursomes" (2 1/2-1 1/2) e "fourball" (2-2), a Europa sai hoje para os singulares a perder por 9-7. Como o empate lhe serve (neste caso o actual detentor do troféu mantém a sua posse e a Europa venceu a última edição), terá de conseguir 7 pontos em 12 possíveis, enquanto aos USA bastam 5 1/2. Tarefa muito dífícil, mesmo não estando Tiger Woods na selecção americana, já que tradicionalmente os jogadores deste país têm alguma vantagem nos singulares.

Ver aqui as imagens de ontem.

sábado, setembro 20, 2008

Black Mask(2)

Pinho e Sebastião: apenas uma questão de Manuéis?

Vamos lá ver se nos entendemos. Uma sociedade na qual o ministro Manuel Pinho tem, ou tinha, uma participação vendeu um apartamento ao actual responsável pela Autoridade para a Concorrência. Desde que a transação efectuada de acordo com a lei, não vejo qual o problema, tenha ela sido efectivada antes ou depois das nomeações respectivas. Pela transação, a sociedade integrada pelo ministro Pinho recebeu um adiantamento “na base da confiança”, o que indicia um “favor” prestado por Manuel Sebastião, independentemente do cumprimento integral de questões fiscais que possam ou não estar envolvidas neste procedimento e que devem ser investigadas. Como tudo se passou antes da nomeação deste, pode suspeitar-se das razões que levaram Manuel Pinho a propô-lo como responsável da AdC, podendo a questão “tráfico de influências”, algo que no caso específico me parece impossível de provar, ser com toda a razão equacionada. Apesar dessa dificuldade ou impossibilidade de prova, dada a suspeição e por uma questão ética, o ministro Pinho deveria demitir-se. No caso de Manuel Sebastião, o mesmo deveria acontecer. Não por ter efectuado o adiantamento referido, o que não me parece pôr em causa a sua independência (foi Pinho a ficar em dívida), mas pelas suspeitas de “pagamento de um favor” que passam a toldar a sua nomeação. Prestariam ambos um favor à democracia e o governo de José Sócrates ganharia uma imagem de seriedade acrescida.

Mas o assunto levanta outras questões mais profundas e que julgo pertinentes. Deve o responsável pela AdC, um organismo que faz da independência a sua razão de existência, ser nomeado apenas por iniciativa e decisão governamental? Mais ainda. Toda esta trama indicia um relacionamento próximo, uma amizade entre actual ministro e Manuel Sebastião que já virá de longa data e que julgo incompatível com um relacionamento “saudável” entre os cargos que ocupam. Pergunta: o “Público” e o “CM” conheciam esse relacionamento? Investigaram-no na altura em que o seu conhecimento público poderia ter evitado a nomeação do actual responsável pela AdC? Ou apenas o fazem agora por questões de oportunidade política (de luta política, será mais adequado afirmar) e não jornalísticas, se é que ainda existe uma thin red line a separá-las?
Muitas perguntas...

37th Ryder Cup - ontem

Digamos que 5 1/2 - 2 1/2 para a equipa dos USA (sem Tiger Woods - lesionado), mesmo com o factor casa e o entusiasmo do público a fazerem valer a sua lei, ao fim do primeiro dia não é brilhante - e mesmo assim o 6-2 foi evitado in-extremis. Veremos nos jogos de pares de hoje se e como a Europa consegue "dar a volta" e tentar entrar nos singulares de amanhã pelo menos empatada. Entretanto, veja aqui o resumo do dia de ontem.

sexta-feira, setembro 19, 2008

37th Ryder Cup - Hoje

Depois dos 4 encontros de pares ("foursomes") desta manhã (tarde na Europa) no Valhalla Golf Club, Louisville, Kentucky , as "coisas" estão a ficar feias para a equipa europeia, já que os USA ganharam dois deles e empataram os outros dois. 3-1 é portanto o resultado ao fim da primeira ronda. Veremos se esta tarde (fim de tarde e noite na Europa), nos encontros de "fourball", os europeus conseguem reduzir a desvantagem adiando a decisão para os individuais do fim de semana.

Entretanto, veja aqui o extraordinário putt (pancada no "green" tentando atingir o "buraco") do americano Phil Mickelson no buraco 12, esta manhã.

Les Belles Anglaises (XII)




Lotus Elan (1962-1975)

Hinos Nacionais (5)

Jimi Hendrix - "Stars Spangled Banner" (Hino Nacional Americano)
Em época de radicalismos, de contestação de modelos de sociedade e modos de vida, não admira que isso tenha chegado aos hinos nacionais, no fundo símbolos de um establishement contra o qual se lutava e que se queria ver alterado. Neste caso, a contestação implicava subvertê-lo, adaptando-o a uma nova cultura emergente, a novas formas musicais e a instrumentos-símbolo dessa nova sociedade. A interpretação de Jimi Hendrix de “Stars Spangled Banner”, o hino nacional americano, dada a conhecer “à cidade e ao mundo” em Woodstock (1969), ficará para sempre como o símbolo máximo da contestação aos valores dominantes, subversão no sentido mais simbólico, mas também mais profundo do termo. Marcará também o ponto mais alto dessa “década prodigiosa”. E não apenas pelo estilo de “livre” da interpretação, mas também pela própria imagem de Hendrix, do seu modo de vida e valores a que o associamos, bem como pela simbologia do local, tornado mítico.

De qualquer modo, optei por apresentar uma versão de estúdio dessa mesma interpretação, com melhor qualidade de captação de som embora não perdendo as características da versão de Woodstock. Acrescento que “Stars Spangled Banner” é uma composição de Francis Scott Key (letra) e John Stafford Smith (música), sendo oficialmente o hino dos USA desde 1931.

Ortodoxia ultra-liberal e as próximas eleições

Quando os ortodoxos ultra-liberais reafirmam as suas convicções, contrariando as evidências, estamos a entrar no campo do mais puro e intransigente domínio da fé, algo a que alguns deles, cá do “rectângulo”, não se têm mostrado de todo hostis na sua já longa vida política, desde que a fé era bem outra e os deuses tinham nomes da longínqua China ou da mais próxima Albânia. Não admira, portanto, que em alguns países como os USA ortodoxia ultra-liberal e radicalismo religioso andem frequentemente de mãos dadas, partilhando até “tickets” presidenciais. Por cá, mais modestos e humildes nas consequências, aposto apenas que haverá alguns temas que não serão discutidos nas próximas eleições legislativas, a saber:

  • A privatização da Caixa Geral de Depósitos.
  • A alteração do modelo da Segurança Social, substituindo-o ou complementando-o por um outro baseado em fundos de pensões privados.
  • A eventual reformulação (o que é diferente da sua reforma) progressiva do Serviço Nacional de Saúde, substituindo-o por um sistema privado de seguros.

Ainda bem: mais tempo e espaço fica para o que efectivamente importa! A fé ultra-liberal, essa, por certo continuará, pois, tal como também o PCP, pertence ao domínio do sagrado. Os outros – liberais, sociais-democratas, conservadores – não terão outro remédio senão entender-se ou divergir no governo do profano.

Será que um vírus do "Gato Maltês" infectou José Pacheco Pereira?

Qualquer semelhança entre o "Vírus" de hoje, de José Pacheco Pereira, no RCP, e este post da passada 2ª feira, 15 de Setembro, aqui no "Gato Maltês", do qual reproduzo de seguida um excerto, é seguramente uma feliz coincidência de que este blog, dada a dimensão intelectual de JPP, só se poderá orgulhar.
"Esses hinos têm hoje apenas um valor simbólico institucional (é perfeitamente demagógico identificar no século XXI a adesão aos valores nacionais com saber ou não cantar o hino), servindo fundamentalmente para marcar e definir momentos protocolares, não sendo de admirar que a sua função original lhes seja principalmente restituída pelo desporto, onde no campo, frente a frente, estão os adversários/inimigos que se vão degladiar. É também por isso, e não por serem mais patriotas ou sentirem mais a camisola, que os jogadores da selecção portuguesa de rugby o cantam com tanto entusiasmo. O rugby é um desporto de combate, de conquista de terreno, e o hino funciona aqui como um cântico guerreiro, tal como o “Haka” neo-zelandês."

quinta-feira, setembro 18, 2008

História(s) da Música Popular (100)

The Shirelles - "Baby Its You" (Bacharach, M. David, Williams)

The Beatles - "Baby Its You" (Bacharach, M. David, Williams)

Dave Berry - "Baby Its You" (Bacharach, M. David, Williams)

Burt Bacharach & Hal David (III)

O único tema de Burt Bacharach que os Beatles interpretaram (e mesmo assim sem aquele ter a parceria da Hal David), foi este original das Shirelles e está incluído no álbum “Please, Please Me”, de 1963. O original das Shirelles, o primeiro girls group a ver um tema seu no #1 do Billboard (“Will You Love Me Tomorrow”, de Gerry Goffin e Carole King), esse, é de 1961 – dois anos antes, portanto. Diga-se que o nome de Hal David por vezes também aparece creditado como autor da letra (ou co-autor), talvez porque Mack David seja comprovadamente seu autor juntamente com Barney Williams e daí a confusão entre “Davids”. Assim acontece, por exemplo, no meu CD “Under the Influence”, colectânea de originais americanos que os Beatles também gravaram. Já no álbum “Please, Please Me” a indicação é correcta, embora omitindo o primeiro nome: Bacharach, David, Williams. Até à confusão vai um pequeno passo.

Bom, o tema chegou a #8 na interpretação das Shirelles, de Sherley Owens, grupo formado em New Jersey no ano de 1958, e uma versão “live” dos Beatles viu a luz do dia em 1994 incluída no álbum “Live at The BBC” (não é assim, LT?). Também Cilla Black, que partilhava com os Beatles Brian Epstein como manager, e Dave Berry (o de “Crying Game”) gravaram o tema pouco depois do grupo de Liverpool.

Hinos Nacionais (4)

"God save The Queen" (autores desconhecidos)
Interpretação de Jessye Norman
Única monarquia para aqui chamada e também estado plurinacional (desde o século XVIII) e império, e não tendo na sua história uma ruptura como o “Risorgimento” ou a Revolução Francesa, não admira que “God Save The Queen” centre os seus valores no soberano, símbolo da unidade do país e desse mesmo império, pedindo a Deus, durante séculos fonte de legitimidade monárquica, que o proteja, já que todos sabemos que a sua inexistência ou ausência de sucessor eram dos elementos que mais gravemente punham em causa a independência de um Estado. Por isso mesmo, louva-se o rei/rainha e pede-se tenha longa e gloriosa vida, significando isso também a glória de um povo, aqui entendido sob a forma de “súbditos” (“Long to reign over us” ). Claro que de todos os exemplos até aqui apresentados é aquele cuja forma musical mais se aproxima de um hino religioso, não só porque quem o canta se dirige a Deus, como porque a sua legitimidade aí reside, sendo também o soberano, ele próprio, chefe da Igreja Anglicana.

A interpretação aqui apresentada é a da soprano americana Jessye Norman.

Constança Cunha e Sá, o casamento homossexual e o PS

Ao comparar, hoje no “Público”, a proclamação de Manuela Ferreira Leite sobre a procriação como fim último no casamento e a decisão do PS de impor a disciplina de vota (contra) na votação próxima na Assembleia da República de uma proposta do BE sobre o casamento homossexual, Constança Cunha e Sá está, no mínimo, a ser intelectualmente desonesta, já que não ouso utilizar um qualquer outro qualificativo. Em primeiro lugar, porque o casamento heterossexual não impõe necessariamente a procriação ou a assume implicitamente. Aliás, demonstram as estatísticas que os casais portugueses cada vez procriam menos. Em segundo lugar, e bem mais importante, a afirmação de MFL corresponde a uma posição de princípio, enunciada em termos gerais e abstractos, enquanto no caso do PS o que está em causa é algo real e concreto, a sua oposição a uma determinada proposta em um determinado momento (político, acrescente-se). Nada em qualquer afirmação de um dirigente ou orgão político do partido permite concluir uma oposição de princípio ao “princípio” (passe o pleonasmo), antes pelo contrário. O que está neste momento em causa é apenas uma questão de oportunidade política, não pretendendo o PS abrir uma nova frente de potencial conflito com a Presidência da República ou arriscar-se a criar divisões na sua própria base de apoio eleitoral, preferindo esperar mais um ano e agendar o assunto para a próxima legislatura. É uma opção inteligente. Bem mais inteligente, digamos, do que as afirmações de Constança Cunha e Sá.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Roger Corman classics (19)

"Machine Gun Kelly" (1958)

Hinos Nacionais (3)

Hino do Brasil (Francisco Manuel da Silva-Joaquim Estrada).
Interpretação de Fafá de Belém
Um hino nacional como o do Brasil, colónia que chegou a ser metrópole e cuja independência foi conseguida por intervenção directa da própria Casa Real reinante, não poderá deixar de reflectir esse facto, bem como um outro de ser país de imigrantes. Não admira, portanto, que o tom belicista e marcial esteja quase completamente ausente, dando lugar a um certo lirismo e a um tom melódico que canta a fundação, a liberdade e as belezas naturais de uma terra de acolhimento e esperança. De oportunidade e de amor a um novo mundo. Daí que esta versão intimista de Fafá de Belém, apenas com acompanhamento ao piano, seja a minha preferida, por ser nela que mais se evidenciam essas características de um certo romantismo. Quase com se de um lied se tratasse.

A música foi composta logo em 1822 por Francisco Manuel da Silva e a letra actual é de Joaquim Estrada, escrita em 1922 data em que o hino se tornou digamos que oficioso, pois apenas desde 1971 é considerado “oficial”.

Preço dos combustíveis: e o lado da procura?

Resisti enquanto pude ao Fórum TSF de hoje, sobre o preço dos combustíveis, o suficiente para constatar algo que me parece interessante: todos os intervenientes não institucionais tentavam modificar o comportamento das empresas petrolíferas, não tendo ouvido nenhum deles (enquanto resisti, admito) falar do que tinha feito ou iria fazer para modificar o seu. A conclusão mais directa a tirar é de que não existe uma verdadeira concorrência ao consumo privado de gasolina e gasóleo, o que torna a procura destes produtos demasiado rígida, reagindo pouco ou nada às variações de preço, o que tem como consequência o aparecimento de práticas monopolistas ao nível da oferta. E isto acontece quer por questões materiais quer emocionais, não constituindo assim os transportes públicos, o “andar a pé”, a bicicleta, a partilha de meios de transporte privados, etc, uma verdadeira alternativa concorrencial que leve os indivíduos a alterar os seus hábitos de consumo. Sublinho, por razões materiais, que têm que ver com o modelo de desenvolvimento, mas muito, também, por razões emocionais, geradas pelos valores que lhe estão associados. Este é, de facto, um importante elemento estrutural de distorção do mercado, por definição algo incapaz de ser modificado no curto prazo.

Outra questão é que, mesmo num regime de preços livres, não estamos perante um bem em que várias marcas vendam os seus produtos, a preços diferenciados, no mesmo local; não estamos perante algo que se venda na prateleira do supermercado e cuja decisão do consumidor seja tomada nesse mesmo espaço perante o leque de opções oferecido. Optar pelo fornecedor “A” em vez do fornecedor “B” exige uma deslocação, que consome tempo e custa dinheiro, implica planeamento e mudança de hábitos, sendo a diferença medida por poucos cêntimo por litro, o que contribui para criar a ilusão (ou a convicção) de que “não vale a pena”. Estamos, uma vez mais, num terreno em que as emoções ocupam um espaço importante. Um exemplo deste caso é dado pelo preço dos combustíveis nas auto-estradas, mais elevado na generalidade dos países europeus, já que é assumido ninguém se dará ao trabalho de sair dessa mesma auto-estrada para meter gasolina ou gasóleo. Quando essa diferença de preço se acentua, em regiões fronteiriças, a concorrência entre fornecedores tende de facto a funcionar, pois essa ilusão (de que não vale a “maçada”) desvanece-se perante a evidência.

Isto não significa, claro está, que não existam distorções à concorrência do lado da oferta, chamem-se elas cartelização ou quaisquer outras, mas sim que talvez seja tempo de, em vez de clamar apenas pela solução fácil da fixação governamental dos preços, procurar também resolver, pelo lado da procura, alguns dos problemas que afectam o normal funcionamento do mercado. Eis um campo onde o Estado pode ter um papel bem importante.

terça-feira, setembro 16, 2008

Absolut Ads - Seven Deadly Sins (4)


O discurso do PR no Supremo Tribunal

A propósito do discurso do Presidente da República na cerimónia comemorativa dos 175 anos do Supremo Tribunal de Justiça, que subscrevo top to bottom sem qualquer hesitação, repito um post recente e bem a propósito, publicado no dia 3 de Setembro último.

"Por alguma razão os julgamentos adoptam um certo ritual e não se realizam, por exemplo, sentando todos os intervenientes à volta de uma mesa redonda, cada um pedindo a palavra quando lhe aprouver. A disposição da sala está sujeita a um planeamento pré-definido, concedendo aos juizes, que administram a justiça em nome do Estado, única entidade que o pode fazer, um lugar de proeminência face a todos os outros intervenientes; sujeitando estes e advogados a um dress code específico (“toga” e “”beca”); todos os presentes a um grau elevado de decoro e respeito, que vai desde as formas de tratamento à ocasião própria para usar da palavra passando pela atitude de respeito, levantando-se, quando se inicia e encerra a sessão com a entrada e saída dos juizes, etc, etc. Tudo isto não acontece por acaso ou meramente por tradição, mas no sentido de conceder solenidade a um acto em que o Estado administra justiça em nome de todos os cidadãos, podendo dispor, em nome desses mesmos cidadãos, de todos nós, do indivíduo, da sua liberdade, do seu património, julgando da licitude ou ilicitude dos actos praticados.

Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.

Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?

Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham."

Hinos Nacionais (2)

"Hino Nacional Italiano" (Goffredo Mameli- Michele Novaro). Interpretação da orquestra e coro de André Rieu
É comum considerar-se a “Marselhesa” como o arquétipo do hino nacional revolucionário, enquanto produto da Revolução Francesa e sendo esta a referência das lutas “pelo estado de todo um povo”, contra a “opressão” do ancien régime, do domínio aristocrático. Não deixa de ser verdade, mas existe um outro – pelo menos –, o italiano, bem conhecido quanto mais não seja dos estádios de futebol, que muito dele se aproxima no seu espírito, sendo que aqui a luta contra a “opressão” exercida pelo poder aristocrático está subordinada a algo que neste caso era crucial para a emancipação burguesa e, em certa medida, popular: a formação do estado nacional italiano (“Fratelli d'Italia, l'Italia s'è desta”). Por isso mesmo, abundam as referências ao passado glorioso do império romano, a Cipião Africano (o vencedor das Guerras Púnicas contra Cartago, rival da plena expressão do poderio romano no mediterrâneo), às "coortes" que substituem os batalhões da Marselhesa (“Formez vos bataillons!”), mas o mesmo espírito guerreiro e disponibilidade para morrer por uma causa patriótica (“L’Italia chiamò!") estão também bem presentes. Do ponto de vista musical, o que é extremamente curioso é que opõe um certo espírito de “festa”, de alegria de canção popular ou de coro de uma ópera de Verdi, ao ar marcial mais marcado da “Marselhesa”, o que pode não deixar de reflectir as idiossincrasias de cada um dos povos. Musicalmente, é talvez o meu favorito.

A letra do hino foi escrita em 1847 por Goffredo Mameli (é também conhecido como “Hino de Mameli”) no período que precedeu a guerra contra a Áustria tão bem descrita por Luchino Visconti no seu genial “Senso” e que culminou na unificação italiana (Risorgimento) em 1860. A música é de Michele Novaro. A interpretação aqui apresentada, que exprime bem o acima referido ar de festa popular, é da orquestra e coro de André Rieu. Só foi adoptado como Hino Nacional em 1946, depois da vitória da república no referendo com a subsequente abdicação de Victor Emmanuel III e da Casa de Sabóia.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A 37ª edição da Ryder Cup

Começa amanhã e prolonga-se até domingo, no Valhalla Golf Club, Louisville, Kentuky, a 37ª edição da Ryder Cup, talvez o 3º evento desportivo mais importante do ano depois do Europeu de futebol e dos Jogos Olímpicos. E, no entanto, é algo que passa quase completamente ao lado dos portugueses, apesar da habitual transmissão em directo da Sport TV. Na Ryder Cup, que se realiza de dois em dois anos alternadamente na Europa e nos USA, a selecção da Europa defronta a sua congénere dos USA na modalidade de golf. Cada equipa é composta por 12 elementos e o encontro joga-se na modalidade de "match play", isto é, ganha cada jogo, marcando um ponto (em caso de empate o ponto é dividido), o jogador ou equipa que ganhar ao seu oponente directo um maior número dos 18 “buracos” do campo, jogando individualmente (um europeu contra um americano), em “foursomes” (uma equipa de 2 europeus contra a sua oponente americana, tendo cada equipa uma bola que é jogada alternadamente pelos seus dois membros) e "fourball" (idem, mas tendo cada equipa uma bola por jogador). O “Gato Maltês” teve a felicidade de estar entre os mais de oitenta mil espectadores que assistiram ao vivo à edição de 1991, disputada no Ocean Course, Kiawah Island, Carolina do Sul. Inesquecível, apesar da Europa ter perdido por uma unha negra (14 ½ -13 ½). Este fim de semana estará “vidrado” na Sport TV e recomenda vivamente a quem ache que o golf é uma “chatice”. E, claro, torcerá ferozmente pela Europa, este ano capitaneada por Nick Faldo e actual detentora do troféu.

Hinos nacionais (1)

Joseph Haydn - Kaiser Quartet, 2º andamento. Tema no qual se baseia "Das Lied der Deutschen", Hino Nacional da Alemanha.
Os hinos nacionais, ao contrário do que alguns pensam, não existiram nem sempre nem desde há muitos anos. Eles foram, isso sim, produto da época de nascimento dos estados-nação, no século XIX, quando, por via da ascensão ao poder das diversas burguesias nacionais, se tornou necessário substituir a lealdade ao rei ou ao seu “senhor” por uma entidade mítica que aglutinasse todo um “povo”, toda uma “nação”: a pátria. Por isso, não admira que muitos dos hinos nacionais tenham sido gerados nessa época, mesmo que só mais tarde tivessem sido adoptados como símbolo do estado-nação, e reflictam, pelo seu carácter belicista e expressão de um nacionalismo exacerbado, o espírito da época, marcado pelas lutas de emancipação nacional. É assim, por exemplo, com a “Marselhesa”, com a “Portuguesa”, dela decalcada e composta a propósito do “ultimato inglês” sobre a questão colonial (ter colónias era então algo considerado essencial ao poderio de uma nação, à afirmação nacional), com o actual hino italiano, composto durante o “Rissorgimento” como símbolo da ideia de Itália (“perché non siam popolo, perché siam divisi”, canta-se.). Por alguma razão, em estados plurinacionais como a Espanha, o hino nacional é muitas vezes mais factor de divisão do que de união, significando para as nações que aspiram à autonomia ou independência uma ideia de opressão. Mesmo no caso do “God save the Queen”, também o hino de estados independentes pertencentes à "Commonwealth" tais como o Canadá e a Austrália (a rainha de Inglaterra é o chefe de estado de ambos), os valores belicistas estão longe de estar ausentes, pois nele não deixa de se pedir “send him/her victorious”. Esses hinos têm hoje apenas um valor simbólico institucional (é perfeitamente demagógico identificar no século XXI a adesão aos valores nacionais com saber ou não cantar o hino), servindo fundamentalmente para marcar e definir momentos protocolares, não sendo de admirar que a sua função original lhes seja principalmente restituída pelo desporto, onde no campo, frente a frente, estão os adversários/inimigos que se vão degladiar. É também por isso, e não por serem mais patriotas ou sentirem mais a camisola, que os jogadores da selecção portuguesa de rugby o cantam com tanto entusiasmo. O rugby é um desporto de combate, de conquista de terreno, e o hino funciona aqui como um cântico guerreiro, tal como o “Haka” neo-zelandês.

Bom, tendo dito isto existem alguns hinos nacionais que, dentro do género, são peças musicais estimáveis, sendo igualmente conhecidas algumas interpretações que se tornaram de referência ou incontornáveis por vários motivos, nem sempre os melhores no que à sua função original dizia respeito. O “Gato Maltês” propõe, por isso, durante esta semana, um pequeno percurso por cinco deles, dos mais conhecidos e que se situam, certamente, entre aqueles que mais gosta, sempre procurando apresentar algumas interpretações dentro do conceito acima expresso. Para começar, não propriamente um hino, mas o 2º andamento do quarteto do Imperador (Kaiser Quartet), de Joseph Haydn, em cujo tema se baseia “Das Lied der Deutschen” (a Canção dos Alemães”), hino nacional alemão que por algumas vicissitudes passou na atribulada vida da Alemanha do século XX.

Roger Corman classics (18)

"War of the Satellites" (1958)

domingo, setembro 14, 2008

Paulo Catarro e a mãe de Cristiano Ronaldo

Ontem, na RTP, a mãe de Cristiano Ronaldo deu uma autêntica lição de dignidade a um sempre medíocre Paulo Catarro. Interrogada sobre o prémio que o seu filho acabava de receber, a Srª Dona Dolores Aveiro (e não apenas “dona” como insistiu em chamar-lhe Paulo Catarro utilizando um brasileirismo despropositado que parece ter-se tornado norma – será que não ensinam estas coisas na TV?), de origem humilde e com uma formação escolar por certo limitada, como se sabe e reconhece pelas imagens, foi de uma contenção e de uma sobriedade exemplares, dizendo o essencial sem qualquer espécie de deslumbramento perante um mundo que somente se lhe abriu há bem pouco tempo. Uma lição de boa educação e "saber estar" para quem estiver interessado ou na disposição de aprender.

Willie Dixon's Blues Dixonary (9)

Muddy Waters - "Don't Go No Further" (Willie Dixon)
Muddy Waters - Vocals & Guitar
Little Walter - Harmonica
Jimmy Rogers - Guitar
Otis Spann - Piano
Willie Dixon - Bass
Francis Clay - Drums
Gravação de Julho de 1956

Doors - "Don't Go No Further " (Willie Dixon)

sábado, setembro 13, 2008

"Lucy in the Sky with Diamonds" (19)

Moby Grape Dance Concert: The Charlatans, February 24, Friday 25 Saturday/ Avalon Ballroom,
Sutter at Van Ness, San Francisco; lights, Van Meter + Hillyard. 1967

Notas, classificações e um sábado à tarde

Se há coisa que eu tenho dificuldade em entender nos portugueses e Portugal é que sendo, por excelência, um país de mal-dizentes e insatisfeitos, críticos sem quartel (e eu acho têm boa razão para o ser), quando toca a classificações e notas são uns mãos-largas sem rigor, distribuindo-as sem qualquer espécie de parcimónia em valores que parecem querer significar excelência. Primeiro criticam, dizem cobras e lagartos, afirmam o que o Conde Drácula (o dos filmes da Hammer, não o verdadeiro) se terá esquecido de dizer do crucifixo ou de uma dúzia de résteas de alhos, mas depois, quando pensamos virá para aí um 5 (em 20) arrancam com um doze, a mesma nota que nos meus já longínquos anos de universitário me foi presenteada pelo actual PR, e com a qual, dado o rigor de apreciação tradicional da personagem, me dei por bem satisfeito e honrado.
Mas penso isto das notas altas é história bem mais recente, já que nos meus anos de Liceu um 14 ou um 15 só estavam ao alcance de bons alunos (17 ou 18 tinham os excepcionais) e na universidade poucas ou raras vezes subi acima do 14, sendo que a moda estatística era normalmente bem abaixo. Neste último caso, 17 ou 18 eram para as avis raras...

Mas comecei a verificar as coisas eram diferentes quando o “Professor Marcelo” zurzia na TSF, e depois de deixar alguém mais de rastos que uma cascavel pronta a morder ainda encontrava maneira de lhe oferecer um 12. Mais tarde, aqui há bem poucos anos, esta minha mania de que notas e classificações eram recurso escasso a distribuir parcimoniosamente quase me fez passar por situação achincalhante. O caso conta-se em poucas palavras. Tendo decidido a empresa onde então trabalhava admitir duas estudantes universitárias para um estágio curricular, havia que lhes dar uma nota e comunicá-la à universidade respectiva. Sorte a minha, a dita estagiária que me calhou na dita "sorte" (aqui bem se aplica) era pessoa competente, profissionalmente cumpridora, inteligência que prenunciava uma futura carreira profissional sem grandes problemas. Quando me perguntaram que nota propunha achei 15 seria merecido. Revolta no escritório: 14 tinha sido a nota que colega meu tinha dado a uma outra estagiária, reconhecidamente pessoa de méritos pouco acima do medíocre, o que me “obrigou” a rever a nota para um, achei, muito exagerado 17. Não falo já das notas atribuídas aos jogadores de futebol pelos jornais desportivos, já que aqui outros interesses se revelam, mas, por exemplo, das atribuídas pelos críticos de vinhos aos ditos. Devo dizer, pessoa avisada, que cá por casa não entra, por princípio, nada inferior a 15,5 ou a 5,5 na escala de 0 a 8. São o meu suficiente menos, e bem se encontram por aí vinhos nessas contas a preços até 5€.

Mas pronto, o que português gosta mesmo é de dizer mal, das “verónicas” e “chicuelinas”, talvez alguns “derechazos”, mas quando chega a hora da “sorte suprema”, frente a frente com o cornúpeto, onde se vê quem os... (pi), aí é que a porca torce ainda mais o rabo! Pois se até o boi está embolado e lhe serraram os cornos!

quinta-feira, setembro 11, 2008

Grandes Séries (27)

"Judge John Deed "
A BBC Prime está a repor desde o passado sábado, com periodicidade semanal, mais uma “temporada” de uma das melhores séries de tribunal que conheço: “Judge John Deed". Passa, como disse, todos os sábados às 20h, com repetição do episódio à 1h da manhã do dia seguinte. Legendas em inglês, o que sempre ajuda, disponíveis através do teletexto 888 (sem acesso através da “powerbox” – deve aceder directamente). Uma bem interessante Jenny Seagrove também contribui para o tempo bem empregue. Igualmente no próximo sábado, a partir das 21.30h, logo após o episódio de “Judge John Deed”, uma excelente mini-série policial, como só a BBC as sabe produzir, com o mesmo actor (Martin Shaw) como protagonista no papel de um inspector da polícia: “The Murder Room”. Depois não digam que não avisei...

Fica uma sinopse sobre “Judge John Deed” retirada da informação da BBC Prime, bem como "trailer" da série. Divirtam-se.

“Created by one of Britain’s most eminent writers, Judge John Deed is compelling television with a charismatic central figure, strong storylines and a tremendous cast. The series aired to great success in Britain, with audiences just below the soaps and beating many popular long-running series in the ratings.
An idealist at heart, the Judge’s more traditional colleagues regard him as something of a renegade. He’s made it to the top of his profession on his own terms, armed with a sharp intellect, a rakish charm, keen wit and passionate belief in justice. Fearless and independent, he is sworn to serve state and sovereign, not the government hacks that constantly try to influence his decisions.
In the first episode, Deed must deal with corruption within the jury, the suspected murder of a barrister and a case connected to a lucrative Government deal with a foreign country during which finalising the contract seems to some more important than seeing justice is done.
Subsequent episodes raise other important questions of justice: a man with the mental age of 13 on trial for murder; the uncovering of a massive mortgage fraud perpetrated by lawyers with the connivance of a judge; children accused of conspiring to murder their parents; and the rights of a 15-year-old boy refusing a heart transplant.
There are problems too away from the courtroom: his tempestuous relationships with Jo Mills and the Rochesters; his student daughter’s pregnancy by a married tutor; and his ex-wife’s engagement to Cabinet Minister Neil Haughton, a man with whom Deed is destined not to see eye to eye.”

Anglophilia (50)




Swaine, Adeney, Brigg & Sons umbrellas

Ainda a esquadra de Portimão

Tendo em atenção o que por aí se ouve, e não é só nos táxis, alguém responsável deveria tratar de explicar aos portugueses que a prisão preventiva é uma medida de coacção, e não pena ditada por condenação com trânsito em julgado. Assim sendo, os presos preventivos são cidadãos inocentes, que virão a ser ou não condenados pelos tribunais, justa ou injustamente, mediante julgamento, e a prisão preventiva apenas se justifica em caso de perigo de reincidência ou continuação da actividade criminosa, obstrução às investigações, forte suspeita de fuga, etc, etc. Uma pergunta: no caso dos acontecimentos ocorridos na esquadra da PSP de Portimão algum destes pressupostos se verifica? Sem estar por dentro do caso e sem ser jurista, apenas pelo que oiço e leio, quer-me bem parecer que não e, assim sendo, penso que o autor dos disparos terá todas as condições para aguardar julgamento em liberdade.

Roger Corman classics (17)

"I Mobster" (1958)

Queiroz e Scolari a propósito de uma derrota

Se algo não me agradava em Scolari era o seu populismo sul-americano, das bandeiras à janela e dos banhos de multidão, com Roberto Leal e tudo, à mistura com uma religiosidade primitiva paredes meias com a crendice. O futebol sofrido da selecção era um pouco expressão de tudo isso, espelho de uma personalidade assim vivida por quem sempre terá considerado o sucesso e as conquistas como uma luta contra o destino, como algo contra-natura. Mas, nos antípodas, confesso que a total falta de carisma do seleccionador Carlos Queiroz, uma certa ausência expressa de espírito de conquista que transcenda o valor circunstancial das palavras, um "tanto me faz" que acredito não sinta mas não consegue evitar transmitir, me deixam com algumas saudades. É que – acho – foi com Scolari, talvez não em seu favor mas contra os seus e meus inimigos, que finalmente encontrei um forte motivo para torcer pela selecção portuguesa.

Nota: os 2-3 de ontem não deixaram de me fazer recordar os 3-6 que deram o penúltimo título de campeão ao meu SLB. Demasiadas coincidências ou apenas e só as saudades?...

quarta-feira, setembro 10, 2008

História(s) da Música Popular (99)

The Drifters - "Please Stay" (Burt Bacharach-Bob Hilliard)
Burt Bacharach & Hal David (2)
“Please Stay” está longe de ser um dos meus temas favoritos dos Drifters, mas, depois de uma época pela Alemanha colaborando com Marlene Dietrich e dirigindo a orquestra que a acompanhava, foi este o primeiro êxito maior de Burt Bacharach quando do seu regresso aos USA, pelos idos de 1961, e começou a colaborar com as gentes do Brill Building. Devo dizer, e no que aos Drifters diz respeito, que desta época, já com Rudy Lewis como vocalista, prefiro de longe temas como “Up on the Roof” ou até mesmo “On Broadway”. Mas história é história e há que respeitá-la, mesmo quando nos desagrada. Curiosamente, “Please Stay” não foi escrito de parceria com Hal David mas sim com Bob Hilliard, e foi através dos Drifters que Bacharach chegaria ao grande amor (musical, entenda-se) da sua vida: Dionne Warwick. Mas isso é mesmo outra história, dos tempos mais bem sucedidos de Bacharach e David que envolverão gente como as Shirelles (e os Beatles, claro), Gene Pitney, Jackie DeShannon, Marianne Faithful, Dusty Springfield, Walker Brothers, Billy J. Kramer e, até (com especial atenção a VdeAlmeida), Alan Price por via de um quase desconhecido Chuck Jackson. Ele é esperar para ver!

Onde se fala do país a propósito da selecção de futebol de "sub-21"

Portugal, qual pobre subitamente endinheirado e cujo verniz não é suficiente para não deixar de denunciar as origens, tem vivido nos últimos anos sob um certo síndroma de novo-riquismo, pretendendo, tal como qualquer membro da sociedade emergente que se preze, mostrar que “tem”, que “pode”. Claro que, como em todas as situações do género, o resultado é quase sempre desastroso, faltando-lhe, como dizia o bom do Eça, as "basesinhas", o berço, a “patine”. Acreditemos que virá com o tempo, como sempre nestas circunstâncias acaba por se verificar, já que assim também aconteceu no passado.

Nessa ânsia de se mostrar, o desporto e os recordes têm frequentemente assumido o papel que na sociedade afluente cabe aos carros espampanantes, à roupa de marca, aos condomínios “ditos” de luxo, ao Dom Pérignon e às férias exóticas. Épater le bourgeois é objectivo primeiro, mesmo que os únicos que se deixem, de facto, entusiasmar com tal trompe d’oeil sejam eles próprios e os que com eles partilham alguma similitude. Mas adiante.

Primeiro, ainda no tempo em que o país era “pobre, pobre”, foi o hóquei em patins, desporto desconhecido no mundo e jogado por veraneantes em recreio pelos lados de Herne Bay e Montreux, das praias da Catalunha, transformado em “hóquei patriótico” por obra e graça do chico-espertismo nacional e dos interesses da ditadura. Teve a sua época e por lá se ficou nas “brumas da memória”. Depois, já o país assomava à porta do dinheiro fácil, foram os recordes do Guiness, enquanto o futebol juvenil, pela mão de Carlos Queiroz, conquistava o lugar de símbolo do orgulho pátrio dantes ocupado pelo hóquei em patins das pelejas ibéricas. Espero – espero mesmo – que o mesmo não se esteja a passar com a "medalhite" aguda dos Jogos Paralímpicos. Seria demasiado cruel.

Mas voltemos ao futebol juvenil e às razões pelas quais a selecção de futebol de sub-21 se mostra avessa a igualar, ou aproximar-se, das suas irmãs mais novas, e veremos como este longo intróito não está aqui por acaso. O que Carlos Queiroz e a FPF fizeram nos idos de oitenta e noventa não foi muito diferente, ou muito mais, do que, por via de estágios prolongados que chegavam a retirar os jogadores aos clubes durante meio ano, realizaram alguns países sul-americanos e africanos: levar esses jogadores, por via de um profissionalismo assumido na adolescência, a atingir a sua maturidade futebolística mais cedo, retirando daí vantagens competitivas face aos seus congéneres europeus nas competições juvenis. Por alguma razão, se consultarmos as listas de vencedores das competições mundiais de selecções jovens facilmente encontramos como vencedores e finalistas países que estão longe de ser potências reconhecidas no futebol sénior, e dificilmente de lá constarão países como a Alemanha, por exemplo. Quando finalmente chegam à idade sénior (muitos dos jogadores das selecções sub-21 têm, na realidade, 22 e 23 anos), os atletas já têm um contrato profissional, jogam nos respectivos clubes, não sendo mais possível realizar o mesmo tipo de estágios, e a maturidade dos seus colegas europeus, programada para ser atingida já na idade adulta, está agora já equiparada. Para mais, alguns deles, mesmo que em equipas pequenas, jogam com regularidade em campeonatos de futebol bem mais “rasgadinho”, não sendo suplentes do Inter ou da Fiorentina, o que ajuda a fazer a diferença em termos de ritmo e interpretação do jogo. O resultado é uma maior dificuldade competitiva desta selecção face às mais jovens, mais dependente da forma e da qualidade extra de alguns jogadores, dos seus ups and downs competitivos; da “fornada”, como dizem os jornalistas desportivos. Drama? Nenhum, se considerarmos as selecções de jovens como categorias de formação e não como salvadoras da pátria. Não como badge brands para se mostrar que também se “pode” e “tem”.

terça-feira, setembro 09, 2008

Reparo à TVI

Alguém pode explicar ao comentador de serviço da TVI ao Portugal-República da Irlanda em futebol (sub-21) que os irlandeses não são britânicos?

Roger Corman classics (16)

"Saga of the Viking Women and Their Voyage to the Waters of the Great Sea Serpent" (1957)

Quem pede responsabilidades à PSP?

Perante esta notícia do “Público”, e enquanto cidadão deste país, tenho todo o direito de saber que responsabilidades irão ser pedidas pelo Ministro da Administração Interna e pela Direcção Geral da PSP ao comando e hierarquia desta polícia em Portimão, pelo facto de terem permitido que alguém entrasse armado numa esquadra e andasse por lá aos tiros. Mais ainda, gostaria de saber que indemnização irá ser paga pelo estado português ao indivíduo atingido, se sobriviver, ou respectiva família, e se essa mesma verba irá sair do orçamento da PSP, como penso seria justo.

É que não basta pedir mais meios (dinheiro, policias, armas, etc). Não basta pedir leis mais repressivas e carta branca para esquecer, por uns momentos e quando dá jeito, esse “pequeno empecilho” à actuação das forças policiais que dá pelo nome de estado de direito democrático com os respectivos direitos, liberdades e garantias do cidadão. Também não basta pressionar os juizes e tribunais. Por último, não basta pedir autorização para disparar por “dá cá aquela palha”. É preciso também provar saber cumprir com os seus deveres, o que passa por ter uma organização adequada e saber gerir, de acordo com as leis da República, os meios e recursos colocados pela sociedade ao seu dispor para assegurar a segurança de todos. Pelo menos dentro de uma esquadra, por favor!

"Nunca é tarde para aprender", ou José Pacheco Pereira e a WWII

Ao afirmar, citando o livro de Norman Davies “Europe At War”, que a WWII, na Europa, “se perdeu e ganhou no confronto entre a Alemanha nazi e a URSS de Stalin” o que coloca em segundo plano a “visão da guerra como uma luta entre os estados democráticos e o totalitarismo nazi”, Pacheco Pereira tem de facto alguma razão, pese embora esta afirmação contenha em si mesma alguma desvalorização, de natureza ideológica, do papel das democracias, o que me parece pouco ou nada inocente. Se a “Grande Guerra” foi uma guerra entre impérios (dadas as ligações familiares entre as casas reinantes europeias há quem lhe chame um problema de “partilhas”), a WWII foi essencialmente uma guerra por zonas de influência. Basicamente, foi isso mesmo que conduziu à declaração de guerra à Alemanha nazi quando da invasão do semi-feudal e camponesa Polónia e à passividade relativa de França e UK perante a anexação da democrática, progressiva e industrializada Checoslováquia. Mas JPP subvaloriza aqui duas questões que reputo importantes, quando não mesmo essenciais. A primeira é que sendo a França, o Reino Unido e os USA estados democráticos, em face dessa sua natureza, e pelo menos subsidiariamente, a guerra também se travou, a ocidente, entre democracias e a Alemanha nazi, e é esse modelo de sociedade, liberal e democrático, implantado nas suas zonas de influência, que irá contribuir, mais tarde, por contraste e por via sua capacidade de atracção, para a queda das ditaduras, tanto a ocidente (Península Ibérica) como a leste. Portanto, se a guerra só foi definitivamente ganha em 1989, afirmação com a qual concordo, os alicerces dessa vitória foram efectivamente escavados pelas democracias em 1939 e, depois, em 1942 e1945.

Outra questão tem a ver com o facto de, como escreve JPP, “quando o primeiro soldado americano colocou os pés no extremo sul do continente, na Sícilia, já o exército alemão perdera toda a capacidade ofensiva face aos soviéticos, ou seja, já tinha, para todos os efeitos, perdido a guerra”. Uma incontestável verdade. Mas JPP esquece que muito antes do desembarque na Sicília (Julho de 1943) já tinha existido Al Alamein (Outubro/Novembro de 1942), essencial para impedir o acesso alemão ao petróleo do médio-oriente e com tremendo efeito moralizador nos britânicos (é a sua primeira vitória). Não refere também que a efectiva contra-ofensiva soviética no leste, depois da rendição de Von Paulus em Estalinegrado no final de Janeiro de 1943 e de o exército vermelho ter impedido o avanço nazi sobre o Cáucaso e, assim, o acesso às respectivas jazidas petrolíferas, teve essencialmente lugar a partir de Janeiro/Fevereiro de 1943, também já depois da vitória britânica em Al Alamein...

Nada disto serve para desvalorizar a importância da guerra a leste para a derrota nazi ou para pôr em causa, no seu todo, a teoria de JPP. O objectivo é apenas introduzir mais alguns dados que possam contribuir para uma percepção mais rigorosa dos acontecimentos que moldaram a Europa dos últimos 60 ou 70 anos. De qualquer modo, a Alemanha de Hitler acaba por perder a guerra quando “deixa de ser quem era”, ou seja, quando as suas forças armadas, concebidas e organizadas para a blitzkrieg, se envolvem numa guerra prolongada para a qual não estavam preparadas, nunca teriam recursos e, por isso, nunca poderiam vencer.

Les Belles Anglaises (XI)






Triumph TR4 (1961-1965)